Eis um livro que marcou indelevelmente a literatura do
século XX. É um livro que se lê por vezes de forma dolorosa tal a frieza com
que é imaginada uma ditadura impiedosa, que absorve por completo toda a
liberdade individual.
O maior mérito de Orwell foi ter construído todo um sistema
político de forma que o leitor o reconhece como possível: essa é a maior força
do livro, a tenebrosa sensação de viabilidade de um tal sistema.
A manipulação da história sempre foi um poderoso meio de
fabricar justificações para a ditadura; aqui, na imaginária (ou nem tanto)
Oceânia todo o passado é reescrito, para que o presente seja justificado na
“verdade oficial” sempre construída à medida dos interessas do regime. Tudo é
transformado, adaptado, de forma a eliminar todo e qualquer vestígio de
pensamento autónomo. O ideal seria mesmo o “patofalar” (como se diz na língua
oficial da Oceânia – a novilíngua). Trata-se de falar sem sair do trivial; sem
qualquer raciocínio ou opinião. Só assim se respeitaria a ortodoxia, porque
“ortodoxia é ausência de pensamento”. Neste como noutros pormenores o leitor
pensa no paralelismo com as “democracias” atuais… o ideal é que os “proles” (85% da população)
se limite a trabalhar e reproduzir-se. Mesmo assim sem qualquer prazer, porque
o prazer retira as energias necessárias ao culto do regime.
Como acontece em qualquer outra ditadura, a propaganda e a
repressão são os pilares do sistema. No entanto, o aspeto radical da obra
reside nisto: propaganda e repressão atingem limites inacreditáveis: a
propaganda deve refazer por completo toda a personalidade do súbdito: a Winston
é retirado tudo o que o carateriza como ser humano: pensamentos mas também
sentimentos. Tudo é reescrito na alma até que o súbdito ame profundamente o
Grande Irmão. Para esse fim a repressão reforça o poder da propaganda: uma
repressão capaz de destruir corpo mas também alma.
A Oceânia vive em guerra permanente e pouco importa contra
quem; apenas importa que haja guerra porque ela fornece uma razão de ser ao
sacrifício individual e à perpetuação do poder. Júlia, a resistente apaixonada
por Winston, suspeita que os bombardeamentos da cidade sejam perpetrados pelo
próprio governo, para intimidar o povo e manter o ódio ao inimigo. Aliás, toda
a sociedade funciona com base no ódio; as próprias crianças são educadas no
sentido de cultivarem a delação e a vigilância constante sobre os adultos.
Em suma, trata-se de uma leitura dolorosa, onde a ficção
alimenta no leitor o choque do possível e mesmo de certos aspetos da realidade
atual; uma perspetiva pessimista, quase escatológica da humanidade. Um livro
que marcou a história da literatura, não tanto pela qualidade literária – que
não é excecional – mas pelo significado político e mesmo filosófico do enredo.
(Lido no âmbito do clube de leitura BERTRAND, de Braga)
