sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Ano da Morte de Ricardo Reis - José Saramago



  
Sinopse:
"«Um tempo múltiplo. Labiríntico. As histórias das sociedades humanas. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro de 1935. Fica até Setembro de 1936. Uma personagem vinda de uma outra ficção, a da heteronímia de Fernando Pessoa. E um movimento inverso, logo a começar: ""Aqui onde o mar se acaba e a terra principia""; o virar ao contrário o verso de Camões: ""Onde a terra acaba e o mar começa"". Em Camões, o movimento é da terra para o mar; no livro de Saramago temos Ricardo Reis a regressar a Portugal por mar. É substituído o movimento épico da partida. Mais uma vez, a história na escrita de Saramago. E as relações entre a vida e a morte. Ricardo Reis chega a Lisboa em finais de Dezembro e Fernando Pessoa morreu a 30 de Novembro. Ricardo Reis visita-o ao cemitério. Um tempo complexo. O fascismo consolida-se em Portugal.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"
(in wook.pt)

Comentário:
Morreu Fernando Pessoa. Ricardo Reis, seu heterónimo e médico renomado no Brasil, regressa a Portugal. Instalado num hotel de Lisboa, Reis recebe a visita regular de Pessoa, que sai do túmulo para esse efeito. Não é um fantasma; não é o corpo de pessoa; não é, no entanto, apenas espírito. É e não é; é, sem ser. Um fingidor, como sempre, este Pessoa.
É neste tom algo surrealista que decorre este magnífico romance de Saramago, o que se seguiu ao memorável Memorial do Convento.
Ao longo do enredo, Reis apaixona-se por Marcenda mas é Lídia, a criada de quarto quem lhe aquece a cama. O amor num triângulo. E o narrador, esse, constrói outros triângulos com outros vértices. Num certo sentido estamos perante um romance geométrico. Senão vejamos: um dos segredos do sucesso de José Saramago está na sua imensa capacidade de se colocar na mente dos personagens, revivendo-os, repensando-os e fazendo-nos entrar nas suas mentes. Narrado, personagem e leitor formam aqui o primeiro triângulo. Depois ele prolonga-se: a mente de Saramago transfere-se para a de Ricardo Reis: do prosador real para o poeta imaginado. E Reis formará esse outro triângulo, com Lídia e Marcenda.
A tudo isto assiste Fernando Pessoa; nem contente por sair da tumba nem infeliz por ter morrido; apenas um pouco perturbado por visitar a estátua de Camões e ter constatado que nunca lhe dedicou um verso; nem na Mensagem. Coisas da inveja, conclui.
À volta de Reis, o Portugal pequenino dos tempos de Salazar: a bisbilhotice, o boato, a beatice e, acima de tudo, o culto cobarde da denúncia; os bufos e PIDE, sempre bem emparelhados e o nojo de um inspetor que fede a cebola. Todo o génio de Saramago no apontar o dedo aos cancros deste país que foi pequenino para ele.
Um aspeto muito curioso desta construção que Saramago faz da personalidade de R. Reis é a sua total incapacidade no que ao amor diz respeito; coisa estranha para o autor da Odes. Ricardo é o espetador do mundo; o que assiste de camarote às desgraças do país. Conservador, ele fica perturbado com a realidade triste e hipócrita do país mas nada faz. O seu espírito conservador e monárquico prevalecem. E é neste contexto que surge o aspeto mais surpreendente do livro: Fernando Pessoa em desacordo com o seu homónimo: "você afinal desilude-me, amador de criadas, cortejador de donzelas, estimava-o mais quando você via a vida à distância que está".
Fernando Pessoa em desacordo consigo mesmo? Não. Fernando Pessoa como múltiplo de si mesmo. A grande pergunta que emerge na mente do leitor é esta: afinal de contas, quantos somos cada um de nós?

terça-feira, 23 de abril de 2013

Livros que mudaram vidas e mundos

Neste DIA MUNDIAL DO LIVRO decidi elaborar um top ten dos livros que, na minha modesta opinião, mudaram a história.
Afinal, resultou daqui um top 10 com onze livros, o que o torna ainda mais original.
Na infinidade de tudo quanto se escreveu até hoje, restringi a escolha a dois critérios: livros de ficção (porque só a ficção é fiável) e já lidos por mim (porque sim).
Aqui fica, portanto, a minha lista, por ordem cronológica.
1605 - D. Quixote - Miguel de Cervantes – o livro que é o pai da sátira social é também o progenitor de toda a literatura de ficção neste mundo ocidental da triste figura.
1857 - Madame Bovary - Gustave Flaubert – saudável ofensa à moral, a pedrada no charco da hipocrisia beata. Volta, Flaubert, estás perdoado!
1869 - Guerra e Paz – Lev Tolstoi – Ricos e pobres, todos miseráveis na luta pela vida perante a estupidez da guerra, esse monstro que nem Salvador Dali interpretaria num infinito surreal.
1879 - Os Irmãos Karamazov – Fiodor Dostoievski – Fiodor, o homem que mais fundo penetrou na alma humana! Uma viagem alucinante às profundezas dos mistérios interiores do ser humano. Épico!
1912 - A Metamorfose - Franz Kafka – O inseto homem, alienado, amordaçado, morto em vida pelos outros. Os outros, sempre os outros, esse Inferno de Sartre e de todos nós.
1921 - Ulisses – James Joyce – Obrigatório para qualquer leitor que, das duas uma, ou quer morrer de tédio ou sonha ser culto. Melhor será talvez fingir ser culto…
1924 - A Montanha Mágica – Thomas Mann – Mann, o filho de Goethe, irmanado com a melancolia germânica, espelho de uma Alemanha no caminho penoso de um desastre para uma hecatombe.
1942 - O Estrangeiro - Albert Camus – Mersault, meu caro Mersault, quão semelhante acho teu fado ao meu… quantos mundos por compreender… que todos, como Mersault, façamos o nosso mundo.
1959 - O Som e a Fúria - Wiliam Faulkner – Um livro que é força bruta, emanação da terra, grito de génio e uma grande barafunda para todas as mentes desprevenidas. O maior desafio de sempre na literatura mundial
1982 - Cem anos de Solidão - Gabriel Garcia-Marquez – Hino imortal a todos os milhões de Buendia do mundo, deserdados, atraiçoados, esfolados vivos pelo progresso.
De entre todos, o meu preferido é, sem sombra de dúvidas este:
imagem daqui: http://fernandajimenez.com/tag/quijote/

terça-feira, 16 de abril de 2013

Ensaio sobre a cegueira - José Saramago





Sinopse
Uma cidade é devastada por uma epidemia instantânea de "cegueira branca". Face a este surto misterioso, os primeiros indivíduos a serem infetados são colocados pelas autoridades governamentais em quarentena, num hospital abandonado. Cada dia que passa aparecem mais pacientes, e esta recém-criada "sociedade de cegos" entra em colapso. Tudo piora quando um grupo de criminosos, mais poderoso fisicamente, se sobrepõe aos fracos, racionando-lhes a comida e cometendo atos horríveis. Há, porém, uma testemunha ocular a este pesadelo: uma mulher, cuja visão não foi afetada por esta praga, que acompanha o seu marido cego para o asilo. Ali, mantendo o seu segredo, ela guia sete desconhecidos que se tornam, na sua essência, numa família. Ela leva-os para fora da quarentena em direção às ruas deprimentes da cidade, que viram todos os vestígios de uma civilização entrar em colapso. A viagem destes é plena de perigos, mas a mulher guia-os numa luta contra os piores desejos e fraquezas da raça humana, abrindo-lhes a porta para um novo mundo de esperança, onde a sua sobrevivência e redenção final refletem a tenacidade do espírito humano.
(in wook.pt)
Comentário
Em Ensaio Sobre a Cegueira não há nomes; não há luz; há uma espécie de apocalipse, um colapso coletivo, uma marcha inexorável para o abismo. O fim da humanidade como um imenso buraco negro. Um caminho, uma vida, tudo num enorme caos. Assim vai a vida, assim vai o mundo, os destinos, a gente que percorre a escuridão como quem persegue o inferno.
Uma humanidade inteira que escapa à sua condição de ser coletivo; apenas uns milhares, quiçá milhões de indivíduos como uma soma imensa de egoísmos. Não há solidariedade; não há como acreditar nos outros; há, isso sim, uma guerra perpetuada pela desgraça, um rumo negro chamado destino.
Cegos somos todos. Este mundo traçado por Saramago em pinceladas de escuridão não é mais que uma imensa e monstruosa metáfora da sociedade humana em que nos afundamos. Uma sociedade humana sem humanidade. Sem luz nem redenção.
Este é talvez o livro em que Saramago assume o discurso narrativo mais objetivo, mais concreto. A mensagem metafórica concilia-se de forma notável com a objetividade da escrita. Só um génio conseguiria esta síntese, esta simbiose entre a estória e a mensagem; entre o concreto e o subliminar; entre o mundo das imagens e o universo das ideias.
Mas ao longo do livro, misteriosamente, um enorme oásis de sentimento se vai abrindo, como uma grande mancha de sol: a esposa do médico, uma mãe coletiva, assume-se como o anjo protetor e traço de união entre os cegos.
Globalmente, estamos perante uma refinada crítica social; uma espécie de grito de revolta perante uma sociedade tipicamente entorpecida pelas estruturas burguesas capitalistas, que a conduziram a um individualismo extremo. A cegueira dos personagens representa a forma egoísta com que o ser humano se distancia do seu semelhante, transformando a sua própria vida numa imensa solidão.
Muito interessante e significativa, também a forma como Saramago explora o incremento da capacidade auditiva nos cegos. O poder do que se diz, das mentiras e boatos; a capacidade que o ser humano tem para acreditar e fazer acreditar em pseudoverdades que só contribuem para o desastre coletivo da sociedade em que nos encontramos mergulhados.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

A Jangada de Pedra - José Saramago


«Em A Jangada de Pedra (...) o escritor recorre a um estratagema típico. Uma série de acontecimentos sobrenaturais culmina na separação da Península Ibérica que começa a vogar no Atlântico, inicialmente em direção aos Açores. A situação criada por Saramago dá-lhe um sem-número de oportunidades para, no seu estilo muito pessoal, tecer comentários sobre as grandezas e pequenezas da vida, ironizar sobre as autoridades e os políticos e, talvez muito especialmente, com os actores dos jogos de poder na alta política. O engenho de Saramago está ao serviço da sabedoria.» (Real Academia Sueca, 8 de Outubro de 1998)
(in Wook.pt)

Comentário:

Li este livro há muitos anos; creio que há mais de quinze anos. Reli-o agora e encontrei nele um novo livro. Talvez porque nunca como agora este país tenha precisado de uma fuga para o mar.
A vontade de um povo transformada na vontade de uma península; nem a terra escapa à força de um povo. Portugal e Espanha não são, aqui, dois países. São um pedaço de terra insatisfeita com a sua condição de resto da Europa e um povo só, único e unido, na luta pela verdadeira independência.
Os conflitos sociais que daqui decorrem representam essa oposição tão enraizada no pensamento de Saramago: entre o povo e o poder instituído que não o representa e, pior ainda, se lhe opõe.
Este livro é o testemunho do iberismo que Saramago sempre defendeu mas é também um grito de revolta perante os caprichos do poder político de que ele próprio foi vítima, tanto em ditadura como em democracia.
A jangada cumpriu o seu destino: o mar, esse “mundo” que tantas vezes justificou o nosso ser português. E um dia parou; encontrou a sua identidade girando sobre si própria e, finalmente, estacionando, fixando-se como ilha. No entanto, Saramago deixa-nos em aberto a possibilidade de novas viagens. Talvez porque o nosso destino nunca se cumpra. Talvez porque o destino dos povos seja escrito página a página e não no determinismo com que tantas vezes encaramos o futuro.
Note-se que este livro foi escrito em 1986, ano em que Portugal aderiu à CEE, antecessora da atual União Europeia. Mas hoje, passados 23 anos, a discussão não terminou e muitos de nós continuamos a perguntar: que fazemos nós nesta Europa? É por isso que, por mais anos que passem, os livros de Saramago são sempre atuais.
Mas não se pense que este livro é uma obra sobre política. É um romance pautado pela sensibilidade humana com que Saramago sublinha todas as suas obras. De entre os vários personagens, sobressai a misteriosa Joana Carda que, com um risco feito no chão sente que determinou a separação da península. Quantos de nós não gostariam agora de fazer esse risco no chão? E pode ainda o povo fazer riscos no chão? Penso que sim e Saramago concordaria. No entanto, faltam as vontades. As vontades que talvez ainda estejam retidas num frasco de Blimunda.
 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Manual de Pintura e Caligrafia - José Saramago




Sinopse
«Um apego ao concreto. Uma obra tida como ímpar no género da literatura autobiográfica. Depois de ter investido, durante 30 anos, na poesia e na crónica, José Saramago regressa às origens e recupera o romance, género com que tinha iniciado a sua carreira. Aos 55 anos, inicia nova vida literária, que o irá transformar no mais conhecido escritor português contemporâneo. Carta de ideias e rumos. Os muros de Caxias. Um pintor a retratar as vicissitudes do quotidiano. Sabe que nunca acabará o segundo quadro. ""O retrato está tão longe do fim quanto eu quiser, ou tão perto quanto eu decidir"". Saramago e o homem no tempo e nas circunstâncias, nas luzes e nas sombras. Saramago em viagem. ""Verifico que mais fácil me foi ir dizendo quem era do que afirmar hoje quem sou"". Saramago de inquietações e interrogações, de luta política. A última página deste romance regista a queda do regime.» (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Comentário:
1947, 1977, 1980 e 1982 são datas fulcrais da carreira do nosso grande Mestre. Em 1947 publicou o seu primeiro livro, Terra do Pecado para depois se eclipsar como escritor até 1977, ou seja, trinta anos depois. É nesse ano que ele, com 55 anos de idade (!) começa a sua verdadeira carreira literária, precisamente com este Manual de Pintura e Caligrafia. Dois anos depois publicará esse maravilhoso Levantado do Chão, um livro a que alguns chamaram romance rural mas que eu prefiro encarar como um dos expoentes máximos do romance neo-realista. Mais dois anos depois, em 1982 surge o monumento maior da literatura portuguesa: Memorial do Convento.
Este livro é portanto, um marco histórico. Não é o melhor livro de Saramago nem nunca poderia ser; nota-se a incipiência do estilo, até uma certa timidez na criação de situações ficcionais. Sendo uma obra autobiográfica, notam-se algumas hesitações na relação entre realidade e ficção. No entanto, muitas dessas hesitações refletem outra realidade mais profunda: a dificuldade filosófica de separação entre a realidade vivida e o universo ficcional do escritor. Este tema, aliás, tornar-se-á recorrente em toda a obra de Saramago.
O livro narra-nos o percurso de vida de um homem que, em plena ditadura fascista, decide substituir a pintura pela escrita; H. era um pintor medíocre (ou, pelo menos, banal) que, desiludido com a sua arte começa a escrever um livro. No entanto, ele não consegue separar o livro da sua própria vida. É todo o drama da relação (ou contradição?) da vida com arte que vem ao de cima.
No entanto, subsiste na mente do autor um conceito de arte que não passa de uma dimensão da vida, mas uma dimensão superior; algo que supera, que ultrapassa, a própria vida. Saramago cita-nos neste livro o grande artista que foi Paul Klee: “um quadro que tenha por tema um homem nu deve compor-se de maneira que seja respeitada não a anatomia do homem mas a do quadro”. Quer dizer: a arte justifica-se a si própria e a realidade será a tal imitação da arte a que já Oscar Wilde fazia referência. A pintura e a escrita de ficção afinal, descobre H./Saramago, têm tudo em comum; numa como noutra, a relação entre sujeito e objeto é comandada por uma interdependência permanente em que o enredo (quadro pintado ou romance escrito) altera a mente do artista e vice-versa. Esta temática será retomada mais tarde, de forma mais sistemática, no livro História do Cerco de Lisboa.
Um outro aspeto que me parece importante neste livro é a conceção proletária do artista, por oposição clara à burguesia capitalista, mais chegada ao regime salazarista que vigorava, mesmo após a morte do ditador. Neste sentido, trata-se de uma obra como uma forte dimensão política. No entanto, como podia Saramago, um homem que sempre lutou pela liberdade, fugir ao contexto político?

domingo, 7 de abril de 2013

O Evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago




Sinopse:
"É a obra mais polémica de José Saramago e aquela que, indiretamente, o levou a sair de Portugal e a refugiar-se na ilha espanhola de Lanzarote. Ficou para a história o desentendimento com o então subsecretário de estado da Cultura Sousa Lara, que considerou o livro ofensivo para a tradição católica portuguesa e o retirou da lista do Prémio Europeu de Literatura. Com um José destroçado por ter fugido e deixado as crianças de Belém nas mãos dos assassinos de Herodes; com uma Maria dobrada e descrita, logo no início do livro, em pleno ato de conhecer homem; com um Jesus temeroso, um Judas generoso, uma Madalena voluptuosa, um Deus vingativo e um Diabo simpático, não era de esperar outra reação das almas mais sensíveis e mais devotas do catolicismo português. E verdadeiramente viperinas são as várias páginas onde o escritor português se entretém a descrever minuciosamente os nomes e a forma como morreram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Assim se escreveram os heréticos Evangelhos segundo Saramago, para irritação de muitos e prazer de alguns. Como convém." (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)"

Comentário:
Este livro tornou-se mais famoso pela sua “censura” do que pela sua real qualidade literária. Publicado em 1989 é uma enorme obra de arte, um exercício portentoso de criatividade artística, mas alguns pretenderam lê-lo e interpreta-lo como uma obra sobre religião. Trata-se do maior engodo em que pode cair um leitor desprevenido; no entanto, foi nesse engodo que caíram alguns políticos da época.
Foi em resultado dessa polémica que Saramago decidiu fixar residência em Espanha. É esta a atitude que muitas vezes Portugal adota em relação aos seus maiores génios: emigrem, dizem eles!
O aspeto que mais ressalta deste livro é a abordagem humana dos personagens; Jesus não é o filho de Deus; é visto, acima de tudo, como Homem, em todas as suas qualidades e fraquezas. Logo no início do livro, um pormenor paradigmático: quem visita o Jesus recém-nascido não são três reis com ouro, incenso e mirra; são três pobres pastores que oferecem leite, queijo e pão.
Os pobres e deserdados são as vítimas, mais que os eleitos ou os bem-aventurados; são os que choram por fora e por dentro; e às vezes o choro não tem remédio, é “aquele lume contínuo que queima as lágrimas antes que elas possam surgir e rolar pelas faces”. É a este sofrimento que Saramago presta homenagem num intenso poema cheio de humanidade.
Mas a leitura histórica de Saramago tem, por vezes, implicações bem atuais: a questão da luta pelo território, que tanto tem assolado a região da “Terra Santa” é constantemente questionada nesta análise. O povo de Israel matou e invadiu para conquistar a terra. Depois foi invadido. Antes, eram eles os estrangeiros. Agora quem são?
Em termos de religião, Saramago põe o dedo na ferida quando nos apresenta Deus como um ser castigador. Milhões de pessoas morreram em nome de Deus. Jesus foi apenas o primeiro de muitos. Jesus foi apenas um joguete nas mãos caprichosas de Deus. A culpa é o argumento de Deus; a culpa que se incentiva no homem, desde Adão. Mas a maior culpa que o homem carrega é a de se ter tornado um obstáculo à ação de Deus. Por isso o homem não pode ser livre. “O homem só é livre para ser castigado”.
Quanto a Jesus, o homem que viveu em pecado com Maria de Magdala, o homem que procurou contrariar Deus através da bondade, é esse Jesus cujo pensamento se aproxima de Saramago: o homem que diz, à revelia de Deus: “Se não dividires, não multiplicarás”.
Deus, pelo contrário, é apresentado como um aliado do Diabo: porque quanto maior for a glória de um, maior será a do outro.