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domingo, 25 de maio de 2014

Beatriz e Virgílio - Yann Martel


Sinopse:
Henry, um escritor reconhecido, decide escrever um livro, meio ficção e meio ensaio, como forma de abordar todos os aspectos de um mesmo tema. Completamente desencorajado pelos seus editores, desiste do projecto e vai viver para outra cidade. Aí, contudo, continua a receber cartas de leitores e, um dia, um taxidermista escreve-lhe a pedir ajuda. Henry apercebe-se então de que estão ambos a tentar escrever sobre o mesmo tema. Um livro polémico e provocador, que confirma o autor de A Vida de Pi, o Man Booker Prize de 2002, como um dos mais surpreendentes escritores canadianos da actualidade
in wook.pt
Comentário:
É sempre ingrato voltar a um autor que se revelou genial num primeiro livro. Foi o caso de magnífico "A vida de Pi", um livro encantador que venceu o Man Booker Prize de 2002. Agora, doze anos depois, empreendi a leitura deste Beatriz e Virgílio sem conseguir desligar-me dessa memória. Por mais que o nosso cérebro saiba que não devemos fazer comparações, elas são inevitáveis e a verdade é que este livro não me encantou como acontecera com o seu antecessor.
No entanto, estou muito longe de considerar esta obra como um mau livro; por um lado, dececionou-me a fragilidade estrutural do livro, as hesitações narrativas e a forma titubeante como o autor entra no verdadeiro assunto do livro, com muitos rodeios e, aparentemente, com uma certa fuga ao âmago da questão.
Por outro lado, encantou-me o facto de o autor pretender e conseguir fazer uma abordagem diferente do holocausto. Talvez não haja assunto mais estafadamente abordado na literatura de ficção como o holocausto. Por ter consciência disso, o protagonista do livro é um escritor que tenta aquilo que o próprio Martel persegue: uma leitura diferente do referido fenómeno. E consegue-o de uma forma quase brilhante.
O livro assume uma curiosa forma de fábula, em que Virgílio e Beatriz (personagens da Divina Comédia de Dante, em que Beatriz representa a fé e Virgílio a razão) são, neste livro, respetivamente, um macaco e uma burra. Ambos são vítimas um drama absolutamente chocante que funciona como metáfora do holocausto. Ficção sobre a realidade, evidentemente; "A ficção talvez não seja real, mas é verdadeira." É esta perspetiva que justifica o recurso à metáfora; levar o holocausto ao domínio da ficção é elevá-lo, é perpetuar a memória: "Se a história não se transforma em estória, morre para todos exceto para o historiador." É que a realidade escapa-nos sempre... nós é que não podemos escapar dela. É por isso que o holocausto nunca será um tema estafado nem ultrapassado.
O sentimento contraditório que este livro me provocou, de um certo enfado por um lado e de admiração por outro repercute-se também na forma como enfrentei o final do livro: chocante mas tremendamente real, excessivamente dramático mas de uma beleza admirável. O escritor protagonista do livro, com tons marcadamente autobiográficos, enfrenta um poderoso personagem envolto em mistério, um especialista em embalsamamento de animais. Esse personagem enigmático, revoltante, monstruoso dá ao livro um caráter sombrio mas, ao mesmo tempo, carregado de simbolismo e de força. No entanto, algo soa a excessivo neste livro; algo barroco, mesmo, pelo drama mas também por uma estética que me pareceu algo pretensiosa.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Vida de Pi - Yann Martel

Pi é um personagem fascinante, daqueles que qualquer leitor gravará na memória; e A Vida de Pi é um livro único. Belo, fantástico, soberbo.
Pi teve uma infância extraordinária: um professor comunista, um pai apaixonado por animais e três religiões que mostravam a Pi todo o encanto que pode haver na religião: mundos de paz, de bondade e de comunhão com a natureza. As religiões não têm de ser o meio fértil dos ódios, guerras e fanatismos. Talvez só os indianos percebam esta beleza. Até neste aspecto este é um livro único: bem diferente daquelas visões tenebrosas da Índia que a literatura nos tem oferecido. Não se trata aqui da Índia corrupta e miserável, mas da Índia mística e profunda, bela e guardiã dessa paz interior a que chamam misticismo.
Mesmo tratando-se de uma história bastante dramática, Martel não prescinde de um sentido de humor fino e discreto numa escrita sentida, simples e profunda, com um envolvimento filosófico que dá à obra uma grande riqueza de conteúdo.
As magníficas descrições da vida animal não se restringem a uma abordagem romântica e bucólica: a luta pela sobrevivência no barco naufragado assume contornos de extremo dramatismo; a luta pela vida e a impiedosa ausência de sentimentos exigem que a sobrevivência apele ao egoísmo. A crueldade é levada ao extremo. No entanto, quando Pi se encontra no alto mar, meses a fio, junto de uma fera de dois metros de envergadura, a esperança nunca vacila. A vida vai perdendo sentido, a espera corrói a esperança mas nunca a destrói. O medo que lhe desgasta a alma é o mesmo medo que lhe serve de defesa.
Na sinopse deste livro fala-se de uma mistura entre o real e o absurdo. Mas trata-se, por assim dizer, de um absurdo real, um absurdo que se cristaliza em situações reais e objectivas: o rapaz e a fera frente a frente, rivais e aliados, o instinto e a razão, ambos presas e predadores. Entre Pi e o tigre não há uma relação de aliança; não há romantismo nesta história; há o matar e o morrer, a morte e a sobrevivência.
Um rapaz e um tigre, sozinhos num barco salva-vidas, em pleno Oceano Pacífico, durante sete meses. Não se trata de um tema particularmente propiciador de um enredo interessante. No entanto, Martel consegue-o com mestria, transformando um quotidiano monótono num drama permanente, numa narrativa sempre emocionante. Em algumas passagens, este livro assemelha-se ao mais assombroso documentário do Nathional Geographic. Aliando uma fértil imaginação a um conhecimento profundo do mundo animal, o autor cria situações magníficas como um impensável combate entre um tigre e um tubarão, numa luta que deixa o leitor aterrado e ao mesmo tempo maravilhado.
Na luta permanente entre o homem e o animal não é a inteligência daquele nem a força deste que triunfa; é a força mental. O querer. A vontade. É na vontade que reside todo o heroísmo e o maior herói é aquele que consegue desafiar os limites da resistência. Esse heroísmo é servido, no entanto, por uma arma poderoso – a esperança. É a capacidade de sonhar que salvará Pi. É o sonho que nos comanda a vida, afinal.
Num dos episódios mais belos deste livro, Pi vai parar a uma ilha fantástica, onde depara com algas carnívoras e lagos que transformam a água do mar em água doce. Esse episódio ilustra com mestria a linha ténue que separa a realidade da fantasia; ou melhor, que ilustra na perfeição a beleza real que há na fantasia.
O final do livro é belíssimo por envolver uma mensagem extraordinária: por vezes a realidade é muito mais bela que a fantasia.
Avaliação pessoal: 9.5/10