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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Desumanização - Valter Hugo Mãe




Sinopse
«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»

Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.
O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo.

Comentário:
Quando um escritor, para mais um autor jovem, escreve obras de arte como O Remorso de Baltasar Serapião ou A Máquina de Fazer Espanhóis, corre um grande risco: o de que as suas obras seguintes desiludam o leitor. Na verdade, a expetativa de um leitor comum, quando abre pela primeira vez A Desumanização, é alta. Os livros anteriores foram geniais; a capa do livro e a sua apresentação são excelentes, muito atrativas e até o que vem escrito nas abas e na contracapa, aumenta ainda mais a expetativa. É “o livro mais plástico de Valter Hugo Mãe”, diz-se aí. Não é. Nem é (longe disso) a sua melhor obra. Obviamente, para quem ler este livro sem conhecer os anteriores, este será um excelente livro. Mas a mim, leitor desprevenido, dececionou-me. Esperei demasiado de Valter Hugo. Erro meu. Devia ter partido de uma tábua rasa, em termos de expetativas, mas era difícil.
Nada disto significa que desaconselhe a leitura; pelo contrário. Para quem ainda não leu VHM aconselho que comece por este livro, para depois abordar as suas verdadeiras obras-primas, que são os livros que indiquei acima.
Por outras palavras, se não considero este livro genial, considero-o “apenas” muito bom.
Ao longo da leitura, há alguma inquietude que VHM vai instalando na mente de quem lê. Aparentemente, tudo é cinzento, melancólico, triste. Uma espécie de melancolia monótona, em tons angustiados de cinzento carregado e contínuo, feito do frio islandês e da tristeza nórdica. Sem sol, esta tristeza poética torna-se, por vezes, cansativa. O cenário islandês parece por vezes desnecessário; aquela tristeza é universal. Aquele desespero pela solidão, pela miséria e pela injustiça são, infelizmente, universais.
Um elemento genial neste livro é o contraponto entre o gelo e o fogo; os fiordes gelados e a boca silenciosa de Deus, o vulcão ameaçador e castigador, pairando sobre a impotência humana; uma espécie de goelas do inferno em contraste com a aridez da paisagem e a frieza dos corações empedernidos que rodeiam Halla, a jovem a quem morreu a irmã gémea, como se lhe tivesse morrido metade do seu ser.
Um outro aspeto interessante é o conceito de Deus; um Deus medonho, aterrorizador. A solidão, Deus e os monstros caminham em conjunto na vida de Halla. A solidão, os monstros e Deus constituem o lado negro da vida: a desumanização. A desumanidade é a solidão.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe

Depois de magníficos livros como A Máquina de Fazer Espanhóis e, principalmente, O Remorso de Baltazar Serapião, as expectativas eram altas para este livro de Valter Hugo Mãe. Anunciava-se o regresso às maiúsculas e o assumir de uma perspectiva mais positiva e uma escrita mais suave. Desde logo, anunciava-se o abandono de uma linha pessoal que VHM ia seguindo nas suas obras anteriores.
Esse abandono de um estilo bem pessoal não me agradou mas devo dizer antes de mais nada que estamos perante um bom livro. A leitura é agradável, a escrita poética dá uma certa musicalidade ao livro e a sensibilidade do autor está sempre “à tona da água”.
Conta-se a história de um homem que, como o autor, cruza os quarenta anos de idade e questiona o sentido da sua existência, decidindo-se pela procura de algo que o complete: uma mulher e um filho.
Crisóstomo, pescador, era metade. Fez 40 aqnos e sentiu-se só. Procurou um filho e encontrou-o: Camilo, catorze anos. Encontrou uma mulher e sorriu: Isaura (o nome mais belo que existe). Sorriu.
Uma anã sem nome era infeliz. Só. Mas 15 homens, quase todos os que havia na aldeia a visitavam. E da doença e da solidão nasceu um filho. A mãe, anã, completou-se e morreu.
Isaura com 16 anos cedeu ao amor carnal e começou a morrer. Conheceu um maricas e casou. Mais tarde o maricas será chamado pelo seu nome (Antonino); antes disso foi sempre renegado porque maricas não é ser gente. Um dia o maricas foge e Isaura descobre que o amor é esperar. Chora.
Camilo, o filho da anã, é adoptado pelo velho Alfredo. Alfredo morrerá e Camilo herda a solidão. Para Isaura “ser o que se pode é a felicidade”. Assim foi até conhecer Crisóstomo e Camilo, entretanto adoptado pelo homem que fez 40 anos. Todas as metades se completaram e o maricas voltou. Antonino é acolhido pela nova família: Isaura, Crisóstomo e Camilo. A união entre os pobres, solitários deserdados da vida. Ainda havia tempo para que todos sorrissem.
Como se vê a mensagem é bonita, o enredo é interessante mas falta aqui (na minha opinião, é claro) Valter Hugo Mãe. Falta o cunho pessoal, o estilo “tsunami” a que VHM nos vinha habituando.
A solidão foi derrotada, assim como o preconceito, esse monstro devorador da vida, do qual nasce a solidão.
Independentemente da qualidade inegável da obra, a palavra chave que me assoma à mente é esta: cedência. 
Avaliação Pessoal: 8/10

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Máquina de Fazer Espanhóis - Valter Hugo Mãe

António Silva, 84 anos, espera no hospital que Laura, companheira de toda a vida, recupere. Sente a velhice como morte lenta… a de Laura e a sua… à medida que avançamos na idade é como se fossemos morrendo para certas coisas… para o trabalho, para os filhos… talvez para tudo excepto para o amor. Mas quando o amor enfrenta a morte, a solidão é um tormento insuportável.
António Silva, no lar, aguarda agora a sua morte, adiada pelo absurdo supremo: a solidão absoluta entre outros seres solitários, outras mortes que se adiam. Uma solidão onde o futuro é um paradoxo, uma miragem ou menos que isso porque não existe.
Por entre a melancolia mórbida daquele depósito de velhos com o irónico nome de lar da feliz idade, sobressai a espaços um humor refinado nas conversas, baseado naquele saber de experiência feito, mas também naquela capacidade de rir e brincar que só as crianças e os idosos têm – traquinices pueris sobra a qual se vai construindo uma felicidade que só existe à superfície mas é real.
E, lentamente, António Silva vai descobrindo que, afinal, a amizade existe. No meio daquele resto de vida, onde os idosos enganam um resto de solidão, foi também onde António encontrou um resto de amizade; uma espécie de sol de fim de tarde…
Aquelas conversas quase felizes são momentos únicos naquelas vidas à espera do ocaso, momentos únicos em que se esquecem as memórias que enegrecem o coração, mais do que alegram.
E nas horas más volta a solidão, impiedosa. E as lembranças da ditadura, da injustiça, da tradição católica salazarista beata, de um Salazar que alimentava a ignorância e o medo. Nunca deixamos de ser um povo dependente de um ser que imaginamos superior, protector, que nos deixe na comodidade da obediência servil. É assim também que encaramos Deus – um vigilante supremo que garanta à sociedade que todos somos vigiados e controlados.
Por entre as conversas diletantes dos idosos, Valter Hugo Mãe vai deixando, em jeito de saraivada, a crítica mordaz à sociedade em que vivemos: a futilidade daqueles que apenas lêem pasquins, revistas cor de rosa ou jornais desportivos; o culto das ilusões, que vai da glória fantasiada do Benfica à adoração apenas ostentadora de um Deus contra o qual se peca por sistema; o fascismo que nos está entranhado na alma, que se vê na forma ainda idolatramos políticos com pés de barro, ao mesmo tempo que esperamos por um qualquer D. Sebastião salvador e redentor; o sistema capitalista-pedante feito de xicos-espertos que continuam a sugar o sangue e o suor do povo.
Valter Hugo Mãe deixa bem claro o seu sentido crítico perante este Portugal que ainda conserva os males e vícios da velha ditadura, onde ainda há um Salazar em cada família. É por isso que Portugal (“esta coisa a tombar para o mar”) é uma máquina de fazer espanhóis – cada vez há mais portugueses a lamentar esta independência inútil, como o velho louco que se diz Português de Badajoz!
Perante isto, haverá ainda quem teime em pensar que acabaram em Portugal os escritores de causas?
Esta é a verdadeira escrita de intervenção!
Esta é a voz que é urgente ouvir nos livros portugueses!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Valter Hugo Mãe - O Remorso de Baltazar Serapião

José Saramago não andava longe da verdade quando afirmou que este livro era um verdadeiro “tsunami” na literatura portuguesa. A força, a violência da escrita, a desordem emocional que provoca no leitor, o desmascarar de fantasmas que persistem na memória colectiva portuguesa, são vagas de fundo que se escondem por detrás das 174 páginas deste livrinho e que emergem constantemente, para assaltar violentamente a mente de quem lê.
Primeira marca d’água sensível ao leitor: o estilo; a ausência de maiúsculas não é arrebique de escritor novato à procura de distinção; é o sinal de que a escrita corre como um rio e a leitura quer-se simples e corrediça. O falar do povo é o estilo do escritor; inovador mas com o sentido profundo da alma de gente.
O enredo decorre na Idade Média, tempo de El-rei D. Dinis, um tempo de pobreza e profundas desigualdades sociais; o herói da estória é Baltazar Serapião, da família Sarga, alcunha que advém do nome da vaca da família, ela própria figura central do enredo. Os Sarga confundem-se com a vaca e o povo encara-os como filhos da vaca, ou da terra, ou do pecado, ou da loucura. Serapião é um homem revoltado, filho da sociedade senhorial do seu tempo, em que os Senhores dispõem da vida da gente.
No meio de tudo há a mulher e o amor; mas a mulher, que desempenha o sagrado papel de servir o Homem que serve o Senhor, recebe no corpo e na alma a consequência lógica da cadeia hierárquica da violência: o Senhor é dono da vida do servo, como a mulher é propriedade do homem – a serva universal.
A violência sobre a mulher, é a ponta do iceberg de uma sociedade dominada pela força mas também por uma revoltante miséria espiritual, onde a ignorância é transversal aos vários estratos sociais: todos cultivam a superstição de forma quase religiosa. É a força bruta da ignorância a comandar a vidas das gentes e a mulher, ente sagrado e amado, é o alvo final de toda a violência de que o mundo é feito.
Um livro pungente, revoltante, enérgico, bruto. Real. Os medos e a estupidez que nós, homens do século XXI apontamos acusadores à Idade Média, prevalecem na nossa mente e o escritor faz-nos sentir isso; este não é um livro sobre a Idade Média nem um romance histórico; é um livro sobre os nossos monstros e fantasmas. É um livro real, medonho, onde matar uma mulher é castigo quase divino, onde uma vaca pode ser sagrada e amada, uma vaca que é mais que gente! A revolta exprime-se na violência e a hierarquia estende-se para a mulher.
É também um livro sobre o absurdo e o irracional do amor; do amor até à morte…