Mostrar mensagens com a etiqueta J. M. Coetzee. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta J. M. Coetzee. Mostrar todas as mensagens

domingo, 26 de junho de 2011

No Coração Desta Terra - J. M. Coetzee

“Será que, afinal, eu não sou prisioneira da casa solitária e do deserto de pedra mas sim deste meu monólogo empedernido?” Magda é uma mulher só. Todo o livro é o seu monólogo da solidão. O pai casou com uma mulher jovem; a mãe morrera quando ela era criança. Hendrik, o criado que há-de ser também um dos seus algozes, casou com uma mulher jovem, talvez ainda criança, que comprara ao pai por 5 notas e 5 cabras.
Neste livro pode sentir-se todo o desencanto de Coetzee para com o seu próprio país; todos, tanto os descendentes de colonos como os negros, dependem da terra, mas o trabalho e a vida são sempre solitários.
A escrita de Coetzee é de uma força brutal. A narradora, Magda, conta-nos os seus pensamentos de uma forma muito dura, violenta mesmo. Ela odeia-se, odeia tudo, odeia todos. É uma mulher feia e abandonada. Sonha matar o pai e a madrasta com requintes de malvadez; talvez seja o ódio que a faz viver.
Só a jovem mulher de Hendrik, Anna, trata a protagonista pelo nome. Afinal de contas, as mulheres são companheiras na desgraça. É também por Anna que Magda sente alguma ternura; o único resquício de amor que sentirá em toda a vida.
O sexo surge na narrativa como uma arma de submissão ao poder masculino; nada mais do que submissão e poder. Lágrimas e sofrimento. “Será que isto faz de mim uma mulher?”, pergunta Magda depois de ser violada.
Este livro foi escrito em 1977. Há 34 anos. No entanto, demonstra a mesma qualidade literária do seu livro mais recente: Verão. Este é um dos aspectos que define um escritor genial: ele não precisa de experiência para atingir a genialidade.
E já neste seu primeiro sucesso literário estão patentes os traços fundamentais da sua obra: a solidão, a pobreza e o desencanto pelos dramas humanos do seu país, a África do Sul.
Avaliação Pessoal : 9/10

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Desgraça - J. M. Coetzee

Este é um dos livros de maior sucesso de Coetzee. Publicado em 1999, recebeu o Booker Prize e contribuiu para o Nobel da Literatura atribuído em 2003.
É sem dúvida uma obra de qualidade excepcional. Para o leitor comum, o maior elogio que se pode fazer é este: abordando assuntos verdadeiramente negros é, ao mesmo tempo, uma leitura extremamente agradável.
Trata-se da história de David Lurie, um professor de 52 anos, que se apaixona por uma aluna com cerca de vinte anos. Mau grado a maioridade e a colaboração da aluna, este relacionamento provoca um verdadeiro furacão de reacções moralistas, hipócritas e radicais que conduzirão à verdadeira desgraça em que se transformará a vida de David.
Ela é adulta e seduz David. No entanto, os moralistas entram em campo e ele é “crucificado”. A sociedade moderna, que cultiva a imagem e a hipocrisia, compraz-se com a desgraça alheia, como se a vida fosse uma batalha em que é necessário espezinhar os outros. A desgraça de alguém torna-se terreno fértil para a imposição de padrões de comportamento que não são mais do que instrumentos destinados à encenação de processos inquisitoriais, totalmente hipócritas.
É a sociedade a inventar limites às liberdades individuais. A liberdade é inimiga da sociedade.
A vida no campo, onde se refugiara Lucy, a filha de David, envolve os animais numa espécie de imitação da sociedade humana; eles são castigados, como os homens, por obedecerem a instintos e vontades. Mas o campo é também mais um dos palcos da violência humana. A violência é a marca do Império do Homem; sobre os animais e sobre os outros homens; o Império da morte e do esquecimento.
Na segunda parte do livro, o sexo é apresentado como, também ele, uma expressão da violência. O lado instintivo do ser humano é agora servo de um “deus” maior: o do ódio, da maldade extrema.
Afinal, tudo conduz à servidão humana.
Nesta segunda parte, reina a violência mais atroz. Coetzee oferece-nos aqui o testemunho de um país pós-apartheid, onde o desregramento social reforça toda uma concepção pessimista da condição humana, que dera o tom a toda a obra.
Lucy, a filha, representa a capacidade de adaptação como forma de resistência e até fonte de felicidade. Uma acomodação, uma certa apatia, garante a Lucy uma réstia de esperança que resiste a toda a desgraça.
Em suma, estamos perante um livro brilhante pela forma como consegue levar o leitor à reflexão sobre assuntos tão sérios como a natureza das paixões e o “encaixe” social dessas mesmas paixões, num mundo de hipocrisias, ódios e violência. Um livro genial, muito próximo, a meu ver, da categoria de “obra-prima”.
Avaliação Pessoal: 9.5/10
Este livro foi recentemente adaptado ao cinema, com o sensacional John Malkovich no papel de David Laurie:

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Verão - J. M. Coetzee

Um jovem biógrafo decide investigar a vida de J. M. Coetzee entre 1972 e 1977, após a sua morte. Trata-se, portanto de um livro autobiográfico. No entanto, neste tipo de obras é sempre impossível distinguir a realidade da ficção. Na verdade, o leitor comum, que não conhece a vida real de Coetzee fica sempre sem saber se tudo o que se descreve corresponde, de facto, à realidade. Acautelemo-nos, portanto, encarando este livro como uma espécie de biografia ficcionada, tão ao gosto do autor, já desenvolvida em livros anteriores.
Aliás, penso que o que menos interessará aqui é saber se os pormenores correspondem a realidade ou ficção. O que marca, de facto, este livro, é a visão que o autor tem de si próprio: uma visão nada optimista, algo desencantada, quase deprimida. Coetzee vê-se a si próprio como uma pessoa indecisa, sem garra, desenquadrado do mundo em que vivia: a África do Sul do apartheid, da injustiça e da pobreza. Coetzee (que escreveu este livro em 2008, quase com 70 anos) não se vê a si próprio como um grande escritor mas apenas como um homenzinho ordinário.
O livro é constituído por cinco pretensas entrevistas do biógrafo a quatro mulheres e um homem que terão convivido com Coetzee nesse período (antes dos primeiros sucessos literários). Curiosamente, nenhuma dessas personagens guarda do autor memórias muito positivas; a ideia geral é esta: Coetzee era um ser humano quase amorfo, tímido, embora culto e generoso. Algo sonhador mas com pouca propensão para procurar concretizar os sonhos. Quase como se aceitasse a realidade como imutável, como se identificasse os problemas e as injustiças mas considerasse que lutar seria sempre inútil.
John Coetzee tem medo da mudança. Prefere a inacção. Daí também a sua “incompetência com as mulheres”, o que gera momentos divertidos na leitura deste livro, tal é a forma desajeitada como lida com o sexo oposto. Por detrás deste auto-conceito na forma como é descrito, talvez esteja uma perspectiva crítica do autor em relação ao papel social da mulher, como se fosse exigido ao homem tomar sempre a iniciativa, deixando à mulher o papel passivo de se deixar (ou não) seduzir. Desta forma, um homem que não tomasse a iniciativa da sedução seria sempre um homem incompetente.
Outra ideia que parece estar por detrás deste enredo é a literatura como forma de resistência em relação à morte. Coetzee imagina-se morto; imagina o trabalho de um biógrafo, preocupado com a revelação de pormenores da vida do falecido, como se a escrita fosse uma forma de perpetuar a vida. Por isso não se pode entender esta visão deprimida de si próprio com qualquer auto-comiseração: tudo se passa como se o autor tivesse um certo orgulho nessa personalidade discreta e passiva, ao ponto de desejar a sua perpetuação nas páginas de um livro.
Enfim, uma obra de grande valor literário mas que, para o leitor comum, pode deixar a ideia de ser muito auto-reflexiva, muito centrada no próprio escritor. Pessoalmente, penso que o efeito lúdico que a leitura deve sempre ter perde-se um pouco neste mundo fechado do autor.

Imagem retirada daqui
Avaliação pessoal: 8/10.