segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Adolescente - Fiodor Dostoievski

Sinopse:
Adolescente (1874-1875) é o menos conhecido dos cinco longos romances produzidos por Dostoiévski entre 1866 e 1880, o seu período de plena maturidade literária. Escrito na primeira pessoa, é a história de um filho ilegítimo. Mais um herói humilhado e ofendido, que cresceu entre estranhos, sem quase ter visto a mãe nos seus primeiros anos de vida, e atormentado por uma existência parental «dupla» - o pai biológico e o marido de sua mãe, que lhe deu o nome - divisão acentuada ainda pela diferença de estrato social entre essas figuras parentais. A história de Arkádi é assim uma espécie de «educação sentimental», extremamente complexa pela multiplicidade de contradições que dividem o jovem. Todos os grandes temas de Dostoiévski estão aqui presentes: a luta entre o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, a degradação moral inerente à condição humana e a possibilidade de redenção...Dostoiévski evidencia nesta obra os sinais terríveis que são o reflexo dessa dicotomia em todos os estratos da sociedade russa nos meados do século XIX.
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Comentário:
Esta é uma das obras mais complexas de Fiodor Dostoievski. Ao longo do livro, deparamos com uma personalidade muito complexa, a do jovem Arkadi, que Fiodor explora com a precisão de um relojoeiro. Nesta obra, mais do que em qualquer outra do génio russo, a alma e o cérebro do protagonista são esmiuçadas até ao limite, revelando-nos algo de extremamente complexo: uma personalidade perdida entre impulsos e emoções, uma inteligência que se esvai paulatinamente, perdida entre esses impulsos emotivos que traem qualquer racionalidade.
Nunca gostei do título de mestre do romance psicológico que vulgarmente é atribuído a Dostoievski, porque tal atributo é manifestamente redutor. Mas o certo é que se há obra em que essa designação pode encaixar, é esta. O próprio enredo parece ser deixado em segundo plano; ou melhor: o enredo serve apenas para reforçar toda uma abordagem psicológica do comportamento de Arkadi; o enredo é a expressão das hesitações, dúvidas e impulsos do jovem. É por isso que este livro pode ser considerado maçador por alguns leitores mais impacientes: a ação decorre de forma muito lenta.
Um dos motivos que me leva a considerar Fiodor um génio ímpar é a forma como ele lê e interpreta a alma humana. Ao ler estas páginas, ficamos com a sensação que Fiodor leu e estudou profundamente as obras de Freud. No entanto, ele viveu várias décadas antes da publicação das obras do fundador da psicanálise. E os fenómenos descritos por Freud, como a neurose ou o peso dos traumas de infância na vida das personagens, estão lá, em todas as obras de Fiodor. Arkadi sofreu as consequências de uma infância conturbada, onde não faltou um pai ausente, uma mãe que abandonou o marido e até um amigo violento. Essas marcas fizeram dele o adolescente intempestivo e com um caráter peculiar, cheio de dúvidas e contradições: ele é muitas vezas apático, mesmo medroso e de repente assume atitudes de enorme coragem; a sua relação com Versilov exibe sempre um inacreditável misto de paixão e ódio; o seu estado de espírito oscila entre a depressão e a alegria exaltada, sem meios termos; a sua vida é pautada pelo irracional, pela emoção, mas ele não deixa de ser dotado de uma inteligência brilhante. Quer dizer: Arkadi é um somatório de contradições.
Por outro lado, a impulsividade e emotividade de Arkadi simbolizam também o caráter que o autor atribui ao povo russo, muito emotivo, deixando-se dominar pelo sentimentalismo, em desfavor da inteligência. Por outro lado, ao longo de toda a obra, está bem patente a crítica ao servilismo relativamente ao estrangeiro, desde o "vicio" snobe de falar francês até à influencia inglesa na politica e na economia. Há mesmo um momento hilariante no que respeita a esta crítica, quando Fiodor no conta um episódio anedótico mas cheio de intenção crítica:algures numa estrada havia um enorme penedo a dificultar o trânsito; o governo mandou fazer um estudo e gastou-se dinheiro; houve propostas que chegaram ao ponto de construir uma via férrea, que os ingleses contratariam por alguns milhões de rublos, para tirar dali a pedra. E depois de muitos estudos e de planos milionários, os mujiques (camponeses) encontraram uma solução: abrir um buraco ao lado, empurrar para lá a pedra e cobri-la de terra. Assim se fez. Mas a tentação é sempre esta: lá como cá, ontem como hoje, é preciso gastar dinheiro e entregá-lo a alguém...
Em termos formais, este é o romance mais inovador de Dostoievski; a ação decorre no passado, em que os flashbacks se sobrepõem, sem linearidade mas também sem deixar que o leitor alguma vez perca "o fio à meada".
Como não podia deixar de ser numa obra deste escritor, a critica social está sempre presente; a fidalguia russa, muitas vezes ociosa e sempre pouco produtiva, vai alimentando um estatuto baseado nas aparências burguesas mantido na maior parte dos casos por fortunas apenas aparentes e recorrendo constantemente ao crédito. Na verdade, na sociedade peterburguense do século XIX era normal que estes fidalgos vivessem do crédito, alimentando inúmeros usurários. Por outro lado, vícios públicos como a prostituição e o jogo (do qual o próprio autor foi vítima) estão também por todo o lado. Dostoievski tinha plena consciência de que nunca poderia haver uma verdadeira evolução na vida da Rússia sem uma verdadeira revolução ao nível das relações sociais; e não se tratava apenas do problema da servidão; essas réstias de feudalismo eram apenas os sinais de toda uma sociedade caduca que viria a provocar as graves convulsões do início do século XX. E (também) nesse sentido, a obra de Fiodor foi premonitória.
Mas é no âmbito filosófico que, a meu ver, este romance tem um alcance mais modernista. A geração de Arkadi, a nova geração russa da segunda metade do século XIX: o caráter de Arkadi que expus acima representa a geração russa de finais de século, marcada pela influência política do socialismo e do anarquismo e pela influência filosófica de um certo niilismo. Este assunto, aliás, parece ser transversal a toda a obra de Dostoievski mas é em Os Irmãos Karamazov que explana melhor esta ideia: a de uma geração descrente, assente sobre a desconfiança no futuro e uma certa resignação perante um presente em que as ideias revolucionárias não se afiguram muito concretas. O século XX mostraria, mais tarde, que, afinal, essas ideias revolucionárias podiam concretizar-se...

domingo, 22 de junho de 2014

Joana, a Louca - Linda Carlino

Sinopse:
Joana, a Louca é o primeiro romance da autora Linda Carlino. Um romance histórico, onde Carlino ficciona a biografia de uma das personalidades mais intrigantes da história do século XVI europeu. A obra tem início em 1496, quando a jovem filha dos Reis Católicos, com apenas 16 anos, embarca para a Flandres para desposar Filipe, o Belo, e acompanha toda a sua vida até ao final dos seus dias, encarcerada em Tordesilhas pelo próprio filho, Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Um romance com uma nítida descrição da personalidade de Joana, uma mulher de inteligência arguta e sentimentos nobres, de espírito inquebrantável que a fez resistir à traição por parte daqueles que lhe eram mais próximos e que lhe valeu o injusto epíteto de Louca
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Comentário:
Linda Carlino, infelizmente falecida em  2010, foi uma escritora inglesa de ficção histórica que nunca teve grande impacto em Portugal, pelo menos até ao lançamento no nosso país, no ano de 2009, deste livro sobre a rainha Joana. E o sucesso (embora relativo) que este livro teve no nosso mercado, estou convencido que se ficou a dever mais ao nome da Rainha Joana do que ao nome da autora ou à qualidade literária da obra.
Para ir direto ao assunto, estamos perante uma grande história num livro que poderia ter sido uma obra-prima. A riqueza e o encanto da história de Joana justificava um romance bem mais interessante.O que Linda Carlino faz é, apenas, contar a história da vida de Joana. Só por si, esse é já um importante ponto a favor do livro; não é preciso mais nada; basta contar a história e ela tem força suficiente para agarrar o leitor. 
Joana era filha dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, réis de Castela aquando da descoberta da América. Vitima da necessidade de estabelecer relações de aliança com a Flandres e a Casa de Áustria, Joana é destinada ao casamento com um dos políticos mais pérfidos de toda a história da Europa Ocidental: o irascível Filipe, o Belo. Um casamento condenado ao fracasso e à desgraça de Joana, que mesmo assim viria a ser uma mulher que marcou a história da Europa, ao dar origem ao império dos Habsburgos.
Mesmo assim, parece que a autora desperdiçou várias oportunidades para alcançar um sucesso bem mais retumbante:
- A história tem pouca "estória"; falta aqui o sal da imaginação e o encanto da criatividade; trata-se de muita história e pouco romance. Obviamente, isto tem um lado positivo: o caráter pedagógico do livro. Na verdade, este romance pode muito bem funcionar como um manual de história dos tempos dos Reis Católicos e do império de Carlos V. Mas não é isso que se espera de um romance histórico.
- Mesmo ao nível da história propriamente dita, Linda Carlino podia e devia ter explorado muito melhor um episódio crucial em toda esta história e que no livro a autora teve a infeliz ideia de contornar: a morte de Filipe, o Belo foi, ao que tudo indica pela historiografia, provocada; ele terá sido envenenado. Perante a incerteza deste facto e a incerteza do autor do crime caso tenha existido, a autora prefere contorna-lo. Perdeu, a meu ver, uma oportunidade de melhorar o enredo, tornando-o bem mais interessante.
- Como acontece em muitos romances históricos, também neste livro há um exagero no que respeita a descrições do ambiente da época. É caso para dizer que não era necessário ser tão verossímil
Perante tudo isto só me resta concluir que o livro tem um grande valor pedagógico por ser muito fiel à verdade histórica. Para quem não conhece o drama de Joana a Louca, esta pode ser uma excelente leitura; mas para quem já conhece o assunto, esta pode tornar-se uma leitura algo fastidiosa.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Ladrão Honesto e Outras Histórias - Fiodor Dostoievski


Sinopse:
Este décimo terceiro volume da colecção «Obras de Fiódor Dostoiévski» é uma colectânea de contos e novelas que reúne quatro obras escritas ou publicadas entre os anos de 1848 e 1849. São elas "O Ladrão Honesto", "Uma Festa com Árvore de Natal e Um Casamento", "O Pequeno Herói" e "Nétotchka Nezvánova". Os dois últimos títulos ficarão para sempre associados às circunstâncias conturbadas que envolveram a sua concepção — "Nétotchka Nezvánova", originalmente projectado por Dostoiévski para ser um romance, foi abruptamente interrompido pela prisão do autor, que só anos mais tarde o viria a concluir, com grandes alterações, e optando por transformá-lo num conto; "O Pequeno Herói" foi escrito durante o encarceramento na cela solitária da Fortaleza de Pedro e Paulo. Não obstante as vicissitudes biográficas, o génio de Dostoiévski nunca deixou de se manifestar em todas as páginas da sua obra, e é com deleite que o reconhecemos, uma vez mais, nesta colectânea que espelha com nitidez o conhecimento profundo que o escritor tem da alma humana e a sensibilidade ímpar com que retrata as suas variegadas expressões e idiossincrasias
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Comentário:
Em narrativas curtas, este livro apresenta-nos uma valiosa amostra de todas as características que fizeram de Fiodor Dostoievski um escritor único: o seu humanismo, a sua sensibilidade em relação às injustiças sociais, a capacidade de crítica social objetiva e mordaz e, acima de tudo, aquela magnífica capacidade de penetrar nas profundezas da mente humana, através de personagens reveladoras dos dilemas e conflitos interiores que caraterizam o ser humano.. É isto que faz dele um dos pioneiros e mestres do chamado romance psicológico.
O conto "O Pequeno Herói", escrito na prisão, é um notável exercício literário em que o autor se coloca na pele de uma criança, interpretando e expondo com genialidade todos os dilemas da criança rejeitada e incompreendida, vítima de uma sociedade fútil e egocêntrica. Uma criança esmagada por essa sociedade feita de rivalidades e aparências, vai descobrindo o feminino como refúgio e encanto da alma. Mas também depressa esses encantos esbarram nos vícios e na própria degradação da condição feminina, também ela esmagada pelas constrições sociais.
O conto de maior dimensão, já próximo do romance, Netotchka Nezvánova, é uma extraordinária incursão pela mais profunda miséria da sociedade russa do século XIX, dominada pela frivolidade e pelo vício. A protagonista, Netotchka, é vítima das tremendas desigualdades sociais da época, marcada ainda pela servidão feudal dos tempos do czar. A miséria revoltante e o ambiente de violência doméstica em que vive, num meio onde predomina o álcool e a degradação, constituem o quadro de vida de Netotchka. A miséria em que vive vai criando na criança uma estranha sensação de culpa, que mais não é que o reflexo do esmagamento da personalidade. No entanto, não são apenas as condições sócio-económicas que preenchem este quadro de miséria e infelicidade: quando Netotchka  se vê num meio social elevado, depois de adoptada por um príncipe, nem por isso ela encontra a felicidade; a miséria material é substituída por outros vícios e injustiças. O estigma da sua condição social permanecerá e a sua personalidade permanecerá esmagada.
A prosa de Dostoievski, no seu realismo e humanidade, contradiz todo o preconceito de que este génio é vítima em alguns tipos de leitores; este livro contradiz todos aqueles que continuam a afirmar que Dostoievski é chato e difícil. Difícil é apenas sentir a miséria e suportar a infelicidade dos seus personagens, uma vez que a arte do génio leva o leitor a sofrer como se revivesse a história. A escrita, essa, é objetiva e fluida. Aí reside um dos aspetos mais geniais deste grande escritor: a facilidade com que as misérias que descreve entram na mente de quem lê, de forma fácil e clara. Talvez este seja o livro ideal para quem pretende iniciar-se na leitura de Dostoievski ou então para quem pretende reformular a sua opinião.

domingo, 15 de junho de 2014

Os Segredos de Jacinta - Cristina Torrão


Sinopse:
Os anos entre 1138 e 1147 foram decisivos para a formação do reino de Portugal, acontecimentos como a Batalha de Ourique, o casamento de D. Afonso Henriques e a Conquista de Lisboa influenciaram igualmente a vida dos mais humildes, que foram afinal os primeiros portugueses da História.
Jacinta, a personagem principal deste romance, é uma dessas pessoas.
Seguindo o percurso desta jovem, o leitor é introduzido na forma de vida do século XII, em que virtude e pecado andavam lado a lado, sendo ténue a fronteira entre o aceitamento e a maldição. Quem não se conformava com as normas caía facilmente na marginalidade.
«E porque haveria de consentir no nascimento de uma criança que seria igualmente alvo da crueldade daquela gente?
Jacinta cerrou as mãos em punho, por baixo da mesa, ao surgir do pensamento que a assustava. Sabia que havia guisas de evitar que uma criança nascesse. E que a bruxa do Serro do Cão era sábia nesses procedimentos…»
Violação, aborto, adultério, bruxaria e prostituição são algumas das situações em que Jacinta se vê enredada, enquanto a História de um condado feito reino segue o seu curso. 

Comentário:
Tal como nas suas obras anteriores, também neste livro, Cristina Torrão leva-nos pela mão a um passeio pelo Portugal Medieval com todos os seus encantos e terrores. Mais do que a conturbada situação política e militar da época, está em cena o enquadramento mental, social e moral desse período, salpicado por descrições objetivas e agradáveis dos usos e costumes da época.
Não se pense, no entanto, que este é um livro apenas sobre o século XII; o que está em causa é muito mais que a formação de Portugal; é a formação da mentalidade portuguesa, com todos os vícios e qualidades com que hoje nos identificamos: a bondade natural do nosso povo, uma certa ingenuidade que tanto conduz à solidariedade como à fácil assunção de comportamentos e atitudes ditadas pela pressão social dos grupos privilegiados; em suma, é a construção do nosso quadro mental que está em jogo neste livro.
Os usos e costumes da época são precisamente apresentados como testemunho deste quadro mental. Por exemplo, as festas populares são momentos de profunda religiosidade, de humilde submissão aos ditames da santa madre igreja, ao mesmo tempo que são ocasião para as mais profanas diversões, onde tudo funciona como uma catarse social face ao rígido quadro de valores imposto pela moral cristã que mais não é que uma forma de submissão do povo aos ditames do poder. A festa religiosa tal como nos é descrita neste livro assume portanto um caráter ambivalente onde a religiosidade tem o seu contraponto na extroversão de atitudes mentais reprimidas.
Ao contrário do que acontece nos livros anteriores da autora, o acento tónico é colocado no povo, enquadrado numa sociedade de ordens fortemente estratificada. No topo da pirâmide, o alto clero, que rodeia o poder político e o condiciona. Ao lado desta elite eclesiástica, os fidalgos, a nobreza terratenente que nasceu da elite guerreira constituída pelos líderes dos exércitos cristãos, compensados, também eles, pelo poder político pela doação de terras. Por outro lado, o povo é constituído por uma maioria de pobres vivendo do trabalho agrícola nas terras dos “filhos de algo”, os nobres, e por uma minoria de pequenos proprietários como Ataúlfo, o pai de Jacinta.
A rigidez desta sociedade, bem como o conservadorismo extremo que a sua manutenção implicava, conduz a maioria da população a um estado de miséria social e, por outro lado, à manutenção de um quadro mental fundado sobre a ignorância e o preconceito. Portanto, a vida conturbada de Jacinta, o esmagamento da sua personalidade enquanto mulher e ser humano tem muito menos a ver com as precárias condições de vida do que com esse quadro mental de obscurantismo e preconceito, funcionando como verdadeiros alicerces de um quadro social que se pretende cimentar.
Um dos temas fundamentais do livro é constituído pela abordagem da condição feminina, num mundo em que o masculino é preponderante a vários níveis. Mas o papel da mulher na sociedade medieval não é apenas secundário; ela é frequentemente associada às forças demoníacas, por via do pecado de Eva que constitui um estigma para toda a condição feminina. O próprio aborto provocado é de certa forma justificado porque o pecado mortal estava já cometido e o inferno era o destino incontornável. Dessa forma o aborto apenas confirmava o triunfo de Lúcifer. Esta associação de ideias entre a mulher e o diabo justifica também uma outra prática cujo papel é fulcral no mundo medieval – a bruxaria. O papel da bruxa é ambivalente: por um lado ela é o protótipo da mulher pecadora, condenada e amaldiçoada. Por outro ela é a salvadora; aquela que tem poder para expulsar o próprio demónio. 
No entanto, há estratégias de superação deste bloqueio mental; e Jacinta procurara-as desesperadamente. Segundo a bruxa, as únicas mulheres que conseguem escapar a esta pressão social eram as monjas e as próprias bruxas, precisamente aquelas que optavam de forma voluntária pela solidão. A solidão voluntária é uma via de libertação.
Na verdade, o tema da bruxaria é um dos mais complexos na historiografia medieval – se, por um lado, é reconhecido à bruxa o poder de afastar o próprio diabo, por outro, elas próprias são associadas ao demónio, sendo perseguidas e condenadas por isso.
A autoexclusão social é, portanto, uma forma de escapar a todas aquelas constrições sociais. O mosteiro surge aqui como um espaço de liberdade mas também de tolerância; só aí Jacinta encontra a paz interior porque só aí lhe é permitida uma identidade, uma autonomia enquanto ser humano livre e pensante. A própria oração é encarada por Jacinta como um momento de escape e de reencontro consigo própria; como se o verdadeiro Deus existisse dentro dela, no seu espírito e não como um ente superior e castigador.
É genial a forma como a autora estabelece um paralelismo entre Joana, a irmã monja de Jacinta e a soldadeira moura Zaida: duas personagens só aparentemente opostas, uma freira e uma prostituta, duas mulheres livres que conseguiram levar a paz ao coração de Jacinta.
Mas o preço da independência pessoal é sempre elevado: Joana, Zaida e a bruxa conseguiram essa rara autonomia, essa paz interior, mas tiveram de prescindir de algo: Joana prescindira dos sentimentos; a bruxa da sua identidade social e Zaida prescindira do próprio corpo. Para ser livre é preciso abdicar de algo. Na verdade, se o mundo humano, com as suas contradições e injustiças é uma ameaça permanente à paz de espírito, o amor não o é menos, apresentando-se como uma fonte de tormentos e de conflitos interiores. Mesmo que disfarçado de idílio e sonho, o Amor é uma vigorosa e trágica fonte de sofrimento e de dependência.
O talento literário de Cristina Torrão radica no seu estilo objetivo, cinematográfico, como já o adjetivei a propósito de obras anteriores, mas não é só isso. Há nas suas obras um humanismo notável, uma sensibilidade apurada mas também uma dimensão de análise psicológica profunda, uma capacidade de entrar na mente das personagens, a fazer lembrar grandes mestres neste domínio como Dostoievski ou James Joyce. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Campeonato do Mundo de Escritores

Na próxima segunda feira Portugal defronta a Alemanha no Campeonato do mundo de futebol.
Como este é um blogue sobre livros, imaginei o que seria um Campeonato do Mundo com escritores em vez de craques da bola.
Se assim fosse, na segunda feira entrariam em campo estes senhores:
PORTUGAL
Luís de Camões
Camilo Castelo Branco
Mário de Carvalho
José Luís Peixoto
Valter Hugo Mãe
Eça de Queirós
Fernando Pessoa
José Cardoso Pires
José Saramago
António Lobo Antunes
Manuel Alegre
 ALEMANHA
      Bertolt Brecht
Günter Grass
Hermann Hesse
Thomas Mann
Karl Marx
Friedrich Nietzsche
Erich Maria Remarque
Bernhard Schlink
Patrick Süskind
Eckhart Tolle
Leopold von Ranke

Com estas equipas não tenho grandes dúvidas de que ganhávamos o jogo com goleada; a Alemanha, com estes jogadores apenas teriam uma estratégia com alguma possibilidade e sucesso: adormecer os nossos jogadores, principalmente o guarda redes que, como se sabe, só tem um olho.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Uma outra voz - Gabriela Ruivo Trindade


Sinopse:
José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.
Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.
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Comentário:
O simples facto de a narrativa ser feita em cinco vozes dá ao livro um aspecto original que muito terá contribuído para o prémio Leya com que foi agraciado. Na verdade, trata-se de um estilo algo inovador que nos permite ter uma visão global de uma personalidade, vista por cinco narradores bem distintos.
Por outro lado, o livro associa com algum sucesso a ficção à biografia. Se acrescentarmos a isto uma escrita fluída, clara e um autêntico passeio pelo século XX português, encontramos talvez a explicação completa para a seleção do júri deste prestigiado prémio.
Mesmo assim, eu, leitor comum e desinteressado, não deixo de ficar algo surpreendido. O livro tem qualidade mas a verdade é que não consigo encontrar nele nada que verdadeiramente traga inovação. Por outro lado, a narrativa acaba por se perder em bruscos saltos temporais que dão ao livro um aspeto de "manta de retalhos" sendo que alguns deles parecem claramente desenquadrados do tema central, a vida do benemérito republicano João José Mariano Serrão. 
Talvez a expetativa fosse demasiado elevada quando parti para a leitura, no entanto fica a sensação de que falta aqui algo que distinga realmente o livro das centenas que todos os meses se publicam em Portugal.
Esperava mais e melhor, é certo. No entanto, como referi, a obra tem qualidade. 
O aspecto mais positivo centra-se na forma como a vida do protagonista testemunha momentos chave da nossa história, como o movimento republicano, com as suas contradições, dificuldades e conflitos, bem como a ascensão do Estado Novo, que terá precipitado a fuga para África do protagonista. 
Passando pelos últimos tempos da Monarquia, pela Primeira Republica, pelo Estado Novo e mesmo pelos primeiros anos da democracia, fica bem patente a força do conservadorismo luso, não só na evolução política como, acima de tudo, nos costumes e na mentalidade, o que acaba por se plasmar num quadro social dominado pelo preconceito, pela intriga interesseira e por uma certa perpetuação do obscurantismo.
Em suma, estamos perante um grande prémio para uma pequena desilusão.

domingo, 8 de junho de 2014

A Guarda Branca - Mikhaíl Bulgákov


Sinopse:
Primeiro romance de Mikhaíl Bulgákov, largamente inspirado nas suas experiências pessoais, A Guarda Branca apresenta-nos a cidade de Kíev, em 1918, através dos olhos dos irmãos Turbin. Mergulhados no caos da guerra civil, Aleksei, Elena e Nikolka constituem um retrato brilhante das crises existenciais provocadas pela guerra e pela perda de alicerces sociais, morais e políticos.
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Comentário:
Se é difícil compreender o que actualmente se passa na Ucrânia, é incrível como um livro escrito em 1926 nos pode ajudar  a  contornar essa dificuldade.
A povo ucraniano foi um dos mais martirizados pelo incrível processo de mudanças políticas nos primeiros 25 anos do século XX: na sequência do domingo sangrento, em 1905, em que tropas do czar assassinaram milhares de camponeses famintos, o processo revolucionário foi despoletado e viria a culminar com a revolução bolchevique de 1917. Entretanto, a Rússia abandonara a primeira guerra mundial, deixando vários territórios nas mãos da Alemanha, pelo vergonhoso tratado de Brest-Litovski. Dessa forma, os ucranianos ficaram abandonados a uma multiplicidade de conflitos: os Alemães, derrotados na guerra, rapidamente abandonaram os ucranianos; os Russos encontravam-se mergulhados no conflito entre os socialistas moderados do Exército Branco e os Bolcheviques do Exército Vermelho; na Ucrânia, uns sonhavam com o regresso à paz czarista e autocrática, outros alinhavam com a revolução bolchevique e outros encaravam o exército branco de Kerenski como o compromisso de salvação. Outros ainda apoiavam um cacique local, o sanguinário Petliura, que se afirmava nacionalista mas não hesitando em massacrar os seus opositores ucranianos.
É entre esta terrível encruzilhada de interesses que encontramos os irmãos Turbin, generosos e ingénuos, lutando como podem pelo poder branco, aquele que consideram mais justo.
O irmão mais velho, Aleksei, é o alter-ego do autor, médico e combatente algo ingénuo mas um verdadeiro resistente. Nikolka, o mais novo, é um generoso combatente. Por todo o lado,  no entanto, reina a violência e o horror da guerra; uma guerra terrível, entre compatriotas, abandonados por russos e alemães, entregues aos mais violentos oportunistas.
O mais terrível deste livro é que nele encontramos uma assustadora actualidade; entre ideologias e interesses, é o povo quem se sacrifica sempre.
No estilo profundamente poético de Bulgákov encontramos, no entanto, a sua tendência para a dramaturgia; em muitos momentos o leitor dá conta de estar a ler uma verdadeira peça de teatro. Assim, é notável a junção de uma escrita poética a uma magnifica objectividade das descrições e clareza dos diálogos.
Ou seja, estamos perante um bom exemplar da melhor literatura russa, se bem que muito longe daqueles que eram os ídolos de Bulgakov, então em início de carreira, principalmente na influência notável da análise psicológica e crítica social que caracterizaram esse grande mestre que foi Fiodor Dostoievski.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Os livros que devoraram o meu pai, na opinião da Catarina Macedo


Hoje volto a dar a palavra aos meus caros jovens. A minha aluna Catarina Macedo, de 14 anos, leu Afonso Cruz e gostou.
Aqui fica, pois, a sua opinião sobre esse interessante livrinho que foi o primeiro êxito deste novo nome grande da literatura portuguesa:
A obra “Os livros que devoraram o meu pai” foi um dos melhores livros que li.
Nesta história muita fantasia é envolvida, o que dá um toque interessante. Este livro, escrito por Afonso Cruz, fala sobre Vivaldo Bonfim que passava o seu tempo a ler. Um dia ficou preso no livro “A Ilha do Dr. Moreau” fazendo com que o seu filho, seguindo os seus passos de leitura, o procurasse por todas as obras lidas por Bonfim. Este vai interagir com autores e personagens, entrando dentro das histórias, à procura do seu pai.
A única crítica que podia fazer a este livro é o facto de, por vezes, durante a leitura, não se percebe se na realidade, o filho de Vivaldo está dentro ou fora do livro.
É uma história com muita fantasia e com algumas partes de humor que eu aconselho a toda a gente. É verdadeiramente uma aventura no mundo literário que desperta interesse.
Catarina Macedo

terça-feira, 3 de junho de 2014

O Fundamentalista Relutante - Mohsin Hamid





Sinopse:
Numa mesa de café em Lahore, um paquistanês com barba conversa com um desconhecido e apreensivo americano. Enquanto anoitece, o paquistanês começa a contar a história que conduziu a este encontro fatídico…Changez está a viver o sonho americano. À frente da sua turma em Princeton, é contratado por uma firma de "avaliação" de elite, a Underwood Samson. Ele prospera na energia de Nova Iorque e a sua paixão pela bonita e elegante Erica é uma promessa de entrada na alta sociedade de Manhattan. Mas após o 11 de Setembro, a situação de Changez na sua cidade adotiva altera-se subitamente e a sua relação com Erica é eclipsada pelo despertar dos fantasmas do passado desta. A própria identidade de Changez sofre também uma enorme mudança, revelando fidelidades mais fundamentais do que o dinheiro, o poder e talvez até mesmo o amor.
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Comentário:
O protagonista dá pelo nome de Changez e não é por acaso: esse é um derivativo do nome Gengis, do famoso imperador mongol Gengis Khan e, ao mesmo tempo, imperativo do verbo "changer". Na verdade, ele é o protagonista de um mundo em mudança; uma mudança brutal provocada pelos atentados de 11 de Setembro. Mas, ao contrário que que muito se escreveu, este não é um livro sobre os atentados de Nova Iorque. É, acima de tudo, uma análise muito inteligente do impacto e das consequências desses atentados nas relações dos EUA com o mundo árabe (e não só). Mais do que uma reflexão política estamos perante uma crónica de um mundo em profunda e dramática mudança.
A narrativa baseia-se num diálogo entre Changez e um homem de negócios americano, na cidade de Lahore, no Paquistão; o jovem paquistanês vai narrando a sua passada aventura nas terras do tio Sam. Tudo começara com o fascínio pelo ocidente; com a sua brilhante ascensão numa empresa de sucesso, em que Changez se encarregava de avaliar empresas. E muitas vezes essas avaliações determinavam falências e despedimentos, ou seja, todas as consequências do fascinante mas (afinal) medonho capitalismo.
Tudo se precipita com o 11 de Setembro; a partir daí o sonho americano dá lugar à loucura americana; às perseguições insanas a todos os que, como Changez, fizessem lembrar essas figuras demoníacas vindas do oriente. Para o americano comum, o inimigo já não é apenas Bin Laden ou a Al-Qaeda; é qualquer ser humano cuja aparência se assemelhasse a um árabe. Nessa altura, o fascínio que Changez sentia pela América é substituído por um avassalador sentimento de traição; o fascínio pela capital do capitalismo é, agora, é encarado como um ato que atraiçoou as suas próprias raízes e a sua identidade: traição!
É precisamente essa loucura americana que conduz Changez àquilo que a América decidiu chamar fundamentalismo e que aqui surge como uma simples, natural e lógica defesa contra a ira irracional da América.
Tudo isto faz deste pequeno livro uma obra genial. A inteligência com que a mensagem passa é notável. Até a estória romântica de Changez com Erica se desenrola num notável plano simbólico; Erica está doente como a América; ela não será capaz de amar Changez porque está ferida de morte na sua própria alma.
Por outro lado, é notável a forma como o autor constrói um personagem que só aparentemente é secundário: o interlocutor quase silencioso de Changez. O americano nunca assume no livro o discurso direto; ele ouve e tem medo. Tal como o americano comum, tudo o que é paquistanês é assustador. No entanto, age com indiferença. Com a mesma indiferença com que os EUA encararam a guerra entre a Índia e o Paquistão em que este, teoricamente aliado, é agredido brutalmente pelo exército indiano perante a passividade hipócrita dos americanos. Da mesma forma, o interlocutor de Changez, nunca nomeado, sente medo mas é totalmente passivo; assusta-o um empregado de café demasiado sério mas não o assusta as descrições brutais da miséria paquistanesa. 
Um pequeno pormenor do livro pode servir para avaliar a inteligência desta pequena e genial obra: após o 11 de Setembro, Changez é vítima daquele controlo insano nos aeroportos. E Changez sente-se culpado, sem que nada o justifique! Um pormenor que constitui um poderoso motivo de reflexão.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

João Sem Terra - José-Augusto França


Sinopse:
João sem Terra segue-se, como fora anunciado, a Ricardo Coração de Leão. São dois romances independentes e nenhum deles é histórico. Um título provocou automaticamente o outro, em nomes de altas personagens da História – que no caso são apenas coincidências, ou nem isso. Ambos os romances, porém, tratam de Duas Vidas Portuguesas com o seu quê de inevitavelmente histórico, dos anos 1960 em diante. Depois de Ricardo, jornalista lisboeta em suas aventuras amorosas e políticas, de «coração de leão» em Portugal, conta-se aqui a história de João, jovem professor que, em 1965, partiu para Paris a escapar à guerra colonial. São vidas possíveis de uma História que foi vivida por todos nós – cá dentro ou lá fora...
in www.presenca.pt

Comentário:
Decidi-me pela leitura deste livro pela magnífica promoção do site da Presença mas, acima de tudo, pelo nome do autor. Recordo-me de ler e estudar José Augusto França na universidade, na sua qualidade de historiador da arte onde é, de facto, uma enorme autoridade intelectual.
Mas se enquanto historiador a sua obra me fascina, após a leitura deste livro de ficção já não poderei dizer o mesmo em relação à sua condição de escritor de ficção.
Como este foi o primeiro livro que li de J. A. França, talvez a minha opinião venha a modificar-se no futuro, mas para já deparei com um livro algo difuso: a mensagem, ou ideia-base do livro, até é bastante interessante: a solidão do refugiado político, do exilado, vítima do regime salazarista. Este tema, tão bem desenvolvido, por exemplo, em Manuel Alegre, é aqui explanado num enredo algo pastoso, lento, pouco atrativo. Maçador, mesmo. Cheguei ao final da leitura com aquela sensação estranha e desagradável de um livro cujo enredo se poderia ter resumido a meia dúzia de páginas. Isto para já não falar de um final em estilo de dramalhão, pouco convincente e, a meu ver, um pouco forçado. As condições em que se encontrava o protagonista não me parecem suficientes para justificar tal final.
Mas pelo meio ficam também coisas interessantes, como as descrições por vezes bastante poéticas dos locais percorridos pelo protagonista, nomeadamente a cidade de Paris com todos os seus encantos e as bucólicas florestas do interior de França, esse país que foi paraíso e salvação para muitos dos que tiveram a coragem de fugir à ditadura e recusar essa bestialidade que foi a guerra colonial.

domingo, 25 de maio de 2014

Beatriz e Virgílio - Yann Martel


Sinopse:
Henry, um escritor reconhecido, decide escrever um livro, meio ficção e meio ensaio, como forma de abordar todos os aspectos de um mesmo tema. Completamente desencorajado pelos seus editores, desiste do projecto e vai viver para outra cidade. Aí, contudo, continua a receber cartas de leitores e, um dia, um taxidermista escreve-lhe a pedir ajuda. Henry apercebe-se então de que estão ambos a tentar escrever sobre o mesmo tema. Um livro polémico e provocador, que confirma o autor de A Vida de Pi, o Man Booker Prize de 2002, como um dos mais surpreendentes escritores canadianos da actualidade
in wook.pt
Comentário:
É sempre ingrato voltar a um autor que se revelou genial num primeiro livro. Foi o caso de magnífico "A vida de Pi", um livro encantador que venceu o Man Booker Prize de 2002. Agora, doze anos depois, empreendi a leitura deste Beatriz e Virgílio sem conseguir desligar-me dessa memória. Por mais que o nosso cérebro saiba que não devemos fazer comparações, elas são inevitáveis e a verdade é que este livro não me encantou como acontecera com o seu antecessor.
No entanto, estou muito longe de considerar esta obra como um mau livro; por um lado, dececionou-me a fragilidade estrutural do livro, as hesitações narrativas e a forma titubeante como o autor entra no verdadeiro assunto do livro, com muitos rodeios e, aparentemente, com uma certa fuga ao âmago da questão.
Por outro lado, encantou-me o facto de o autor pretender e conseguir fazer uma abordagem diferente do holocausto. Talvez não haja assunto mais estafadamente abordado na literatura de ficção como o holocausto. Por ter consciência disso, o protagonista do livro é um escritor que tenta aquilo que o próprio Martel persegue: uma leitura diferente do referido fenómeno. E consegue-o de uma forma quase brilhante.
O livro assume uma curiosa forma de fábula, em que Virgílio e Beatriz (personagens da Divina Comédia de Dante, em que Beatriz representa a fé e Virgílio a razão) são, neste livro, respetivamente, um macaco e uma burra. Ambos são vítimas um drama absolutamente chocante que funciona como metáfora do holocausto. Ficção sobre a realidade, evidentemente; "A ficção talvez não seja real, mas é verdadeira." É esta perspetiva que justifica o recurso à metáfora; levar o holocausto ao domínio da ficção é elevá-lo, é perpetuar a memória: "Se a história não se transforma em estória, morre para todos exceto para o historiador." É que a realidade escapa-nos sempre... nós é que não podemos escapar dela. É por isso que o holocausto nunca será um tema estafado nem ultrapassado.
O sentimento contraditório que este livro me provocou, de um certo enfado por um lado e de admiração por outro repercute-se também na forma como enfrentei o final do livro: chocante mas tremendamente real, excessivamente dramático mas de uma beleza admirável. O escritor protagonista do livro, com tons marcadamente autobiográficos, enfrenta um poderoso personagem envolto em mistério, um especialista em embalsamamento de animais. Esse personagem enigmático, revoltante, monstruoso dá ao livro um caráter sombrio mas, ao mesmo tempo, carregado de simbolismo e de força. No entanto, algo soa a excessivo neste livro; algo barroco, mesmo, pelo drama mas também por uma estética que me pareceu algo pretensiosa.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O Signo dos Quatro - Arthur Conan Doyle



Sinopse:
Nesta nova aventura de Sherlock Holmes, Mary Morston, uma jovem governanta, recorre aos serviços do detetive para tentar descobrir o que aconteceu ao seu pai, que alguns anos antes desaparecera sem deixar rasto após ter regressado da Índia. Estaria o seu desaparecimento relacionado com as valiosíssimas pérolas raras que um remetente desconhecido enviava anualmente à jovem Mary, uma de cada vez? Depressa Holmes e o seu fiel companheiro, o doutor Watson, veem-se a braços com um caso de contornos bizarros envolvendo um terrível assassinato e um fabuloso tesouro perdido. E o que significa «o signo dos quatro», a estranha inscrição encontrada junto do cadáver? Terá Sherlock Holmes encontrado por fim um inimigo capaz de o suplantar? Os acontecimentos sucedem-se a um ritmo vertiginoso, e o detetive vê-se forçado a embarcar numa corrida contra o tempo para capturar o criminoso antes que este desapareça para sempre.

Comentário:
Ler Conan Doyle é um precioso último recurso quando nada mais apetece fazer ou então quando as obrigações da vida parecem querer devorar-nos o corpo e a alma. Nos períodos de stress, quando é preciso encontrar um escape de emergência, é bom ter um Conan Doyle à mão; quando nada mais há para fazer e a preguiça impera, um Conan Doyle é a solução; quando nos cansamos de ler estórias sérias, profundas, reflexivas e às vezes deprimentes, uma boa dose de Conan Doyle, três vezes ao dia, é remédio santo.
Ou seja: não há altura que não seja ideal para ler este Mestre, este senhor da literatura policial. Policial e não só, porque se Sherlock Holmes criou tantos fãs não foi só por ser mestre em deslindar crimes intrincados; foi porque o seu autor fez dele um dos personagens mais fascinantes de toda a história da literatura.
E Conan Doyle é muito mais que um escritor de policiais; é um dos maiores génios literários de todos os tempos.
Estou convencido que os maiores segredos do sucesso deste escritor são os seguintes: escrita objetiva, sem floreados, um doseamento correto da solução do enredo, sem guardar para o fim o tradicional desfecho "bombástico" e uma cultura geral fantástica que espalha pelos seus livros conhecimentos invulgares para aquela época.
Este livro é um testemunho claro do que acabo de escrever. As personagens são caraterizadas com mestria, criando imagens claras na mente do leitor; o enredo é simples sem cair no simplismo radical; a estória é envolvente porque despojada de descrições inúteis e reflexões enfadonhas; o mistério, esse, é o leitor que o vai desvendando, com "pistas" que o autor nos vai deixando a conta-gotas. É por isso que é tão difícil parar de ler Conan Doyle; porque é na mente de quem lê que se vai construindo a estória.
Neste livro, a aventura leva-nos até uma autêntica caça ao tesouro, com cenas emocionantes de perseguição no rio Tamisa, em que os barcos a vapor, alimentados pelo carvão, nos fazem lembrar as perseguições policiais de Hollywood com automóveis de grande potência a romper pneus no asfalto. Tudo em busca de um tesouro trazido de África, misteriosamente desparecido e que finalmente...
O melhor mesmo é ler...

domingo, 18 de maio de 2014

Bornal de Narrativas - José Fernandes da Silva

Numa vistosa e cuidada edição Calígrafo e com um magnífico texto de apresentação da autoria de José Manuel Mendes, José Fernandes da Silva voltou à narrativa curta. Em boa hora, digo eu, modesto e interessado leitor. Poeta por excelência, músico por paixão, professor por ganha-pão, este minhoto (de gema e orgulho) passeia pelas letras como se nascido entre as linhas de um qualquer tratado da arte de bem escrever.
Na verdade, um dos aspetos que mais impressiona o leitor é o cuidado na escolha das palavras, o esmero na adjetivação equilibrada, escapando sem esforço à verbosidade barroca que tanto por aí pulula. Por outro lado, é nítido o respeito pela linguagem popular. E também aí é interessante verificar como o autor escapa à armadilha da brejeirice: o seu sentido de humor é delicado, irónico e eficaz sem cair na facilidade da palavra atrevida.
Este humor delicado e refinado está, também ele, pejado de humanismo: a maioria das centenas de personagens do livro são dotadas de uma simplicidade e mesmo bondade humana, não escapando mesmo o meliante, o sacana que foge à lei mas que não passa do desastrado "pilha-galinhas" ou do hilariante trapaceiro mal sucedido. No prefácio a esta obra, o escritor Fernando Pinheiro atribui-lhe um tom moralista; eu não iria tanto por aí; esse moralismo talvez não seja mais do que a expressão dessa crença na bondade humana, num certo tom de Rousseau moderno.
Em termos formais, as narrativas que este livro nos apresenta têm o condão de manter as linhas do conto tradicional, linear, muitas vezes com final aberto que convida o leitor a imaginar desfechos, outras vezes com remates finais surpreendentes e outras vezes ainda com desfechos hilariantes como o da bela Liberata no conto Coisas da Natureza. O autor foge sempre, com mestria, daqueles finais inesperados, milagrosos, que retiram o tom realista à narrativa. Aqui tudo é natural como a própria vida; tudo é simples como os campos e os rios, os perfumes da erva acabada de cortar ou da água pura do riacho que dá vida a homens e bichos.
Esta estrutura de conto tradicional é servida por uma linguagem tremendamente visual: as descrições criam imagens claras na mente de quem lê e a sequência narrativa obedece sempre a uma lógica do "acontecível" que reforça o tremendo realismo dos cenários e das estórias.
Tudo isto leva o leitor a encarar estes contos de uma forma perfeitamente natural, como se de crónicas se tratasse.
Finalmente, uma referência a esse traço distintivo da obra deste autor: a ruralidade. Para José Fernandes da Silva, esta admiração pelo universo rural é a expressão do culto das raízes, dos valores ancestrais mas sem aquela sensação de perda e desencanto que carateriza muita da literatura sebastianista, "passadista" que por aí se encontra. Esta ruralidade é a expressão do caminho para a realização do ser humano que tenta escapar a este materialismo capitalista e selvagem em que nos encontramos mergulhados. O campo de outros tempos é o contraponto da cidade mergulhada na tirania dos mercados que hoje nos tenta subjugar.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Notas ao Acaso - Francisco F. Gomes


Não sou versado em poesia porque nunca cultivei esse gosto.
Mas até eu, que nunca fiz dos versos um prazer, fui capaz de sentir nesta escrita a beleza que há em palavras que são brisas do vento da montanha; em silêncios ouvidos entre versos; na musicalidade das rimas e, acima de tudo, na alma, no sentir que há nas palavras de Francisco F. Gomes.
Este é um livro modesto; não é Camões nem Pessoa, mas é alguém que sente e faz transpirar esse sentir para palavras cuidadas, meditadas e principalmente sentidas. É a voz da terra e a voz dos homens; é a voz do planalto, esse mundo mágico em que nasci, mas também o sentir e o sofrer das suas gentes, num Portugal enganado, perdido em veredas escuras de crises fabricadas e em centralismos egoístas. É o eco da terra e das árvores. É o sussurro de um rio só ouvido por quem sente a sua corrente no próprio sangue que lhe corre nas veias. É a voz do pescador que se sente extasiado ouvindo o silêncio que um qualquer Deus criou para que o homem desprezasse, na sua absurda ambição civilizacional.
Numa edição de autor, sem luxos mas com o brio simples de gente que ama e vive a terra, Francisco F. Gomes leva o leitor a viver as mais sublimes paisagens... as da terra e as da alma.
Uma poesia simples, singela, sincera e carregada daquilo a que podemos chamar de beleza natural. Porque a natureza também está na alma. Francisco Gomes é um viajante, mas nas suas páginas estão raízes: da terra que o viu nascer, no verde Minho que me criou. E também a terra que o acolheu: o planalto que me fez nascer, em terras de Miranda.
Foi com sentimento que li este livro, porque me fez reviver a infância ao correr silencioso e fresco do rio Cávado; mas foi também com a certeza de estar perante um desses poetas que nunca o pretendeu ser mas que o é por excelência. Porque poeta é aquele que fala verdade com a voz da alma.

domingo, 11 de maio de 2014

Encontro em Jerusalém - Tiago Rebelo


Sinopse:
Francisca e Afonso são um casal de repórteres de guerra que se conheceu na Terra Santa, em dias pautados pelo ruído dos Scuds iraquianos, a que o autor poeticamente chamou «dias de pólvora». Mas os clarões que em 1991 incendiavam os céus de Jerusalém e de Bagdad perdiam todo o seu fulgor perante a luminosidade quase incandescente da paixão que unia os dois repórteres. Muitos outros cenários de guerra testemunhariam o amor, o entendimento pleno que os tornava tão íntimos e felizes. Mas a proverbial inveja dos deuses não tolera uma felicidade em estado puro, e a sua intervenção não se fez esperar. Francisca e Afonso iriam ter pela frente a mais dura prova à intensidade da sua paixão. Com o sugestivo título "Encontro em Jerusalém", o mais recente livro de Tiago Rebelo conquista-nos de forma imediata e incondicional através de uma narrativa que concilia autenticidade e arrebatamento na justa medida, e que nos deixa absolutamente rendidos ao seu subtil poder de encantamento. Baseado nas experiências das reportagens de guerra do escritor, nomeadamente em dois dos conflitos que mais marcaram a década de 90 — a Guerra do Golfo e a Guerra da Bósnia —, "Encontro em Jerusalém" surpreende-nos pela extraordinária riqueza e verosimilhança dos cenários, de um rigor documental, e das personagens que neles se movem, e revela-nos ainda o conhecimento profundo que o autor tem dos ambientes socio-políticos descritos.
in www.wook.pt

Comentário:
É complicado fazer um comentário a este livro. O motivo é aparentemente simples: na minha opinião há neste livro dois polos opostos, como se estivéssemos a falar de duas obras diferentes: uma crónica de viagens e uma história de amor. Na verdade, como crónica de viagens e, ao mesmo tempo, como memória histórica, é excelente. Já como estória de ficção redunda numa narrativa linear, simples, enfim, a estória já mil vezes contada dos repórteres que se apaixonam num cenário de guerra e que acabam casados mas desunidos pelas feridas que a guerra deixou, para tudo terminar no mais belo e banal final feliz, típico das mais eficazes novelas cor de rosa.
E não vale a pena falar mais deste livro como obra de ficção.
O grande mérito deste livro é a sua dimensão jornalística; é o testemunho realista e muito bem escrito, com essa objetividade típica da escrita jornalística, que nos presenteia com uma excelente síntese do conflito israelo-árabe, da primeira e segunda guerra do golfo, do drama da Faixa de Gaza, com o interminável confronto entre palestinianos e israelitas, com os EUA a desempenhar o seu papel de manobrador de marionetes. No entanto, é sobre o conflito nos Balcãs que o autor consegue o seu melhor desempenho, dando ao leitor pouco informado um quadro muito claro do que foi esse terrível conflito que marcou a reta final do século XX. Aí, o drama dos civis inocentes, dizimados pelas armas de cobardes encondidos atrás de difusas ideias políticas, testemunham o que de mais pérfido há na natureza humana: precisamente o desprezo pelo seu semelhante. E, mais uma vez, a hipocrisia cobarde dos poderosos, dos "donos do mundo" assistindo impávidos ao horror.
Por outro lado, Francisca, a repórter fotográfica testemunha essa tirania da imagem, em que a humanidade parece ter mergulhado: tudo se faz por uma imagem, mesmo que isso implique sofrimento e morte.
Enfim, um livro que me marcou profundamente pela abordagem clara e objetiva de assuntos muito sérios mas que fica aquem das expetativas como obra de ficção. 
Mesmo assim, é um livro que se recomenda vivamente.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A Ciganita - Miguel de Cervantes

Miguel de Cervantes, esse enorme génio literário, não escreveu só esse livro intemporal que é o D. Quixote. Da sua obra destacam-se doze narrativas curtas, as Novelas Exemplares, onde podemos encontrar este A Ciganita.
Logo na primeira página, deparamos com afirmações polémicas  e mesmo chocantes: com todas as letras, Cervantes afirma que os ciganos são um povo de ladrões e que essa é a única forma de vida que conhecem.
Obviamente, isto haveria de provocar diferentes leituras. Alguns, mais simplistas, encaram esta afirmação como uma constatação lógica, alimentando uma perspetiva xenófoba que Cervantes partilharia. Outros, no entanto, lêm esta afirmação num contexto de ironia. O certo é que, a meu ver, esta segunda perspetiva é confirmada pela leitura do livro; os ciganos de Cervantes não são apenas os ladrões que ele próprio enuncia. Esta aparente contradição faz parte de toda a lógica de Cervantes enquanto escritor e que viria a desenvolver magistralmente no D. Quixote: a arte da caricatura social. Estes ciganos são ladrões mas também amantes da natureza, da justiça natural, da igualdade de direitos entre os indivíduos e, acima de tudo, construtores de uma sociedade sem grupos sociais, sem desigualdades, ao contrário da sociedade "civilizada" da Espanha do século XVII. O roubo é encarado apenas como um modo de vida, fruto de uma sociedade (já naquele tempo) marcada pela injustiça social.
Obviamente, A Ciganita é também uma estória de amor e talvez tenha sido com essa intenção única com que foi escrita; portanto, é um livrinho pouco ambicioso que não tem qualquer comparação possível com o D. Quixote. É um livrinho agradável, que se lê  num par de horas mas que pode convidar o leitor desperevenido a interpretações apressadas e algo perigosas.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Lavínia - Ursula K. Le Guin


Sinopse:
Como leitora da Eneida, de Virgílio, Ursula Le Guin escolheu esta figura silenciosa, a segunda mulher de Eneias, para protagonizar este romance, que é a sua homenagem à epopeia de Virgílio. Lavínia passa a narradora deste romance, contando-nos a sua infância e juventude idílicas, num mundo pré-helénico e pré-romano, cheio dos mitos e dos ritos que o sagravam, fala-nos dos homens que a cortejaram até que Eneias chegasse e, como em Tróia por Helena, uma guerra começasse, por ela. Um romance de uma rara qualidade poética que tem tanto de histórico como de mítico.
in www.presenca.pt

Comentário:
A literatura fantástica está na moda, mas ao depararmos com livros como este somos levados a pensar que sempre esteve na moda. Este livro, publicado pela primeira vez em 2008, é uma obra notável no domínio da fantasia. Isto porque um excelente livro não pode nunca restringir-se a um género ou a um rótulo. Portanto, este Lavínia é muito mais que uma obra de literatura fantástica.
Antes de mais, parte de uma ideia notável: continuar e como que "terminar" a Eneida que se diz ter ficado incompleta. Na verdade, agarrando as réstias de verdade história que ainda pode haver sobre os tempos nebulosos situados antes da fundação de Roma, Ursula Le Guin preenche essas lacunas com a encantadora história do imortal Virgílio e com a sua própria imaginação. Lavínia, mulher de Eneias, não teve direito a toda a sua história na Eneida. O poeta não terá tido tempo de completar a sua vida no imortal poema épico. A autora envereda então por um caminho narrativo verdadeiramente peculiar: coloca o próprio Virgílio dentro de livro, seguindo os passos da personagem que ele próprio criou, Lavínia, interagindo no próprio enredo. Criador e criatura num mesmo plano. A ideia é genial e resulta numa narrativa peculiar, cheia de emoção e, acima de tudo, muito bem escrita. A prosa de Ursula Le Guin tem um tom poético que embala quem lê, num percurso pelas florestas encantadas do passado mítico de Roma. Nesta escrita "lê-se" a paixão da autora pelo tema, a emoção de quem escreve com prazer, deleitando quem lê.
Sabinos, Etruscos, Latinos, bem como os estrangeiros troianos e gregos preenchem um mosaico encantador, envolvidos numa névoa de misticismo, nas míticas florestas do Lácio. Todo o livro vem perfumado de uma religiosidade natural, de um tempo em que os Deuses comandavam os destinos dos homens e não o inverso, como a partir de certa altura pareceu tornar-se comum. Aqui são os oráculos e os presságios que determinam o destino das personagens e dos povos. Mas esta religiosidade envolve um respeito e uma veneração pela própria natureza que nos faz sentir angustiados perante a relação tirânica que o homem, no decorrer do processo histórico, parece ter implantado em relação a esse mesmo ambiente natural.
O que realmente há de mágico neste livro é a sensação de que a personagem principal, Lavínia, tem consciência que a sua vida é pura imaginação do poeta; como se a realidade passasse a existir como fruto da própria ficção. É esta magia que torna este livro único. O que lhe falta para ser uma obra-prima? Talvez alguma incerteza no desenrolar e no desfecho da narrativa; algum "suspense". Mas nem por isso deixa de ser uma obra genial.

sábado, 3 de maio de 2014

A Trança de Inês, na opinião da Joana Malheiro

Abro aqui um cantinho "à parte" no meu blogue para dar voz à gente nova. A primeira dessas vozes é da Joana Malheiro, de 14 anos de idade, que leu A Trança de Inês, esse livro delicadíssimo e delicioso da saudosa Rosa Lobato de Faria.
Aqui fica, portanto, o comentário da Joana.

Esta é uma história baseada essencialmente no mito de Pedro e Inês, na qual a autora narra três períodos que se desenrolam em simultâneo, colocando Pedro, o protagonista, a viver três realidades diferentes, uma no passado, outra no presente a terceira no futuro, em 2090, onde as pessoas são a favor da natureza ser preservada a todo o custo e o ser humano individualmente não tem valor. As reencarnações e recordações destas histórias atormentam Pedro, que está internado num hospício.
Tal pomo no romance original, Pedro escolheu a paixão que sentia por Inês como destino.
Joana Malheiro

quarta-feira, 30 de abril de 2014

O Retrato - Nikolai Gogol

Sinopse:
Este O Retrato é o mais romântico dos "Contos de Petersburgo",quanto mais não seja pelo tema central - o pacto com o demónio. É também uma profunda reflexão sobre a vida e a arte (a arte imitação da natureza ou imitação de Deus?), prefigurando o grande dilema da vida e da obra do próprio Gogol, do seu próprio destino: vamos encontrar em O Retrato o delineamento das grandes contradições que envolveram a criação de Almas Mortas, a grande hesitação e finalmente o repúdio da segunda parte deste livro, a queima da obra espúria, etc.
É também, evidentemente, um conto sobre a sociedade castradora - Petersburgo. Desta vez, é um pintor que se vê privado do seu talento por obra do excesso de realismo e da ambição de glória e riqueza que nele desperta a cidade... Tal como nos outros Contos de Petersburgo com Gogol quase acreditamos que o mal não é russo e que Petersburgo não é Rússia: aqui, entre os pobres cinzentões de Kolomna (bairro periférico a oeste de Petersburgo), o diabo é ardente, agiota e estrangeiro.
Filipe Guerra, em www.almedina.pt
Comentário:
Os russos têm destas coisas. Principalmente os escritores russos do século XIX: Gogol é considerado um dos fundadores do chamado realismo russo. Mas parece-me que é muito mais que um escritor realista. Passo a explicar: se, pela análise social e pela escrita objetiva, direta, ele reflete essa onda a que se chamou realismo, a abordagem psicológica aproxima-o de um Dostoievski e a abordagem nas margens do fantástico confere-lhe um halo de pioneirismo na literatura da Rússia, se bem que a essa abordagem se possa atribuir o inevitável e confortável carimbo de "romântico".
Na verdade, é pouco comum nos escritores deste imenso país esta tendência para o fantástico. O velho retratado, com  o seu olhar demoníaco, facilmente prende o leitor como prendeu o interesse do jovem pintor, enfeitiçado pelo seu brilho.
No entanto, este conto de Gogol vai muito além de uma incursão "realista" pelo fantástico: a luta interior que o pintor trava, entre a força do seu talento e a pressão social, manifesta um conflito que ainda hoje é tão discutido: deve a arte submeter-se à ditadura daquilo que o público pede? esta questão ainda há pouco foi por mim abordada neste blogue a propóstito de um livro de Stephen King: o escritor, como o pintor, são muitas vezes tentados por aquilo que o público lhes exige, hipotecando toda a criatividade e talento.
O pintor Tcharkhov, como tantos escritores atuais, vendeu o seu talento; ele próprio "vende-se" à tentação demoníaca do sucesso fácil, desprezando a própria arte.
Por outro lado, Gogol agarra esta ideia como forma, também, de pôr em causa toda a ignorância e futilidade das classes mais poderosas. Não podemos esquecer que este livro foi escrito em plena era czarista, numa sociedade já decrépita, dominada pelos senhores que exploravam os mujiques e que viriam a ser a causa da revolução soviática, umas décadas depois. Nestas páginas de Gogol, como em tantas outras de Tolstoi ou Dostoievski anunciavam-se tempos de mudança. O obscurantismo não poderia durar eternamente. Os interesses económicos e politicos que justificavam a servidão quase feudal cavavam a sua própria sepultura. No entanto, pelo caminho, a arte e a inteligência iam sendo espezinhadas. Será que hoje, mais de um  século depois, não estaremos a seguir o mesmo caminho?
Sem dúveida, um livro que merece ser lido. E pensado. E por falar em interesses eonómicos: encontrei este livrinho numa edição da Quasi, numa daquelas bancas de livros "low-cost" por... um euro!!! Mais uma prova de que a arte, afinal, não tem preço.

domingo, 27 de abril de 2014

Augusto Abelaira - Outrora Agora

Sinopse:
Um homem e três mulheres: o masculino pulverizado nos seus avatares femininos, espelhados em três dimensões temporais que se entrecruzam e se sobrepõem, explorando intensamente as possibilidades da linguagem, da ficção, dessa outra ficção que é a vida. Um círculo que se fecha em torno de um homem que puxou talvez depressa demais o fio do destino. Será afinal esse cerco de seduções, a implacável dança das Parcas?
 Mas porque detrás deste fascinante microcosmo de palavras - com a sua perturbadora carga de realidade - se encontra um arquiteto jocoso, este é também um romance em que os grandes temas, as grandes interrogações, mas sem as grandes palavras, se deduzem de conversas banais. Um romance admirável.
in www.presenca.pt

Comentário:
Poucas vezes um escritor terá conseguido com tanto brilhantismo aliar a expressão do pensamento ao discurso direto do protagonista. Jerónimo fala, ouve e pensa. A expressão desses atos é como que uniformizada, transformada num discurso único. Afinal de contas, é assim que todos procedemos: falamos, ouvimos e pensamos em dimensões que caminham em conjunto, interferindo umas com as outras.
Esta mescla entre o falado e o pensado é, portanto, muito mais do que uma questão formal, é o realismo máximo na passagem do plano psicológico para a expressão oral do personagem e escrita do romancista. Brilhante, sem dúvida.
Se em termos de estilo estamos perante uma obra brilhante, o certo é que também no que se refere ao tempo do livro, deparamos com uma abordagem notável da vida humana; de como os diferentes tempos da vida se misturam, de como as diferentes realidades confluem para um tempo real, o presente, resultado de múltiplos percursos, mas também múltiplas perceções que, no fundo, confluem para uma única realidade.
Jerónimo amou Cristina como, trinta anos depois, haveria de amar a Filomena. No entanto, Cristina e Filomena parecem ser a mesma mulher em tempos diferentes.
No fundo, todas estas realidades diversas entrecruz-am-se por ação do pensamento. Aqui deparamos com uma profunda questão filosófica: a do primado do pensamento. Afinal, o mundo parece só ser real na medida em que foi (e é) pensado.
Na crise dos sessenta anos, Jerónimo revive no reencontro com Cristina toda a luta face ao regime fascista. No entanto, em plenos anos 90, a censura que outrora era exercida pelo regime parece ser agora exercida na mente de Jerónimo pelo seu próprio pensamento. Mais uma vez, o primado do pensamento! Neste caso, o pensamento como incómodo, como as moscas que Lutero entendia como criações do demónio para o impedir de meditar.
Em conclusão: estamos perante uma obra cheia de talento, de um escritor criativo, inteligente e, acima de tudo, profundamente reflexivo sem, no entanto, adormecer o leitor com considerações abstratas; o que está em causa é a vida e a natureza do pensamento humano. Um livro notável, um escritor notável que só agora descobri.