segunda-feira, 17 de junho de 2013

Crónica dos Bons Malandros - Mário Zambujal

 
Sinopse
Sinto-me sequestrado por estes bons malandros". Aos livros que fui escrevendo, e outros que venha a escrever, não lhes valem possíveis méritos. Mais de trinta anos depois de saltarem à cena, sem outra pretensão do que fazer sorrir circunstanciais leitores, os bons malandros não arredam pé e ganharam a afeição de gerações sucessivas. Nada mais surpreendente, para quem lhes deu vida, esta longevidade que permite divertir jovens de hoje, tal como acontecera com seus pais e mesmo avós. Aqui se apresenta uma nova (e esmerada) edição de um livro que já galgou pelo cinema e pelo teatro e ameaça novos estrondosos cometimentos. Entretanto, o que o autor ambiciona é o mesmo de sempre: proporcionar prazer de leitura a quem se dispõe à descoberta das singulares aventuras destes bons malandros. Se eles vos divertirem, cumprem o seu destino." 
 
Comentário:
A Crónica dos Bons Malandros é a mais divertida comédia que li nos últimos tempos.
Jornalista de profissão e boémio por natureza, Mário Zambujal demonstra neste clássico da malandragem um conhecimento profundo do meio em que evoluem os personagens.
Este livro, na verdade, é um clássico da malandragem; no entanto, há um pressuposto que deve estar bem presente na mente de todos os que decidirem ler o livro: malandros não são criminosos. Malandros têm sentido de humor e agem sempre em função de um certo código de honra que coloca a camaradagem entre os membros do grupo acima de todos os outros interesses. Aliás, quando as coisas correram mal nesta deliciosa história foi na sequência de um ato de traição em que um dos personagens tentou ser criminoso em vez de malandro.
Mas, mais do que defensor de qualquer catálogo de ética, este livro é uma divina comédia. Grande parte do sentido de humor do livro advém dos contrastes delineados logo no início do livro: um malandro que até conhece o museu Gulbenkian e os artistas lá representados; um outro malandro que até detesta armas. E um conjunto de malandros que até se comovem com as desgraças dos camaradas.
Ao longo do livro, Mário Zambujal vai fazendo também uma espécie de psicanálise do malandro nos seus diversos tipos: o malandro de raiz, cleptomaníaco, que hoje seria cliente de qualquer psiquiatra; o malandro tiranizado por uma infância desgraçada; o malandro que foi levado para a “má vida” por causa dos males de amores, enfim, um verdadeiro catálogo da malandragem…
Um dos aspetos que mais cativa o leitor é a linguagem super-objetiva de Zambujal; ali não há nada em excesso nem repetições; se o leitor se distrai um pouco, só tem um remédio: recuar até ao ponto onde começou a distração, porque aqui tudo é sintético e objetivo. Isto dá ao livro um ritmo narrativo muito interessante, que agarra o leitor até à última página. O final do livro é o culminar de uma grande odisseia; é um final dramático e épico onde não falta o sentimento de levar à lágrima as almas mais sensíveis.
Enfim, um livro genial que devia ser de leitura obrigatória para todos aqueles que amam a literatura portuguesa.

sábado, 15 de junho de 2013

O Velho e o Mar - Ernest Hemingway




Sinopse:
O Velho e o Mar é, porventura, a obra-prima de maturidade de E. Hemingway. Santiago, um velho pescador cubano, minado por um cancro de pele que o devora cruelmente, está há quase três meses sem conseguir pescar um único peixe. Vai então bater-se, durante quatro dias, com um enorme espadarte, que conseguirá de facto capturar, para logo o ver ser devorado por um grupo de tubarões. Esta aventura poética, onde Hemingway retrata, uma vez mais, a capacidade do homem para fazer face e superar com sucesso os dramas e as dificuldades da vida real, é seguramente uma das suas obras mais comoventes e aquela que mais entusiasmo tem suscitado, ao longo de mais de meio século, entre os seus fiéis leitores. 
in wook.pt
Comentário:
Um pequeno livro que é muito grande. Uma estória simples, muito simples mesmo, que deu origem a uma das maiores obras-primas da história da literatura mundial. Um velho pescador, um bote, uma cana de pesca e um peixe enorme. Pelo meio uma amizade suprema entre o velho e um jovem. Mas no coração da obra está algo de sublime: a luta incessante entre o velho Salvador e o seu destino; o peixe e o velho, a natureza e o homem, a vida e um destino fatal. A vida como caminho para um lugar onde não há redenção.
O velho Salvador não consegue segurar o peixe preso à linha, como o peixe não consegue segurar o homem; um destino fatal em que homem e natureza se prendem em laços de escravidão mútua. O homem é velho e está só. Mas talvez o peixe também seja velho e esteja só.
Ao longo da luta, homem e peixe começam a identificar-se, como que irmanados na solidão.
Numa luta entre iguais, não há lugar para o medo; o peixe tem a força e o tamanho – maior do que o barco – mas o velho tem a dignidade humana. Uma dignidade tão grande que o seu maior receio é que o peixe veja a sua mão ferida: “é indecente estar assim”, como se na luta o homem perdesse dignidade ao mostrar a sua inferioridade ao adversário: respeitar o peixe é condição essencial para uma luta entre iguais e só assim poderão ser dignos um do outro.
A luta com o peixe vai-se agudizando. A linha vai cortando as mãos do velho pescador; a fome e o sono fazem-no vacilar. Mas a força que vem da vontade faz com que ele renasça constantemente; aqui está a maior metáfora da vida humana: uma luta incessante. Pode ter um fim catastrófico, mas isso é o que menos interessa; no destino do homem está na luta acima de tudo, mas uma luta digna, uma luta em que a dignidade humana tem de vencer, mesmo na derrota.
Já com o arpão cravado, o peixe navega ao lado do barco; o velho não sabe quem puxa e quem é puxado. Nem interessa. Se o peixe fosse transportado no barco, morto ou agonizante, perderia a dignidade e a luta perderia o seu sentido. Assim, é uma luta entre iguais; uma luta honrada em que o velho não se importa de ser puxado por um adversário tão nobre, porque a nobreza do vencedor só engrandece a nobreza do vencido.
Poucas vezes a natureza do ser humano tenha sido relatada de forma tão bela, numa espécie de poesia em prosa que delicia o leitor da primeira à última página. Numa escrita concisa, objetiva mas ao mesmo tempo muito poética, Hemingway escreve assim algumas das páginas mais belas de toda a história da literatura.

terça-feira, 11 de junho de 2013

O Complexo de Portnoy - Philip Roth



                                                    O Grande Masturbador - Salvador Dali

Começo por aquilo que deveria ser, talvez, a conclusão deste texto: um livro formidável onde a sexualidade é exposta de forma despudorada, embrulhada num humor de levar às lágrimas.
Portnoy é o nome de família. Uma família judaica a viver nos EUA durante o período de terror do antissemitismo hitleriano. O jovem Portnoy, Alexander, é uma criança superdotada mas asfixiada pela rigidez de costumes da sua comunidade. O sexo, um escape interiorizado de forma obsessiva. O judaísmo, uma religião e uma cultura castradora. O humor, uma arma de Roth para troçar da vida.
Alexander Portnoy, um génio com um QI de 158, que avançou dois graus na escola primária, agora com 33 anos, conta a sua vida e confessa os seus dramas ao psicanalista. Toda a vida do jovem, todos os dramas e todas as frustrações são assim explanados no divã da psicanálise.
Daqui resulta um livro absolutamente fabuloso. Uma obra-prima!
Alexander acaba por atingir uma carreira política de sucesso: aos vinte e cinco já era consultor especial de uma subcomissão de Habitação do Congresso dos Estados Unidos. Mas a sua vida pessoal era uma tempestade contínua.
A linguagem de Roth é crua, por vezes cruel, incisiva e sem receio de ferir; talvez mesmo com intenção de ferir com lê, numa mistura genial da crueldade com o humor… uma mistura talvez sádica mas sem dúvida masoquista. Recorde-se que Roth é judeu e sempre assumiu uma postura muito crítica face à sua comunidade.
Até o próprio humor é cruel, sádico.
Por detrás de tudo isto está um sentimento de revolta para com o conservadorismo da comunidade judaica. Ou contra o próprio Deus?
“Vergonha e vergonha e vergonha e vergonha — para onde quer que me volte, dou com alguma coisa de que me deva envergonhar.”Este é o trauma maior de Alex.
O desencanto perante a falta de uma identificação com o grupo e com a sua cultura conduziram-no a uma sexualidade desenfreada e esta a uma recusa frontal do amor romântico.
Episódios cómicos carregam consigo profundas cargas simbólicas: uma sexualidade tão desenfreada que nem o fígado para o jantar escapa. Excita-se em qualquer lugar; mas na Terra Prometida não consegue…
Só na parte final do livro, alguém põe os “pontos nos i’s”: Alex viajara para Israel à procura das suas raízes mas, acima de tudo, à procura da sua própria personalidade; era fora um judeu revoltado contra o anti semitismo mas também contra o conservadorismo inútil e castrador da sua própria comunidade. Daí resultou uma personalidade confusa, perdida entre desejos desenfreados e um nunca acabar da procura da felicidade. Mas a felicidade interior, ele nunca a encontraria nas mulheres que conquistou. Esta parecia ser, finalmente, a sua musa da paz; uma jovem israelita que (mais uma vez) lhe fazia lembrar a mãe. Mas é mesmo esta jovem quem vai, finalmente, desvendar o verdadeiro Alex: Auto depreciativo, Auto reprovador, Auto escarnecedor. É assim que a israelita socialista responde ao pedido de casamento de Alex.
Ele só queria ser normal… e ela era tão parecida com a mãe!

sábado, 8 de junho de 2013

O Túnel - Ernesto Sabato




Sinopse:
O Túnel é a única novela escrita pelo argentino Ernesto Sabato e que, conjuntamente com Heróis e Túmulos e Abaddón, o Exterminador e diversos ensaios, o tornaram um dos mais importantes escritores contemporâneos. O Túnel possui uma estrutura policial, tendo em Maria Iribarne uma personagem feita dessa alternância de luz e sombra que acaba por levar o pintor Juan Pablo Castel a assassiná-la, num processo em que os seus actos são analisados até à exaustão.
Livro sobre o amor, O Túnel é também uma obra sobre a criação e o que nela pode haver de obsessivo na ânsia de ultrapassar a solidão. «Existiu uma pessoa que poderia entender-me; mas foi precisamente essa pessoa que matei», diz Juan Pablo que se apaixonara pela mulher que fora capaz de compreender um quadro seu e de quem mais tarde não suportará o abandono.

Comentário:
Num tom marcadamente existencialista, Ernesto Sabato surpreendeu-me com este livro. Não esperava encontrar aqui uma obra tão pungente, tão bem escrita, tão profunda na análise da alma humana. O Túnel é um daqueles livros que associa os dois atrativos maiores num bom livro: uma estória que agarra o leitor, feita de uma narrativa emocionante e, por outro lado, um fundo cheio de conteúdo, de ideias assentes na psicologia do comportamento do criminoso e na análise de toda a humanidade que há mesmo nas almas mais revoltadas.
O Túnel é a arqueologia do ódio; é o esmiuçar das profundezas das emoções mais negativas que um ser humano pode experimentar, desde a solidão até ao ódio assassino. Mas sempre com um terrível sofrimento.
O protagonista do livro é um homem desesperado pela solidão que, à partida, sabemos ter cometido um crime hediondo. Depois, o autor oferece-nos um magnífico feed-back com toda a história de um amor obsessivo que conduzirá ao crime.
Pablo Castel é um homem terrivelmente tímido; este é o ponto de partida para um caminho em três andamentos: timidez, solidão, e loucura. O desajuste entre o pensamento e a ação conduz Castel aos mais sombrios mundos que a sua mente alimentou. A fobia ao social – o inferno são os outros – acentua este ensimesmamento e a loucura é o ponto de chegada.
A alma (ou o pensamento) pode ser o maior inimigo do ser humano quando se constrói um mundo interior feito de ilusões ou sombras de Platão. À volta de Castel tudo eram sombras até ao aparecimento de Maria. Ela tornou-se a Luz, mas depressa a mente conturbada de Castel a transformou numa nova sombra, mais negra que nunca: a sombra tenebrosa do ciúme; e à tríade inicial (timidez, solidão e loucura) soma-se agora o ciúme que levará ao extremo da loucura. E, por uma vez, o pensamento, alimentado por um novo e poderoso ódio construído sobre o ciúme, levará Castel à ação; à única ação objetiva que a sua alma encontrou: o crime.
No fundo, por detrás de todos estes fantasmas, um outro monstro se alimentou da mente conturbada de Castel: o medo. O medo, o grande monstro do ser humano… matar não é um ato de coragem; é um ato de medo.
É por tudo isto que considero o existencialismo como a corrente literária mais profunda e profícua: por esse mergulho às profundezas da alma humana, esmiuçando os seus cantos mais remotos e assim fazendo com que o leitor reconheça aí os seus próprios fantasmas, ilusões e sonhos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Viajar na leitura




Às vezes um livro não é mais que um pedaço de mundo que coloco à frente dos meus olhos, como quem quer esconder algo demasiado visível. 
Regra geral é um pedaço de um mundo distante, suficientemente perdido para que não possa ser tangível, para que não possa fornecer a ilusão do realizável. Quero eu dizer: é bom que a fantasia fique claramente definida! Nada de confusões: aquilo é um livro, é ficção, o meu mundo não é aquele. 
Pode até ser tudo muito bonito; pode até ser um conto de fadas, com ou sem saias, com ou sem tentações pecaminosas. Mas é sempre um pedaço de mundo ao qual eu não terei, nunca, qualquer tipo de acesso. A não ser, é claro, por essa via etérea e estúpida que é o sonho.
Sim, pelo sonho posso lá ir. Mas isso é suficientemente estúpido para que eu nem por sombras pense em viajar para o interior do enredo que leio. Isso são coisas do Afonso Cruz…
Então que diabo de feitiço têm os livros de ficção que, sem me fazer sonhar, me transportam para outros lados? Talvez haja mesmo um mundo alternativo dentro dos livros... 
Ou serão eles, apenas (e já não seria pouco) uma forma alternativa de viajar neste mesmo mundo, o mundo real?
Há quem diga que há outra espécie de livros: aqueles que só falam de coisas reais. A tal "não ficção": livros sobre política, economia, ciência... 
Mas sobre esses eu tenho uma opinião muito sólida: não prestam para nada! Para que pode servir um livro se não diz nada que não seja verdadeiro? 
Ainda está para nascer o inteligente que me responda cabalmente a esta pergunta. 
(imagem daqui: http://bibliotecaescolarstoisidoro.blogspot.pt/ )