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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ver: Amor - David Grossman


Sinopse:
Na década de 1950, em Israel, o menino Momik, filho de judeus sobreviventes do Leste Europeu, interpreta à sua maneira os silêncios e fragmentos de conversas dos adultos sobre o que viveram na 'terra de lá' (a Europa dominada por Hitler). Convencido de que a 'besta nazista' é, literalmente, um monstro horrendo, resolve atraí-la a um galpão no fundo de sua casa para poder destruí-la, com a ajuda do avô Anshel Wasserman, que aparentemente ficou louco num campo de concentração. Já adulto, e agora romancista, Momik recria literariamente a história de Bruno Schulz (1892-1942), escritor polonês morto por um soldado nazista no gueto de Drohobycz. Na variante inventada por Momik, porém, Schulz foge para Dantzig e se atira no mar do Norte, em cujas profundezas vive uma aventura fantástica e alegórica. Outra história dentro da história é a do avô Wasserman, ele próprio autor, na década de 1910. Em 1943, prisioneiro de um campo de concentração, Wasserman se transforma numa espécie de Sherazade às avessas - ao descobrir que é invulnerável às inúmeras formas de assassinato praticadas pelos nazistas, ele conta a cada noite novas histórias ao comandante do campo, e em troca este tenta matá-lo. Narrado em várias vozes, fundindo gêneros e estilos, 'Ver - amor' cobre de modo não linear praticamente todo o século XX, tendo como núcleo a experiência indizível do Holocausto.
(in: http://www.skoob.com.br)

Comentário
Realidade – Sonho – Loucura – Fantasia total. Podia ser este o percurso da obra, os quatro pilares dos quatro capítulos em que o livro de divide.
As memórias do Holocausto, num “país de Lá” do qual é preferível não falar, dão lugar a percursos de sonho, pela voz do avô Anshel Wasserman “Sherazade”, escritor, contador de estória, o homem que não podia morrer.
Momik, o neto e narrador, constrói um mundo de total fantasia, em torno de dois grandes sonhos: ser escritor e capturar a Besta Nazi. Na primeira fase do livro é enternecedora a amizade entre Momik e o avô. Depois o enredo desenvolve-se em flashback, até à segunda guerra mundial, durante a qual o avô tinha sido o judeu misteriosamente preferido do sanguinário comandante do campo de extermínio.
Momik, entretanto, descobre que a Besta tinha dominado por completo o espírito dos judeus; compreende que a Besta só poderia ser derrotada com o retorno do tempo, o mesmo é dizer com o sonho e a fantasia.
Já casado com Rute, mais tarde, Momik escreve a história de Bruno, vítima dos nazis. Numa linguagem profundamente poética, Grossman leva-nos a conhecer a vida de Bruno após a morte – navegando nos mares, entre os salmões, com uma missão: conhecer a vida.
Entretanto, à medida que se torna adulto, Momik torna-se infeliz e vive atormentado pela memória. A memória da besta. O amor está ausente. Até da esposa e do filho. E de toda a humanidade. Todos os dias Momik dá duas bofetadas ao filho para que ele esteja preparado para a tristeza do mundo. O filho não aprenderá a amar como Momik nunca aprendera.
Entretanto, Momik assume um novo sonho: escrever a Enciclopédia do Holocausto para a juventude. Não aprendeu nem ensinou o amor mas pode ensinar o ódio. Para que a memória do ódio prevaleça.
A Besta trouxe o ódio e o povo judeu preservou-o. Guardou-o e repartiu-o. Numa espécie de crítica radical da violência, Grossman é perentório: “Somos assassinos responsáveis, preocupados com o nosso bem estar, dedicados e cheios de consideração, mas apesar de tudo assassinos.” “O medo e o ódio reinam entre nós, esses dois fórceps com que arrancam a mínima migalha de ternura e amor”. (página 221).
No campo de extermínio os Nazis não conseguem matar Anshel; todas as balas falham o alvo e nem o gás o mata. É com as suas estórias para crianças “os meninos do coração de ouro” que Anshel consegue comover o horrível comandante Niegel. Surge até uma espantosa amizade entre os dois porque o medo desaparecera. No final, o derrotado será Niegel. Antes disso, Anshel não podia morrer. Nem antes que a estória dos meninos de ouro tivesse o seu desfecho. Até lá a missão de Anshel era, todas as noites, contar a Niegel mais episódio da estória dos meninos.
A estória dos meninos com coração de ouro derrotará os nazis porque fala de amor. Só o amor seria capaz de tal façanha, ou então o sacrifício total, como o do louco de Varsóvia que se deixou torturar até à morte sem oferecer a verdade ao torturador. São estas as duas vias: o sofrimento e o amor.
Com a estória de Anshel, até Niegel se torna capaz de amar. Daí a sua desgraça, a sua derrota: porque era impossível servir o Reich e, ao mesmo tempo, ser humano.
A última fase do livro poderia intitular-se “o triunfo da morte”. A morte como solução, como triunfo também. E o triunfo de Wasserman, o homem que venceu a morte; o judeu que personifica todo um povo condenado à imortalidade.
Em conclusão: um livro muito elaborado, duro, por vezes difícil de compreender, mas que resulta numa obra literária de grande dimensão humana, numa linguagem poética e cheia de sentimento. 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Até ao fim da Terra - David Grossman



Sinopse: Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem ouvir, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os "notificadores". Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, outrora o melhor amigo de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles.
Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana - uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz


Comentário:
As 681 páginas desta edição talvez afastem o leitor menos paciente. Mas a verdade é que este é um excelente livro. Está aqui, bem despida de adereços, toda a desgraça de um povo condenado à guerra e ao ódio; um povo que conquistou o seu espaço mas que o tem de disputar, sistematicamente, com outros povos, eles também condenados à desgraça.
A forma como Ofer se alista voluntariamente no exército levou a mãe, Ora, a questionar o patriotismo; o mesmo patriotismo que justificara a criação da nação hebraica. O ódio à guerra alia-se ao próprio ódio à nação. A expressão de Ora perante a participação dos filhos no exército é: o país “nacionalizou-me” os filhos.
Este livro é, acima de tudo, um intenso grito anti guerra; uma voz de protesto e de desespero perante a irracionalidade de uma história povoada de ódio.
Mais do que fugir da guerra e da possível morte do filho, é dos mensageiros da morte que Ora e Avram fogem. Sim, porque morte está sempre presente, por todos os lados.
Ao longo da leitura, o leitor sente-se frequentemente asfixiado por este ambiente sóbrio, feito de medo, feito de sangue e horror.
Para Ora, Avram, de quem se separara há muito, é uma espécie de filho que vem substituir Orfer. Ao longo da caminhada, o autor vai descrevendo o passado desta família despedaçada e de um curioso triângulo amoroso; o amor aparece aqui como uma espécie de oásis neste deserto de ódio; no entanto, nem mesmo o amor tem o aspeto de um jardim florido, antes de um jardim coberto de espinhos; um amor que nasceu e cresceu no terror das mais inimagináveis torturas e sacrifícios.
À medida que vai desfiando memórias, Avram descreve as torturas que sofrera na guerra de Yom Kipur. Memórias terríveis, de uma violência atroz, misturadas com sentimentos de culpa e arrependimento. Enfim, uma realidade onde o passado é doloroso e o futuro negro. Sobra um presente não menos feliz. As personagens como a nação: sem sentido, sem lógica, sem um raio de luz a não ser os laços de amor que os prendem uns aos outros.
Como no quadro de Picasso (Guernica) a guerra preenche todos os espaços. Nada existe fora da guerra.
Aqui não há heróis. Nem bons nem maus; os próprios árabes, inimigos ancestrais, não são vistos como “os maus da fita” mas como, também eles, vítimas do ódio e da violência.
Em conclusão, trata-se de um livro sombrio, triste, mas terrivelmente real. Uma estória que dói pela crueza da realidade que retrata; uma obra de ficção que brilha pelo retrato que faz de um sofrimento coletivo onde o pior de tudo é a falta de esperança: o final desilude como a realidade: não há fim à vista para a estupidez dos homens.