sábado, 8 de fevereiro de 2014

Rafael - Manuel Alegre




 Sinopse:
Andará de casa em casa, de hotel em hotel, mudará o nome, mudará o rosto, deixará crescer o bigode, usará óculos sem lentes, um passaporte para os hotéis, outro para viajar, em cada novo documento um nome e uma profissão diferente, está clandestino dentro de si mesmo, perdeu os sítios, as referências, a identidade.
É ele e já não é, não usa o nome próprio, tem quatro ou cinco pseudónimos que são um ou outros, heterónimos do desaparecido que traz dentro de si, ora é francês, ora espanhol, ora argelino, ele é sozinho, não propriamente, como queria o outro, uma literatura, mas uma nova brigada internacional.

Comentário:
Rafael é, em grande parte, um livro autobiográfico. Nele Manuel Alegre exprime grande parte das angústias e dificuldades de um exilado no tempo do Estado Novo, como foi Rafael e como foi Manuel Alegre.
O exilado é aquele que escolheu uma das formas de luta mais difíceis que se pode imaginar, porque ele contará sempre com mais um adversário: ele próprio, a sua consciencia, o seu sentido do dever, a utilidade da sua luta, o significado das ideias que defende. E, acima de tudo, a certeza de um ideal que nem semrpe é inabalável. Tudo isto, por vezes, agravado pelo drama da queda dos ideais, como aconteceu com o desmascarar do Estalinismo em plena época de esperança.
Muitas vezes é apontado a Manuel Alegre o facto de nunca ter lutado na guerra colonial e ter optado pelo exílio em vez da luta no terreno, como fizeram outros heróis da resistência, como Álvaro Cunhal. No entanto, neste livro como em muitos outros testemunhos, Alegre mostra-nos como é fundamental o papel do exilado, o homem que vive e sofre longe daqueles que ama mas também longe daqueles que gostava de enfrentar.
Mas mais do que isso, mais do que qualquer leitura política, este livro é um testemunho poderoso da luta de um homem contra a sua própria solidão e contra o seu próprio destino. É um livro terrivelmente bem, escrito. Poucos em Portugal escrevem como Manuel Alegre: trazendo para a prosa toda a musicalidade da poesia, com frase diretas, simples mas de uma grande beleza. Por outro lado, o encanto da escrita de Alegre deve-se também ao assumir da subjetividade, a esse escrever com sentimento, com Alma, como pouco conseguem.
Finalmente, um aspeto que me agrada sobremaneira nestes grandes escritores da “velha guarda" da literatura portuguesa como Manuel Alegre ou Mário de Carvalho, é não caírem no pessimismo nem se refugiarem em tons de cinzento ou de negro, como forma de tornar as suas mensagens mais atrativas. Infelizmente, parece ser uma tendência dos jovens sucessos literários esconderem-se no dramatismo de faca e alguidar. Não é isso que faz Manuel Alegre; a sua escrita, sentida, límpida e objetiva não cai nunca no dramalhão nem no catastrofismo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

As Aventuras de Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle



Sinopse
As Aventuras de Sherlock Holmes, publicado pela primeira vez em 1892, reúne doze contos publicados inicialmente entre 1891 e 1892 na revista The Strand. Nesta colectânea podemos encontrar, entre outros casos, Um Escândalo na Boémia, que gira à volta da astuta Irene Adler, Um Caso de Identidade, A Faixa Malhada ou O Mistério do Vale Boscombe.

Sempre coadjuvado pelo inestimável Doutor Watson, Sherlock Holmes nunca deixa por resolver os casos que lhe são apresentados. Graças ao seu método lógico-dedutivo, Holmes consegue sempre surpreender os leitores com as suas deduções, recorrendo às coisas mais triviais para solucionar mistérios aparentemente insolvíveis, com a inteligência e a acutilância que o transformaram numa das mais brilhantes e fascinantes personagens da literatura policial.

Comentário:
O que dizer de um criminoso que rouba e destrói à martelada bustos de Napoleão? Este mistério, investigado e desvendado por Sherlock Holmes no primeiro destes contos, é bem revelador do segredo do sucesso de Arthur Connan Doyle: o mistério vem sempre servido com uma boa dose de humor. A criatividade com que o escritor cria os cenários mais incríveis é complementada com uma escrita bem-disposta, que diverte o leitor, ao mesmo tempo que o agarra num suspense, num mistério, enfim numa atmosfera de incerteza que poucos escritores conseguiram imitar até hoje.
É por tudo isto que Sherlock Holmes é um dos personagens mais bem concebidos da história da literatura: um investigador inteligente e humano, eficaz e divertido.
Por outro lado, é espantoso como o autor consegue enquadrar sempre a solução dos enigmas em aspetos triviais, coisas que estiveram sempre “à vista” do leitor. Um dos truques mais usados na má literatura policial é recorrer a elementos que nunca estiveram ao alcance de quem lê, para desvendar os enigmas, por exemplo, fazendo surgir como criminoso um personagem que aparece no decurso da narrativa, como se tivesse sido escondido do leitor. Connan Doyle foge de todo este tipo de subterfúgios, como se o leitor tivesse a chave do enigma perto da mão, desde o início da narrativa.
Enfim, um livrinho divertido, capaz de despertar as “celulazinhas cinzentas” acompanhado com uma boa dose de bom humor.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Desumanização - Valter Hugo Mãe




Sinopse
«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»

Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.
O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo.

Comentário:
Quando um escritor, para mais um autor jovem, escreve obras de arte como O Remorso de Baltasar Serapião ou A Máquina de Fazer Espanhóis, corre um grande risco: o de que as suas obras seguintes desiludam o leitor. Na verdade, a expetativa de um leitor comum, quando abre pela primeira vez A Desumanização, é alta. Os livros anteriores foram geniais; a capa do livro e a sua apresentação são excelentes, muito atrativas e até o que vem escrito nas abas e na contracapa, aumenta ainda mais a expetativa. É “o livro mais plástico de Valter Hugo Mãe”, diz-se aí. Não é. Nem é (longe disso) a sua melhor obra. Obviamente, para quem ler este livro sem conhecer os anteriores, este será um excelente livro. Mas a mim, leitor desprevenido, dececionou-me. Esperei demasiado de Valter Hugo. Erro meu. Devia ter partido de uma tábua rasa, em termos de expetativas, mas era difícil.
Nada disto significa que desaconselhe a leitura; pelo contrário. Para quem ainda não leu VHM aconselho que comece por este livro, para depois abordar as suas verdadeiras obras-primas, que são os livros que indiquei acima.
Por outras palavras, se não considero este livro genial, considero-o “apenas” muito bom.
Ao longo da leitura, há alguma inquietude que VHM vai instalando na mente de quem lê. Aparentemente, tudo é cinzento, melancólico, triste. Uma espécie de melancolia monótona, em tons angustiados de cinzento carregado e contínuo, feito do frio islandês e da tristeza nórdica. Sem sol, esta tristeza poética torna-se, por vezes, cansativa. O cenário islandês parece por vezes desnecessário; aquela tristeza é universal. Aquele desespero pela solidão, pela miséria e pela injustiça são, infelizmente, universais.
Um elemento genial neste livro é o contraponto entre o gelo e o fogo; os fiordes gelados e a boca silenciosa de Deus, o vulcão ameaçador e castigador, pairando sobre a impotência humana; uma espécie de goelas do inferno em contraste com a aridez da paisagem e a frieza dos corações empedernidos que rodeiam Halla, a jovem a quem morreu a irmã gémea, como se lhe tivesse morrido metade do seu ser.
Um outro aspeto interessante é o conceito de Deus; um Deus medonho, aterrorizador. A solidão, Deus e os monstros caminham em conjunto na vida de Halla. A solidão, os monstros e Deus constituem o lado negro da vida: a desumanização. A desumanidade é a solidão.