terça-feira, 31 de julho de 2012

O Ouro do Rei - Arturo Pérez-Reverte



Sinopse:
Este é o livro número 4 das aventuras do Capitão Alatriste, figura criada por Arturo Perez-Reverte e que já vendeu mais de CINCO MILHÕES de exemplares!
De regresso a Espanha, (após a Conquista de Breda) o capitão Alatriste vê-se envolvido numa missão de vida ou de morte…
Sevilha, 1626. No seu regresso da Flandres, onde participaram no assédio e rendição de Breda, o capitão Alatriste e o jovem pajem Íñigo Balboa recebem a incumbência de recrutar um pitoresco grupo de bravos e espadachins, entre eles, Saramago, o Português, para uma missão perigosa, relacionada com o contrabando do ouro que os galeões espanhóis trazem das Índias. O submundo da turbulenta cidade andaluza, o Patio de los Naranjos, o calabouço real, as tabernas de Triana, os areais do Guadalquivir, são os cenários desta nova aventura, onde os protagonistas reencontrarão traições, lances e estocadas, na companhia de velhos amigos e de velhos inimigos.

Comentário:
A literatura espanhola passou já a ser, para mim, um mundo misterioso e de uma beleza artística extraordinária. No entanto, cada livro de Reverte já não é uma surpresa mas mais uma confirmação. Neste caso específico, trata-se de mais um episódio de uma série que Reverte escreveu na fase inicial da sua carreira, sem grande profundidade literária mas com um traço de génio que lhe permitiu vender mais de cinco milhões de exemplares em todo o mundo, em mais de 30 traduções.
Ler um destes livros é regressar à adolescência em que todos nós nos deixámos deleitar por livros e filmes de capa e espada. É deixarmo-nos levar pelo entusiasmo do picaresco, da emoção de um duelo, do encantamento dos espadachins a fazer lembrar os mosqueteiros de Dumas.
Mas este Capitão Alatriste tem algo de ainda mais interessante: um suave tom quixotesco, tanto no idealismo quase épico do herói como na tonalidade humorística com que todo o livro é polvilhado. Alatriste é herói e anti-herói, justiceiro e vilão. Esta dualidade deriva de uma outra, bem mais profunda que perpassa toda a obra literária de Reverte: o patriotismo bem latino em paralelo com uma tremenda dimensão crítica face à história de Espanha.
Na realidade, este génio espanhol da literatura não deixa nunca de apontar o dedo aos defeitos estruturais da alma espanhola, bem similar à portuguesa: apesar da vocação marítima, o governo sempre tendeu a desprezar aqueles que, de facto, revelavam talento, em favor dos seus protegidos. A corrupção não é, de facto, exclusivo de Portugal nem dos tempos atuais.
Por outro lado, o mal eterno da Espanha como de Portugal: “aquela riqueza acabou por ser aproveitada por todos menos pelos espanhóis: com a Coroa sempre endividada, gastava-se antes de receber.”
Mas não é pelas interpretações históricas que este livro nos deixa agarrados à leitura; é pela emoção, pela incerteza no desenlace.
A parte final do livro é verdadeiramente emocionante, com o assalto ao navio que pretendia desviar o ouro da coroa espanhola. É nesta fase que entra em cena um personagem português, o Saramago, que mais não é que uma belíssima homenagem de Reverte ao imortal José Saramago. Às vezes, de Espanha também veem bons ventos…
Em suma, não é uma obra-prima porque não é um livro que nos ofereça pontos de vista originais ou nos surpreenda de qualquer forma. Mas é uma leitura tão agradável como qualquer clássico de capa e espada. Penso que só isso já é suficiente para valer a pena percorrer esta primeira fase da escrita deste que é, em minha opinião, o melhor escritor espanhol da atualidade.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Sala de Vidro - Simon Mawer


Sinopse
Situada na Checoslováquia, no cimo de uma colina, a Casa Landauer é uma maravilha de aço, vidro e ónix, construída especialmente para os recém-casados Viktor e Liesel Landauer, um judeu e uma gentia. Mas a retidão resplandecente dos anos 30 que a casa, com a sua invulgar Sala de Vidro, parece emanar, rapidamente perde o brilho à medida que se congregam as nuvens de tempestade da II Guerra Mundial, e a família acaba por ter de partir, acompanhada pela amante de Viktor e a filha desta. 
Porém, a história da casa está longe de chegar ao fim e, à medida que esta vai passando de mão em mão, dos Checos para os Russos, o melhor e o pior da história da Europa Central é de certa forma encarnado e talvez encorajado pelas belas e austeras superfícies e pelos planos tão cuidadosamente concebidos, até que os eventos completam o círculo da narrativa


Comentário
Eis um livro surpreendente. A ideia, genial, é traspor para a escrita uma obra de arte arquitetónica. Por outras palavras: escrever um livro em que sejam expostas as características fundamentais na chamada Nova Arquitetura, que marcou os anos 20 e 30 da história da arte.
O resultado desta ideia é um livro brilhante.
A casa que dá origem ao livro é um exemplo típico da Nova Arquitetura, cujos expoentes máximos foram os arquitetos Le Corbusier e Frank Loyd Wright.
A casa é absolutamente geométrica. Traços ortogonais. Da mesma forma, o livro é traçado de uma forma simples, linear. É tempo de dizer que um grande livro pode ser simples e fácil de ler; um grande livro não tem de ser enigmático e cheio de arabescos como a arquitetura barroca. Um grande livro, como este (e como a casa) é belo por ser simples, sem nunca perder aquela dimensão simbólica que nos faz encará-lo como uma verdadeira obra de arte.
Logo nos primeiros capítulos fica claro que a enorme sala de vidro que preenche a zona mais importante da casa revela uma transparência que se estende do vidro à vida das personagens; assim como a casa se “vê por fora” também os personagens são visíveis mesmo nos aspetos mais íntimos das suas vidas. Como se nada nem ninguém pudesse esconder ou esconder-se.
Talvez nunca na história da literatura uma obra de ficção se assemelhasse tanto a uma obra de arquitetura; o livro lê-se como quem contempla aquela casa. Geometria e transparência. Vidro e páginas; linhas retas, ortogonais e páginas simples, vidas gizadas a régua e esquadro.
Com a invasão alemã (a ação decorre na atual República Checa) os nazis transformam a casa num laboratório científico. O autor, de forma bastante sagaz, coloca-nos perante a velha questão da ciência e da arte como paradigmas fundamentais da vida humana; os nazis, na sua ânsia de obter as coordenadas da raça perfeita apresentam-se em contraponto com a paz dos anos 30, em que a família Landauer encarou a casa como o exemplar perfeito da arte. A arte aparece assim associada à paz, à beleza, à felicidade e a ciência associada às necessidades e contexto da guerra.
Na fase final do livro a ação perde algum fulgor. O leitor fica com a sensação que o autor teve necessidade de abreviar o enredo, talvez pela dimensão que a obra já revelava. O pós-guerra é apresentado de uma forma algo abreviada, com uma incursão rápida até à época de ruina do sistema soviético, num ritmo narrativo completamente diferente da primeira parte do livro. Esta assimetria de tempos narrativos prejudica um pouco o livro, deixando o leitor algo desapontado pela forma quase precipitada como o autor caminha, apressado, para o desfecho.
Mesmo assim, estamos perante uma verdadeira obra de arte que nos leva a querer ler mais deste autor que, pessoalmente, desconhecia.

sábado, 28 de julho de 2012

D. Dinis de Cristina Torrão - opinião de Sara Barros

Se bem se lembram, o primeiro e único passatempo até agora realizado neste blogue ocorreu em Dezembro passado e saiu vencedora a nossa leitora Sara Barros. Vencido o passatempo e lido o livro, o Sara presenteou-nos com a sua opinião. Aí vai ela então, na íntegra:


Todos nós conhecemos algo sobre D. Dinis: que foi o sexto rei de Portugal casado como Isabel De Aragão, mais tarde tornada santa, que mandou plantar o célebre pinhal de Leiria ou que fundou a primeira universidade. Talvez alguns se recordem das Flores de verde pino, ou outras cantigas daquele que também ficou conhecido como o rei-poeta.
Tudo isto vem nos livros de história, juntamente com mais uns quantos factos e uma infindável lista de datas. Ora, Cristina Torrão dá-nos uma visão diferente deste monarca: ela tira-o do pedestal e atribui-lhe uma dimensão humana.

Esta é a principal qualidade do romance: a transformação das figuras históricas que todos conhecemos em pessoas, que até se assemelham a nós em certos momentos. Mais do que um rei, D. Dinis era um homem que além do governo da nação também tinha que se debater com problemas comuns…Assim, mais do que factos impessoais a autora dá especial destaque à esfera privada de D. Dinis: a relação conturbada com Isabel, tão ascética e tão pouco dada aos prazeres da vida, a relação com o irmão sempre a cobiçar-lhe o trono…
Uma verdadeira trama familiar descrita com grande sensibilidade. Alguns trechos são particularmente comoventes, por exemplo, o encontro de D. Dinis, ainda criança, com o seu avô Afonso X em Toledo ou a chegada de Isabel a Trancoso com apenas doze anos, mas de cabeça erguida “como se passeasse todos os dias pelo Castelo de Trancoso”.
Isabel desce também um pouco do pedestal de Santa é retratada como uma mulher que apesar de tentar suportar tudo com penitência também sente ciúmes e se enfurece, especialmente quando vê que o filho não recebe aquilo que lhe devido… Como qualquer mãe. Muito interessante a recriação do milagre das rosas: em frente a um grupo de mendigos Isabel pede que lhe cheguem o cesto do pão, mas por engano alguém lhe dá um cesto com rosas. Talvez mais credível que D. Dinis se ter postado em frente à rainha com um ar temível perguntando o que levava ela no regaço. O facto é que não existem bons e maus, como acontece na historiografia em que tudo parece muito linear (basta ver que na nossa história temos as rainhas “boas” e as rainhas “más”, por exemplo).
Neste romance temos pessoas com várias facetas que enfrentam situações mais ou menos tensas. Temos personagens com profundidade e perceber isto torna a leitura muito agradável.
Isto não quer dizer que a autora descure os factos, pelo contrário…Há bastantes pormenores históricos para serem assimilados, sobretudo no que toca à política. No entanto, a leitura nunca se torna maçuda. A autora consegue intercalar bem os momentos de decisão política com os momentos de fora mais pessoal. Da mesma forma há uma perfeita intercalação das várias facetas de D. Dinis: o lado de estratega com o lado boémio…As certezas com as dúvidas. Todos estes pormenores se tornam necessários para perceber o contexto em que o rei se move…Como tentar entender uma personagem se não se conhecer o contexto em que esta se insere? Assim, além de um retrato humano, Cristão Torrão fornece também um retrato de época marcado por  guerras, tratados que se quebram e voltam a fazer, caminhos diplomáticos tortuosos.
Em suma trata-se de um romance histórico onde o lado humano é o mais valorizado e por isso nos prende às suas páginas. Não estamos perante figuras distantes que sintam coisas que nos sejam desconhecidas. Estamos perante invejas, pequenos e grandes ódios, amores, traições…E quem não tem uma família que não dê dores de cabeça, nem que seja por uma vez?
É realmente gratificante ler num romance sobre a nossa história, tão rica em toda a espécie de episódios dos trágicos aos caricatos. Em especial quando se trata de um romance de grande qualidade como este.
Sara Barros

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Caminho de San Geovanni - Italo Calvino



Sinopse:
Os cinco textos reunidos neste livro fazem parte da série de "exercícios de memória" em que Italo Calvino trabalhava quando morreu. Escritos entre 1962 e 1977, são heterogêneos na forma e na intenção: podem ser descritivos, poéticos, reflexivos, críticos, constituindo narrativas de caráter fortemente espacial e visual. Longe da autocomplacência comum nos relatos autobiográficos, e mais do que narrar eventos e revelar fatos da história pessoal, são quase ensaios sobre o imaginário da infância e da adolescência do autor, ou sobre temas banais como o lixo doméstico. Mas em Italo Calvino nada é prosaico. Nada é trivial para esse escritor que inventou, a partir das imagens da infância em San Remo, um "lugar geométrico do eu" e, desse lugar, pôs-se a ver o mundo.

Comentário:
Esta não é, nem nunca pretendeu ser, uma das mais brilhantes obras de Italo Calvino; não tem nada a ver com a fantasia e criatividade de As Cidades Invisíveis, com a graça e delicadeza de Palomar nem muito menos com a genialidade poética de Se Numa Noite De Inverno Um Viajante… este é apenas um exercício de escrita que apelam às memória do autor.
Na contracapa desta edição da Teorema diz-se que se trata de um conjunto de “exercícios de memória”; eu diria antes que se trata de exercícios de escrita, sem qualquer ambição, sem qualquer intuito de criar uma obra de arte literária, tão só textos que parecem ter sido escritos para o próprio escritor, como uma espécie de devaneio literário.
No entanto, é precisamente nessa ingenuidade literária que reside o grande mérito destes escritos.
Trata-se de cinco textos que abordam temas absolutamente triviais. Que autor desprovido de génio teria construído sobre estes temas algo de literariamente belo? Nenhum! Só mesmo um génio como Calvino.
O primeiro texto fala-nos do caminho para a feira, que o autor trilhou com pai durante a sua meninice. O segundo debruça-se sobre os filmes que o autor viu na adolescência e juventude. O terceiro é o único conto que nos fala de algo que foge à referida trivialidade; descreve, de forma dramática e poética, uma batalha da segunda guerra mundial em que o autor participou. O quarto texto, o meu preferido, fala, imagine-se, dos sistemas de recolha de lixo doméstico em Paris! O último conto é um puro exercício de escrita sobre a relatividade do espaço e das formas; algo que fica a meio caminho entre o barroco da linguagem e o devaneio filosófico.
Enfim, um livro que se lê facilmente, sem grande interesse literário mas importante para quem quiser compreender um pouco melhor a biografia, as ideias e a carreira literária deste grande génio da literatura europeia. 

sábado, 21 de julho de 2012

A Confissão da Leoa - Mia Couto


Sinopse:
O enredo desenvolve-se numa aldeia do norte do Moçambique, onde se vive uma pobreza absoluta. Trata-se de uma das regiões mais pobres de África. Aí vive uma comunidade atacada pelos Leões. A jovem Mariamar e o caçador Arcanjo Baleiro são os personagens principais.
Um acontecimento real – as sucessivas mortes de pessoas provocadas por ataques de leões numa remota região do norte de Moçambique – é pretexto para Mia Couto escrever um surpreendente romance. Não tanto sobre leões e caçadas, mas sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas.
A Confissão da Leoa é bem um romance à altura de Terra Sonâmbula e Jesusalém, já conhecidos do leitor português.


Comentário:
A relação entre o homem e o mundo natural, as tradições nativas bem como o papel da mulher na comunidade africana são os temas que Mia Couto transporta para esta bela estória de ficção, onde se fala de uma mulher que é um monumento à alma africana: Mariamar.
Logo a primeira página deixa-nos extasiado com a poesia a que este autor já nos habituou: “Deus já foi mulher” é a frase de abertura do livro. Depois: “Nesse outro tempo, falávamos a mesma língua dos mares, da terra e dos céus. (…) Todos sabemos, por exemplo, que o Céu ainda não está acabado. São as mulheres que, desde há milénios, vão tecendo esse infinito véu. Quando os seus ventres se arredondam, uma porção de céu fica acrescentada.”
A linguagem poética de Mia Couto é, de facto, avassaladora e até os nomes dos personagens são reveladores: Arcanjo, por exemplo, é o nome do matador. Ou melhor, do caçador, porque caçar não é matar; é participar da natureza.
A mão de Mariamar (Anifa Assula) diz que a aldeia é um cemitério vivo para as mulheres. Por isso prefere fazer amor sozinha; é a única forma de vencer os homens. Este é o ponto de partida para uma crítica acérrima à relação entre e mulheres de que falarei adiante.
Quando Mariamar se encontra de frente com a feroz leoa que ataca a aldeia, diz a narradora (Mariamar): “a leoa saúda-me, com respeito de irmã”. É a identificação total, o cruzamento de destinos entre leoa e mulher. Aquela é a leoa assassina, perante a qual os homens, mesmo caçadores e guerreiros “todos se prostraram, escravos do medo, vencidos pela sua própria impotência.
Um aspeto interessante desta magnífica personagem, é que Mariamar sabe escrever, ao contrário de muitos dos outros habitantes da aldeia. Ela não aprendeu com os missionários mas sim com os bichos selvagens. Eles ensinaram com fábulas porque só eles sabem distinguir o bem e o mal. “foram os animais que começaram a fazer-me humana, afirma Mariamar.
A natureza do poder político perante a pobreza em África é outro tópico desenvolvido pelo autor. Quando o administrador chega à aldeia com o caçador de leões, um camponês questiona porque é que eles querem saber como morremos, se nunca quiseram saber como vivemos? Perante a fome e a miséria, pouco interessa à autoridade a vida deste povo…
O povo acredita que foi a guerra que chamou os leões. A guerra (ou a colonização) alterou o equilíbrio que havia entre homens e bichos. O pior é que terminada a guerra, a situação ainda piorou. Lamenta-se Genito: Aqui não há polícias, não há governo. E mesmo Deus só às vezes.
Algumas tradições locais são vistas por Mia Couto como sementes de violência – as mulheres exploradas, as crenças que resultam em autênticos crimes, um machismo aterrador que justifica até o incesto, etc. Tudo isto o homem branco não soube resolver, mas o homem negro também não.
E paulatinamente, o livro vai-se transformando numa crítica brutal aos costumes ancestrais do povo africano. Sem qualquer indício de racismo, note-se. Pelo contrário: com um imenso respeito pela cultura africana naquilo que ela representa de harmonia entre o homem e a natureza, sempre que a estupidez humana não a impede.
Mariamar, neste mundo miserável, injusto e violento é a vítima sacrificial e a heroína nesta luta terrível, não contra as feras da selva mas contra a estupidez, a ignorância, o preconceito.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ver: Amor - David Grossman


Sinopse:
Na década de 1950, em Israel, o menino Momik, filho de judeus sobreviventes do Leste Europeu, interpreta à sua maneira os silêncios e fragmentos de conversas dos adultos sobre o que viveram na 'terra de lá' (a Europa dominada por Hitler). Convencido de que a 'besta nazista' é, literalmente, um monstro horrendo, resolve atraí-la a um galpão no fundo de sua casa para poder destruí-la, com a ajuda do avô Anshel Wasserman, que aparentemente ficou louco num campo de concentração. Já adulto, e agora romancista, Momik recria literariamente a história de Bruno Schulz (1892-1942), escritor polonês morto por um soldado nazista no gueto de Drohobycz. Na variante inventada por Momik, porém, Schulz foge para Dantzig e se atira no mar do Norte, em cujas profundezas vive uma aventura fantástica e alegórica. Outra história dentro da história é a do avô Wasserman, ele próprio autor, na década de 1910. Em 1943, prisioneiro de um campo de concentração, Wasserman se transforma numa espécie de Sherazade às avessas - ao descobrir que é invulnerável às inúmeras formas de assassinato praticadas pelos nazistas, ele conta a cada noite novas histórias ao comandante do campo, e em troca este tenta matá-lo. Narrado em várias vozes, fundindo gêneros e estilos, 'Ver - amor' cobre de modo não linear praticamente todo o século XX, tendo como núcleo a experiência indizível do Holocausto.
(in: http://www.skoob.com.br)

Comentário
Realidade – Sonho – Loucura – Fantasia total. Podia ser este o percurso da obra, os quatro pilares dos quatro capítulos em que o livro de divide.
As memórias do Holocausto, num “país de Lá” do qual é preferível não falar, dão lugar a percursos de sonho, pela voz do avô Anshel Wasserman “Sherazade”, escritor, contador de estória, o homem que não podia morrer.
Momik, o neto e narrador, constrói um mundo de total fantasia, em torno de dois grandes sonhos: ser escritor e capturar a Besta Nazi. Na primeira fase do livro é enternecedora a amizade entre Momik e o avô. Depois o enredo desenvolve-se em flashback, até à segunda guerra mundial, durante a qual o avô tinha sido o judeu misteriosamente preferido do sanguinário comandante do campo de extermínio.
Momik, entretanto, descobre que a Besta tinha dominado por completo o espírito dos judeus; compreende que a Besta só poderia ser derrotada com o retorno do tempo, o mesmo é dizer com o sonho e a fantasia.
Já casado com Rute, mais tarde, Momik escreve a história de Bruno, vítima dos nazis. Numa linguagem profundamente poética, Grossman leva-nos a conhecer a vida de Bruno após a morte – navegando nos mares, entre os salmões, com uma missão: conhecer a vida.
Entretanto, à medida que se torna adulto, Momik torna-se infeliz e vive atormentado pela memória. A memória da besta. O amor está ausente. Até da esposa e do filho. E de toda a humanidade. Todos os dias Momik dá duas bofetadas ao filho para que ele esteja preparado para a tristeza do mundo. O filho não aprenderá a amar como Momik nunca aprendera.
Entretanto, Momik assume um novo sonho: escrever a Enciclopédia do Holocausto para a juventude. Não aprendeu nem ensinou o amor mas pode ensinar o ódio. Para que a memória do ódio prevaleça.
A Besta trouxe o ódio e o povo judeu preservou-o. Guardou-o e repartiu-o. Numa espécie de crítica radical da violência, Grossman é perentório: “Somos assassinos responsáveis, preocupados com o nosso bem estar, dedicados e cheios de consideração, mas apesar de tudo assassinos.” “O medo e o ódio reinam entre nós, esses dois fórceps com que arrancam a mínima migalha de ternura e amor”. (página 221).
No campo de extermínio os Nazis não conseguem matar Anshel; todas as balas falham o alvo e nem o gás o mata. É com as suas estórias para crianças “os meninos do coração de ouro” que Anshel consegue comover o horrível comandante Niegel. Surge até uma espantosa amizade entre os dois porque o medo desaparecera. No final, o derrotado será Niegel. Antes disso, Anshel não podia morrer. Nem antes que a estória dos meninos de ouro tivesse o seu desfecho. Até lá a missão de Anshel era, todas as noites, contar a Niegel mais episódio da estória dos meninos.
A estória dos meninos com coração de ouro derrotará os nazis porque fala de amor. Só o amor seria capaz de tal façanha, ou então o sacrifício total, como o do louco de Varsóvia que se deixou torturar até à morte sem oferecer a verdade ao torturador. São estas as duas vias: o sofrimento e o amor.
Com a estória de Anshel, até Niegel se torna capaz de amar. Daí a sua desgraça, a sua derrota: porque era impossível servir o Reich e, ao mesmo tempo, ser humano.
A última fase do livro poderia intitular-se “o triunfo da morte”. A morte como solução, como triunfo também. E o triunfo de Wasserman, o homem que venceu a morte; o judeu que personifica todo um povo condenado à imortalidade.
Em conclusão: um livro muito elaborado, duro, por vezes difícil de compreender, mas que resulta numa obra literária de grande dimensão humana, numa linguagem poética e cheia de sentimento. 

domingo, 15 de julho de 2012

O teu rosto será o último - João Ricardo Pedro


Sinopse?
Tudo começa com um homem saindo de casa, armado, numa madrugada fria. Mas do que o move só saberemos quase no fim, por uma carta escrita de outro continente. Ou talvez nem aí. Parece, afinal, mais importante a história do doutor Augusto Mendes, o médico que o tratou quarenta anos antes, quando lho levaram ao consultório muito ferido. Ou do seu filho António, que fez duas comissões em África e conheceu a madrinha de guerra numa livraria. Ou mesmo do neto, Duarte, que um dia andou de bicicleta todo nu. 
Através de episódios aparentemente autónomos - e tendo como ponto de partida a Revolução de 1974 -, este romance constrói a história de uma família marcada pelos longos anos de ditadura, pela repressão política, pela guerra colonial. 
Duarte, cuja infância se desenrola já sob os auspícios de Abril, cresce envolto nessas memórias alheias - muitas vezes traumáticas, muitas vezes obscuras - que formam uma espécie de trama onde um qualquer segredo se esconde. Dotado de enorme talento, pianista precoce e prodigioso, afigura-se como o elemento capaz de suscitar todas as esperanças. Mas terá a sua arte essa capacidade redentora, ou revelar-se-á, ela própria, lugar propício a novos e inesperados conflitos?


Comentário:
Um dos principais méritos desta obra é que envolve uma avaliação curiosa e historicamente bastante correta da revolução de abril e do antigo regime. Estão aqui expostos de forma clara muitos dos problemas gerados pela ditadura na mentalidade e nas estruturas da vida portuguesa no século XX.

Sentido de humor bem à portuguesa, com muito calão pelo meio. Esta opção do autor pode ser controversa e já gerou, certamente, reações adversas. No entanto, neste caso, o calão parece-me bem enquadrado. Por um lado confere à leitura esse sentido de humor bem português e por outro transmite um certo realismo ao enredo.
Por outro lado, o relato dos costumes, acontecimentos e realidades típicas da história contemporânea de Portugal, é bastante sugestivo, de leitura fácil e muito agradável, fazendo lembrar a série Conta-me Como Foi. Assim, o livro capta com facilidade a atenção dos leitores de uma faixa etária acima dos 35 anos. Um dos exemplos mais bem conseguidos é o da Volta a Portugal em bicicleta, com todo o folclore, toda a emoção que a corrida envolvia noutros tempos, antes da invasão do ciclismo pela mentalidade capitalista. No extremo oposto, na zona cinzenta das desgraças lusas, está a guerra colonial, esse monstro que devorou o Portugal salazarento após 1961 e que aqui é ilustrado pela desgraçada vida de António, o pai de Duarte: uma vida sacrificada por nada, tal como milhares de outras, vítimas do capricho anacrónico de um regime fascista apodrecido pelo ódio e pela insanidade.
O autor revela também uma extrema sensibilidade no tratamento dos assuntos mais sérios, como a doença da mãe de Duarte, assim como a prisão e assassínio do pai dela. Um cuidado e uma delicadeza que deixam o leitor entusiasmado com a forma sentida como o sofrimento humano é exposto. A sensibilidade da escrita é, nestes capítulos, notável.
Pessoalmente penso que o livro perde um pouco com a tentativa de adensar o mistério em torno da morte de Celestino, que torna o desfecho algo confuso.
Seja como for, estamos perante um autor com qualidades suficientes para garantir o sucesso no panorama literário português.

sábado, 14 de julho de 2012

O Americano Tranquilo - Graham Greene

Sinopse:
O Americano Tranquilo é um dos grandes romances com a guerra do Vietname como pano de fundo. Contudo, antecipa, através da sua personagem principal, Alden Pyle, um agente da CIA, o que posteriormente veio a ser a intervenção norte-americana naquele país do Extremo Oriente. Livro sobre a guerra mas que se não detém em descrições bélicas. Livro, isso sim, sobre a condição humana, onde o que está verdadeiramente em causa é o amor, o ódio, a traição, a morte de inocentes e o sacrifício de civis.

Comentário:
O pano de fundo é fornecido pela Indochina francesa nos anos cinquenta, quando alguns grupos terroristas (ou patriotas, consoante o ponto de vista) começam a exigir a independência do Vietname. Isto conduziu a uma verdadeira guerra colonial.
Fowler é um jornalista inglês cansado do jornalismo. Ele abomina a política medíocre e interesseira. Adora o Vietname e apaixona-se, tal como Pyle, por uma bela vietnamita, Phuong. Este triângulo amoroso dá corpo à estória.
Indo direto ao aspeto mais importante deste livro, parece-me que há nele um traço de génio, na forma como Greene nos apresenta um enredo profundamente moralista sem nunca cair num tom apologético ou catequético. É de forma lenta e gradual que o leitor se vai apercebendo deste carater moralista, ao verificar que nenhuma das personagens pode aspirar a ser feliz; todos eles esbarram com a realidade, com a guerra, o ódio, os interesses materiais, numa palavra, a imoralidade.
Assim, veja-se o caso de Phoum; bela e inteligente, porém interesseira. Quando Fowler afirma não ter dinheiro para a fazer feliz, ela, aconselhada pela irmã, propõe que ele faça um belo seguro de vida! Fowler, jornalista ateu, procura e não encontra a paz de espírito que outrora tinha tido no seu casamento católico. Agora, a tentativa de divórcio e o sonho do casamento com Phuong são vistos como um jogo ou um negócio. Fowler representa sem dúvida a ausência de moral, se bem que se trate de um personagem ingénuo e bom.
Pyle é um homem com sonhos. Católico, ele simpatiza com um curioso movimento religioso, o caodaísmo. Trata-se de uma tentativa de juntar as três religiões mais praticadas naquela zona do Oriente: o catolicismo, budismo e islamismo. É esta ingenuidade que leva Pyle a apoiar determinados atos terroristas, aparentemente inofensivos, para lutar pela independência do território. Quando se verifica que um desses atentados provocou a morte de inocentes, Pyle limpa o sangue das botas e comenta: “Não sabia”… era suposto combater o comunismo.
A falácia desta luta entre o bem e o mal é a tom fundamental da crítica de Greene: uma crítica à guerra como forma de negação radical da moral.
Trata-se, enfim, de um livro profundamente sentimental, talvez o mais moralista de Greene, escrito, como todos os seus romances de uma forma fluida e fácil. Talvez o livro mais elaborado, mais sério e mais inteligente de Greene.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Agente Secreto - Graham Greene



Sinopse:
D., um ex-professor de Literatura Medieval, foi enviado a Inglaterra com a incumbência de adquirir carvão... a qualquer preço. Falhar significaria a derrota... a derrota para um governo continental com uma guerra civil entre as mãos. Escrito em cerca de seis semanas durante o ano de 1938, O Agente Secreto é uma brilhante antevisão dos dramas que iriam assolar a Europa e o mundo nos anos subsequentes.

Comentário:
Um dos maiores motivos do tremendo sucesso dos livros de Greene é o seu caráter premonitório e a atualidade dos temas que desenvolveu nos seus livros. Neste caso, O Agente secreto, é um livro escrito pouco antes do eclodir da segunda guerra mundial e nele Greene descreve um conflito armado na europa que viria a ser determinado, em grande parte pela posse e desenvolvimento das fontes de energia. Todos sabemos como a energia nuclear contribuiu para a afirmação das grandes potências mundiais que venceram a 2ª Guerra Mundial. No caso do livro de Greene trata-se do carvão; aquelas nações (só a Inglaterra é nomeada, como exportadora de carvão) dependiam dessa fonte de energia e o seu domínio podia significar a vitória na guerra. Da mesma forma que hoje quem tem petróleo tem poder, naquela altura o poder político dependia do poder económico. E a espionagem era a melhor forma de estender os tentáculos sobre as outras nações. Por outro lado, a extração do carvão não se podia fazer sem os mineiros; no entanto, eles são os que menos interessam. Não chegam sequer a ser peões no xadrez da política internacional.
Trata-se, portanto, de uma obra em que Greene demonstra toda a sua capacidade de análise e de reflexão sobre o mundo em que viveu, no caso deste livro no final desses terríveis anos trinta do século passado.
Tecnicamente talvez este seja um dos livros menos brilhantes de Greene. Não há nele o caráter reflexivo ou ambiente perturbador de Um Americano Tranquilo; não há a emoção e o ritmo narrativo de O Fim da Aventura; não há o humor desconcertante de O Cônsul Honorário ou do Nosso Agente em Havana. Mas há uma obra equilibrada, uma obra que tendo sido escrita em poucos dias demonstra a capacidade narrativa do seu autor e o aproposito com que aborda os grandes temas do século XX.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O Nosso Agente em Havana - Graham Greene


Sinopse:
Um representante de uma pequena empresa inglesa de aspiradores, lojista quase arruinado, vive angustiado com os eternos motins de Cuba. Os negócios vão mal, muito mal e Milly, a sua bela filha, atormenta-o com os seus caprichos.
Então, sob a forma de Mr. Hawthorne, um enigmático cavalheiro que faz apelo ao seu sentido patriótico, explica-lhe coisas tão estranhas como o modo de usar um livro de cifra, ou tinta invisível, ou a utilidade das chaleiras elétricas para a abertura de cartas - a tentação surge. Pouco a pouco, como aliás explica Hawthorne aos seus superiores hierárquicos em Londres, a imaginação do pobre comerciante põe-se a trabalhar. E como, no nosso mundo, a realidade não é coisa que se enfrente, a imaginação assim estimulada virá a revelar-se mais verdadeira do que o próprio real…

Comentário:
Graham Greene é, definitivamente, um dos melhores contadores de estórias da literatura do século XX. Na verdade, este escritor católico inglês deixa-nos sempre sem fôlego perante uma escrita tão fluente e tão “limpa”, despojada de qualquer adorno desnecessário ou divagação estéril.
Esta escrita sintética, onde nada é inútil ou dispensável, nunca cai, no entanto, naquele laconismo da frase curta, estilo SMS que por vezes encontramos por aí. Greene consegue, a meu ver, o equilíbrio perfeito na economia da escrita.
Este romance é, em grande parte, uma espécie de paródia à euforia quase histérica da espionagem internacional nos tempos da guerra fria. No entanto aqui encontramos alguns estereótipos do humanismo literário, muito bem explorados:
O agente secreto que é personagem principal da estória, Mr. Wormold, não passa de uma caricatura do espião, um personagem ao mesmo tempo credível e risível, com um toque de ridículo. No entanto, é impossível não simpatizar com ele, que engana os ingleses sistematicamente inventando situações de espionagem que o deixariam visto como um espião genial.
A filha, Milly, é uma adolescente boémia, desmiolada, mas católica e até algo beata; trata-se de uma personagem excelente por causa deste contraste que Greene aproveita muito bem para deixar um certo traço de cinismo crítico.
Mas o aspeto que mais agrada neste livro é sem dúvida do sentido de humor, bem na linha daquela que é, a meu ver a sua obra prima (O Cônsul Honorário). Trata-se de um humor sarcástico, cínico e perfeitamente encaixado no período em que Greene escreveu: o início da guerra fria. Um exemplo bem expressivo: Wormold, para satisfazer os ingleses, desenhou as peças de motor de um aspirador, numa escala muito maior. Os ingleses adoraram o seu trabalho genial porque acreditaram tratar-se de terríveis máquinas de guerra russas instaladas pelos rebeldes apoiados pelos russos. Obviamente tudo se complicará quando os ingleses exigem fotografias…
Em suma, estamos perante uma obra leve, que faz rir e sorrir, num estilo fácil e desenvolto mas que não deixa de refletir um lado sério da questão: a guerra fria e o jogo por vezes ridículo da espionagem internacional que marcou uma época.

sábado, 7 de julho de 2012

Que farei com este livro - José Saramago



Sinopse:
A pergunta é formulada por Camões, quase no final da obra, e o livro a que se refere não poderia ser outro se não "Os Lusíadas". Que farei com este livro? Saramago decidiu fazer mais uma peça de teatro, uma obra cuja ação decorre em Almeirim e Lisboa, entre Abril de 1570 e Março de 1572, ou "com menor rigor cronológico, mas com maior exatidão, entre a chegada de Luís de Camões e Lisboa, vindo da índia e Moçambique, e a publicação da primeira edição de 'Os Lusíadas'". Entre personagens históricas também há lugar para os tais representantes do povo e para o escritor, todos a acompanhar a edição de "Os Lusíadas". Ou de um outro livro qualquer. "Se eu fosse esmolar pelas ruas e praças talvez me dessem dinheiro para comer. Mas não mo dariam se seu dissesse que o destinava a pagar ao livreiro que me imprimisse o livro." Foi Camões ou Saramago a dizê-lo? (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Comentário:
Peça de teatro publicada em 1980, dois anos antes da obra prima Memorial do Convento, é um livro que define, já nessa fase inicial da sua carreira, o estilo ácido, corrosivo, de José Saramago.
Não é exagero se afirmar que o livro se resume a uma sátira aos vícios do reino, vícios de ontem e de hoje. Bem ao seu estilo, Saramago vai buscar ao passado glorioso do tempo das descobertas, exemplos dos grandes vícios, das grandes misérias mentais deste povo e destes políticos que nos oprimem há centenas de anos. O enredo começa com um sugestivo e simbólico diálogo entre dois irmãos; um, jesuíta, é o clérigo que manobra os cordelinhos do reino através do confessionário. Trata-se de D. Luís da Câmara, confessor do Rei D. Sebastião, o monarca para quem a governação era uma tarefa secundária. O outro personagem é Martim da Câmara, secretário de Estado mas que deve o seu cargo às influências do irmão mais velho, o jesuíta.
O âmago do livro, no entanto, reside na personalidade de Luís de Camões. Homem pobre e honesto, a quem os favores do rei só seriam concedidos se os poderosos do reino o protegessem. Ontem como hoje: não é o mérito que permite o reconhecimento do génio mas sim a oportunidade. O orgulho de Camões, que procura apenas justiça, simboliza a força da arte perante os interesses materialistas e das vaidades humanas.
Personagem, sem dúvida em destaque é Damião de Góis, o célebre humanista português, um homem sem dúvida adiantado em relação à época em que viveu e que por isso mesmo haveria de ser vítima da Inquisição. A clarividência de Damião de Góis e a sua genialidade estão bem patentes neste trecho: “Falta a Portugal espírito livre, sobeja espírito derrubado. Falta a Portugal alegria, sobejam lágrimas. Falta a Portugal tolerância, sobeja prepotência”. Fica clara a grande atualidade deste espírito moderno que marcou a Renascença portuguesa.
No extremo oposto fica a mentalidade tradicionalista que reinava na corte, bem patente na forma como a Inquisição acabou por permitir a publicação d’Os Lusíadas, mas apenas “porque veio muito bem recomendada”. Ontem como hoje. Pelo menos, naquele tempo, a Inquisição tinha rosto.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A melhor leitura de Junho - Até ao Fim da Terra


Os Malaquias é um bom livro; três livros portugueses, de três escritores da nova vaga, foram três surpresas muito agradáveis. No entanto, Até ao fim da Terra, de David Grossman é um livro de qualidade excepcional. Uma das melhores leituras que fiz até hoje em torno da questão judaica.
Trata-se de uma obra de grande fôlego que retrata na perfeição todo o sofrimento, toda a coragem de um povo martirizado pela História. No entanto, Grossman não cai no chauvinismo e no maniqueísmo fácil; os árabes (ou palestinianos) não são aqui retratados como o inimigo a abater. Eles são também vítimas. Os culpados nã são os judeus nem os árabes; culpada é a própria guerra. Mas como a guerra é feita por homens, eles são ao mesmo tempo vítimas e culpados. Todos. 
Como já alguém afirmou, este é um dos melhores livros anti-guerra de todos os tempos. Para ler sem preconceitos; caso contrário, a leitura e sua interpretação sairão, obviamente, distorcidas.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Liberdade ou Morte - Nikos Kazantzakis



Nikos Kazantzakis ficou mais conhecido por Zorba, o Grego, que deu origem ao filme e ao tema musical que ficaram na história; ou então pelo livro que deu origem ao famoso filme de Scorsese, A Última Tentação de Cristo.
Escrito em 1950, este livro retrata a revolta contra o domínio turco por parte do povo da ilha de Creta, onde Kazantzakis viveu na infância. O personagem principal, o capitão Micael (diz-se) retrata o próprio pai do escritor, o que nos dá uma certa explicação para a escrita dura e brutal de Kazantzakis. Na verdade, o estilo é duro, impiedoso como o personagem.
Aparentemente, descreve-se uma luta heroica de um povo e de um homem contra uma dominação tirânica. No entanto, digo “aparentemente” porque, ao mesmo tempo, esta descrição é feita quase à maneira de uma caricatura; ao longo do livro o leitor hesita: será isto uma paródia da revolução ou um elogio dessa mesma revolução?
Talvez a verdade se encontre a meio caminho entre a sátira e o elogio da revolta. O capitão Micael representa o sacrifício da própria vida perante a luta contra uma tirania odiosa, exercida pelos turcos.
A aldeia (Cândia) onde se desenrola a ação está dividida entre cristãos e islamitas que convivem pacificamente até que as autoridades turcas decidem aumentar a repressão sobre a população cristã, nos finais do século XIX. É nesse contexto que alguns cristãos pegam em armas e as atrocidades multiplicam-se. A luta religiosa, o ódio em nome de Deus toma as rédeas da narrativa até se atingir uma espécie de climax quando o leitor percebe que a luta já devorou por completo a individualidade dos personagens. Chega-se a um ponto em que eles já não têm vida própria; tudo se desenrola em função da luta: ódio, repressão e vingança.
Um dos pormenores que melhor marca este caminhar para o absurdo é a forma como Kazantzakis nos descreve as crianças: todas as brincadeiras são marcadas pela luta e a mentalidade infantil é totalmente dominada pelo ódio; o comportamento das crianças torna-se absolutamente cruel, violento, mesmo nas brincadeiras mais pueris, até que também elas vejam a sua vida totalmente preenchida pela luta.
Outro aspeto interessante é a maneira como Kazantzakis nos apresenta a fé deste povo cristão, uma fé também ela dominada pelo ódio, por um lado, e pelo absurdo por outro. Por exemplo: Barbaianis, cristão, viúvo infeliz, bêbado e pobre, vê S. Minas (o patrono da aldeia) sair do altar para vigiar e proteger a aldeia, em rondas noturnas. Além dos cães, só ele e o louco Efendinho o conseguem ver.
Este pormenor marca a transição da narrativa para a caricatura. Paulatinamente, o leitor vai-se apercebendo que o autor vê a luta como uma espécie de insanidade; as pessoas recusam-se a viver a não ser para a luta. Tudo gira em função disso. Perde-se a personalidade e todo o sentido da existência. A humanidade traída pela estupidez da luta. A religião como elemento de discórdia e de ódio.
O aspeto mais fascinante deste livro é precisamente a forma como o autor soube, magistralmente, mesclar o horrível com o caricato; o dramático com o humorístico. Se bem que se trate de uma obra extensa, não deixa de ser uma leitura agradável e mesmo divertida.
Uma boa surpresa, em suma, este grego Nikos Kazantzakis.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

No Calor dos Trópicos - Flávio Capuleto


Sinopse
“No luxuriante cenário do Brasil imperial, um cônsul português desafia as convenções e o destino."
A queda abrupta de produção de café no nordeste brasileiro estava a arrastar os fazendeiros para a derrocada financeira. Na tentativa de solucionar o problema da falta de remessas, o rei D. Luís convida o Dr. Bragança dando ao seu cortesão a oportunidade de ouro de escapar a uma eventual pena de prisão por crime de adultério. Mas como se o destino reservasse uma armadilha ao novo diplomata, a amante viaja para Petrópolis na companhia do marido continuando ali a sua relação escaldante com o cônsul. Alertado para a traição contínua de sua esposa, D. João frutuoso, o magnata mais poderoso do Reino, banqueiro da casa real e da Coroa Brasileira, prepara uma emboscada ao diplomata, não só para o afastar dos braços de Leonor, mas também para poder exercer livremente o seu poder sobre os negros da roça e a sua vocação esclavagista. Um golpe inesperado dita a sorte dos amantes envolvidos nas malhas do destino

Opinião:
Começo o meu comentário precisamente pelo aspeto menos agradável: a semelhança por vezes acentuada com o enredo de Equador, de Miguel Sousa Tavares. No entanto, a face negativa do meu comentário termina precisamente aqui e atrevo-me a dizer, já de seguida, que gostei mais deste livro do que do Equador.
A escrita de Flávio Capuleto é muito forte. Firme, por vezes dura, por vezes quente, mas sempre muito marcada, às vezes algo exagerada mesmo. Por exemplo, as cenas mais sensuais do livro por vezes ultrapassam o necessário; a meu ver, é claro. Outro exemplo flagrante é a descrição minuciosa e dramática da doença e morte do rei D. Luís: a cena é descrita com muita emoção mas também com um realismo assinalável.
O autor afirmou que a ideia do livro partiu de um guião para cinema; de facto, o tema escolhido é terrivelmente cinematográfico; o assunto é polémico: a resistência dos agricultores portugueses ao fim da escravatura no Brasil. A escravatura era ainda vista como uma condição essencial para o sucesso económico da colónia e o livro acaba por constituir uma homenagem a homens como José de Bragança que lutaram e até morreram pela libertação dos negros.
Embora se trate de um romance de ficção, o fundo da estória é real e retrata de forma muito pedagógica os reinados de dois grandes senhores: o rei português D. Luís, um homem moderno e bom e D. Pedro II, o segundo e último imperador do Brasil, responsável pelo fim da escravatura e pela modernização daquele Brasil herdado da tradição esclavagista portuguesa.
Em conclusão: trata-se de um livro interessante, que se lê com muita facilidade e com um lado pedagógico muito importante.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Governo Sombra - Casimiro Teixeira


Sinopse:
Um thriller de conspirações políticas que retrata as vidas paralelas de dois homens.
Um, desempregado, e com ambições de ser escritor, que desistiu da vida e da procura da felicidade, reencontrando-as ao receber uma estranha mensagem de uma amiga, que lhe encomenda a escrita de um livro sobre a sua vida, conduzindo-o numa viagem obsessiva por uma realidade ficcionada sobre um Portugal secreto e sinistro desconhecido por muitos.
O outro, um político empossado à força por um caciquismo familiar. Professor de história por paixão, torna-se secretário de estado por complacência dos interesses do falecido pai.
Vão ambos embarcar numa odisseia mirabolante de enganos e descobertas, na busca da confirmação da existência de uma ordem secreta, Os Alquimistas, cujo plano efetivo para o nosso país, consiste no controlo absoluto do seu governo, e no domínio total da vontade dos seus cidadãos.
De Nova Iorque a Bruxelas, e por diferentes locais em Portugal, um atroz destino os espera, nesta história implacável, que mistura passado e presente, cheia de suspense e completamente imprevisível.

Opinião:
Eis o primeiro romance sobre a tão famigerada crise. Este é o primeiro livro de ficção que aborda, a meu ver de forma direta e concreta a tão propalada crise que estamos vivendo.
E Casimiro Teixeira não está com “meias medidas”; vai direto ao assunto e acusa: a crise não á mais que a ponta de um iceberg que esconde um grande movimento “subterrâneo” capaz de por em causa a vida de todos nós; a crise não é um elemento conjuntural, é uma manifestação de movimentos de fundo, de um outo mundo que está a ser construído pelas altas esferas financeiras internacionais.
A ideia, no fundo, não é nova: é o pressuposto de um poder político subordinado ao poder económico, ou melhor, financeiro. No entanto, o que nos deixa perplexos, ao ler este livro, é a constatação de que tais mecanismos subvertem por completo os princípios básicos daquilo que consideramos “democracia”: é a afirmação definitiva da elite financeira como detentora de um poder maior, um poder de caráter ditatorial, que esmaga todos os princípios de liberdade individual, consagrados constitucionalmente pelo liberalismo contemporâneo.
As vidas individuais, a esfera privada dos personagens, submerge de forma fatal perante um poder monstruoso que emerge vitorioso, uma espécie de super estrutura capaz de esmagar o individualismo burguês que o próprio capitalismo triunfante havia alimentado e encorajado. O drama desta estória está precisamente nisto: a teoria neo-capitalista transforma em vítimas aqueles que seriam os personagens principais de uma história de sucesso: a história da burguesia capitalista saída das revoluções liberais do século XIX.
Casimiro Teixeira consegue neste livro construir um ambiente de mistério e suspense, uma atmosfera de incerteza que agarra o leitor até à última página. No entanto, este livro teria muito a ganhar com uma revisão eficaz do texto; as gralhas tipográficas prejudicam claramente a leitura.
Mesmo assim, considero este livro uma pedrada no charco da nova literatura portuguesa, que ainda não despertou para uma nova era deste país à beira mar plantado mas claramente desprezado pelo poder político e financeiro internacional. Nós, os portugueses comuns, continuamos afundados numa cegueira cómoda e passiva que urge desmascarar. Casimiro Teixeira deu o primeiro passo. Esse é o grande mérito deste livro.
Ressuscitando fantasmas vivos do passado fascista português, este livro não nos pode deixar indiferente; há forças subterrâneas no nosso mundo. Disso eu já não duvido. E cada dia que passa a realidade triste e sombria deste país dá razão a Casimiro Teixeira.
Enfim, trata-se de um livro que sem ser genial, é uma obra a ter em conta. E de leitura muito agradável.

sábado, 16 de junho de 2012

O Lugar das Coisas - Miguel Almeida


Se a arte imita a vida ou vice-versa
Na arte ou na vida
Quem imita o quê?
Talvez em síntese se possa resumir a vida na arte de saber viver. Quase assim se abre o livro.
Uma poesia feita dos dias; dos atos quotidianos, uns de rima fácil outros que teimam em escurecer a vida. Uma poesia feita dos dias e das noites, de suores e das lágrimas, dos risos e de explosões de prazer, embora serenamente, dos tesouros incontáveis. Do tudo e dos nadas que nos rodeiam.
Como uma flor, que nasce
No lixo, para crescer e florescer
Alimentada nestes espantalhamentos.
E dos dias se levantam por vezes, em explosão, excessos e loucuras, arrebatamentos de poeta, gente normal afinal, gente que percorre o tempo de nascer, viver e morrer, gente que nasce para se fazer pó da terra. Mas, pelo meio há o sol, o mar, o céu e a alegria. A poesia. A poesia que não tem dono, não tem rei nem senhor. A poesia que é liberdade, sonho e vida.
E o homem o poeta o artista o que cria;
…e nisso há poder. Há divindade, há a magia de fazer nascer, de fazer viver. De fazer poesia.
Mas, afinal de contas, triste ilusão, a vida assim cantada em verso não é mais que a alma só de um poeta; um grito ou talvez apenas uma voz suave de alguém… Alguém: um mundo no singular. Sobre quem o cientista berra: Subjetivo!!! No entanto o mundo é inteiro na alma de um só: o poeta. Daí advém o lamento de quem é julgado “difícil”… porque difícil é entender quão simples é a alma.
Fácil é afinal viver e deixar viver. Ler e deixar sentir. Pensar e deixar pensar. E sonhar, acima de tudo.
Livro de capa azul, O Lugar das Coisas é uma espécie de céu, altar em que se celebra a vida, o amor, o lado solar da existência. Nestes tempos sombrios de crise e medo, a poesia de Miguel Almeida emerge como um fio de luz brilhante, ofuscante, por sobre esta vida de autómatos que todos, mais ou menos, carregamos como um fardo. Miguel Almeida, desdizendo o poeta que finge, é o poeta que faz nascer a luz da esperança, de uma vida onde (ainda) há futuro (sonho).
Atrevo-me a afirmar que este é o livro mais pessoal de Miguel Almeida; mais pessoal e talvez mais pessoano; mas deixo essa questão para os que sabem de poesia. Eu, que não sei de poesia, achei estas rimas de extraordinária beleza; de uma musicalidade muito bem conseguida e, acima de tudo, de uma sensibilidade pessoal tocante.

Próximo comentário: Governo Sombra, de Casimiro Teixeira

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Até ao fim da Terra - David Grossman



Sinopse: Quando Ora se prepara para festejar a desmobilização do filho Ofer, ele volta a juntar-se voluntariamente ao exército. Num ímpeto supersticioso, temendo a pior notícia que um pai ou uma mãe podem ouvir, Ora parte numa caminhada para a Galileia, sem deixar qualquer rasto para os "notificadores". Recentemente separada do marido, arrasta consigo um companheiro inesperado: Avram, outrora o melhor amigo de ambos, o antigo amante, que tinha estado prisioneiro durante a Guerra do Yom Kipur e fora torturado, e que, destruído, recusara sempre conhecer o rapaz ou ter contacto com eles.
Durante a caminhada, Ora vai desenrolando a história da sua maternidade e inicia Avram no drama da família humana - uma narrativa que mantém Ofer vivo, tanto para a mãe como para o leitor. A sua história coloca lado a lado os maiores sofrimentos da guerra e as alegrias e angústias quotidianas da educação dos filhos: nunca se viu tão claramente o real e o surreal da vida quotidiana em Israel, as correntes de ambivalência sobre a guerra numa família, os fardos que caem sobre cada nova geração. Numa situação de conflito coletivo e duradouro, como conciliar as preocupações individuais de uma mãe que, afinal, prefere a companhia de um filho à missão patriótica? Como manter a causa pacifista se aqueles que podem atirar contra um filho são justamente aqueles com quem se quer fazer a paz


Comentário:
As 681 páginas desta edição talvez afastem o leitor menos paciente. Mas a verdade é que este é um excelente livro. Está aqui, bem despida de adereços, toda a desgraça de um povo condenado à guerra e ao ódio; um povo que conquistou o seu espaço mas que o tem de disputar, sistematicamente, com outros povos, eles também condenados à desgraça.
A forma como Ofer se alista voluntariamente no exército levou a mãe, Ora, a questionar o patriotismo; o mesmo patriotismo que justificara a criação da nação hebraica. O ódio à guerra alia-se ao próprio ódio à nação. A expressão de Ora perante a participação dos filhos no exército é: o país “nacionalizou-me” os filhos.
Este livro é, acima de tudo, um intenso grito anti guerra; uma voz de protesto e de desespero perante a irracionalidade de uma história povoada de ódio.
Mais do que fugir da guerra e da possível morte do filho, é dos mensageiros da morte que Ora e Avram fogem. Sim, porque morte está sempre presente, por todos os lados.
Ao longo da leitura, o leitor sente-se frequentemente asfixiado por este ambiente sóbrio, feito de medo, feito de sangue e horror.
Para Ora, Avram, de quem se separara há muito, é uma espécie de filho que vem substituir Orfer. Ao longo da caminhada, o autor vai descrevendo o passado desta família despedaçada e de um curioso triângulo amoroso; o amor aparece aqui como uma espécie de oásis neste deserto de ódio; no entanto, nem mesmo o amor tem o aspeto de um jardim florido, antes de um jardim coberto de espinhos; um amor que nasceu e cresceu no terror das mais inimagináveis torturas e sacrifícios.
À medida que vai desfiando memórias, Avram descreve as torturas que sofrera na guerra de Yom Kipur. Memórias terríveis, de uma violência atroz, misturadas com sentimentos de culpa e arrependimento. Enfim, uma realidade onde o passado é doloroso e o futuro negro. Sobra um presente não menos feliz. As personagens como a nação: sem sentido, sem lógica, sem um raio de luz a não ser os laços de amor que os prendem uns aos outros.
Como no quadro de Picasso (Guernica) a guerra preenche todos os espaços. Nada existe fora da guerra.
Aqui não há heróis. Nem bons nem maus; os próprios árabes, inimigos ancestrais, não são vistos como “os maus da fita” mas como, também eles, vítimas do ódio e da violência.
Em conclusão, trata-se de um livro sombrio, triste, mas terrivelmente real. Uma estória que dói pela crueza da realidade que retrata; uma obra de ficção que brilha pelo retrato que faz de um sofrimento coletivo onde o pior de tudo é a falta de esperança: o final desilude como a realidade: não há fim à vista para a estupidez dos homens.

sábado, 9 de junho de 2012

Os Malaquias - Andréa del Fuego




Os Malaquias é um livro curioso. Com um aspeto gráfico original e atraente, com um formato aparentemente facilitador da leitura (capítulos curtos), depressa, no entanto, nos deixa presos à página, muitas vezes tendo de voltar atrás e reler, tal é a complexidade da escrita. À partida, o enredo é simples e claro. Mas a linguagem de Andrea del Fuego torna-se complexa devido ao excesso de sintetismo. Fica a ideia que autora quis cortar tudo o que fosse excessivo e acabou por nos deixar apenas um esqueleto da estória e pouco mais que isso.
No entanto, comecei este comentário pelo lado menos positivo do livro; porque as suas qualidades superam, a meu ver, em muito, estes eventuais defeitos.
Em primeiro lugar, fico com a sensação de que este livro é uma pedrada no charco da atual literatura brasileira ou mesmo na sua história. Do que me é dado conhecer, encaro a literatura do Brasil como essencialmente urbana. Desde Machado de Assis até à atualidade, os grandes escritores brasileiros afastam-se claramente do mundo rural. É a esse mundo rural que Andrea del Fuego se dirige neste livro; um mundo de pobreza, injustiças e, essencialmente, em conflito com a própria terra. De facto, não há aqui uma ideia de ligação à terra mas sim de afastamento, de conflito. As personagens do livro parecem fugir da terra; estão em constante viagem: depois da morte do casal Malaquias, atingido por um raio, os seus três filhos separam-se. O mais velho é adotado pelo proprietário do latifúndio, o do meio é adotado pelas freiras e ficará anão. A mais nova, Júlia, permanecerá em trânsito; ela simboliza essa fuga permanente que é a vida. No final do livro todos eles procurarão essa fuga; todos enveredarão por uma viagem de que não se conhece o destino mas que parece ser, ela própria, o destino final das personagens.
A vida é vista como uma viagem; “toda a gente que espera vem para o porto”, diz Eneido, o homem da caverna que espera o navio onde todos embarcarão; uma caverna de onde se podem ver as sombras da verdade, como em Platão, mas também a caverna de onde se partirá para a última viagem, que redimirá o mundo.
Voltando ao enquadramento de Del Fuego na literatura brasileira, podemos dizer, com algum arrojo que o seu estilo fará lembrar a linguagem crua e fria de J. Ubaldo Ribeiro em O Farol; no entanto, é dos Buendia de Garcia-Marquez que nos lembramos ao ler este livro, na tradição do realismo fantasioso e encantado da boa literatura sul-americana.
A linguagem de Del Fuego é profundamente poética e simbólica, com uma beleza por vezes arrasadora. Uma linguagem rural, popular e poética, com uma economia de palavras por vezes exagerada: “Nico a viu, e mais nada, o resto da noite…” é uma frase que exprime toda a poesia de um encontro fatal e, ao mesmo tempo, resumida de uma forma extrema.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A melhor leitura de Maio


O que o dia deve à noite - Yasmina Khadra

é, sem dúvida, um grande livro. Consegue aliar de forma perfeita a ficção à história. envolvendo o leitor numa intriga fascinante, um enredo em que os dilemas morais de qualquer ser humano se misturam com os maiores dramas históricos do último século, nomeadamente a segunda guerra mundial e as guerras coloniais.
Liberdade e tolerância não são conquistas do século XX nem da modernidade. Pura e simplesmente não são conquistas da Humanidade. Nunca o foram. Alguma vez o serão?

terça-feira, 29 de maio de 2012

O Inverno do Nosso Descontentamento - John Steinbeck




O Inverno do Nosso Descontentamento é um título feliz, poético e bem adequado a esta obra. Trata-se de um dos últimos livros de John Steinbeck. Por este motivo é considerado por muitos como uma das obras mais “maduras” do grande escritor. Pessoalmente, acho mais adequado encarar este romance como uma obra em que o autor se desvia bastante das características básicas dos seus livros anteriores. Mas vamos mais devagar.
Este livro trata de um homem bom, como tantos personagens de Steinbeck. Um homem simples e bom, proveniente de uma família abastada de uma pequena cidade conservadora americana: New Baytown. No entanto, Ethan é o último herdeiro de um património misteriosamente perdido no tempo do seu pai e acaba por se tornar um modesto empregado de um avaro comerciante, proprietário de uma loja (Murillo), onde Ethan é o único e modesto funcionário.
Ao longo de todo o enredo, Ethan personifica a luta entre a moralidade do homem bom e a ambição de um enriquecimento que, aos poucos, se vai revelando incompatível com essa mesma moralidade. Até às últimas páginas do livro, mantém-se este dilema, assim como um outro: a identidade do personagem em confronto com a identidade da família, das suas raízes familiares.
Penso que aquilo a que os críticos chamam a maturidade literária do autor materializa-se neste livro mas de uma forma não obrigatoriamente positiva para o leitor; Steinbeck ganha neste livro uma intensidade reflexiva que não detetamos em Ratos e Homens, Tortilla Flat ou mesmo na sua obra prima, As Vinhas da Ira. Mas, pelo contrário, perde, a meu ver o que ele tem de mais extraordinário: a singeleza, a simplicidade, a humanidade das suas personagens. Aqui, Ethan tem alguns desses traços de humanidade típicos do autor, mas, lentamente, vai questionando toda essa humanidade, à medida que vai equacionando a hipótese de renunciar à honestidade para ceder à tentação do crime.
É sem dúvida, a obra mais reflexiva que li deste autor. Aquilo que ganha em profundidade psicológica perde, a meu ver, em ritmo narrativo. Mesmo assim, no final resiste a crença infinita de Steinbeck no ser humano. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O que o dia deve à noite - Yasmina Khadra



É um livro muito interessante; estamos perante uma daquelas obras que classificamos como muito boas mas que não ficam muito longe da linha que demarca a genialidade.
Tudo parte de uma aliança bem conseguida entre a realidade e a ficção; por outras palavras, entre a História e a Fantasia.
Estamos na terra de Camus: a Argélia colonial, ocupada pela França até 1962. O enredo acompanha o tempo de vida de um argelino de origem árabe nascido em 1927 e, portanto, ator e personagem dos dois grandes conflitos que marcaram esse martirizado país do Norte de África: a segunda guerra mundial, com a ocupação nazi e a guerra da independência. Younes (Jonas para os colonialistas e não-árabes em geral) é um jovem nascido na miséria que, depois de ser educado por um tio, consegue entrar no círculo social da elite colonial. Younes coloca-se assim entre dois mundos em conflito permanente e tudo se encaminha para o grande drama: o momento em que ele terá de tomar partido. Por um lado a voz do sangue: da comunidade árabe injustiçada e quase escravizada; por outro lado, a voz do progresso e da riqueza. Pelo meio, os amores de Younes, sempre marcados pela guerra, tanto a guerra politica como as diversas guerras sociais e étnicas que trespassavam aquele país.
A escrita de Khadra é, acima de tudo, de uma sensibilidade extraordinária. Ele escreve com uma delicadeza que nos comove com facilidade. É quase com ternura que o autor nos fala da voz da terra e do sangue que Younes ouve constantemente; e a voz da honra: Isra, o pai de Younes prefere a miséria à desonra de aceitar ajuda do irmão rico. Esta impossibilidade de saír da miséria sem perda da honra dá a todo o enredo um tom cinzento, sombrio, triste… belo mas triste.
Para estes árabes da Argélia, o mais difícil era arranjar uma razão para sobreviver… no entanto, no meio da miséria, há sempre algo a que um homem se agarra para ser feliz. Nem que seja uma canção ou um poema…
Por vezes, a escrita de Khadra assume tons verdadeiramente poéticos, tanto na forma como nas mensagens que transmite. Para além disso é um intenso grito contra a prepotência política que justificou o colonialismo; contra esta escravatura moderna que justifica a dominação com uma pretensa e ridícula superioridade civilizacional.
Um aspeto interessante é a forma como o autor demonstra a crescente atração do personagem principal pela violência, ele que era um profundo pacifista. De facto, perante determinados níveis de injustiça, a violência começa a encontrar justificações…
Em conclusão, penso tratar-se de um livro que merecia maior divulgação, de um autor que surpreende pela criatividade literária, com marcada influência de Albert Camus: em muitos aspetos , este Younes faz lembrar Mersault, de O Estrangeiro, principalmente pela sua personalidade algo difusa e incontornavelmente desenquadrado do meio em que vive…

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A Queda - Albert Camus



Imagine-se sentado num café noturno, em Amesterdão. Um conterrâneo seu senta-se a seu lado e desata a falar. Fala, fala, fala… um longo monólogo. É esta a técnica narrativa de Camus neste romance. Um advogado, auto intitulado “juiz-penitente”, Jean-Baptiste Clamance é o único que fala. O outro, que nós nunca conhecemos limita-se a ouvir e desempenha o mesmo papel que o leitor: um ouvinte e nada mais.
Todo o discurso é tenso, por vezes divertido, outras vezes revoltado, mas sempre sentido e refletido. É um livro difícil, confesso; nem sempre é fácil ao leitor descobrir as ideias que Camus pretende transmitir. No entanto, algumas dessas ideias são suficientemente claras para que as possa inserir neste comentário:
Clamance é um hedonista; ele sobrevaloriza-se; considera-se um exemplar quase perfeito da humanidade. Chega mesmo a irritar o leitor, fazendo crer que toda a humanidade é má, é odiosa mas a sua pessoa é superior a tudo isso. Prepotente, Clamance/ Camus transforma o seu discurso uma verdadeira ofensa ao leitor que, como que manietado, se sente obrigado, apenas e só a continuar a ouvir / ler as sentenças superiores de Clamance.
Mas a parte final do livro, após “A Queda”, marca uma reviravolta que se torna algo dramática: é o reconhecimento do fracasso da solidariedade. E isto dói porque nos revemos em Clamance, o homem que ouviu o grito da mulher que caia mas nada fez porque fazia frio e chovia. Será esta a essência da humanidade? É esta, pelo menos, a essência de Clamance, em contraste com o homem brilhante com que se apresenta na primeira parte da obra.
Assim, as qualidades humanas enunciadas na primeira parte de nada velam; todos os valores morais não parecem ser mais do que motivos de vaidade. É a descrença total no ser humano…

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Xangô de Baker Street - Jô Soares



Jô Soares há muito que nos habituou a rir. Poucos como ele nos conseguem arrancar uma bela gargalhada. Ler este livro sem gargalhar é um desafio, eu diria insuperável
A ideia básica do livro é muito interessante: nos finais do século XIX cruzam-se no Brasil famosas personagens reais com outras de ficção mas já consagradas pela literatura: Sherlock Holmes e o seu inseparável Watson deslocam-se ao Brasil, por solicitação do Imperador D. Pedro II para investigar o estranho caso de um Stradivárius desaparecido e que o velho Rei tinha oferecido em segredo a uma das suas amantes. O pior é que o ladrão é também um horrível assassino de mulheres e Sherlock terá de desvendar todos os mistérios.
O enredo é enriquecido com a descrição do Rio de Janeiro daquela época, com as aventuras diletantes de um grupo de poetas de onde se destaca o famoso Olavo Bilac e uma célebre diva francesa, a atriz Sara Bernardt.
A eficácia do humor deste livro deve-se em grande parte ao contraste entre o british Sharlock Holmes e a aparência devassa dos brasileiros. No entanto não tardou muito que o detetive se rendesse à devassidão e acabasse por se render aos encantos do samba e até da canábis. Por outro lado, Sherlock vai-se revelando cada vez mais desastrado, caindo em situações ridículas… aliás, o humor de Jo Soares assenta, acima de tudo, no ridículo; na primeira fase do livro, o leitor é levado a pensar que o autor pretende ridicularizar os brasileiros, em contraste com os elementos estrangeiros. Mas não. Depressa se descobre que Jô Soares ridiculariza tudo e todos, desde um Rei decrépito, poetas devassos, uma atriz famosa mas de mau génio, um Inspetor de polícia quase demente e, acima de tudo, um Sherlock Holmes idiota e incompetente.
Se bem que salpicado por alguns clichés, é um livro que se lê com muito agrado. Não é uma obra prima nem pretendo sê-lo: creio que o autor apenas pretendeu escrever uma sátira divertida. E conseguiu-o. Deixando-nos com vontade de ver o filme com Joaquim de Almeida no papel de Sherlock Holmes e Maria de Medeiros como Sarah Bernardt.
Uma nota especial para o final: é absolutamente surpreendente e divertido.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cloning Adolf - Cristina Torrão (ebook gratuito)


Tal como havia feito Luís Novais, também Cristina Torrão resolveu presentear os seus leitoras com um livro colocado gratuitamente à disposição no seu blogue.
Cloning Adolf é um livro completamente diferente dos outros por si anteriormente publicados; é um livro hilariante.
A estória é simples e original: um grupo de fanáticos nazis, no século XXII rapta um cientista famoso para que este proceda à clonagem de Adolf Hitler a partir de “um carvãozinho” que viria a dar que falar: tratava-se de um pedaço do corpo carbonizado de Hitler em 1945. A parte de Hitler a partir da qual se constrói o clone é … os genitais J: humor torna-se hilariante.
O cientista, o Doutor Solari, com a sua bela e sensual (tinha que ser) assistente conseguem levar a bom porto o projeto ao mesmo tempo que desenvolvem uma paixão, como direi… explosiva.
No final deparamos com um  Hitler, digamos, muito fraquinho… um louco que pretendia eliminar as mulheres porque não podiam ter um bigodinho como o dele…
No meio dos fanáticos, como acontece em qualquer canto do mundo, também havia um português: o hilariante José Cebolo, um nazi que gostava de bom vinho e boas comidas (só um português podia curar as mazelas de Hitler com vinho tinto). Alguns dos outros fanáticos eram verdadeiros “cromos”, com nomes hilariantes, como era o caso do grande chefe Kornflock.
Os fanáticos deixam bem claro o simplismo do discurso radical: eles são contra os estrangeiros e mal se apercebem que, uns em relação a todos os outros, são estrangeiros; a total ignorância histórica é comum a todos os fanáticos.
Para lá do ridículo, mesmo com gargalhadas, este livro não deixa de nos fazer refletir: é impressionante a capacidade que o ser humano tem de renegar a sua própria personalidade, anular-se totalmente e cultivar a mais patética insanidade. Alguns dos personagens deste livro são exemplos perfeitos de seres humanos que perderam tudo quanto se possa considerar “vontade própria” ou personalidade. E essa “desconstrução” do ser humano é assustadoramente possível. Basta que se cultive a ignorância e a estupidez. Será a estória contada neste livro apenas uma comédia de ficção científica? Ou não estaremos nós perante, bem no centro do nosso mundo, alguns fenómenos de estupidificação crescente? Não caminhará o nosso mundo para a mais absurda estupidez? Receio bem que sim…
O livro está disponível aqui: 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A Fenda - Doris Lessing


A Fenda é um livro profundo e complexo. Mais do que uma narrativa, é uma reflexão sobre a importância das relações entre homens e mulheres na origem e evolução da humanidade.
O enredo é narrado por um aristocrata romano do tempo de Nero.
A visão feminista de Lessing, de uma forma muito inteligente, começa por fazer uma ligação clara entre a mulher e a terra: a Fenda é uma referência à anatomia feminina mas também a um acidente geográfico do local onde vivia a comunidade: uma fenda sagrada, onde eram executados sacrifícios sagrados.
Uma comunidade primitiva, estranhamente composta apenas por mulheres dava à luz sem intervenção masculina. Todos os bebés assim gerados eram do sexo feminino. Até que um dia acontece o impensável: nasce um rapaz. Ou melhor, um Monstro, como lhe chamaram, devido a certas protuberâncias anatómicas que exibia. Essa anatomia levou a que os Monstros fossem também conhecidos pelos Esguichos. Estava quebrado o equilíbrio. Em breve se gerou uma nova comunidade, só de Esguichos e começa a odisseia das relações entre os dois grupos; uma relação que evoluirá entre o encantamento e a “guerra dos sexos”.
Esta visão mais ou menos histórica da origem da humanidade levar-nos-ia, pela lógica das cronologias, ao Paleolítico; no entanto, todas as pistas que Lessing nos deixa sobre essa cronologia, levam o leitor a situar o enredo nos primórdios da civilização grega. De facto, muitas das realidades descritas têm como referentes claros alguns aspetos da mitologia grega. Por exemplo:
- a época em que só as mulheres (Fendas) representavam a espécie humana é vista como uma espécie de “Idade do Ouro” primordial.
- as águias são encarregadas de transportar os rapazes para a comunidade masculina, logo que nasciam das Fendas. Este papel vai-se tornando, ao longo do livro, o de justiceiras, apelando sem dúvida para a águia do mito de Prometeu.
- A comunidade feminina faz lembrar o episódio da fuga para a ilha de Lesbos por parte das mulheres de Atenas.
- Os sacrifícios rituais e a morte dos bebés rapazes praticada pelas Fendas tradicionalistas faz referência à tradição de infanticídio nalgumas comunidades gregas primitivas, sendo a de Esparta a mais conhecida.
Globalmente, parece nítida a visão feminista desta obra. Pessoalmente, penso que Lessing vai muito além disso. O bucolismo e a ausência de um conceito de moral à maneira romana ou judaico-cristã colocam esta comunidade primitiva sob uma moral natural que contrasta claramente com o mundo vivenciado pelo narrador, um Romano que, ainda assim, considera a sua sociedade como “devassa”. Quer dizer, Lessing parece encarar a história da humanidade como um caminho desde essa moral natural até às formas mais modernas de moralismo.
As “Velhas Elas”, conservadoras, têm nessa comunidade um papel fundamental como elemento conservador da sociedade; no entanto o seu poder é claramente posto em causa pelas mulheres jovens e as relações mais abertas com a comunidade masculina acabam por triunfar.
Por outro lado, temos a importante questão do poder: depois de se tornar real a união entre as comunidades de homens e mulheres, o primeiro líder é um homem. E todos, incluindo as mulheres, aceitam o seu poder de uma forma natural. No entanto, por mais poder que esse homem tenha, ele vive atormentado por uma dúvida permanente: “o que vai ela pensar disto?”

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A melhor leitura de Abril

Desta vez foi muito difícil escolher a melhor leitura do mês.
O segundo volume de 1Q84 não me entusiasmou tanto como o primeiro mas, mesmo assim, é uma obra genial.
Embora sem ser uma obra de grande fôlego, O Milagre de São Francisco foi uma leitura deliciosa. Um livro singelo e de uma humanidade tremenda.
A Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza é um marco histórico na literatura espanhola. Um livro magnífico sobre o tempo mítico de uma cidade de Barcelona que, há pouco mais de 100 anos começava a lançar as bases da metrópole que hoje é.
E Gaibéus, de Alves Redol é talvez um dos maiores marcos dessa geração magnífica de escritores neo-realistas que marcaram o século XX português.
Dito isto, a escolha, embora difícil acaba por recair no grande mestre japonês:


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Aviso à navegação

Quando um crítico literário disser que um determinado livro é mau, avisem para eu comprar.