quarta-feira, 27 de junho de 2012

No Calor dos Trópicos - Flávio Capuleto


Sinopse
“No luxuriante cenário do Brasil imperial, um cônsul português desafia as convenções e o destino."
A queda abrupta de produção de café no nordeste brasileiro estava a arrastar os fazendeiros para a derrocada financeira. Na tentativa de solucionar o problema da falta de remessas, o rei D. Luís convida o Dr. Bragança dando ao seu cortesão a oportunidade de ouro de escapar a uma eventual pena de prisão por crime de adultério. Mas como se o destino reservasse uma armadilha ao novo diplomata, a amante viaja para Petrópolis na companhia do marido continuando ali a sua relação escaldante com o cônsul. Alertado para a traição contínua de sua esposa, D. João frutuoso, o magnata mais poderoso do Reino, banqueiro da casa real e da Coroa Brasileira, prepara uma emboscada ao diplomata, não só para o afastar dos braços de Leonor, mas também para poder exercer livremente o seu poder sobre os negros da roça e a sua vocação esclavagista. Um golpe inesperado dita a sorte dos amantes envolvidos nas malhas do destino

Opinião:
Começo o meu comentário precisamente pelo aspeto menos agradável: a semelhança por vezes acentuada com o enredo de Equador, de Miguel Sousa Tavares. No entanto, a face negativa do meu comentário termina precisamente aqui e atrevo-me a dizer, já de seguida, que gostei mais deste livro do que do Equador.
A escrita de Flávio Capuleto é muito forte. Firme, por vezes dura, por vezes quente, mas sempre muito marcada, às vezes algo exagerada mesmo. Por exemplo, as cenas mais sensuais do livro por vezes ultrapassam o necessário; a meu ver, é claro. Outro exemplo flagrante é a descrição minuciosa e dramática da doença e morte do rei D. Luís: a cena é descrita com muita emoção mas também com um realismo assinalável.
O autor afirmou que a ideia do livro partiu de um guião para cinema; de facto, o tema escolhido é terrivelmente cinematográfico; o assunto é polémico: a resistência dos agricultores portugueses ao fim da escravatura no Brasil. A escravatura era ainda vista como uma condição essencial para o sucesso económico da colónia e o livro acaba por constituir uma homenagem a homens como José de Bragança que lutaram e até morreram pela libertação dos negros.
Embora se trate de um romance de ficção, o fundo da estória é real e retrata de forma muito pedagógica os reinados de dois grandes senhores: o rei português D. Luís, um homem moderno e bom e D. Pedro II, o segundo e último imperador do Brasil, responsável pelo fim da escravatura e pela modernização daquele Brasil herdado da tradição esclavagista portuguesa.
Em conclusão: trata-se de um livro interessante, que se lê com muita facilidade e com um lado pedagógico muito importante.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Governo Sombra - Casimiro Teixeira


Sinopse:
Um thriller de conspirações políticas que retrata as vidas paralelas de dois homens.
Um, desempregado, e com ambições de ser escritor, que desistiu da vida e da procura da felicidade, reencontrando-as ao receber uma estranha mensagem de uma amiga, que lhe encomenda a escrita de um livro sobre a sua vida, conduzindo-o numa viagem obsessiva por uma realidade ficcionada sobre um Portugal secreto e sinistro desconhecido por muitos.
O outro, um político empossado à força por um caciquismo familiar. Professor de história por paixão, torna-se secretário de estado por complacência dos interesses do falecido pai.
Vão ambos embarcar numa odisseia mirabolante de enganos e descobertas, na busca da confirmação da existência de uma ordem secreta, Os Alquimistas, cujo plano efetivo para o nosso país, consiste no controlo absoluto do seu governo, e no domínio total da vontade dos seus cidadãos.
De Nova Iorque a Bruxelas, e por diferentes locais em Portugal, um atroz destino os espera, nesta história implacável, que mistura passado e presente, cheia de suspense e completamente imprevisível.

Opinião:
Eis o primeiro romance sobre a tão famigerada crise. Este é o primeiro livro de ficção que aborda, a meu ver de forma direta e concreta a tão propalada crise que estamos vivendo.
E Casimiro Teixeira não está com “meias medidas”; vai direto ao assunto e acusa: a crise não á mais que a ponta de um iceberg que esconde um grande movimento “subterrâneo” capaz de por em causa a vida de todos nós; a crise não é um elemento conjuntural, é uma manifestação de movimentos de fundo, de um outo mundo que está a ser construído pelas altas esferas financeiras internacionais.
A ideia, no fundo, não é nova: é o pressuposto de um poder político subordinado ao poder económico, ou melhor, financeiro. No entanto, o que nos deixa perplexos, ao ler este livro, é a constatação de que tais mecanismos subvertem por completo os princípios básicos daquilo que consideramos “democracia”: é a afirmação definitiva da elite financeira como detentora de um poder maior, um poder de caráter ditatorial, que esmaga todos os princípios de liberdade individual, consagrados constitucionalmente pelo liberalismo contemporâneo.
As vidas individuais, a esfera privada dos personagens, submerge de forma fatal perante um poder monstruoso que emerge vitorioso, uma espécie de super estrutura capaz de esmagar o individualismo burguês que o próprio capitalismo triunfante havia alimentado e encorajado. O drama desta estória está precisamente nisto: a teoria neo-capitalista transforma em vítimas aqueles que seriam os personagens principais de uma história de sucesso: a história da burguesia capitalista saída das revoluções liberais do século XIX.
Casimiro Teixeira consegue neste livro construir um ambiente de mistério e suspense, uma atmosfera de incerteza que agarra o leitor até à última página. No entanto, este livro teria muito a ganhar com uma revisão eficaz do texto; as gralhas tipográficas prejudicam claramente a leitura.
Mesmo assim, considero este livro uma pedrada no charco da nova literatura portuguesa, que ainda não despertou para uma nova era deste país à beira mar plantado mas claramente desprezado pelo poder político e financeiro internacional. Nós, os portugueses comuns, continuamos afundados numa cegueira cómoda e passiva que urge desmascarar. Casimiro Teixeira deu o primeiro passo. Esse é o grande mérito deste livro.
Ressuscitando fantasmas vivos do passado fascista português, este livro não nos pode deixar indiferente; há forças subterrâneas no nosso mundo. Disso eu já não duvido. E cada dia que passa a realidade triste e sombria deste país dá razão a Casimiro Teixeira.
Enfim, trata-se de um livro que sem ser genial, é uma obra a ter em conta. E de leitura muito agradável.

sábado, 16 de junho de 2012

O Lugar das Coisas - Miguel Almeida


Se a arte imita a vida ou vice-versa
Na arte ou na vida
Quem imita o quê?
Talvez em síntese se possa resumir a vida na arte de saber viver. Quase assim se abre o livro.
Uma poesia feita dos dias; dos atos quotidianos, uns de rima fácil outros que teimam em escurecer a vida. Uma poesia feita dos dias e das noites, de suores e das lágrimas, dos risos e de explosões de prazer, embora serenamente, dos tesouros incontáveis. Do tudo e dos nadas que nos rodeiam.
Como uma flor, que nasce
No lixo, para crescer e florescer
Alimentada nestes espantalhamentos.
E dos dias se levantam por vezes, em explosão, excessos e loucuras, arrebatamentos de poeta, gente normal afinal, gente que percorre o tempo de nascer, viver e morrer, gente que nasce para se fazer pó da terra. Mas, pelo meio há o sol, o mar, o céu e a alegria. A poesia. A poesia que não tem dono, não tem rei nem senhor. A poesia que é liberdade, sonho e vida.
E o homem o poeta o artista o que cria;
…e nisso há poder. Há divindade, há a magia de fazer nascer, de fazer viver. De fazer poesia.
Mas, afinal de contas, triste ilusão, a vida assim cantada em verso não é mais que a alma só de um poeta; um grito ou talvez apenas uma voz suave de alguém… Alguém: um mundo no singular. Sobre quem o cientista berra: Subjetivo!!! No entanto o mundo é inteiro na alma de um só: o poeta. Daí advém o lamento de quem é julgado “difícil”… porque difícil é entender quão simples é a alma.
Fácil é afinal viver e deixar viver. Ler e deixar sentir. Pensar e deixar pensar. E sonhar, acima de tudo.
Livro de capa azul, O Lugar das Coisas é uma espécie de céu, altar em que se celebra a vida, o amor, o lado solar da existência. Nestes tempos sombrios de crise e medo, a poesia de Miguel Almeida emerge como um fio de luz brilhante, ofuscante, por sobre esta vida de autómatos que todos, mais ou menos, carregamos como um fardo. Miguel Almeida, desdizendo o poeta que finge, é o poeta que faz nascer a luz da esperança, de uma vida onde (ainda) há futuro (sonho).
Atrevo-me a afirmar que este é o livro mais pessoal de Miguel Almeida; mais pessoal e talvez mais pessoano; mas deixo essa questão para os que sabem de poesia. Eu, que não sei de poesia, achei estas rimas de extraordinária beleza; de uma musicalidade muito bem conseguida e, acima de tudo, de uma sensibilidade pessoal tocante.

Próximo comentário: Governo Sombra, de Casimiro Teixeira

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Até ao fim da Terra - David Grossman



Sinopse: Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem ouvir, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os "notificadores". Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, outrora o melhor amigo de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles.
Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana - uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz


Comentário:
As 681 páginas desta edição talvez afastem o leitor menos paciente. Mas a verdade é que este é um excelente livro. Está aqui, bem despida de adereços, toda a desgraça de um povo condenado à guerra e ao ódio; um povo que conquistou o seu espaço mas que o tem de disputar, sistematicamente, com outros povos, eles também condenados à desgraça.
A forma como Ofer se alista voluntariamente no exército levou a mãe, Ora, a questionar o patriotismo; o mesmo patriotismo que justificara a criação da nação hebraica. O ódio à guerra alia-se ao próprio ódio à nação. A expressão de Ora perante a participação dos filhos no exército é: o país “nacionalizou-me” os filhos.
Este livro é, acima de tudo, um intenso grito anti guerra; uma voz de protesto e de desespero perante a irracionalidade de uma história povoada de ódio.
Mais do que fugir da guerra e da possível morte do filho, é dos mensageiros da morte que Ora e Avram fogem. Sim, porque morte está sempre presente, por todos os lados.
Ao longo da leitura, o leitor sente-se frequentemente asfixiado por este ambiente sóbrio, feito de medo, feito de sangue e horror.
Para Ora, Avram, de quem se separara há muito, é uma espécie de filho que vem substituir Orfer. Ao longo da caminhada, o autor vai descrevendo o passado desta família despedaçada e de um curioso triângulo amoroso; o amor aparece aqui como uma espécie de oásis neste deserto de ódio; no entanto, nem mesmo o amor tem o aspeto de um jardim florido, antes de um jardim coberto de espinhos; um amor que nasceu e cresceu no terror das mais inimagináveis torturas e sacrifícios.
À medida que vai desfiando memórias, Avram descreve as torturas que sofrera na guerra de Yom Kipur. Memórias terríveis, de uma violência atroz, misturadas com sentimentos de culpa e arrependimento. Enfim, uma realidade onde o passado é doloroso e o futuro negro. Sobra um presente não menos feliz. As personagens como a nação: sem sentido, sem lógica, sem um raio de luz a não ser os laços de amor que os prendem uns aos outros.
Como no quadro de Picasso (Guernica) a guerra preenche todos os espaços. Nada existe fora da guerra.
Aqui não há heróis. Nem bons nem maus; os próprios árabes, inimigos ancestrais, não são vistos como “os maus da fita” mas como, também eles, vítimas do ódio e da violência.
Em conclusão, trata-se de um livro sombrio, triste, mas terrivelmente real. Uma estória que dói pela crueza da realidade que retrata; uma obra de ficção que brilha pelo retrato que faz de um sofrimento coletivo onde o pior de tudo é a falta de esperança: o final desilude como a realidade: não há fim à vista para a estupidez dos homens.

sábado, 9 de junho de 2012

Os Malaquias - Andréa del Fuego




Os Malaquias é um livro curioso. Com um aspeto gráfico original e atraente, com um formato aparentemente facilitador da leitura (capítulos curtos), depressa, no entanto, nos deixa presos à página, muitas vezes tendo de voltar atrás e reler, tal é a complexidade da escrita. À partida, o enredo é simples e claro. Mas a linguagem de Andrea del Fuego torna-se complexa devido ao excesso de sintetismo. Fica a ideia que autora quis cortar tudo o que fosse excessivo e acabou por nos deixar apenas um esqueleto da estória e pouco mais que isso.
No entanto, comecei este comentário pelo lado menos positivo do livro; porque as suas qualidades superam, a meu ver, em muito, estes eventuais defeitos.
Em primeiro lugar, fico com a sensação de que este livro é uma pedrada no charco da atual literatura brasileira ou mesmo na sua história. Do que me é dado conhecer, encaro a literatura do Brasil como essencialmente urbana. Desde Machado de Assis até à atualidade, os grandes escritores brasileiros afastam-se claramente do mundo rural. É a esse mundo rural que Andrea del Fuego se dirige neste livro; um mundo de pobreza, injustiças e, essencialmente, em conflito com a própria terra. De facto, não há aqui uma ideia de ligação à terra mas sim de afastamento, de conflito. As personagens do livro parecem fugir da terra; estão em constante viagem: depois da morte do casal Malaquias, atingido por um raio, os seus três filhos separam-se. O mais velho é adotado pelo proprietário do latifúndio, o do meio é adotado pelas freiras e ficará anão. A mais nova, Júlia, permanecerá em trânsito; ela simboliza essa fuga permanente que é a vida. No final do livro todos eles procurarão essa fuga; todos enveredarão por uma viagem de que não se conhece o destino mas que parece ser, ela própria, o destino final das personagens.
A vida é vista como uma viagem; “toda a gente que espera vem para o porto”, diz Eneido, o homem da caverna que espera o navio onde todos embarcarão; uma caverna de onde se podem ver as sombras da verdade, como em Platão, mas também a caverna de onde se partirá para a última viagem, que redimirá o mundo.
Voltando ao enquadramento de Del Fuego na literatura brasileira, podemos dizer, com algum arrojo que o seu estilo fará lembrar a linguagem crua e fria de J. Ubaldo Ribeiro em O Farol; no entanto, é dos Buendia de Garcia-Marquez que nos lembramos ao ler este livro, na tradição do realismo fantasioso e encantado da boa literatura sul-americana.
A linguagem de Del Fuego é profundamente poética e simbólica, com uma beleza por vezes arrasadora. Uma linguagem rural, popular e poética, com uma economia de palavras por vezes exagerada: “Nico a viu, e mais nada, o resto da noite…” é uma frase que exprime toda a poesia de um encontro fatal e, ao mesmo tempo, resumida de uma forma extrema.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A melhor leitura de Maio


O que o dia deve à noite - Yasmina Khadra

é, sem dúvida, um grande livro. Consegue aliar de forma perfeita a ficção à história. envolvendo o leitor numa intriga fascinante, um enredo em que os dilemas morais de qualquer ser humano se misturam com os maiores dramas históricos do último século, nomeadamente a segunda guerra mundial e as guerras coloniais.
Liberdade e tolerância não são conquistas do século XX nem da modernidade. Pura e simplesmente não são conquistas da Humanidade. Nunca o foram. Alguma vez o serão?

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Inverno do Nosso Descontentamento - John Steinbeck




O Inverno do Nosso Descontentamento é um título feliz, poético e bem adequado a esta obra. Trata-se de um dos últimos livros de John Steinbeck. Por este motivo é considerado por muitos como uma das obras mais “maduras” do grande escritor. Pessoalmente, acho mais adequado encarar este romance como uma obra em que o autor se desvia bastante das características básicas dos seus livros anteriores. Mas vamos mais devagar.
Este livro trata de um homem bom, como tantos personagens de Steinbeck. Um homem simples e bom, proveniente de uma família abastada de uma pequena cidade conservadora americana: New Baytown. No entanto, Ethan é o último herdeiro de um património misteriosamente perdido no tempo do seu pai e acaba por se tornar um modesto empregado de um avaro comerciante, proprietário de uma loja (Murillo), onde Ethan é o único e modesto funcionário.
Ao longo de todo o enredo, Ethan personifica a luta entre a moralidade do homem bom e a ambição de um enriquecimento que, aos poucos, se vai revelando incompatível com essa mesma moralidade. Até às últimas páginas do livro, mantém-se este dilema, assim como um outro: a identidade do personagem em confronto com a identidade da família, das suas raízes familiares.
Penso que aquilo a que os críticos chamam a maturidade literária do autor materializa-se neste livro mas de uma forma não obrigatoriamente positiva para o leitor; Steinbeck ganha neste livro uma intensidade reflexiva que não detetamos em Ratos e Homens, Tortilla Flat ou mesmo na sua obra prima, As Vinhas da Ira. Mas, pelo contrário, perde, a meu ver o que ele tem de mais extraordinário: a singeleza, a simplicidade, a humanidade das suas personagens. Aqui, Ethan tem alguns desses traços de humanidade típicos do autor, mas, lentamente, vai questionando toda essa humanidade, à medida que vai equacionando a hipótese de renunciar à honestidade para ceder à tentação do crime.
É sem dúvida, a obra mais reflexiva que li deste autor. Aquilo que ganha em profundidade psicológica perde, a meu ver, em ritmo narrativo. Mesmo assim, no final resiste a crença infinita de Steinbeck no ser humano. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O que o dia deve à noite - Yasmina Khadra



É um livro muito interessante; estamos perante uma daquelas obras que classificamos como muito boas mas que não ficam muito longe da linha que demarca a genialidade.
Tudo parte de uma aliança bem conseguida entre a realidade e a ficção; por outras palavras, entre a História e a Fantasia.
Estamos na terra de Camus: a Argélia colonial, ocupada pela França até 1962. O enredo acompanha o tempo de vida de um argelino de origem árabe nascido em 1927 e, portanto, ator e personagem dos dois grandes conflitos que marcaram esse martirizado país do Norte de África: a segunda guerra mundial, com a ocupação nazi e a guerra da independência. Younes (Jonas para os colonialistas e não-árabes em geral) é um jovem nascido na miséria que, depois de ser educado por um tio, consegue entrar no círculo social da elite colonial. Younes coloca-se assim entre dois mundos em conflito permanente e tudo se encaminha para o grande drama: o momento em que ele terá de tomar partido. Por um lado a voz do sangue: da comunidade árabe injustiçada e quase escravizada; por outro lado, a voz do progresso e da riqueza. Pelo meio, os amores de Younes, sempre marcados pela guerra, tanto a guerra politica como as diversas guerras sociais e étnicas que trespassavam aquele país.
A escrita de Khadra é, acima de tudo, de uma sensibilidade extraordinária. Ele escreve com uma delicadeza que nos comove com facilidade. É quase com ternura que o autor nos fala da voz da terra e do sangue que Younes ouve constantemente; e a voz da honra: Isra, o pai de Younes prefere a miséria à desonra de aceitar ajuda do irmão rico. Esta impossibilidade de saír da miséria sem perda da honra dá a todo o enredo um tom cinzento, sombrio, triste… belo mas triste.
Para estes árabes da Argélia, o mais difícil era arranjar uma razão para sobreviver… no entanto, no meio da miséria, há sempre algo a que um homem se agarra para ser feliz. Nem que seja uma canção ou um poema…
Por vezes, a escrita de Khadra assume tons verdadeiramente poéticos, tanto na forma como nas mensagens que transmite. Para além disso é um intenso grito contra a prepotência política que justificou o colonialismo; contra esta escravatura moderna que justifica a dominação com uma pretensa e ridícula superioridade civilizacional.
Um aspeto interessante é a forma como o autor demonstra a crescente atração do personagem principal pela violência, ele que era um profundo pacifista. De facto, perante determinados níveis de injustiça, a violência começa a encontrar justificações…
Em conclusão, penso tratar-se de um livro que merecia maior divulgação, de um autor que surpreende pela criatividade literária, com marcada influência de Albert Camus: em muitos aspetos , este Younes faz lembrar Mersault, de O Estrangeiro, principalmente pela sua personalidade algo difusa e incontornavelmente desenquadrado do meio em que vive…

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Queda - Albert Camus



Imagine-se sentado num café noturno, em Amesterdão. Um conterrâneo seu senta-se a seu lado e desata a falar. Fala, fala, fala… um longo monólogo. É esta a técnica narrativa de Camus neste romance. Um advogado, auto intitulado “juiz-penitente”, Jean-Baptiste Clamance é o único que fala. O outro, que nós nunca conhecemos limita-se a ouvir e desempenha o mesmo papel que o leitor: um ouvinte e nada mais.
Todo o discurso é tenso, por vezes divertido, outras vezes revoltado, mas sempre sentido e refletido. É um livro difícil, confesso; nem sempre é fácil ao leitor descobrir as ideias que Camus pretende transmitir. No entanto, algumas dessas ideias são suficientemente claras para que as possa inserir neste comentário:
Clamance é um hedonista; ele sobrevaloriza-se; considera-se um exemplar quase perfeito da humanidade. Chega mesmo a irritar o leitor, fazendo crer que toda a humanidade é má, é odiosa mas a sua pessoa é superior a tudo isso. Prepotente, Clamance/ Camus transforma o seu discurso uma verdadeira ofensa ao leitor que, como que manietado, se sente obrigado, apenas e só a continuar a ouvir / ler as sentenças superiores de Clamance.
Mas a parte final do livro, após “A Queda”, marca uma reviravolta que se torna algo dramática: é o reconhecimento do fracasso da solidariedade. E isto dói porque nos revemos em Clamance, o homem que ouviu o grito da mulher que caia mas nada fez porque fazia frio e chovia. Será esta a essência da humanidade? É esta, pelo menos, a essência de Clamance, em contraste com o homem brilhante com que se apresenta na primeira parte da obra.
Assim, as qualidades humanas enunciadas na primeira parte de nada velam; todos os valores morais não parecem ser mais do que motivos de vaidade. É a descrença total no ser humano…

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Xangô de Baker Street - Jô Soares



Jô Soares há muito que nos habituou a rir. Poucos como ele nos conseguem arrancar uma bela gargalhada. Ler este livro sem gargalhar é um desafio, eu diria insuperável
A ideia básica do livro é muito interessante: nos finais do século XIX cruzam-se no Brasil famosas personagens reais com outras de ficção mas já consagradas pela literatura: Sherlock Holmes e o seu inseparável Watson deslocam-se ao Brasil, por solicitação do Imperador D. Pedro II para investigar o estranho caso de um Stradivárius desaparecido e que o velho Rei tinha oferecido em segredo a uma das suas amantes. O pior é que o ladrão é também um horrível assassino de mulheres e Sherlock terá de desvendar todos os mistérios.
O enredo é enriquecido com a descrição do Rio de Janeiro daquela época, com as aventuras diletantes de um grupo de poetas de onde se destaca o famoso Olavo Bilac e uma célebre diva francesa, a atriz Sara Bernardt.
A eficácia do humor deste livro deve-se em grande parte ao contraste entre o british Sharlock Holmes e a aparência devassa dos brasileiros. No entanto não tardou muito que o detetive se rendesse à devassidão e acabasse por se render aos encantos do samba e até da canábis. Por outro lado, Sherlock vai-se revelando cada vez mais desastrado, caindo em situações ridículas… aliás, o humor de Jo Soares assenta, acima de tudo, no ridículo; na primeira fase do livro, o leitor é levado a pensar que o autor pretende ridicularizar os brasileiros, em contraste com os elementos estrangeiros. Mas não. Depressa se descobre que Jô Soares ridiculariza tudo e todos, desde um Rei decrépito, poetas devassos, uma atriz famosa mas de mau génio, um Inspetor de polícia quase demente e, acima de tudo, um Sherlock Holmes idiota e incompetente.
Se bem que salpicado por alguns clichés, é um livro que se lê com muito agrado. Não é uma obra prima nem pretendo sê-lo: creio que o autor apenas pretendeu escrever uma sátira divertida. E conseguiu-o. Deixando-nos com vontade de ver o filme com Joaquim de Almeida no papel de Sherlock Holmes e Maria de Medeiros como Sarah Bernardt.
Uma nota especial para o final: é absolutamente surpreendente e divertido.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cloning Adolf - Cristina Torrão (ebook gratuito)


Tal como havia feito Luís Novais, também Cristina Torrão resolveu presentear os seus leitoras com um livro colocado gratuitamente à disposição no seu blogue.
Cloning Adolf é um livro completamente diferente dos outros por si anteriormente publicados; é um livro hilariante.
A estória é simples e original: um grupo de fanáticos nazis, no século XXII rapta um cientista famoso para que este proceda à clonagem de Adolf Hitler a partir de “um carvãozinho” que viria a dar que falar: tratava-se de um pedaço do corpo carbonizado de Hitler em 1945. A parte de Hitler a partir da qual se constrói o clone é … os genitais J: humor torna-se hilariante.
O cientista, o Doutor Solari, com a sua bela e sensual (tinha que ser) assistente conseguem levar a bom porto o projeto ao mesmo tempo que desenvolvem uma paixão, como direi… explosiva.
No final deparamos com um  Hitler, digamos, muito fraquinho… um louco que pretendia eliminar as mulheres porque não podiam ter um bigodinho como o dele…
No meio dos fanáticos, como acontece em qualquer canto do mundo, também havia um português: o hilariante José Cebolo, um nazi que gostava de bom vinho e boas comidas (só um português podia curar as mazelas de Hitler com vinho tinto). Alguns dos outros fanáticos eram verdadeiros “cromos”, com nomes hilariantes, como era o caso do grande chefe Kornflock.
Os fanáticos deixam bem claro o simplismo do discurso radical: eles são contra os estrangeiros e mal se apercebem que, uns em relação a todos os outros, são estrangeiros; a total ignorância histórica é comum a todos os fanáticos.
Para lá do ridículo, mesmo com gargalhadas, este livro não deixa de nos fazer refletir: é impressionante a capacidade que o ser humano tem de renegar a sua própria personalidade, anular-se totalmente e cultivar a mais patética insanidade. Alguns dos personagens deste livro são exemplos perfeitos de seres humanos que perderam tudo quanto se possa considerar “vontade própria” ou personalidade. E essa “desconstrução” do ser humano é assustadoramente possível. Basta que se cultive a ignorância e a estupidez. Será a estória contada neste livro apenas uma comédia de ficção científica? Ou não estaremos nós perante, bem no centro do nosso mundo, alguns fenómenos de estupidificação crescente? Não caminhará o nosso mundo para a mais absurda estupidez? Receio bem que sim…
O livro está disponível aqui: 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Fenda - Doris Lessing


A Fenda é um livro profundo e complexo. Mais do que uma narrativa, é uma reflexão sobre a importância das relações entre homens e mulheres na origem e evolução da humanidade.
O enredo é narrado por um aristocrata romano do tempo de Nero.
A visão feminista de Lessing, de uma forma muito inteligente, começa por fazer uma ligação clara entre a mulher e a terra: a Fenda é uma referência à anatomia feminina mas também a um acidente geográfico do local onde vivia a comunidade: uma fenda sagrada, onde eram executados sacrifícios sagrados.
Uma comunidade primitiva, estranhamente composta apenas por mulheres dava à luz sem intervenção masculina. Todos os bebés assim gerados eram do sexo feminino. Até que um dia acontece o impensável: nasce um rapaz. Ou melhor, um Monstro, como lhe chamaram, devido a certas protuberâncias anatómicas que exibia. Essa anatomia levou a que os Monstros fossem também conhecidos pelos Esguichos. Estava quebrado o equilíbrio. Em breve se gerou uma nova comunidade, só de Esguichos e começa a odisseia das relações entre os dois grupos; uma relação que evoluirá entre o encantamento e a “guerra dos sexos”.
Esta visão mais ou menos histórica da origem da humanidade levar-nos-ia, pela lógica das cronologias, ao Paleolítico; no entanto, todas as pistas que Lessing nos deixa sobre essa cronologia, levam o leitor a situar o enredo nos primórdios da civilização grega. De facto, muitas das realidades descritas têm como referentes claros alguns aspetos da mitologia grega. Por exemplo:
- a época em que só as mulheres (Fendas) representavam a espécie humana é vista como uma espécie de “Idade do Ouro” primordial.
- as águias são encarregadas de transportar os rapazes para a comunidade masculina, logo que nasciam das Fendas. Este papel vai-se tornando, ao longo do livro, o de justiceiras, apelando sem dúvida para a águia do mito de Prometeu.
- A comunidade feminina faz lembrar o episódio da fuga para a ilha de Lesbos por parte das mulheres de Atenas.
- Os sacrifícios rituais e a morte dos bebés rapazes praticada pelas Fendas tradicionalistas faz referência à tradição de infanticídio nalgumas comunidades gregas primitivas, sendo a de Esparta a mais conhecida.
Globalmente, parece nítida a visão feminista desta obra. Pessoalmente, penso que Lessing vai muito além disso. O bucolismo e a ausência de um conceito de moral à maneira romana ou judaico-cristã colocam esta comunidade primitiva sob uma moral natural que contrasta claramente com o mundo vivenciado pelo narrador, um Romano que, ainda assim, considera a sua sociedade como “devassa”. Quer dizer, Lessing parece encarar a história da humanidade como um caminho desde essa moral natural até às formas mais modernas de moralismo.
As “Velhas Elas”, conservadoras, têm nessa comunidade um papel fundamental como elemento conservador da sociedade; no entanto o seu poder é claramente posto em causa pelas mulheres jovens e as relações mais abertas com a comunidade masculina acabam por triunfar.
Por outro lado, temos a importante questão do poder: depois de se tornar real a união entre as comunidades de homens e mulheres, o primeiro líder é um homem. E todos, incluindo as mulheres, aceitam o seu poder de uma forma natural. No entanto, por mais poder que esse homem tenha, ele vive atormentado por uma dúvida permanente: “o que vai ela pensar disto?”

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A melhor leitura de Abril

Desta vez foi muito difícil escolher a melhor leitura do mês.
O segundo volume de 1Q84 não me entusiasmou tanto como o primeiro mas, mesmo assim, é uma obra genial.
Embora sem ser uma obra de grande fôlego, O Milagre de São Francisco foi uma leitura deliciosa. Um livro singelo e de uma humanidade tremenda.
A Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza é um marco histórico na literatura espanhola. Um livro magnífico sobre o tempo mítico de uma cidade de Barcelona que, há pouco mais de 100 anos começava a lançar as bases da metrópole que hoje é.
E Gaibéus, de Alves Redol é talvez um dos maiores marcos dessa geração magnífica de escritores neo-realistas que marcaram o século XX português.
Dito isto, a escolha, embora difícil acaba por recair no grande mestre japonês:


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Aviso à navegação

Quando um crítico literário disser que um determinado livro é mau, avisem para eu comprar.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Milagre de São Francisco - John Steinbeck


Este livro é uma pérola. 


Numa edição muito pouco divulgada, saída há uns anos, restou nas profundezas mais remotas das minhas estantes este livrinho pequeno, pobre a abandonado. Em boa hora me veio parar às mãos porque foi uma das melhores surpresas dos últimos tempos. É um livro para sorrir, rir e deixar correr um rio de emoções.
Evidentemente, Jonh Steinbeck é um dos melhores escritores de todos os tempos. No entanto, a sua genialidade é reconhecida, acima de tudo, pela magnífica obra-prima que é As Vinhas da Ira e, um pouco mais em segundo plano, A Leste do Paraíso e Ratos e Homens. O que eu não imaginava sequer é que este livro, que foi o seu primeiro sucesso fosse uma obra tão bela. Tortilla Flatt no título original e “Boêmios Errantes” na tradução brasileira, é um livro singelo, simples e de uma beleza extraordinária, tanto ao nível do estilo como, principalmente, da mensagem que transmite.
É a história de um grupo de amigos, sem eira nem beira, heróis errantes que, viciados no vinho, procuram viver sem amarras, sem a escravatura do trabalho, do dinheiro ou do amor e de todas as outras coisas que nos aprisionam a todos nós, homens “normais” do mundo dito civilizado. Eles são vagabundos miseráveis aos olhos dos outros mas donos dos seus destinos.
Danny e os seus amigos são livres; nada os oprime; nada podem perder porque nada têm.
Acima de tudo, este livro é um verdadeiro hino à amizade. Vivem de pequenos roubos, que sempre se justificam moralmente, pois a desigualdade deixa sempre uma pequena margem para que se possa fazer justiça ao mesmo tempo que se garante a sobrevivência. Além disso há a solidariedade, essa palavra mágica que só os pobres e oprimidos entendem.
Steinbeck escreveu este livro em 1935, época em que o capitalismo esbarrava na triste realidade da grande depressão e as injustiças vinham todas ao de cima. Estes amigos de Danny contrariam toda a lógica do sistema capitalista: eles recusam o dinheiro (que só serve para comprar vinho e, mesmo assim, trocam-no muitas vezes por outros bens) e recusam mesmo o conceito universal de trabalho “honesto”. Esta conceção do trabalho foi sem dúvida buscada por Steinbeck nas ideias socialistas e encara o trabalho remunerado como uma forma de escravização ou alienação do ser humano. É por isso que os amigos de Danny só se realizam na liberdade de não trabalhar, não ganhar dinheiro, não pactuar com os ideais da sociedade burguesa.
É, enfim, um livro que se lê com um tremendo envolvimento emocional. É um livro que emociona e leva à lágrima fácil de quem se entregar de corpo e alma ao enredo, à vida destes homens aparentemente miseráveis mas que compreendem como ninguém o valor da vida humana, da dignidade e da amizade.
Um livro belíssimo.

domingo, 29 de abril de 2012

Clube de Leitura de Braga - 2º encontro

No próximo sábado, 5 de Maio, pelas 15 horas na Bertrand de Braga da Avenida da Liberdade, será discutido o livro de Doris Lessing, a Fenda.
Como sempre, a participação é livre e gratuita.
Comparece.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Os Crimes da Rua Morgue - Edgar Allan Poe



Este conto de Edgar Allan Poe é um marco histórico na literatura ocidental.
A estória de dois brutais assassinatos é narrada em tons de mistério, terror e fantástico. Escrito em 1841, é a primeira narrativa protagonizada pelo inspetor Dupin, consagrado na história da literatura como o principal percursor de Sherlock Holmes.
Edgar A. Poe é considerado o pai da literatura policial mas é muito mais que isso; é um dos melhores prosadores de sempre no que à ficção diz respeito. E este conto é crucial na afirmação da sua qualidade literária.
É difícil ler este conto sem nos virem à memória as narrativas de Conan Doyle e Agatha Christie. Mas também toda a literatura fantástica que hoje está tão na moda parece ter sido lançada por Poe; a intervenção de uma personagem infra humana, capaz de cometer atos “super humanos” é o principal elemento fantástico do conto. Em terceiro lugar, o conto é também pioneiro no que toca à ficção de terror; a forma como os cadáveres são encontrados, descritos de forma crua e fria, gerando no leitor uma sensação de terror nunca antes vista na literatura ocidental.
É por tudo isto que Poe é um pioneiro, um dos nomes maiores da literatura mundial. 

terça-feira, 24 de abril de 2012

ABRIL é esperança!


Não esqueçamos nunca que Abril é sinónimo de esperança!
Abril com maiúscula... Abril, o mês da primavera não cabe nas minúsculas de um qualquer acordo ortográfico.
Para os que teimam em fazer esquecer o que é inesquecível, para os saudosistas de um Portugal feito de ignorância, medo e miséria, aqui deixo um excerto de um poema do maior poeta de todos os tempos. Um poeta, também ele, da liberdade e da esperança!

"No entanto, há gente que acredita numa mudança, 
que tem posto em prática a mudança, 
que tem feito triunfar a mudança, 
que tem feito florescer a mudança 
Caramba! 
A primavera é inexorável! "
Pablo Neruda

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Polikuchka - Leon Tolstoi

Nota prévia: há uma edição recente que apresenta este livro com o título “Polikuchka, o Enforcado”. A edição que usei tem apenas o nome do personagem no título. Trata-se do número 30 da velhinha e saudosa coleção de Livros de Bolso da Europa América.
Bastava o facto de ter sido escrito por Tolstoi para que este livro merecesse ser lido com atenção. Se acrescentarmos o facto de ter sido escrito poucos meses antes do monumental Guerra e Paz, então esses motivos duplicam. Mas há mais; este livro, pequeno e simples, é um testemunho inequívoco da sensibilidade de Tolstoi para os problemas sociais. Ele ajuda-nos a compreender o próprio Guerra e Paz e permite-nos uma compreensão mais profunda da opinião de Tolstoi face à realidade socio-económica do seu tempo.
Recorde-se que a servidão tinha sido abolida pelo czar (salvo erro Alexandre III) mas essa decisão não era respeitada: os camponeses eram tratados quase como escravos, podendo mesmo ser vendidos juntamente com a terra.
As condições de vida destes servos eram, pois, miseráveis. Polikuchka é um servo que trabalha para uma grande proprietária que representa aqui aquele tipo de pessoa poderosa mas de bom coração que Tolstoi recuperaria em Guerra e Paz e que demonstra essa outra faceta da sua personalidade: uma crença genuína numa certa bondade humana, independente da condição económica da pessoa. Mas, mau grado o bom coração da Senhora, Polikuchka é um homem infeliz. Ele é vítima desse cancro da sociedade russa que é e sempre foi o vodka. Entre os camponeses, o álcool é uma fuga à servidão, à desumanidade do sistema social; assim, o pobre que não sucumbe perante a injustiça, acaba por sucumbir perante o álcool.
Mas, num determinado momento da sua vida, Polikuchka redime-se. Ele torna-se um homem honesto e trabalhador. No entanto, algo o trairá: o destino. Como se tivesse de haver sempre uma condenação: se não fosse o álcool era a guerra (para onde os camponeses eram recrutados), se não fosse a guerra era a fome, se não fosse nada disto era a fatalidade do destino.
E Polikuchka morre na desgraça. Como qualquer servo.
  

terça-feira, 17 de abril de 2012

A Cidade dos Prodígios - Eduardo Mendoza


Foi o primeiro sucesso deste excelente escritor catalão e foi também a primeira leitura que dele fiz. Devo dizer que me impressionou. E a literatura espanhola cada vez me entusiasma mais.
O enredo acompanha a cidade de Barcelona entre as duas  Exposições Universais aí realizadas: de 1888 e 1929. O protagonista desta estória, Onofre Bouvila, é uma espécie de anti-herói que sobrevive e depois enriquece numa espécie de vida em “contra mão”: a sua sorte é o azar dos outros. Toda a cidade de Barcelona acaba por ser vista também nessa perspetiva: uma cidade que enriqueceu com base na desgraça alheia, no sucesso de uma casta de patifes como Onofre Bouvila. A própria Grande Guerra ou a ditadura de Primo de Rivera são vistas em Barcelona como oportunidades de enriquecimento.
Ao longo do livro vamos assistindo também à afirmação do socialismo e do anarquismo como teorias da moda. Os malandrins de Barcelona, mais do que os operários e oprimidos, são o meio em que essas ideias ganham assento. Ao longo do livro vamos sorrindo com um sentido de humor alucinante: do sorriso discreto à gargalhada desabrida vão dois passos, num estilo original e muito fluido.
Aliás, é incrível a capacidade de Mendoza para fazer “parêntesis” de duas ou três páginas sem que o leitor perca o fio à meada.
A análise do contexto históricu é excelente: dá-se conta da origem da moderna Barcelona a partir da exposição universal de 1888, num olhar irónico sobre o sucesso de toda a sorte de malandros e rufiões; eles podem ser o coração de uma cidade, mais do que os políticos.
O início do século XX é sempre uma época de eleição para qualquer escritor tais são as novidades; uma das mais espetaculares é o cinema, que Onofre ajudou a levar até Barcelona.
Em 1923 dá-se o golpe fascista de Primo de Rivera; a ameaça do extremismo catalão foi uma das causas da insaturação da ditadura; é a cidade condal no centro da contestação.
Esta faceta rebelde da Catalunha é o âmago da obra: “Nós, os pobres, só temos uma alternativa, dizia de si para si, a honestidade e a humilhação ou a maldade e o remorso. Isto era o que pensava o homem mais rico de Espanha” (pg. 292)…
A Barcelona moderna surge com o genial Gaudi. No entanto, mesmo neste domínio, Mendoza não deixa de pintar a realidade com tons surreais, apresentando-nos o famoso arquiteto num estado de decadência e decrepitude.
Mas é a aviação que vem fornecer a vertigem dos novos tempos…
A exposição universal de 1929 era a oportunidade de afirmação de Primo de Rivera. Mas foi, pelo contrário um sinal de falência do sistema capitalista, quatro meses depois do crash da bolsa de Nova Iorque.
A Questão fundamental é esta: vale a pena lutar pela glória? Vale a pena pagar preços tão altos? A questão é posta por Onofre mas podia ter sido posta pela cidade… implícita nesta estória está uma crítica mordaz ao individualismo burgues.
Ao individualismo, Mendoza contrapõe a cidade; um povo que lutou sempre contra a hegemonia da capital e fez da Catalunha um estado autónomo; não se trata da afirmação da cidade em termos económicos nem urbanísticos, mas da cidade como comunidade, com a sua identidade rebelde mas inquebrantável.

sábado, 14 de abril de 2012

Gaibéus - Alves Redol


É um prazer enorme reler um livro destes, quase trinta anos depois de o ter feito pela primeira vez.
É isto o neo-realismo, estilo do qual Gaibéus é um dos maiores estandartes. Numa palavra, neo-realismo é a verdade. Nua e crua. As condições de vida e os dramas dos mais pobres, de uma população esquecida pelo poder político da época, que, aparentemente, se limitava a sobreviver. E digo “aparentemente” porque Gaibéus mostra-nos de forma clara uma alma enorme que ultrapassa as limitações da vida e das condições materiais da existência.
Alves Redol foi, sem dúvida, um dos maiores escritores portugueses do século XX; a sua escrita é límpida, clara, visual. A sua escrita foi uma voz de revolta, uma voz de denúncia mas também e acima de tudo, uma voz de solidariedade. A criação artística, brilhante aliás, aqui não é mais do que uma arma ao serviço da justiça social pela qual tanto lutaram os grandes escritores deste tempo (meados do século XX, em plena ditadura salazarista). Muito se tem escrito sobre as intenções políticas destes escritores (Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Carlos de Oliveira, etc.). No entanto, há aqui algo mais nobre do que a política e até do que a própria arte: a solidariedade. Se Redol foi comunista isso é o que menos interessa: foi um enorme escritor e um enorme ser humano.
Neste livro descrevem-se com invulgar sentimento as vidas dos camponeses sazonais nas lezírias, vítimas de exploração por parte dos grandes latifundiários da região; no entanto, a mensagem de Redol não vai apenas no sentido de acusar esses exploradores; ele faz nesta obra um apelo à única via possível para resolver o problema: a união entre os trabalhadores, tantas vezes impedida pelas rivalidades entre grupos. A união faz a força; a solidariedade é indispensável para combater a exploração por essa desunião convém a quem vive da exploração.
Fácil é concluir que um livro destes só pode ter sido uma bandeira de todos aqueles que sofreram com a ditadura. Independentemente da política partidária; isso pouco interessa. Gaibéus foi um dos livros mais importantes do século XX português.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Corpo de Mentiras - David Ignatius


O Corpo de Mentiras não é mais um livro de espionagem. Não deixa de ser verdade que se enreda nos habituais clichés: o triângulo amoroso entre o agente secreto, a esposa ciumenta e a amante boazinha e irresistível, os mauzões e os bonzinhos, o final apoteótico, os terríveis acidentes que atingem toda a gente exceto o herói, etc.
Mas não é um mau livro. Longe disso; a escrita é fácil, atrativa, muito agradável e Ignatius tem aquele raro dom de transformar as palavras em imagens. Não é por acaso que este livro foi adaptado ao cinema logo que foi publicado (ver aqui o filme no IMBD). 
No entanto, há algo mais neste enredo: a abordagem dos métodos usados pelos serviços secretos norte americanos e, especificamente, a estratégia de provocar atos terroristas no seu próprio terreno com a finalidade acusar outras nações ou grupos.
Houve mesmo muita gente que encarou seriamente a hipótese de o próprio 11 de Setembro ter sido provocado por americanos. David Ignatius apresenta-nos aqui um enredo em que tal estratégia é usada e explica-nos como é possível manipular totalmente a informação e a própria opinião pública; aqui tudo é controlado, inclusive a própria vida pessoal dos personagens; este é o segundo aspeto em que o livro nos traz algo de novo: a vida humana é completamente desprezada em função dos interesses do país.
Por detrás desta perspetiva crítica está latente um certo desencanto perante aos sinuosos processos seguidos pelos serviços secretos americanos. David Ignatius é jornalista há mais de vinte anos e quase sempre dedicado a questões de política internacional Possivelmente este emaranhado de processos pouco éticos constituem aquilo que Ignatius nunca pode revelar enquanto jornalista.
O desencanto de Ignatius em relação ao seu país está bem patente neste trecho do livro (fala o chefe dos serviços secretos jordano): “Graças a Deus que ainda têm amigos. Apesar de não saber bem porque é que ainda há alguém disposto a ajudar-vos, para lá do facto de serem tão ricos.”
Está de parabéns a Bertrand por esta edição. Um livro que é mais um exame de consciência sobre a hipocrisia americana.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

1Q84 vol.2 - Haruki Murakami


Continua a saga de Aomame e Tengo, em vidas separadas que se tocam a espaços, mas ambos vivendo num mundo paralelo, num ano de 1Q84 onde duas luas pairam sobre as suas vidas.
A vida, estranha, encantadoramente misteriosa destes personagens evolui neste segundo volume para dimensões mais místicas, numa atmosfera onde a fantasia vai cada vez mais predominando sobre a realidade concreta.
Portanto, neste volume parece que Murakami levantou mesmo os pés do chão e encaminhou a narrativa para o mistério e a fantasia.
O simbolismo de determinadas situações torna-se cada vez mais fascinante; por exemplo, a forma como a lua é abordada como tema simbólico: a lua foi sempre um alvo de fascínio e uma espécie de enigma permanente para a humanidade e assume nesta obra um papel fulcral como imagem da mudança e do mistério.
No entanto, as implicações das mensagens de Murakami são bem concretas; não se trata de um afastamento total do concreto mas apenas de um derivar para a metáfora que, por vezes, torna a leitura mais trabalhosa mas ao mesmo tempo mais bela. O trabalho de descodificação por parte do leitor faz deste segundo volume um livro menos lúdico, menos divertido e muito mais sério, tais são as implicações dos temas que aborda.
Por exemplo, para ir direto ao fulcro do livro: o mundo alternativo em que vivem Tengo e Aomame parece ser uma manifestação do fracasso dos paradigmas clássicos: nem o mundo capitalista nem o socialismo evitaram a cinzentismo e o sofrimento em que vive a humanidade. 1Q84 assume assim a dimensão escatológica do inevitável referente: 1984, o famoso romance de George Orwell. AO longo da obra vai crescendo uma atmosfera de nostalgia e até mesmo de desencanto perante o mundo; uma sensação de inevitabilidade da tristeza. É este desencanto que preside à necessidade de criação de mundos alternativos, a tal ponto que chega a ser impossível distinguir o real do imaginário (“-O que significa real? Perguntou Fuka-Eri.” – pág. 241).

quarta-feira, 4 de abril de 2012

SALGUEIRO MAIA - sempre - um HERÓI

Faz hoje 20 anos que morreu Salgueiro Maia. Por isso, hoje não escrevo sobre livros. Hoje escrevo sobre um homem que foi um livro; um livro aberto sobre democracia; sobre liberdade; sobre cidadania.
É com estes heróis que se faz a história de um povo; não de uma elite, de um qualquer Conselho da Revolução, ou de governos milagreiros e manhosos. História do POVO. História dos que sofreram, dos que atravessaram a fome da ditadura e a miséria da ignorância salazarenta!
História com H maiúsculo! História de gente humilde que se resumiu neste rosto, o rosto da esperança que hoje alguns teimam em destruir:

"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegamos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegamos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!" (Salgueiro Maia)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

A melhor leitura de Março - 1Q84 Vol. 1

Dos nove livros lidos em Março, o destaque vai para o grande mestre japonês: Murakami, com o primeiro volume de 1Q84


Uma das maiores qualidades deste escritor é a capacidade de criar enigmas. Elementos dispersos, misturados no enredo, dão um constante tom de suspense à obra, como se fossem os grãos de milho que, no conto infantil, indicam o caminho para casa. Em Murakami, esses grãos indicam o caminho do mistério; mas são colocados com esmero, com mil cuidados ao longo da narrativa para que o prazer de ler atinja os píncaros.
Tais enigmas emergem do enredo de uma forma tão natural que o leitor os integra na realidade da narrativa, como se a fantasia se tornasse real, como se o surreal se tornasse concreto. O mistério passa assim a ser abordado com uma naturalidade tal que a mente do leitor vai construindo um todo onde deixa de ser possível desligar a fantasia da realidade. É este o mundo misterioso e encantado de Murakami.

sábado, 31 de março de 2012

O Alquimista - Paulo Coelho


“Porque é que tens de pedir emprestado o martelo do vizinho se podes usar o teu” ou “porque tens de ir comprar um martelo se tens o teu na arrecadação” podem ser exemplos da moral a extrair deste livro. O pastor Santiago cansa-se da monotonia dos campos andaluzes e decide ir à procura do seu sonho, da sua Lenda Pessoal. Depois de consultar uma cigana e o "rei de Salém" identifica o seu tesouro pessoal junto das pirâmides do Egito. Para lá chegar, Santiago percorre o norte de África vivendo aventuras fabulosas. No final descobre que o tal tesouro estava na sua Andaluzia, bem debaixo do seu nariz.
Que me perdoem os fanáticos da autoajuda, mas eu não gostei deste livro. (Ops, eu próprio sou um fanático da autoajuda, ou melhor, de livros a que chamam “autoajuda”). Mas, como já escrevi várias vezes, não gosto de colocar etiquetas nos livros; não se trata aqui de desvalorizar ou desprezar um determinado estilo; trata-se apenas de dizer que, na minha opinião, este livro tem um enredo previsível e banal. É um daqueles livros em dos quais se pode dizer que “não se aprende nada” com a leitura. Bem, temos de relativizar isto porque O Alquimista foi escrito em 1988 e terá influenciado dezenas de livros posteriores, a maioria deles escritos por… Paulo Coelho.
Um outro motivo que me leva a relativizar a crítica a Paulo Coelho é o facto de a sua leitura ajudar, de facto, tanta gente. Se as pessoas se sentem bem lendo estes livros, se houve alguém que passou a viver melhor, se houve alguém que aliviou o seu sofrimento lendo Paulo Coelho, então já vale a pensa que os seus livros sejam divulgados.
Pessoalmente, penso que os livros de Augusto Cury são mais interessantes; talvez a escrita de Cury não seja tão poética como a de Coelho mas é seguramente muito mais rica.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Fúteis Madrigais - Rui Mateus


O grande mestre do surrealismo na pintura, Salvador Dali, afirmou uma vez algo como isto (cito de memória): a cultura do espírito deriva do desejo. Ou seja: muito do que criamos, muitas das construções mentais que efetuamos advêm do lado emocional do nosso ser e, portanto, são alheias à razão. É por concordar com este pressuposto que tenho um certo fascínio pelos artistas e pensadores surrealistas: nós não somos só inteligência.
Mas o surrealismo literário é talvez o mais difícil dos estilos. Escrever sem um rumo definido pela racionalidade e seguir um percurso ditado por impulsos estéticos mais do que pelas coordenadas da razão é um desafio perigoso. Também neste livro não há uma linha de rumo definida; há cerca de uma centena de curtas narrativas (a maioria delas podendo ser apelidadas de micronarrativas) sem um fio condutor entre elas a não ser a referência constante ao whisky duplo, fornecendo uma pequena dose de racionalidade (pouco consentânea com o tom geral da obra) ao subtítulo do livro: “devaneios do whisky duplo”.
Mas há, bem vistas as coisas, algo mais a unir estas pequenas narrativas: um tom marcadamente sombrio: amores infelizes, viagens goradas, sonhos diluídos e percursos interrompidos. Ao longo das estórias, o leitor vai-se apercebendo que a ausência de lógica acompanha uma confissão do autor: a também ausência de redenção no caminho desastroso do ser humano em busca desse lugar comum que é a felicidade.
A ausência de lógica, ou este primado da emoção destempera a vida. Desfaz o nó górdio do destino: não há redenção; há fogachos, esparsos, como os devaneios nascidos da ilusão do whisky duplo.
Chegado ao final, o leitor pede mais. Rui Mateus será capaz, certamente, de construir uma narrativa de maior folego onde este primado das emoções possa ser plasmado em vida corrida, não em vidas interrompidas, como acontece neste livro. Seja como for, fica o enorme mérito de mostrar que a vida nem sempre é razão nem é a inteligência que pode levar o ser humano ao caminho da felicidade, seja lá o que isso for. No entanto, talvez a vida seja mesmo assim: feita de estórias pequenas, de coisas que terminam mal começam, de cenas de múltiplas peças de teatro, misturadas sem um enredo, entrelaçadas sem que o ator principal possa sequer uni-las com o fio da razão ou mesmo dessa coisa banal e corrediça a que chamamos lógica.

terça-feira, 27 de março de 2012

Ensaio sobre a Lucidez - José Saramago


Este Ensaio sobre a Lucidez foi escrito na sequência do Ensaio sobre a Cegueira que deu origem a um belíssimo filme do Fernando Meireles. Aqui, ao contrário do ensaio anterior, o povo tem um súbito ataque de lucidez, atingindo 85 % de votos em branco numas eleições municipais, na capital do país, de forma absolutamente inexplicável.
A qualidade literária da escrita de Saramago é impressionante: a fluidez da escrita, a forma simples como nos descreve as situações, o finíssimo sentido de humor que nos “prega” o sorriso nos lábios, enfim, uma envolvência que nos faz agarrar o livro até ao fim, que nos deixa desiludidos sempre que temos de pôr o livro de lado, ainda que provisoriamente. O que pode haver de mais sublime num, livro está aqui bem presente: o prazer com que se lê.
Basicamente, este livro é uma crítica à democracia. O governo, estranhando uma votação maciça nos “brancos” resolve investigar. Ou melhor, espiar. A liberdade dos cidadãos vai assim sendo coartada; todos são suspeitos. Afinal de contas, pressupunha-se que o voto legitimasse o poder e alimentasse a “besta”. Mas assim não aconteceu. Num tempo em que não havia facebook, não foram necessárias SMS nem marchas de indignados; o povo, como que iluminado, manifestou assim o seu descontentamento.
Mas as coisas não podiam ficar assim. O primeiro ministro, aos poucos, foi aproveitando o fenómeno para apertar o cerco ao povo da capital. Declarou o estado de sítio, interrogou os cidadãos; recorreu a prisões; ameaçou, perseguiu, prendeu e não hesitou até chegar às medidas mais extremas. Tudo porque o povo não foi fiel.
Neste livro, ao contrário do anterior, a cegueira parece atingir apenas os homens do poder. Mesmo assim há exceções: o presidente da camara coloca-se do lado do seu povo e por ele sacrifica a sua carreira política. Mau grado o humor que se espalha por todo o livro, há um tom pessimista apenas quebrado por alguns momentos e este é um deles.
A tirania da democracia representativa vai crescendo ao longo do livro, atingindo píncaros quase apocalípticos. Alguns traços de esperança, de crença no futuro, manifestam-se na atitude de alguns personagens, como que reafirmando que, como diria Manuel Alegre, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. Mas o final do livro desmente qualquer visão positiva da realidade; afinal o povo resiste mas o poder persiste.

sábado, 24 de março de 2012

Pela estrada Fora - Jack Kerouac


Esta dimensão de contrapoder é algo que me fascina na literatura norte-americana, dimensão essa que podemos facilmente identificar em três momentos históricos bem definidos: antes da segunda guerra mundial, a famosa geração perdida que nos legou nomes como John Steinbeck, Scott Fitzgerald ou Ernest Emingway. Depois, após esse tremendo abalo que a humanidade sofreu, a Segunda Guerra Mundial, surge-nos esta geração Beat, ou Beatnik, um tremendo grito de revolta em que se insere Jack Kerouac, assim como outros nomes sonantes, tais como William Borroughs e Allen Ginsberg. E como terceiro episodio do contra poder literário americano, destaca-se na atualidade nomes tão geniais como Paul Auster e Phillip Roth.
Não há dúvidas que a literatura americana é verdadeiramente contestatária e este livro de Kerouac é um autêntico marco histórico no processo. Pela Estrada Fora transformou-se num verdadeiro hino da geração Beatnick pela forma despretensiosa, descontraída e rebelde com que o autor encarou a escrita.
Neste livro não há uma estória ou um enredo no sentido tradicional do termo; há uma descrição “ao correr da pena” de uma vida errante e fascinante, a de Dean Moriaty, o amigo que encaminha Sal, alter-ego do autor, pelas viagens loucas que empreendera pelos EUA e México no final dos anos quarenta.
Trata-se de um livro errante, sobre gente errante; gente que desacreditou do destino cor de rosa que o mundo do plano Marshall prometia. Se, por um lado, era de esperança o futuro de um mundo livre do pesadelo nazi e cheia de vontade de ver crescer o capitalismo triunfante, por outro lado, crescia a dúvida sobre uma sociedade cada vez mais alienada pelos valores materiais.
É neste contexto que o movimento Beat surgia como um grito de revolta, uma voz de liberdade pessoal mas nunca desprovida do sentido solidário que a vida moderna parecia querer desprezar. 
Por outro lado, o hedonismo como única via de resposta à alienação da sociedade capitalista; um hedonismo que, contraditoriamente, conduz à alienação pelas drogas e pelo álcool. No entanto, este hedonismo é também a expressão da liberdade e da honestidade perante a vida. Dean Moriaty conduz a alta velocidade, de troco nu: de peito aberto face ao futuro e à sociedade; mas toda a vida de Dean é conduzida, também, pela generosidade de uma vida em que o mal, o ódio e o egoísmo não existem.
São estes valores de liberdade e solidariedade que viriam a dar origem ao movimento Hippie. E Kerouac, com este livro, teve uma importante palavra a dizer no processo.
Enfim, um livro que se lê de forma agradável. Em que são descritas as viagens de Sal, Dean e seus amigos pelos EUA do pós-guerra, mas também viagens num outro sentido: pelos mundos alternativos da droga e do álcool como elementos de libertação. Um livro perturbador mas, acima de tudo, um grande marco histórico na literatura do século XX.
Curiosamente, anunciou-se há pouco tempo uma adaptação ao cinema deste livro: On de Road, no seu original. O filme promete, com a realização de Walter Salles, que fez um trabalho magnífico em Diários de Che Guevara.
Podem ver o trailler aqui:

quinta-feira, 15 de março de 2012

Crónica D'orelhudos - Luís Novais (livro gratuito)

Numa atitude inovadora e de enorme coragem, o Luís Novais publicou o seu livro mais recente na Internet, disponível para download gratuito, no seu blogue
O livro é excelente. Eu tive o privilégio de ler o original antes ainda da publicação e deixo aqui a minha apreciação:
Naquela aldeia não havia governantes porque deles nunca se precisou; até que da cidade veio a Grande Mula e prometeu riqueza; e aquele mundo dividiu-se em orelhudos (os da aldeia) e mulas (os da cidade). As mulas governariam; os orelhudos obedeceriam. E assim se fez para felicidade dos orelhudos e engorda das Mulas.


Este quarto livro de Luís Novais surpreende-nos com uma espécie de literatura fantástica, ou mais propriamente uma sofisticada fábula, fundada sobre a ironia e o escárnio, com grande riqueza de elementos simbólicos, como a magreza das mulas, a relação entre o poder das mulas e os seus adornos, o elemento religioso na figura do Grande Mula, etc., que conferem à narrativa um extraordinário poder crítico. Nada escapa à sátira que, a espaços, lembra Gil Vicente.
Por detrás disto está a falácia da nossa democracia: escolham entre nós, as Mulas! Vocês são livres; podem escolher um de nós! bem como a crítica ao capitalismo: o dinheiro criou o pobre.
Mas o dinheiro (o contado) teria que ser doseado para bem dos orelhudos, mal habituados ao gastar. Uma dieta de contado para acabar com os maus vícios dos orelhudos: assim falou a troika dos reis magos que vieram aconselhar a Mula governadora. Achei fabulosa esta referência à troika sob a forma de reis magos do Oriente. Do Oriente ou do Ocidente, o certo é que Portugal não seria o mesmo sem os Magos quem de vez em quando nos caem do céu. Ou do Inferno.
Mas, gradualmente, eram as mulas a engordar de tal sorte que nem os colarinhos brancos lhes duravam mais que uma semana. E mais uma metáfora: A União; metáfora da união europeia. Aliás, toda a linguagem do livro é metafórica, apelando para elementos simbólicos.
De repente as mulas surgem com uma excelente ideia, com o apoio dos três magos do Oriente: reduzir os pagamentos aos orelhudos que trabalham para a governação :) Nada como um belo plano de empobrecimento! trabalhar para o governo já é um privilégio, portanto é justo que se lhes corte no ordenado.
A mula sonhadora é a excepção: havia uma mula que pensa. Uma mula que pensa, sonha, fala, come e bebe. Uma mula do futuro. A excepção, a mula que a sociedade de mulas nunca admitirá...
Poucos livros se terão escrito com tamanha actualidade: mais um exemplo dessa actualidade: os cientistas vendem rifas a sortear um garrafão de vinho para financiar a investigação, uma vez que o governo deixou de o fazer. Não estaremos muito longe disso.
O empreendedorismo da Mula Sonhadora parece condenado ao fracasso, em terra de mulas pragmáticas :) Mulas do bloco central, diria eu… não se pode agitar as águas…
Alguns pormenores que revelam bem, a actualidade e o sentido crítico deste livro:
- O funcionário encarregado de ouvir as contestações… é surdo. Kafka no seu melhor.
- No entanto, o cientista ganha mais dinheiro jogando bilhar do que fazendo ciência.
- A burocracia com a sua dupla função: dificultar o acesso dos orelhudos aos seus direitos legais e justificar o poder. Kafka no seu melhor, segundo episódio. Mas é mais que isso: a burocracia é uma das principais estratégias para servir plano de empobrecimento.
- O cerne da questão. O problema não se resume à União; o problema existirá sempre, enquanto houver mulas e contado.
- Maria d’Arcada, metáfora da da Fonte, a mulher minhota não podia faltar na revolta dos orelhudos. E a padeira Brites- com mulheres assim não há mula que resista
- E o povo só voltou a ser povo quando queimou os barretes de orelhudos que lhe haviam enfiado.
- Che Guevara ou Vasques Colarinhos; profissão: revolucionário :)
- Um final com um delicioso toque do Padre António Vieira.
Enfim, um livro divertidissimo, actual, crítico e mesmo mordaz.
Ainda por cima... DE BORLA! (pode-se, no entanto, contribuir para as despesas do autor, nos moldes que ele descreve)
No blogue do autor:

segunda-feira, 12 de março de 2012

1Q84 vol.1 - Haruki Murakami


O maior critério para avaliar um livro é o prazer que a leitura proporciona. É por isso que adoro os livros de Murakami; dão-me um gozo tremendo. Ora este 1Q84, volume 1, está, na minha escala de prazer apenas um pouquinho abaixo do inesquecível Kafka À Beira Mar.
Uma das maiores qualidades deste escritor é a capacidade de criar enigmas. Elementos dispersos, misturados no enredo, dão um constante tom de suspense à obra, como se fossem os grãos de milho que, no conto infantil, indicam o caminho para casa. Em Murakami, esses grãos indicam o caminho do mistério; mas são colocados com esmero, com mil cuidados ao longo da narrativa para que o prazer de ler atinja os píncaros.
Tais enigmas emergem do enredo de uma forma tão natural que o leitor os integra na realidade da narrativa, como se a fantasia se tornasse real, como se o surreal se tornasse concreto. O mistério passa assim a ser abordado com uma naturalidade tal que a mente do leitor vai construindo um todo onde deixa de ser possível desligar a fantasia da realidade. É este o mundo misterioso e encantado de Murakami.
Nesta obra há um elemento de mistério acrescido: há duas estórias paralelas e o autor vai introduzindo ténues pontos de contacto entre as vidas de Aomame, a assassina e Tengo, o escritor. E os pontos de contacto vão crescendo, emergindo envoltos em mistério a partir de meados do livro.
Alguns personagens de Murakami são, aos olhos do leitor comum verdadeiramente excêntricos. No entanto é esta excentricidade que torna a obra tão peculiar: não é uma excentricidade irreal, não é apenas fantasia, é um comportamento peculiar mas explicável pelas regras da lógica. Para o leitor, estas personagens são como diz Aomame: “não me considero excêntrica. Sou apenas honesta comigo própria”. Talvez no mundo atual ser honesto seja sinónimo de excentricidade…
Um dos aspetos mais curiosos deste livro é um erotismo constante e latente. É o mundo dos sentidos na tradição oriental, perfeitamente integrado na vida. E, como sempre na obra de MUrakami, a música. É uma obra musical, a Sinfonietta de Janäcek a principal ponte entre as duas narrativas e o ponto fulcral do enredo.
Os comportamentos excêntricos, como os aparentemente estranhos assassinatos do Aomame são explicados numa linha freudiana – Murakami atribui ao passado dos personagens a responsabilidade pelas linhas de força que evidenciam nas suas vidas.
Neste livro, mais do que nos anteriores, Murakami deixa bem clara a sua visão crítica face à influência das religiões instituídas na vida das pessoas. Estas, ansiosas por compreender os grandes dilemas da vida e perdidas num mundo capitalista sem ética, cada vez mais oco de valores fundamentais, procuram explicações na religião. No entanto, como reconhecia o personagem de Steinbeck, a religião já não explica nada! E, pior ainda, alimenta-se precisamente dessa sede de compreensão. Nesse sentido, a história da humanidade parece ser um longo caminho para a cegueira total: daí o revivalismo do 1984 de G. Orwell. Talvez a solução seja, como diz Fuka-Eri, “caminhar por sítios afastados da estrada” como os habitantes da ilha Sacalina, que continuaram a usar os trilhos da floresta considerando inútil a estrada construída pelos “civilizados”…
Talvez todos nós precisemos de caminhar um pouco mais por fora da estrada…