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domingo, 15 de junho de 2014

Os Segredos de Jacinta - Cristina Torrão


Sinopse:
Os anos entre 1138 e 1147 foram decisivos para a formação do reino de Portugal, acontecimentos como a Batalha de Ourique, o casamento de D. Afonso Henriques e a Conquista de Lisboa influenciaram igualmente a vida dos mais humildes, que foram afinal os primeiros portugueses da História.
Jacinta, a personagem principal deste romance, é uma dessas pessoas.
Seguindo o percurso desta jovem, o leitor é introduzido na forma de vida do século XII, em que virtude e pecado andavam lado a lado, sendo ténue a fronteira entre o aceitamento e a maldição. Quem não se conformava com as normas caía facilmente na marginalidade.
«E porque haveria de consentir no nascimento de uma criança que seria igualmente alvo da crueldade daquela gente?
Jacinta cerrou as mãos em punho, por baixo da mesa, ao surgir do pensamento que a assustava. Sabia que havia guisas de evitar que uma criança nascesse. E que a bruxa do Serro do Cão era sábia nesses procedimentos…»
Violação, aborto, adultério, bruxaria e prostituição são algumas das situações em que Jacinta se vê enredada, enquanto a História de um condado feito reino segue o seu curso. 

Comentário:
Tal como nas suas obras anteriores, também neste livro, Cristina Torrão leva-nos pela mão a um passeio pelo Portugal Medieval com todos os seus encantos e terrores. Mais do que a conturbada situação política e militar da época, está em cena o enquadramento mental, social e moral desse período, salpicado por descrições objetivas e agradáveis dos usos e costumes da época.
Não se pense, no entanto, que este é um livro apenas sobre o século XII; o que está em causa é muito mais que a formação de Portugal; é a formação da mentalidade portuguesa, com todos os vícios e qualidades com que hoje nos identificamos: a bondade natural do nosso povo, uma certa ingenuidade que tanto conduz à solidariedade como à fácil assunção de comportamentos e atitudes ditadas pela pressão social dos grupos privilegiados; em suma, é a construção do nosso quadro mental que está em jogo neste livro.
Os usos e costumes da época são precisamente apresentados como testemunho deste quadro mental. Por exemplo, as festas populares são momentos de profunda religiosidade, de humilde submissão aos ditames da santa madre igreja, ao mesmo tempo que são ocasião para as mais profanas diversões, onde tudo funciona como uma catarse social face ao rígido quadro de valores imposto pela moral cristã que mais não é que uma forma de submissão do povo aos ditames do poder. A festa religiosa tal como nos é descrita neste livro assume portanto um caráter ambivalente onde a religiosidade tem o seu contraponto na extroversão de atitudes mentais reprimidas.
Ao contrário do que acontece nos livros anteriores da autora, o acento tónico é colocado no povo, enquadrado numa sociedade de ordens fortemente estratificada. No topo da pirâmide, o alto clero, que rodeia o poder político e o condiciona. Ao lado desta elite eclesiástica, os fidalgos, a nobreza terratenente que nasceu da elite guerreira constituída pelos líderes dos exércitos cristãos, compensados, também eles, pelo poder político pela doação de terras. Por outro lado, o povo é constituído por uma maioria de pobres vivendo do trabalho agrícola nas terras dos “filhos de algo”, os nobres, e por uma minoria de pequenos proprietários como Ataúlfo, o pai de Jacinta.
A rigidez desta sociedade, bem como o conservadorismo extremo que a sua manutenção implicava, conduz a maioria da população a um estado de miséria social e, por outro lado, à manutenção de um quadro mental fundado sobre a ignorância e o preconceito. Portanto, a vida conturbada de Jacinta, o esmagamento da sua personalidade enquanto mulher e ser humano tem muito menos a ver com as precárias condições de vida do que com esse quadro mental de obscurantismo e preconceito, funcionando como verdadeiros alicerces de um quadro social que se pretende cimentar.
Um dos temas fundamentais do livro é constituído pela abordagem da condição feminina, num mundo em que o masculino é preponderante a vários níveis. Mas o papel da mulher na sociedade medieval não é apenas secundário; ela é frequentemente associada às forças demoníacas, por via do pecado de Eva que constitui um estigma para toda a condição feminina. O próprio aborto provocado é de certa forma justificado porque o pecado mortal estava já cometido e o inferno era o destino incontornável. Dessa forma o aborto apenas confirmava o triunfo de Lúcifer. Esta associação de ideias entre a mulher e o diabo justifica também uma outra prática cujo papel é fulcral no mundo medieval – a bruxaria. O papel da bruxa é ambivalente: por um lado ela é o protótipo da mulher pecadora, condenada e amaldiçoada. Por outro ela é a salvadora; aquela que tem poder para expulsar o próprio demónio. 
No entanto, há estratégias de superação deste bloqueio mental; e Jacinta procurara-as desesperadamente. Segundo a bruxa, as únicas mulheres que conseguem escapar a esta pressão social eram as monjas e as próprias bruxas, precisamente aquelas que optavam de forma voluntária pela solidão. A solidão voluntária é uma via de libertação.
Na verdade, o tema da bruxaria é um dos mais complexos na historiografia medieval – se, por um lado, é reconhecido à bruxa o poder de afastar o próprio diabo, por outro, elas próprias são associadas ao demónio, sendo perseguidas e condenadas por isso.
A autoexclusão social é, portanto, uma forma de escapar a todas aquelas constrições sociais. O mosteiro surge aqui como um espaço de liberdade mas também de tolerância; só aí Jacinta encontra a paz interior porque só aí lhe é permitida uma identidade, uma autonomia enquanto ser humano livre e pensante. A própria oração é encarada por Jacinta como um momento de escape e de reencontro consigo própria; como se o verdadeiro Deus existisse dentro dela, no seu espírito e não como um ente superior e castigador.
É genial a forma como a autora estabelece um paralelismo entre Joana, a irmã monja de Jacinta e a soldadeira moura Zaida: duas personagens só aparentemente opostas, uma freira e uma prostituta, duas mulheres livres que conseguiram levar a paz ao coração de Jacinta.
Mas o preço da independência pessoal é sempre elevado: Joana, Zaida e a bruxa conseguiram essa rara autonomia, essa paz interior, mas tiveram de prescindir de algo: Joana prescindira dos sentimentos; a bruxa da sua identidade social e Zaida prescindira do próprio corpo. Para ser livre é preciso abdicar de algo. Na verdade, se o mundo humano, com as suas contradições e injustiças é uma ameaça permanente à paz de espírito, o amor não o é menos, apresentando-se como uma fonte de tormentos e de conflitos interiores. Mesmo que disfarçado de idílio e sonho, o Amor é uma vigorosa e trágica fonte de sofrimento e de dependência.
O talento literário de Cristina Torrão radica no seu estilo objetivo, cinematográfico, como já o adjetivei a propósito de obras anteriores, mas não é só isso. Há nas suas obras um humanismo notável, uma sensibilidade apurada mas também uma dimensão de análise psicológica profunda, uma capacidade de entrar na mente das personagens, a fazer lembrar grandes mestres neste domínio como Dostoievski ou James Joyce. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cloning Adolf - Cristina Torrão (ebook gratuito)


Tal como havia feito Luís Novais, também Cristina Torrão resolveu presentear os seus leitoras com um livro colocado gratuitamente à disposição no seu blogue.
Cloning Adolf é um livro completamente diferente dos outros por si anteriormente publicados; é um livro hilariante.
A estória é simples e original: um grupo de fanáticos nazis, no século XXII rapta um cientista famoso para que este proceda à clonagem de Adolf Hitler a partir de “um carvãozinho” que viria a dar que falar: tratava-se de um pedaço do corpo carbonizado de Hitler em 1945. A parte de Hitler a partir da qual se constrói o clone é … os genitais J: humor torna-se hilariante.
O cientista, o Doutor Solari, com a sua bela e sensual (tinha que ser) assistente conseguem levar a bom porto o projeto ao mesmo tempo que desenvolvem uma paixão, como direi… explosiva.
No final deparamos com um  Hitler, digamos, muito fraquinho… um louco que pretendia eliminar as mulheres porque não podiam ter um bigodinho como o dele…
No meio dos fanáticos, como acontece em qualquer canto do mundo, também havia um português: o hilariante José Cebolo, um nazi que gostava de bom vinho e boas comidas (só um português podia curar as mazelas de Hitler com vinho tinto). Alguns dos outros fanáticos eram verdadeiros “cromos”, com nomes hilariantes, como era o caso do grande chefe Kornflock.
Os fanáticos deixam bem claro o simplismo do discurso radical: eles são contra os estrangeiros e mal se apercebem que, uns em relação a todos os outros, são estrangeiros; a total ignorância histórica é comum a todos os fanáticos.
Para lá do ridículo, mesmo com gargalhadas, este livro não deixa de nos fazer refletir: é impressionante a capacidade que o ser humano tem de renegar a sua própria personalidade, anular-se totalmente e cultivar a mais patética insanidade. Alguns dos personagens deste livro são exemplos perfeitos de seres humanos que perderam tudo quanto se possa considerar “vontade própria” ou personalidade. E essa “desconstrução” do ser humano é assustadoramente possível. Basta que se cultive a ignorância e a estupidez. Será a estória contada neste livro apenas uma comédia de ficção científica? Ou não estaremos nós perante, bem no centro do nosso mundo, alguns fenómenos de estupidificação crescente? Não caminhará o nosso mundo para a mais absurda estupidez? Receio bem que sim…
O livro está disponível aqui: 

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Cruz de Esmeraldas - Cristina Torrão


Levantado do Chão de José Saramago e Vagão J de Vergílio Ferreira foram livros que me marcaram. Porquê? Pela sua singeleza, pelo encanto que é recuar às origens de um génio; da mesma forma, a leitura deste livro de Cristina Torrão, que marca o arranque da sua carreira literária, é uma experiência interessante. Nele a autora revela já a sua qualidade literária enquanto grande contadora de histórias e, ao mesmo tempo, uma certa ingenuidade na abordagem dos comportamentos. Mais do que nos livros posteriores é clara a visão positiva da alma humana, a crença inabalável na bondade rousseauniana do ser humano.
O cruzado Konrad participa no cerco e conquista de Lisboa ao serviço do nosso pai-rei Afonso. Konrad vem das profundezas da Germânia para ganhar a salvação da alma e a riqueza da bolsa (mais esta que aquela, obviamente) lutando contra os mouros. Do almejado saque faria fortuna mas mais importante que isso: de entre os despojos da conquista ergueu-se Aischa, a moura “encantada”, a beleza em pessoa que enfeitiçou o Cruzado. Por amor Konrad se fixou em Portugal por amor se dispôs mesmo a renegar a sua fé. E a misteriosa cruz de esmeraldas que Aischa guardava seria também a guardiã dessa bela estória de amor.
Emana deste pequeno romance o perfume de um humanismo notável. Já neste primeiro livro, Cristina Torrão faz a apologia de uma convivência pacífica entre cristãos, mouros e também judeus, em torno de uma espécie de panteísmo, como se o Deus de todos os povos fosse um e único. Neste contexto, quebram-se alguns dogmas: Samuel é um judeu altruísta; Konrad é um católico tolerante e Rashid é um muçulmano sem preconceitos: as antíteses do vulgar para a época.
Este sonho de convivência pacífica entre povos e culturas revela uma sensibilidade e um humanismo que a escritora deixa bem claros em todos os seus livros.
Um aspecto curioso desta obra é o seu carácter didáctico: que proveitoso seria se este livro fosse lido por todos os estudantes de história. A linguagem utilizada torna-o acessível a qualquer grau do ensino  e a beleza com que a ficção adorna a verdade histórica torna este livro muito atractivo e de fácil leitura.
Sem a profundidade na análise psicológica de Afonso Henriques e de D. Dinis, este livro é precioso para conhecermos as principais facetas desta autora que se destaca claramente no romance histórico português. 

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Afonso Henriques O Homem - Cristina Torrão

Indo directamente ao assunto: na minha opinião, o segredo do sucesso de Cristina Torrão reside nestes dois factos:
- Uma escrita “cinematográfica” – com poucas palavras consegue descrever uma cena, criando na mente do leitor uma imagem clara.
- Uma sensibilidade extraordinária para compreender e exprimir a alma humana; os seus personagens são tão “humanos” que o leitor se envolve com eles, vivendo as suas paixões, o seu sofrimento e as suas alegrias.
Neste livro, destacaria, neste aspecto a figura de D. Mafalda. É com mestria que a autora nos apresenta uma rainha melancólica, tímida, envergonhada e sofredora. A antítese daquilo que certamente imaginaríamos da esposa de Afonso Henriques (AH).
Este livro é um verdadeiro exemplo do que deve ser um romance histórico porque consegue construir uma dramatização dos factos sem manchar a verdade histórica, ao mesmo tempo que revela uma especial sensibilidade na abordagem da dimensão psicológica na caracterização dos personagens.
No início da obra, destaca-se um certo contraste entre D. Teresa e Afonso Henriques. D. Teresa é teimosa, fria e calculista: três características de um bom e também de um mau governante, conforme as circunstâncias. No entanto, AH revela desde cedo qualidades herdadas da mãe, na sua determinação face aos objectivos assumidos mas reforçadas por uma inteligência rara e, acima de tudo, pela importância capital de três conselheiros: Ermígio Moniz, seu irmão Egas Moniz e o arcebispo de Braga, D. João Peculiar. Foram estes homens conseguiram temperar a determinação por vezes exagerada de AH com a flexibilidade necessária para se adequar a cada contexto específico. Por outro lado, o primeiro rei revela uma bondade natural que lhe permitia aquela magnanimidade própria de um grande soberano.
Ao longo de toda a obra, CT desfaz-nos vários pré-conceitos, herdados do senso comum e de tradições literárias e cinematográficas. Por exemplo, ao contrário do que se pensa, a maior parte dos confrontos nas batalhas medievais não envolviam o uso da espada, considerada uma arma frágil mas sim os rudes e sangrentos machados e maças.
Outro mito que se desfaz é o de Egas Moniz: ele não foi o aio humilde que se apresentou de corda ao pescoço, oferecendo a sua vida ao rei de Leão. Foi muito mais que isso; foi um nobre cheio de honra e inteligência que esteve por trás de algumas das mais importantes façanhas de AH.
Em relação a alguns aspectos mais controversos da vida de AH, em que a historiografia não dá respostas definitivas, CT contorna-os habilmente: o local de nascimento de AH, a localização exacta da batalha de S. Mamede ou a “prisão” de D. Teresa no Castelo de Lanhoso. Isto demonstra como num romance histórico é, por vezes, tão importante o que se escreve como aquilo que não se escreve.
Este livro encanta também pela singeleza e humanidade com que são descritos alguns aspectos da vida de AH: a sua primeira experiencia sexual, fazendo compras com os amigos na feira de Tui, galanteasndo as “moças” ou uma imagem que perdurará na minha mente de leitor: AH abraçado às suas filhas, ainda crianças, no enterro do seu filho varão, Henrique. Aliás é enternecedora a forma como CT nos apresenta este D. Afonso Henriques como pai extremoso e sentimental.
Um aspecto que sempre incomodou qualquer aluno ou estudioso da História de Portugal é a forma como AH conseguiu desafiar o poder de um rei poderoso a quem ele devia obediência (o rei de Leão, Afonso VII). CT oferece-nos uma visão credível e bela: em grande parte a paz com Castela ficou a dever-se à habilidade desse grande conselheiro que foi Egas Moniz. Só ele foi capaz de moderar as ambições e a agressividade do nosso primeiro rei, levando-o a voltar os seus intentos bélicos para o sul, para o território dos Mouros.
Outro aspecto muito importante, muito bem explanado por CT é este: o nascimento de Portugal está umbilicalmente ligado à afirmação da diocese de Braga face a Santiago de Compostela e a Toledo, capital hispânica da cristandade. Ao longo do livro é notória a influência do arcebispo de Braga, D. João Peculiar, ao ponto de ter sido ele, por exemplo, a negociar o casamento com D. Mafalda de Sabóia. Por outro lado, foi no intuito de afirmar o poder do arcebispado de Braga que D. João Peculiar travou uma luta incansável e brilhante para o reconhecimento da soberania de AH como rei. Esta ligação íntima entre os poderes temporal e espiritual ajuda-nos a compreender a importância excepcional do clero português, tanto a nível político como económico. Na verdade, Mosteiros e Dioceses acabaram por acumular património, devido a sucessivas doações, tanto de AH como dos seus sucessores.
Ao mesmo tempo, começa a definir-se uma certa bipolarização Norte/Sul no território português. A génese deste fenómeno encontra-se precisamente da guerra da Reconquista, nomeadamente no reinado do fundador da nacionalidade: o norte dominado pelas grandes famílias de senhores terratenentes e o sul onde ganham raízes as comunidades de homens livres, os concelhos.
Assim, os guerreiros do sul, os cavaleiros vilões em quem AH se apoiou para retirar poder aos barões do Norte, fazem com que AH vista a pele do “caudilho”, mais do que do “general”, para usar as palavras do maior historiador português deste período, José Mattoso, na sua biografia de Afonso Henriques. Ele nunca foi um general de grandes exércitos; na maior parte dos casos liderava autênticos bandos de populares mais interessados no saque do que na Guerra Santa. Os próprios Cruzados, que foram decisivos na conquista de Lisboa pouco mais eram do que salteadores e violadores de donzelas. Da mesma forma foi Geraldo Sem Pavor, um líder popular que se tornou o maior aliado de AH nas suas últimas conquistas, como Évora e Beja.
De tudo o que aqui escrevi, não é difícil perceber que considero esta obra brilhante! Mas gostava de finalizar este comentário com a referência a um episódio que bem demonstra o espírito da obra e que é, a meu ver, um dos pontos mais altos da narrativa: o momento em que Afonso Henriques, gravemente ferido no desastre de Badajoz, é assistido por um brilhante físico (médico) muçulmano. Nesse momento, AH reconhece o absurdo da guerra religiosa, comprometendo-se perante a sua consciência a respeitar a população muçulmana. Como diz a autora na nota inicial do livro, “guerras de índole religiosa não fazem o mínimo sentido”. No fundo, mau grado as aparências, talvez AH concordasse…
Avaliação Pessoal: 9/10

Imagens daqui, dali e de acolá.
Mais informação no blogue da autora: http://andancasmedievais.blogspot.com/


sábado, 2 de abril de 2011

D. Dinis - Cristina Torrão

Se antes tinha poucas dúvidas, agora não me resta nenhuma: D. Dinis foi um dos homens mais brilhantes da História de Portugal. Antes de mais nada dizer sobre este livro, fiquemos com esta certeza: Cristina Torrão confirma-nos esta verdade com uma obra literária magnífica!
Com grande cuidado na fidelidade à verdade histórica, a autora presenteia-nos com um romance histórico de rara qualidade.
No início do livro, grande parte das atitudes que viriam a nortear o comportamento do rei são ilustradas e até explicadas por alguns aspectos da sua infância. O contacto com a corte castelhana, nomeadamente com o rei Afonso X de Castela, o Sábio, despertaram em Dinis o gosto pelo conhecimento, pelas letras e pela ciência. Estávamos numa época de charneira no plano cultural: o advento da arte gótica na Península, a escola de tradutores de Toledo que divulgava a cultura clássica, a promoção das línguas nacionais, a afirmação das Universidades, etc, construíram um ambiente cultural que, num contexto de laicização crescente da cultura, anunciavam uma espécie de pré-renascimento. É nesse contexto que se há-de enquadrar o reinado de Dinis: o rei que instituiu o português como a língua a usar nos documentos oficiais, fundou a primeira universidade portuguesa e foi, ele próprio um vulto enorme da literatura portuguesa. Ele foi um dos maiores poetas da nossa língua e daí nasceu um dos seus epítetos, o de rei trovador.
Dotado de um enorme sentido de justiça, Dinis foi também um rei precursor dos grandes caminhos da história de Portugal que prepararam os Descobrimentos. Sem o crescimento e as modificações sociais e mentais do seu reinado, bem como de seu pai Afonso III, dificilmente teria sido possível iniciar, algumas décadas depois, a gesta dos descobrimentos.
A sua política foi, de facto, brilhante por ter sido “revolucionária” em três planos: político, económico e social.
Com grande clarividência política, o Rei entendeu que só modificações na estrutura social do país podiam modernizar o Estado português, tornando-o mais justo e rico. Assim, procurou centralizar o poder retirando privilégios ao clero e nobreza, através de inquirições e confirmações, leis da desamortização, fim das tenências, lei das apelações, diminuição das doações, etc. Assim, reforçaria o poder real, caminhando para o futuro estado absolutista e, ao mesmo tempo, promoveria a actividade comercial, favorecendo a burguesia e dessa forma aumentaria a cobrança de impostos.
Esta modernidade antecipada daria a Portugal um grande desafogo económico mas também geraria intensos confrontos com a fidalguia, com o clero e o próprio papa. No entanto, Dinis conseguiu sempre gerir este equilíbrio precário com grande sagacidade e coragem. Mas a parte final do seu reinado acabou por ser problemática: não conseguindo nunca conciliar o seu autoritarismo com o espírito benevolente da rainha, confrontado com as ambições dos vários filhos bastardos e o descontentamento do próprio filho herdeiro, futuro Afonso IV, Dinis teria grandes desafios a enfrentar na parte final do seu reinado, que Cristina Torrão narra com grande envolvência dramática, conferindo a este livro uma riqueza literária impressionante.
O encanto da Rainha Santa, a coragem de Dinis e a tremenda teia de interesses que se gerava nos reinos ibéricos são aspectos que Cristina Torrão desenvolve com mestria, tornando este livro indispensável a quem aprecia a literatura de qualidade. Uma surpresa muito agradável mas também um verdadeiro manual de história em forma de romance.
O contraste com o carácter rígido mas também mundano de Dinis dá à descrição da Raínha Santa um encanto especialíssmo. Chega a ser comovedora a forma como Cristina Torrão nos apresenta esta grande Raínha.
Avaliação Pessoal - 9/10