Mostrar mensagens com a etiqueta Vasco Graça Moura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vasco Graça Moura. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Alfreda ou a Quimera - Vasco Graça Moura


Comentário:
Esta incursão do autor pelo romance tem todas as características de uma atrevida aventura literária. Fracassada, diga-se desde já, pelo menos na minha opinião. O que salva o livro é o estilo. A objetividade da escrita, a clareza, a facilidade de leitura. Aliás,dizer que VGM escreve bem seria uma terrível banalidade. Pode não ter sido um grande romancista mas foi um poeta notável e um grande homem das nossas letras.
Fica claro que VGM não é romancista nem nunca o poderia ter sido. Nesta obra há uma ideia inicial, um leitmotiv bem claro, mas pouco mais que isso. Como o próprio autor confessou, a aventura e a obsessão do personagem principal teve origem num conto que VGM resolveu "encher" com considerações, reflexões e descrições avulsas, transformando o livro numa imensa manta de retalhos, um amontoado de assuntos triviais, misturados com reflexões tão profundas quanto enfadonhas. Pelo meio fica um enredo que parte de uma ideia-base muito interessante mas que não chega para preencher uma estória que se pretendia um pouco mais emocionante. 
Também a incursão pelos assuntos políticos é dececionante, tendo em conta a experiência e a cultura do autor, deixando-nos uma leitura simplista e quase primária dos conflitos laborais.
O ritmo narrativo é muito lento, em grande parte devido ao cruzamento da narrativa com as tais incursões reflexivas e descrições exaustivas. A partir de certa altura o livro parece mesmo perder o sentido, deixando mesmo a impressão que o autor hesita sobre o rumo a dar ao enredo. Isto acontece porque, de facto, a estória é "curta"; a obsessão do cinquentão divorciado e solitário não chega para preencher o romance e o autor tenta colmatar esta falta com devaneios aborrecidos para quem lê e a inclusão de personagens secundárias que em nada enriquecem o enredo.
Há pouco tempo li as mais de seiscentas páginas das Novelas do Minho em cinco dias. Para ler as 230 páginas deste livro levei os mesmos cinco dias e só não desisti a meio por mera teimosia.
Finalmente, uma referencia para uma capa que, na minha opinião, em nada favorece o livro, nesta edição da Bertrand.

Sinopse:
Alfreda ou a Quimera é a história de uma obsessão, de uma paixão por uma bela e misteriosa mulher com quem o protagonista deste romance - um bibliófilo portuense - se relaciona intima e fugazmente. Essa paixão passa a reger a sua vida, os seus interesses, os seus actos, os seus pensamentos, enquanto ele tenta reencontrá-la. Quando a reencontra, ou quando a verdade sobre ela é revelada, apesar do desapontamento que o atinge e do seu desinteresse em reencontrá-la carnalmente, João de Melo renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado que entretanto encontrara com outra mulher, para se entregar à quimera de Alfreda. As histórias que acabam bem não fazem história; mas alguns episódios obscuros e mal resolvidos marcam-nos para sempre. Além da história central do livro, destaquem-se ainda a relação do protagonista com Pips, o seu amigo homossexual inglês, e a relação apaixonada que mantém com o mundo dos livros e com a sua cidade do Porto.
in www.wook.pt

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Morte no Retrovisor - Vasco Graça Moura


Comentário:
A sua morte, há três meses, apanhou-me desprevenido. Isto é, sem nunca o ter lido. Abona-me como desculpa o facto de Vasco Graça Moura ter sido, acima de tudo, um poeta. Um grande poeta. E, como já afirmei várias vezes, não sou, por incapacidade minha, um apreciador de poesia. Fiquei, portanto à espera da oportunidade certa para me iniciar na prosa deste grande intelectual português e decidi começar por esta obra, feita de narrativas curtas e aparentemente apropriada a leitores pouco versados na sua obra.
Pois bem, raras terão sido as ocasiões em que tão agradavelmente surpreendido fiquei ao ler um livro. Foi com imensa surpresa que encontrei um VGM bem humorado, irónico, por vezes satírico, outras vezes sarcástico. 
A maior parte destas 22 narrativas estão também cheias de referências literárias, de incursões pelas vidas e obras de grandes escritores. Por exemplo, chega a ser hilariante a descrição das aventuras amorosas escaldantes do católico Graham Green com a sua catolicíssima amante. O conto “Diálogo na Oficina”, por exemplo, é uma divertida narrativa em que Luís de Camões depara com uma espécie de acordo ortográfico com a Inquisição de permeio. Genial e divertido.
É certo que algumas outras narrativas, mais reflexivas, são mesmo enfadonhas, mas a maioria destes contos são estórias simples e engraçadas, com motivos tão peculiares como um novo heterónimo de Fernando Pessoa, ou mais complicado ainda, um “ortónimo” (nome do autor que teve existência real)… Outro exemplo curioso do sarcasmo deste livro é a opinião que um inglês do século XVII revela sobre os portugueses, nesta frase lapidar: ”gente que costuma de por os seus semelhantes na fogueira a fim de mais expeditamente se evaporarem para o céu”…
 A morte, sempre à espreita no retrovisor destes contos, aparece irónica, com um sorriso, melodramática como um tango argentino.
O humor atinge os limites da gargalhada em O Porco de Cobrição que é, ao mesmo tempo, uma sátira mordaz a um certo tipo de religiosidade hipócrita. Mas é a mais fina ironia que dá o tom ao momento mais alto deste livro: uma carta imaginária de Camilo Castelo Branco a Eça de Queirós, com algumas alfinetadas a ilustrar a inimizade de estimação que unia (ou separava) os dois génios da nossa literatura oitocentista.
Nota final para o último conto: hilariante!

Sinopse:

Um menino obcecado por um periquito azul, enquanto graves coisas se vão passando; uma conversa na oficina de António Gonçalves, o impressor de Os Lusíadas; o reencontro fatal de um casal suburbano desavindo; um maestro fatigado que se deixa adormecer à beira-mar; uma história de sexo, assassínio e talvez espionagem; Graham Greene, padrinho e amante de Catherine Walston: a segunda carta que Philip Lord Chandos, filhos mais novo do Conde de Bath, escreveu a Francis Bacon; um caso de amor e morte, com a Alemanha nazi em pano de fundo e latas de sardinhas Walkyrie de permeio, uma tragédia operática no Largo do Picadeiro, os bizarros mistérios de um colégio de meninas de boas famílias… e mais uma dezena de outros universos singulares revisitados com uma ironia que vai das ficções engendradas pelo autor.
in www.fnac.pt

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os Lusíadas para gente nova - Vasco Graça Moura

Sinopse:
Um livro admirável em que Vasco Graça Moura, um dos mais destacados poetas portugueses, dialoga, em verso, com o texto camoniano, iluminando, esclarecendo e exaltando o canto originário. Através de um perfeito equilíbrio entre a reescrita modernizadora e a fidelidade à estrutura e aos significados da epopeia de Camões, Vasco Graça Moura assina uma obra indispensável a professores, educadores e jovens, para a compreensão fluída, correta e abrangente de Os Lusíadas pelas novas gerações.

Comentário:
Antes de mais devo dizer que esta não é uma obra SÓ para gente nova. É um livro que pode e deve ser lido por todos aqueles que nunca leram e compreenderam totalmente esse marco histórico da literatura portuguesa e da própria história de Portugal, que é o poema épico de Luís de Camões.
Vasco Graça Moura consegue nesta obra algo tão admirável que é capaz de transformar o esforço de ler Os Lusíadas num permanente sorriso.
Como o próprio autor diz na introdução esta obra é vítima de um certo desprezo que o cidadão comum tem pelos clássicos e também pela dificuldade inegável que a obra apresenta para oi leitor comum. Acresce ainda a dificuldade que os professores sentem em lecionar o conteúdo da obra a alunos do ensino básico.
Vasco Garça Moura não reescreveu os Lusíadas mas conseguiu transportar toda a mensagem dos dez cantos numa estrutura igual à de Camões, em linguagem acessível e atrativa, mesclando as suas linhas com as do próprio Camões. Fornece assim um enquadramento atual, moderno, a uma obra que é vista como letra morta, ultrapassada pelo tempo. Pelo contrário, VGM transforma Os Lusíadas numa obra atual e acessível a todos.
Ao longo do livro revisitamos, assim, as narrativas épicas dos portugueses, centrada na viagem de Vasco da Gama à India, protegidos pela Deusa romana Vénus, deusa da beleza e do amor, sucessora de Afrodite. Pelo contrário, Baco, o deus do vinho e dos excessos é o inimigo dos lusos e tudo faz para os levar à desgraça. Mas o amor triunfa, e o Gama é levado até Melinde onde relata ao rei local os episódios mais épicos da história de Portugal. Entretanto, Baco recorre e Neptuno para tentar sempre “boicotar” como agora diríamos, a aventura dos portugueses. No entanto, o Bem haveria de triunfar, mau grado os Velhos do Restelo e os monstros de toda a sorte, como o famoso Adamastor.
É esta a mensagem maior deste escritor renascentista, herdeiro da história mas também dos tempos novos das Renascença, mal compreendidos naquele Portugal de preconceitos. Morreu pobre e incompreendido mas ficou para sempre como o portador de uma mensagem de esperança que a todos nós daria proveito se respondêssemos ao convite de VGM e tivéssemos a coragem de voltar ao eterno Camões.