sexta-feira, 19 de junho de 2009

Os Parricidas - Luís Novais

Um homem sem nome, uma identidade sem rosto, uma vida de onde se escoa a razão. Ele vê o Diabo que, no fundo, emana da sua própria incerteza, da ignorância que é o seu refúgio e inicia a espiral de busca dele próprio.
Ele somos nós, homens à procura da identidade, o mesmo é dizer, de ser feliz. A loucura que se aponta ao homem sem nome vai-se revelando, ao longo do livro, a normalidade da vida, desta vida que só conhecemos pela rama. Dentro de nós, dentro do homem sem nome, cresce a raiva do não saber quem somos, muito menos para onde vamos. Cresce a revolta e o Diabo emerge, nascido e criado no mais profundo da nossa alma. E a morte do pai, culpado de ser e de o fazer nascer, redimirá o mal de viver.
Normalidade ou loucura, Diabo ou consciência, destino ou vontade, tudo afinal se mistura num caos chamado vida. “Os Parricidas” não é, definitivamente, um livro qualquer; é a síntese da loucura normal, o repensar que todos procuramos de uma vida dominada pelo absurdo. As trajectórias que seguimos, aparentemente dominadas pelos cordelinhos de um fantoche que somos mas que julgamos manobrar, perdem um dia o sentido. É nessa altura que questionamos, repensamos e (tantas vezes!) encontramos o absurdo; ou o Diabo. Ou nós mesmos.
Podia dizer aqui uma série de banalidades sobre as influências de Dostoievski ou os traços indeléveis das leituras que o Novais terá feito de Kafka, mas por detrás disto tudo talvez esteja algo de muito mais profundo e, ao mesmo tempo, terrivelmente banal: a luta incessante pela busca da identidade. E as derrotas que todos nós sofremos nessa luta desigual. Por isso, não é Dostoievski que vejo por detrás dos Parricidas, embora “O Idiota” esteja por ali; nem o Joseph K de Kafka, embora ele espreite pelas frestas do livro; é Auster que eu leio por detrás das palavras do Novais.
Seja como for; com interpretações atrevidas como estas ou sem elas, ler Novais é algo que já não sentia há muito tempo: há ideias para lá dos clássicos.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Se Numa Noite de Inverno Um Viajante - Italo Calvino

"Se Numa Noite de Inverno Um Viajante" é um romance inteligente. Mas também divertido, original, único. Lê-se com leveza e um sorriso nos lábios. Sentimos o bafo do autor a pedir-nos opinião, a recitar-nos histórias que só começam, pedindo-nos que as continue. Dez histórias que Calvino só inicia, como se nos quisesse desafiar. Ao longo do livro, o que mais encanta o leitor é este diálogo permanente com o escritor, esta familiaridade que vai surgindo. O leitor vai-se tornando interlocutor e actor do próprio enredo, numa espécie de brincadeira que dá um aspecto marcadamente lúdico à leitura.
O enredo é muito peculiar. Um leitor começa a ler o próprio livro de Italo Calvino, mas não consegue porque a edição é defeituosa. E por acasos do enredo, o leitor é levado a empreender outras leituras mas depara sempre com um qualquer obstáculo que o leva de livro em livro sem conseguir concluir nenhum deles.
Ao longo do livro é notória a crítica à mercantilização da cultura, nomeadamente no domínio da edição de livros e da falsificação. Calvino entra mesmo numa reflexão sobre os apócrifos, encarando a falsificação como manifestação da verdadeira natureza humana e da sua hipocrisia. Por outro lado, aquilo que é falso não deixa de ser encantador; a falsidade é o contraponto da verdade e assim lhe dá sentido. Mas vai muito além disso: a impotência que o leitor sente por não poder terminar a leitura de cada um dos dez livros é acompanhada, frequentemente, pela angústia do próprio escritor, quando não consegue, ele próprio, terminar a obra. Nesse aspecto, este romance sente-se também como um desabafo e, mais uma vez vem ao de cima a cumplicidade entre autor e leitor.
Para o leitor, o envolvimento na leitura permite-lhe entrar num mundo encantado. A leitura altera toda a dimensão da vida do leitor. Enquanto lê, ultrapassa todas as barreiras. E quando a leitura é interrompida, instala-se a angústia e o espírito fervilha em busca de uma continuação. Porque o livro só termina com a morte ou com a persistência da vida. Livros que não terminam são apenas pedaços de vida que não têm princípio nem fim; são mundos sujeitos a múltiplos olhares. Dez livros não são, no entanto, apenas dez mundos. São dez mundos a multiplicar por todos os Leitores e Leitoras.

domingo, 23 de novembro de 2008

Paul Auster - Viagens ao Scriptorium

Cada livro de Auster deixa, no final, a questão que se eterniza: o que vai o génio de Nova Iorque inventar de seguida? Grande contador de histórias, Paul Auster é o escritor que mais caminha para dentro de si, à medida que escreve. Nesta obra lê-se e vê-se o autor, os seus sentimentos, angústias e memórias. Cada novo livro parece caminhar mais um pouco na interiorização. A caminhada começou algures por volta da “Triologia de Nova Iorque”, uma caminhada do mundo para dentro de si. “Viagens no Scriptorium” parece ser, mais uma vez, o fim da caminhada. É Auster em 115 páginas.
As histórias rocambolescas como em “As loucuras de Brooklin”; as coincidências incríveis de que a vida é feita, como em “A noite do oráculo”; os enredos cinematográficos, cheios de imagens escritas quase com magia, como em “Mr. Vertigo” parecem já não fazer parte do universo de Auster. Mais ou menos a partir de “Leviathan” o autor parece ter-se voltado para si próprio, em definitivo. Alguém escreveu que este livro marca o confronto de Auster com a sua própria velhice. Não me parece. Mr. Blank é Auster à procura da sua própria identidade, não a explicar ou a questionar o final da existência. O diálogo interior, a introspecção, a procura do âmago mais profundo da alma humana em confronto com o mundo são temas que, afinal de contas, sempre fizeram parte da obra de Auster mas que apenas germinavam nos seus primeiros livros, para agora aparecer em pleno.
Mr. Blank está sozinho, num quarto-prisão sem saber onde nem quando, nem sequer porquê. É a solidão na sua máxima expressão. Porque estar totalmente só é não saber sequer quem é. Algo no seu passado o levou até aquele quarto. Alguém, algum dos seres fantasmagóricos que o rodeiam, o levou até ali. De entre esses seres alguém o ama, muitos o odeiam. Ele sabe que odeia alguém. Mas não sabe quem nem porquê. Mr. Blank tenta reconstituir a sua identidade. Nunca o conseguirá. Mas a maior angústia não é estar só. É depender de todos os outros: os que o amam e os que o odeiam. É o drama maior do ser humano: os outros são o inferno mas só eles podem dar sentido à sua existência, só eles lhe poderão devolver a identidade.
Por mais introspectivo que este livro possa ser (e é), nem assim Auster prescinde de uma das suas características mais interessantes como escritor: o enorme talento de surpreender o leitor com um final inesperado e belíssimo. Auster no seu melhor. Até ao próximo livro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Idiota - Fiodor Dostoiévski

O Príncipe Lev Nikoláevitch Míchkin (o idiota) é o protagonista desta história. Epilético, ele é vítima da incompreensão da doença por parte da sociedade em que se insere. Após fazer um tratamento na Suíça, regressa à Rússia, onde vive toda uma trama de paixão e ódios. Como é peculiar nos grandes romances de Dostoiévski, aqui se encontram retratados os traços essenciais da sociedade russa do século XIX, com todas as suas contradições e conflitos.
Mais uma vez, realça-se a extrema complexidade psicológica das personagens, como se o seu mundo interior fosse maior que tudo o que constitui o mundo. O Homem é, para Dostoiévski, um emaranhado complexo de sentimentos e pensamentos, de tal forma que o encontro com a identidade é uma quimera para a generalidade dos mortais. O leitor, esse, inquieta-se permanentemente com a inquietação das personagens. Neste mundo interior complexo, ninguém é “normal; a loucura não é atributo do idiota; é denominador comum dos seres humanos. O próprio autor, quando aborda assuntos que o inquietam nunca deixa uma afirmação definitiva; tudo fica a pairar no limbo da incerteza: a dúvida sobre a pena de morte, a perplexidade perante a figura de Jesus Cristo que não venceu a morte, a hesitação entre liberalismo e socialismo versus conservadorismo, enfim, nada é definitivo nem definido.
Perante tantas incerteza, afinal, quem é o idiota? Será o doente Lev Míchkin ou qualquer um dos personagens perdidos e incertos que povoam este magnífico romance?
Ser idiota é, acima de tudo, uma definição social. Lev Míchkin é bom, ingénuo, generoso, logo… idiota. O mundo das aparências burguesas em que se afundou faz dele idiota sem culpa formada; na maior parte das situações ele é bode expiatório, bobo da corte ou instrumento de interesses. No entanto é nele que reside a humanidade; ou melhor, a réstia de humanidade no universo social em que se insere.
Neste romance, talvez mais do que em qualquer outro está bem patente a decepção de Dostoiévski perante a humanidade. O formalismo nas relações sociais disfarça a hipocrisia e uma quase repugnância por qualquer espécie de sentimento. Exemplo disso é a total frieza como é encarada a tentativa de suicídio de Ipolit. Este afirma: “Vou olhá-los nos olhos. Vou despedir-me do Homem”. Aos poucos, durante a longa descrição deste episódio, a “humanidade” vai-se restringindo a Lebdev, o bêbado e a Keller, o ignóbil pugilista. Os outros, os socialmente bem-aceites afastam-se e riem de Ipolit.
Trata-se de uma obra muito profunda e, ao mesmo tempo, bem humorada, onde o autor procura pôr em relevo as grandes contradições do ser humano, questões que para sempre ficarão sem resposta: a natureza do bem, do belo, do mal, do ódio, da aversão, do amor, etc

domingo, 7 de setembro de 2008

Diário do Farol - João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro, um dos mais importantes escritores brasileiros da actualidade foi agraciado com o Prémio Camões 2008.
Trata-se da autobiografia de um padre cuja vida foi orientada para dois objectivos (mesmo o segundo tendo surgido de forma acidental no decorrer da narrativa): matar seu pai e a mulher que o desprezou. O autor do diário, refugiado numa ilha deserta algures ao largo da costa brasileira, é a encarnação do mal. Ele reúne tudo o que pode ser considerado “o mal”. Uma infância difícil, cheia de violência e desamor justifica uma vida voltada para a vingança e a violência. Para o autor, ele encarna, no entanto, tudo o que um ser humano é capaz de fazer, no domínio do mal. Todos nós somos assassinos em potência. Nas condições em que se encontra o Brasil no tempo em que se desenrola a acção, esse “mal” pode vir ao de cima em qualquer altura. Trata-se assim de uma abordagem algo catastrofista da violência que reinava e reina naquele país.
Assim , o Diário do Farol, é um livro sobre a realidade. Porque a realidade, no dizer de Ubaldo Ribeiro, é mais irracional que a ficção porque esta procura a lógica e a credibilidade. Todo o homem encerra em si o bem e o mal. Nesse sentido, Mal e Bem misturam-se; não podem separar-se. O caminho que cada um segue é fruto das circunstâncias e, portanto, do acaso. No entanto, o Mal tem explicação; ele provém da rejeição, da falta de solidariedade e de amor. De facto, o ser humano precisa, acima de tudo, de compreensão e afecto. Foi a falta desses sentimentos que fez do protagonista um verdadeiro demónio.
Para comprovar a interacção permanente entre o Bem e o Mal, na mesma pessoa, a técnica literária do autor faz com que o leitor se sinta, ele próprio odiado pelo narrador, ao mesmo tempo que, em determinados momentos, o leitor dá consigo a simpatizar com o protagonista, o assassino em série. O anticlericalismo e a crítica política, bem como o manifesto contra a desigualdade social são os testemunhos vivos de como a sociedade “provoca” o mal. A injustiça faz despoletar a violência.
O valor mais alto desta obra: o leitor é levado a ver a semelhança entre a sua própria pessoa e o assassino, quase se identificando com ele. O leitor, embora insultado pelo narrador/protagonista/assassino, envolve-se com o Mal, compreende-o e é tentado a aceitá-lo com naturalidade. Ao mesmo tempo desmistifica-se a ideia de que um assassino em série não tem amor-próprio. Acontece precisamente o contrário.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Último Catão - Matilde Asensi

Mais um sucedâneo do Código da Vinci? Garantidamente, não! “O último Catão” prima pela originalidade, rigor, criatividade e aquela “leveza” cativante que se sorve do género policial, associada ao encanto do romance histórico. Matilde Asenci é nada menos que a escritora espanhola mais lida na actualidade. Este livro vendeu mais de um milhão de exemplares em Espanha. Estes dois factos são suficientes para tornar incompreensível o ter passado quase desapercebido nas nossas montras.
Trata-se de uma obra de romance histórico puro, com um enredo simplesmente entusiasmante e, na linha do melhor policial, com um final absolutamente inesperado. Um dos melhores desfechos que li nos últimos anos.
Tudo se inicia com o assassinato de um etíope que exibe estranhas tatuagens no corpo: sete letras gregas e sete cruzes. Junto ao corpo foram encontrados três pedaços que tudo indica pertencerem à Vera Cruz, a verdadeira cruz de Cristo. A irmã Ottavia Salina, dedicada profissional do arquivo secreto do Vaticano, acompanhada por um arqueólogo de Alexandria, e pelo capitão da Guarda Suíça do Vaticano, recebe o encargo de decifrar as estranhas tatuagens aparecidas no cadáver. Ao mesmo tempo, iam desaparecendo das mais diversas igrejas, um pouco por todo o mundo, as relíquias da cruz de Cristo. Cabe aos nossos três heróis, guiados pela “Divina Comédia” de Dante, descobrir o paradeiro das relíquias e identificar a seita “criminosa”. Numa tentativa de chegarem até aos culpados, o grupo terá de superar sete desafios, associados aos sete pecados mortais, em sete cidades diferentes: Roma pela soberba, Ravena pela inveja, Jerusalém pela ira, Atenas pela preguiça, Constantinopla pela avareza, Alexandria pela gula e Antioch pela luxúria. A viagem por estas cidades é deveras fascinante.
A imaginação de Asensi é assombrosa: o livro está cheio de peripécias que prendem o leitor de forma avassaladora, de tal maneira que as mais de seiscentas páginas desta edição são devoradas a um ritmo alucinante. Por outro lado, este riquíssimo enredo envolve o melhor de um romance histórico: a fidelidade à verdade histórica; aquilo que não é imaginação, é perfeitamente fiel e autêntico. Ao contrário do que acontece noutras obras do género, é fácil ao leitor distinguir a fantasia do fundo histórico. Sendo uma obra de ficção, este livro permite ao leitor enriquecer o seu conhecimento sobre a história da igreja católica e dos vários conflitos com outras religiões ou seitas divergentes.
Por fim, o aspecto mais polémico da obra: a impiedosa crítica da autora à Igreja Católica, ao seu conservadorismo e aos desvios relativamente à doutrina pura do Cristianismo. O enredo situa-se nos últimos tempos do Pontificado de João Paulo II, época conturbada e especialmente propícia aos jogos de interesses e poder que se desenrolam no Vaticano e que Asenci aborda com coragem e desassombro. Por outro lado, os conflitos pessoais dos personagens vão pondo em questão alguns dos dogmas mais teimosamente defendidos pela Igreja, como o celibato e a castidade.
Em suma, um livro sem grandes ambições estilísticas ou de inovação literária mas que funciona como um maravilhoso exercício para usufruir do prazer de ler: leve, corajoso, divertido, interventivo, crítico e, acima de tudo, apaixonante.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

O Mestre de Esgrima - Arturo Pérez-Reverte

O Mestre de Esgrima é um dos primeiros romances de Perez-Reverte e aquele que mais contribuiu para transformar este escritor espanhol num dos maiores nomes da literatura contemporânea do país vizinho.
Relata-se a história de D. Jaime de Astarloa, o mestre de esgrima que luta contra a novidade das armas de fogo e, principalmente, contra o desinteresse dos seus concidadadãos pelos valores tradicionais.
O romance decorre no contexto no final do século XIX espanhol. Vive-se um clima de crise política, marcado, não só pelas dúvidas na sucessão do trono mas principalmente pela corrupção e conluios. Ao mesmo tempo, de França, surgem ventos de mudança que fazem despertar o sonho da república. A guerra civil paira sobre Madrid.
Mas aquilo que mais parece deter a atenção de Reverte é a derrocada dos valores morais e éticos de toda a sociedade. Por todo o lado, reina a hipocrisia, a violência e os conluios.
Sempre crítico perante a evolução histórica do seu país, Reverte não deixa nunca de povoar o enredo com marcas de lamento pela crise dos valores da honra que o levam a dar um tom marcadamente quixotesco ao romance. De facto, Miguel de Cervantes parece espreitar por detrás de todos os cenários descritos neste livro. O próprio D. Jaime parece uma reencarnação sofisticada de D. Quixote, lutando contra o futuro, do mesmo modo que aquele lutava contra os moinhos de vento.
Tentando isolar-se deste contexto adverso, D. Jaime procura a todo o custo manter a arte da esgrima, ensinando os seus cada vez mais raros alunos nas artes do florete e da espada. De entre os seus alunos, surge a bela Adela que despertará as suas paixões e revolucionará a sua vida, envolvendo-o num enredo alucinante, de cariz policial. Adela, qual Dulcineia, é misteriosa e encantadora. É esse mistério e esse encanto que levarão D. Jaime às mais inimagináveis aventuras.
Enfim, um livro que vale pelo característico suspense das obras de Reverte, embora ainda sem o fôlego de “Clube Dumas” ou a descontracção das “Aventuras do Capitão Alatriste”. Não se encontra neste livro grande profundidade literária nem ideias inovadoras. Trata-se acima de tudo de um livro divertido, que se deixa ler com facilidade. Nada mais que isso.

sábado, 2 de agosto de 2008

Léon Tolstoi - A Morte de Ivan Ilitch

Este romance do grande mestre Tolstoi é a prova definitiva de que uma obra-prima não tem de ser um livro volumoso. Em pouco mais de cem páginas nesta louvável edição de bolso, Tolstoi escreve quase tudo sobre a vida. Sim, porque não se trata de um livro (apenas) sobre a morte; como diz A. Lobo Antunes no pequeno e excelente prefácio desta edição, “tudo o que somos [ali] se acha em poucas páginas”.
No entanto, a morte não deixa de ser o centro do livro, ou melhor, da vida. A morte de Ilitch, vista pelos outros, representa a alegria dos que vivem; não só dos abutres que sempre esperam ganhar algo com a morte do outro, mas também por todos os que, perante o fim de Ilitch, sentem a alegria de continuar vivos. No entanto, a morte do outro desperta o medo da nossa própria morte; nesse sentido, agudiza o nosso egoísmo. A curiosidade em tomar conhecimento de todos os pormenores da morte de alguém reflecte a nossa vontade de transferir a ideia de morte para o outro.
Durante o caminho para a morte, ou seja, ao longo da vida, Ilitch vive praticamente obcecado pelo trabalho. Neste aspecto, Tolstoi toca nesse ponto que mais tarde constituirá um dos elementos-chave da obra de Kafka: a perda do sentido da vida entre a rotina e a alienação pelo trabalho. Por outro lado há a competição que arrasta consigo a perda de escrúpulos e a entrada em cena da inveja, transformando a vida numa luta sem sentido. A vida é encarada como um conjunto de elementos alienantes. O próprio casamento não foge à regra: Ilitch vive a sua relação marital como um hábito e um conjunto de obrigações formais e sociais. As relações inter-pessoais, por sua vez, são determinadas pelas exigências das relações de poder e pelas hierarquias. O ser humano é sempre ultrapassado pelo formalismo: a Ilich, enquanto juiz, tal como ao médico que trata a sua doença fatal, interessa mais a formalidade do processo do que a relação pessoal com o ser humano. O médico não trata doentes; trata doenças. O juiz não julga o homem, julga o crime.
Ao longo da doença, Ilitch vai-se transformando num empecilho para os outros. Põe-se aqui em causa toda a natureza essencialmente egoísta do ser humano, causadora da solidão e da carência afectiva que era, ao fim e ao cabo, o maior dos males de Ilitch. Um dos pontos altos desta obra, onde a sensibilidade do autor se exprime com eloquência é o episódio em que Ilitch, quase moribundo e sofrendo atrozmente, apenas encontra alívio quando o criado Guarassim o toca e lhe dedica algum afecto desinteressado. Ele é o único que nada lhe esconde e nada pede em troca. Os outros, todos os outros, escondem a verdade ao moribundo, não por piedade mas por egoísmo e hipocrisia: o objectivo é manter o moribundo afastado, é não se envolver e preservar-se a si próprio.
Perto da morte, resta a solidão – a dor maior! Mas mesmo perto do minuto final, quando as dores físicas e da alma são insuportáveis, Ilitch exclama: “Tudo menos a morte”. É assim a alma humana!
Em suma, trata-se de um verdadeiro tratado sobre a vida. O que é viver bem? Questiona-se Ilitch. O que é uma vida correcta? Qual o padrão a seguir? Terá o mundo o direito de nos dizer como devemos viver e morrer? Talvez cada um de nós deva procurar as suas próprias respostas, para que de repente não nos ocorra aquilo que se passou com Ilitch: “Aconteceu-lhe aquilo que lhe costumava acontecer na carruagem do comboio, quando pensava que seguia para a frente e ia para trás, e de repente descobria a verdadeira direcção”!

terça-feira, 29 de julho de 2008

O Crime de Lorde Artur Sevile e Outros Contos - Oscar Wilde

Não deixa de ser surpreendente o fino e inteligente sentido de humor de Wilde ao longo destes contos, particularmente em “O fantasma de Canterville”. A comédia torna-se hilariante no confronto entre o fantasma de 500 anos e a família americana que, com o seu espírito capitalista americano, comprara o respectivo castelo. Para quem leu, por exemplo “De profundis”, essa carta dolorosa de um homem angustiado, não deixa de ser admirável este bom humor.
No conto principal, que dá título à edição, tudo gira em torno da estupidez. Ou melhor, de como a superstição se transforma em estupidez quando um homem se deixa conduzir por ela. Trata-se da história de um jovem aristocrata, pouco inteligente e supersticioso que procura cumprir a “profecia” de um quiromante, uma vez que tem o casamento marcado e não quer consumar o matrimónio sem “despachar” a profecia. Mas a tarefa não é nada fácil: o quiromante garantira que ele haveria de cometer um assassínio; o problema maior era encontrar um alvo.
Wilde que um dia afirmou que o único pecado é a estupidez, demonstra aqui um admirável espírito crítico ao qual não escapa uma sociedade burguesa sem ideias nem ideais, completamente dominada pela futilidade. O subtítulo deste conto (“Um estudo sobre o dever moral”) denota uma genial ironia acerca do conceito de moralidade: ser coerente com os princípios morais pode revelar-se uma armadilha fatal, quando eles estão assentes em crenças e hábitos.
Os dois contos finais são meros exercícios da fértil imaginação de Wilde. O último deles (“O Modelo Milionário”) demonstra uma faceta pouco conhecida de Wilde: a sua sensibilidade perante a solidariedade social e a filantropia.
A ideia geral que perpassa todos os contos é a dualidade e o confronto entre a aparência e a realidade no que toca à personalidade humana. Há sempre um desconhecido por detrás de cada rosto e o confronto com os outros dá-se sempre ao nível da aparência. Quando essa “máscara” cai, todos nós revelamos facetas antes insondáveis e o misterioso torna-se real.

domingo, 27 de julho de 2008

Gente de Dublin - James Joyce

A impotência perante a dureza da realidade, particularmente no que diz respeito às condições económicas, é o tema central desta obra, um dos primeiros livros do autor de “Ulisses”. A Joyce interessa sobretudo a vida da gente simples de Dublin, descrevendo-se uma cidade pobre e muito conservadora, factores que ditam o peso de uma realidade que oprime os seus personagens.
A tentação de sair da ilha é grande, mas o apego à terra é enorme. Para isso contribui uma mentalidade provinciana à qual Joyce aponta o dedo acusador. No final de cada conto, é a realidade que vence; é o costume, a normalidade, que prevalece sempre! No conto “Graça Divina” esta ideia assume uma forma muito curiosa e original: praticamente o conto não tem um final, na acepção habitual do termo; o encerramento da narrativa dá-se com a mensagem de um padre e tudo fica igual. O problema não tem solução, nunca se resolve, pelo que não há final.
O estilo utilizado por Joyce nestes contos é peculiar: as histórias não têm suspense, não se procuram artifícios para captar a atenção do leitor mas, na realidade, a beleza das palavras cumpre esse papel na perfeição. Nestes contos nada acontece de extraordinário. Mas, ao mesmo tempo, tudo é extraordinário: a realidade é sempre a mesma mas a beleza da escrita de Joyce encarrega-se de nos prender do princípio ao fim. Os primeiros contos são verdadeiramente ingénuos; histórias simples e com enredo quase pueril. Ao longo do livro vai crescendo o simbolismo e a “finura” das mensagens de Joyce. O álcool e a embriaguez, fenómenos integrantes do conservadorismo, estão quase sempre presentes, a contribuir para a vida atribulada e infeliz da maioria das personagens. No conto “Embriaguez” o tema é tratado de forma tão crua e directa que nenhum leitor consegue evitar a comoção. A própria religião, fenómeno tão importante na Irlanda, é outro elemento desse conservadorismo que o autor acusa.
Destaque finalmente para o último conto (“O morto”), que constitui uma formidável reflexão sobre a vida, a morte e o amor; não obrigatoriamente por esta ordem mas constituindo uma triangulação da qual ninguém consegue escapar.
Globalmente, esta obra é mais um conjunto de reflexões ficcionados do que um livro de contos na sua concepção tradicional. Tudo gira em torno de um povo que se limita a cumprir o seu destino, com as suas alegrias simples e as suas dores permanentes. Um obra escrita em tons de lamento mas de onde se eleva um estilo narrativo inovador, anunciando já James Joyce como um dos mais originais e marcantes escritores europeus da primeira fase do século XX.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Salammbô - Gustave Flaubert

Trata-se de uma obra a todos os títulos notável. Depois da polémica com Madame Bovary, Flaubert procurou refugio no romance histórico mas nem por isso conseguiu a fuga desejada. Os seus críticos não lhe deram tréguas e se na obra anterior o haviam acusado de provocar escândalo, nesta houve quem o acusasse de sair demasiado da verdade histórica. Seja como for, a liberdade criativa justifica alguns desvios à verdade histórica.
Salammbô é o nome da filha de Amílcar Barca, célebre conquistador cartaginês. Durante as primeiras Guerras Púnicas, este general teve de contratar enormes contingentes de mercenários que depois se revoltaram contra Cartago. Após um festim comemorativo feito pelos comerciantes em homenagem às vitórias, um dos mercenários, chamado Mâtho, apaixona-se pela bela princesa Salammbô, a filha do general. Consagrada para o culto à deusa Tanit, esta conserva-se pura e virginal, desconhecendo a realidade mundana. Entretanto, tem início a revolta dos mercenários, por não terem recebido as prometidas recompensas, sendo Mâtho um dos seus principais chefes. Amílcar encontra-se fora da cidade, que é cercada pelos milicianos. Tomado por sua paixão desenfreada, Mâtho ocultamente penetra em Cartago, o que resulta no roubo do Zaïmph - o manto sagrado da deusa - e no qual nenhum mortal poderia tocar.
O retorno de Amílcar, marcado pela oposição dos seus conterrâneos, dá início a uma longa série de batalhas, vitórias e reveses… O final é surpreendente e apoteótico.
A imaginação incrível de Flaubert permite descrições notáveis dos ambientes da época. Os costumes, as roupas, os edifícios, as armas, tudo é belamente descrito num estilo muito cuidado. A estranheza dos costumes dos povos descritos é, aos nossos olhos, impressionante. Este aspecto leva o leitor a questionar-se sobre o ponto onde acaba a descrição histórica e começa a fértil imaginação de Flaubert.
As barbaridades cometidas pelos exércitos dão-nos uma noção de terror impressionante. À medida que a acção avança, os exércitos vão-se dizimando, mas os seres humanos que os alimentam parecem sempre renascer das mortandades, alimentando sempre a máquina impiedosa inventada pelo ser humano a que damos o nome de guerra.
Em contraponto com o terror, a riqueza! Impressionante a descrição dos tesouros de Cartago, nomeadamente o tesouro pessoal de Amílcar. Ao mesmo tempo, a eterna desigualdade entre os seres humanos, uma vez que as populações em geral passavam crises frequentes de fome. Um aspecto importante que parece realçar do texto é um certo europocentrismo, em voga na época, que considerava como bárbaro todo aquele que não comungasse dos valores europeus. Mas há uma certa admiração por esta “barbárie”. No final da obra triunfam os Deuses; esses mesmos Deuses que Flaubert descreve como impiedosos, vingativos, assassinos mesmo! Mas o triunfo dos Deuses talvez seja a vitória do destino. Por maiores que sejam as riquezas e as ambições, por mais valentes que sejam os homens, há sempre um destino a cumprir e nada podemos fazer para lhe fugir. Todas as guerras e todas as ambições de riqueza são inúteis.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A Dama das Camélias - Alexandre Dumas, Filho

Um amor desmedido e uma história trágica: eis os ingredientes obrigatórios de uma bela obra segundo os cânones do grande romance francês do século XIX. Neste livro, impressiona o exagero: do amor desmesurado de Armand, da doença trágica e quase inexplicável de Margueritte e de um ambiente social onde predomina o luxo e a depravação. Margueritte é uma cortesã que alimenta o luxo em que vive vendendo o corpo e a alma a fidalgos endinheirados que povoam a cidade de Paris na primeira metade do século XIX. Armand é um nobre de baixa renda, um jovem que, como muitos outros, procura viver da renda, deambulando pela cidade-luz até cair de amores por Margueritte. Esta, inexplicavelmente, abandona o luxo para se dedicar àquele amor caído não se sabe bem de onde.
No entanto, em breve se anuncia a tragédia, quando surge o famoso triângulo amor-ciúme-posse que conduz à desgraça. Embora com lágrimas e mais lágrimas ao longo de quase todo o enredo, tudo corre pelo melhor até se verificar que a renda de Armand não chega nem para os gastos mais elementares, acrescendo a ira do pai de Armand perante aquela relação com uma mulher cuja vida se situa completamente fora dos limites da decência. Vem ao de cima toda a história mil vezes contada da hipocrisia perante a vida pecaminosa destas damas que alimentam os desejos mais ardentes dos homens mas a quem é negada qualquer aceitação em termos morais. Uma coisa é ser amante, outra é ser mulher em todo o sentido do termo.
Todo o drama acontece quando Margueritte quer deixar de ser amante para ser mulher. A sociedade parisiense, perdida algures entre a moral burguesa e o diletantismo de um quadro mental de Antigo Regime, não aceita o fim da aparência. Tudo corre bem enquanto Margueritte mantém a aparência mesmo que todos conheçam a depravação em que vive. Para lá do amor exagerado e da tragédia quase surrealista a que conduz, fica o retrato de uma cidade onde os valores da própria Revolução Francesa parecem não ter penetrado. Por todo o lado, nobres diletantes vivem das rendas pagas pelo povo explorado e faminto, rendas essas que desbaratam em farras e orgias. É incrível como a tolerância, a liberdade, a igualdade e a fraternidade estejam ausentes de um cenário social que foi o mesmo dos revolucionários, algumas décadas antes.
Outro aspecto que impressiona nesta obra é o sentimento que o próprio Dumas parece colocar na escrita, como se a vivesse por dentro (carácter auto-biográfico?). Por mais inacreditável que seja aquela paixão, tudo se passa como se fosse o próprio autor a vivê-la e a senti-la. O próprio Dumas parece envolver-se num quadro moral beatífico, onde os sentimentos cristãos surgem exagerados e contraditórios.
Em suma, trata-se de uma obra cuja importância se prende mais com o testemunho histórico do que com a qualidade literária. Trata-se de um retrato deprimente de uma cidade perdida nas contradições de uma época e de um quadro social que fica algures entre o aristocrata e o burguês, entre o Antigo e o Contemporâneo.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A Música do Acaso - Paul Auster

A par de Mr. Vertigo, esta Música do Acaso é uma das raras obras de Paul Auster que segue uma linha bem definida; sem recorrer à sua técnica recorrente de histórias dentro da história, Auster desenvolve um enredo simples e linear. É talvez um dos seus livros mais singelos e menos “trabalhado”.
Escrito em 1990, na primeira fase do percurso literário do autor, aborda a história de um bombeiro nova-iorquino de nome Jim Nashe. Aliás a semelhança do nome talvez denote alguma referência ao músico americano Graham Nash que, além da brilhante carreira militar, foi um activista político nos anos 60.
Jim Nashe tal como o seu quase homónimo, não consegue viver sem a música; é uma mescla de bombeiro, cavaleiro andante, libertino e vagabundo. Nashe, o vagabundo culto que lê Rousseau e ouve Verdi, é a liberdade em pessoa. Mas será que alguma vez foi livre? Esta é a questão central do livro. A liberdade existirá?
Jim deixa-se conduzir pelo acaso mas é precisamente esse acaso, uma força aparentemente aleatória, que acaba por conduzir com rédea curta toda a sua vida. Escravo do acaso pode ser uma expressão definidora de Jim e da sua vida. É nesse sentido que o acaso se confunde com o destino. Serão uma e a mesma coisa?
É por acaso que encontra Pozzi, um amigo de ocasião que num ápice se torna o filho, outras vezes irmão, que Jim nunca teve. Perdido no acaso, facilmente Jim encarna uma outra ideia central que perpassa toda a obra literária de Auster: a perda e a busca da identidade. Nash percorrer o livro à procura de si próprio e de um sentido para o seu percurso errante. Essa procura da identidade faz surgir a obsessão; a vontade furiosa de encontrar um caminho. Na parte final do livro, após ter gasto toda a fortuna herdada, Nashe e Pozzi encarregam-se de construir um imenso muro para pagar a dívida do jogo. Auster a lembrar Kafka: o muro como metáfora da perda da liberdade pelo trabalho; como em A Grande Muralha da China, trata-se da perda da individualidade, esmagada pelo peso de algo superior, seja uma autoridade ou, simplesmente um destino ou acaso. E a solidão. A imensa solidão que só termina com a morte. Mas, ao mesmo tempo, o reencontro com uma certa ordem cosmológica, estabelecida pela racionalidade do transporte e alinhamento das pedras. Mas essa racionalidade é provisória; tanto como a liberdade. No final prevalecerá sempre a solidão. A solidão e a incerteza; como Nashe reconhece, nós não sabemos nada. Somos um imenso zero. No entanto, um zero também pode ser um círculo que contenha o mundo inteiro.
Mesmo numa estrutura linear e aparentemente simples, Auster não escapa da sua própria angústia perante o destino e a natureza tristemente irracional do ser humano. Até ao momento em que. De repente, a música se interrompe.

domingo, 6 de julho de 2008

Capitães da Areia - Jorge Amado

Capitães da Areia é um dos primeiros livros da brilhante carreira literária de Jorge Amado. Em parte devido a esse facto a obra revela uma sensibilidade notável em relação aos problemas sociais causadores daquilo a que hoje chamamos a delinquência juvenil. Mas o “purismo” ideológico de Amado não o leva a uma análise simplista do problema; pelo contrário, ele aborda de forma profunda todas as facetas do fenómeno.
“Capitães da areia” é a designação atribuída a um grande grupo de meninos da rua, na cidade de Salvador, algures nos anos 30. A realidade sócio-económica, dramática, empurra estas crianças para uma vida de delinquência forçada e Amado preocupa-se em explicar racionalmente o fenómeno mas sempre com o acento tónico na responsabilização do sistema capitalista, do enquadramento religioso e mental e do sistema político e policial nas raízes da desgraça.
Os meninos são as vítimas; a polícia defende os interesses instalados de forma descarada; a imprensa dá cobertura ao jogo de influências, encobre e justifica todas as injustiças; a religião católica, hipocritamente, está inserida nesse mesmo jogo de interesses. Por arrastamento, a opinião pública não procura compreender; apenas perseguir e castigar aquelas que são as maiores vítimas da injustiça: as crianças.
Mas, para Jorge Amado, os Capitães da Areia são os heróis no estilo Robin dos Bosques. Roubam para sobreviver; roubam porque a isso são forçados. A vida obriga-os a ser adultos à força.
A obra divide-se em três partes: na primeira descreve-se as histórias de cada menino: Pedro Bala, o chefe; professor, o intelectual e artista; Pirulito, o fervoroso católico, Volta Seca, o afilhado do terrível Lampião, sonha ser cangaceiro e dizimar a autoridade; Sem-Pernas, o menino coxo revoltado e abandonado por todos, Querido de Deus, o capoeirista, João Grande, o da alma grande e mais uma centena de meninos que tem em comum a ausência do carinho materno. Todos eles anseiam pelo carinho de uma mãe perdida ou roubada. Por isso, na segunda parte da obra, surge Dora, a menina que aparece no grupo como a mãe de todos embora tenha a sua idade. É nessa fase que a sensibilidade humana do autor atinge a sua máxima expressão. Dora não é uma menina como as outras; é o ombro que nunca tiveram para chorar; é o amor na sua expressão mais pura.
Na terceira parte do livro, o grupo desfaz-se; independentemente do destino de cada um, a maldade, o ódio e a injustiça persistirão; mas a luta também e, sempre, a esperança num futuro sem exploradores nem explorados, nem autoridade vendida, nem religião hipócrita.

domingo, 29 de junho de 2008

Timbuktu - Paul Auster

Esta interessante fábula de Paul Auster, escrito já na era Bush, em 1999, conta-nos a história de um cão de raça indefinida, um daqueles cães vulgares, Mr. Bones e do seu dono, Willy, um sem abrigo, ou melhor, um poeta, que talvez fosse apelidado de esquizofrénico por qualquer intelectual de pacotilha. Na verdade, nem Mr Bones é um cão vulgar, antes um génio canino, nem Willy é esquizofrénico, antes um poeta incompreendido e rejeitado pela sociedade. Willy, ao rejeitar a herança da mãe, é o homem que recusa o materialismo, logo, o mundo dos outros homens.Willy devia ter sido um grande poeta, mas a doença alterou-lhe os planos e fez com que andasse em de terra em terra, pela costa leste dos EUA. Adoptou Mr. Bones, que passou a ser o seu companheiro, protector e confidente. Mais do que isso: Bones é o amigo; o único amigo, a antítese do ser humano: solidário e disponível. A elevação do cão a amigo perfeito é o reflexo da mágoa de Auster perante a natureza egoísta e materialista do ser humano. O ser humano “normal” recusa a liberdade; Willy rejeita o mundo em nome da liberdade.O cão, dotado de extrema inteligência é o único ser que conhece realmente Willy e nos dá a conhecer todo o enredo. Mr. Bones é cão, por isso não está corrompido pela humanidade. É paciente, fiel, inteligente, autónomo, com personalidade, meigo, altruísta e amigo dedicado – tudo o que um ser humano não é. Mais importante do que ser omnisciente, Bones sabe sonhar. Por exemplo, com Timbuktu, a terra para onde todos nós vamos, depois de morrer, e onde, muito provavelmente, cães e homens falam a mesma língua. Timbuktu é “o oásis dos espíritos”, onde o Universo encontra sintonia e único lugar de paz e felicidade.A escrita refinada, deliciosa, de Auster dá ao livro o tom de uma maravilhosa fábula sobre a amizade, a solidariedade e o sonho. O cão e o vagabundo estão unidos contra o desprezo humano. A loucura de Willy não é mais do que a estranheza de alguém que sonha num mundo de homens vegetais voltados apenas para si mesmo. Com um notável sentido de humor e a sua habitual clareza de linguagem, Auster não deixa de emprestar a determinados aspectos da obra uma carga de simbolismo notável e até algum sentido filosófico. Por exemplo, quando Willy decide compor uma sinfonia de cheiros, o autor delicia-nos com uma série de raciocínios sobre as implicações da arte como fuga ao real, mesmo utilizando os sentidos, como o próprio olfacto, como via para essa libertação. Quando Mr. Bones tem acesso a todos os confortos e riquezas, continua a sonhar com Willy. Ou melhor, com a liberdade, única via para a realização completa do ser humano.Em suma, mais uma obra brilhante de Auster, o nova-iorquino que não quer ser norte-americano.

domingo, 15 de junho de 2008

Balada da Praia dos Cães - José Cardoso Pires

Embora seja muito mais do que isso, a Balada da Praia dos Cães é uma história policial; tudo começa com a descoberta de um cadáver numa praia. A vítima era um militar envolvido numa tentativa fracassada de derrubar o regime fascista português. A partir daí, o enredo decorre em constante feed-back, retornando aos últimos dias do oficial, escondido com três cúmplices que são, ao mesmo tempo, suspeitos da morte do oficial e de envolvimento no referido golpe.Perante este cenário, a Policia Judiciária e a PIDE procuram pôr em campo o seu jogo de interesses, num constante bailado de rivalidades e questões políticas entre as duas instituições. O caso acaba por ser entregue à Judiciária. O agente encarregado do processo, personagem principal do romance, Elias Santana é um português típico: está-se marimbando para a política, julga ter solução para tudo, é desleixado, tem um lagarto como melhor amigo e usa unhaca comprida no dedo mindinho. Portugal vivia numa ditadura posta em causa pela independência da Índia e pela ameaça da guerra colonial. O regime tornava-se obsoleto e cada vez mais repressor. Por isso o tom do romance é sempre sombrio e o retrato social apresenta-nos uma realidade dominada pelo medo, pelas intrigas políticas e por uma sociedade de aparências forçadas.O crime em si mais não é do que um pretexto para que os cuidades de “segurança” do regime escondam o crime maior: o de um regime repressor e baseado no medo. Os suspeitos são as vítimas desse crime maior. O castigo imposto a estes suspeitos é o castigo imposto a toda a sociedade; a um país reprimido, manietado, assassinado. No final não há redenção nem compaixão; apenas solidão.O próprio Elias Santana, mais do que um agente da autoridade, é uma vítima aquém não é permitido ter uma opinião nem muito menos uma vida própria; ele é o braço do sistema e por isso depende de tudo quanto o condiciona. O medo e a solidão são, também para ele, os denominadores comuns de todos os aspectos da vida.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Mr. Vertigo - Paul Auster

Mr. Vertigo é uma das obras mais peculiares de Auster; trata-se de uma espécie de fábula moderna onde o impossível se realiza e os sonhos ganham forma; aqui o humano mistura-se com o misterioso e a vida saltita entre o mesquinho e o irreal. Nunca em toda a bibliografia de Auster se chegou tão alto no domínio da fantasia e da imaginação. Trata-se da história, contada pelo próprio, de um ancião que faz o feed-back de toda a sua vida, desde os tempos em que usava voar até ao momento em que, já idoso, recorda todos os altos e baixos da sua vida, da vida da América. Walt é o rapaz Prodígio que, conduzido pelo seu Mestre, Yehudi, aprende a voar e mostra que, afinal, isso é até coisa pouca para um ser humano. Após uma experiencia dura de aprendizagem, ele torna-se o ídolo da América. Até à queda; e daí ao renascimento; até nova desgraça; e de novo o ressurgimento; até ao fim…Walt sonha e isso fá-lo voar. Mas só após o sofrimento; um imenso sofrimento que mestre Yehudi lhe apresenta como o preço da felicidade. Walt, um indigente, pobre e renegado, vive e realiza o seu sonho com a ajuda de uma índia velha, um negro e um judeu húngaro (o mestre); os heróis são aqueles que surgem das minorias mais reprimidas, mais espezinhadas sobre quem tombou toda a gloriosa história da América. O desejo de voar é o desejo de redenção por parte dessa América assombrada pela história de violência e injustiça. A chacina dos Índios, a perseguição aos judeus e o ódio aos judeus são as manchas que ensombram a Liberdade. Aliás, é a própria Ku Klux Klan quem dá um dos maiores passos para a desgraça do Prodígio. O Mestre, o homem que só lê Epinosa (judeu de origem portuguesa), representa a fusão entre o espírito materialista americano, o homem que quer ganhar rios de dinheiro, e o espiritual, o homem que sabe que o querer faz-nos voar. Quantas desgraças sofreu o Mestre; mas a ambição é maior e Yehudi mostra-nos como a maior e mais nobre das ambições é, afinal, aquela que não se transforma em dinheiro. Walt passou a vida a subir e a descer. Mas descer é muito mais fácil do que subir ou manter a altitude. Na vida como na magia. Na América como em nós. Em rodapé comum a todo o livro, o hino à amizade que Auster nos entoa. Com firmeza e sentimento; com a sua peculiar frieza narrativa mas sempre com aquele toque de humanidade que faz de Auster um dos expoentes máximos da literatura contemporânea.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Leviathan - Paul Auster

Peter Aaron, o narrador, lê a notícia de que um homem não identificado explodiu numa estrada do Wisconsin. Só ele sabe tratar-se de Benjamin Sachs, o seu melhor amigo e um promissor romancista. A partir desse momento, Aaron impõe a si mesmo a árdua missão de desvendar o mistério que envolve a vida e morte de Sachs, empreendendo uma jornada que é, simultaneamente, uma autodescoberta. Com o objectivo único de repor a verdade, revive a amizade que o ligara durante quinze anos a Sachs.
Não se trata de uma das mais bem conseguidas obras de Auster, longe da genialidade de “A Triologia de Nova Iorque” ou da profundidade de sentimentos de “Inventar a Solidão”, até porque se trata de uma das suas primeiras obras. Mas é um livro que revela já aqueles que viriam a ser os traços mais marcantes da obra deste genial escritor nova-iorquino. Desde logo, todo o enredo é marcado por esse tema central do Universo de Auster: a procura da identidade: Peter procura conhecer Sachs procurando por si próprio; a irresistível tentação de conhecer o outro, aliada à quase impossibilidade de compreender a alma humana. O “outro”, neste caso, Sachs é o eu-sombra, aquele que funciona como imagem projectada do narrador. Por outro lado, como em toda a obra literárias de Auster, a crítica mordaz à mentalidade, aos costumes, ao pensamento político e às estruturas sociais da América conservadora.
O tema “terrorismo” e a procura das suas causas profundas surge como consequência de uma sociedade ultra-conservadora e ao mesmo tempo injusta, que despreza valores como a solidariedade e a preocupação pelo outro. Muitos anos antes do 11 de Setembro, Auster anuncia, pela acção de Sachs, um bom homem, as consequências dessa degenerescência social. No domínio dos sentimentos, é um livro sobre amizade, amor e a traição: a complexidade dos sentimentos humanos e o limite ténue entre o amor e a traição, com o desejo a funcional como fiel da balança. Uma escrita predominantemente narrativa mas profunda e complexa. Finalmente, realce, como sempre, para a enorme habilidade de Auster como contador de histórias. O imprevisto do quotidiano que transforma a vida numa sucessão de contradições e mistérios. A bizarria das coincidências revela essa mesma complexidade. Como é próprio de Auster, a incerteza e o mistério do enredo levam o leitor a folhear até à exaustão, levando ao expoente máximo o prazer de ler.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

De Profundis - Oscar Wilde

Escrito na prisão, onde “contava o tempo pelas pulsações da dor” (pág. 33), De Profundis é uma extensa carta dirigida a um amigo especial, alguém que acompanhou Wilde nos momentos de paixão e devaneio em que a sua vida foi fértil. E foi esse amigo quem o conduziu à prisão ao convencê-lo a fazer frente em tribunal ao seu pai, um Lord da alta sociedade inglesa.
Trata-se de um tremendo hino ao esteticismo que o autor cultivou e que aqui exprime da forma mais contraditória possível: toda a beleza, toda elevação da arte contrasta com uma angústia gritante perante o destino que o conduziu à desgraça. A arte assume aqui a forma de dor. A vida desvairada e intensa de Wilde dá aqui lugar a uma imensa melancolia e uma indisfarçável revolta perante um mundo que não o compreendeu minimamente. Por isso, Wilde balança constantemente entre um ego poderoso, um auto-conceito que o leva a colocar-se nos píncaros da arte e uma sensação de desprezo perante ele próprio no que toca aos sentimentos e à forma como os geriu. Ao longo do livro, bem distante do tom optimista de “O retrato de Dorian Gray”, são recorrentes os lamentos e o desespero de um homem que não soube viver e de um artista de génio, incomparável e único. “O supremo vício é a vulgaridade” (pág. 13). O grande pecado de Wilde foi confundir o amor com o prazer e assim caiu na vulgaridade. Aqui Wilde encontra a contradição suprema que o conduziu ao desespero: a contradição entre a beleza da sua arte e a fealdade do mundo que construiu e no qual se sepultou. Foi o factor humano que arruinou a sua arte – crime supremo, este de transportar a vida para a arte que, na sua pureza e perfeição deveria sempre manter-se muito acima do mundo mortal. “Era o triunfo da natureza menor sobre a maior” (pág.23). É ao desprezar e lamentar essa vida gasta no prazer que Wilde valoriza o sofrimento como caminho para uma espécie de contemplação da beleza. Os devaneios e reflexões de Wilde conduzem, por exemplo a uma interessantíssima leitura da vida e obra de Jesus Cristo que identifica como um ideal de beleza, perfeitamente identificada com a dor. Em suma, uma obra que traz à superfície o lado mais negro de Wilde - a decepção perante um mundo que não compreende o génio.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

O Velho que lia Romances de Amor - Luis Sepúlveda

Não se trata de uma obra de grande fôlego, a julgar até pela sua brevidade: 121 páginas que o Circulo de Leitores complementou, nesta antiga edição, com o conto “Mundo do Fim do Mundo”. Mas as limitações da obra não se reduzem ao factor “quantidade”. Não há aqui um propósito de escrever um romance mas apenas um conto ilustrativo da importância da preservação da floresta amazónica. O livro, dedicado a Chico Mendes não tem grande mérito em termos de criação literária. Tem, isso sim, uma mensagem importantíssima: ninguém consegue vencer a natureza. Podemos e devemos viver com ela mas nunca contra ela. Os animais e os elementos, ao oongo do livro, como que “troçam” dos homens, brincam sadicamente com eles antes de, invariavelmente, desferirem o golpe final. O convívio com a floresta, protagonizado pelo velho José Bolívar Proaño, é visto como um acto de submissão do homem à natureza. Proaño não tem medo da floresta. Tem-lhe, isso sim, um imenso respeito. E só esse respeito lhe permite viver feliz e em comunhão com animais ferozes e todo o tipo de perigos. Mau grado as contínuas ameaças dos exploradores americanos e das autoridades políticas sul-americanas, os bichos e os índios sobrevivem e triunfam. A escrita é simples e muito bem-humorada. Um estilo delicado e fácil que permite uma leitura rápida e agradável. As personagens, tipicamente sul-americanas, permitem ao autor introduzir deliciosas rábulas de humor quando confrontadas com a civilização distante que só conhecem por testemunhos indirectos. É o caso das deliciosas interpretações que os habitantes de El Idílio fazem de uma descrição da cidade de Veneza. Proaño, um velho viúvo solitário lê romances de amor para enganar a solidão mas também porque prefere a distância em relação a esse mundo “civilizado” que ele não gostaria de conhecer. O sonho é sempre preferível à realidade. Os índios (os Xuares, com quem Sepúlveda chegou a viver) são descritos de uma maneira muito simpática, seguindo o velho padrão do bom selvagem que vive feliz em comunhão com a natureza. Em suma, um livrinho muito agradável que compensa a falta de riqueza literária com a ludicidade da escrita e o valor de uma mensagem que, cada vez mais, devemos ter presente.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo - António Lobo Antunes

A leitura como um jogo. Um desafio e uma construção. Um passeio literário que transporta o leitor para o verdadeiro prazer de ler. Eis o verdadeiro Lobo Antunes. Memórias nostálgicas de África, um tema quase obsessivo em Lobo Antunes. Mas também uma perspectiva crítica mordaz á forma como Portugal procurou tirar de África, a todo o custo, os seus melhores recursos, mesmo à custa de vidas humanas, barbaramente desperdiçadas. Deambulando entre uma escrita profundamente melancólica e um sentido de humor discreto mas eficaz, o Autor presenteia-nos com uma obra complexa mas de uma qualidade literária apenas ao alcance desse pequeno grupo de escritores a que podemos chamar “génios”. Agentes mais ou menos secretos, portugueses, cobiçosos, meros paus-mandados de uma cobiça maior, à procura de alvos difusos. Personagens vulgares, joguetes do poder viajam para Angola, sempre com o mesmo fito: os diamantes, réstia valiosa de um poder decrépito mas sempre desumano. Os Portugueses, os cubanos, os americanos, sempre os americanos, juntos numa amálgama de desespero e ambição. Vidas que se perdem ao serviço de uma causa dita maior. Seabra, Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares, ati-heróis, desgraçados ambiciosos e manipulados são gente como nós, gente simples, vítimas de um mundo onde reina a desumanidade. Manipulados pelo misterioso “serviço”, herdeiro de uma colonização mal desfeita, os seus enviados são consecutivamente impedidos de regressar a Portugal. A terra de Angola, vermelha de sangue, funciona como uma força de atracção que os impede de regressar. O romance é apresentado em três livros com prólogo e epílogo. O estilo inconfundível de Lobo Antunes, com a multiplicidade de narradores, envolve o leitor numa trama complexa mas apaixonante. Numa obra com 573 páginas, é espantosa a forma como o autor conduz o leitor a um ritmo de leitura vertiginoso. Na verdade, a escrita de Lobo Antunes, segue a velocidade do pensamento: temas que se misturam, personagens que se multiplicam, enredos que se entrelaçam de tal forma que é ao leitor que cabe compor as peças do puzzle. Dominando como ninguém a língua portuguesa, Lobo Antunes, na sua característica modéstia, lamenta-se constantemente da falta de palavras para descrever situações e sentimentos. Curioso facto, este: um dos maiores escritores de sempre da língua portuguesa, lamenta-se da falta de palavras! A explicação é simples: se bem que a máquina institucional que submerge os personagens seja imensa, e por mais simples e vulgares que sejam as pessoas, o seu interior, os seus pensamentos e sentimentos são sempre imensos. Neste sentido, poderemos talvez adjectivar a escrita de Antunes como intimista: parece haver um esforço incontido de escalpelizar ao máximo todo o espírito humano. Mas o ser humano é tão grande e profundo que as palavras não chegam. Nem ao génio. O epílogo, escrito sob a forma de uma redacção escolar infantil, é um texto de uma excelência literária espantosa. Vem ao de cima a crítica da ambição e do poder e todo o humanismo que caracteriza a escrita de Lobo Antunes. Para ler, reler, guardar e mais tarde reiniciar o ciclo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Ontem não te vi em Babilónia - António Lobo Antunes

Este livro, às vezes, é como que um bailado de pensamentos, ondulando suavemente entre as páginas, percorrendo linhas e dançando perante os nossos olhos; saltitantes, esvoaçando para dentro dos nosso próprio cérebro, pensamentos que se misturam (os nossos e os dos outros, das personagens e do autor) num livro que se faz e refaz a cada instante, num imenso puzzle a construir por quem lê porque o autor, esse, já fez a sua parte. Um livro onde nunca nada está acabado; nem as frases, nem as ideias, nem a descrição, que narração não importa. Outras vezes, este livro é o turbilhão das dores e angustias, esse somatório desordenado a que alguns chamam sofrimento. Bocados de humanidade. Tempestades de dor, é o que é! Emaranhados confusos de sonhos e pesadelos, cores impetuosas de um quadro surrealista, talvez de Dali, manchadas de sangue e de lágrimas, luzes perdidas no escuro onde se pode ler a vida. Vida entre sonhos, fantasmas, ilusões, fantoches, trapos de bonecas, muros e grilhões de Peniche, onde a maré afoga o sonho. Dois, quatro, oito, dezasseis (não interessa) personagens evoluem numa única noite de insónia e vão passando, à vez, pelo palco da vida, das letras que deciframos. Muitos narradores, uma única noite de insónia. Insónia de cada um, uma noite/vida que é de todos (personagens, autor, leitor – sim, o leitor a tomar parte no banquete da insónia) emaranhados numa única solidão, num contar de tempo que pouco importa, duas quatro, oito, dezasseis vidas perdidas; duas, quatro, seis, oito, horas tanto faz, vidas rasgadas por sonhos/pesadelos, lutas, derrotas, um tempo que não interessa, um país que quase morreu ou quase viveu (riscar o que não interessa). Memórias sombrias, cinzentas, lentas, tortuosamente lentas de um cárcere chamado alma, ou vida, ou passado, também não interessa, o que interessa sim é a esperança – isso, a esperança, isso de que o livro não fala, isso de que o António se esqueceu…… pois……Foi de propósito, não foi, António? Porque isso não existe…… Existe a morte. E a pior de todas elas: a morte na vida; uma morte, uma vida, dezasseis vidas, uma noite – o escuro. Uma frase final: linha 13 parágrafo talvez terceiro, página 479: “porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro”; uma verdade (ou mentira, tanto faz, o leitor é que sabe); talvez verdade na medida em que no escuro se lê o pensamento e é disso que é feito este livro inteiro – 479 páginas de dor, desalento, sofrimento sem redenção, personagens que não heróis, enredo não estória, tramas confusos como pensamentos que se misturam e um leitor que não sabe a quantas anda porque assim é a vida e, muito mais, assim é quem pensa, quem sente as dores de viver. 479 páginas apenas mas que continuam. Talvez na página 1, num ciclo de gerações que não acabam na noite, que sobrevivem na insónia e se multiplicam na aurora. Porque a insónia é eterna. Uma prisão, uma macieira, um quarto de não dormir, pouco importa quem escreve, pouco importa onde (algures a montante da morte), Babilónia, Lisboa, Évora, Peniche, riscar o que não interessa, algures onde tu não estás, onde talvez nunca ninguém tenha estado, nalgum sítio perdido a que alguém possa um dia ter chamado felicidade, que é uma espécie de luz dos planetas extintos. O que fica, afinal? Talvez o génio. A arte de embalar o leitor no pesadelo. António Lobo Antunes e nós à espera da página 480.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

As Loucuras de Brooklyn - Paul Auster

Antes de mais, uma chamada de atenção para o facto de o título original ser muito mais sugestivo: The Brooklyn Follies. No entanto, a palavra "Follies" é, como se compreende, de difícil tradução, pelo que se compreende a solução adoptada ("Ilusões"). Aliás a tradução do habitual tradutor de Auster para a ASA (Pires de Lima) parece-me muito boa. Pelo menos muito atenta, com notas de rodapé muito úteis. As Loucuras de Brooklyn confirma a fixação de Auster num estilo preponderantemente lúdico e narrativo. Atingindo a maturidade como escritor, parece ter neste romance atingido aquele ponto em que já não precisa de inovar. É, por isso, talvez, o romance mais bem conseguido deste nova-iorquino que não norte americano (palavras suas). É, seguramente, o seu livro politicamente mais interventivo e comprometido desde a Triologia de Nova Iorque. Todo o pano de fundo é preenchido pela Nova Iorque dos anos 2000 e 2001: desde a reeleição de Bush à tragédia do 11 de Setembro. Fica mais uma vez clara a revolta do autor perante os caminhos sórdidos e absurdos da política norte-americana, não hesitando em deixar clara a fraude eleitoral cometida pelo partido republicano. Mesmo assim fica a ideia de que Nova Iorque pré-11 de Setembro é um sítio feliz. Magnifica a descrição da gente simples da grande maçã, que Auster admira profundamente. Aí reside grande parte da genialidade deste livro: a maneira eficaz como se conta histórias simples, de gente simples. Neste romance, ao contrário do habitual nos livros de Auster, o protagonista não é escritor. Nathan Glass é um apaixonado pelos livros que, na fase final da sua vida, vítima de uma doença grave decide mudar-se para Nova Iorque a aí procurar um final de vida tranquilo. Mas não é tranquilidadde que ele encontra; encontra os problemas e as peripécias de gente simples a quem acontece um pouco de tudo. Envolve-se com personagens estranhas mas autenticas, quase diria estranhamente reais: homosexuais, assassinos, pobres desgraçados de minorias étnicas, ricaços desprovidos de ética e inteligência e um sobrinho vítima da vida que lhe reabre a porta da família e o enreda em novos laços de ternura que Glass julgava já impossíveis de recuperar. É o ranascer para a vida, é a redenção sempre presente nos livros de Auster: a solidão como caminho para a felicidade, mas sempre uma felicidade difícil, só conseguida por árduas lutas interiores e perante os outros. A afirmação do ser humano como único, só é possível perante uma sociedade que, à partida, o despreza. Mas, neste livro, parece haver um pouco mais de luz do que nas obras anteriores, mais sombrias e pessimistas. Um final feliz na medida do possível, compensam a tragédia que persiste, a espaços, na vida.

O Livro das Ilusões - Paul Auster

Nesta obra, o melhor escritor norte-americano da actualidade põe em cena todo seu conhecimento e sensibilidade cinematográfica, herdadas da sua vasta experiência no género, como realizador e argumentista. Aliás, não deixa de ser curioso que o filme baseado neste livro, a estrear em breve, tenha sido rodado em Portugal, o que prova mais uma vez a predilecção de Auster pelo nosso país. Neste livro, narra-se a vida de um homem que, depois de passar pela dolorosa experiência da morte dos filhos e esposa, se dedica por inteiro à escrita, nomeadamente à reconstituição da vida de um génio do cinema mudo, Hector Mann, misteriosamente desaparecido. Na primeira fase do livro, é tocante a forma como Auster sente e exprime a crueza do sofrimento humano e da solidão. A revolta invade o próprio leitor, perante a crueldade do destino do personagem principal. A partir daí, toda a escrita de Auster embeleza de forma genial a passagem gradual da tragédia à procura da motivação pela vida. A solidão dá lugar à esperança. A tristeza dá lugar ao frémito que impede de pensar, esse "stress" que dá à vida aquela velocidade que nos aliena mas que, ao mesmo tempo, nos anestesia perante a tragédia. Tal como noutras obras de Auster, também aqui perpassa a ideia de que não pode haver felicidade sem sofrimento. Assim, David Zimmer procura uma espécie de redenção perante o passado e fá-lo através da escrita. Mais uma vez, um tema querido a Paul Auster: o próprio acto de criação literária; a envolvência do escritor na obra criada e a amálgama entre o criador e a criação. No final fica o optimismo mau grado o tom trágico que percorre toda a obra. Há qualquer coisa de mágico em Auster: a vida é dolorosa mas preciosa. As alegrias são efémeras mas singulares. Estas ideias, tão caras a grandes escritores que, sem dúvida influenciaram Auster (Dostoievski, Kafka…) são envolvidas numa das maiores qualidades do autor: a sua magnifica vocação de contador de histórias; a sua capacidade de expressão narrativa faz dos seus livros magnificas fontes de entretenimento, retirando a literatura daquele aspecto enfadonho e pseudo-intelectual em que, infelizmente, muitos autores actuais se sepultam.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A Estrela de Gonçalo Enes - Rosa Lobato Faria

Trata-se de uma obra leve e descontraída sobre a vida e aventuras de dois personagens quase esquecidos da História de Portugal, mais especificamente da época das descobertas. São personagens reais se bem que quase todo o enredo seja ficcionado. Gonçalo Enes ficou na História pela descoberta das grutas de Tassili N’Ajjer. Trata-se de um jovem órfão de pai nascido e criado na aldeia algarvia de Bensafrim. Encantado pela estrela Sirius, que o ilumina e encanta durante toda a vida, o jovem Gonçalo, desiludido por um amor impossível, abre o seu destino às incríveis aventuras do Império que El-rei D. Afonso sonhava construir. Pelas aldeis indígenas de àfrica, pelas cidades encantadas de Marrocos, pelas areias misteriosas do deserto, Gonçalo leva consigo o espírito de aventura e coragem que transformou este pequeno país num mundo inteiro de esperança e riqueza. Fica, desta “estória”, o encanto de um tempo ido, em que a pobreza se enganava com sonhos grandes, do tamanho do Império. Um liuvro belo e fresco, descontraído, sem ambições mas que encanta pela extraordinária simplicidade e singeleza da escrita de Rosa Lobato Faria; uma escritora que tem o dom de encantar pela sua escrita simples e pura. Gonçalo, mal-amado e desprezado, vive no sonho, mas um sonho que o faz feliz. A amizade, a camaradagem, a fidelidade ao sonho são valores que fazem dele um herói, mesmo que esquecido pela História, como tantos outros que, anonimamente, construíram as páginas mais brilhantes da nossa história.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Memórias das Minha Putas Tristes - Gabriel Garcia Marquez

Com as suas singelas 105 páginas, este livrinho lê-se facilmente em poucas horas. Uma leitura leve, divertida mas nada fútil. O início a obra é, no entanto, propositadamente enganador, de forma a quase assustar o leitor perante o choque destas palavras: “No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. O choque é brutal mas passageiro; na mente do leitor paira o espectro da pedofilia e, por um momento, duvidamos da sanidade mental do autor. Mas, à medida que as páginas vão evoluindo, vamo-nos a percebendo que a prosa se transforma num belo poema sobre a vida. Uma reflexão aligeirada pelo prazer de viver mas sempre humana, sempre profundamente humana! Aos noventa anos, o narrador, escritor e jornalista de profissão, nunca tinha tido sexo sem pagar. Mas o momento de maior loucura, já mergulhado na velhice, é o momento do amor. Pela primeira vez na sua vida, aprende a amar. Mas um amor singelo, puro, sem sexo nem qualquer espécie de despudor. Pela prmeira vez, ele é feliz. Esta “aparição” é o motivo para uma reflexão profunda sobre o sentido da vida. Os obstáculos imensos que se interpõem entre ele e a sua jovem amada poderiam, à partida, contribuir para um tom negro e pessimista do livro. Mas não; todo o enredo tem a ver com a alegria de viver, com o prazer de estar vivo e usufruir do mundo. Ao longo da reflexão que o narrador faz sobre a sua vida prestes a terminar, não há um lamento, não há um arrependimento, como se tudo o que acontece tenha a marca da inevitabilidade, mas sempre num sentido positivo, de gratidão perante o destino. Tudo é celebrado, nada é lamentado.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Limpeza de Sangue - Arturo Pérez Reverte

Aí está um verdadeiro romance de capa-e-espada! Admirador indefectível de Alexandre Dumas, Reverte presenteia-nos com um livro de aventuras bem refrescante, divertido e emocionante. A época histórica escolhida é bem marcante para nós, portugueses; é a época de Filipe IV, o terceiro de Portugal, de quem nos livramos em 1 de Dezembro de 1640. O enredo passa-se em 1621, quando Filipe IV era um jovem rei sem “mão” para governar um país dominado por interesses e intrigas, onde pontificava a terrível Inquisição e o nosso conhecido conde duque de Olivares, um fidalgo talvez mais poderoso que o próprio rei mas preocupado, acima de tudo, em sugar as finanças portuguesas para financiar as guerras na Flandres e Holanda. O livro é o segundo de uma trilogia que descreve as aventuras do capitão Alatriste (referência ao incontornável Cervantes) com o pano de fundo na terrível guerra da Flandres, onde combatiam as tropas de Filipe IV e onde o nosso capitão viveu batalhas terríveis. Esta obra não é uma obra-prima. Não tem “fôlego” para isso. Nem tinha que ter. O seu propósito não é afirmar as grandes qualidades de Reverte, já confirmadas noutras obras, mas sim o de divulgar uma época fantástica da história de Espanha, em que este país dominava o mundo. Estávamos no período áureo do Império Espanhol. Ao mesmo tempo, pretende-se mostrar que há determinados males que não são de hoje: a corrupção, a tendência para uma religiosidade falsa como Judas, a corrosão do poder político e os desmandos daqueles que se dizem a “elite”, mais virada para a aparência do que para a verdade. São fenómenos que permanecem mas têm raízes históricas muito bem explanadas por Reverte. Aliás, o grande mérito desta obra é o conhecimento profundo da realidade histórica que reverte revela. O fenómeno da Inquisição, por exemplo, é explanado com grande significado. O recurso a este tribunal tão desumano e hipócrita foi uma das razões para um certo atraso estrutural do sul (católico) da Europa, ao provocar a fuga de talentos e dinheiros para a Holanda, Inglaterra e outros países do Norte. Esta preocupação pelo “pano de fundo” leva o autor, muitas vezes a dar mais importância à “paisagem que ao retrato”; ou seja, a descrição da época por vezes ofuscando o próprio enredo, a história que pretende contar. Enfim, trata-se de um livro agradável, de fácil e rápida leitura, leve e simples. Um excelente exercício de divulgação histórica, bem apropriado para uma leitura de férias.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O Meu Mundo não é Deste Reino - João Melo

O Humanismo de Vitorino Nemésio, o cheiro da terra de Miguel Torga e o mundo fantástico de Garcia Marquez encontra uma síntese perfeita nesta obra de João de Melo. Como Nemésio, profundamente ligado às raízes açorianas, o autor lê e descreve com entusiasmo e envolvência o viver e o sofrer de gente miserável, à procura de asas para voar sobre outros mares mas sempre peada, agrilhoada por poderes temporais que a sugam e subjugam. Cabem neste domínio o padre Governo e o Regedor Guilherme José. Como em Torga, a terra comanda a gente. O crescer da sementeira é o viver das gentes; a respiração dos animais confunde-se com a das pessoas. A terra está por todo o lado, até no chão das casas. E há um Deus, um ser supremo que ninguém conhece a não ser por sombras medonhas como a do velho e egoísta padre Governo. Como em Garcia Marquez, o fantástico cresce ao longo da obra. Esta começa por referir, em tom quase historiográfico, o povoamento da Ilha de S. Miguel para terminar numa espécie de espiral de fantasia, com homens que comem e vomitam ratos, gentes esfomeadas que pilham cadáveres e um Messias que ressuscita dos mortos para anunciar a revolução. Começando por um título (um paratexto que logo avisa o leitor para o fantástico que envolverá a obra) até ao epílogo escrito em maiúsculas, a obra está povoada de uma linguagem à beira do barroco. Por vezes, o prazer de ler, de saborear a musicalidade das frases eleva o leitor acima do conteúdo, criando nós próprios um universo fantástico julgado impossível. Navegando entre um neo-realismo latente e um neo-barroco formal, João de Melo cria assim uma obra de arte completíssima, onde a forma complementa um discurso claro de revolta contra a opressão, contra uma fome que não é só de pão mas também de liberdade.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce

O Retrato do Artista Quando Jovem, é o primeiro romance de James Joyce. Stephen Dedalus é o herói da obra, alter ego do autor. Daí o seu carácter marcadamente autobiográfico. O nome atribuído ao herói, Dedalus, é uma referência óbvia ao mito helénico. Tal como o herói grego, também Stephen queria voar. Assim como Joyce. Os três procuraram sempre a libertação, por entre uma realidade mesquinha e atrofiadora. O livro relata a juventude de Stephen, passada entre realidade profundamente marcantes na personalidade de Dedalius/Joyce: o colégio de Jesuítas, com os seus métodos espartanos de ensino, a cidade de Dublin, suja e dominada pela eterna querela política face à dominação inglesa e uma família abastada mas que, gradualmente, cai na ruína. A perpétua luta pela independência da Irlanda obcecava os seus concidadãos. Mas Dedalus coloca-se para lá dessa realidade: “Quando a alma de um homem nasce neste país, lançam-lhe logo redes, para a impedir de voar. Fala-me de nacionalidade, de língua, de religião; eu vou tentar voar para lá dessas redes”. E mais adiante: “A Irlanda é uma porca velha que devora a sua ninhada”. Perante tudo isto, o jovem Dédalus anseia por voar mais alto. Procura nos poetas, vasculha em Aquino, refugia-se nas profundezas do saber, mergulha na lama de Dublin, entre poetas e prostitutas, submerge no mais profundo misticismo jesuítico mas nada lhe permite construir as suas asas de cera. O seu mundo seria outro. Mas, para lá chegar, foi preciso viver. É desta vida multifacetada e mortificada que Joyce dá conta, numa obre genial em termos estéticos. Ao longo do livro evolui uma escrita ao alcance apenas dos mais geniais dos escritores. A beleza das palavras, a melodia da narração, bem respeitada por esta tradução, eleva bem alto o génio deste escritor que cuidava os seus textos como se preciosidades fossem. E eram! O estilo é profundo, voltado para o interior, para as profundezas da alma. Os diálogos, curtos e raros servem apenas para espelhar a alma de Dedalus, usando o monólogo interior de forma quase sistemática e inovadora para a época. Por toda a obra é manifesta a inquietude de Joyce perante os dilemas mais profundos da vida e a função do pensamento religioso. Uma terrível guerra interior, travada entre a moral católica e a atracção da realidade mundana perpassa a mente de Stephen de forma impiedosa e marcante. No final dá-se o triunfo da vida; o triunfo de um mundo sobre o qual as asas de Dédalus hão-de pairar para sempre.

terça-feira, 26 de junho de 2007

O Estrangeiro - Albert Camus

Meursault é um homem normal; tão normal que, por isso, será condenado. Percorre a vida sentindo-a como ela é; enfrentando-a com honestidade, sem subterfúgios, sem alegrias fáceis nem dramas inventados. “Tanto me faz” é uma frase-lema de Meursault. A vida é o que é, nada vai ser alterado pela sua vontade. É esta a atitude de um homem normal. O mundo de Meursault não é feito de afectos; Salamano vive com um cão velho e lazarento que insulta metodicamente. Mas é o desaparecimento do cão que lhe desperta a emoção. Morreu a Meursault. Ele não chorou. A morte, afinal, é independente das vontades e dos afectos; tem vida própria e nada a poderá deter no cumprimento da sua obrigação para com os mortais. A mãe era mortal. Por isso não chorou e foi condenado. Raimundo realiza-se espancando as mulheres. Meursault mata o árabe quase com indiferença. A vida cumpria um traçado que ninguém, nem mesmo ele, poderia desviar. Não adiantava esconder a verdade nua e crua da realidade. Por isso não valia a pena esconder nada. Mas a verdade de Meursault ameaçava a sociedade! É que, afinal, há os outros! Aqueles para quem a vida não é aquilo que vemos e fazemos; aqueles para quem a vida é um jogo que se disputa entre adversários. E Meursault é um desses adversários: alguém que irá satisfazer a ânsia de dominação, o instinto de poder dos donos da justiça, essa construção humana destinada a legitimar as hierarquias. Meursault, o estrangeiro, descobrirá de forma dolorosa que o poder é de quem joga, não de quem vive. A justiça castigá-lo-á por não fingir. O fingimento, afinal, fazia parte do jogo. Meursault, afinal, devia ter chorado! Devia ter mostrado arrependimento! Devia ter fingido. Tinha sido esse o seu crime. Mas ele era um estrangeiro; um homem normal. Uma das maiores obras da grande literatura existencialista francesa, O Estrangeiro é um livro sobre a hipocrisia do ser humano que utiliza os sentimentos como forma de manipulação e de conquista do poder. É um grito de revolta contra uma sociedade que oprime aqueles que defendem a verdade até ao fim; de grande conteúdo filosófico, trata-se de um marco na literatura do século XX, sem deixar de ser uma história simples e acessível a qualquer leitor. Sem duvida, uma obra-prima da literatura universal.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

O Filho de Ester - Jean Sasson

O Filho de Ester é um livro contraditório: como testemunho histórico, é excelente. Como o romance cai no mais decepcionante esquema de novela passional, sem surpresas, sem grandes inovações e com um ritmo de escrita previsível. Mas esta obra vale sobretudo pela dimensão histórica, pela forma clara, embora nitidamente comprometida como envolve numa narrativa única as duas grandes catástrofes do século XX: a segunda guerra mundial, ou melhor, o Holocausto e o eterno conflito israelo-árabe. A acção decorre em várias “frentes”, correspondendo à história de três famílias. Assim, a acção desenrola-se em Paris, na comunidade judaica em França antes da 2ª Guerra Mundial, na comunidade judaica da Polónia, na Alemanha do pós guerra e, depois, percorrendo a segunda metade do século XX, na Palestina, em Israel e no Líbano. Ao logo de toda a obra, o rigor histórico não deixa de estar sempre presente. Mas o tom predominante do livro é um imenso melodrama que ilustra a barbárie nazi e as carnificinas que se desenrolam no médio oriente. A luta do povo palestiniano é encarada por Sasson de uma forma de justa resistência perante a ocupação israelita. Esta, por sua vez, é vista como uma consequência lógica da opressão de que os judeus foram vítimas ao longo da História e que culminaram com o Hocausto nazi. Trata-se, em suma, de uma obra bastante aconselhável a quem queira compreender melhor o conflito do médio oriente, escrita com bastante rigos, mas deixa muito a desejar em termos literários. Embora bem escrito e com um ritmo bastante aceitável, o enredo é sempre demasiado previsível.

sábado, 12 de maio de 2007

Clube Dumas - Arturo Pérez-Reverte

A surpresa, o imprevisto, o suspense, dão a este livro um tom policial que está longe de limitar a obra a essa dimensão. Na verdade trata-se de um misto de romance histórico, policial e romance clássico, muito inovador e complexo. No entanto, esta complexidade não deixa nunca que a narrativa se perca em emaranhados embaraçosos para o leitor, como tantas vezes acontece em escritores que procuram a complexidade como forma de, por si só, guindar a obra aos patamares mais elevados do sucesso. Trata-se de um enredo genialmente rico, onde a narrativa é sempre surpreendente e inovadora. A personagem principal, Lucas Corso é, logo à partida, um verdadeiro desafio à imaginação do leitor: um mercenário dos livros, um homem que procura fortuna na literatura, não através da escrita mas do livro como mercadoria, ou melhor, como preciosidade. Desta ideia de livro como tesouro artístico, Reverte inicia a narrativa num contexto típico de romance histórico: a missão de Corso é encontrar um livro queimado no século XVII juntamente com o seu impressor. A partir daí o Autor encaminha o leitor por um magnífico passeio pelas teias tenebrosas do santo Ofício, pelos caminhos tortuosos do comércio clandestino de livros e pelo mundo encantador dos amantes dos livros, aqueles para quem a vida só tem sentido entre estantes poeirentas. Este livro é, no fundo, um verdadeiro hino à arte de amar os livros. É o livro quem comanda o homem e determina a sua vida e a sua morte. Pelo meio podemos, com algum esforço, encontrar algo de menos genial nesta obra: há uma certa tendência para o cliché, ou seja, para a previsibilidade da aventura. Reverte segue, por vezes, caminhos aparentemente fáceis para prender a atenção do leitor. Mas não podemos esquecer nunca que a literatura também é diversão; e a arte também pode ser divertida. É nesse sentido que nos apresentado um herói que vive para os livros sem qualquer traço de erudição: ele é mais um malandro do que um erudito. Este aspecto dá um carácter mais leve ao enredo e o leitor que procura divertir-se coma leitura, agradece. Como nota negativa refira-se os numerosos erros de revisão nesta edição da D. Quixote.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

A Herança do Vazio - Kiran Desai

Antes de tudo, este livro é um brilhante testemunho da História da India no século XX, nascida de um passado brilhante mas vítima da opressão e exploração europeia. A Indía foi sucessivamente delapidada por Impérios europeus: primeiro os portugueses, depois os franceses e holendeses, finalmente os Ingleses, os senhores da Civilização e da opressão. Mais uma vez, o tema tantas vezes debatido e sempre tão actual: o choque de culturas. A acção decorre na Índia pós-colonial onde ainda se debate a contradição entre o paradigma civilizacional inglês e a prevalência de uma cultura ancestral identificada com as raízes religiosas e mentais mas que, ao mesmo tempo, envolve um quadro socio-económico arcaico. A pobreza está por todo o lado, justificando um misto de ódio e admiração pelos ingleses: ódio por parte daqueles que lhe atribuem a causa de todas as desgraças, admiração por parte daqueles que se encontram revoltados perante o conservadorismo da sociedade tradicional indiana. Trata-se da relação colonizador/colonizado por detrás da luta entre a tradição e uma modernidade tão atractiva como decepcionante. Mas há algo mais que isso: o conflito entre a pobreza e a riqueza, o dilema entre a tradição e a modernidade, o pôr em causa dessa mesma modernidade; a dúvida entre o aceite e o imposto. Por outro lado, o conflito político; o dilema daqueles que serviram um senhor que se revelou opressor. E a América, sempre a América como pano de fundo de uma esperança apenas aparente. A revolta perante um mundo de desilusão; a vida destruída entre conflitos que se impõem de um exterior vasto e devorador: os ingleses mas também a fabulosa América que inebria e corrói. A liberdade conquistada e o choque brutal com um país onde a liberdade, frágil construção humana, deixa germinar outras guerras. As minorias. Os nepaleses e o desejo de libertação. A violência no reino da tradição. Este é um livro sobre a solidão. Sobre almas que pendem sob os Himalaias, dependuradas num destino fabricado noutras paragens, por outras gentes. A civilização, admirada nos odiados ingleses avassala este mundo de personagens humildes e pobres. Sim, porque aqui, nesta Índia à procura de identidade, nem os ricos são ricos: todos sofrem, mesmo que de solidão. Fica a escrita brilhante tirada das profundezas da alma. Uma escrita sentida, cuidada e pessoal que elevam esta obra às fronteiras do obra-prima.

terça-feira, 1 de maio de 2007

O Perfume - Patrick Suskind

Livro polémico, alvo de ódios e paixões, “O perfume” é, a meu ver, uma obra-prima. O herói, ou melhor, o anti-herói, Jean-Baptiste Grenouille, vive em função do olfacto. O enredo decorre entre os anos de 1738 e 1767, respectivamente anos de nascimento e morte do herói-vilão que protagoniza a obra. Assim, a obra situa-se nos tempos conturbados da Revolução Francesa, em que a realidade social do Antigo Regime é brutalmente destruída, em nome da modernidade. É nesse ambiente de violência mas também de fervor que Grenouille caminha na sua cruzada contra o desprezo, contra um destino que o condenava por, simplesmente, ter nascido no meio do peixe podre. Toda a sua vida gira em torno desse sentido tão desprezado quanto misterioso. Detentor de um dom ou maldição, o cheiro é o seu guia. Sobressai nesta obra carácter infra-humano de Grenouille num tom de hipérbole por vezes exagerada, como se a fronteira entre o homem e o monstro fosse tão ténue que se tornasse irreconhecível. Ele é, assim descrito, uma figura surrealista, a fazer lembrar um quadro de Dali: distorcido pelo seu tempo mas, principalmente, pelo seu carácter. A sua sensibilidade odorífica contrasta, porém, com a ausência de odor próprio, por oposição a uma cidade que parece viver em função do olfacto: a podridão e a miséria das ruas, em contraste com o perfume da burguesia. Assim colocado entre os dois extremos, Grenouille é o anti-herói num mundo crivado de ódio. Inebriado pelo perfume feminino divaga entre a paixão e a violência, entre o amor e a morte. A ausência de odor leva-o a procurá-lo incessantemente. A procura do odor é a procura da sua própria identidade. Um livro violento e triste, que se lê com paixão mas também com revolta, perante uma cidade-luz descrita como a cidade do fedor e perante um personagem abjecto mas terrivelmente humano: porque Grenoille procura apenas a paz de espírito. A sua paz.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

O Lobo das Estepes - Hermann Hess

Profundamente auto-biográfica, esta obra revela todo o pensamento tortuosamente poético de Hesse. Numa síntese perfeita do seu misticismo oriental e da sua dimensão poética, Hesse constrói uma narrativa angustiada mas sentida, poética mas real, complexa mas terrivelmente bela. Harry Haller é o rosto da tristeza, o Lobo das Estepes, melancólico, perdido na vida, na busca permanente de um sentido que o faça compreender a existência. Sem destino definido, sem explicações a dar a si mesmo para a impossibilidade de compreender o mundo, Harry é um ser errante, dilacerado pela dúvida, pela desesperada necessidade de compreensão da alma e da busca da sua libertação. Recusa o mundo sem forças nem coragem para dele se demarcar. Anti-burguês, tortura-se porque não consegue demarcar-se de uma vivência burguesa, como que encarcerado no ambiente que o rodeia. No meio da tortura da vida, vai descobrindo que a dualidade do seu ser: o lobo que de vez em quando se torna burguês ou o ser emotivo que por vezes assume a racionalidade; o lobo ou o homem. Mas a sua angústia não se resolve com a constatação destes antagonismos; a pouco e pouco, no entanto, vai descobrindo que o ser humano não é duo mas múltiplo: ele não é a soma de dois “eus”, duas forças mais ou menos antagónicas que o ser humano por vezes parece ser. A sua personalidade é um campo de batalha entre muitas forças que por vezes se complementam outras se digladiam. Mas na maior parte das vezes estas faces do caleidoscópio revelam-se incompatíveis, causando angústia e desespero. Só enfrentando esta multiplicidade e assumindo estas múltiplas dimensões, o ser humano pode encontrar a felicidade. Tornar-se-á louco aos olhos do mundo; no entanto, feliz! A necessidade de auto-conhecimento, de compreensão profunda do ser e do sentido da vida avassala Harry até ao dia em que, no limiar da salutar e redentora loucura, descobre a verdadeira raiz da felicidade: o humor. Compreende o que consegues compreender e ri-te de tudo o resto, poderia ser uma espécie de lição a retirar deste livro. Daí a referência recorrente a Mozart: o exemplo da loucura saudável, do génio que ri daquilo que não compreende. Esta descoberta faz com que o final da obra seja surpreendente. A angústia, o medo, o desespero dão lugar ao hilariante mundo da loucura, das mil e uma faces da alma.

domingo, 3 de setembro de 2006

A Noite do Oráculo - Paul Auster

“A Noite do Oráculo” é, antes de mais, um extraordinário e genial exercício literário de Auster. Ele exprime com eloquência todo o génio deste escritor, um dos mais brilhantes da actualidade. Trata-se de um romance complexo mas de leitura muito agradável sobre a maior quimera da existência humana: a descoberta do sentido da vida. Histórias dentro de histórias, “A Noite do Oráculo” é uma obra literária que se insere no enredo de uma outra, sobre a vida de Nick, escritor, que por sua vez é uma criação Sydney Orr, o protagonista de Auster. Em primeira instância, trata-se de uma reflexão sobre o poder da literatura e sobre a interacção entre o escritor e o livro. As histórias, à medida que vão sendo criadas interpenetram-se e influenciam-se, confundindo o real e misturando-o com a ficção que verte da imaginação do escritor. As personagens vão sendo assim condicionadas pelos três planos em que a acção se desenrola, como se fossem três mundos diferentes mas que dependem uns dos outros. Assim, o tempo e lógica causa-consequência tornam-se relativos, perante a multiplicidade de tempos e de dimensões que Auster nos oferece. Na vida de Nick os acontecimentos inesperados sucedem-se, deixando sempre uma misteriosa ligação com o enredo do livro que vai escrevendo. Na sua mente a ficção parece determinar a realidade e não apenas o inverso, misturando assim de forma dramática a verdade e a imaginação. Por outro lado, esses acontecimentos surgem por acaso. Na obra de Auster parece ser determinante esta preocupação com o acaso. Como no filme “Magnólia” o autor parece querer dizer que os acasos, os acontecimentos aparentemente fortuitos são aqueles que, de facto, determinam o sentido da nossa vida. Mas trata-se também de uma obra sobre os sentimentos humanos: perdido no mundo imaginado do seu livro, Nick depara com o maior drama da sua vida: o amor duplo da sua esposa: por ele mas também pelo seu melhor amigo. O maior desafio de Nick é agora o perdão. A questão surge, dramática e real: até onde pode um ser humano perdoar?

sábado, 2 de setembro de 2006

O Amor nos Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez

Logo nas primeiras páginas revela-se a genial fantasia da literatura sul-americana: o doutor Juvenal Urbino descobriu que os sintomas do amor são idênticos aos da cólera asiática. Trata-se de uma obra bem ao jeito de Marquez: o humor e a leveza da escrita misturam-se de uma forma genial com um curioso desdém pela própria América Latina; as guerras civis que se sucedem, a miséria crónica das populações desprezadas por políticos corruptos, a destruição das florestas, vítimas de interesses económicos capitalistas. Por todo o lado reina a corrupção, os interesses egoístas, o desprezo pelos outros e a inveja. E, no meio de tudo isto, uma belíssima história de amor. Durante 51 anos, 9 meses e 4 dias, Florentino Ariza amou Fermina Danza à distância, sem qualquer contacto entre os dois. Um amor que só declarou no dia em que Femina enviuvou, aos 72 anos. Na sua juventude, Florentino comia pétalas de rosa e bebia frascos de água de colónia para se sentir perto de Fermina. Tocava violino para ela escolhendo o lugar da serenata conforme o rumo do vento para que ela o escutasse. Depois escrevia manifestos de embarque em rima, de tal maneira que até os documentos oficiais pareciam cartas de amor. Durante toda a vida entreteve a paixão com episódios de amor carnal, enganando a alma com a carne. Durante mais de cinquenta anos manteve aquela força vital que só um amor profundo pode dar ao ser humano, resistindo ao tempo mas também a um sofrimento atroz. O amor puro e insatisfeito de Florentino contrasta com as imposições da carne, expondo de forma sublime essa dualidade entre a carne e o sentimento que preenche de forma avassaladora a vida humana. O final do romance é, pela surpresa e sentido de humor um dos mais geniais da literatura contemporânea.

terça-feira, 18 de julho de 2006

Os Irmãos Karamazov - Fiodor Dostoievsky

“Os irmãos Karamazov” é talvez a grande obra-prima do escritor russo. Para além de um enredo riquíssimo, esta obra revela a grande capacidade de análise psicológica dos personagens, que é característica essencial de Dostoievsky. Esta edição divide-se em 2 volumes. O primeiro, mais reflexivo, o segundo mais narrativo. Destaca-se a análise social e política da Rússia do seu tempo. Aliocha é a personagem principal do romance. No entanto, o próprio autor revela que este homem nada tem de herói, no sentido convencional do termo. Passa quase despercebido durante grande parte do enredo mas há uma chave para compreender a razão que levou Dostoievsky a colocá-lo como “herói”. É o único personagem que não julga ninguém. Aliocha “nunca desejaria julgar os homens e em caso algum seria capaz de os condenar.” É esta uma das grandes lições do mestre russo: a maioria dos homens cede sempre à tentação de julgar. Aliocha, pelo contrário, ouve, compreende e nunca faz juízos de valor sobre os outros. É assim uma espécie de guardião da sensatez perante as loucuras e paixões dos Karamazov. Um dos temas mais queridos a Dostoievsky é o papel da religião. Sendo um homem de fé, não deixa de criticar determinadas práticas da religião ortodoxa instituída. Defende uma religião essencialmente voltada para os mais desprotegidos, encarnada em Aliocha mas também no ancião Zossima. Uma visão social mas positiva da religião. É o próprio ancião que diz: “os homens foram criados para a felicidade, rejeitando assim as visões apocalípticas e a necessidade de sacrifícios para atingir o céu. O padre Ferapont, rival de Zossima, por exemplo, “vê maravilhas” graças ao intenso jejum a que se sujeita. Torna-se assim um mártir mas também um ser completamente desligado do mundo e absolutamente inútil. Um dos pontos mais fortes da obra de Dostoievsky é análise da alma russa, aqui representada pela família Karamazov. Estes, se caem no abismo “vão sempre de cabeça para baixo”. Sentem prazer na angústia, na tristeza. O homem é um mártir do destino. A vida é essencialmente sacrifício e dor. Mas é também sensualidade, vivida com excesso, com as fortes paixões da alma russa. Assim é Dmitri, que usa os outros como plataforma para a felicidade, à procura do excesso. Mas o seu espírito contraditório leva-o da sensualidade extrema à angústia: procura o prazer mas tem consciência das suas baixezas e vive-as como se fossem uma fatalidade. Mau grado o seu apurado espírito crítico, Dostoievsky nunca perde aquela enorme benevolência perante o ser humano, descobrindo sempre um fundo positivo, mesmo que se trate do detestável Fiodor ou do irascível Dmitri. Quanto à análise social, desenvolve uma perspectiva de simpatia para com os pobres realçando a sua honra e dignidade. Vítimas de injustiças e abusos, numa Rússia recém saída da servidão, os pobres são o refugo de uma estrutura económica e social caduca, onde prevalecem muitos dos privilégios do antigo regime. Mas o alvo preferido do escritor é a velha burguesia avarenta, representada por Fiodor. O pequeno Iliucha é aqui o símbolo da opressão feudal que ainda se sente na Rússia de Dostoievsky. Outra dimensão do pensamento de Dostoievsky tem a ver com a religião. Ivan, o ateu, diz: “é extraordinário que essa ideia da necessidade de Deus tenha surgido no espírito de um animal tão selvagem e perverso como é o homem. Dostoievsky não comunga do ateísmo de Ivan, mas compartilha com ele uma visão muito negativa da alma humana. Ao longo da obra coloca-se uma ênfase muito especial no sofrimento atroz de que são vítimas as crianças. E no meio de tanta dor, onde fica Deus? O ancião Zossima é o porta-voz de um pensamento religioso que Dostoievsky parece partilhar: Zossima revela uma visão optimista do mundo, um amor à humanidade que Dostoievsky parece partilhar. No entanto, essa benevolência é acompanhada de uma certa mágoa pelo destino, sempre negativo, sofredor, do ser humano. E o processo de Dmitri revela precisamente essa necessidade de expiação que envolve o ser humano. Perante a fraqueza da alma humana, a vida é uma constante expiação dos pecados e fraquezas. Daí a fatalidade do sofrimento humano. No meio de tudo isto, Aliocha aparece como o representante do ser virtuoso que, com resignação e um sorriso, enfrento o destino com benevolência. Daí o seu carácter solidário e bom. Dostoievsky compreendeu melhor do que ninguém a alma russa. Sofredora pelas condições materiais da existência mas facilmente entregue aos prazeres do mundo. Mas, ao mesmo tempo, sofredora pelo peso do remorso, pela necessidade de expiar essa mesma tendência para a devassidão. Desta forma é o próprio Dostoievsky que se confunde com a alma russa. Até o velho Fiodor, cúmulo da vida boémia, é perseguido pela consciência. Até Zossima, homem de paz, vive a expiar os pecados da juventude. A culpa está sempre presente. No fundo, todos os personagens da obra são uma mistura do bem e do mal, revelando ora uma ora outra destas facetas. Lisa é assumidamente má. O protótipo da maldade. Mas no fundo todos são maus. Catarina, que ama desesperadamente Dmitri é a mais importante testemunha de acusação e é ela quem mais contribui para a sua condenação. Mesmo insistindo na sua inocência, Dmitri aceita o castigo por necessidade de expiação.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Os Jardins da Luz - Amin Maalouf

No vale do Tigre, no reino dos Partos, no terceiro século depois de Cristo, vive Pattig, pai de Mani. Desprezando tudo e todos, incluindo a mulher o o filho recém-nascido, renuncia a tudo para se juntar a um grupo de eremitas, em nome de um Deus que não conhece, apenas vislumbra por intermédio de Sittai, o líder. Trata-se de uma obscura seita masculina que encara a religião como o afastamento total em relação ao mundo. Este afastamento é, no entanto, a origem e explicação da intolerância. Nesta comunidade o feminino é encarado como a origem do mal. Os bens materiais, pelo contrário, abundam: a comunidade possui os melhores campos de cultivo e acumula riqueza com o comércio dos frutos da terra. Ao mesmo tempo, o líder impõe um modo de vida regrado, onde se cultiva a frugalidade e mesmo o jejum. É a esta “religião” que Mani é “convertido” aos três anos, afastando-se da mãe. A crença libertadora aprisiona assim o ser humano. Retira-o do mundo para o enclausurar nos limites estritos da crença. O absurdo revela-se: onde está a libertação? Patting e Mani já não são escravos do mundo mas são escravizados por esse Deus que ninguém conhece. Nessa comunidade, Mani cresce rejeitado por todos, mesmo os que o “libertaram”. Aí vai preparando a sua verdadeira libertação. O seu primeiro seguidor é Malcos, um glutão com devaneios mundanos que só Mani compreende. Malcos é o pecador, aquele que recusa a “libertação”. As primeiras manifestações proféticas de Mani são-lhe sugeridas pelo seu “anjo”, cujas aparições marcam o início da sua saga. O ser sobrenatural, no entanto, mais não é que o “gémeo” de Mani, o seu outro “eu”, subjugado que tenta libertar-se. No reino dos eremitas, na comunidade dos “fatos-brancos”, Mani sobrevive graças à sua astúcia, à sua capacidade de viver um mundo interior que, esse sim, o liberta do mundo real. Na comunidade, os livros são quase proibidos, fonte de pecados e perigos para a religião instituída. Mani, pelo contrário, diverte-se com eles e pinta-os – suprema heresia! A religião de Mani começa a revelar-se a religião da alegria. Desafia os seus superiores e no dia da sua fuga usa, escandalosamente, roupas coloridas! A partir daí, Mani começa a divulgar aos desprotegidos a sua verdade. As suas ideias constituiriam aquilo a que hoje chamamos “maniqueísmo”: a doutrina da luz que triunfa sobre as trevas; do bem que em cada homem subjugará o mal. Luz e trevas, bem e mal residem no interior de cada homem. Cabe a cada um conduzir essa luta rumo ao triunfo da Luz. Mani prega, com escândalo, o fim das castas e a união de todas as religiões, de todos os homens. Mas essa viria a ser a razão da sua condenação: porque os homens não querem que lhes digam que a sua religião é verdadeira; preferem que lhes mostrem que as outras crenças estão erradas. Mani, o profeta médico que assim faz milagres humanos; o profeta pintor que pregou a beleza não defende um Deus todo-poderoso mas um Deus bom, que recusa a guerra e o poder. Mani, o homem que tentou conciliar os homens e por isso foi condenado. Por defender uma religião baseada na alegria, na cor, na musica, na arte, no saber, nos perfumes… na luz! Quando os Sassânidas e os romanos se decidem pela paz e não pela guerra, a corte do rei Sapor ficou indignada. Porque a guerra implica triunfo, glória e, principalmente tributos e saques. Sem guerra não há riqueza nem poder. Mani defendia a paz. Era preciso detê-lo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

As Intermitências da Morte - José Saramago

No contexto da obra de José Saramago, trata-se de um livro diferente. É um texto belíssimo, num estilo inconfundível, cheio de imaginação e humor. É brilhante a forma como, logo de início, o leitor é levado, com naturalidade, para o domínio do inverosímil, da fantasia pura. A morte é encarada como uma força viva e quase física. Desta ideia, Saramago parte um discurso cheio de peripécias fantasiosas mas sempre sem perderb a ligação com o real, com a vida. “As intermitências da morte” é, em parte, uma fábula – a morte assume características humanas, como uma entidade autónoma embora com todos os poderes que a confundem com um deus. Tudo começa quando a morte decide fazer greve e os cidadãos deixam de morrer. Neste ponto é genial a forma como Saramago põe em confronto a alegria do povo com as preocupações do governo. Só desta forma se reconhece a importância da morte e a sua função prática. Sem a morte a vida do país torna-se um caos; a Igreja, que controla o poder político e determina as ideologias dominantes, desespera. Porque sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há religião. Levadas as coisas às últimas consequências, sem a morte a religião perderia todo o seu poder, porque sem a morte não há medo. É essencial para o poder político e para a Igreja que o medo perdure. Mas a ausência da morte cria também problemas politico-sociais: “o que vamos fazer com os velhos”? – uma questão actual e polémica que Saramago introduz com mestria e a-propósito. Outra ideia interessante neste livro é a impensável lista de prejudicados com a greve da morte: agencias funerárias, hospitais, companhias de seguros, médicos, advogados, jornalistas, etc etc. Até os filósofos dependiam da morte; sem ela toda a especulação se torna impossível porque sem a morte não se pode procurar o sentido da vida. O povo, aos poucos vai sentindo o lado negro da greve da morte; afinal, multiplicam-se os problemas quando os entes queridos, mesmo em sofrimento, não morrem. Torna-se impossível suportar os moribundos. Os políticos e as máfias – numa amálgama inteligentemente criada por Saramago – definem estratégias concertadas para evitar escândalos, procurando manter “o rumo natural” das coisas, de forma discreta e politicamente correcta, perante a “moda” que entretanto se instalara: a de levar os moribundos a morrer do outro lado da fronteira. É uma incursão discreta de Saramago pelo tema da eutanásia. Aqui, fica bem clara uma crítica severa à forma como as estruturas políticas encaram os idosos – o matematismo mercantilista da Segurança Social, tema tão controverso como actual. Ao longo de todo o livro, um traço curioso é o discreto e inteligente sentido de humor com que Saramago aborda estes temas tão dramáticos. A parte final do livro é genial e surpreendente. A morte assume um rosto humano, feminino e irresistível. Mas só a música é capaz de a vencer. A música e o amor.