quarta-feira, 10 de abril de 2013

Manual de Pintura e Caligrafia - José Saramago




Sinopse
«Um apego ao concreto. Uma obra tida como ímpar no género da literatura autobiográfica. Depois de ter investido, durante 30 anos, na poesia e na crónica, José Saramago regressa às origens e recupera o romance, género com que tinha iniciado a sua carreira. Aos 55 anos, inicia nova vida literária, que o irá transformar no mais conhecido escritor português contemporâneo. Carta de ideias e rumos. Os muros de Caxias. Um pintor a retratar as vicissitudes do quotidiano. Sabe que nunca acabará o segundo quadro. ""O retrato está tão longe do fim quanto eu quiser, ou tão perto quanto eu decidir"". Saramago e o homem no tempo e nas circunstâncias, nas luzes e nas sombras. Saramago em viagem. ""Verifico que mais fácil me foi ir dizendo quem era do que afirmar hoje quem sou"". Saramago de inquietações e interrogações, de luta política. A última página deste romance regista a queda do regime.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Comentário:
1947, 1977, 1980 e 1982 são datas fulcrais da carreira do nosso grande Mestre. Em 1947 publicou o seu primeiro livro, Terra do Pecado para depois se eclipsar como escritor até 1977, ou seja, trinta anos depois. É nesse ano que ele, com 55 anos de idade (!) começa a sua verdadeira carreira literária, precisamente com este Manual de Pintura e Caligrafia. Dois anos depois publicará esse maravilhoso Levantado do Chão, um livro a que alguns chamaram romance rural mas que eu prefiro encarar como um dos expoentes máximos do romance neo-realista. Mais dois anos depois, em 1982 surge o monumento maior da literatura portuguesa: Memorial do Convento.
Este livro é portanto, um marco histórico. Não é o melhor livro de Saramago nem nunca poderia ser; nota-se a incipiência do estilo, até uma certa timidez na criação de situações ficcionais. Sendo uma obra autobiográfica, notam-se algumas hesitações na relação entre realidade e ficção. No entanto, muitas dessas hesitações refletem outra realidade mais profunda: a dificuldade filosófica de separação entre a realidade vivida e o universo ficcional do escritor. Este tema, aliás, tornar-se-á recorrente em toda a obra de Saramago.
O livro narra-nos o percurso de vida de um homem que, em plena ditadura fascista, decide substituir a pintura pela escrita; H. era um pintor medíocre (ou, pelo menos, banal) que, desiludido com a sua arte começa a escrever um livro. No entanto, ele não consegue separar o livro da sua própria vida. É todo o drama da relação (ou contradição?) da vida com arte que vem ao de cima.
No entanto, subsiste na mente do autor um conceito de arte que não passa de uma dimensão da vida, mas uma dimensão superior; algo que supera, que ultrapassa, a própria vida. Saramago cita-nos neste livro o grande artista que foi Paul Klee: “um quadro que tenha por tema um homem nu deve compor-se de maneira que seja respeitada não a anatomia do homem mas a do quadro”. Quer dizer: a arte justifica-se a si própria e a realidade será a tal imitação da arte a que já Oscar Wilde fazia referência. A pintura e a escrita de ficção afinal, descobre H./Saramago, têm tudo em comum; numa como noutra, a relação entre sujeito e objeto é comandada por uma interdependência permanente em que o enredo (quadro pintado ou romance escrito) altera a mente do artista e vice-versa. Esta temática será retomada mais tarde, de forma mais sistemática, no livro História do Cerco de Lisboa.
Um outro aspeto que me parece importante neste livro é a conceção proletária do artista, por oposição clara à burguesia capitalista, mais chegada ao regime salazarista que vigorava, mesmo após a morte do ditador. Neste sentido, trata-se de uma obra como uma forte dimensão política. No entanto, como podia Saramago, um homem que sempre lutou pela liberdade, fugir ao contexto político?

domingo, 7 de abril de 2013

O Evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago




Sinopse:
"É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indiretamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno ato de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reação das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém." (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Comentário:
Este livro tornou-se mais famoso pela sua “censura” do que pela sua real qualidade literária. Publicado em 1989 é uma enorme obra de arte, um exercício portentoso de criatividade artística, mas alguns pretenderam lê-lo e interpreta-lo como uma obra sobre religião. Trata-se do maior engodo em que pode cair um leitor desprevenido; no entanto, foi nesse engodo que caíram alguns políticos da época.
Foi em resultado dessa polémica que Saramago decidiu fixar residência em Espanha. É esta a atitude que muitas vezes Portugal adota em relação aos seus maiores génios: emigrem, dizem eles!
O aspeto que mais ressalta deste livro é a abordagem humana dos personagens; Jesus não é o filho de Deus; é visto, acima de tudo, como Homem, em todas as suas qualidades e fraquezas. Logo no início do livro, um pormenor paradigmático: quem visita o Jesus recém-nascido não são três reis com ouro, incenso e mirra; são três pobres pastores que oferecem leite, queijo e pão.
Os pobres e deserdados são as vítimas, mais que os eleitos ou os bem-aventurados; são os que choram por fora e por dentro; e às vezes o choro não tem remédio, é “aquele lume contínuo que queima as lágrimas antes que elas possam surgir e rolar pelas faces”. É a este sofrimento que Saramago presta homenagem num intenso poema cheio de humanidade.
Mas a leitura histórica de Saramago tem, por vezes, implicações bem atuais: a questão da luta pelo território, que tanto tem assolado a região da “Terra Santa” é constantemente questionada nesta análise. O povo de Israel matou e invadiu para conquistar a terra. Depois foi invadido. Antes, eram eles os estrangeiros. Agora quem são?
Em termos de religião, Saramago põe o dedo na ferida quando nos apresenta Deus como um ser castigador. Milhões de pessoas morreram em nome de Deus. Jesus foi apenas o primeiro de muitos. Jesus foi apenas um joguete nas mãos caprichosas de Deus. A culpa é o argumento de Deus; a culpa que se incentiva no homem, desde Adão. Mas a maior culpa que o homem carrega é a de se ter tornado um obstáculo à ação de Deus. Por isso o homem não pode ser livre. “O homem só é livre para ser castigado”.
Quanto a Jesus, o homem que viveu em pecado com Maria de Magdala, o homem que procurou contrariar Deus através da bondade, é esse Jesus cujo pensamento se aproxima de Saramago: o homem que diz, à revelia de Deus: “Se não dividires, não multiplicarás”.
Deus, pelo contrário, é apresentado como um aliado do Diabo: porque quanto maior for a glória de um, maior será a do outro.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

História do Cerco de Lisboa - José Saramago

Sinopse
"«Há muito que Raimundo Silva não entrava no castelo. Decidiu-se a ir lá. O autor conta a história de um narrador que conta uma história, entre o real e o imaginário, o passado e o presente, o sim e o não. Num velho prédio do bairro do Castelo, a luta entre o campeão angélico e o campeão demoníaco. Raimundo Silva quer ver a cidade. Os telhados. O Arco Triunfal da Rua Augusta, as ruínas do Carmo. Sobe à muralha do lado de São Vicente. Olha o Campo de Santa Clara. Ali assentou arraiais D. Afonso Henriques e os seus soldados. Raimundo Silva ""sabe por que se recusaram os cruzados a auxiliar os portugueses a cercar e a tomar a cidade, e vai voltar para casa para escrever a ""História do Cerco de Lisboa"". Uma obra em que um revisor lisboeta introduz a palavra ""não"" num texto do século XII sobre a conquista de Lisboa aos mouros pelos cruzados.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"
Comentário:
 
Sem que saiba explicar muito bem porquê, este foi um dos livros de Saramago que menos me apaixonou. Talvez devido a um vai vem constante entre o presente e o passado, entre a vida do escritor e o tema histórico em si. Mas não deixa de ser uma obra cheia de qualidade e de conteúdo.
Trata-se, no fundo, de duas estórias: a do revisor e escritor Raimundo e a de um cerco de Lisboa criado pela mente do escritor.
O primeiro ponto que ressalta deste livro é, ainda e sempre, a paixão de Saramago pela História de Portugal, a história de um país que o expulsou, por capricho de um subsecretário de Estado e por obscurantismo de muitos.
Outro aspeto fundamental do livro, este mais recorrente em Saramago, é a leitura da solidão. O revisor solitário, como solitários são os homens de outros livros de Saramago; a solidão, sempre a solidão…
O terceiro aspeto e, quanto a mim o mais importante é a abordagem da construção histórica como um ato subjetivo: o revisor Raimundo alterou a História; os cruzados NÃO ajudaram na conquista de Lisboa. No fundo, uma palavra, um simples Não pode ser um exercício radical de liberdade. A História torna-se numa estória. Mas, muito mais que isso, a ciência do passado torna-se uma leitura do presente; o ontem e o hoje que se misturam; o objetivo e o subjetivo que se diluem um no outro; o objeto e o sujeito num todo orgânico em que os dois elementos se influenciam mutuamente.
Ter escrito o Não foi uma fatalidade que determinou o seu destino – a obra passa a controlar o artista; a subjetividade deste vai-se misturando com a realidade; ator e autor confundem-se…
“Um homem que percebera que a distinção entre não e sim é o resultado duma operação mental que só temem vista a sobrevivência” às vezes um não altera uma vida inteira. Só 3 letras…
Aparte de tudo isto, fica, como sempre, a imensa capacidade de navegar na vida interior das personagens; o escalpelizar metódico dos sentimentos, das emoções e dos pensamentos. Cada personagem de Saramago é um mundo inteiro, que ele explora com perspicácia mas, acima de tudo, com uma imensa humanidade.
Ao nível da análise histórica sobressai a visão de uma guerra santa, em que as atrocidades se cometem em nome de Deus, os cristãos piores que os mouros. Trata-se de uma visão crítica da  guerra mas também de uma religiosidade hipócrita, que se submete a valores maiores como a importância do saque.
Ao longo de todo o livro, como sempre, a ironia de Saramago. Um guerreiro cristão em pleno cerco de Lisboa, tem a petulância de exigir a Afonso Henriques: “Ou me pagam pela tabela dos cruzados, ou não vou mais à guerra.” Luta de Classes em plena reconquista ou a comédia sarcástica de Saramago.
Com ou sem cruzados, a conquista da capital lá se fez. No entanto, a fome a que sujeitaram os mouros foi a arma dos cristãos. Também hoje se vencem os povos pela fome…

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O Homem Duplicado - José Saramago



Sinopse
Tertuliano Máximo Afonso, professor de História no ensino secundário, «vive só e aborrece-se», «esteve casado e não se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos motivos por que se separou», à cadeira de História «vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um começo sem fim».
Uma noite, em casa, ao rever um filme na televisão, «levantou-se da cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lhe permitia a visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pelos do corpo»...
Depois desta inesperada descoberta, de um homem exatamente igual a si, Tertuliano Máximo Afonso, o que vive só e se aborrece, parte à descoberta desse outro homem. A empolgante história dessa busca, as surpreendentes circunstâncias do encontro, o seu dramático desfecho, constituem o corpo deste novo romance de José Saramago.
O Homem Duplicado é sem dúvida um dos romances mais originais e mais fortes do autor de Memorial do Convento.

Comentário:
O Homem Duplicado é um dos livros mais surpreendentes de José Saramago. As primeiras páginas dificilmente deixam antever essa surpresa que o enredo nos reserva, tanto mais que, publicado em 2002, este romance parece, à primeira vista, limitar-se a seguir um certo trilho delineado por Saramago nos seus livros anteriores. Na verdade, este herói, Tertuliano Máximo Afonso, professor de história, parece seguir as pisadas de heróis anteriores, todos eles solitários de meia-idade: Cipriano Algor em A Caverna (2000), o Sr. José de Todos os Nomes (1997), ou o Revisor Raimundo, da História do Cerco de Lisboa (1989). No entanto, as semelhanças acabam aí. A imaginação na criação de um enredo fantástico faz deste livro um desafio à paciência do leitor, que não descansa enquanto não descobre como há de terminar uma história destas.
Tertuliano, professor de história solitário e dedicado, entretém os seus dias com a leitura de um livro sobre os assírios barbudos do século XII a.C. quando faz uma descoberta terrível: ao ver um filme com que tentava combater a solidão, descobre um ator secundário que é seu sósia. Mas tão sósia que nem a mãe os distinguiria. A vida de Tertuliano nunca mais será a mesma; a sua ambição será, de forma desesperada, encontrar o ator, o seu duplicado.
As peripécias em que se envolve tornam-se hilariantes e nem as mulheres dos duplicados escaparão às confusões destas duplas obras da criação.
No entanto, no meio deste enredo aparentemente apenas divertido, escondem-se temas bem profundos e muito queridos s Saramago, como a procura da identidade. Tertuliano descobre que apenas é a metade do seu ser. Tudo se passa como se o ator Daniel Santa-Clara (assim era o seu nome artístico) fosse outra metade que Tertuliano, afinal, descobre não possuir.
Solidão – imaginação –loucura. Onde estarão os limites? Tertuliano é um homem só. Nem o Senso Comum, com quem conversa regularmente, o acompanhará até ao fim na busca da sua identidade incerta; será esse o caminho para a loucura ou apenas para o reencontro com ele próprio?
Em suma, este é, em minha opinião, um livro fascinante. Um romance completo, onde não falta nenhum dos ingredientes com que são feitas as obras de génio: imaginação, diversão e uma visão profunda do ser humano.

domingo, 17 de março de 2013

A Caverna - José Saramago

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Sinopse:
A caverna é uma história de gente simples: um oleiro, um guarda, duas mulheres e um cão muito humano. Esses personagens circulam pelo Centro, um gigantesco monumento do consumo onde os moradores usam crachá, são vigiados por câmaras de vídeo e não podem abrir as janelas de casa.
É no Centro que trabalha o guarda Marçal. Era para o Centro que seu sogro, o oleiro Cipriano, vendia a louça de barro que fabricava artesanalmente na aldeota em que vive - agora, os clientes do Centro preferem pratos e jarros de plástico. Sem outro ofício na vida, Cipriano perde a razão de viver. E a convite do genro, muda-se para o Centro, essa verdadeira gruta onde milhares de pessoas se divertem, comem e trabalham sem verem a luz do sol e da lua.
Enquanto isso, em baixo dos diversos subsolos, os funcionários do Centro descobrem uma estranha caverna. Driblando a vigilância, Cipriano consegue entrar lá dentro. O que descobre é aterrador.
Nesta versão moderna do mito da caverna de Platão, José Saramago faz uma apresentação sutil da face cruel do mundo capitalista e tecnológico.
Comentário:
Este livro é mais uma prova da imensa capacidade de José Saramago para nos surpreender. Nada na sua obra de ficção se assemelha a A Caverna. Podemos dizer que há aqui alguns tons de neorrealismo que ele desenvolvera em Levantado do Chão. O ambiente rural e a exploração do trabalho pela dinâmica capitalista, são assuntos aqui revisitados. Mas os pontos de contacto com as obras anteriores a esta (2000) são muito poucas. A versatilidade de Saramago ficava a qui bem vincada.
Há, neste livro, uma referência clara à Caverna de Platão: os cadáveres que hão-de ser encontrados no final do livro “somos nós”; nós, os que apenas vemos sombras; nós, os que não passamos de espetadores impotentes perante aqueles que nos comandam como marionetes; nós, que moldamos o barro, que somos criadores, no fundo, não passamos de fantoches.
Os bonecos que Cipriano Algor, Marta e Marçal moldaram “somos nós”, também eles; são as criaturas que um Deus menor um dia houve por bem inventar e lançar aos leões. O resto são sombras; são mundos inacabados, sempre distantes, sempre inacessíveis a quem está condenado a apenas sobreviver. No entanto, por maior que seja a injustiça, todo o homem é um Deus. Pode ser apenas um deus menor, assim mesmo com letra minúscula; mas ao moldar o barro, a família Algor assume o sagrado.
E no fim há sempre a liberdade; a liberdade de penetrar bem fundo na Caverna; a liberdade de dizer não ao Centro Comercial ou a tudo o resto. E a liberdade maior, aquela que Cipriano encontrará em Isaura Estudiosa; a liberdade de amar.
Pelo meio fica a imensa caminhada do criador de bonecos e moldador de barro. Uma caminhada penosa, escondida, mas onde há sempre algo que nunca diz não. Algo que escapa à tirania do Centro comercial e de todos os desuses do mal: o cão. O Achado, que um dia deu luz à vida de Cipriano.
Enfim, estamos perante um livro cheio de poesia que reforça no leitor aquela ideia que há muito assimilou: que José Saramago é um homem único; um homem em quem a sensibilidade humana, a bondade, o sentido de solidariedade estarão sempre vivas, por mais milénios que continuemos limitados às sombras da Caverna de Platão.