
Num país em que se lê tão pouco e em que se acusa os jovens
(por vezes injustamente) de lerem pouco, é com enorme satisfação que assisto ao
sucesso destes livros em boa hora editados em Portugal pela Porto Editora.
Entre os jovens e adolescentes, tão grande tem sido o
sucesso desta coleção CHERUB que me decidi a experimentá-la.
Esta primeira série é constituída por 12 livros, todos eles
versando a atividade de uma ficcionada agência pertencente aos serviços
secretos ingleses, cujos agentes têm uma caraterística peculiar: têm entre 10 e
17 anos de idade. A ideia de Robert Muchamore é genial: imaginar uma agência
secreta composta por jovens, de forma a tirar partido da sua facilidade de
aprendizagem e do inesperado da situação para os malfeitores. Os agentes
(querubins) são recrutados em lares de acolhimento e dispõem de uma sofisticada
preparação, numa academia preparada para o efeito: a CHERUB.
Como não pretendia ler a coleção toda decidi começar pelo
último. Percebe-se de imediato que não é necessário seguir a ordem de
publicação para se compreender o enredo. E
percebe-se também que estamos perante uma obra de grande qualidade.
A leitura deste volume fez-me pensar numa coisa: porque é
que a literatura tradicionalmente apelidada de infanto-juvenil faz tão pouco
sucesso em Portugal? Não andarei longe da verdade se concluir que tais obras
caem num pecadilho que não vemos em Muchamore: o de considerar, de certa forma,
os jovens como mentecaptos, apresentando enredos muito simplistas. Pelo contrário,
nesta obra, não só se respeita a
capacidade de raciocínio dos jovens leitores como lhes lança desafios de
raciocínio muito interessantes, para além de se aventurar em temas que, na
nossa mente tradicionalista muitas vezes consideramos “para adultos”.
Para além da muita emoção que o enredo proporciona é também assinalável
valor pedagógico da obra, ao envolver temas muito atuais e polémicos, como os
direitos das minorias e as opções sexuais dos jovens.
Muito interessante também a forma como se destaca um
problema grave que, infelizmente, é bastante esquecido nos nossos dias: o
aproveitamento político e principalmente económico que alguns poderosos fazem
das grandes catástrofes naturais, sempre em prejuízo dos mais desfavorecidos. É
assim neste volume, em que se denuncia o aproveitamento por parte do turismo do
terramoto e maremoto que assolou o sudoeste asiático e que foi justificação
para retirar terrenos às populações locais, que constituíam as suas fontes de subsistência,
transformando-os em luxuosos empreendimentos turísticos.






