Publicado originalmente em 1950, A lua e as fogueiras é o último e mais
bonito romance de Cesare Pavese. Neste romance, o personagem central
retorna rico à cidade de Santo Stefano Belbo, de onde partiu ainda jovem
para "fazer a América", pretendendo usufruir uma vida abastada. Não é
mais o rapaz obrigado a trabalhar nos campos, mas um homem maduro que
agora pode ser um patrão. Numa paisagem em que, aparentemente, nada
mudou, encontra tudo transformado.
in Skoob.com.br
Comentário:
Uma enorme surpresa, este livro. Depois da deceção que foi a
leitura de Andrea Camilleri, encontrei neste Cesare Pavese algo completamente
diferente.
Quando um homem não
conhece as suas raízes tudo perde o sentido. Enguia, o protagonista, é um
bastardo que nunca conheceu os pais. Enriqueceu mas o apelo da terra foi, no
entanto, maior. Mas as raízes perdidas, essas, nunca mais as encontrará…
Uma escrita profunda, sentida, poética, cheia de sentimento
e emoção. O próprio título, A Lua e as Fogueiras, encerra um simbolismo
tremendo, numa alusão ao universo rural e místico da Itália dos tempos da
ditadura fascista e das fogueiras da guerra que assolaram o nosso continente em
meados do século. A Lua, no seu esplendor místico, parece iluminar uma
escuridão que se entranha no espírito dos homens e da qual o próprio Pavese foi
vítima pois acabou por se suicidar poucos meses depois de ter terminado a
escrita deste livro.
A solidão de um bastardo no meio do mundo. “Enguia” regressa
à sua terra e, depois da solidão da América que o acolheu e onde enriqueceu,
apenas encontra as cinzas das fogueiras; nem memórias vivas, apenas fantasmas… Nuto,
o amigo é o que resta da guerra e da miséria. De resto, é a tristeza do
presente, os ódios do passado, o medo do futuro e a pobreza de sempre.
Mas a agente simples não é mais infeliz que ele, que
enriquecera. A miséria é também enganada pela alegria de quem nada tem a perder
nem a ganhar. As festas, as desgraças, a música, a morte... Tudo é vida, mesmo
sem futuro.
Desta vez trata-se de um caso
anómalo, em que o cadáver não aparece no início, e Montalbano não é o titular,
mas intromete-se. Demasiadas coincidências empurram-no. Investiga o
desaparecimento de um financeiro burlão, que levou o dinheiro de meia vila e arredores,
e mais tarde do seu ajudante. E a solução seria uma fuga banal, com o dinheiro
subtraído aos muitos patos da época da bolsa, ligada a um homicídio.
Mas, bastante mais carregada de horror pungente, surge uma solução lateral,
sobre cujo enigma Montalbano se debruça para ver, com a piedade que se sente
pelo drama silencioso de certas existências, enquanto um estranho cheiro «a
fruta podre, a coisas em putrefação» espalha, durante algum tempo, como que a
sua profecia na noite de Vigàta.
«Então sentiu que a noite tinha mudado de cheiro: era um cheiro leve, fresco,
era cheiro a erva nova, a cidreira, a hortelã.»
In wook.pt
Comentário:
Encetei a leitura deste livro por
ter lido algures que Andrea Camilleri é um dos autores mais lidos em Itália.
Mas depois de terminada a leitura, fico sem perceber porquê.
Trata-se de um enredo de cariz
policial, povoado de lugares comuns, de clichés estafados. Nada nesta obra
parece ser original ou minimamente criativo. O final é previsível e o desfecho
é desmontado sem qualquer emoção ou incerteza quanto ao final.
As aventuras do inspetor
Montalbano, na perseguição a um banal e previsível vigarista que extorqui
fortunas a velhinhas desprotegidas desenrolam-se de modo pastoso, lento, num
enredo pobre que se poderia resumir em meia dúzia de páginas.
O que se espera de um bom
policial é um enredo rico em pormenores significativos e uma emoção crescente.
Nada disse se encontra neste livro.
Uma deceção total. As referências
a William Faulkner são forçadas, descontextualizadas e constituem até um certo
abuso, tão grande é o abismo entre a escrita dos dois autores.
Alguns pontos positivos podem,
mesmo assim, encontrar-se neste livro: a caricatura das especulações bolsistas
e um sentido de humor que por vezes consegue fazer sorrir.
Sinopse:
As Pupilas do Senhor Reitor, romance de Júlio Dinis publicado pela primeira vez em 1866.
Nesta obra, os filhos do fazendeiro José das Dornas, Pedro e Daniel,
envolvem-se em disputas relativas a duas órfãs, Clara e Margarida,
entregues ao reitor da aldeia.
Daniel, ainda seminarista, apaixona-se por Margarida. O pai vê-se
forçado a enviá-lo para estudar medicina. Aquando do seu regresso à
aldeia interessa-se por Clara, então noiva de Pedro, colocando em causa o
bom nome da família.
Comentário:
Toda a imensa beleza deste livro assenta em dois pilares
essenciais: a limpidez da linguagem,
objetiva e cristalina e, por outro lado, um enredo construído com base num conhecimento profundo da bondade humana.
Os personagens de Júlio Dinis são pessoas do campo, pessoas simples e singelas
mas a sua caraterização evidencia uma crença enorme na bondade natural, numa
visão otimista do ser humano.
É claro que também não faltam aqui os personagens menos positivos:
as “beatas” maledicentes ou o comerciante interesseiro. Mas eles são,
claramente, as exceções que confirmam a regra.
Numa aldeia rural, algures no Minho, Clara e Margarida vivem
os seus amores num quadro idílico que nem as peripécias dos desencontros
amorosos conseguem ensombrar. José das Dornas, o pai dos rapazes (Pedro e Daniel)
é o lavrador abastado, fanfarrão mas sensível, poderoso mas cheio de bondade. O
Reitor, um velho abade seria hoje considerado um padre moderno: bem disposto,
alegre e tolerante.
Se, por um lado, este enredo demonstra a “veia” romântica do escritor, por outro não deixa de marcar já os alvores do realismo que viria a
marcar o nosso século XIX. É nítido o traço do romantismo literário ao centrar
o enredo nos dramas individuais das personagens, cujas vidas decorrem mais das
paixões do que da razão, assim como um certo tom idealista e onírico. Da mesma
forma, o culto da natureza e a inserção dos personagens num enquadramento natural
bucólico completam o quadro do romantismo literário de Júlio Dinis. Mas, por
outro lado, anuncia-se ali qualquer coisa que marcará o realismo nascente: a abordagem
cuidada do quotidiano, a crítica mais ou menos velada ao poder do preconceito e
uma certa abordagem no sentido da análise social da aldeia.
Teorias à parte, estamos perante uma obra de leitura muito agradável, que nos faz sorrir e sonhar com
esse Portugal em que a agricultura não era só o escape para os disparates que o
mundo moderno construiu…
A história do Chile da década de 20 aos anos 70 é contada através da saga
da família Trueba, que começa com a união de um homem simples (Jeremy
Irons), que fica rico, com uma jovem (Meryl Streep) de poderes
paranormais. A saga desenvolve-se até esta família ser atingida pela
revolução, que no início da década de 70 derrubou o presidente Salvador
Allende.
Comentário:
Na minha modesta
opinião, estamos perante uma das melhores obras da literatura mundial. O
fantástico envolvido numa ambiência humana; eis o segredo da magia de Allende.
Só talvez Garcia-Marquez, em Cem Anos de Solidão, tenha conseguido superar a
eficácia desta fórmula mágica.
Por todo o livro está espalhado o perfume mágico desta
humanidade sofrida, deste sentimento, desta ternura pelo ser humano na sua mais
pungente condição de vítima do destino ou da tirania de quem o controla. Os
personagens de Isabel Allende são seres de carne e osso que a magia da escrita
transforma ora em escravos das tiranias ora em magos da fantasia mais pueril,
fazendo da vida um sonho, único meio de escapar aos Pinochet’s que nos
ensombram a existência.
O fantástico é, na
melhor linha da literatura sul-americana, povoado de um humor refinado, por
vezes hilariante. A síntese entre a fantasia e o humor acaba por plasmar-se
em episódios de verdadeira mestria literária, como aquele velho Pedro que
afasta as formigas falando com elas, convidando-as a abandonar o local.
Um dos aspetos mais
curiosos e, ao mesmo tempo, mais geniais do livro é a forma como Isabel Allende
enquadra os personagens reais no trama ficcional: o Poeta, nunca nomeado, é
Pablo Neruda. Mas Allende nunca o revela; como se o seu nome fosse sagrado e,
se aqui exposto, se misturasse com o mundo banal dos mortais. Da mesma forma,
Salvador Allende, tio da autora, nunca é referido enquanto personagem
histórico, pelo mesmo motivo: os heróis verdadeiros, os que lutaram e morreram
pela liberdade e felicidade dos povos, estão acima de tudo isto; acima mesmo
das mais pungentes obras de arte como é este livro.
No entanto, é esta
ligação da ficção à realidade que reforça a magnitude deste livro; o leitor
sabe do que se está a falar. Ninguém é capaz de ler este livro sem lembrar as
atrocidades do regime de Pinochet; e só assim o leitor se apercebe da dimensão
do sofrimento daqueles personagens. Afinal, como diria Óscar Wilde, a realidade
imitou a ficção…
Esteban Trueba é um personagem criado por Isabel Allende de uma
forma absolutamente genial; mais do que o latifundiário conservador que
alimentou a tirania de Pinochet, ele representa o cidadão chileno que acabou
enganado pela ilusão do poder. Lá como cá. Então como em todos os tempos. Talvez
porque, como diria Saramago, o poder alimenta a cegueira. E toda uma família,
todo um povo, todo um país, acabaram por cair na escuridão de uma tirania que
roubou não só o alimento como a alma de uma nação.
Neste contexto, o fantástico é a fuga; os cabelos verdes de
Rosa e de Alba, as máquinas engenhosas do tio Marcos, as experiências
mediúnicas de Clara, tudo são fugas;
fugindo ao mundo real, ao mundo insano dos homens.
Se excluirmos Jaime, podemos dizer que todas as “cargas
positivas” do romance estão inscritas no universo feminino. É o elogio do poder
das mulheres, as que trabalham e sofrem em nome de todos. Elas são a força da
resistência, o poder superior. O próprio Jaime, o único personagem masculino
positivo na história, detém algo de feminino: delicado, romântico mas decidido;
possuído dessa força misteriosa que permite a sobrevivência dos grandes ideais;
ele será o mártir da vida.
Esteban Trueba, pelo contrário, encolhe enquanto envelhece:
todo o simbolismo de um poder decrépito, tenaz mas inumano. Ele é a imagem do
remorso; um homem cujos bons sentimentos são, também eles, assassinados pelo
poder.
O final do livro é
uma verdadeira obra de arte: a catástrofe anuncia um futuro radioso, como se a
destruição total fosse a única forma de renascer… a morte do Poeta é o anúncio
dos novos tempos, de uma esperança sempre renovada e escrita pela mão do povo.
O filme fica muito aquém do livro, o quie é natural, mas ainda assim é uma bela obra de arte, com um elenco fabuloso, incluido as minhas atrizes favoritas: Maryl Streep e Winnona Ryder: