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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo


Antes de mais nada, uma séria advertência para o leitor, especialmente aquele que não conhece ainda as aventuras descritivas de Victor Hugo – este livro não deve ser lido com pressa de chegar ao fim. A única forma de apreciar este livro é saboreando-o, como se fosse uma sobremesa que merece ser mastigada muito devagar.
Mesmo assim, este livro não é tão descritivo como outros do mesmo autor, como por exemplo Nossa Senhora de Paris, com as suas imensas descrições da catedral parisiense. Logo nas primeiras páginas deparamos com um universo encantado bem típico do romantismo literário de Hugo: diabos, feiticeiros, casas mal-assombradas e outras crendices, muito populares e com muito humor. Aliás, em algumas passagens, esta parece ser a obra mais bem-humorada de Hugo. Por exemplo: diz-se que Voltaire resultou de uma visita do diabo ao leito conjugal dos seus pais, quando o pai dormia profundamente…
Este livro foi escrito na fase final da carreira, quando a maturidade de Hugo enquanto escritor vem ao de cima, com descrições muito visuais e sem o peso de grandes parágrafos descritivos como aconteceu noutras obras. As frases são mais curtas e objetivas. O sentido de humor está sempre presente, mesmo nos episódios mais dramáticos.
Mess Lethierry, por exemplo, é um personagem muito interessante. Grande símbolo do investimento industrial, nessa fase de afirmação do capitalismo industrial, ele representa uma nova vaga de homens empreendedores, pouco agarrados ao passado. Por exemplo: ele não gosta dos padres porque eles viam com maus olhos as suas inovações na navegação.
Aliás,o aspeto religioso é tratado neste livro de uma forma muito curiosa. A ação decorre na ilha de Guernesey, no canal da Mancha. A ilha tem duas religiões-católica francesa e protestante inglesa. Mas nenhuma agradava a Mess Lethierry. Ao investir na Durande, um moderno barco a vapor, ele demonstrou ser um homem dos novos tempos. Nessa época, um especialista de Paris dizia que investir no vapor era “Conversão de dinheiro em fumo” uma vez que as velas eram preferíveis.
A segunda parte do livro tem uma dimensão de epopeia; vem ao de cima o naturalismo romântico, com as suas tempestades e catástrofes naturais, exibindo a pequenez do ser humano perante as forças da natureza. Nesta fase, as descrições de Hugo têm qualquer coisa de épico; aquele mar tenebroso, aquelas rochas assassinas, as grutas escuras, medonhas… Gilliat no meio de tudo isso, é uma espécie de Hércules, ou de um super-homem, quando tenta desencalhar o navio. Gilliatt é um homem em luta com os seus limites. É assim o romantismo literário: grandioso, belo e exagerado. Faz lembrar as pinturas românticas de William Turner com o mar tumultuoso como tema.


“Os ventos correm, voam, abatem-se, expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: frenéticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascível.
Têm harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céu. Sopram nas nuvens como num metal; embocam o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma espécie de tangeres prometeanos. Quem os ouve, ouve Pã.”
(note-se que a edição que li foi a edição brasileira com tradução do grande Machado de Assis)
E que intelectualidade! Talvez nunca tenha existido um escritor que tão bem estudou os assuntos sobre os quais escreveu.
De todos os livros de Hugo que li até agora, este é seguramente o mais pobre em termos de enredo mas talvez o mais bem escrito e, com certeza, o mais bem traduzido para língua portuguesa.
E o final não deixa de corresponder a todos os cânones românticos…

terça-feira, 5 de março de 2013

O Noventa e Três - Victor Hugo




Até onde pode um ser humano chegar, quando se encontra nas situações mais extremas que se podem imaginar? Esta pergunta poderia ser o subtítulo desta obra. O extremo do sofrimento, o limiar da raiva contida, o limite da injustiça… tudo neste livro nos faz tremer; é inacreditável até onde pode chegar o ódio, a violência do ser humano sobre o seu semelhante, em nome de ideais que por vezes nem se conhecem, por obediência a líderes que nada têm de benevolentes.
A luta contra a injustiça e a denúncia de uma sociedade fundada sobre a desigualdade, conferem a Victor Hugo o estatuto de escritor revolucionário mas, acima de tudo um grande e profundo humanista. A sua própria dor sente-se nas linhas da sua escrita. A dor de quem escreve com alma, com a paixão pelos ideais da Revolução francesa, mas com toda a consciência dos excessos dos próprios revolucionários que, em nome da justiça não hesitavam em cometer os mesmos crimes e a praticar a mesma violência.
Gouvin é o herói romântico que Hugo escolheu para representar o revolucionário que, esse sim, procurou combater o mal com o bem. Acabará mal, como é lógico.
O enredo desenrola-se no ano do título, em plena guerra da Vendeia, que opôs os revolucionários republicanos, herdeiros da Revolução Francesa, proclamando os ideias de Liberdade, Igualdade e Fraternidade e, do outro lado, os realistas, saudosistas da monarquia, com o apoio dos interesseiros ingleses.
Um dos aspetos que mais impressiona o leitor, nesta obra, é desapego dos personagens em relação à própria vida; é a forma por vezes heroica, outras vezes louca como enfrentam a violência do inimigo, com que se expõem às balas. E no meio de heróis uns e idealistas outros, o povo de pé descalço; milhões de soldados miseráveis jogando a vida como se a morte fosse o destino fatal de uma procura a que chamam vida.
Escrito em 1874, quando V. Hugo contava já 72 anos, este livro é o culminar de uma carreira literária brilhante; é a súmula de uma imensa obra, onde brilham estrelas como Os Miseráveis e Nossa Senhora de Paris. Sem a profundidade histórica do Corcunda de Notre Damme e sem a beleza e a profundidade de Os Miseráveis, este O Noventa e Três compensa o leitor com um ritmo narrativo alucinante, privilegiando os diálogos e a emoção do enredo.
Sem dúvida, mais uma obra grandiosa da enorme literatura francesa do século XIX.
Obrigatório para quem aprecia a grande literatura universal.
Nota dez em dez.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis - Victor Hugo




A primeira fase do livro dá o mote: trata-se de uma obra de grande sensibilidade humana e enorme qualidade literária.

O “arcaboiço” intelectual de Victor Hugo permite-lhe intercalar análise histórica e crítica social e política com um enredo de ficção simplesmente apaixonante.

Mas comecemos pelo início: o abade Myriol é a personificação da bondade; chega a ser comovente. É o exemplo perfeito do clérigo humilde, bom e justo, bem diferente daquele clero que a revolução francesa pintara com tons bem diferentes (note-se que o enredo se passa na fase final do governo de Napoleão quando os exageros da revolução estavam já ultrapassados.) Aliás Vítor Hugo representa já uma opinião muito mais serena sobre a revolução, concordando com a necessidade de combater as injustiças sociais mas com uma visão muito mais pacífica.
Profundamente convicto das injustiças socias, o abade é o grande defensor dos pobres. A defesa dos indigentes e a compreensão dos defeitos da alma humana levam-no a apor-se à pena de morte e a todos os excessos da justiça humana. A guilhotina é vista como um monstro poderoso que devora a vida humana e tem um papel misteriosamente poderoso sobre as pessoas.
Mesmo sendo pragmático, o bispo não despreza a beleza das flores. A criada propõe substituir as flores por alfaces, ao que ele contrapõe: “O belo é tão necessário como o útil. Ou até mais” (página 43)

No diálogo com o Senador Hugo expõe-nos a filosofia materialista como uma espécie de conforto para os ricos. Aos pobres, a esses, resta-lhes Deus
A crítica social não escapa a Victor Hugo: grande parte do poder deve-se à imagem que as pessoas criam e não ao seu mérito. Ontem como hoje.
Só depois entra em cena Jean (não consigo aceitar esta tradução para João) Valjean. Depois de 19 anos condenado a remar nas galés é desprezado por todos exceto pelo abade que o acolhe prestando-se mesmo a ser roubado.
Crítica de Hugo à justiça: J. Valjean (daqui para a frente nomeado JV) tinha sido duramente castigado por roubar pão. O pobre é sempre castigado duplamente: porque é pobre e porque é forçado a roubar em virtude de ser pobre. E o que fez a justiça? Fez um cidadão melhor? “Quando entrou para as galés ainda não tinha perdido a bondade. Ali condenou a sociedade e tornou-se mau. Condenou a Providencia e tornou-se ímpio.” O homem, que saiu bom das mãos de Deus, tornava-se mau em virtude da (in)justiça dos homens.
Durante 19 anos JV desaprendera de chorar. Os sentimentos esvaíram-se. Após a noite em casa do bispo, JV chorou. A consciência moral voltara. “Quem roubara não fora ele; não fora o homem mas a besta.”

Fantina e o seu namorado, Tholomyés, são duas personagens típicas, representando dois arquétipos sociais: ela, ingénua e simples, inocente e honesta. É filha do povo. Desabrochara ”do seio do povo!”, diz o autor. Pelo contrário, o seu apaixonado é o arquétipo do estroina rico que, com 30 anos é praticamente um inútil perante a sociedade. Esta devassidão de Tholomyes está bem patente no facto de ter desaparecido perante a gravidez de Fantina.
Nesta fase do livro, Victor Hugo carateriza o povo de Paris como um povo fraco, constituído por “homúnculos”. Em 50 anos após a grande revolução, parece que o povo da cidade tinha enfraquecido, tornando-se fraco e impotente.
Entretanto, Fantina procura trabalho e deixa a filha ao cuidado do casal Thénardier. Este casal representa aquele que é, para Hugo, o grupo social mais abjeto: aqueles pobres que atingiram um estatuto um pouco superior ao povo miserável mas inferior à classe média. Assim, não possuem a honestidade do burguês nem a bondade do pobre.
O senhor Madaleno é um homem bom que chega a Maire de Montreuil sur mér. Admirado por todos, ele beneficia da proteção do bispo de Digne, monsenhor Myriel, que havia falecido em 1821. (Mais adiante descobrir-se-á que Madaleno é Valjean). Nesta fase do enredo o anti-herói é Javert, o inspetor que representa aquele estereótipo de polícia que, sob a capa do rigor é absolutamente arbitrário e repressor.

A escrita de Hugo atinge os píncaros da emoção ao descrever os sacrifícios incríveis que Fantina faz para alimentar a filha, ou melhor, a cobiça do casal de estalajadeiros.
Esta é a crueza de linguagem e a sensibilidade humana, ao nível social, que haverão de marcar em definitivo o realismo literário. Notável, sem dúvida!
 JV debate-se com a sua própria consciência. Até que ponto é justo ceder a uma justiça basicamente injusta? Por outro lado, Victor Hugo (VH) parece apontar para esta ideia: a consciência é apanágio dos pobres.

A descrição da batalha de Waterloo é um exemplo do estilo e da mentalidade romântica que ainda subsiste em VH: um certo triunfalismo em relação ao espírito patriota que demonstra, típico dos escritores românticos. Mas, ao mesmo tempo, VH foge ao romantismo exibindo características realistas, por exemplo nas descrições quase cinematográficas da batalha. Imagens realistas, mas sempre com emoção e sensibilidade humana.
Para VH, Waterloo é a vitória da racionalidade sobre a emoção.
 Na abordagem ao papel do clero, VH deixa claro um criticismo quase radical ao clero regular, principalmente feminino. Por um lado admira as freiras pela sua dedicação e desprendimento, por outro é mordazmente crítico por considerar totalmente irracional o seu estilo de vida. Considera os mosteiros e conventos inúteis, nefastos e mesmo violentos.
 A escrita de VH envolve um humanismo, uma delicadeza e uma sensibilidade humana impressionantes. Mais do que um grande escritor, VH foi, sem dúvida, uma grande alma, um daqueles homens a quem a humanidade inteira fica em débito para toda a eternidade.
Dois exemplos deste humanismo:
    a)     Vendo passar um grupo de presos miseráveis, Cosetta pergunta a JV: Aquilo são homens? JV responde: Às vezes, disse o miserável…
      b)      O pequeno Gavroche rouba um saco de moedas ao ladrão Montparnasse e embora passando fome dá-o, anonimamente, ao miserável velho Mabeouf.

Os dilemas morais são um dos alicerces deste romance. VH coloca sempre o leitor perante um mistério, levando a que seja o próprio leitor a desvendá-lo. Por outro lado, confronta o leitor com grandes dilemas morais.
O dilema de Mário: o pai havia falecido no justo momento em que Mário o encontrou. A sua última vontade foi que ajudasse Thenardier por este lhe ter salvo a vida em Waterloo. Mas Mário descobre que Thenardier é o pérfido bandido Jondrette que não só ameaça roubar o seu benfeitor JV como prender e quiçá matar a sua amada Cosette. Fazer justiça e entregar Jondrette ou cumprir a vontade do pai e ajudá-lo?
Toda a análise histórica de VH é profundamente crítica: “Dizer: os homens hábeis é o mesmo que dizer: os medíocres” – uma crítica à classe política, pelo seu oportunismo.
Na parte final do romance, todo o mal é encarnado pelos Thenardier; eles são miseráveis de corpo mas também de alma. Parece que JV e Mário são os miseráveis que resistem à miséria da alma. Preservam-na a todo o custo. Porque o normal é a miséria invadir a alma levando os miseráveis a perder toda a dignidade humana, como acontece com os Thenardier mas também com os bandidos, nomeadamente Montparnasse. JV luta contra a injustiça do corpo e da alma. Luta para manter a humanidade.

A última fase do livro desenrola-se em torno dos acontecimentos revolucionários de 1833. Entre os revoltosos, é comum encontrarmos uma boa quantidade de bêbados e outros devassos. Na verdade, as barricadas são muitas vezes encaradas como uma espécie de festa popular. Mas esse é também um meio de expressão da própria revolta.
Outro tipo de revolucionário é o idealista. Estes são geralmente os líderes. Enjolras personifica aqui esse idealismo revolucionário, com um rigor por vezes impressionante, como naquele episódio em que Enjolras executa Claquesous por este ter abatido um porteiro.
 VH faz um enorme elogio ao povo, na História: em Roma, na Holanda, em Atenas e com Jesus Cristo. As barricadas são um símbolo desse poder popular, sem manipulação burguesa, com idealistas “nobres” como Enjolras, com jovens que nada têm a perder, como Mário, e até com crianças aventureiras, corajosas e de bom coração, como Gavroche. Esta criança tem uma grande valor simbólico na obra: ele simboliza a coragem de todo um povo. Ele “dribla” as balas cantando.
Há uma crença clara na utilidade destes sacrifícios: com a República, acabam as guerras. O elogio à revolta popular está bem patente nesta frase: “A Revolução Francesa é um gesto de Deus”. Os heróis deste livro são aqueles que mantinham viva a chama da Revolução Francesa, iniciada mais de 60 anos antes: “o livro que o leitor tem neste momento diante dos olhos é (…) a marcha do mal para o bem, do injusto para o justo, do falso para o verdadeiro.
VH manobra com mestria os dilemas morais das personagens; Javert vê-se num terrível dilema: prender JV ou recompensa-lo com a liberdade porque o salvara? Impressiona-o que JV responda ao mal com o bem.
Entretanto, JV sente a mais terrível das condenações: a ausência de sentir; a falta de uma razão para existir. “Que é isto, voltar para as galés comparado com isto, voltar ao nada?” De facto, um dos maiores valores da obre de VH é a força interior destes personagens.

Em suma: pouco mais há a dizer senão isto: estamos perante uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Pelo marco histórico; pelo significado em termos de mudança de paradigma literário (do romantismo ao realismo) e, acima de tudo, pelo intenso e quase sufocante humanismo de Victor Hugo.

domingo, 31 de outubro de 2010

Nossa Senhora de Paris - Victor Hugo

(Leitura conjunta no Blogue Destante)
Victor Hugo inicia o romance enunciando um propósito bem claro, típico de qualquer escritor Romântico: o elogio da Idade Média, mais exactamente da arquitectura gótica. Trata-se de uma crítica ao racionalismo renascentista e iluminista que marcou o século anterior ao de V. Hugo.
A narrativa inicia-se com o episódio da “Festa dos loucos”. Trata-se de uma festa popular realizada no dia de Reis, em que o povo efectua uma autêntica catarse, vociferando, gritando contra tudo e todos: padres, doutores, juízes, etc. Tal como acontece no final do primeiro volume, aquando do castigo público de Quasimodo, é visível a opinião de Hugo sobre o povo: vítima da sua própria ignorância que é lamentável e descaradamente cultivada pelos mais poderosos. A festa dos loucos e um chicoteamento público são oportunidades quase únicas que o povo tem de se expressar, da mesma forma que a arquitectura é quase a única forma de expressar o pensamento do homem medieval.
O povo parece ser visto, por Hugo, como algo de exótico, algo multicolor, como se as pessoas fossem actores exóticos, estranhos mas cativantes pelo insólito. É como se Hugo pretendesse mostrar-nos a História como uma espécie de caleidoscópio ou de espectáculo circense.
Quem está habituado a ouvir falar desta obra pela adaptação ao cinema infantil surpreende-se ao ler este livro; os seus propósitos estão muito longe de se restringir a uma estória divertida para as crianças.
Podemos dizer que a catedral de Notre Dame é o personagem mais importante do primeiro volume. O sineiro Quasimodo, criança e jovem disforme, renegado pelos pais e por toda a sociedade, não é mais do que uma extensão da própria catedral. Há uma espécie de fusão entre estes dois personagens, um de carne e osso e o outro de pedra. Quasimodo confunde-se com essas pedras. Também ele é um produto da sociedade; o monstro que os outros vêm nele é o monstro que esses outros criaram.
A partir daqui, Hugo parte para uma espécie de ensaio sobre a arquitectura como expressão artística. Victor Hugo admira a arquitectura gótica, considerando-a o expoente máximo da arte da pedra.
Ao longo do segundo livro, ganha forma um retrato idílico de Esmeralda, a bela cigana que despertará amores inesperados e impossíveis: Quasimodo e Claude Frollo, o sineiro corcunda e o padre alquimista disputarão os impossíveis favores do coração de Esmeralda. Obviamente, amor e tragédia caminharão de braço dado ao longo desta aventura.
Esmeralda é jovem, bela, pura, ingénua, bondosa, alegre e inteligente. Que mais poderiam desejar um corcunda e um padre? Mas nem tudo (ou quase nada) são rosas na vida da bela cigana: a presença de uma cabra inteligente como companhia inseparável, a sua condição de cigana com todos os preconceitos e ódios que isso acarreta fazer de Esmeralda uma candidata permanente à (in)justiça popular, eclesiástica e civil. Sem culpa formada, ela será sempre perseguida.
Na minha opinião, neste segundo volume e talvez mesmo em toda a obra, o personagem mais importante é Claude Frollo, o arcediago de Notre Dame. Ele é um clérigo que representa a tentativa de conciliação da ciência com a mais profunda superstição medieval – ele procura a grande quimera dos tempos medievais: fabricar ouro por processos químicos. Por outro lado, Frollo representa um clero retrógrado que nunca soube conciliar a religião com a bondade e compaixão que a deveriam caracterizar. É pregando a Bíblia que Claude pratica as mais atrozes injustiças, permitindo as torturas de Quasimodo e Esmeralda. Mau grado o amor que sente por Esmeralda, mau grado o afecto paternal por Quasimodo, Frollo é impiedoso na forma como permite os seus sacrifícios públicos, preferindo pactuar com a injustiça “oficial”. Victor Hugo exprime, através deste personagem toda a sua aversão ao Clero, bem como à maldade e ignorância que representa.
Depois de permitir que Esmeralda fosse torturada e condenada à morte, depois de tentar assassinar o seu apaixonado, Claude faz uma arrebatada e inacreditável declaração de amor. É o culminar de uma hipocrisia que não é só sua; é de uma mentalidade e de uma sociedade baseadas no abuso da desigualdade, da injustiça e da ignorância.
Comentário mais desenvolvido aqui e aqui.