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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Aprender a rezar na Era da Técnica - Gonçalo M. Tavares


Comentário:
Comecemos pelo aspeto mais estranho do livro: o título. O protagonista do livro, Lenz Buchmann nunca aprendeu a rezar nem a técnica é o maior obstáculo a essa falta de fé. Este título é, como tantas outras coisas na escrita de GMT, simbólico. Lenz é um pragmático radical; rezar seria a última coisa que lhe passaria pela cabeça como hipótese para enfrentar qualquer problema; nem mesmo na hora da morte, corroído pelo sofrimento mais atroz. 
Lenz é um ser humano abominável; para ele, o objetivo mais nobre de qualquer ser humano deve ser o de adquirir poder; ser superior.
Lenz Buchmann acredita ser uma espécie de super-homem. Ele é o resultado de uma educação fortemente controladora, em que o pai assume uma imagem poderosíssima que Lenz idolatra e tudo faz para imitar. Curiosamente, o pai idolatrado tem o nome de Friedrich, tal como Nietzche, o filósofo alemão criador da ideia de super-homem – o indivíduo enquanto elemento de superação contínua. 
Lenz Buchmann é o abominável anti-herói. Se o título reflete, como um espelho, uma imagem invertida do tema central da obra, o seu personagem principal é também a imagem invertida daquilo que seria um herói. Ele é abominável porque é o fruto da modernidade, num mundo dominado pela conquista do poder. Primeiro como médico-cirurgião e depois como político de sucesso, Lenz faz a síntese do homem ideal na era da técnica – aquele que associadois poderes supremos- o de salvar e o de matar, duas faces da mesma moeda. Como cirurgião, ele é dono e senhor do destino dos seus pacientes; como político ele amplia esse poder; ele controla a vida e o destino de uma sociedade, cujos membros nem se apercebem de como colocam o destino nas mãos de Lenz. Essa inocência do cidadão comum é vista por Lenz como um sinal de fraqueza; só os poderosos, os eleitos, como ele, têm o poder, a capacidade de decidir o destino dos outros.
Até que um dia… uma força maior vai destronar o poderoso super-homem!
Neste livro, a mensagem, a ideia, são mais importantes que o enredo. O livro é uma oportunidade para GMT explanar uma verdadeira crónica do fracasso do humanismo. Até certo ponto, a estória de Lenz é a crónica deste mundo moderno onde humanismo, solidariedade, sentimento, etc. são apenas manifestações de fraqueza. No entanto, o final do livro é ainda mais perturbador; será que há no destino dos homens uma espécie de força maior que se sobrepõe ao próprio poder supremo do super-homem?
Em jeito de conclusão, trata-se de um livro interessante, em que determinadas ideias, se bem que já bastante debatidas, são aqui expostas de forma muito direta, crua, numa estória que se segue com interesse. O formato em pequenos capítulos ajuda o leitor menos paciente a avançar na leitura e a linguagem simples, direta se bem que cuidada fazem deste livro uma proposta interessante para que gosta de livros que aliem forma e conteúdo, enredo de ficção e mensagem filosófica.

Sinopse
Os «Livros Negros» de Gonçalo M. Tavares têm um novo Reino: Aprender a rezar na Era da Técnica.
Lenz Buchmann é um homem atroz. Como médico, despreza os doentes. Como político, despreza a sociedade. Como marido..., como irmão... Como filho, enaltece irracionalmente o pai porque é assim que se comportam os homens desprezíveis.
Depois de Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém, Aprender a rezar na Era da Técnica mantém o mesmo olhar agreste e tantas vezes sombrio sobre a condição humana: «O que vês quando olhas para onde todos olham?».

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Jerusalém - Gonçalo M. Tavares

A proximidade entre o Bem e o Mal; entre o amor e o ódio; a vida vizinha da morte – um caminho apenas. Talvez a cruz de Jerusalém, cidade e nome do livro, metáfora para o hospício Georg Rosemberg, onde Mylia e Ernst viveram, amaram e conceberam Kaas. É Mylia quem diz, citando a Bíblia: “Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita”. E mais adiante: Se eu me esquecer de ti, Georg Rosemberg”, que seque a minha mão direita”.
Numa escrita crua, dura, directa e atraente, GMT percorre a vida de personagens-tipo, que vivem nas margens ténues da loucura normal.
Mylia, 18 anos, esquizofrénica. Casa com o médico Theodor; ele estudá-la-á sem amor. A mãe diz que ela vê almas.
No hospício, Mylia conhecerá Ernst, esquizofrénico. Desse amor nascerá Kaas. No hospício Georg Rosemberg. Ou Jerusalém. Sítio da redenção e da paixão. Do sofrimento e do amor. Da salvação e da perdição. O local de onde vem o medo, como a guerra para Hinnerk.
Mylia, 40 anos, à espera da morte. Alguns meses para viver. Procura uma igreja, na madrugada. Desesperada por um pouco de paz. A dor dilacera-a; a dor má, que a matará e a dor boa, que a faz sentir viva: a dor da fome; da fome do corpo. Naquele momento um pão era mais importante que a eternidade: a vida é uma soma de momentos, todos eles únicos.
Theodor Busbeck desposara Mylia. Ele estuda o horror; faz contas, somas, gráficos. Encontrar os padrões do horror nos tempos; o horror passado e futuro da humanidade explicados em fórmulas matemáticas.
O horror, o sofrimento e a violência são vitais para o mundo; se um dia houver equilíbrio entre os sofredores e os que fazem sofrer, o mundo perderá sentido e extinguir-se-á. Como na vida de qualquer indivíduo: sofrer ou fazer sofrer são os termos da equação. Quando se equilibrarem será a morte. Ou então, para lá desse equilíbrio, apenas a fé poderá sobreviver. Como na doença de Mylia: ela viverá depois do prazo que a ciência lhe deu para morrer. Porque os milagres existem. O sagrado é o lugar onde tudo termina. O sagrado que se encerra no nome de Theodor.
Como se vê, trata-se um livro cheio de simbolismo; mas aqui, significados e significantes acabam por ser descodificados sem esforço pelo leitor, tornando a leitura extremamente agradável. Não se trata de um livro “negro” como a capa pode enunciar; não se trata de um livro sobre a morte ou a loucura; trata-se de um livro sobre a vida nas suas múltiplas facetas; sobras as angústias do viver, do sentir, do amar e do morrer.
Não é uma obra-prima nem GMT alguma vez terá ambicionado tal; é um livro pequeno, de leitura rápida, que deixa múltiplas pistas que nos permitem antever no seu autor um talento que o poderá levar, no futuro, aos mais altos níveis da genialidade.
Avaliação Pessoal: 8.5/10