sábado, 22 de janeiro de 2005

Madame Bovary - Gustave Flaubert

Se vivesse no século XXI, Madame Bovary seria cliente assídua de um qualquer psiquiatra. Tomaria doses generosas de sedativos, barbitúricos e anti-depressivos. Mas no mundo fechado da sociedade pequeno-burguesa do século XIX francesa, Emma só encontra a fuga no amor. Num amor puramente carnal, talvez por isso o mais puro. Num amor furioso e desmedido, Madame Bovary, vítima de um marido estúpido e incapaz de a fazer feliz refugia-se no adultério, a partir do qual procura construir uma outra vida. Tudo isso a troco de uns laivos de felicidade que a normalidade, triste e monótona, lhe negava. Enclausurada num mundo em que ser mulher virtuosa significava a negação do ser individual, procura no adultério esse direito que a civilização lhe recusava: a liberdade e o direito a ser feliz. O casamento como convenção. O sexo como redenção. Charles, o marido, é um pobre diabo, vítima da sua própria estupidez, que o torna incapaz de compreender Emma. É neste ponto que Flaubert se torna implacável. Afinal de contas, que culpa tem alguém de ser estúpido? Mereceria Charles tão grande castigo? No entanto, Charles era feliz enquanto Emma alimentava o seu espírito com o ardor do amor proibido. E a felicidade de Charles fundava-se na mentira, na ignorância. Talvez a mentira seja justificada por essa espécie de felicidade. Numa outra perspectiva, a obra poderia ter tido um título como “O triunfo da Estupidez”. No final, o triunfo é desse ícone da estupidez, o farmacêutico Homais. Mas o que mais marca esta verdadeira obra prima da literatura francesa é, sem dúvida, o elogio da liberdade, a redenção da mulher infiel, o encómio de um amor proibido mas redentor que faz de Emma uma verdadeira heroína. Ao mesmo tempo é um poderoso ataque frontal ao conservadorismo da sociedade burguesa do início da época contemporânea.

domingo, 16 de janeiro de 2005

Um Mundo Infestado de Demónios - Carl Sagan

O melhor divulgador científico que a Humanidade já conheceu e um dos homens maiores de todos os tempos escreveu esta obra um ano antes de morrer, vítima de uma estúpida e fatal doença. A pseudo-ciência é um dos alvos da crítica mordaz mas esclarecida de Sagan, por vezes aliada ao poder político, outras vezes sustentada pela crendice, cujo sucesso se deve à facilidade com que acreditamos naquilo que nos fascina. O fascínio é, na verdade, mais poderoso que a verdade. O “rosto humano” da Lua e os “canais de Marte” são dois exemplos práticos de mitos do século XX que prevalecem porque se baseiam na fantasia que encandeia qualquer cérebro desprevenido. Na verdade é fácil acreditar naquilo que se deseja ser verdadeiro. Um dos alvos mais insistentemente visados por Sagan é a crença nas visitas alienígenas. No entanto estas crenças estão muitas vezes ligadas a interesses económicos e políticos que Sagan combate poderosamente. Por exemplo, o secretismo que rodeou a Guerra Fria justificou a desconfiança quanto a informações governamentais. Tal secretismo forneceu o ambiente propício à propagação das “visões” e das crenças. Num terreno extremamente movediço, Sagan arroja-se a relacionar as crenças pseudo-cientificas do século XX com o contexto da religião cristã tradicional que criara fenómenos como a Inquisição, integrando também nesta análise as falácias das visões milagrosas da religião católica. No entanto, fica clara nesta obra a tolerância de Sagan perante toda e qualquer crença religiosa. Não é a religião que está em causa mas apenas as tentativas de explicar fenómenos científicos mediante a crença. A estupidificação da América, na palavra de Sagan é o drama maior do seu/nosso tempo, apontando o dedo a toda uma plêiade de embustes como curandeiros e prestidigitadores que se servem da ignorância das pessoas. No entanto, aponta também o dedo às estruturas do poder político como responsáveis por um sistema educativo ineficaz que permite e até cultiva a ignorância. A relatividade do conhecimento científico, é, no entanto, um facto indesmentível. E é com grande modéstia que Sagan admite os seus próprios erros. Admite também com frontalidade as consequências por vezes dramáticas do progresso cientifico, apontando como exemplo as investigações de Teller que levaram à bomba de hidrogénio. O livro tem como ponto alto a explicação das temíveis equações de Maxell. Talvez nunca ninguém tenha explicado de forma tão simples e atractiva aquelas complicadas relações entre electricidade e magnetismo. Um exemplo de como as ciências matemáticas podem ter implicações práticas preciosas. Nesta obra é impressionante o respeito de Sagan por ideias e concepções tão afastadas da ciência! Ideias que ele reprova liminarmente são sempre analisadas com aquela tolerância que só o conhecimento científico e uma mente brilhante podem suscitar. Impressionante também é o optimismo inabalável perante a ciência, em contraste com uma visão deprimida, profundamente pessimista com que Sagan vê a sua América! Ontem como hoje! Que diria Sagan da América de W. Bush?

sábado, 15 de janeiro de 2005

A Demanda de D. Fuas Bragatela - Paulo Moreiras

Fuas Bragatela, peão e vilão do século XIV, embora distante no tempo, é a imagem do cidadão português do século XXI: iletrado mas espertalhão, pacóvio mas desenrascado. Analfabeto, ignorante, ladrão e bêbado, é uma alma pura e ingénua, vítima do destino que o fez desgraçado. Plebeu da pior espécie é feito Dom por um acaso tolerado pelo Deus dos pobres. Filho de alfaiate miserável, desafiou o destino à procura de um qualquer e honrado futuro. O livro retrata com fidelidade uma época que constitui um autêntico filão para a literatura: o ocaso da Idade Média e o início da época moderna, na madrugada do renascimento e da epopeia dos descobrimentos. O cenário é um Portugal onde persiste o obscurantismo medieval, um país de bêbados e ladrões. Fuas é vítima e actor de todo esse mundo ingrato e desgraçado, onde pululam lendas e crendices, um cosmos fantástico, a tentar iludir uma realidade triste, injusta e revoltante. Ao ler este livro sente-se o mais profundo prazer da leitura – uma linguagem fiel ao português arcaico, riquíssima e plena de sentido de humor. O enredo é repleto de pormenores fieis à realidade histórica, sem anacronismos nem exageros. Esta fidelidade não impede, no entanto, o uso de uma imaginação impressionante. A obra peca apenas pelo incrível exagero nas coincidências factuais que povoam o enredo, tornando-o algo inverosímil.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Bouvard et Pécuchet - Gustave Flaubert

Uma caricatura genial de um tipo de conhecimento superficial e fútil, típico de uma burguesia pedante que pululava na sociedade francesa daquele tempo (segunda metade do século XIX). No entanto, a caricatura mantém-se actual, nesta época em que se cultiva o conhecimento “trivial pursuit”. Mas a obra é muito mais que uma caricatura. É uma crítica mordaz e divertida (por vezes hilariante) à ignorância e à soberba. È uma lição de como o conhecimento enciclopédico de nada serve quando não é guarnecido de inteligência ou, pelo menos, de sentido de adaptação à realidade concreta. Sem a flexibilidade, o espírito crítico e a tolerância do espírito inteligente, o saber refugia-se em preconceitos e ideias feitas. No fundo, Flaubert estabelece uma certa identificação da inteligência com o espírito crítico, entendido como forma de avaliar diferentes perspectivas e conciliar opiniões contrastantes. Duas características fundamentais da escrita de Flaubert, para além daquele espírito crítico típico da escola realista: o sentido de humor onde o nosso Eça se inspirou e um extraordinário domínio de vários ramos do saber, indispensável para colocar em ridículo as convicções dos “heróis”. Destaque ainda para um final absolutamente surpreendente e genial, embora apenas esboçado, pois a morte surpreendeu Flaubert antes do termo da obra.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2005

O Sol Nasce Sempre (Fiesta)- Ernest Hemingway

Trata-se do primeiro romance de E. Hemingway. Talvez por isso denote uma objectividade de linguagem, uma “simplicidade” assinalável. Mas talvez se trate algo mais: ele consegue construir uma narrativa apenas aparentemente simples: aquilo que escreve são apenas pistas que levam o autor a recriar um enredo mais profundo, como se o autor apenas precisasse de aflorar a ideia, contando com o leitor para construir o quadro. O que mais se destaca nesta obra é a forma pungente, amargurada com que Hemingway aborda o ser humano. Este livro foi escrito em plena década de 20. O mundo (saído da guerra) perdera a inocência e a crença num futuro cor-de-rosa. Daí que deambulasse, como as personagens do romance, entre o terror da morte e o desvario do prazer. Emoções devastadoras, amores confusos e avassaladoras, culminam no entanto num final comovedor, subtil e delicado. Hemingway revela aqui uma visão profundamente amargurada do ser humano. Mas também uma delicadeza emocionada com que analisa a alma humana – uma visão quase ingénua, profundamente crente na bondade humana e na capacidade de amar. O mundo não é mais do que um enorme obstáculo à felicidade. Enfrentá-lo é, no entanto, o único caminho para essa mesma felicidade.

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Uma história de ficção cientifica que ultrapassa largamente o âmbito usual do género. Bradbury imagina a sociedade americana mergulhada numa ditadura da democracia onde se condena sem piedade tudo quanto é susceptível de causar perturbação no sistema. Este baseia-se num ideal de igualdade social fundada sobre o obscurantismo, o culto da ignorância, a ausência do pensamento. Os livros tornam-se assim o inimigo a abater e os bombeiros são os soldados do sistema, encarregados de destruir toda a literatura. É preciso abater o espírito humano para diminuir qualquer consciência de inferioridade ou de injustiça. O homem culto é o inimigo da sociedade. É desestabilizador como o aluno “esperto”, que responde a todas as perguntas, é o alvo a abater por todos os elementos da turma. Desta forma, todas as minorias devem ser abatidas, porque escapam ao modelo universal de homem comum, ignorante e obediente. Os livros trazem desigualdade e consciência dessa mesma desigualdade. Portanto, provocam desobediência, logo, são nefastos. Para que a sociedade continue a caminhar para a “harmonia”, o indivíduo não pode ter opções; não pode ter o que escolher. A autoridade deve oferecer-lhe tudo aquilo que é considerado indispensável. Mais do que isso, é função da autoridade fornecer ao indivíduo um modelo único onde se deve integrar plenamente. Em conclusão, não se trata de uma obra de ficção científica mas de um livro premonitório. Escrita em 1953, em pleno pós guerra que abria o caminho à guerra fria, a obra de R. Bradbury parece tornar-se o “1984” do mundo ocidental, nomeadamente do modelo capitalista e neo-liberal norte-americano.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

A Linha da Sombra - Joseph Conrad

A Linha da Sombra é uma curta mas complexa reflexão sobre a insignificância do homem perante a Natureza e o Tempo. É uma obra sobre a vida humana. O Comandante é a imagem assumida da fraqueza humana, a personificação do carácter quase insignificante do ser humano quando se confronta com a Natureza. Mas a obra de Conrad vai muito mais além. A complexidade das suas reflexões transforma esse tema de fundo numa autêntica trivialidade. É, acima de tudo, uma relexão sobre as diferentes fases da vida, sobre a transição da juventude para a maturidade. Tal maturidade é encarada com um estado de decadência, simbolizada pelo mar calmo, assustadoramente calmo, que impede o navio de seguir viagem. É, por isso, uma obra angustiada e angustiante, uma expressão de melancolia e pessimismo que enreda o leitor numa história monótona, penosa, quase moribunda. As palavras e as frases arrastam-se como o tempo, como a vida adulta… E a vida vai perdendo sentido quando tudo é estagnação, torpor e um medo passivo que conduz à inércia, à impotência. Não é um livro divertido nem apaixonante. Os primeiros capítulos parecem navegar sem sentido definido e o enredo caminha desesperadamente devagar, como o navio e como a morte…

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Lolita - Vladimir Nabokov

Levado ao cinema por nomes como Kubrick e Lyne, trata-se, para muitos, de um livro polémico e maldito. O filme de Lyne, por exemplo, foi proibido nos EUA. “Inquietante” é, talvez, o melhor adjectivo para caracterizar este livro. O tema da pedofilia é, desde logo, um campo fértil para construir um romance polémico e dramático. Mas tudo se torna muito mais perturbador quando se expõe a tendência pedófila da forma que Nabokov o faz. Humbert apaixona-se por uma “ninfeta” de 12 anos. À partida qualquer um de nós conotaria Humbert, neste momento e sem ler o livro, como um monstro criminoso. No entanto, Nabokov faz dele um homem como qualquer outro com as suas fraquezas e qualidades, ao ponto de, por vezes, despertar compaixão. Seja como for, todo o enredo segue linearmente a obsessão de Humbert, caindo mesmo numa certa pobreza de conteúdo e numa previsibilidade que retiram parte do interesse que um tema como este pode suscitar. Nabokov faz, no entanto, uma radiografia profunda, polémica e inquietante da mente pedófila de Humbert. O que mais impressiona o leitor desprevenido é a convicção de que a pedofilia pode não ser um simples comportamento aberrante, nem uma doença mas sim uma forma de amor tão natural como qualquer outra. No plano puramente sensorial há, evidentemente, situações muito chocantes com episódios verdadeiramente inquietantes: Humbert chega mesmo a desejar a gravidez de Lolita para que esta lhe proporcione uma futura ninfeta e projecta até uma terceira geração de Lolita para seu deleite. Mas é no plano psicológico que o livro atinge o limite do chocante: a paixão é avassaladora e Humbert, no fundo, é uma vítima de um amor proibido, embora martirizado pela culpa. Poderá a pedofilia ser encarada desta forma nos tempos que correm?

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Trilogia de Nova Iorque - Paul Auster

Quinn é Max e William Wilson. Mas é também... Paul Auster. O problema da identidade. Sempre. Uma fixação. Todas as três partes que compõem o livro são histórias de alienação e do seu sucedâneo, de ténues fronteiras, a loucura. Na grande cidade, toda ela alienada, Quinn perde a identidade, refugia-se como uma criança abandonada no "caso Stillman", como se ele passasse a preencher toda a sua vida, até ao ponto em que o real e o onírico se cruzam, onde o absurdo de Kafka se cruza com a loucura de Dostoievsky, passando pela solidão de Faulkener. A função do detective privado é uma metáfora da vida na grande cidade: alienação total, ao ponto da perda quase completa da noção de si mesmo, do auto-conhecimento, sempre perseguido e sempre inatingível. Os próprios laços de parentesco são muito mais frágeis do que os nós criados pela imprevisibilidade do espírito e pelo aleatório da vida. Esses sim são laços fortes, capazes de conduzir à alienação. Na terceira parte é quase chocante a forma como Auster dessacraliza a relação filial e conjugal, subjugadas cruelmente às obcessões construídas pela mente do narrador. Toda esta neutralização do sujeito conduz também ao egoísmo: o sujeito acaba por se transformar numa espécie de autómato, incapaz de sentir os problemas daqueles que o rodeiam. Neste sentido, a obra é profundamente pessimista.

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Edward Foster

Num ambiente "very british" quase vitoriano, este livro é uma crítica social a fazer lembrar o "nosso" Eça de Queiroz, desmascarando todo o pedantismo balofo da sociedade burguesa do início do século XX. O realismo da análise psicológica, no entanto, acrescenta-se à análise e à crítica social, dando à obra um verismo surpreendente, num tom cru e directo. Mas é também um romance passional. Como sempre (e como na vida), o amor siurge associado à mentira, ao engano, à tristeza e mesmo à traição. Sobressai o tradicional e pouco original triângulo amoroso onde o amor é um pormenor apenas, subjugado por uma superficialidade cultivada pelas regras sociais, pelas aparências. Enfim, um livro leve e pouco pretensioso, uma leitura que deixa pouca margem de interpretação ao leitor, de tão explicita e directa que é a linguagem e o enredo. Vale essencialmente pelo testemunho de uma época de viragem social e mental, em contraponto com toda a força do tradicionalismo britânico.

domingo, 12 de setembro de 2004

Baudolino - Umberto Eco

Um retrato vigoroso, eloquente, do imaginário medieval europeu/cristão. H. Eco exprime em forma de romance todo um mundo fantástico, feito de mitos e lendas terras assombrosas, animais e seres semi-humanos mas a tudo dá o sentido do real. Aliás, aí reside o génio maior desta obra: consegue retratar com fidelidade um mundo onde o fantástico e o real se confundem permanentemente. Baudolino é, aos nossos olhos de cidadão do séc. XXI, um grande e descarado mentiroso. Um requintado aldrabão. Mas no universo fantástico da Idade Média as suas estórias, uma vez contadas, são reais. Como real é o Graal feito com uma tigela tosca do pai de Baudolino. Como em tudo o resto, nas relíquias fabricadas existe a verdade que as pessoas nela querem ver. A fantasia é mais do que a substituta do conhecimento científico; é um instrumento precioso, indispensável mesmo, para o conhecimento e a construção do real. Trata-se de uma obra essencialmente descritiva: o Império Sacro-Romano de Frederico Barba Roxa, os conflitos entre as cidades italianas de onde emerge Alexandria (terra natal de Baudolino e de Eco), o 1º grande Cisma, as Cruzadas e o fabuloso reino do Prestes João que fica ao lado do Paraíso Terrestre, para lá das terras dos homens sem cabeça. Mas também o Santo Graal e as relíquias falsas mas reais. Este carácter descritivo retira à obra aquele fervilhar de imprevisibilidade que a impede de rivalizar com “O Nome da Rosa”. Por vezes a acção torna-se monótona e previsível mas fica o enorme mérito de Eco ter compreendido e transmitido com fidelidade todo o imaginário de uma Idade Média não obscura mas encantadora e encantada.

terça-feira, 7 de setembro de 2004

O Espião Perfeito - John Le Carré

Berna, Londres, Viena, Berlim… um retrato poderoso da Guerra Fria. Espiões, agentes secretos, profissionais do disfarce e do embuste, homens sem identidade, perdida entre mil e uma imagens construídas para mentir à procura da verdade. Pym é o agente perfeito – vendido aos dois lados – que procura durante toda a vida encontrar-se consigo mesmo e redimir a traição à amizade por Axel – o amigo/inimigo. Por outro lado há o pai – memórias de um progenitor criminoso mas herói. Daqui resulta uma narrativa quase psicanalítica, marcada pelas recordações do passado e escrita, disfarçadamente, na primeira pessoa do singular. O enredo revela toda a arte de Le Carré, capaz de manter aquele tom enigmático que prende o leitor ao longo de 575 enormes e recheadas páginas. Um livro longo, a espaços cansativo mas nunca maçador. No final, fica a ideia de um homem sem identidade, perdidos nos disfarces e numa eterna procura que, nos últimos tempos, tenta redimir todo o passado que o tortura. Na vida de Pym, fidelidade e traição são conceitos ambíguos que vivem lado a lado e se misturam permanentemente. De entre todos os sentimentos conflituosos, emerge em Pym um único que conquista a primazia: a amizade, o valor supremo. Uma amizade que nasce da traição – a única realidade capaz de gerar felicidade. “A traição é uma profissão repetitiva” (Pág. 564)

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

O Cônsul Honorário - Graham Greene

A relação com o pai mais uma vez na linha da frente, a condicionar a primeira fase do romance e a percorrer todo o enredo. "o pai continuava a seguir o filho por toda a vida - era o mestre-escola, depois o padre, o polícia, o guarda da prisão e, por fim, o próprio general" (pág. 130). Charley Fortnum era um bom homem. E, como quase todos os homens bons, era incompreendido e desprezado. Lugar comum? Talvez, mas real... terrivelmente real! Alcoólico, traído pela mulher, cônsul por piedade, raptado por engano... o enredo e o rosário da desgraça. De Edward Plarr todos diziam que, esses sim, era um bom homem. Na verdade, amigo de Fortnum, era o amante da sua mulher. Fortnum amava Clara. Plarr dormia com ela. Plarr era feliz. Fortnum escondia-se por detrás do álcool e da ilusão. Um romance feito de coisas simples, correntes, banais como a traição. E Deus... uma profunda reflexão sobre a religião. Uma obra simples e eficaz que se lê com aquela ânsia juvenil de chegar ao final. E Fortnum, afinal, ganhou o jogo porque sabia amar...

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

O Som e a Fúria - Wiliam Faulkner

Um enredo sem linha de rumo preciso navega num tempo sem definição, ondeando entre memórias e prenúncios, desprezando a linearidade, a lógica. Como se ao longo da estrada 66, como se caminhando descalço sobre o alcatrão das estradas do Iowa, como se sem destino nem rumo certo...
Respira-se o desprezo pelo concreto, a recusa do próprio tempo. O simbolismo, intenso e sempre presente, enreda-se permanentemente numa linguagem barroca, de formas por vezes sublimes mas nunca frívolas. 
Jogos de palavras, simples prazer da escrita e da leitura. Um grito colectivo de revolta: uma família apodrecida pela América da falsa prosperidade, rodeada de negros acorrentados à humilhação de ter nascido. Personagens enlouquecidas, devassas, horríveis, infelizes, perdidas num vazio de humanidade. 
E a Disley… a criada negra desgraçada e feliz… normal. 
Benji é louco, Jason alucinado, Quentin lunático, e... um bando de pretos. 
Faulkner constrói assim um quadro quase sem nexo, quase sem sentido, como a vida. Quando chegamos ao fim as estórias ganham, finalmente, forma e sentido. Mas nessa altura fica-nos na mente a frustração de não haver mais páginas… como se todos os Compsons tivessem morrido de súbito. Apetece então voltar ao início… como na vida: uma circunferência que nunca se fecha e assim se transforma em espiral… perpetuamente… sem tempo…
Sem dúvida (pelo menos na minha opinião), um dos melhores livros de toda a história da literatura mundial.
Para ler e reler...

quinta-feira, 29 de julho de 2004

Inventar a Solidão - Paul Auster

O próprio Auster é confrontado com a morte do pai. Este acontecimento surge de forma inesperada, abrupta e leva o autor a tentar compreender os seus sentimentos (ou a ausência deles), a confrontar a figura do pai com as suas memórias.
Ao longo do livro divaga sobre a paternidade, confrontando a sua condição de filho com a de pai. Toda a obra parece ser um longo e profundo exercício de auto-análise, quase psicanalítico. Auster, como fizeram outros grandes mestres, divaga, sobretudo, sobre a solidão. Porque a vida é, essencialmente, um percurso solitário. Por mais que se viva com os outros, a vida em sociedade parece nunca deixar de ser um imenso somatório de solidões. Porque todo o homem é um mundo único, ímpar e só.
O homem é uma realidade complexa e indefinível, que nem o próprio sujeito conhece. A relação com o resto do mundo é uma teia tão complicada que só contribui para aumentar a angústia da solidão.
É um livro corajoso.
Auster encara de frente a personalidade esquiva do pai. Esmiúça e tenta desesperadamente compreender todos os motivos da sua menos boa relação com ele, fugindo ao sentimentalismo fácil mas também sem cair na frieza da objectividade crua. Procura, acima de tudo racionalizar os sentimentos, compreender a alma humana e, principalmente a sua própria alma. “Todo o livro é uma imagem da solidão” (pág. 153).
Mais do que a morte, o verdadeiro monstro é a solidão.
A morte é apenas um dos momentos em que o monstro se revela.
Excelente tradução.

O Amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence

Connie (Lady Chatterley) é esposa de um lord inglês, tradicionalista e austero que, logo após o casamento, é ferido na primeira guerra mundial, ficando paralisado da cintura para baixo. No entanto, mantém o casamento, com todas as suas aparências e tenta ludibriar as suas incapacidades com uma vida social intensa, onde as aparências são cuidadosamente mantidas.
Connie, no entanto, não consegue suportar aquela vida fútil e oca, apaixonando-se por um criado do marido. Aparentemente, trata-se de um romance/novela; um grande conto erótico e cor-de-rosa. No entanto, é muito mais do que isso. A sexualidade é vista como parte integrante e essencial da relação amorosa, do sentimento e da própria vida. Desmistifica-se assim aquela concepção burguesa de que o amor carnal é uma espécie de aberração do próprio amor. É encarado, pelo contrário, como algo profundamente humano.
O sexo faz parte do amor, do lado afectivo do ser humano e não do instinto ou da animalidade, como era hipocritamente entendido pelos moralistas da sociedade tradicional inglesa. Assim, é uma obra que enfrenta não só o rígido quadro de valores inglês mas todo um conceito de amor formal e puritano.
A linguagem, por vezes obscena, surge perfeitamente enquadrada no enredo e no jogo de sentimentos. Está longe de ser, portanto, um romance erótico. É um romance cheio de sentimento, cheio de ideias, embora o enredo esteja demasiado preso à intriga amorosa.

quinta-feira, 22 de julho de 2004

A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar


Inquietante, perturbadora, a espera da morte.
Zenão será perseguido; por ela e pela ignorância. Das duas, qual a mais tétrica, a mais terrível e impiedosa?
Zenão será condenado por ter sido sempre fiel a si próprio, à sua humanidade, ao bem universal, à verdade. Ao bem por si só!
Mas é vítima do ódio, do egoísmo, da cegueira. Do obscurantismo.
A Obra ao Negro é um testemunho histórico impressionante, de uma época (início do séc. XVI) em que se cruzam a cegueira medieval e os conflitos dos tempos modernos, com a afirmação de novos regimes e Estado, perdidos em constantes guerras e conflitos.
A visão radiosa do Renascimento é abafada pelos conflitos absurdos em torno da questão religioso (fruto da reforma protestante e contra-reforma). Zenão, vítima da sua qualidade de bastardo e de uma família obcecada pelo poder, abandona-se a uma mescla de hedonismo e solidariedade cristã, cultivando a reflexão interior, temperada com o espírito pragmático do renascimento.
Tudo isto só poderia ter um fim: as teias da Inquisição.
Impressionante o estilo. As palavras soam como música, numa linguagem fiel à época, encantadora! As descrições de Yourcenar brilham pelo realismo. O enredo não deixa escapar uma tremenda profundidade dos sentimentos. As reflexões filosóficas são constantes e profundas.
Uma obra magnífica!

quinta-feira, 8 de julho de 2004

A Metamorfose - Franz Kafka

Gregor acorda transformado num enorme e repugnante insecto e assim vive os seus últimos dias.
Há neste livro qualquer coisa de quase mágico: o enredo baseia-se num acontecimento completamente absurdo, impossível. No entanto, lê-se como se se tratasse de uma realidade, de algo perfeitamente natural e lógico. O leitor é levado a embrenhar-se no enredo, a seguir os sentimentos de Gregor, com a maior das naturalidades.
Gregor era um caixeiro viajante que sustentava a família (absolutamente parasita) e suportava um patrão insensível e mesquinho. Inicialmente, a metamorfose parece significar a libertação em relação às obrigações e alienações de Gregor: o trabalho e a família. Mas, aos poucos, ela transforma-se numa terrível prisão que condena Gregor ao mais terrível dos castigos: uma absoluta e cruel solidão.
A partir daí Gregor é vítima do desprezo por parte daqueles em função dos quais vivera: a família.
Passa a ser considerado um peso, um encargo e nem mesmo a sua morte despertará a compaixão daqueles que tanto amara.

O Castelo - Franz Kafka

K. é um homem só, à procura do misterioso Senhor Kleim.
Kleim é um homem poderoso que representa o castelo. O castelo é o poder. Kleim é a personificação, pouco nítida, propositadamente difusa, desse poder. Mas trata-se de um poder que cultiva a ignorância, primeiro e decisivo passo para a submissão dos servos.
Convém manter a cegueira. A burocracia, enorme, monstruosa, aterradora, é a carapaça, a armadura, que protege os poderosos e mantém os súbditos afastados, submissos. K. é um súbdito insatisfeito, insubmisso, que procura por todos os meios penetrar nessa carapaça. Por isso é incompreendido e mesmo desprezado pela aldeia. Ele é uma ameaça para aquele status quo em que a vida corre sem acidentes, sob o manto protector do poder. Ele é uma ameaça à suave cegueira da comunidade. Kafka é um escritor que despreza o enredo em favor da mensagem.
As descrições e os diálogos convergem sempre, nesta obra, para uma ideia central: a da crítica à natureza do poder político que cultiva a ignorância e o servilismo cego. Mas por detrás deste servilismo há uma revolta abafada que se revela à medida que a obra se aproxima do final, resultado de uma frustração colectiva perante o desprezo que o Castelo dedica ao comum dos mortais. E, intimamente, todos procuram, por meios diversos, chegar até aos senhores que tanto admiram como odeiam. Lutam e degladiam-se por isso mas de forma velada, envergonhada, silenciosa. Só K., talvez por ser estrangeiro, assume e enfrenta essa ambição. Por isso é amado e odiado. Todos os outros são reles e pequenos.
Um pormenor interessante: apenas depois de se libertarem de K., os seus ajudantes são tratados pelo nome próprio. Até aí são simples servos de K, como todos são servos dos senhores. Tudo isto é expresso num estilo algo monótono, como a vida dos servos, assente num enredo "pastoso", com um ritmo narrativo muito lento, à imagem da vida na aldeia. Assim, o aspecto lúdico da leitura é posto em risco. Por vezes, ler Kafka deixa mesmo de ser um prazer porque o objectivo não é contar uma estória. Na aldeia dos servos não há estórias. Apenas a história do senhorialismo e da solidão.

A Grande Muralha da China - Franz Kafka

A grande muralha da China foi construída por parcelas, em pequenos "pedaços", para que cada trabalhador nunca se apercebesse que não chegaria a sua vida inteira para ver a obra acabada.
Assim se explora a motivação e o entusiasmo do trabalhador anónimo.
Este é o ponto de partida para um discurso em que o poder político é visto como uma superestrutura anónimo, sem rosto, sem corpo nem identidade, que paira de forma mística, auto-sacralizada, por sobre todos os súbditos, também eles anónimos e ignorantes.
O mundo em que vivem os obreiros da muralha é um imenso absurdo, no qual a alma humana se encontra abandonada, entregue à sua solidão, vítima de um destino traçado pelos vultos ignotos da superestrutura... sem sentido, sem futuro nem passado. O presente é indiscutível, inquestionável... é o que é por vontade de alguém que tudo sabe, tudo decide... A impotência e a ignorância são os traços mais marcantes do ser humano.
Daí a solidão e o pessimismo.