sexta-feira, 30 de maio de 2014

João Sem Terra - José-Augusto França


Sinopse:
João sem Terra segue-se, como fora anunciado, a Ricardo Coração de Leão. São dois romances independentes e nenhum deles é histórico. Um título provocou automaticamente o outro, em nomes de altas personagens da História – que no caso são apenas coincidências, ou nem isso. Ambos os romances, porém, tratam de Duas Vidas Portuguesas com o seu quê de inevitavelmente histórico, dos anos 1960 em diante. Depois de Ricardo, jornalista lisboeta em suas aventuras amorosas e políticas, de «coração de leão» em Portugal, conta-se aqui a história de João, jovem professor que, em 1965, partiu para Paris a escapar à guerra colonial. São vidas possíveis de uma História que foi vivida por todos nós – cá dentro ou lá fora...
in www.presenca.pt

Comentário:
Decidi-me pela leitura deste livro pela magnífica promoção do site da Presença mas, acima de tudo, pelo nome do autor. Recordo-me de ler e estudar José Augusto França na universidade, na sua qualidade de historiador da arte onde é, de facto, uma enorme autoridade intelectual.
Mas se enquanto historiador a sua obra me fascina, após a leitura deste livro de ficção já não poderei dizer o mesmo em relação à sua condição de escritor de ficção.
Como este foi o primeiro livro que li de J. A. França, talvez a minha opinião venha a modificar-se no futuro, mas para já deparei com um livro algo difuso: a mensagem, ou ideia-base do livro, até é bastante interessante: a solidão do refugiado político, do exilado, vítima do regime salazarista. Este tema, tão bem desenvolvido, por exemplo, em Manuel Alegre, é aqui explanado num enredo algo pastoso, lento, pouco atrativo. Maçador, mesmo. Cheguei ao final da leitura com aquela sensação estranha e desagradável de um livro cujo enredo se poderia ter resumido a meia dúzia de páginas. Isto para já não falar de um final em estilo de dramalhão, pouco convincente e, a meu ver, um pouco forçado. As condições em que se encontrava o protagonista não me parecem suficientes para justificar tal final.
Mas pelo meio ficam também coisas interessantes, como as descrições por vezes bastante poéticas dos locais percorridos pelo protagonista, nomeadamente a cidade de Paris com todos os seus encantos e as bucólicas florestas do interior de França, esse país que foi paraíso e salvação para muitos dos que tiveram a coragem de fugir à ditadura e recusar essa bestialidade que foi a guerra colonial.

domingo, 25 de maio de 2014

Beatriz e Virgílio - Yann Martel


Sinopse:
Henry, um escritor reconhecido, decide escrever um livro, meio ficção e meio ensaio, como forma de abordar todos os aspectos de um mesmo tema. Completamente desencorajado pelos seus editores, desiste do projecto e vai viver para outra cidade. Aí, contudo, continua a receber cartas de leitores e, um dia, um taxidermista escreve-lhe a pedir ajuda. Henry apercebe-se então de que estão ambos a tentar escrever sobre o mesmo tema. Um livro polémico e provocador, que confirma o autor de A Vida de Pi, o Man Booker Prize de 2002, como um dos mais surpreendentes escritores canadianos da actualidade
in wook.pt
Comentário:
É sempre ingrato voltar a um autor que se revelou genial num primeiro livro. Foi o caso de magnífico "A vida de Pi", um livro encantador que venceu o Man Booker Prize de 2002. Agora, doze anos depois, empreendi a leitura deste Beatriz e Virgílio sem conseguir desligar-me dessa memória. Por mais que o nosso cérebro saiba que não devemos fazer comparações, elas são inevitáveis e a verdade é que este livro não me encantou como acontecera com o seu antecessor.
No entanto, estou muito longe de considerar esta obra como um mau livro; por um lado, dececionou-me a fragilidade estrutural do livro, as hesitações narrativas e a forma titubeante como o autor entra no verdadeiro assunto do livro, com muitos rodeios e, aparentemente, com uma certa fuga ao âmago da questão.
Por outro lado, encantou-me o facto de o autor pretender e conseguir fazer uma abordagem diferente do holocausto. Talvez não haja assunto mais estafadamente abordado na literatura de ficção como o holocausto. Por ter consciência disso, o protagonista do livro é um escritor que tenta aquilo que o próprio Martel persegue: uma leitura diferente do referido fenómeno. E consegue-o de uma forma quase brilhante.
O livro assume uma curiosa forma de fábula, em que Virgílio e Beatriz (personagens da Divina Comédia de Dante, em que Beatriz representa a fé e Virgílio a razão) são, neste livro, respetivamente, um macaco e uma burra. Ambos são vítimas um drama absolutamente chocante que funciona como metáfora do holocausto. Ficção sobre a realidade, evidentemente; "A ficção talvez não seja real, mas é verdadeira." É esta perspetiva que justifica o recurso à metáfora; levar o holocausto ao domínio da ficção é elevá-lo, é perpetuar a memória: "Se a história não se transforma em estória, morre para todos exceto para o historiador." É que a realidade escapa-nos sempre... nós é que não podemos escapar dela. É por isso que o holocausto nunca será um tema estafado nem ultrapassado.
O sentimento contraditório que este livro me provocou, de um certo enfado por um lado e de admiração por outro repercute-se também na forma como enfrentei o final do livro: chocante mas tremendamente real, excessivamente dramático mas de uma beleza admirável. O escritor protagonista do livro, com tons marcadamente autobiográficos, enfrenta um poderoso personagem envolto em mistério, um especialista em embalsamamento de animais. Esse personagem enigmático, revoltante, monstruoso dá ao livro um caráter sombrio mas, ao mesmo tempo, carregado de simbolismo e de força. No entanto, algo soa a excessivo neste livro; algo barroco, mesmo, pelo drama mas também por uma estética que me pareceu algo pretensiosa.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O Signo dos Quatro - Arthur Conan Doyle



Sinopse:
Nesta nova aventura de Sherlock Holmes, Mary Morston, uma jovem governanta, recorre aos serviços do detetive para tentar descobrir o que aconteceu ao seu pai, que alguns anos antes desaparecera sem deixar rasto após ter regressado da Índia. Estaria o seu desaparecimento relacionado com as valiosíssimas pérolas raras que um remetente desconhecido enviava anualmente à jovem Mary, uma de cada vez? Depressa Holmes e o seu fiel companheiro, o doutor Watson, veem-se a braços com um caso de contornos bizarros envolvendo um terrível assassinato e um fabuloso tesouro perdido. E o que significa «o signo dos quatro», a estranha inscrição encontrada junto do cadáver? Terá Sherlock Holmes encontrado por fim um inimigo capaz de o suplantar? Os acontecimentos sucedem-se a um ritmo vertiginoso, e o detetive vê-se forçado a embarcar numa corrida contra o tempo para capturar o criminoso antes que este desapareça para sempre.

Comentário:
Ler Conan Doyle é um precioso último recurso quando nada mais apetece fazer ou então quando as obrigações da vida parecem querer devorar-nos o corpo e a alma. Nos períodos de stress, quando é preciso encontrar um escape de emergência, é bom ter um Conan Doyle à mão; quando nada mais há para fazer e a preguiça impera, um Conan Doyle é a solução; quando nos cansamos de ler estórias sérias, profundas, reflexivas e às vezes deprimentes, uma boa dose de Conan Doyle, três vezes ao dia, é remédio santo.
Ou seja: não há altura que não seja ideal para ler este Mestre, este senhor da literatura policial. Policial e não só, porque se Sherlock Holmes criou tantos fãs não foi só por ser mestre em deslindar crimes intrincados; foi porque o seu autor fez dele um dos personagens mais fascinantes de toda a história da literatura.
E Conan Doyle é muito mais que um escritor de policiais; é um dos maiores génios literários de todos os tempos.
Estou convencido que os maiores segredos do sucesso deste escritor são os seguintes: escrita objetiva, sem floreados, um doseamento correto da solução do enredo, sem guardar para o fim o tradicional desfecho "bombástico" e uma cultura geral fantástica que espalha pelos seus livros conhecimentos invulgares para aquela época.
Este livro é um testemunho claro do que acabo de escrever. As personagens são caraterizadas com mestria, criando imagens claras na mente do leitor; o enredo é simples sem cair no simplismo radical; a estória é envolvente porque despojada de descrições inúteis e reflexões enfadonhas; o mistério, esse, é o leitor que o vai desvendando, com "pistas" que o autor nos vai deixando a conta-gotas. É por isso que é tão difícil parar de ler Conan Doyle; porque é na mente de quem lê que se vai construindo a estória.
Neste livro, a aventura leva-nos até uma autêntica caça ao tesouro, com cenas emocionantes de perseguição no rio Tamisa, em que os barcos a vapor, alimentados pelo carvão, nos fazem lembrar as perseguições policiais de Hollywood com automóveis de grande potência a romper pneus no asfalto. Tudo em busca de um tesouro trazido de África, misteriosamente desparecido e que finalmente...
O melhor mesmo é ler...

domingo, 18 de maio de 2014

Bornal de Narrativas - José Fernandes da Silva

Numa vistosa e cuidada edição Calígrafo e com um magnífico texto de apresentação da autoria de José Manuel Mendes, José Fernandes da Silva voltou à narrativa curta. Em boa hora, digo eu, modesto e interessado leitor. Poeta por excelência, músico por paixão, professor por ganha-pão, este minhoto (de gema e orgulho) passeia pelas letras como se nascido entre as linhas de um qualquer tratado da arte de bem escrever.
Na verdade, um dos aspetos que mais impressiona o leitor é o cuidado na escolha das palavras, o esmero na adjetivação equilibrada, escapando sem esforço à verbosidade barroca que tanto por aí pulula. Por outro lado, é nítido o respeito pela linguagem popular. E também aí é interessante verificar como o autor escapa à armadilha da brejeirice: o seu sentido de humor é delicado, irónico e eficaz sem cair na facilidade da palavra atrevida.
Este humor delicado e refinado está, também ele, pejado de humanismo: a maioria das centenas de personagens do livro são dotadas de uma simplicidade e mesmo bondade humana, não escapando mesmo o meliante, o sacana que foge à lei mas que não passa do desastrado "pilha-galinhas" ou do hilariante trapaceiro mal sucedido. No prefácio a esta obra, o escritor Fernando Pinheiro atribui-lhe um tom moralista; eu não iria tanto por aí; esse moralismo talvez não seja mais do que a expressão dessa crença na bondade humana, num certo tom de Rousseau moderno.
Em termos formais, as narrativas que este livro nos apresenta têm o condão de manter as linhas do conto tradicional, linear, muitas vezes com final aberto que convida o leitor a imaginar desfechos, outras vezes com remates finais surpreendentes e outras vezes ainda com desfechos hilariantes como o da bela Liberata no conto Coisas da Natureza. O autor foge sempre, com mestria, daqueles finais inesperados, milagrosos, que retiram o tom realista à narrativa. Aqui tudo é natural como a própria vida; tudo é simples como os campos e os rios, os perfumes da erva acabada de cortar ou da água pura do riacho que dá vida a homens e bichos.
Esta estrutura de conto tradicional é servida por uma linguagem tremendamente visual: as descrições criam imagens claras na mente de quem lê e a sequência narrativa obedece sempre a uma lógica do "acontecível" que reforça o tremendo realismo dos cenários e das estórias.
Tudo isto leva o leitor a encarar estes contos de uma forma perfeitamente natural, como se de crónicas se tratasse.
Finalmente, uma referência a esse traço distintivo da obra deste autor: a ruralidade. Para José Fernandes da Silva, esta admiração pelo universo rural é a expressão do culto das raízes, dos valores ancestrais mas sem aquela sensação de perda e desencanto que carateriza muita da literatura sebastianista, "passadista" que por aí se encontra. Esta ruralidade é a expressão do caminho para a realização do ser humano que tenta escapar a este materialismo capitalista e selvagem em que nos encontramos mergulhados. O campo de outros tempos é o contraponto da cidade mergulhada na tirania dos mercados que hoje nos tenta subjugar.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Notas ao Acaso - Francisco F. Gomes


Não sou versado em poesia porque nunca cultivei esse gosto.
Mas até eu, que nunca fiz dos versos um prazer, fui capaz de sentir nesta escrita a beleza que há em palavras que são brisas do vento da montanha; em silêncios ouvidos entre versos; na musicalidade das rimas e, acima de tudo, na alma, no sentir que há nas palavras de Francisco F. Gomes.
Este é um livro modesto; não é Camões nem Pessoa, mas é alguém que sente e faz transpirar esse sentir para palavras cuidadas, meditadas e principalmente sentidas. É a voz da terra e a voz dos homens; é a voz do planalto, esse mundo mágico em que nasci, mas também o sentir e o sofrer das suas gentes, num Portugal enganado, perdido em veredas escuras de crises fabricadas e em centralismos egoístas. É o eco da terra e das árvores. É o sussurro de um rio só ouvido por quem sente a sua corrente no próprio sangue que lhe corre nas veias. É a voz do pescador que se sente extasiado ouvindo o silêncio que um qualquer Deus criou para que o homem desprezasse, na sua absurda ambição civilizacional.
Numa edição de autor, sem luxos mas com o brio simples de gente que ama e vive a terra, Francisco F. Gomes leva o leitor a viver as mais sublimes paisagens... as da terra e as da alma.
Uma poesia simples, singela, sincera e carregada daquilo a que podemos chamar de beleza natural. Porque a natureza também está na alma. Francisco Gomes é um viajante, mas nas suas páginas estão raízes: da terra que o viu nascer, no verde Minho que me criou. E também a terra que o acolheu: o planalto que me fez nascer, em terras de Miranda.
Foi com sentimento que li este livro, porque me fez reviver a infância ao correr silencioso e fresco do rio Cávado; mas foi também com a certeza de estar perante um desses poetas que nunca o pretendeu ser mas que o é por excelência. Porque poeta é aquele que fala verdade com a voz da alma.

domingo, 11 de maio de 2014

Encontro em Jerusalém - Tiago Rebelo


Sinopse:
Francisca e Afonso são um casal de repórteres de guerra que se conheceu na Terra Santa, em dias pautados pelo ruído dos Scuds iraquianos, a que o autor poeticamente chamou «dias de pólvora». Mas os clarões que em 1991 incendiavam os céus de Jerusalém e de Bagdad perdiam todo o seu fulgor perante a luminosidade quase incandescente da paixão que unia os dois repórteres. Muitos outros cenários de guerra testemunhariam o amor, o entendimento pleno que os tornava tão íntimos e felizes. Mas a proverbial inveja dos deuses não tolera uma felicidade em estado puro, e a sua intervenção não se fez esperar. Francisca e Afonso iriam ter pela frente a mais dura prova à intensidade da sua paixão. Com o sugestivo título "Encontro em Jerusalém", o mais recente livro de Tiago Rebelo conquista-nos de forma imediata e incondicional através de uma narrativa que concilia autenticidade e arrebatamento na justa medida, e que nos deixa absolutamente rendidos ao seu subtil poder de encantamento. Baseado nas experiências das reportagens de guerra do escritor, nomeadamente em dois dos conflitos que mais marcaram a década de 90 — a Guerra do Golfo e a Guerra da Bósnia —, "Encontro em Jerusalém" surpreende-nos pela extraordinária riqueza e verosimilhança dos cenários, de um rigor documental, e das personagens que neles se movem, e revela-nos ainda o conhecimento profundo que o autor tem dos ambientes socio-políticos descritos.
in www.wook.pt

Comentário:
É complicado fazer um comentário a este livro. O motivo é aparentemente simples: na minha opinião há neste livro dois polos opostos, como se estivéssemos a falar de duas obras diferentes: uma crónica de viagens e uma história de amor. Na verdade, como crónica de viagens e, ao mesmo tempo, como memória histórica, é excelente. Já como estória de ficção redunda numa narrativa linear, simples, enfim, a estória já mil vezes contada dos repórteres que se apaixonam num cenário de guerra e que acabam casados mas desunidos pelas feridas que a guerra deixou, para tudo terminar no mais belo e banal final feliz, típico das mais eficazes novelas cor de rosa.
E não vale a pena falar mais deste livro como obra de ficção.
O grande mérito deste livro é a sua dimensão jornalística; é o testemunho realista e muito bem escrito, com essa objetividade típica da escrita jornalística, que nos presenteia com uma excelente síntese do conflito israelo-árabe, da primeira e segunda guerra do golfo, do drama da Faixa de Gaza, com o interminável confronto entre palestinianos e israelitas, com os EUA a desempenhar o seu papel de manobrador de marionetes. No entanto, é sobre o conflito nos Balcãs que o autor consegue o seu melhor desempenho, dando ao leitor pouco informado um quadro muito claro do que foi esse terrível conflito que marcou a reta final do século XX. Aí, o drama dos civis inocentes, dizimados pelas armas de cobardes encondidos atrás de difusas ideias políticas, testemunham o que de mais pérfido há na natureza humana: precisamente o desprezo pelo seu semelhante. E, mais uma vez, a hipocrisia cobarde dos poderosos, dos "donos do mundo" assistindo impávidos ao horror.
Por outro lado, Francisca, a repórter fotográfica testemunha essa tirania da imagem, em que a humanidade parece ter mergulhado: tudo se faz por uma imagem, mesmo que isso implique sofrimento e morte.
Enfim, um livro que me marcou profundamente pela abordagem clara e objetiva de assuntos muito sérios mas que fica aquem das expetativas como obra de ficção. 
Mesmo assim, é um livro que se recomenda vivamente.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Ciganita - Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes, esse enorme génio literário, não escreveu só esse livro intemporal que é o D. Quixote. Da sua obra destacam-se doze narrativas curtas, as Novelas Exemplares, onde podemos encontrar este A Ciganita.
Logo na primeira página, deparamos com afirmações polémicas  e mesmo chocantes: com todas as letras, Cervantes afirma que os ciganos são um povo de ladrões e que essa é a única forma de vida que conhecem.
Obviamente, isto haveria de provocar diferentes leituras. Alguns, mais simplistas, encaram esta afirmação como uma constatação lógica, alimentando uma perspetiva xenófoba que Cervantes partilharia. Outros, no entanto, lêm esta afirmação num contexto de ironia. O certo é que, a meu ver, esta segunda perspetiva é confirmada pela leitura do livro; os ciganos de Cervantes não são apenas os ladrões que ele próprio enuncia. Esta aparente contradição faz parte de toda a lógica de Cervantes enquanto escritor e que viria a desenvolver magistralmente no D. Quixote: a arte da caricatura social. Estes ciganos são ladrões mas também amantes da natureza, da justiça natural, da igualdade de direitos entre os indivíduos e, acima de tudo, construtores de uma sociedade sem grupos sociais, sem desigualdades, ao contrário da sociedade "civilizada" da Espanha do século XVII. O roubo é encarado apenas como um modo de vida, fruto de uma sociedade (já naquele tempo) marcada pela injustiça social.
Obviamente, A Ciganita é também uma estória de amor e talvez tenha sido com essa intenção única com que foi escrita; portanto, é um livrinho pouco ambicioso que não tem qualquer comparação possível com o D. Quixote. É um livrinho agradável, que se lê  num par de horas mas que pode convidar o leitor desperevenido a interpretações apressadas e algo perigosas.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Lavínia - Ursula K. Le Guin


Sinopse:
Como leitora da Eneida, de Virgílio, Ursula Le Guin escolheu esta figura silenciosa, a segunda mulher de Eneias, para protagonizar este romance, que é a sua homenagem à epopeia de Virgílio. Lavínia passa a narradora deste romance, contando-nos a sua infância e juventude idílicas, num mundo pré-helénico e pré-romano, cheio dos mitos e dos ritos que o sagravam, fala-nos dos homens que a cortejaram até que Eneias chegasse e, como em Tróia por Helena, uma guerra começasse, por ela. Um romance de uma rara qualidade poética que tem tanto de histórico como de mítico.
in www.presenca.pt

Comentário:
A literatura fantástica está na moda, mas ao depararmos com livros como este somos levados a pensar que sempre esteve na moda. Este livro, publicado pela primeira vez em 2008, é uma obra notável no domínio da fantasia. Isto porque um excelente livro não pode nunca restringir-se a um género ou a um rótulo. Portanto, este Lavínia é muito mais que uma obra de literatura fantástica.
Antes de mais, parte de uma ideia notável: continuar e como que "terminar" a Eneida que se diz ter ficado incompleta. Na verdade, agarrando as réstias de verdade história que ainda pode haver sobre os tempos nebulosos situados antes da fundação de Roma, Ursula Le Guin preenche essas lacunas com a encantadora história do imortal Virgílio e com a sua própria imaginação. Lavínia, mulher de Eneias, não teve direito a toda a sua história na Eneida. O poeta não terá tido tempo de completar a sua vida no imortal poema épico. A autora envereda então por um caminho narrativo verdadeiramente peculiar: coloca o próprio Virgílio dentro de livro, seguindo os passos da personagem que ele próprio criou, Lavínia, interagindo no próprio enredo. Criador e criatura num mesmo plano. A ideia é genial e resulta numa narrativa peculiar, cheia de emoção e, acima de tudo, muito bem escrita. A prosa de Ursula Le Guin tem um tom poético que embala quem lê, num percurso pelas florestas encantadas do passado mítico de Roma. Nesta escrita "lê-se" a paixão da autora pelo tema, a emoção de quem escreve com prazer, deleitando quem lê.
Sabinos, Etruscos, Latinos, bem como os estrangeiros troianos e gregos preenchem um mosaico encantador, envolvidos numa névoa de misticismo, nas míticas florestas do Lácio. Todo o livro vem perfumado de uma religiosidade natural, de um tempo em que os Deuses comandavam os destinos dos homens e não o inverso, como a partir de certa altura pareceu tornar-se comum. Aqui são os oráculos e os presságios que determinam o destino das personagens e dos povos. Mas esta religiosidade envolve um respeito e uma veneração pela própria natureza que nos faz sentir angustiados perante a relação tirânica que o homem, no decorrer do processo histórico, parece ter implantado em relação a esse mesmo ambiente natural.
O que realmente há de mágico neste livro é a sensação de que a personagem principal, Lavínia, tem consciência que a sua vida é pura imaginação do poeta; como se a realidade passasse a existir como fruto da própria ficção. É esta magia que torna este livro único. O que lhe falta para ser uma obra-prima? Talvez alguma incerteza no desenrolar e no desfecho da narrativa; algum "suspense". Mas nem por isso deixa de ser uma obra genial.

sábado, 3 de maio de 2014

A Trança de Inês, na opinião da Joana Malheiro

Abro aqui um cantinho "à parte" no meu blogue para dar voz à gente nova. A primeira dessas vozes é da Joana Malheiro, de 14 anos de idade, que leu A Trança de Inês, esse livro delicadíssimo e delicioso da saudosa Rosa Lobato de Faria.
Aqui fica, portanto, o comentário da Joana.

Esta é uma história baseada essencialmente no mito de Pedro e Inês, na qual a autora narra três períodos que se desenrolam em simultâneo, colocando Pedro, o protagonista, a viver três realidades diferentes, uma no passado, outra no presente a terceira no futuro, em 2090, onde as pessoas são a favor da natureza ser preservada a todo o custo e o ser humano individualmente não tem valor. As reencarnações e recordações destas histórias atormentam Pedro, que está internado num hospício.
Tal pomo no romance original, Pedro escolheu a paixão que sentia por Inês como destino.
Joana Malheiro

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O Retrato - Nikolai Gogol

Sinopse:
Este O Retrato é o mais romântico dos "Contos de Petersburgo",quanto mais não seja pelo tema central - o pacto com o demónio. É também uma profunda reflexão sobre a vida e a arte (a arte imitação da natureza ou imitação de Deus?), prefigurando o grande dilema da vida e da obra do próprio Gogol, do seu próprio destino: vamos encontrar em O Retrato o delineamento das grandes contradições que envolveram a criação de Almas Mortas, a grande hesitação e finalmente o repúdio da segunda parte deste livro, a queima da obra espúria, etc.
É também, evidentemente, um conto sobre a sociedade castradora - Petersburgo. Desta vez, é um pintor que se vê privado do seu talento por obra do excesso de realismo e da ambição de glória e riqueza que nele desperta a cidade... Tal como nos outros Contos de Petersburgo com Gogol quase acreditamos que o mal não é russo e que Petersburgo não é Rússia: aqui, entre os pobres cinzentões de Kolomna (bairro periférico a oeste de Petersburgo), o diabo é ardente, agiota e estrangeiro.
Filipe Guerra, em www.almedina.pt
Comentário:
Os russos têm destas coisas. Principalmente os escritores russos do século XIX: Gogol é considerado um dos fundadores do chamado realismo russo. Mas parece-me que é muito mais que um escritor realista. Passo a explicar: se, pela análise social e pela escrita objetiva, direta, ele reflete essa onda a que se chamou realismo, a abordagem psicológica aproxima-o de um Dostoievski e a abordagem nas margens do fantástico confere-lhe um halo de pioneirismo na literatura da Rússia, se bem que a essa abordagem se possa atribuir o inevitável e confortável carimbo de "romântico".
Na verdade, é pouco comum nos escritores deste imenso país esta tendência para o fantástico. O velho retratado, com  o seu olhar demoníaco, facilmente prende o leitor como prendeu o interesse do jovem pintor, enfeitiçado pelo seu brilho.
No entanto, este conto de Gogol vai muito além de uma incursão "realista" pelo fantástico: a luta interior que o pintor trava, entre a força do seu talento e a pressão social, manifesta um conflito que ainda hoje é tão discutido: deve a arte submeter-se à ditadura daquilo que o público pede? esta questão ainda há pouco foi por mim abordada neste blogue a propóstito de um livro de Stephen King: o escritor, como o pintor, são muitas vezes tentados por aquilo que o público lhes exige, hipotecando toda a criatividade e talento.
O pintor Tcharkhov, como tantos escritores atuais, vendeu o seu talento; ele próprio "vende-se" à tentação demoníaca do sucesso fácil, desprezando a própria arte.
Por outro lado, Gogol agarra esta ideia como forma, também, de pôr em causa toda a ignorância e futilidade das classes mais poderosas. Não podemos esquecer que este livro foi escrito em plena era czarista, numa sociedade já decrépita, dominada pelos senhores que exploravam os mujiques e que viriam a ser a causa da revolução soviática, umas décadas depois. Nestas páginas de Gogol, como em tantas outras de Tolstoi ou Dostoievski anunciavam-se tempos de mudança. O obscurantismo não poderia durar eternamente. Os interesses económicos e politicos que justificavam a servidão quase feudal cavavam a sua própria sepultura. No entanto, pelo caminho, a arte e a inteligência iam sendo espezinhadas. Será que hoje, mais de um  século depois, não estaremos a seguir o mesmo caminho?
Sem dúveida, um livro que merece ser lido. E pensado. E por falar em interesses eonómicos: encontrei este livrinho numa edição da Quasi, numa daquelas bancas de livros "low-cost" por... um euro!!! Mais uma prova de que a arte, afinal, não tem preço.

domingo, 27 de abril de 2014

Augusto Abelaira - Outrora Agora

Sinopse:
Um homem e três mulheres: o masculino pulverizado nos seus avatares femininos, espelhados em três dimensões temporais que se entrecruzam e se sobrepõem, explorando intensamente as possibilidades da linguagem, da ficção, dessa outra ficção que é a vida. Um círculo que se fecha em torno de um homem que puxou talvez depressa demais o fio do destino. Será afinal esse cerco de seduções, a implacável dança das Parcas?
 Mas porque detrás deste fascinante microcosmo de palavras - com a sua perturbadora carga de realidade - se encontra um arquiteto jocoso, este é também um romance em que os grandes temas, as grandes interrogações, mas sem as grandes palavras, se deduzem de conversas banais. Um romance admirável.
in www.presenca.pt

Comentário:
Poucas vezes um escritor terá conseguido com tanto brilhantismo aliar a expressão do pensamento ao discurso direto do protagonista. Jerónimo fala, ouve e pensa. A expressão desses atos é como que uniformizada, transformada num discurso único. Afinal de contas, é assim que todos procedemos: falamos, ouvimos e pensamos em dimensões que caminham em conjunto, interferindo umas com as outras.
Esta mescla entre o falado e o pensado é, portanto, muito mais do que uma questão formal, é o realismo máximo na passagem do plano psicológico para a expressão oral do personagem e escrita do romancista. Brilhante, sem dúvida.
Se em termos de estilo estamos perante uma obra brilhante, o certo é que também no que se refere ao tempo do livro, deparamos com uma abordagem notável da vida humana; de como os diferentes tempos da vida se misturam, de como as diferentes realidades confluem para um tempo real, o presente, resultado de múltiplos percursos, mas também múltiplas perceções que, no fundo, confluem para uma única realidade.
Jerónimo amou Cristina como, trinta anos depois, haveria de amar a Filomena. No entanto, Cristina e Filomena parecem ser a mesma mulher em tempos diferentes.
No fundo, todas estas realidades diversas entrecruz-am-se por ação do pensamento. Aqui deparamos com uma profunda questão filosófica: a do primado do pensamento. Afinal, o mundo parece só ser real na medida em que foi (e é) pensado.
Na crise dos sessenta anos, Jerónimo revive no reencontro com Cristina toda a luta face ao regime fascista. No entanto, em plenos anos 90, a censura que outrora era exercida pelo regime parece ser agora exercida na mente de Jerónimo pelo seu próprio pensamento. Mais uma vez, o primado do pensamento! Neste caso, o pensamento como incómodo, como as moscas que Lutero entendia como criações do demónio para o impedir de meditar.
Em conclusão: estamos perante uma obra cheia de talento, de um escritor criativo, inteligente e, acima de tudo, profundamente reflexivo sem, no entanto, adormecer o leitor com considerações abstratas; o que está em causa é a vida e a natureza do pensamento humano. Um livro notável, um escritor notável que só agora descobri.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Os Olhos do Faraó - Boris de Rachewiltz e Valentí Gómez i Oliver

Sinopse:
Egito Antigo, ano de 2200.
Durante o declive do Antigo Império, que marcará o fim do Império Médio, Neferkara Pepi, que durante quase um século reinou sobre as "duas terras", está prestes a morrer.
O reino encontra-se numa situação dramática, o povo está à beira da sublevação, mas os cortesãos ocultaram esta situação do faraó. No entanto, o sacerdote e tesoureiro Ipwer, o homem com o coração honesto, irrompe no salão do trono para revelar ao soberano a dramática situação em que o reino vive.
O profundo dramatismo do relato de Ipwer comove profundamente o ânimo do faraó, que revive o seu passado, desde que subiu ao trono, com seis anos de idade.
As intrigas da nobreza para conseguir o poder, a rivalidade entre as cidades de Mênfis e Tebas, as disputas religiosas derivadas da crescente implantação do culto monoteísta de Horus e Amon-Ra, alternam com imagens de jardins exóticos, eclipses lunares, gatos mágicos, pigmeus dançantes e fantasmagóricas festas na margem do Nilo.
in livroseautores.blogspot.pt

Comentário:
Se não fosse por outra razão, valia bem a pena ler este livro por nos explicar como se deu a domesticação dos gatos, pelos egípcios antigos. Para quem não sabe, o gato foi domesticado no país dos faraós há cerca de 4000 anos, vários milénios depois, por exemplo, da domesticação do cão. Para os egípcios, depressa o gato, com toda a imponência da sua personalidade e o seu ar misterioso se tornou um animal sagrado.
Mas este é apenas um dos aspetos da encantadora e misteriosa civilização egípcia, construída nas margens do sagrado rio Nilo e onde toda a natureza era sagrada.
Grande parte do encanto deste povo deveu-se à sua extraordinária relação de respeito e veneração pela natureza. A própria religião, com todos os seus rituais e crenças submete-se totalmente às forças naturais: os astros, por exemplo, conduziam a vida dos egípcios, anunciando presságios e augurios a partir dos quais eram tomadas as decisões mais importantes da vida individual e coletiva. Mas era o rio que comandava de forma mais vincada a vida deste povo. Era o rio que trazia a abundância, com as suas cheias que fertilizavam os solos ou então a fome, quando a inundação não era suficiente ou era excessiva. Daí a sacralização do rio.
Depois há todo aquele misticismo das pirâmides, da crença na reencarnação, da importância do embalsamamento, como garante da passagem à vida eterna.
Também em termos culturais este povo marcou de forma indelével os alvores da civilização; ainda hoje é difícil compreender como foi possivel construir aquelas gigantescas pirâmides. Um dos pontos altos deste livro é o momento em que os autores nos explicam que, afinal, há uma justificação objetiva para a lei da frontalidade, aquele estilo de pintura que tão estranho nos parece, em que as personagens são representadas com o rosto de perfil e o tronco de frente.
No fundo, o grande valor deste livro reside na verdadeira visita guiada que ele nos propicia ao Egito Antigo, mais exatamente ao reinado de Pepi II, o sexto rei da sexta dinastia, no século XXIII antes de Cristo. Aqui estão as intrigas políticas, as injustiças sociais, enfim, todas as misérias mas também todo o encanto da corte do faraó.
Onde o livro, de facto, falha, é na tentativa de construir um romance histórico. Na verdade, a narrativa de ficção é pouco interessante, deixando pouco espaço para a criatividade na construção de um enredo minimamente emocionante. Falta aquele elemento de imprevisto, aquele toque de ficção que normalmente envolve o leitor.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Diz que éuma espécie de TAG


Habitualmente, não costumo alinhar nestes passatempos embora lhes ache piada. Portanto, e porque me foi proposto pela Denise do Ler-te aqui ficam as minhas respostas.

1 – Preferias só poderes ler um livro por ano e saberes que ias adorá-lo ou leres vários e nãos gostares muito deles?
Ler muitos. Aliás, às vezes até gosto de ler maus livros 

2 – Preferias nunca poderes conhecer o teu autor(a) favorito/a ou nunca mais poderes ler mais livros do/a mesmo/a a partir deste momento?
Eu não tenho um autor preferido. Mas gostava de um dia vir a conhecer o Cervantes ou o Victor Hugo. E como já li os livros principais deles… 

3 – Preferias ser obrigado a ver sempre os filmes antes de leres os livros ou nunca veres os filmes?
Há filmes interessantes com argumentos de grandes livros mas em regra… que se lixem os filmes!

4 – Preferias matar uma das tuas personagens favoritas de sempre ou deixar um dos piores vilões escapar impune?
Vilões! Vivam os vilões! Que interesse teriam os livros que só tivessem anjinhos?

5 – Preferias ser um tributo nos Jogos da Fome ou que a pessoa mais importante para ti no mundo o fosse?
Presumo que o tribuno é o tipo que decide quem come e quem passa fome 
Não gostava de ser isso nem o desejo ao pior inimigo. A sério, tentei ver os Jogos da Fome e desisti antes do meio. Achei abominável, para ser simpático.

6 – Preferias que a tua série favorita de sempre nunca tivesse existido ou que o/a autor(a) nunca a conseguisse acabar?
Por favor, não façam isso à Abelha Maia!

7 – Preferias nunca ter conhecido esta comunidade literária na internet ou teres de deixar de fazer parte dela para sempre obrigatoriamente?
Preferia que vocês me expulsassem. Tipo: “Já para fora da internet, seu intruso descarado”

8 – Preferias que um livro que encomendaste chegasse a tua casa numa edição super feia, mas em óptimas condições ou que chegasse a tua casa na edição que querias, mas toda estragada, sem puderes reclamar?
Eu já li um livro em que as folhas estavam todas soltas. E adorei.

9 – Preferias que os teus livros, por conta de uma tragédia, ardessem ou se afogassem?
Isso só por cima do meu cadáver. Portanto, se isso acontecesse eu teria falecido. E na minha qualidade de falecido estar-me-ia marimbando para isso.

10 – Preferias rasgar a capa de um livro ou sujá-la com algo que não saia?
Ainda um dia hei-de barrar um livro com chocolate. Ou chantili. Rasgar nunca!

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A História Interminável - Michael Ende

Sinopse:
A História Interminável é uma singular fantasia épica com todos os requisitos do género: criaturas fantásticas, paisagens exóticas, florestas sombrias, encantamentos, rituais de cavalaria, espadas e amuletos, uma imperatriz Criança e tudo aquilo que possamos imaginar, visto que Fantasia é o próprio mundo da Imaginação. Tudo começa quando Bastian descobre um estranho livro numa não menos estranha livraria e se sente subitamente compelido a roubá-lo como se algo de mágico o estivesse a arrastar para uma perigosa aventura. Uma obra que passou ao grande ecrã como um filme de culto.
Comentário:
Esta é a principal obra deste escritor alemão que se dedicou exclusivamente à literatura de fantasia, especialmente para crianças e jovens. Trata-se de um livro publicado pela primeira vez em 1979 e que deu origem a um filme de grande sucesso, com música do mítico Giorgio Moroder, na voz de Limahl, o não menos mítico líder dos Kajagogoo, uma banda que marcou os nossos saudosos anos 80.
A obra inicia-se com um belíssimo elogio da fantasia; Bastian só gosta de livros de fantasia porque estes são os únicos que não tentam convencer ninguém. Em grande parte, este livro é um hino à alegria de viver, à procura da felicidade através da transposição das fronteiras comuns do tempo e do espaço; é preciso saltar para lá do visível, procurar portas de acesso a mundos sonhados. Mas é também um hino aos livros, único repositório onde se pode guardar o sentido da vida.
Se é verdade que são nítidas as influências de Tolkien não deixa se ser verdade que o enredo deste livro é riquíssimo. A imaginação do autor é prodigiosa, a começar pela caracterização das personagens, as criaturas fantásticas dessa terra imaginária chamada Fantasia.
Quando o nosso herói entra no livro, saindo do seu mundo limitado de aluno medíocre e adolescente fracassado, embarcando na aventura dentro da terra da Fantasia, ele encontra situações que só uma imaginação prodigiosa poderia criar. É esta imaginação que confere ao livro um tom verdadeiramente encantado, capaz de envolver crianças e adultos numa aventura fantástica e inesquecível.
Depois de, na primeira fase do livro, depararmos com todo este mundo encantador, a partir de certa altura o autor conduz-nos para algo mais sério; é que Bastian Baltasar Bux não cederá às tentações do poder. E a partir daí o autor leva-nos até assuntos bem mais sérios, como a natureza do poder e todas as consequência que daí advêm. E para salvar os dois mundos, o da Fantasia e o mundo dos homens, alguém terá de fazer a ponte o real e o sonhado. Só com essa união os homens poderão ser felizes, assim como os fantásticos seres de Fantasia.
Um pormenor interessante é o facto de em Fantasia não haver Bem nem Mal. Tudo aí é necessário, e tal como o tempo e o espaço também o Bem e o Mal são relativos…



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Misery - Stephen King



Sinopse:
Paul Sheldon é um famoso escritor de romances cor-de-rosa, tornado célebre pela personagem principal das suas obras, Misery Chastain. Porém, Sheldon entendeu que estava na hora de virar a página e decidiu «matar» Misery.
É então que sofre um terrível acidente de viação e é socorrido por Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que o leva para sua casa para o tratar. O que Paul não sabe é que Annie, a sua salvadora, é também a sua maior fã, a mais fanática e obcecada de todas — e está furiosa com a morte de Misery.
Ferido e incapaz de andar, totalmente à mercê de Annie, Paul é obrigado a escrever um novo livro para «ressuscitar» Misery, como uma Xerazade dos tempos modernos nas mãos de uma psicopata tresloucada que há muito deixou de distinguir a realidade da ficção.
Repleto de complexos jogos psicológicos entre refém e captor, Misery é uma obra de suspense e terror no seu estado mais puro.

Comentário:
Durante muito tempo resisti à leitura deste autor por não gostar do género. No entanto, aconselhado pela Andreia do Clube de Leitura Bertrand de Braga, decidi dar esta chance ao S. King. Terminei a leitura com um sentimento contraditório: por um lado confirmou-se o meu receio – é mesmo terror de faca e alguidar; por outro lado, é muito mais que isso.
Comecemos por aquilo que me desagradou: uma perna decepada à machadada; um polegar decepado por uma faca elétrica; um corpo despedaçado a golpes de machado… e o velho cliché da personagem que nunca mais morre, mesmo com a coluna vertebral desfeita…este cenário de talho e carniceiros não me agradou mesmo nada.
No entanto, este livro tem outro lado, esse sim, muito meritório: em grande parte, este livro pode ser entendido como um grito de lamento de um escritor de sucesso que está condenado a ser… um escritor de sucesso! Escrever grandes livros, de qualidade, não é possível simplesmente porque o público não quer. Se o escritor opta por uma obra em profundidade, uma reflexão séria e cuidada, o leitor comum rejeita porque apenas quer emoção e drama. Então, o que leva os escritores a optar pelo sucesso fácil não é só o lucro: é a pressão do próprio público que aqui é personificada de forma simbólica pela louca Annie Wilkes.
Outra das razões que me levou até este escritor foi o facto de ele ter sido o autor do argumento de um dos meus filmes de culto: Shinning. Pois nesse aspeto confirma-se a genialidade de King: o terror vai muito além das meras cenas de faca e alguidar; para além do que é vulgar neste tipo de literatura (a abordagem dos limites da mente insana) esta obra coloca-nos perante uma questão muito importante: até onde pode chegar o poder dos leitores. Nesta sociedade neoliberal, onde o consumo impera, estará o escritor condenado a uma espécie de escravidão do mercado? Parece que sim. Obviamente, o leitor comum não violenta o escritor como fez Annie, mas exerce um certo poder em forma de chantagem: se queres ter sucesso, escreves o que nós queremos. És livre para escrever boa literatura mas, provavelmente, ninguém te vai ler.
No entanto, parece também certo e seguro que os verdadeiros génios da escrita conseguem escapar a esta chantagem. Mas esses são em número muito reduzido. E S. King não está entre eles.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

A sul da fronteira, a oeste do sol - Haruki Murakami



Sinopse:
Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX, ao protagonista, que também faz as vezes de narrador, é dado o nome de Hajime, que significa «início». Filho único de uma normal família japonesa, Hajime vive numa província um pouco sonolenta, como normalmente todas as províncias o são. Nos seus tempos de rapazinho faz amizade com Shimamoto, também ela filha única e rapariga brilhante na escola, com quem reparte interesses pela leitura e pela música. Juntos, têm por hábito escutar a colecção de discos do pai dela, sobretudo «South of the Border, West of the Sun», tema de Nat King Cole que dá título ao romance.
Mas o destino faz com que os dois companheiros de escola sejam obrigados a separar-se. Os anos passam, Hajime segue a sua vida. A lembrança de Shimamoto, porém, permanece viva, tanto como aquilo que poderia ter sido como aquilo que não foi. De um dia para o outro, vinte anos mais tarde, Shimamoto reaparece certa noite na vida de Hajime. Para além de ser uma mulher de grande beleza e rara intensidade, a sua simples presença encontra-se envolta em mistério. Da noite para o dia, Hajime vê-se catapultado para o passado, colocando tudo o que tem, todo o seu presente em risco.  
in www.wook.pt
Comentário:
Esta é uma das obras aparentemente mais simples e linear deste génio da literatura japonesa. A fantasia oriental, o encanto exótico e a sensualidade misturam-se de forma genial com uma crítica social e política bem marcada.
Os gatos e a música são elementos aparentemente secundários que parecem fazer parte de todo o universo literário de Murakami e este livro não é exceção. O título, encantador, baseia-se mesmo num tema musical de Nat King Cole. A música e a literatura num todo coeso que é a arte. É música que vai testemunhando todos os momentos fulcrais da vida do protagonista, Hajime, talvez caraterizado com alguns traços autobiográficos.
No entanto, o aspeto mais marcante do livro é a importância das fronteiras que o ser humano traça na sua vida.
Há fronteiras em tudo quanto constitui a nossa vida; e algumas dessas fronteiras são bem difíceis de reconhecer; é o caso da eterna separação possível entre o Bem e o Mal. Hajime tenta ser uma pessoa honesta, frontal, coerente. No entanto, sem que dê por isso, acaba sempre prejudicando alguém com as suas opções. O Mal é inevitável.
Outra fronteira fundamental e quase sempre impossível de reconhecer é a que separa a nossa juventude da vida adulta; toda a vida de Hajime ficou marcada pela dificuldade em reconhecer essa fronteira e pela forma como a sua infância determinou o seu destino. Afinal, a infância não é demarcável por uma linha de fronteira.
E, finalmente, a mais importante e a mais fatal das fronteiras: aquela como que delimitamos o nosso mundo concreto, rotineiro e banal, isolando o nosso sonho. O sul. A sul da fronteira há um destino de sonho; um mundo só acessível àqueles que arriscam deixar para trás o comodismo, o materialismo, o mundo pequenino do concreto e trivial. O problema é que a segurança está no trivial. Até quando poderá Hajime suportar o apelo do sonho que vem do sul da fronteira?
Aqui, o sul, o mundo do sonho é representado pelo elemento feminino de forma muito bela; ao longo da vida Hajime irá confrontar-se com os ecos de uma infância e adolescência onde se haviam semeado os sonhos; e eles têm nomes concretos: Shimamoto e Izume, as suas paixões juvenis.
A partir de meados do livro a narrativa evolui para um caminho algo diferente, onde os mistérios se adensam e vem ao de cima o aspeto mais encantador da escrita de Murakami: a naturalidade com que as coincidências surgem, como se o impossível não existisse. Assim, emerge aquele toque de fantasia poética que tanto embeleza a narrativa deste génio nipónico.
Perante um mundo capitalista que o oprime mas que lhe dá segurança, Hajime vai ser confrontado com o grande dilema: a felicidade só se consegue com a perda dessa segurança. Há um certo paralelismo entre esse conforto que o ser humano (a medo) procura e o mundo capitalista em que vivemos mergulhados. O capitalismo é visto como o mundo do comodismo, da imobilidade, mas também da exploração e da ausência de ética. Um mundo obscuro, cinzento, mas envolto numa aparência de felicidade. Terá Hajime a força para lhe resistir?

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Estórias Abensonhadas - Mia Couto



Sinopse:
Depois de Terra Sonâmbula estas estórias fazem regressar o imaginário moçambicano pela mão de Mia Couto. Se o romance deste autor moçambicano nos transportou para o universo trágico da guerra, estas breves histórias são flagrantes do renascer do país, depois da assinatura do Acordo de Paz. Reúnem-se aqui contos, alguns já publicados em jornal, em que se inscreve o mesmo estilo e a mesma capacidade de sonhar já consagrados em anteriores obras (Vozes Anoitecidas, Cronicando, Cada Homem é uma Raça, Terra Sonâmbula). Os contos já publicados foram, no entanto, revistos e alterados para publicação em livro. Em todas as estórias se reconhece o trabalho profundamente pessoal de recriação da linguagem, o aproveitamento literário da fala popular moçambicana e o pleno exercício da poesia.
In wook.pt

Comentário:
Antes de mais nada, o título: duas palavras magníficas. O termo “estórias” é uma palavra que gostava de ver mais usada quando nos referimos a literatura de ficção. “Abensonhadas” é uma palavra que exemplifica bem a poesia e a criatividade da escrita de Mia Couto.
Já poucos adjetivos me sobram para comentar uma obra deste grande escritor moçambicano. Resta-me talvez dizer que, na minha opinião, é o melhor escritor vivo da língua portuguesa.
Tal como acontece em todas as suas obras, também em Estorias Abensonhadas, Mia Couto brinca com a Língua Portuguesa de forma hábil e divertida; e nesses trocadilhos há uma poesia por vezes genial, como quando do sorriso de uma mulher se diz que “nem água fosse mais cristalinda”. É raro encontrarmos uma beleza como esta na língua portuguesa.
E depois há aquele toque de maravilhoso, de mágico, como no conto “O Cego Estrelinho”, em que o guia do cego, o miúdo Gigito, lhe inventa um mundo maravilhoso, se bem que todo ele inventado. No entanto, para que serve a realidade se podemos inventar mundos muito mais belos?
De notar que estas estórias foram escritas no final da guerra civil que assolou Moçambique. Mas é para lá da guerra que Mia Couto escreve; e para lá da guerra há a terra. A terra maravilhosa, imortal, a terra “perfumegante que semelha a mulher”; a terra sobre a qual cai a chuva que lava o sangue; a terra que é a “mãe das mães”. E o apelo da terra é tão forte que o velho Felizbento, que tem de ser deslocado por causa da guerra, não sai sem levar consigo a árvore da sua terra.
Uma referência para o conto “A Guerra dos Palhaços”. Trata-se de uma bela alegoria da guerra: dois palhaços simulam uma briga e a partir daí provocam uma verdadeira guerra na cidade; e depois de recolherem os seus lucros, vão provocar a mesma guerra noutra cidade…
Finalmente, um destaque muito especial para o último conto: cheio de uma inexcedível e singela beleza…