Antes de mais, uma chamada de atenção para o facto de o título original ser muito mais sugestivo: The Brooklyn Follies. No entanto, a palavra "Follies" é, como se compreende, de difícil tradução, pelo que se compreende a solução adoptada ("Ilusões"). Aliás a tradução do habitual tradutor de Auster para a ASA (Pires de Lima) parece-me muito boa. Pelo menos muito atenta, com notas de rodapé muito úteis. As Loucuras de Brooklyn confirma a fixação de Auster num estilo preponderantemente lúdico e narrativo. Atingindo a maturidade como escritor, parece ter neste romance atingido aquele ponto em que já não precisa de inovar. É, por isso, talvez, o romance mais bem conseguido deste nova-iorquino que não norte americano (palavras suas). É, seguramente, o seu livro politicamente mais interventivo e comprometido desde a Triologia de Nova Iorque. Todo o pano de fundo é preenchido pela Nova Iorque dos anos 2000 e 2001: desde a reeleição de Bush à tragédia do 11 de Setembro. Fica mais uma vez clara a revolta do autor perante os caminhos sórdidos e absurdos da política norte-americana, não hesitando em deixar clara a fraude eleitoral cometida pelo partido republicano. Mesmo assim fica a ideia de que Nova Iorque pré-11 de Setembro é um sítio feliz. Magnifica a descrição da gente simples da grande maçã, que Auster admira profundamente. Aí reside grande parte da genialidade deste livro: a maneira eficaz como se conta histórias simples, de gente simples. Neste romance, ao contrário do habitual nos livros de Auster, o protagonista não é escritor. Nathan Glass é um apaixonado pelos livros que, na fase final da sua vida, vítima de uma doença grave decide mudar-se para Nova Iorque a aí procurar um final de vida tranquilo. Mas não é tranquilidadde que ele encontra; encontra os problemas e as peripécias de gente simples a quem acontece um pouco de tudo. Envolve-se com personagens estranhas mas autenticas, quase diria estranhamente reais: homosexuais, assassinos, pobres desgraçados de minorias étnicas, ricaços desprovidos de ética e inteligência e um sobrinho vítima da vida que lhe reabre a porta da família e o enreda em novos laços de ternura que Glass julgava já impossíveis de recuperar. É o ranascer para a vida, é a redenção sempre presente nos livros de Auster: a solidão como caminho para a felicidade, mas sempre uma felicidade difícil, só conseguida por árduas lutas interiores e perante os outros. A afirmação do ser humano como único, só é possível perante uma sociedade que, à partida, o despreza. Mas, neste livro, parece haver um pouco mais de luz do que nas obras anteriores, mais sombrias e pessimistas. Um final feliz na medida do possível, compensam a tragédia que persiste, a espaços, na vida.
. O que um escritor nos dá não são livros. O que ele nos dá, por via da escrita, é um mundo. Mia Couto
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
O Livro das Ilusões - Paul Auster
Nesta obra, o melhor escritor norte-americano da actualidade põe em cena todo seu conhecimento e sensibilidade cinematográfica, herdadas da sua vasta experiência no género, como realizador e argumentista. Aliás, não deixa de ser curioso que o filme baseado neste livro, a estrear em breve, tenha sido rodado em Portugal, o que prova mais uma vez a predilecção de Auster pelo nosso país. Neste livro, narra-se a vida de um homem que, depois de passar pela dolorosa experiência da morte dos filhos e esposa, se dedica por inteiro à escrita, nomeadamente à reconstituição da vida de um génio do cinema mudo, Hector Mann, misteriosamente desaparecido. Na primeira fase do livro, é tocante a forma como Auster sente e exprime a crueza do sofrimento humano e da solidão. A revolta invade o próprio leitor, perante a crueldade do destino do personagem principal. A partir daí, toda a escrita de Auster embeleza de forma genial a passagem gradual da tragédia à procura da motivação pela vida. A solidão dá lugar à esperança. A tristeza dá lugar ao frémito que impede de pensar, esse "stress" que dá à vida aquela velocidade que nos aliena mas que, ao mesmo tempo, nos anestesia perante a tragédia. Tal como noutras obras de Auster, também aqui perpassa a ideia de que não pode haver felicidade sem sofrimento. Assim, David Zimmer procura uma espécie de redenção perante o passado e fá-lo através da escrita. Mais uma vez, um tema querido a Paul Auster: o próprio acto de criação literária; a envolvência do escritor na obra criada e a amálgama entre o criador e a criação. No final fica o optimismo mau grado o tom trágico que percorre toda a obra. Há qualquer coisa de mágico em Auster: a vida é dolorosa mas preciosa. As alegrias são efémeras mas singulares. Estas ideias, tão caras a grandes escritores que, sem dúvida influenciaram Auster (Dostoievski, Kafka…) são envolvidas numa das maiores qualidades do autor: a sua magnifica vocação de contador de histórias; a sua capacidade de expressão narrativa faz dos seus livros magnificas fontes de entretenimento, retirando a literatura daquele aspecto enfadonho e pseudo-intelectual em que, infelizmente, muitos autores actuais se sepultam.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
A Estrela de Gonçalo Enes - Rosa Lobato Faria
Trata-se de uma obra leve e descontraída sobre a vida e aventuras de dois personagens quase esquecidos da História de Portugal, mais especificamente da época das descobertas. São personagens reais se bem que quase todo o enredo seja ficcionado. Gonçalo Enes ficou na História pela descoberta das grutas de Tassili N’Ajjer. Trata-se de um jovem órfão de pai nascido e criado na aldeia algarvia de Bensafrim. Encantado pela estrela Sirius, que o ilumina e encanta durante toda a vida, o jovem Gonçalo, desiludido por um amor impossível, abre o seu destino às incríveis aventuras do Império que El-rei D. Afonso sonhava construir. Pelas aldeis indígenas de àfrica, pelas cidades encantadas de Marrocos, pelas areias misteriosas do deserto, Gonçalo leva consigo o espírito de aventura e coragem que transformou este pequeno país num mundo inteiro de esperança e riqueza. Fica, desta “estória”, o encanto de um tempo ido, em que a pobreza se enganava com sonhos grandes, do tamanho do Império. Um liuvro belo e fresco, descontraído, sem ambições mas que encanta pela extraordinária simplicidade e singeleza da escrita de Rosa Lobato Faria; uma escritora que tem o dom de encantar pela sua escrita simples e pura. Gonçalo, mal-amado e desprezado, vive no sonho, mas um sonho que o faz feliz. A amizade, a camaradagem, a fidelidade ao sonho são valores que fazem dele um herói, mesmo que esquecido pela História, como tantos outros que, anonimamente, construíram as páginas mais brilhantes da nossa história.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Memórias das Minha Putas Tristes - Gabriel Garcia Marquez
Com as suas singelas 105 páginas, este livrinho lê-se facilmente em poucas horas. Uma leitura leve, divertida mas nada fútil. O início a obra é, no entanto, propositadamente enganador, de forma a quase assustar o leitor perante o choque destas palavras: “No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. O choque é brutal mas passageiro; na mente do leitor paira o espectro da pedofilia e, por um momento, duvidamos da sanidade mental do autor. Mas, à medida que as páginas vão evoluindo, vamo-nos a percebendo que a prosa se transforma num belo poema sobre a vida. Uma reflexão aligeirada pelo prazer de viver mas sempre humana, sempre profundamente humana! Aos noventa anos, o narrador, escritor e jornalista de profissão, nunca tinha tido sexo sem pagar. Mas o momento de maior loucura, já mergulhado na velhice, é o momento do amor. Pela primeira vez na sua vida, aprende a amar. Mas um amor singelo, puro, sem sexo nem qualquer espécie de despudor. Pela prmeira vez, ele é feliz. Esta “aparição” é o motivo para uma reflexão profunda sobre o sentido da vida. Os obstáculos imensos que se interpõem entre ele e a sua jovem amada poderiam, à partida, contribuir para um tom negro e pessimista do livro. Mas não; todo o enredo tem a ver com a alegria de viver, com o prazer de estar vivo e usufruir do mundo. Ao longo da reflexão que o narrador faz sobre a sua vida prestes a terminar, não há um lamento, não há um arrependimento, como se tudo o que acontece tenha a marca da inevitabilidade, mas sempre num sentido positivo, de gratidão perante o destino. Tudo é celebrado, nada é lamentado.
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Limpeza de Sangue - Arturo Pérez Reverte
Aí está um verdadeiro romance de capa-e-espada! Admirador indefectível de Alexandre Dumas, Reverte presenteia-nos com um livro de aventuras bem refrescante, divertido e emocionante. A época histórica escolhida é bem marcante para nós, portugueses; é a época de Filipe IV, o terceiro de Portugal, de quem nos livramos em 1 de Dezembro de 1640. O enredo passa-se em 1621, quando Filipe IV era um jovem rei sem “mão” para governar um país dominado por interesses e intrigas, onde pontificava a terrível Inquisição e o nosso conhecido conde duque de Olivares, um fidalgo talvez mais poderoso que o próprio rei mas preocupado, acima de tudo, em sugar as finanças portuguesas para financiar as guerras na Flandres e Holanda. O livro é o segundo de uma trilogia que descreve as aventuras do capitão Alatriste (referência ao incontornável Cervantes) com o pano de fundo na terrível guerra da Flandres, onde combatiam as tropas de Filipe IV e onde o nosso capitão viveu batalhas terríveis. Esta obra não é uma obra-prima. Não tem “fôlego” para isso. Nem tinha que ter. O seu propósito não é afirmar as grandes qualidades de Reverte, já confirmadas noutras obras, mas sim o de divulgar uma época fantástica da história de Espanha, em que este país dominava o mundo. Estávamos no período áureo do Império Espanhol. Ao mesmo tempo, pretende-se mostrar que há determinados males que não são de hoje: a corrupção, a tendência para uma religiosidade falsa como Judas, a corrosão do poder político e os desmandos daqueles que se dizem a “elite”, mais virada para a aparência do que para a verdade. São fenómenos que permanecem mas têm raízes históricas muito bem explanadas por Reverte. Aliás, o grande mérito desta obra é o conhecimento profundo da realidade histórica que reverte revela. O fenómeno da Inquisição, por exemplo, é explanado com grande significado. O recurso a este tribunal tão desumano e hipócrita foi uma das razões para um certo atraso estrutural do sul (católico) da Europa, ao provocar a fuga de talentos e dinheiros para a Holanda, Inglaterra e outros países do Norte. Esta preocupação pelo “pano de fundo” leva o autor, muitas vezes a dar mais importância à “paisagem que ao retrato”; ou seja, a descrição da época por vezes ofuscando o próprio enredo, a história que pretende contar. Enfim, trata-se de um livro agradável, de fácil e rápida leitura, leve e simples. Um excelente exercício de divulgação histórica, bem apropriado para uma leitura de férias.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
O Meu Mundo não é Deste Reino - João Melo
O Humanismo de Vitorino Nemésio, o cheiro da terra de Miguel Torga e o mundo fantástico de Garcia Marquez encontra uma síntese perfeita nesta obra de João de Melo. Como Nemésio, profundamente ligado às raízes açorianas, o autor lê e descreve com entusiasmo e envolvência o viver e o sofrer de gente miserável, à procura de asas para voar sobre outros mares mas sempre peada, agrilhoada por poderes temporais que a sugam e subjugam. Cabem neste domínio o padre Governo e o Regedor Guilherme José. Como em Torga, a terra comanda a gente. O crescer da sementeira é o viver das gentes; a respiração dos animais confunde-se com a das pessoas. A terra está por todo o lado, até no chão das casas. E há um Deus, um ser supremo que ninguém conhece a não ser por sombras medonhas como a do velho e egoísta padre Governo. Como em Garcia Marquez, o fantástico cresce ao longo da obra. Esta começa por referir, em tom quase historiográfico, o povoamento da Ilha de S. Miguel para terminar numa espécie de espiral de fantasia, com homens que comem e vomitam ratos, gentes esfomeadas que pilham cadáveres e um Messias que ressuscita dos mortos para anunciar a revolução. Começando por um título (um paratexto que logo avisa o leitor para o fantástico que envolverá a obra) até ao epílogo escrito em maiúsculas, a obra está povoada de uma linguagem à beira do barroco. Por vezes, o prazer de ler, de saborear a musicalidade das frases eleva o leitor acima do conteúdo, criando nós próprios um universo fantástico julgado impossível. Navegando entre um neo-realismo latente e um neo-barroco formal, João de Melo cria assim uma obra de arte completíssima, onde a forma complementa um discurso claro de revolta contra a opressão, contra uma fome que não é só de pão mas também de liberdade.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce
O Retrato do Artista Quando Jovem, é o primeiro romance de James Joyce. Stephen Dedalus é o herói da obra, alter ego do autor. Daí o seu carácter marcadamente autobiográfico. O nome atribuído ao herói, Dedalus, é uma referência óbvia ao mito helénico. Tal como o herói grego, também Stephen queria voar. Assim como Joyce. Os três procuraram sempre a libertação, por entre uma realidade mesquinha e atrofiadora. O livro relata a juventude de Stephen, passada entre realidade profundamente marcantes na personalidade de Dedalius/Joyce: o colégio de Jesuítas, com os seus métodos espartanos de ensino, a cidade de Dublin, suja e dominada pela eterna querela política face à dominação inglesa e uma família abastada mas que, gradualmente, cai na ruína. A perpétua luta pela independência da Irlanda obcecava os seus concidadãos. Mas Dedalus coloca-se para lá dessa realidade: “Quando a alma de um homem nasce neste país, lançam-lhe logo redes, para a impedir de voar. Fala-me de nacionalidade, de língua, de religião; eu vou tentar voar para lá dessas redes”. E mais adiante: “A Irlanda é uma porca velha que devora a sua ninhada”. Perante tudo isto, o jovem Dédalus anseia por voar mais alto. Procura nos poetas, vasculha em Aquino, refugia-se nas profundezas do saber, mergulha na lama de Dublin, entre poetas e prostitutas, submerge no mais profundo misticismo jesuítico mas nada lhe permite construir as suas asas de cera. O seu mundo seria outro. Mas, para lá chegar, foi preciso viver. É desta vida multifacetada e mortificada que Joyce dá conta, numa obre genial em termos estéticos. Ao longo do livro evolui uma escrita ao alcance apenas dos mais geniais dos escritores. A beleza das palavras, a melodia da narração, bem respeitada por esta tradução, eleva bem alto o génio deste escritor que cuidava os seus textos como se preciosidades fossem. E eram! O estilo é profundo, voltado para o interior, para as profundezas da alma. Os diálogos, curtos e raros servem apenas para espelhar a alma de Dedalus, usando o monólogo interior de forma quase sistemática e inovadora para a época. Por toda a obra é manifesta a inquietude de Joyce perante os dilemas mais profundos da vida e a função do pensamento religioso. Uma terrível guerra interior, travada entre a moral católica e a atracção da realidade mundana perpassa a mente de Stephen de forma impiedosa e marcante. No final dá-se o triunfo da vida; o triunfo de um mundo sobre o qual as asas de Dédalus hão-de pairar para sempre.
terça-feira, 26 de junho de 2007
O Estrangeiro - Albert Camus
Meursault é um homem normal; tão normal que, por isso, será condenado. Percorre a vida sentindo-a como ela é; enfrentando-a com honestidade, sem subterfúgios, sem alegrias fáceis nem dramas inventados. “Tanto me faz” é uma frase-lema de Meursault. A vida é o que é, nada vai ser alterado pela sua vontade. É esta a atitude de um homem normal. O mundo de Meursault não é feito de afectos; Salamano vive com um cão velho e lazarento que insulta metodicamente. Mas é o desaparecimento do cão que lhe desperta a emoção. Morreu a Meursault. Ele não chorou. A morte, afinal, é independente das vontades e dos afectos; tem vida própria e nada a poderá deter no cumprimento da sua obrigação para com os mortais. A mãe era mortal. Por isso não chorou e foi condenado. Raimundo realiza-se espancando as mulheres. Meursault mata o árabe quase com indiferença. A vida cumpria um traçado que ninguém, nem mesmo ele, poderia desviar. Não adiantava esconder a verdade nua e crua da realidade. Por isso não valia a pena esconder nada. Mas a verdade de Meursault ameaçava a sociedade! É que, afinal, há os outros! Aqueles para quem a vida não é aquilo que vemos e fazemos; aqueles para quem a vida é um jogo que se disputa entre adversários. E Meursault é um desses adversários: alguém que irá satisfazer a ânsia de dominação, o instinto de poder dos donos da justiça, essa construção humana destinada a legitimar as hierarquias. Meursault, o estrangeiro, descobrirá de forma dolorosa que o poder é de quem joga, não de quem vive. A justiça castigá-lo-á por não fingir. O fingimento, afinal, fazia parte do jogo. Meursault, afinal, devia ter chorado! Devia ter mostrado arrependimento! Devia ter fingido. Tinha sido esse o seu crime. Mas ele era um estrangeiro; um homem normal. Uma das maiores obras da grande literatura existencialista francesa, O Estrangeiro é um livro sobre a hipocrisia do ser humano que utiliza os sentimentos como forma de manipulação e de conquista do poder. É um grito de revolta contra uma sociedade que oprime aqueles que defendem a verdade até ao fim; de grande conteúdo filosófico, trata-se de um marco na literatura do século XX, sem deixar de ser uma história simples e acessível a qualquer leitor. Sem duvida, uma obra-prima da literatura universal.
segunda-feira, 25 de junho de 2007
O Filho de Ester - Jean Sasson
O Filho de Ester é um livro contraditório: como testemunho histórico, é excelente. Como o romance cai no mais decepcionante esquema de novela passional, sem surpresas, sem grandes inovações e com um ritmo de escrita previsível. Mas esta obra vale sobretudo pela dimensão histórica, pela forma clara, embora nitidamente comprometida como envolve numa narrativa única as duas grandes catástrofes do século XX: a segunda guerra mundial, ou melhor, o Holocausto e o eterno conflito israelo-árabe. A acção decorre em várias “frentes”, correspondendo à história de três famílias. Assim, a acção desenrola-se em Paris, na comunidade judaica em França antes da 2ª Guerra Mundial, na comunidade judaica da Polónia, na Alemanha do pós guerra e, depois, percorrendo a segunda metade do século XX, na Palestina, em Israel e no Líbano. Ao logo de toda a obra, o rigor histórico não deixa de estar sempre presente. Mas o tom predominante do livro é um imenso melodrama que ilustra a barbárie nazi e as carnificinas que se desenrolam no médio oriente. A luta do povo palestiniano é encarada por Sasson de uma forma de justa resistência perante a ocupação israelita. Esta, por sua vez, é vista como uma consequência lógica da opressão de que os judeus foram vítimas ao longo da História e que culminaram com o Hocausto nazi. Trata-se, em suma, de uma obra bastante aconselhável a quem queira compreender melhor o conflito do médio oriente, escrita com bastante rigos, mas deixa muito a desejar em termos literários. Embora bem escrito e com um ritmo bastante aceitável, o enredo é sempre demasiado previsível.
sábado, 12 de maio de 2007
Clube Dumas - Arturo Pérez-Reverte
A surpresa, o imprevisto, o suspense, dão a este livro um tom policial que está longe de limitar a obra a essa dimensão. Na verdade trata-se de um misto de romance histórico, policial e romance clássico, muito inovador e complexo. No entanto, esta complexidade não deixa nunca que a narrativa se perca em emaranhados embaraçosos para o leitor, como tantas vezes acontece em escritores que procuram a complexidade como forma de, por si só, guindar a obra aos patamares mais elevados do sucesso. Trata-se de um enredo genialmente rico, onde a narrativa é sempre surpreendente e inovadora. A personagem principal, Lucas Corso é, logo à partida, um verdadeiro desafio à imaginação do leitor: um mercenário dos livros, um homem que procura fortuna na literatura, não através da escrita mas do livro como mercadoria, ou melhor, como preciosidade. Desta ideia de livro como tesouro artístico, Reverte inicia a narrativa num contexto típico de romance histórico: a missão de Corso é encontrar um livro queimado no século XVII juntamente com o seu impressor. A partir daí o Autor encaminha o leitor por um magnífico passeio pelas teias tenebrosas do santo Ofício, pelos caminhos tortuosos do comércio clandestino de livros e pelo mundo encantador dos amantes dos livros, aqueles para quem a vida só tem sentido entre estantes poeirentas. Este livro é, no fundo, um verdadeiro hino à arte de amar os livros. É o livro quem comanda o homem e determina a sua vida e a sua morte. Pelo meio podemos, com algum esforço, encontrar algo de menos genial nesta obra: há uma certa tendência para o cliché, ou seja, para a previsibilidade da aventura. Reverte segue, por vezes, caminhos aparentemente fáceis para prender a atenção do leitor. Mas não podemos esquecer nunca que a literatura também é diversão; e a arte também pode ser divertida. É nesse sentido que nos apresentado um herói que vive para os livros sem qualquer traço de erudição: ele é mais um malandro do que um erudito. Este aspecto dá um carácter mais leve ao enredo e o leitor que procura divertir-se coma leitura, agradece. Como nota negativa refira-se os numerosos erros de revisão nesta edição da D. Quixote.
quarta-feira, 2 de maio de 2007
A Herança do Vazio - Kiran Desai
Antes de tudo, este livro é um brilhante testemunho da História da India no século XX, nascida de um passado brilhante mas vítima da opressão e exploração europeia. A Indía foi sucessivamente delapidada por Impérios europeus: primeiro os portugueses, depois os franceses e holendeses, finalmente os Ingleses, os senhores da Civilização e da opressão. Mais uma vez, o tema tantas vezes debatido e sempre tão actual: o choque de culturas. A acção decorre na Índia pós-colonial onde ainda se debate a contradição entre o paradigma civilizacional inglês e a prevalência de uma cultura ancestral identificada com as raízes religiosas e mentais mas que, ao mesmo tempo, envolve um quadro socio-económico arcaico. A pobreza está por todo o lado, justificando um misto de ódio e admiração pelos ingleses: ódio por parte daqueles que lhe atribuem a causa de todas as desgraças, admiração por parte daqueles que se encontram revoltados perante o conservadorismo da sociedade tradicional indiana. Trata-se da relação colonizador/colonizado por detrás da luta entre a tradição e uma modernidade tão atractiva como decepcionante. Mas há algo mais que isso: o conflito entre a pobreza e a riqueza, o dilema entre a tradição e a modernidade, o pôr em causa dessa mesma modernidade; a dúvida entre o aceite e o imposto. Por outro lado, o conflito político; o dilema daqueles que serviram um senhor que se revelou opressor. E a América, sempre a América como pano de fundo de uma esperança apenas aparente. A revolta perante um mundo de desilusão; a vida destruída entre conflitos que se impõem de um exterior vasto e devorador: os ingleses mas também a fabulosa América que inebria e corrói. A liberdade conquistada e o choque brutal com um país onde a liberdade, frágil construção humana, deixa germinar outras guerras. As minorias. Os nepaleses e o desejo de libertação. A violência no reino da tradição. Este é um livro sobre a solidão. Sobre almas que pendem sob os Himalaias, dependuradas num destino fabricado noutras paragens, por outras gentes. A civilização, admirada nos odiados ingleses avassala este mundo de personagens humildes e pobres. Sim, porque aqui, nesta Índia à procura de identidade, nem os ricos são ricos: todos sofrem, mesmo que de solidão. Fica a escrita brilhante tirada das profundezas da alma. Uma escrita sentida, cuidada e pessoal que elevam esta obra às fronteiras do obra-prima.
terça-feira, 1 de maio de 2007
O Perfume - Patrick Suskind
Livro polémico, alvo de ódios e paixões, “O perfume” é, a meu ver, uma obra-prima. O herói, ou melhor, o anti-herói, Jean-Baptiste Grenouille, vive em função do olfacto. O enredo decorre entre os anos de 1738 e 1767, respectivamente anos de nascimento e morte do herói-vilão que protagoniza a obra. Assim, a obra situa-se nos tempos conturbados da Revolução Francesa, em que a realidade social do Antigo Regime é brutalmente destruída, em nome da modernidade. É nesse ambiente de violência mas também de fervor que Grenouille caminha na sua cruzada contra o desprezo, contra um destino que o condenava por, simplesmente, ter nascido no meio do peixe podre. Toda a sua vida gira em torno desse sentido tão desprezado quanto misterioso. Detentor de um dom ou maldição, o cheiro é o seu guia. Sobressai nesta obra carácter infra-humano de Grenouille num tom de hipérbole por vezes exagerada, como se a fronteira entre o homem e o monstro fosse tão ténue que se tornasse irreconhecível. Ele é, assim descrito, uma figura surrealista, a fazer lembrar um quadro de Dali: distorcido pelo seu tempo mas, principalmente, pelo seu carácter. A sua sensibilidade odorífica contrasta, porém, com a ausência de odor próprio, por oposição a uma cidade que parece viver em função do olfacto: a podridão e a miséria das ruas, em contraste com o perfume da burguesia. Assim colocado entre os dois extremos, Grenouille é o anti-herói num mundo crivado de ódio. Inebriado pelo perfume feminino divaga entre a paixão e a violência, entre o amor e a morte. A ausência de odor leva-o a procurá-lo incessantemente. A procura do odor é a procura da sua própria identidade. Um livro violento e triste, que se lê com paixão mas também com revolta, perante uma cidade-luz descrita como a cidade do fedor e perante um personagem abjecto mas terrivelmente humano: porque Grenoille procura apenas a paz de espírito. A sua paz.
segunda-feira, 4 de setembro de 2006
O Lobo das Estepes - Hermann Hess
Profundamente auto-biográfica, esta obra revela todo o pensamento tortuosamente poético de Hesse. Numa síntese perfeita do seu misticismo oriental e da sua dimensão poética, Hesse constrói uma narrativa angustiada mas sentida, poética mas real, complexa mas terrivelmente bela. Harry Haller é o rosto da tristeza, o Lobo das Estepes, melancólico, perdido na vida, na busca permanente de um sentido que o faça compreender a existência. Sem destino definido, sem explicações a dar a si mesmo para a impossibilidade de compreender o mundo, Harry é um ser errante, dilacerado pela dúvida, pela desesperada necessidade de compreensão da alma e da busca da sua libertação. Recusa o mundo sem forças nem coragem para dele se demarcar. Anti-burguês, tortura-se porque não consegue demarcar-se de uma vivência burguesa, como que encarcerado no ambiente que o rodeia. No meio da tortura da vida, vai descobrindo que a dualidade do seu ser: o lobo que de vez em quando se torna burguês ou o ser emotivo que por vezes assume a racionalidade; o lobo ou o homem. Mas a sua angústia não se resolve com a constatação destes antagonismos; a pouco e pouco, no entanto, vai descobrindo que o ser humano não é duo mas múltiplo: ele não é a soma de dois “eus”, duas forças mais ou menos antagónicas que o ser humano por vezes parece ser. A sua personalidade é um campo de batalha entre muitas forças que por vezes se complementam outras se digladiam. Mas na maior parte das vezes estas faces do caleidoscópio revelam-se incompatíveis, causando angústia e desespero. Só enfrentando esta multiplicidade e assumindo estas múltiplas dimensões, o ser humano pode encontrar a felicidade. Tornar-se-á louco aos olhos do mundo; no entanto, feliz! A necessidade de auto-conhecimento, de compreensão profunda do ser e do sentido da vida avassala Harry até ao dia em que, no limiar da salutar e redentora loucura, descobre a verdadeira raiz da felicidade: o humor. Compreende o que consegues compreender e ri-te de tudo o resto, poderia ser uma espécie de lição a retirar deste livro. Daí a referência recorrente a Mozart: o exemplo da loucura saudável, do génio que ri daquilo que não compreende. Esta descoberta faz com que o final da obra seja surpreendente. A angústia, o medo, o desespero dão lugar ao hilariante mundo da loucura, das mil e uma faces da alma.
domingo, 3 de setembro de 2006
A Noite do Oráculo - Paul Auster
“A Noite do Oráculo” é, antes de mais, um extraordinário e genial exercício literário de Auster. Ele exprime com eloquência todo o génio deste escritor, um dos mais brilhantes da actualidade. Trata-se de um romance complexo mas de leitura muito agradável sobre a maior quimera da existência humana: a descoberta do sentido da vida. Histórias dentro de histórias, “A Noite do Oráculo” é uma obra literária que se insere no enredo de uma outra, sobre a vida de Nick, escritor, que por sua vez é uma criação Sydney Orr, o protagonista de Auster. Em primeira instância, trata-se de uma reflexão sobre o poder da literatura e sobre a interacção entre o escritor e o livro. As histórias, à medida que vão sendo criadas interpenetram-se e influenciam-se, confundindo o real e misturando-o com a ficção que verte da imaginação do escritor. As personagens vão sendo assim condicionadas pelos três planos em que a acção se desenrola, como se fossem três mundos diferentes mas que dependem uns dos outros. Assim, o tempo e lógica causa-consequência tornam-se relativos, perante a multiplicidade de tempos e de dimensões que Auster nos oferece. Na vida de Nick os acontecimentos inesperados sucedem-se, deixando sempre uma misteriosa ligação com o enredo do livro que vai escrevendo. Na sua mente a ficção parece determinar a realidade e não apenas o inverso, misturando assim de forma dramática a verdade e a imaginação. Por outro lado, esses acontecimentos surgem por acaso. Na obra de Auster parece ser determinante esta preocupação com o acaso. Como no filme “Magnólia” o autor parece querer dizer que os acasos, os acontecimentos aparentemente fortuitos são aqueles que, de facto, determinam o sentido da nossa vida. Mas trata-se também de uma obra sobre os sentimentos humanos: perdido no mundo imaginado do seu livro, Nick depara com o maior drama da sua vida: o amor duplo da sua esposa: por ele mas também pelo seu melhor amigo. O maior desafio de Nick é agora o perdão. A questão surge, dramática e real: até onde pode um ser humano perdoar?
sábado, 2 de setembro de 2006
O Amor nos Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez
Logo nas primeiras páginas revela-se a genial fantasia da literatura sul-americana: o doutor Juvenal Urbino descobriu que os sintomas do amor são idênticos aos da cólera asiática. Trata-se de uma obra bem ao jeito de Marquez: o humor e a leveza da escrita misturam-se de uma forma genial com um curioso desdém pela própria América Latina; as guerras civis que se sucedem, a miséria crónica das populações desprezadas por políticos corruptos, a destruição das florestas, vítimas de interesses económicos capitalistas. Por todo o lado reina a corrupção, os interesses egoístas, o desprezo pelos outros e a inveja. E, no meio de tudo isto, uma belíssima história de amor. Durante 51 anos, 9 meses e 4 dias, Florentino Ariza amou Fermina Danza à distância, sem qualquer contacto entre os dois. Um amor que só declarou no dia em que Femina enviuvou, aos 72 anos. Na sua juventude, Florentino comia pétalas de rosa e bebia frascos de água de colónia para se sentir perto de Fermina. Tocava violino para ela escolhendo o lugar da serenata conforme o rumo do vento para que ela o escutasse. Depois escrevia manifestos de embarque em rima, de tal maneira que até os documentos oficiais pareciam cartas de amor. Durante toda a vida entreteve a paixão com episódios de amor carnal, enganando a alma com a carne. Durante mais de cinquenta anos manteve aquela força vital que só um amor profundo pode dar ao ser humano, resistindo ao tempo mas também a um sofrimento atroz. O amor puro e insatisfeito de Florentino contrasta com as imposições da carne, expondo de forma sublime essa dualidade entre a carne e o sentimento que preenche de forma avassaladora a vida humana. O final do romance é, pela surpresa e sentido de humor um dos mais geniais da literatura contemporânea.
terça-feira, 18 de julho de 2006
Os Irmãos Karamazov - Fiodor Dostoievsky
“Os irmãos Karamazov” é talvez a grande obra-prima do escritor russo. Para além de um enredo riquíssimo, esta obra revela a grande capacidade de análise psicológica dos personagens, que é característica essencial de Dostoievsky. Esta edição divide-se em 2 volumes. O primeiro, mais reflexivo, o segundo mais narrativo. Destaca-se a análise social e política da Rússia do seu tempo. Aliocha é a personagem principal do romance. No entanto, o próprio autor revela que este homem nada tem de herói, no sentido convencional do termo. Passa quase despercebido durante grande parte do enredo mas há uma chave para compreender a razão que levou Dostoievsky a colocá-lo como “herói”. É o único personagem que não julga ninguém. Aliocha “nunca desejaria julgar os homens e em caso algum seria capaz de os condenar.” É esta uma das grandes lições do mestre russo: a maioria dos homens cede sempre à tentação de julgar. Aliocha, pelo contrário, ouve, compreende e nunca faz juízos de valor sobre os outros. É assim uma espécie de guardião da sensatez perante as loucuras e paixões dos Karamazov. Um dos temas mais queridos a Dostoievsky é o papel da religião. Sendo um homem de fé, não deixa de criticar determinadas práticas da religião ortodoxa instituída. Defende uma religião essencialmente voltada para os mais desprotegidos, encarnada em Aliocha mas também no ancião Zossima. Uma visão social mas positiva da religião. É o próprio ancião que diz: “os homens foram criados para a felicidade, rejeitando assim as visões apocalípticas e a necessidade de sacrifícios para atingir o céu. O padre Ferapont, rival de Zossima, por exemplo, “vê maravilhas” graças ao intenso jejum a que se sujeita. Torna-se assim um mártir mas também um ser completamente desligado do mundo e absolutamente inútil. Um dos pontos mais fortes da obra de Dostoievsky é análise da alma russa, aqui representada pela família Karamazov. Estes, se caem no abismo “vão sempre de cabeça para baixo”. Sentem prazer na angústia, na tristeza. O homem é um mártir do destino. A vida é essencialmente sacrifício e dor. Mas é também sensualidade, vivida com excesso, com as fortes paixões da alma russa. Assim é Dmitri, que usa os outros como plataforma para a felicidade, à procura do excesso. Mas o seu espírito contraditório leva-o da sensualidade extrema à angústia: procura o prazer mas tem consciência das suas baixezas e vive-as como se fossem uma fatalidade. Mau grado o seu apurado espírito crítico, Dostoievsky nunca perde aquela enorme benevolência perante o ser humano, descobrindo sempre um fundo positivo, mesmo que se trate do detestável Fiodor ou do irascível Dmitri. Quanto à análise social, desenvolve uma perspectiva de simpatia para com os pobres realçando a sua honra e dignidade. Vítimas de injustiças e abusos, numa Rússia recém saída da servidão, os pobres são o refugo de uma estrutura económica e social caduca, onde prevalecem muitos dos privilégios do antigo regime. Mas o alvo preferido do escritor é a velha burguesia avarenta, representada por Fiodor. O pequeno Iliucha é aqui o símbolo da opressão feudal que ainda se sente na Rússia de Dostoievsky. Outra dimensão do pensamento de Dostoievsky tem a ver com a religião. Ivan, o ateu, diz: “é extraordinário que essa ideia da necessidade de Deus tenha surgido no espírito de um animal tão selvagem e perverso como é o homem. Dostoievsky não comunga do ateísmo de Ivan, mas compartilha com ele uma visão muito negativa da alma humana. Ao longo da obra coloca-se uma ênfase muito especial no sofrimento atroz de que são vítimas as crianças. E no meio de tanta dor, onde fica Deus? O ancião Zossima é o porta-voz de um pensamento religioso que Dostoievsky parece partilhar: Zossima revela uma visão optimista do mundo, um amor à humanidade que Dostoievsky parece partilhar. No entanto, essa benevolência é acompanhada de uma certa mágoa pelo destino, sempre negativo, sofredor, do ser humano. E o processo de Dmitri revela precisamente essa necessidade de expiação que envolve o ser humano. Perante a fraqueza da alma humana, a vida é uma constante expiação dos pecados e fraquezas. Daí a fatalidade do sofrimento humano. No meio de tudo isto, Aliocha aparece como o representante do ser virtuoso que, com resignação e um sorriso, enfrento o destino com benevolência. Daí o seu carácter solidário e bom. Dostoievsky compreendeu melhor do que ninguém a alma russa. Sofredora pelas condições materiais da existência mas facilmente entregue aos prazeres do mundo. Mas, ao mesmo tempo, sofredora pelo peso do remorso, pela necessidade de expiar essa mesma tendência para a devassidão. Desta forma é o próprio Dostoievsky que se confunde com a alma russa. Até o velho Fiodor, cúmulo da vida boémia, é perseguido pela consciência. Até Zossima, homem de paz, vive a expiar os pecados da juventude. A culpa está sempre presente. No fundo, todos os personagens da obra são uma mistura do bem e do mal, revelando ora uma ora outra destas facetas. Lisa é assumidamente má. O protótipo da maldade. Mas no fundo todos são maus. Catarina, que ama desesperadamente Dmitri é a mais importante testemunha de acusação e é ela quem mais contribui para a sua condenação. Mesmo insistindo na sua inocência, Dmitri aceita o castigo por necessidade de expiação.
segunda-feira, 3 de julho de 2006
Os Jardins da Luz - Amin Maalouf
No vale do Tigre, no reino dos Partos, no terceiro século depois de Cristo, vive Pattig, pai de Mani. Desprezando tudo e todos, incluindo a mulher o o filho recém-nascido, renuncia a tudo para se juntar a um grupo de eremitas, em nome de um Deus que não conhece, apenas vislumbra por intermédio de Sittai, o líder. Trata-se de uma obscura seita masculina que encara a religião como o afastamento total em relação ao mundo. Este afastamento é, no entanto, a origem e explicação da intolerância. Nesta comunidade o feminino é encarado como a origem do mal. Os bens materiais, pelo contrário, abundam: a comunidade possui os melhores campos de cultivo e acumula riqueza com o comércio dos frutos da terra. Ao mesmo tempo, o líder impõe um modo de vida regrado, onde se cultiva a frugalidade e mesmo o jejum. É a esta “religião” que Mani é “convertido” aos três anos, afastando-se da mãe. A crença libertadora aprisiona assim o ser humano. Retira-o do mundo para o enclausurar nos limites estritos da crença. O absurdo revela-se: onde está a libertação? Patting e Mani já não são escravos do mundo mas são escravizados por esse Deus que ninguém conhece. Nessa comunidade, Mani cresce rejeitado por todos, mesmo os que o “libertaram”. Aí vai preparando a sua verdadeira libertação. O seu primeiro seguidor é Malcos, um glutão com devaneios mundanos que só Mani compreende. Malcos é o pecador, aquele que recusa a “libertação”. As primeiras manifestações proféticas de Mani são-lhe sugeridas pelo seu “anjo”, cujas aparições marcam o início da sua saga. O ser sobrenatural, no entanto, mais não é que o “gémeo” de Mani, o seu outro “eu”, subjugado que tenta libertar-se. No reino dos eremitas, na comunidade dos “fatos-brancos”, Mani sobrevive graças à sua astúcia, à sua capacidade de viver um mundo interior que, esse sim, o liberta do mundo real. Na comunidade, os livros são quase proibidos, fonte de pecados e perigos para a religião instituída. Mani, pelo contrário, diverte-se com eles e pinta-os – suprema heresia! A religião de Mani começa a revelar-se a religião da alegria. Desafia os seus superiores e no dia da sua fuga usa, escandalosamente, roupas coloridas! A partir daí, Mani começa a divulgar aos desprotegidos a sua verdade. As suas ideias constituiriam aquilo a que hoje chamamos “maniqueísmo”: a doutrina da luz que triunfa sobre as trevas; do bem que em cada homem subjugará o mal. Luz e trevas, bem e mal residem no interior de cada homem. Cabe a cada um conduzir essa luta rumo ao triunfo da Luz. Mani prega, com escândalo, o fim das castas e a união de todas as religiões, de todos os homens. Mas essa viria a ser a razão da sua condenação: porque os homens não querem que lhes digam que a sua religião é verdadeira; preferem que lhes mostrem que as outras crenças estão erradas. Mani, o profeta médico que assim faz milagres humanos; o profeta pintor que pregou a beleza não defende um Deus todo-poderoso mas um Deus bom, que recusa a guerra e o poder. Mani, o homem que tentou conciliar os homens e por isso foi condenado. Por defender uma religião baseada na alegria, na cor, na musica, na arte, no saber, nos perfumes… na luz! Quando os Sassânidas e os romanos se decidem pela paz e não pela guerra, a corte do rei Sapor ficou indignada. Porque a guerra implica triunfo, glória e, principalmente tributos e saques. Sem guerra não há riqueza nem poder. Mani defendia a paz. Era preciso detê-lo.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2006
As Intermitências da Morte - José Saramago
No contexto da obra de José Saramago, trata-se de um livro diferente. É um texto belíssimo, num estilo inconfundível, cheio de imaginação e humor. É brilhante a forma como, logo de início, o leitor é levado, com naturalidade, para o domínio do inverosímil, da fantasia pura. A morte é encarada como uma força viva e quase física. Desta ideia, Saramago parte um discurso cheio de peripécias fantasiosas mas sempre sem perderb a ligação com o real, com a vida. “As intermitências da morte” é, em parte, uma fábula – a morte assume características humanas, como uma entidade autónoma embora com todos os poderes que a confundem com um deus. Tudo começa quando a morte decide fazer greve e os cidadãos deixam de morrer. Neste ponto é genial a forma como Saramago põe em confronto a alegria do povo com as preocupações do governo. Só desta forma se reconhece a importância da morte e a sua função prática. Sem a morte a vida do país torna-se um caos; a Igreja, que controla o poder político e determina as ideologias dominantes, desespera. Porque sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há religião. Levadas as coisas às últimas consequências, sem a morte a religião perderia todo o seu poder, porque sem a morte não há medo. É essencial para o poder político e para a Igreja que o medo perdure. Mas a ausência da morte cria também problemas politico-sociais: “o que vamos fazer com os velhos”? – uma questão actual e polémica que Saramago introduz com mestria e a-propósito. Outra ideia interessante neste livro é a impensável lista de prejudicados com a greve da morte: agencias funerárias, hospitais, companhias de seguros, médicos, advogados, jornalistas, etc etc. Até os filósofos dependiam da morte; sem ela toda a especulação se torna impossível porque sem a morte não se pode procurar o sentido da vida. O povo, aos poucos vai sentindo o lado negro da greve da morte; afinal, multiplicam-se os problemas quando os entes queridos, mesmo em sofrimento, não morrem. Torna-se impossível suportar os moribundos. Os políticos e as máfias – numa amálgama inteligentemente criada por Saramago – definem estratégias concertadas para evitar escândalos, procurando manter “o rumo natural” das coisas, de forma discreta e politicamente correcta, perante a “moda” que entretanto se instalara: a de levar os moribundos a morrer do outro lado da fronteira. É uma incursão discreta de Saramago pelo tema da eutanásia. Aqui, fica bem clara uma crítica severa à forma como as estruturas políticas encaram os idosos – o matematismo mercantilista da Segurança Social, tema tão controverso como actual. Ao longo de todo o livro, um traço curioso é o discreto e inteligente sentido de humor com que Saramago aborda estes temas tão dramáticos. A parte final do livro é genial e surpreendente. A morte assume um rosto humano, feminino e irresistível. Mas só a música é capaz de a vencer. A música e o amor.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2005
D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto - António Lobo Antunes
Ao permitir a publicação destas cartas, Lobo Antunes abre-nos, descaradamente, a porta à sua privacidade. Muitas vezes, ao longo do livro, o leitor sente-se um intruso na intimidade do autor. É impressionante a forma como o grande escritor exprime de forma honesta e comovente os seus sentimentos mais íntimos, uma intensa vida interior que só a solidão proporciona. O amor e a saudade são os temas gerais das cartas. O subtítulo do livro (“Cartas da guerra”) é, de certa forma, enganador. A guerra é sentida como um monstro estúpido e absurdo, do qual se evita falar. Por dois motivos: porque era vedado ao soldado transmitir informações relevantes e porque, para Lobo Antunes, falar da guerra era algo doloroso. É como se as cartas funcionassem como uma forma de escapar ao monstro e não para dar notícia dele. São desabafos íntimos e, acima de tudo, uma imensa manifestação de amor. Um dos aspectos mais surpreendentes das cartas é a manifestação dos gostos literários do autor. Surpreendente a forma como revela um certo criticismo em relação a escritores muito conceituados, como se o auto-conceito de Lobo Antunes como escritor superasse todas as estrelas da literatura universal. Mas não; trata-se apenas de momentos de euforia que, em breve, são substituídos por fases de depressão em que se considera o mais fracassado dos escritores. Ao longo das cartas, vai-nos dando conta, a par e passo, da escrita da sua primeira grande obra: ”Memória de Elefante”. Aqui reside um dos maiores motivos de interesse destas cartas: o relato do sofrimento do escritor, dos seus momentos de euforia e de crises de inspiração. Interessante também a forma como se esforça por recusar influências, se bem que nunca esconda a sua admiração por escritores como Faulkner, Céline ou Garcia Marquez. Intimamente, Lobo Antunes vagueia entre uma modéstia exagerada, deprimida, e um convencimento entusiasmado. Talvez essas oscilações sejam o reflexo do momento depressivo que vivia. Mas são também, sem dúvida, traços característicos da genialidade do grande escritor; um escritor que sonhou com o Nobel e que, cada vez mais, o merece. Mas para lá da genialidade do escritor, da sinceridade das suas confissões, da bravura do soldado/médico, sobressai a grandeza do homem: um homem bom, delicado, sensível, altruísta, generoso – um homem comoventemente bom.
domingo, 20 de novembro de 2005
A Curva do Rio - Vidiadhar Naipaul
Trata-se de uma das mais lúcidas leituras do processo de descolonização africana. Algures num país da África Central, emerge um regime ditatorial, na sequência do caos provocado pela descolonização. Um líder apodado de “Grande Chefe”, defendendo ideias pseudo-marxistas, assume-se como o garante da felicidade africana mas mais não consegue do que colocar o país em estado de guerra permanente, conduzindo à desgraça e à pobreza extrema. O Grande Chefe, sem nome, faz lembrar o senhor do Castelo de Kafka – a distância garante o respeito e o medo. Os retratos do Chefe, espalhados por todo o lado, realçam o mito. Salim, um indiano, procurava a fortuna em África. Mas é aprisionado na teia de dos conflitos que emergem. A vida dos emigrantes asiáticos é esmagada pelo conflito. Emerge um choque cultural tripartido: africano, europeu e asiático. A cultura e os costumes europeus, mau grado a descolonização, permanecem como modelos que, consciente ou inconscientemente conduzem os africanos. “A África, retornando aos seus velhos hábitos com meios modernos, seria um continente difícil durante algum tempo”. Ao mesmo tempo, a pobreza e a ignorância são campos férteis para a emergência de um regime autocrático e violento. Surge a guerra civil. No meio de tudo isto, o ser individual perde-se. A vida de Salim é um processo constante e desesperado de procura da identidade perdida. O ser individual devastado em nome de “ideais”. Só no interior de si encontra algo de concreto: quando se apaixona por Yvette, Salim vê o seu mundo reduzir-se; “e quanto mais reduzido se tornava o seu mundo, mais obsessivamente eu vivia nele”.
sábado, 19 de novembro de 2005
Goa ou o Guardião da Aurora - Richard Zimler
O enredo passa-se na colónia portuguesa de Goa, em finais do século XVI. Nessa época, reinad0o de D. João III, o Império Português iniciava o seu período de declínio. Necessitando de recuperar a solidez ameaçada, o Império procurava suster os elementos de desagregação, nomeadamente a divisão religiosa. Neste livro entrecruzam-se três religiões: o catolicismo português, o Hinduísmo e o Islamismo. A Inquisição fazia enormes progressos na sua missão de impedir todos os «bruxos» - quer fossem nativos hindus, quer imigrantes judeus - de praticarem as suas crenças tradicionais. Zimler, estudioso das religiões, faz derivar todo o enredo deste choque multi-cultural e religioso. Os que se recusavam a denunciar outros ou a renunciar à sua fé eram estrangulados por carrascos ou queimados em autos-de-fé. Goa ou O Guardiã da Aurora faz reviver de forma brilhante esses tempos de terror. Ao viver nos limites do território colonial, a família Zarco consegue manter firmes as suas raízes luso-judaicas. Tiago e a irmã, Sofia, gozam uma infância pacífica aprendendo com o pai a ilustrar manuscritos e mergulhando no caos inebriante das festividades hindus celebradas pela sua amada cozinheira, Nupi. Quando as crianças atingem idade adulta, a família é destroçada quando, primeiro o pai e depois o filho, são presos pela Inquisição. Mas quem poderia tê-los traído? O rigor histórico é notável. Simultaneamente, trata-se de um policial histórico magnífico, atingindo situações de suspense que prendem o leitor, mau grado o volume da obra. A incerteza mantém-se até ao final. No entanto, fica a sensação de um desenlace profundamente marcado pelo mal e pela tragédia, fazendo lembrar algumas obras de Shakespeare. Na linha dos seus romances históricos anteriores - O Último Cabalista de Lisboa e Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, traduzidos em vários países com grande sucesso tanto comercial como da crítica, dá-nos um livro imaginativo, estimulante e profundamente sensível.
sexta-feira, 18 de novembro de 2005
O Processo - Franz Kafka
De todas as obras de Kafka esta é aquela em que mais nitidamente o autor consegue aliar o obscuro ao real. Caricatura do real? Talvez. Mas mais do que isso, é uma história que leva ao extremo a angustia de um homem perdido num mundo aparentemente irreal em que está inserido. A existência de Joseph K. transforma-se numa procura desesperada de conhecimento e compreensão da vida que alguém lhe destinou. Angustiante. Deprimente. Real. Em O Processo estamos perante uma das mais comuns e significativas razões da angustia humana: a necessidade de conhecer e compreender; o desespero provocado pela ignorância, quando esta coabita com a necessidade do conhecimento. Mas este é apenas o ponto de partida! O Processo retrata o desajuste entre o ser humano, entendido na sua dimensão individual, e um Estado totalitário, impessoal, que paira num universo desconhecido, longínquo… Franz Kafka é o escritor do “absurdo”, como o tinha sido Dostoievsky, como seria Camus. Mas o absurdo de Kafka, ao contrário do filósofo francês, é um absurdo transcendental; reside na incomunicabilidade do homem com o homem, formando uma trama de relações pessoais sem sentido, impostas por circunstâncias alheias ao homem. Joseph K. não consegue chegar até à justiça, que, lentamente, se transforma numa entidade misteriosa e quase irreal. Joseph não compreende a justiça. Nem os homens, nem Deus. O absurdo está na ausência de compreensão mas ela deriva da ausência de comunicação. Daí o desespero, a solidão e o absurdo que cobre o mundo dos homens. A culpa de Joseph é a sua existência; única resposta possível para a angustia do desconhecimento da acusação. É o culminar de uma espiral de desespero que revela uma visão dolorida da alma humana e, acima de tudo, da sociedade humana.
terça-feira, 17 de maio de 2005
Ao Encontro de Espinosa - António Damásio
“Os sentimentos de dor ou prazer são os alicerces da mente” – é com esta frase eloquente que Damásio inicia uma obra marcada pela coragem e pelo rigor científico. Trata-se de um português infeliz e injustamente pouco reconhecido em Portugal, mesmo sendo um dos melhores neurocientistas mundiais. Os sentimentos, como a tristeza, a alegria ou o medo são características fundamentais do ser humano. A sua importância na vida sempre foi reconhecida mas nunca se colocou a hipótese de uma análise neurobiológica que permitisse avaliar a sua importância nas construções mentais. Nesta obra Damásio demonstra algo que já tinha ocorrido a Espinosa mas que só a ciência actual pode comprovar: a origem neurobiológica dos sentimentos e emoções (o cérebro é essencial para o seu desencadear) e o seu contributo decisivo para todos os comportamentos relevantes nas maiores criações do espírito humano. Trata-se de uma obra que alia de forma admirável o humanismo à ciência, a partir da ideia de que mente e corpo são inseparáveis. Os sentimentos são, antes de mais, estados particulares do corpo. São percepções que se apoiam essencialmente em mapas cerebrais do estado do corpo. Se fosse possível remover esse contributo deixaria de ser possível exprimir qualquer sentimento. Todo o processo tem início num estimulo externo competente (ligado a um estado de corpo) que promove a execução de um programa pré-existente de emoção. A partir daí são elaborados mapas neurais que desencadeiam um estado mental (alegria, tristeza, etc.) Assim, o sentimento envolve um estado de espírito mas também um “estado de corpo”. Exemplo dessa componente é o efeito do bloqueio de uma substância – a ocintocina – que impede a ligação afectiva. Quais são então as fontes do sentimento? Para que este se verifique são necessárias 4 condições ao nível somatossensitivo: a existência de um sistema nervoso, a criação de padrões mentais (imagens), a consciência (também ela entendida como resultado de um processo neurobiológico) e um cérebro capaz de criar estados corporais. Tradicionalmente, os sentimentos são apontados como um dos traços distintivos mais importantes do ser humano. Damásio confirma esta ideia mas desmistifica-a: nenhuma inteligência artificial seria capaz de “fabricar” sentimentos, apenas porque eles têm origem na organização do cérebro, a um nível muito profundo e complexo. Damásio analisa também o efeito dos sentimentos em vários níveis da vida humana, como o comportamento social, no raciocínio, no pensamento religioso, etc. A construção de todas as estruturas culturais depende de todas as características neurobiológicas que constituem o conhecimento do si. Dentro dessas características neurobiológicas incluem-se os sentimentos e as emoções. Essa construção do si, ou do connatus (expressão de Espinosa) constituem a matéria-prima para a construção de liberdade e da felicidade. Enfim, uma obra inovadora, atraente, magnífica. Única.
segunda-feira, 16 de maio de 2005
Viagem ao Fim da Noite - Louis Céline
França, durante a 1ª Guerra Mundial. Ferdinand Bardamu é um jovem francês que gasta uma vida toda entre a carnificina das trincheiras, o inferno das colónias, a solidão de Nova Iorque e, finalmente, a paz pobre de uma França saída da Guerra. Uma França triste e miserável. Por todos estes destinos errantes estendeu-se uma vida feita de miséria, infortúnio e a pior das desgraças, uma solidão involuntária, uma condenação perpétua ditada por uma personalidade abatida, esmagada. Mau soldado, colono frustrado, médico fracassado, Bardamu percorre a vida entre a desgraça universal, impotente e miserável. Ainda, e sempre, a dualidade solidão-loucura Por toda a obra perpassa a revolta pelas condições riais da existência de Ferdinand e da maior parte das personagens. Aqueles que escapam à miséria, os ricos, são vistos como abutres, personagens principais de um mundo repleto de injustiça. Trata-se, portanto, de uma visão profundamente pessimista do mundo e de uma humanidade enterrada na guerra, no colonialismo absurdo e desumano. Este pessimismo torna-se mais evidente na descrição de uma sociedade injusta e cruel. Mas todo este contexto, toda esta vida de sofrimento, não faz de Ferdinand um herói nem um mártir. As desgraças da vida fazem dele um ser frio, cruel e egoísta. A miséria degenera a alma e endurece o coração. A luta pela sobrevivência transforma a sua vida numa luta cruel e permanente contra tudo e todos. Aí reside um dos valores mais altos desta obra: a análise psicológica das consequências da miséria, lembrando Dostoiévski. Talvez ainda mais negro do que a miséria material é o vazio de sentimentos revelado pela maioria das personagens de Céline. Amor? Amizade? Solidariedade? Tudo palavras vãs, insignificantes, mesmo ausentes. Espíritos desprovidos de carácter e de sentimentos, almas vazias em corpos mirrados pela noite cerrada que é a vida. Uma das visões da humanidade mais negra, pessimista e real que alguma vez se escreveu. Brilhante.
domingo, 15 de maio de 2005
Portugal Hoje - O Medo de Existir - José Gil
Trata-se de uma visão algo pessimista do ser português, uma análise da alma portuguesa que privilegia os seus traços mais negativos. É portanto, uma visão extremamente crítica. Para Gil, o povo português é, por natureza, avesso àquilo a que chama “inscrição”, ou seja, afasta-se voluntariamente daquela perspectiva crítica e interventiva que seria essencial para a plena democracia. Atribui grande parte dessa tendência ao período salazarista que, na sua perspectiva, marcou os portugueses de forma indelével, retirando-lhes o sentido de participação democrática. Fica a sensação de um certo reducionismo. É pouco crível que, por um lado, as marcas do fascismo tenham perdurado de forma tão marcante até aos nossos dias e, por outro lado, que este fenómeno seja especificamente português. É comum ouvirmos e lermos observações deste tipo noutros países ditos civilizados. Como explicar, por exemplo, as elevadas taxas de abstenção eleitoral em países que nunca viveram em ditaduras? Um outro traço característico que aponta ao “ser” português é o pensamento “pequeno”. Os portugueses gostam de tudo o que é pequeno, recusando-se a abraçar planos a longo prazo. Falta ambição e auto-estima para que o talento e o trabalho resultem em progresso. Mais uma vez, fica a pergunta: será isto assim tão típico e exclusivo do povo português? No entanto, neste aspecto, não é difícil dar razão a José Gil. Uma outra característica da alma lusa será a inveja. O português não quer ser melhor que o outro: quer que o outro lhe seja inferior. Por isso, não valoriza as suas potencialidades, preferindo desvalorizas as dos outros. Mas não será essa uma tendência natural do ser humano? Estas características essenciais do carácter português estão a contribuir, na perspectiva do autor, para a perda de uma oportunidade única para afirmar o nosso país no contexto europeu. No entanto, é caso para perguntar: quantas oportunidades “únicas” já perdemos ao longo da História de Portugal? No meio de tudo isto, Gil é bastante crítico em ralação ao papel da Comunicação social e das estruturas políticas. Os meios de comunicação social alimentam a preguiça mental e os políticos cultivam o imobilismo. Parece-me que esta obra cai em três equívocos fundamentais: - Exagero no papel negativo do regime fascista. Não duvido dos seus efeitos negativos. No entanto, há problemas de fundo que ultrapassam em importância a responsabilidade de Salazar. - Falta de uma perspectiva histórica mais profunda: o ancestral saudosismo, o velho pessimismo saudosista, a tendência para o lucro fácil herdada dos descobrimentos e do ouro brasileiro são fenómenos históricos que marcaram indelevelmente a alma portuguesa e que Gil esquece. - Falta de profundidade. Fica a ideia de uma obra escrita para o grande público, também ela voltada para aquele objectivo que Gil tanto critica: o sucesso fácil. Sobre este tema seria certamente muito mais proveitosa a leitura de O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, do grande Eduardo Lourenço (1978).
sábado, 14 de maio de 2005
Bichos - Miguel Torga
Escrito em 1940, Bichos é um clássico da literatura portuguesa. Livro simples, transparente, honesto e sentido. Um grito amargo e profundo da terra que encerra os homens. Uma fusão total entre a terra e o ser humano, como se tudo emergisse de uma amálgama onde terra, bichos e homem fossem a pasta de onde nasceu a ordenação universal das coisas e dos seres. A rudeza das torgas, a aspereza das montanhas, a magreza das terras e a solidão do tempo, misturam-se num universo, cantado em poesia por um mestre que foi apenas um homem. Um homem que viveu e lutou contra um mundo ainda mais agreste, ainda mais hostil: o mundo da ditadura. Bichos é, também, o retrato fiel do viver transmontano; uma vida de suor e lágrimas, por entre escolhos e lobos, mas sempre repleta daquela alegria que só o sofrimento pode justificar: a alegria de ser, de viver em comunhão total coma natureza, em fusão permanente com os elementos. Miguel Torga fez desta obra um testemunho impar da união natural entre os Homens e os Bichos – a simbiose da vida. No meio dos dois, a terra, o traço que lhes dá vida. No trabalho, nas paixões e nas dores, os bichos compartilham com os homens as esperanças e as desgraças. Curiosa a palavra: “bichos” e não “animais”. Bichos são, talvez, os animais humanizados, irmanados com o homem na mesma luta; na vida. A linguagem, simples mas cuidada é uma das mais belas expressões da cultura popular: um vocabulário fidelíssimo à realidade transmontana. Quem conhece aquelas terras, reconhece-se em Torga. Mas a poesia latente por detrás destas estórias não é de Torga. É da terra. Por isso, este livro não é só uma criação do seu autor; é muito mais do que isso: é uma emanação da terra. E neste conceito de “terra” podemos englobar os homens e os seus irmãos “bichos” – os três elementos constituem um todo, um cosmos único onde Torga participa como mensageiro, personagem e intérprete.
sexta-feira, 13 de maio de 2005
Dona Flor e seus Dois Maridos - Jorge Amado
O maior mérito desta obra é o retrato eficaz da realidade brasileira, principalmente ao nível mental e religioso. O vocabulário utilizado é riquíssimo e reflecte precisamente essa multi-culturalidade própria do Estado da Bahia, onde se desenrola a acção. A religiosidade que mistura ao mesmo tempo o catolicismo e o candomblé, colocando as personagens do candomblé lado a lado com os santos e heróis do catolicismo (algo que, na verdade, se enquadra na religiosidade baiana, já que Salvador tem mais igrejas que qualquer outra cidade do Brasil e ainda assim é centro das religiões de origem africana). A outra característica vem a ser o facto de que Vadinho e Teodoro são metáforas para o id e o superego, respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo e dado ao caos (no seu caso, o jogo); Teodoro é metódico e controlado ("Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar" é seu lema, pendurado na farmácia). Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente feliz, invoca o ideal de equilíbrio entre os dois. Não é, a meu ver, uma obra de grande alcance literário: excelentes descrições, humor a rodos, linguagem muito atractiva e um vocabulário rico não compensam a falta de profundidade das ideias expostas. Nem seria talvez essa a intenção de Amado. Mas é precisamente a leveza, a graciosidade, que impedem essa abrangência, essa profundidade que caracterizam as obras-primas. Talvez estas características ajudem a explicar o sucesso das adaptações de Amado às telenovelas. Enfim, um livro que, mau grado a sua incrível extensão, se lê com agrado, mas do qual pouco fica no arquivo da memória.
quinta-feira, 12 de maio de 2005
O Jogador - Fiodor Dostoiévsky
“O Jogador” não é uma obra-prima; porque foi escrito por Dostoiévsky e os termos de comparação são, obviamente, os seus grandes clássicos. É quase escusado dizer que esta obra não tem o fôlego, a profundidade nem a genialidade de “Crime e Castigo” ou “Os irmãos Karamazov”. Mas para qualquer outro escritor isto seria uma obra genial. O problema é que aos génios pedimos sempre obras-primas. Mas não deixa de ser uma obra excelente, se tivermos em conta os propósitos que o levou a escrevê-la: conseguir, o mais rapidamente possível, dinheiro para pagar as suas próprias dívidas de jogo. Portanto, trata-se, em grande parte, de uma obra de cariz (ou pelo menos de inspiração) autobiográfica. Trata-se de uma análise magnífica da vida e das angústias de um jogador. A dependência envolve Alexis Ivanovitch até ao limite. Mas não se trata apenas de uma análise psicológica. O enredo envolve uma curiosa e profunda dimensão de análise social e até com implicações de crítica política. O que está em causa é muito mais do que a vida e a desgraça de Alexis. É a critica social à aristocracia feudal que persiste numa Rússia esclerosada e anacrónica. Uma nobreza de nome, empedernida, estupidificada e inútil, simbolizada pelo patrão de Ivanovitch, o General. Tratava-se do meio ideal para que, mais tarde, viesse a eclodir a Revolução Soviética. Num enredo que se desenrola nesse meio aristocrático, o vício do jogo é encarado por Dostoiévsky como um sintoma dessa falta de inteligência de que padeciam as elites nobiliárquicas. Daí a sua admiração pela Inglaterra – um país livre, onde pululavam as ideias progressistas da época e onde sobressaía uma aristocracia culta, investidora, dinâmica.
terça-feira, 10 de maio de 2005
Os Indiferentes - Alberto Morávia
Moravia escreveu esta obra com apenas 22 anos. É a sua primeira obra. Talvez por isso, o livro mistura uma grande simplicidade narrativa com aquele traço de génio tão peculiar em Morávia: um estilo directo, frontal por vezes frio, outras vezes terrivelmente apaixonado. É precisamente nesta primeira fase da sua vida literária, que encontramos o Morávia mais puro, mais profundo, antes de se ter rendido ao êxito fácil. Se excluirmos essa grande obra que é A Romana, este livro é, talvez, o mais conseguido de Morávia. É a história de Leo Merumechi, um comerciante sem escrúpulos que se envolve com a filha da amante, usando a sua relação com ambas como uma estratégia para “deitar as mãos” às propriedades da família. Indiferentes, os 4 ou 5 personagens do romance são arrastados por Leo, inconscientemente, para um processo de dominação em relação ao qual demonstram uma inactividade por vezes desesperante. Trata-se de uma reflexão sobre o medo, ou pelo menos sobre a insegurança, que leva as pessoas a deixar-se arrastar pelos outros quando estes demonstram poder. Por outro lado, há as condições materiais. Na esteira do neo-realismo, Morávia aborda a Itália do pós guerra como um meio decadente, onde o acesso à riqueza se reveste de estratégias pouco claras, onde o recurso à burla se torna banal. Este decadentismo ético e moral conduz a uma vontade de afirmação social que põe em causa os padrões morais da época. Saliente-se ainda o facto de se usarem apenas 5 personagens. Este facto, aliado à dinâmica narrativa deixa adivinhar alguma influência do teatro. Acima de tudo, é uma obra sobre a inacção. Indiferença e cobardia resultam em infelicidade. Parece-me ser esta a ideia fundamental do livro.
segunda-feira, 9 de maio de 2005
Mulheres - Charles Bukowsky
É difícil encontrar um romance de sucesso com conteúdo mais marcadamente pornográfico do que “Mulheres”. A vida de Bukowsky/Chinasky é descrita com uma crueza quase inimitável. Talvez tenha sido essa frieza e o estilo hiper-objectivo os segredos do sucesso deste escritor alcoólico, com o ele próprio se define. Um escritor alcoólico decadente que escreve para poder dormir até ao meio-dia. Para Chinasky a vida é apenas uma sucessão alternada de amor álcool e sexo. No entanto, por detrás desta crueza, desta objectividade extrema e do hedonismo que percorre todo o enredo, há uma vida angustiada e um pessimismo latente que desmascara todos os prazeres que o autor/personagem cultiva. Sempre num estilo cruel mas bem-humorado, Bukowsky deixa transparecer a angústia de uma solidão rodeada de mulheres, seres quase anónimos que preenchem as lacunas de uma vida sem sentido. Um dos aspectos mais interessantes da obra é o contraste entre o estilo bem-humorado e o fundo melancólico, a visão atormentada da vida: “não interessava o que elas faziam, nós acabávamos na solidão e na loucura” – pág. 264 Enfim, um livro divertido e cruel. Como a vida de Bukowsky.
sábado, 22 de janeiro de 2005
Madame Bovary - Gustave Flaubert
Se vivesse no século XXI, Madame Bovary seria cliente assídua de um qualquer psiquiatra. Tomaria doses generosas de sedativos, barbitúricos e anti-depressivos. Mas no mundo fechado da sociedade pequeno-burguesa do século XIX francesa, Emma só encontra a fuga no amor. Num amor puramente carnal, talvez por isso o mais puro. Num amor furioso e desmedido, Madame Bovary, vítima de um marido estúpido e incapaz de a fazer feliz refugia-se no adultério, a partir do qual procura construir uma outra vida. Tudo isso a troco de uns laivos de felicidade que a normalidade, triste e monótona, lhe negava. Enclausurada num mundo em que ser mulher virtuosa significava a negação do ser individual, procura no adultério esse direito que a civilização lhe recusava: a liberdade e o direito a ser feliz. O casamento como convenção. O sexo como redenção. Charles, o marido, é um pobre diabo, vítima da sua própria estupidez, que o torna incapaz de compreender Emma. É neste ponto que Flaubert se torna implacável. Afinal de contas, que culpa tem alguém de ser estúpido? Mereceria Charles tão grande castigo? No entanto, Charles era feliz enquanto Emma alimentava o seu espírito com o ardor do amor proibido. E a felicidade de Charles fundava-se na mentira, na ignorância. Talvez a mentira seja justificada por essa espécie de felicidade. Numa outra perspectiva, a obra poderia ter tido um título como “O triunfo da Estupidez”. No final, o triunfo é desse ícone da estupidez, o farmacêutico Homais. Mas o que mais marca esta verdadeira obra prima da literatura francesa é, sem dúvida, o elogio da liberdade, a redenção da mulher infiel, o encómio de um amor proibido mas redentor que faz de Emma uma verdadeira heroína. Ao mesmo tempo é um poderoso ataque frontal ao conservadorismo da sociedade burguesa do início da época contemporânea.
domingo, 16 de janeiro de 2005
Um Mundo Infestado de Demónios - Carl Sagan
O melhor divulgador científico que a Humanidade já conheceu e um dos homens maiores de todos os tempos escreveu esta obra um ano antes de morrer, vítima de uma estúpida e fatal doença. A pseudo-ciência é um dos alvos da crítica mordaz mas esclarecida de Sagan, por vezes aliada ao poder político, outras vezes sustentada pela crendice, cujo sucesso se deve à facilidade com que acreditamos naquilo que nos fascina. O fascínio é, na verdade, mais poderoso que a verdade. O “rosto humano” da Lua e os “canais de Marte” são dois exemplos práticos de mitos do século XX que prevalecem porque se baseiam na fantasia que encandeia qualquer cérebro desprevenido. Na verdade é fácil acreditar naquilo que se deseja ser verdadeiro. Um dos alvos mais insistentemente visados por Sagan é a crença nas visitas alienígenas. No entanto estas crenças estão muitas vezes ligadas a interesses económicos e políticos que Sagan combate poderosamente. Por exemplo, o secretismo que rodeou a Guerra Fria justificou a desconfiança quanto a informações governamentais. Tal secretismo forneceu o ambiente propício à propagação das “visões” e das crenças. Num terreno extremamente movediço, Sagan arroja-se a relacionar as crenças pseudo-cientificas do século XX com o contexto da religião cristã tradicional que criara fenómenos como a Inquisição, integrando também nesta análise as falácias das visões milagrosas da religião católica. No entanto, fica clara nesta obra a tolerância de Sagan perante toda e qualquer crença religiosa. Não é a religião que está em causa mas apenas as tentativas de explicar fenómenos científicos mediante a crença. A estupidificação da América, na palavra de Sagan é o drama maior do seu/nosso tempo, apontando o dedo a toda uma plêiade de embustes como curandeiros e prestidigitadores que se servem da ignorância das pessoas. No entanto, aponta também o dedo às estruturas do poder político como responsáveis por um sistema educativo ineficaz que permite e até cultiva a ignorância. A relatividade do conhecimento científico, é, no entanto, um facto indesmentível. E é com grande modéstia que Sagan admite os seus próprios erros. Admite também com frontalidade as consequências por vezes dramáticas do progresso cientifico, apontando como exemplo as investigações de Teller que levaram à bomba de hidrogénio. O livro tem como ponto alto a explicação das temíveis equações de Maxell. Talvez nunca ninguém tenha explicado de forma tão simples e atractiva aquelas complicadas relações entre electricidade e magnetismo. Um exemplo de como as ciências matemáticas podem ter implicações práticas preciosas. Nesta obra é impressionante o respeito de Sagan por ideias e concepções tão afastadas da ciência! Ideias que ele reprova liminarmente são sempre analisadas com aquela tolerância que só o conhecimento científico e uma mente brilhante podem suscitar. Impressionante também é o optimismo inabalável perante a ciência, em contraste com uma visão deprimida, profundamente pessimista com que Sagan vê a sua América! Ontem como hoje! Que diria Sagan da América de W. Bush?
sábado, 15 de janeiro de 2005
A Demanda de D. Fuas Bragatela - Paulo Moreiras
Fuas Bragatela, peão e vilão do século XIV, embora distante no tempo, é a imagem do cidadão português do século XXI: iletrado mas espertalhão, pacóvio mas desenrascado. Analfabeto, ignorante, ladrão e bêbado, é uma alma pura e ingénua, vítima do destino que o fez desgraçado. Plebeu da pior espécie é feito Dom por um acaso tolerado pelo Deus dos pobres. Filho de alfaiate miserável, desafiou o destino à procura de um qualquer e honrado futuro. O livro retrata com fidelidade uma época que constitui um autêntico filão para a literatura: o ocaso da Idade Média e o início da época moderna, na madrugada do renascimento e da epopeia dos descobrimentos. O cenário é um Portugal onde persiste o obscurantismo medieval, um país de bêbados e ladrões. Fuas é vítima e actor de todo esse mundo ingrato e desgraçado, onde pululam lendas e crendices, um cosmos fantástico, a tentar iludir uma realidade triste, injusta e revoltante. Ao ler este livro sente-se o mais profundo prazer da leitura – uma linguagem fiel ao português arcaico, riquíssima e plena de sentido de humor. O enredo é repleto de pormenores fieis à realidade histórica, sem anacronismos nem exageros. Esta fidelidade não impede, no entanto, o uso de uma imaginação impressionante. A obra peca apenas pelo incrível exagero nas coincidências factuais que povoam o enredo, tornando-o algo inverosímil.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2005
Bouvard et Pécuchet - Gustave Flaubert
Uma caricatura genial de um tipo de conhecimento superficial e fútil, típico de uma burguesia pedante que pululava na sociedade francesa daquele tempo (segunda metade do século XIX). No entanto, a caricatura mantém-se actual, nesta época em que se cultiva o conhecimento “trivial pursuit”. Mas a obra é muito mais que uma caricatura. É uma crítica mordaz e divertida (por vezes hilariante) à ignorância e à soberba. È uma lição de como o conhecimento enciclopédico de nada serve quando não é guarnecido de inteligência ou, pelo menos, de sentido de adaptação à realidade concreta. Sem a flexibilidade, o espírito crítico e a tolerância do espírito inteligente, o saber refugia-se em preconceitos e ideias feitas. No fundo, Flaubert estabelece uma certa identificação da inteligência com o espírito crítico, entendido como forma de avaliar diferentes perspectivas e conciliar opiniões contrastantes. Duas características fundamentais da escrita de Flaubert, para além daquele espírito crítico típico da escola realista: o sentido de humor onde o nosso Eça se inspirou e um extraordinário domínio de vários ramos do saber, indispensável para colocar em ridículo as convicções dos “heróis”. Destaque ainda para um final absolutamente surpreendente e genial, embora apenas esboçado, pois a morte surpreendeu Flaubert antes do termo da obra.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2005
O Sol Nasce Sempre (Fiesta)- Ernest Hemingway
Trata-se do primeiro romance de E. Hemingway. Talvez por isso denote uma objectividade de linguagem, uma “simplicidade” assinalável. Mas talvez se trate algo mais: ele consegue construir uma narrativa apenas aparentemente simples: aquilo que escreve são apenas pistas que levam o autor a recriar um enredo mais profundo, como se o autor apenas precisasse de aflorar a ideia, contando com o leitor para construir o quadro. O que mais se destaca nesta obra é a forma pungente, amargurada com que Hemingway aborda o ser humano. Este livro foi escrito em plena década de 20. O mundo (saído da guerra) perdera a inocência e a crença num futuro cor-de-rosa. Daí que deambulasse, como as personagens do romance, entre o terror da morte e o desvario do prazer. Emoções devastadoras, amores confusos e avassaladoras, culminam no entanto num final comovedor, subtil e delicado. Hemingway revela aqui uma visão profundamente amargurada do ser humano. Mas também uma delicadeza emocionada com que analisa a alma humana – uma visão quase ingénua, profundamente crente na bondade humana e na capacidade de amar. O mundo não é mais do que um enorme obstáculo à felicidade. Enfrentá-lo é, no entanto, o único caminho para essa mesma felicidade.
terça-feira, 11 de janeiro de 2005
Fahrenheit 451 - Ray Bradbury
Uma história de ficção cientifica que ultrapassa largamente o âmbito usual do género. Bradbury imagina a sociedade americana mergulhada numa ditadura da democracia onde se condena sem piedade tudo quanto é susceptível de causar perturbação no sistema. Este baseia-se num ideal de igualdade social fundada sobre o obscurantismo, o culto da ignorância, a ausência do pensamento. Os livros tornam-se assim o inimigo a abater e os bombeiros são os soldados do sistema, encarregados de destruir toda a literatura. É preciso abater o espírito humano para diminuir qualquer consciência de inferioridade ou de injustiça. O homem culto é o inimigo da sociedade. É desestabilizador como o aluno “esperto”, que responde a todas as perguntas, é o alvo a abater por todos os elementos da turma. Desta forma, todas as minorias devem ser abatidas, porque escapam ao modelo universal de homem comum, ignorante e obediente. Os livros trazem desigualdade e consciência dessa mesma desigualdade. Portanto, provocam desobediência, logo, são nefastos. Para que a sociedade continue a caminhar para a “harmonia”, o indivíduo não pode ter opções; não pode ter o que escolher. A autoridade deve oferecer-lhe tudo aquilo que é considerado indispensável. Mais do que isso, é função da autoridade fornecer ao indivíduo um modelo único onde se deve integrar plenamente. Em conclusão, não se trata de uma obra de ficção científica mas de um livro premonitório. Escrita em 1953, em pleno pós guerra que abria o caminho à guerra fria, a obra de R. Bradbury parece tornar-se o “1984” do mundo ocidental, nomeadamente do modelo capitalista e neo-liberal norte-americano.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2005
A Linha da Sombra - Joseph Conrad
A Linha da Sombra é uma curta mas complexa reflexão sobre a insignificância do homem perante a Natureza e o Tempo. É uma obra sobre a vida humana. O Comandante é a imagem assumida da fraqueza humana, a personificação do carácter quase insignificante do ser humano quando se confronta com a Natureza. Mas a obra de Conrad vai muito mais além. A complexidade das suas reflexões transforma esse tema de fundo numa autêntica trivialidade. É, acima de tudo, uma relexão sobre as diferentes fases da vida, sobre a transição da juventude para a maturidade. Tal maturidade é encarada com um estado de decadência, simbolizada pelo mar calmo, assustadoramente calmo, que impede o navio de seguir viagem. É, por isso, uma obra angustiada e angustiante, uma expressão de melancolia e pessimismo que enreda o leitor numa história monótona, penosa, quase moribunda. As palavras e as frases arrastam-se como o tempo, como a vida adulta… E a vida vai perdendo sentido quando tudo é estagnação, torpor e um medo passivo que conduz à inércia, à impotência. Não é um livro divertido nem apaixonante. Os primeiros capítulos parecem navegar sem sentido definido e o enredo caminha desesperadamente devagar, como o navio e como a morte…
quarta-feira, 15 de setembro de 2004
Lolita - Vladimir Nabokov
Levado ao cinema por nomes como Kubrick e Lyne, trata-se, para muitos, de um livro polémico e maldito. O filme de Lyne, por exemplo, foi proibido nos EUA. “Inquietante” é, talvez, o melhor adjectivo para caracterizar este livro. O tema da pedofilia é, desde logo, um campo fértil para construir um romance polémico e dramático. Mas tudo se torna muito mais perturbador quando se expõe a tendência pedófila da forma que Nabokov o faz. Humbert apaixona-se por uma “ninfeta” de 12 anos. À partida qualquer um de nós conotaria Humbert, neste momento e sem ler o livro, como um monstro criminoso. No entanto, Nabokov faz dele um homem como qualquer outro com as suas fraquezas e qualidades, ao ponto de, por vezes, despertar compaixão. Seja como for, todo o enredo segue linearmente a obsessão de Humbert, caindo mesmo numa certa pobreza de conteúdo e numa previsibilidade que retiram parte do interesse que um tema como este pode suscitar. Nabokov faz, no entanto, uma radiografia profunda, polémica e inquietante da mente pedófila de Humbert. O que mais impressiona o leitor desprevenido é a convicção de que a pedofilia pode não ser um simples comportamento aberrante, nem uma doença mas sim uma forma de amor tão natural como qualquer outra. No plano puramente sensorial há, evidentemente, situações muito chocantes com episódios verdadeiramente inquietantes: Humbert chega mesmo a desejar a gravidez de Lolita para que esta lhe proporcione uma futura ninfeta e projecta até uma terceira geração de Lolita para seu deleite. Mas é no plano psicológico que o livro atinge o limite do chocante: a paixão é avassaladora e Humbert, no fundo, é uma vítima de um amor proibido, embora martirizado pela culpa. Poderá a pedofilia ser encarada desta forma nos tempos que correm?
terça-feira, 14 de setembro de 2004
Trilogia de Nova Iorque - Paul Auster
Quinn é Max e William Wilson. Mas é também... Paul Auster. O problema da identidade. Sempre. Uma fixação. Todas as três partes que compõem o livro são histórias de alienação e do seu sucedâneo, de ténues fronteiras, a loucura. Na grande cidade, toda ela alienada, Quinn perde a identidade, refugia-se como uma criança abandonada no "caso Stillman", como se ele passasse a preencher toda a sua vida, até ao ponto em que o real e o onírico se cruzam, onde o absurdo de Kafka se cruza com a loucura de Dostoievsky, passando pela solidão de Faulkener. A função do detective privado é uma metáfora da vida na grande cidade: alienação total, ao ponto da perda quase completa da noção de si mesmo, do auto-conhecimento, sempre perseguido e sempre inatingível. Os próprios laços de parentesco são muito mais frágeis do que os nós criados pela imprevisibilidade do espírito e pelo aleatório da vida. Esses sim são laços fortes, capazes de conduzir à alienação. Na terceira parte é quase chocante a forma como Auster dessacraliza a relação filial e conjugal, subjugadas cruelmente às obcessões construídas pela mente do narrador. Toda esta neutralização do sujeito conduz também ao egoísmo: o sujeito acaba por se transformar numa espécie de autómato, incapaz de sentir os problemas daqueles que o rodeiam. Neste sentido, a obra é profundamente pessimista.
segunda-feira, 13 de setembro de 2004
Edward Foster
Num ambiente "very british" quase vitoriano, este livro é uma crítica social a fazer lembrar o "nosso" Eça de Queiroz, desmascarando todo o pedantismo balofo da sociedade burguesa do início do século XX. O realismo da análise psicológica, no entanto, acrescenta-se à análise e à crítica social, dando à obra um verismo surpreendente, num tom cru e directo. Mas é também um romance passional. Como sempre (e como na vida), o amor siurge associado à mentira, ao engano, à tristeza e mesmo à traição. Sobressai o tradicional e pouco original triângulo amoroso onde o amor é um pormenor apenas, subjugado por uma superficialidade cultivada pelas regras sociais, pelas aparências. Enfim, um livro leve e pouco pretensioso, uma leitura que deixa pouca margem de interpretação ao leitor, de tão explicita e directa que é a linguagem e o enredo. Vale essencialmente pelo testemunho de uma época de viragem social e mental, em contraponto com toda a força do tradicionalismo britânico.
domingo, 12 de setembro de 2004
Baudolino - Umberto Eco
Um retrato vigoroso, eloquente, do imaginário medieval europeu/cristão. H. Eco exprime em forma de romance todo um mundo fantástico, feito de mitos e lendas terras assombrosas, animais e seres semi-humanos mas a tudo dá o sentido do real. Aliás, aí reside o génio maior desta obra: consegue retratar com fidelidade um mundo onde o fantástico e o real se confundem permanentemente. Baudolino é, aos nossos olhos de cidadão do séc. XXI, um grande e descarado mentiroso. Um requintado aldrabão. Mas no universo fantástico da Idade Média as suas estórias, uma vez contadas, são reais. Como real é o Graal feito com uma tigela tosca do pai de Baudolino. Como em tudo o resto, nas relíquias fabricadas existe a verdade que as pessoas nela querem ver. A fantasia é mais do que a substituta do conhecimento científico; é um instrumento precioso, indispensável mesmo, para o conhecimento e a construção do real. Trata-se de uma obra essencialmente descritiva: o Império Sacro-Romano de Frederico Barba Roxa, os conflitos entre as cidades italianas de onde emerge Alexandria (terra natal de Baudolino e de Eco), o 1º grande Cisma, as Cruzadas e o fabuloso reino do Prestes João que fica ao lado do Paraíso Terrestre, para lá das terras dos homens sem cabeça. Mas também o Santo Graal e as relíquias falsas mas reais. Este carácter descritivo retira à obra aquele fervilhar de imprevisibilidade que a impede de rivalizar com “O Nome da Rosa”. Por vezes a acção torna-se monótona e previsível mas fica o enorme mérito de Eco ter compreendido e transmitido com fidelidade todo o imaginário de uma Idade Média não obscura mas encantadora e encantada.
terça-feira, 7 de setembro de 2004
O Espião Perfeito - John Le Carré
Berna, Londres, Viena, Berlim… um retrato poderoso da Guerra Fria. Espiões, agentes secretos, profissionais do disfarce e do embuste, homens sem identidade, perdida entre mil e uma imagens construídas para mentir à procura da verdade. Pym é o agente perfeito – vendido aos dois lados – que procura durante toda a vida encontrar-se consigo mesmo e redimir a traição à amizade por Axel – o amigo/inimigo. Por outro lado há o pai – memórias de um progenitor criminoso mas herói. Daqui resulta uma narrativa quase psicanalítica, marcada pelas recordações do passado e escrita, disfarçadamente, na primeira pessoa do singular. O enredo revela toda a arte de Le Carré, capaz de manter aquele tom enigmático que prende o leitor ao longo de 575 enormes e recheadas páginas. Um livro longo, a espaços cansativo mas nunca maçador. No final, fica a ideia de um homem sem identidade, perdidos nos disfarces e numa eterna procura que, nos últimos tempos, tenta redimir todo o passado que o tortura. Na vida de Pym, fidelidade e traição são conceitos ambíguos que vivem lado a lado e se misturam permanentemente. De entre todos os sentimentos conflituosos, emerge em Pym um único que conquista a primazia: a amizade, o valor supremo. Uma amizade que nasce da traição – a única realidade capaz de gerar felicidade. “A traição é uma profissão repetitiva” (Pág. 564)
segunda-feira, 6 de setembro de 2004
O Cônsul Honorário - Graham Greene
A relação com o pai mais uma vez na linha da frente, a condicionar a primeira fase do romance e a percorrer todo o enredo. "o pai continuava a seguir o filho por toda a vida - era o mestre-escola, depois o padre, o polícia, o guarda da prisão e, por fim, o próprio general" (pág. 130). Charley Fortnum era um bom homem. E, como quase todos os homens bons, era incompreendido e desprezado. Lugar comum? Talvez, mas real... terrivelmente real! Alcoólico, traído pela mulher, cônsul por piedade, raptado por engano... o enredo e o rosário da desgraça. De Edward Plarr todos diziam que, esses sim, era um bom homem. Na verdade, amigo de Fortnum, era o amante da sua mulher. Fortnum amava Clara. Plarr dormia com ela. Plarr era feliz. Fortnum escondia-se por detrás do álcool e da ilusão. Um romance feito de coisas simples, correntes, banais como a traição. E Deus... uma profunda reflexão sobre a religião. Uma obra simples e eficaz que se lê com aquela ânsia juvenil de chegar ao final. E Fortnum, afinal, ganhou o jogo porque sabia amar...
quinta-feira, 5 de agosto de 2004
O Som e a Fúria - Wiliam Faulkner
Um enredo sem linha de rumo preciso navega num tempo sem definição, ondeando entre memórias e prenúncios, desprezando a linearidade, a lógica. Como se ao longo da estrada 66, como se caminhando descalço sobre o alcatrão das estradas do Iowa, como se sem destino nem rumo certo...
Respira-se o desprezo pelo concreto, a recusa do próprio tempo. O simbolismo, intenso e sempre presente, enreda-se permanentemente numa linguagem barroca, de formas por vezes sublimes mas nunca frívolas.
Jogos de palavras, simples prazer da escrita e da leitura. Um grito colectivo de revolta: uma família apodrecida pela América da falsa prosperidade, rodeada de negros acorrentados à humilhação de ter nascido. Personagens enlouquecidas, devassas, horríveis, infelizes, perdidas num vazio de humanidade.
E a Disley… a criada negra desgraçada e feliz… normal.
Benji é louco, Jason alucinado, Quentin lunático, e... um bando de pretos.
Faulkner constrói assim um quadro quase sem nexo, quase sem sentido, como a vida. Quando chegamos ao fim as estórias ganham, finalmente, forma e sentido. Mas nessa altura fica-nos na mente a frustração de não haver mais páginas… como se todos os Compsons tivessem morrido de súbito. Apetece então voltar ao início… como na vida: uma circunferência que nunca se fecha e assim se transforma em espiral… perpetuamente… sem tempo…
Sem dúvida (pelo menos na minha opinião), um dos melhores livros de toda a história da literatura mundial.
Para ler e reler...
quinta-feira, 29 de julho de 2004
Inventar a Solidão - Paul Auster
O próprio Auster é confrontado com a morte do pai. Este acontecimento surge de forma inesperada, abrupta e leva o autor a tentar compreender os seus sentimentos (ou a ausência deles), a confrontar a figura do pai com as suas memórias.
Ao longo do livro divaga sobre a paternidade, confrontando a sua condição de filho com a de pai. Toda a obra parece ser um longo e profundo exercício de auto-análise, quase psicanalítico. Auster, como fizeram outros grandes mestres, divaga, sobretudo, sobre a solidão. Porque a vida é, essencialmente, um percurso solitário. Por mais que se viva com os outros, a vida em sociedade parece nunca deixar de ser um imenso somatório de solidões. Porque todo o homem é um mundo único, ímpar e só.
O homem é uma realidade complexa e indefinível, que nem o próprio sujeito conhece. A relação com o resto do mundo é uma teia tão complicada que só contribui para aumentar a angústia da solidão.
É um livro corajoso.
Auster encara de frente a personalidade esquiva do pai. Esmiúça e tenta desesperadamente compreender todos os motivos da sua menos boa relação com ele, fugindo ao sentimentalismo fácil mas também sem cair na frieza da objectividade crua. Procura, acima de tudo racionalizar os sentimentos, compreender a alma humana e, principalmente a sua própria alma. “Todo o livro é uma imagem da solidão” (pág. 153).
Mais do que a morte, o verdadeiro monstro é a solidão.
A morte é apenas um dos momentos em que o monstro se revela.
Excelente tradução.
Ao longo do livro divaga sobre a paternidade, confrontando a sua condição de filho com a de pai. Toda a obra parece ser um longo e profundo exercício de auto-análise, quase psicanalítico. Auster, como fizeram outros grandes mestres, divaga, sobretudo, sobre a solidão. Porque a vida é, essencialmente, um percurso solitário. Por mais que se viva com os outros, a vida em sociedade parece nunca deixar de ser um imenso somatório de solidões. Porque todo o homem é um mundo único, ímpar e só.
O homem é uma realidade complexa e indefinível, que nem o próprio sujeito conhece. A relação com o resto do mundo é uma teia tão complicada que só contribui para aumentar a angústia da solidão.
É um livro corajoso.
Auster encara de frente a personalidade esquiva do pai. Esmiúça e tenta desesperadamente compreender todos os motivos da sua menos boa relação com ele, fugindo ao sentimentalismo fácil mas também sem cair na frieza da objectividade crua. Procura, acima de tudo racionalizar os sentimentos, compreender a alma humana e, principalmente a sua própria alma. “Todo o livro é uma imagem da solidão” (pág. 153).
Mais do que a morte, o verdadeiro monstro é a solidão.
A morte é apenas um dos momentos em que o monstro se revela.
Excelente tradução.
O Amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence
Connie (Lady Chatterley) é esposa de um lord inglês, tradicionalista e austero que, logo após o casamento, é ferido na primeira guerra mundial, ficando paralisado da cintura para baixo. No entanto, mantém o casamento, com todas as suas aparências e tenta ludibriar as suas incapacidades com uma vida social intensa, onde as aparências são cuidadosamente mantidas.
Connie, no entanto, não consegue suportar aquela vida fútil e oca, apaixonando-se por um criado do marido. Aparentemente, trata-se de um romance/novela; um grande conto erótico e cor-de-rosa. No entanto, é muito mais do que isso. A sexualidade é vista como parte integrante e essencial da relação amorosa, do sentimento e da própria vida. Desmistifica-se assim aquela concepção burguesa de que o amor carnal é uma espécie de aberração do próprio amor. É encarado, pelo contrário, como algo profundamente humano.
O sexo faz parte do amor, do lado afectivo do ser humano e não do instinto ou da animalidade, como era hipocritamente entendido pelos moralistas da sociedade tradicional inglesa. Assim, é uma obra que enfrenta não só o rígido quadro de valores inglês mas todo um conceito de amor formal e puritano.
A linguagem, por vezes obscena, surge perfeitamente enquadrada no enredo e no jogo de sentimentos. Está longe de ser, portanto, um romance erótico. É um romance cheio de sentimento, cheio de ideias, embora o enredo esteja demasiado preso à intriga amorosa.
Connie, no entanto, não consegue suportar aquela vida fútil e oca, apaixonando-se por um criado do marido. Aparentemente, trata-se de um romance/novela; um grande conto erótico e cor-de-rosa. No entanto, é muito mais do que isso. A sexualidade é vista como parte integrante e essencial da relação amorosa, do sentimento e da própria vida. Desmistifica-se assim aquela concepção burguesa de que o amor carnal é uma espécie de aberração do próprio amor. É encarado, pelo contrário, como algo profundamente humano.
O sexo faz parte do amor, do lado afectivo do ser humano e não do instinto ou da animalidade, como era hipocritamente entendido pelos moralistas da sociedade tradicional inglesa. Assim, é uma obra que enfrenta não só o rígido quadro de valores inglês mas todo um conceito de amor formal e puritano.
A linguagem, por vezes obscena, surge perfeitamente enquadrada no enredo e no jogo de sentimentos. Está longe de ser, portanto, um romance erótico. É um romance cheio de sentimento, cheio de ideias, embora o enredo esteja demasiado preso à intriga amorosa.
quinta-feira, 22 de julho de 2004
A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar
Inquietante, perturbadora, a espera da morte.
Zenão será perseguido; por ela e pela ignorância. Das duas, qual a mais tétrica, a mais terrível e impiedosa?
Zenão será condenado por ter sido sempre fiel a si próprio, à sua humanidade, ao bem universal, à verdade. Ao bem por si só!
Mas é vítima do ódio, do egoísmo, da cegueira. Do obscurantismo.
A Obra ao Negro é um testemunho histórico impressionante, de uma época (início do séc. XVI) em que se cruzam a cegueira medieval e os conflitos dos tempos modernos, com a afirmação de novos regimes e Estado, perdidos em constantes guerras e conflitos.
A visão radiosa do Renascimento é abafada pelos conflitos absurdos em torno da questão religioso (fruto da reforma protestante e contra-reforma). Zenão, vítima da sua qualidade de bastardo e de uma família obcecada pelo poder, abandona-se a uma mescla de hedonismo e solidariedade cristã, cultivando a reflexão interior, temperada com o espírito pragmático do renascimento.
Tudo isto só poderia ter um fim: as teias da Inquisição.
Impressionante o estilo. As palavras soam como música, numa linguagem fiel à época, encantadora! As descrições de Yourcenar brilham pelo realismo. O enredo não deixa escapar uma tremenda profundidade dos sentimentos. As reflexões filosóficas são constantes e profundas.
Uma obra magnífica!
quinta-feira, 8 de julho de 2004
A Metamorfose - Franz Kafka
Gregor acorda transformado num enorme e repugnante insecto e assim vive os seus últimos dias.
Há neste livro qualquer coisa de quase mágico: o enredo baseia-se num acontecimento completamente absurdo, impossível. No entanto, lê-se como se se tratasse de uma realidade, de algo perfeitamente natural e lógico. O leitor é levado a embrenhar-se no enredo, a seguir os sentimentos de Gregor, com a maior das naturalidades.
Gregor era um caixeiro viajante que sustentava a família (absolutamente parasita) e suportava um patrão insensível e mesquinho. Inicialmente, a metamorfose parece significar a libertação em relação às obrigações e alienações de Gregor: o trabalho e a família. Mas, aos poucos, ela transforma-se numa terrível prisão que condena Gregor ao mais terrível dos castigos: uma absoluta e cruel solidão.
A partir daí Gregor é vítima do desprezo por parte daqueles em função dos quais vivera: a família.
Passa a ser considerado um peso, um encargo e nem mesmo a sua morte despertará a compaixão daqueles que tanto amara.
Há neste livro qualquer coisa de quase mágico: o enredo baseia-se num acontecimento completamente absurdo, impossível. No entanto, lê-se como se se tratasse de uma realidade, de algo perfeitamente natural e lógico. O leitor é levado a embrenhar-se no enredo, a seguir os sentimentos de Gregor, com a maior das naturalidades.
Gregor era um caixeiro viajante que sustentava a família (absolutamente parasita) e suportava um patrão insensível e mesquinho. Inicialmente, a metamorfose parece significar a libertação em relação às obrigações e alienações de Gregor: o trabalho e a família. Mas, aos poucos, ela transforma-se numa terrível prisão que condena Gregor ao mais terrível dos castigos: uma absoluta e cruel solidão.
A partir daí Gregor é vítima do desprezo por parte daqueles em função dos quais vivera: a família.
Passa a ser considerado um peso, um encargo e nem mesmo a sua morte despertará a compaixão daqueles que tanto amara.
O Castelo - Franz Kafka
K. é um homem só, à procura do misterioso Senhor Kleim.
Kleim é um homem poderoso que representa o castelo. O castelo é o poder. Kleim é a personificação, pouco nítida, propositadamente difusa, desse poder. Mas trata-se de um poder que cultiva a ignorância, primeiro e decisivo passo para a submissão dos servos.
Convém manter a cegueira. A burocracia, enorme, monstruosa, aterradora, é a carapaça, a armadura, que protege os poderosos e mantém os súbditos afastados, submissos. K. é um súbdito insatisfeito, insubmisso, que procura por todos os meios penetrar nessa carapaça. Por isso é incompreendido e mesmo desprezado pela aldeia. Ele é uma ameaça para aquele status quo em que a vida corre sem acidentes, sob o manto protector do poder. Ele é uma ameaça à suave cegueira da comunidade. Kafka é um escritor que despreza o enredo em favor da mensagem.
As descrições e os diálogos convergem sempre, nesta obra, para uma ideia central: a da crítica à natureza do poder político que cultiva a ignorância e o servilismo cego. Mas por detrás deste servilismo há uma revolta abafada que se revela à medida que a obra se aproxima do final, resultado de uma frustração colectiva perante o desprezo que o Castelo dedica ao comum dos mortais. E, intimamente, todos procuram, por meios diversos, chegar até aos senhores que tanto admiram como odeiam. Lutam e degladiam-se por isso mas de forma velada, envergonhada, silenciosa. Só K., talvez por ser estrangeiro, assume e enfrenta essa ambição. Por isso é amado e odiado. Todos os outros são reles e pequenos.
Um pormenor interessante: apenas depois de se libertarem de K., os seus ajudantes são tratados pelo nome próprio. Até aí são simples servos de K, como todos são servos dos senhores. Tudo isto é expresso num estilo algo monótono, como a vida dos servos, assente num enredo "pastoso", com um ritmo narrativo muito lento, à imagem da vida na aldeia. Assim, o aspecto lúdico da leitura é posto em risco. Por vezes, ler Kafka deixa mesmo de ser um prazer porque o objectivo não é contar uma estória. Na aldeia dos servos não há estórias. Apenas a história do senhorialismo e da solidão.
Kleim é um homem poderoso que representa o castelo. O castelo é o poder. Kleim é a personificação, pouco nítida, propositadamente difusa, desse poder. Mas trata-se de um poder que cultiva a ignorância, primeiro e decisivo passo para a submissão dos servos.
Convém manter a cegueira. A burocracia, enorme, monstruosa, aterradora, é a carapaça, a armadura, que protege os poderosos e mantém os súbditos afastados, submissos. K. é um súbdito insatisfeito, insubmisso, que procura por todos os meios penetrar nessa carapaça. Por isso é incompreendido e mesmo desprezado pela aldeia. Ele é uma ameaça para aquele status quo em que a vida corre sem acidentes, sob o manto protector do poder. Ele é uma ameaça à suave cegueira da comunidade. Kafka é um escritor que despreza o enredo em favor da mensagem.
As descrições e os diálogos convergem sempre, nesta obra, para uma ideia central: a da crítica à natureza do poder político que cultiva a ignorância e o servilismo cego. Mas por detrás deste servilismo há uma revolta abafada que se revela à medida que a obra se aproxima do final, resultado de uma frustração colectiva perante o desprezo que o Castelo dedica ao comum dos mortais. E, intimamente, todos procuram, por meios diversos, chegar até aos senhores que tanto admiram como odeiam. Lutam e degladiam-se por isso mas de forma velada, envergonhada, silenciosa. Só K., talvez por ser estrangeiro, assume e enfrenta essa ambição. Por isso é amado e odiado. Todos os outros são reles e pequenos.
Um pormenor interessante: apenas depois de se libertarem de K., os seus ajudantes são tratados pelo nome próprio. Até aí são simples servos de K, como todos são servos dos senhores. Tudo isto é expresso num estilo algo monótono, como a vida dos servos, assente num enredo "pastoso", com um ritmo narrativo muito lento, à imagem da vida na aldeia. Assim, o aspecto lúdico da leitura é posto em risco. Por vezes, ler Kafka deixa mesmo de ser um prazer porque o objectivo não é contar uma estória. Na aldeia dos servos não há estórias. Apenas a história do senhorialismo e da solidão.
A Grande Muralha da China - Franz Kafka
A grande muralha da China foi construída por parcelas, em pequenos "pedaços", para que cada trabalhador nunca se apercebesse que não chegaria a sua vida inteira para ver a obra acabada.
Assim se explora a motivação e o entusiasmo do trabalhador anónimo.
Este é o ponto de partida para um discurso em que o poder político é visto como uma superestrutura anónimo, sem rosto, sem corpo nem identidade, que paira de forma mística, auto-sacralizada, por sobre todos os súbditos, também eles anónimos e ignorantes.
O mundo em que vivem os obreiros da muralha é um imenso absurdo, no qual a alma humana se encontra abandonada, entregue à sua solidão, vítima de um destino traçado pelos vultos ignotos da superestrutura... sem sentido, sem futuro nem passado. O presente é indiscutível, inquestionável... é o que é por vontade de alguém que tudo sabe, tudo decide... A impotência e a ignorância são os traços mais marcantes do ser humano.
Daí a solidão e o pessimismo.
Assim se explora a motivação e o entusiasmo do trabalhador anónimo.
Este é o ponto de partida para um discurso em que o poder político é visto como uma superestrutura anónimo, sem rosto, sem corpo nem identidade, que paira de forma mística, auto-sacralizada, por sobre todos os súbditos, também eles anónimos e ignorantes.
O mundo em que vivem os obreiros da muralha é um imenso absurdo, no qual a alma humana se encontra abandonada, entregue à sua solidão, vítima de um destino traçado pelos vultos ignotos da superestrutura... sem sentido, sem futuro nem passado. O presente é indiscutível, inquestionável... é o que é por vontade de alguém que tudo sabe, tudo decide... A impotência e a ignorância são os traços mais marcantes do ser humano.
Daí a solidão e o pessimismo.
sexta-feira, 25 de junho de 2004
Crime e Castigo - Fiodor Dostoievski
Personagens interessantíssimas, estudadas psicologicamente de forma profunda e, ao mesmo tempo, descritos de maneira simples e atractiva.
A descrição da miséria da família Marmaledov é genial: o alcoolismo como consequência de uma estrutura social injusta e angustiante. A amizade de Razumikin por Ródia é comovedora. Trata-se de um personagem interessantíssimo: libertino mas sensível; hedonista mas sofredor; algo ingénuo mas profundamente dedicado.
Ródia envolve toda uma tentativa de explicação do comportamento e do espírito do criminoso: levado pela miséria, provocado pela injustiça social, é duramente castigado pela sua própia alma, o juiz maior. Persegue-o a tentativa desesperada de encontrar uma explicação racional e moral para o crime.
É também uma obra sobre uma outra espécie de crime: a maldade humana, representada de forma soberba por Svidrigailov e Lujin. Dela transparece o lamento por uma sociedade injusta e, ao mesmo tempo, a convicção reconfortante do “castigo na terra”.
É acima de tudo uma obra sobre a loucura; sobre o limite ténue entre a realidade e a loucura. Dostoiévski parece acreditar na bondade natural da alma humana. Os seus personagens são loucos, bêbados, chantagistas, criminosos de toda a sorte, usurários, miseráveis mas em todos eles encontramos um fundo de humanidade e uma espécie de consciência que os impele para a expiação (mais ou menos voluntária) dos seus pecados. Procura sempre compreender e explicar a alma humana nas suas infindas facetas.
Romance psicológico? Talvez! Para o autor, todos os comportamentos, mesmo os mais “desviantes” têm explicações e são compreensíveis pela razão. Mas o autor de tais comportamentos é o único que nunca os compreende. Daí a loucura, no seu conceito social; daí a tortura interior, o verdadeiro castigo. A verdadeira justiça, as penas mais duras, são as que o sujeito impõe a si próprio. A cadeia, os trabalhos forçados, a justiça dos homens é, por isso, vista como a verdadeira liberdade – porque aí os homens encontram-se, finalmente, entregues a si próprios: livres.
No final, como que caído do céu, o amor revela-se a solução para todos os males da alma de Ródia – final talvez demasiado lírico para uma aventura tão real como esta.
A descrição da miséria da família Marmaledov é genial: o alcoolismo como consequência de uma estrutura social injusta e angustiante. A amizade de Razumikin por Ródia é comovedora. Trata-se de um personagem interessantíssimo: libertino mas sensível; hedonista mas sofredor; algo ingénuo mas profundamente dedicado.
Ródia envolve toda uma tentativa de explicação do comportamento e do espírito do criminoso: levado pela miséria, provocado pela injustiça social, é duramente castigado pela sua própia alma, o juiz maior. Persegue-o a tentativa desesperada de encontrar uma explicação racional e moral para o crime.
É também uma obra sobre uma outra espécie de crime: a maldade humana, representada de forma soberba por Svidrigailov e Lujin. Dela transparece o lamento por uma sociedade injusta e, ao mesmo tempo, a convicção reconfortante do “castigo na terra”.
É acima de tudo uma obra sobre a loucura; sobre o limite ténue entre a realidade e a loucura. Dostoiévski parece acreditar na bondade natural da alma humana. Os seus personagens são loucos, bêbados, chantagistas, criminosos de toda a sorte, usurários, miseráveis mas em todos eles encontramos um fundo de humanidade e uma espécie de consciência que os impele para a expiação (mais ou menos voluntária) dos seus pecados. Procura sempre compreender e explicar a alma humana nas suas infindas facetas.
Romance psicológico? Talvez! Para o autor, todos os comportamentos, mesmo os mais “desviantes” têm explicações e são compreensíveis pela razão. Mas o autor de tais comportamentos é o único que nunca os compreende. Daí a loucura, no seu conceito social; daí a tortura interior, o verdadeiro castigo. A verdadeira justiça, as penas mais duras, são as que o sujeito impõe a si próprio. A cadeia, os trabalhos forçados, a justiça dos homens é, por isso, vista como a verdadeira liberdade – porque aí os homens encontram-se, finalmente, entregues a si próprios: livres.
No final, como que caído do céu, o amor revela-se a solução para todos os males da alma de Ródia – final talvez demasiado lírico para uma aventura tão real como esta.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




