sábado, 16 de agosto de 2014

O Senhor Ventura - Miguel Torga

Comentário:
O Senhor Ventura é a prova definitiva de como os grandes escritores nos reservam sempre grandes surpresas. Isto porque um grande escritor não se refugia num estilo definido, nem numa temática bem demarcada. Pelo contrário,um grande escritor é versátil. E Miguel Torga é um grande escritor.
Todos nós conhecemos Miguel Torga dos contos de cariz rural, expressando a luta do homem pela sobrevivência, num enquadramento por vezes poético outras vezes profundamente realista da relação do homem com a terra. Neste livro, Torga surpreende com um pequeno romance em que narra das aventuras de um português pelo mundo. Assim, o Senhor Ventura é o aventureiro luso, o português das sete partidas, que correu mundo, encantou e ficou encantado. Mas este não é um herói clássico. Muitas vezes é um anti-herói. As suas aventuras envolvem sempre a matreirice, aquele carácter "desenrascado" que muitas vezes não hesita em sair dos limites da lei. Um malandro, em suma. Mas, como qualquer malandro, o Senhor Ventura também se apaixonou. E, mais uma vez, aí temos o herói preso pelas saias. O amor foi o início da desgraça do Senhor Ventura, uma espécie de D. Quixote encandeado pela sua Dulcineia mas que não deixou de ser, tal como o herói de Cervantes, um porta voz de todas as virtudes e defeitos do seu povo. Na sua matreirice mas também no seu espírito de aventura, O Senhor Ventura é um verdadeiro resumo da alma portuguesa.
Acima de tudo, este livro é uma engraçada caricatura da alma portuguesa. Ao leitor fica a sensação que o autor de divertiu ao escrever este livro, que encarou de forma despretensiosa mas que se tornou, sem dúvida, uma das suas obras mais interessantes. Mesmo assim, há um aspeto muito sério que tem de ser referido: nas entrelinhas há aqui um recado à ditadura, durante a qual Torga escreveu este livro (1943) e contra a qual sempre se bateu...
Em suma, um livro sério mas divertido, cheio de conteúdo embora breve. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O homem que via passar os comboios - Georges Simenon


Comentário:
Já aquando da primeira leitura que fiz deste livro, há uns quinze anos, fiquei convencido que esta é uma das três maiores obras-primas da história da literatura policial, a par de O Cão dos Baskervilles, de Sir Arthur Conan Doyle e o eterno Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie.
"O homem que via passar os comboios" tem tudo o que um grande livro deve ter: emoção, ritmo narrativo, ausência de descrições ou assuntos inúteis ou laterais, correção na escrita, objetividade e aquele toque de bom humor que nos deixa a sorrir durante a maior parte da leitura. 
Tecnicamente, um dos aspetos mais geniais deste livro é a forma como o autor gere a emoção: nós sabemos quem é o criminoso, sabemos quais são os crimes e a sua justificação. Só não sabemos se Popinga vai escapar.Ou até quando. E isso basta para um tremendo suspense. Só um génio literário é capaz deste desempenho!
Um certo exotismo começa logo com a apresentação do protagonista: Kees Popinga. Ele é um vulgar funcionário holandês, protótipo daquilo a que hoje chamamos classe média, com uma família vulgar e aparentemente feliz. Popinga até gosta do que faz. Mas um dia, como diria um adolescente dos nossos dias "passa-se". A empresa onde trabalha vai à falência e Popinga entra num percurso que o levará de discreto funcionário a um assassino apelidado de louco e perseguido como muito perigoso.
O que é absolutamente incrível é como o autor nos apresenta esse percurso como algo normal, credível. Tudo acontece com uma espantosa naturalidade! Isto só se explica pela genialidade de Georges Simenon, o notável criador do inspetor Maigret, que o notabilizou. Mas se o inspetor belga fez um sucesso absoluto, não tenho dúvidas que este Homem que Via Passar os Comboios é uma verdadeira obra de arte!
Há uma afirmação do nosso herói, Popinga, que resume bem o que se passa com este tipo de criminosos, e que ajuda a compreender a mente criminosa: quando lê no jornal, durante o seu refúgio em Paris, que a família e os amigos diziam que ele não estava no seu estado normal (ao cometer os crimes) Popinga diz: "era antes que eu não estava no meu estado normal". 
É óbvio que esta "anormalidade do normal", da loucura que resulta da normalidade, faz lembrar os estudos de Sigmund Freud, sobre a loucura e o seu método inovador, a psicanálise, tão em voga na época em que Simenon escreveu. Mas é muito mais que isso: é a humanidade na sua expressão mais radical. O ser humano não foi criado para se tornar um autómato. Popinga apenas procurava ser ele próprio. Ser livre e feliz. Foi essa procura da liberdade que o conduziu à criminalidade. Certamente, errou e o próprio Popinga reconhece a justiça do castigo que o espera. Mas a sociedade também falhou. E para essa falha não há castigo.

Sinopse:
"O Homem que via Passar os Comboios", publicado no ano de 1938, é uma obra que se insere no género da literatura policial, ou não fosse Georges Simenon o criador do celebérrimo comissário parisiense Jules Maigret. Kees Popinga é o protagonista deste divertido e admirável romance, que permite ao leitor realizar um trajecto pelos recantos mais sombrios da psicologia humana.
Empregado de Julius de Coster, o proprietário de uma empresa de abastecimento de navios, Kees Popinga leva uma vida respeitável e tranquila, sem grandes sobressaltos nem preocupações. Até que o seu patrão, confrontado com a inevitabilidade da falência financeira, decide fugir, simulando um suicídio. O sucedido opera uma profunda transformação em Popinga, que assume uma ruptura repentina com a sua rotina diária, profissão, mulher e dois filhos.
Após abandonar a família e Groninga, viaja até Paris, onde passa a viver numa marginalidade que desde sempre tinha ambicionado. Popinga é agora um lúcido assassino, que mata as suas vítimas com um inesperado sangue-frio, ao mesmo tempo que desafia as autoridades policiais ou escreve para os jornais de Paris a rectificar e comentar as notícias que são publicadas a seu respeito."
in: http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/georgesSimenon/amanha.htm

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sábado, 9 de agosto de 2014

O Códice Secreto - Lev Grossman


Quando saio da minha zona de conforto, ou seja, quando quebro a regra de só ler autores que me ofereçam garantias, acontece isto... desilusão. Não entendo muito bem porque é que algumas editoras tão bem conceituadas, tão competentes, como é o caso da Presença, editam livros como este (publicado em 2005). Bem, talvez eu esteja a exagerar. Este livro tem os seus méritos e certamente há por aí muito leitor que discorda desta avaliação negativa.
Na realidade há um ponto bastante positivo: o livro fornece-nos alguns dados interessantes sobre a Idade Média e tem fases de alguma emoção. Por outro lado, o facto de não se inserir em nenhuma etiqueta tradicional, como é enfatizado na sinpose (abaixo),  não deixa de ser um fator positivo. Há, de facto, qualquer coisa de original, de criativo, na forma como o livro é estruturado. No entanto, durante a maior parte da leitura, o ritmo narrativo é lento e esse é o maior pecado possível num livro que se pretendia emocionante.
O "cenário" até é muito bem montado: um génio das finanças, um verdadeiro workaholic, é surpreendido por uma proposta de trabalho muito peculiar: catalogar livros antigos e encontrar a todo o custo uma obra misteriosa do século XIV. Ao mesmo tempo, o nosso génio envolve-se com um jogo de computador altamente "viciante" que, misteriosamente, envolve um enredo cujos elementos se cruzam com a vida real do herói e com a história do tal livro misterioso da Idade Média. Esta ideia base parece-me bastante interessante e até oferece bons momentos literários, mas fica sempre a sensação que os elementos de mistério nunca foram explorados até ao limite.

Sinopse:
O Códice Secreto é um daqueles raros livros que escapam habilmente a uma categorização mais imediata. Thriller literário, histórico, bibliothriller ou romance com laivos de metaficção, a verdade é que este segundo livro de Lev Grossman exerce sobre o leitor uma embriaguês literária que, página a página, se vai transformando, insidiosamente, numa obsessão que só uma leitura ávida poderá aplacar. Aliás, o próprio protagonista, Edward Wozny, partilha com o leitor esse estado de inebriamento obsessivo, uma vez que também ele foi apanhado nas malhas do fascínio por uma obra da literatura medieval, um códice secreto do século XIV, atribuído a Gervase de Langford, e que supostamente encerra, numa mensagem criptografada, um segredo apocalíptico selado durante séculos. Edward estava prestes a gozar umas merecidas férias, depois de vários anos a construir uma carreira de sucesso num prestigiado banco nova-iorquino, quando lhe é pedido que organize a biblioteca privada de um casal de aristocratas britânicos, clientes do banco e fabulosamente ricos. Em breve, aquilo que se afigurava uma tarefa fastidiosa transforma-se numa odisseia de contornos inusitados onde ganham vida uma imaginação electrónica prodigiosa, na forma de um jogo de computador sofisticado e tão viciante quanto a própria procura do códice, e uma indecifrável teia de coincidências e ligações entre a realidade virtual, a lenda medieva e o presente de Edward. Plena de suspense e mistério, esta obra perturba e delicia, com o mesmo grau de intensidade, ao expor perante o nosso olhar a beleza e o incrível poder encantatório que podem envolver uma história bem contada e tornar tão vulnerável o leitor.
in www.wook.pt

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Alfreda ou a Quimera - Vasco Graça Moura


Comentário:
Esta incursão do autor pelo romance tem todas as características de uma atrevida aventura literária. Fracassada, diga-se desde já, pelo menos na minha opinião. O que salva o livro é o estilo. A objetividade da escrita, a clareza, a facilidade de leitura. Aliás,dizer que VGM escreve bem seria uma terrível banalidade. Pode não ter sido um grande romancista mas foi um poeta notável e um grande homem das nossas letras.
Fica claro que VGM não é romancista nem nunca o poderia ter sido. Nesta obra há uma ideia inicial, um leitmotiv bem claro, mas pouco mais que isso. Como o próprio autor confessou, a aventura e a obsessão do personagem principal teve origem num conto que VGM resolveu "encher" com considerações, reflexões e descrições avulsas, transformando o livro numa imensa manta de retalhos, um amontoado de assuntos triviais, misturados com reflexões tão profundas quanto enfadonhas. Pelo meio fica um enredo que parte de uma ideia-base muito interessante mas que não chega para preencher uma estória que se pretendia um pouco mais emocionante. 
Também a incursão pelos assuntos políticos é dececionante, tendo em conta a experiência e a cultura do autor, deixando-nos uma leitura simplista e quase primária dos conflitos laborais.
O ritmo narrativo é muito lento, em grande parte devido ao cruzamento da narrativa com as tais incursões reflexivas e descrições exaustivas. A partir de certa altura o livro parece mesmo perder o sentido, deixando mesmo a impressão que o autor hesita sobre o rumo a dar ao enredo. Isto acontece porque, de facto, a estória é "curta"; a obsessão do cinquentão divorciado e solitário não chega para preencher o romance e o autor tenta colmatar esta falta com devaneios aborrecidos para quem lê e a inclusão de personagens secundárias que em nada enriquecem o enredo.
Há pouco tempo li as mais de seiscentas páginas das Novelas do Minho em cinco dias. Para ler as 230 páginas deste livro levei os mesmos cinco dias e só não desisti a meio por mera teimosia.
Finalmente, uma referencia para uma capa que, na minha opinião, em nada favorece o livro, nesta edição da Bertrand.

Sinopse:
Alfreda ou a Quimera é a história de uma obsessão, de uma paixão por uma bela e misteriosa mulher com quem o protagonista deste romance - um bibliófilo portuense - se relaciona intima e fugazmente. Essa paixão passa a reger a sua vida, os seus interesses, os seus actos, os seus pensamentos, enquanto ele tenta reencontrá-la. Quando a reencontra, ou quando a verdade sobre ela é revelada, apesar do desapontamento que o atinge e do seu desinteresse em reencontrá-la carnalmente, João de Melo renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado que entretanto encontrara com outra mulher, para se entregar à quimera de Alfreda. As histórias que acabam bem não fazem história; mas alguns episódios obscuros e mal resolvidos marcam-nos para sempre. Além da história central do livro, destaquem-se ainda a relação do protagonista com Pips, o seu amigo homossexual inglês, e a relação apaixonada que mantém com o mundo dos livros e com a sua cidade do Porto.
in www.wook.pt

terça-feira, 29 de julho de 2014

O Anjo Branco - José Rodrigues dos Santos


Comentário:
Deixei passar alguns anos até ler um livro de José Rodrigues dos Santos. Por várias razões. A primeira delas terá sido a minha desconfiança em relação a sucessos fáceis. Pouco são os grandes escritores que obtêm sucesso imediato como aconteceu com este jornalista. Podia até ser uma moda mas, passados vários anos, ele continua a dominar os tops e as razões para esse sucesso devem ser alvo de reflexão.
Na música convencionou-se chamar "pimba" à musica popular de sucesso fácil. No entanto, o que se passa com JRS  é muito mais do que um sucesso pimba. Há motivos concretos que explicam o fenómeno. E um desses motivos é, seguramente, que ele escreve muito bem. A sua linguagem é extremamente visual, objetiva e ao mesmo tempo pessoal,como se dialogasse com o leitor. Fácil, sim, mas a facilidade de leitura também é uma virtude dos grandes escritores. Os herméticos, os que escrevem "para dentro" não obtêm sucesso comercial mas também dificilmente caem na categoria de grandes escritores. Isto porque a literatura de ficção, como já escrevi várias vezes, tem de ser diversão e os grandes escritores têm de ser consagrados pelo público que deve ser, sempre, o grande júri.
De entre todos os livros de Rodrigues dos Santos, escolhi este como o primeiro a ler, por duas razões; porque se debruça sobre um tema que me fascina (a guerra colonial) e porque se baseia em factos reais, mais exatamente na história de vida do pai do autor, um médico piloto em Moçambique, durante a guerra.
O formação jornalística do autor confere-lhe um rigor histórico e uma objetividade na análise que fazem deste livro, também, um testemunho histórico.
Mantendo uma perspetiva paternalista, típica de Salazar, Portugal procurou basear o colonialismo num conceito de superioridade civilizacional, justificando a tirania com o beneficio dos povos considerados naturalmente inferiores. Com esta contradição, o Portugal colonial entrou num beco sem saída que acarretaria consequências trágicas para ambos os lados: é que o paternalismo teoricamente civilizador esquecera sempre as reais necessidades da população nativa, de tal maneira que o incontestável crescimento económico das colónias se traduziu, apenas, no enriquecimento do colonizador. Assim, a população local, atrofiada pela exploração, perseguida pela PIDE e pelas autoridades coloniais, mais tarde ou mais cedo, haveriam de recorrer à violência. Em 1961 desencadeia-se a guerra colonial que levaria ao fim do regime fascista e do colonialismo. Pelo meio ficou uma das maiores tragédias e um dos maiores erros da história de Portugal. 
Normalmente os portugueses queixavam-se de não conseguirem distinguir o terrorista do indígena neutro ou até aliado. E isso explica os massacres, como o de Wiriyamu, que o pai de JRS viria a denunciar - se não os consegues distinguir, mata-os a todos e resolves o problema. Em linguagem militar, os soldados portugueses descreviam essas acções de chacina coletiva como "limpeza".
Ao longo do livro não faltam também os "clichés", como a paixão do jovem soldado branco pela bela nativa, até ao herói que desativa a bomba fatal hesitando entre o fio azul e o fio vermelho, à boa maneira de Hollywood. Mas é precisamente esta simplicidade, esta objetividade que garante o sucesso de vendas - aqui tudo é simples, linear e realista. Se não aconteceu exatamente assim, poderia ter acontecido...

Sinopse:
Baseando-se em factos reais, José Rodrigues dos Santos traz-nos desta vez uma obra sobre Moçambique, os portugueses, a guerra colonial e, sobretudo sobre o mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar. A vida de José Branco mudou no dia em que entrou naquela aldeia perdida no coração de África e se deparou com o terrível segredo. O médico tinha ido viver na década de 1960 para Moçambique, onde, confrontado com inúmeros problemas sanitários, teve uma ideia revolucionária: criar o Serviço Médico Aéreo. No seu pequeno avião, José cruza diariamente um vasto território para levar ajuda aos recantos mais longínquos da província. O seu trabalho depressa atrai as atenções e o médico que chega do céu vestido de branco transforma-se numa lenda no mato.Mas a guerra colonial rebenta e um dia, no decurso de mais uma missão sanitária, José cruza-se com aquele que se vai tornar o mais aterrador segredo de Portugal no Ultramar. Inspirado em factos reais e desfilando uma galeria de personagens digna de uma grande produção, "O Anjo Branco" afirma-se como o mais pujante romance jamais publicado sobre a Guerra Colonial – e, acima de tudo, sobre os últimos anos da presença portuguesa em África. José Rodrigues dos Santos, dando prova da sua já conhecida e reconhecida capacidade de renovação constante, continua a surpreender. Com efeito, no seu novo romance, adopta um registo mais intimista e revela outra faceta aos seus muitos leitores, numa atitude de desassombro e coragem que não deixará de empolgar e até emocionar. Este é um livro que todos os portugueses sentirão como muito próximo – pelas experiências, pelos acontecimentos narrados, pela repercussão dos factos.
in www.fnac.pt

domingo, 27 de julho de 2014

A Viúva do Enforcado - Camilo Castelo Branco


Comentário:
Fosse pela sua formação literária, fosse pela necessidade de produzir para sobreviver, o certo é que Camilo foi mantendo, ao longo da sua vida de escritor, essa eterna contradição entre a adesão à “moda” realista e a manutenção de uma escrita romântica, bem ao gosto popular. É o caso deste livro. Não estamos aqui, obviamente, a falar daquele romantismo patriótico, historiográfico, como o de Herculano, mas de um estilo que faz lembrar Júlio Dinis. Até certo ponto, apenas. Na verdade, este livro pode fazer lembrar Dinis se lhe retirarmos o bucolismo.
Na base de todo o enredo está um amor fatal. Depois vêm todos os clichés do género: o sogro mau e poderoso, o pérfido rival derrotado logo à partida para gáudio das donzelas leitoras; depois vem o drama; a morte injusta e inesperada; a morte da donzela perdida de amores impossíveis; a tristeza de uma viúva que se entrega a um segundo amor, regenerador mas também fatal. Por detrás da esperança escondia-se a vingança do mal. E tudo há-de acabar em dramalhão. A fatalidade do destino, essa “imagem de marca” do nosso Camilo.
Talvez a graça, a irreverência que emanam da escrita de Camilo tenham origem numa visão crítica sobre a sociedade e os costumes. E essa visão crítica não deixa escapar determinados estereótipos da sociedade portuguesa. Por exemplo,
Joaquim Pereira, pai de Teresa, curtidor de peles em Guimarães, não é fidalgo mas comporta-se como tal. É o exemplo do rústico miguelista, tacanho e sovina. Um pouco como toda a sociedade minhota tal como Camilo a descreve
Mas voltando à matriz romântica; talvez o bucolismo de Júlio Dinis, que Camilo, de certa forma, despreza, seja substituído por esse mesmo espírito crítico; então, a donzela de bom coração ou o padre bonacheirão talvez sejam substituídos pela visão real que Camilo tem do mundo rural: dominado pela boçalidade, pela ignorância, pela religiosidade supersticiosa e pela sovinice. E perdendo a matriz romântica, jovial e cor-de-rosa, Camilo ganha naquele bom humor sarcástico e às vezes cínico. Pena que não tenha conseguido libertar-se desse outro lado do romantismo: a tendência para o dramalhão.

Sinopse:
Teresa, a única filha de um comerciante de Guimarães, é uma moça devota até ao dia em que se encontra e apaixona por um jovem ourives. Perante a oposição do pai, e com a ajuda de um abade, eles casam e fogem para Espanha para fugir à ira do pai dela. Aí ela conhece Inês, a filha do alcaide da cidade onde se refugiam, que está apaixonada por António, um outro português, que foge da forca por homicídio. Este e Inês estão noivos, mas quando Teresa enviúva de repente, a situação altera-se e António, declara-se a Teresa e eles decidem casar. Inês refugia-se em Madrid e mais tarde morre, deixando o alcaide desesperado. Este vinga-se fazendo António cair nas mãos da justiça portuguesa, que o virá a enforcar.
in www.wikipedia.pt


quarta-feira, 23 de julho de 2014

Novelas do Minho - Camilo Castelo Branco


Comentário:
Quem conhece Camilo Castelo Branco do Amor de Perdição e desse conhecimento formou opinião, certamente ficará surpreendido com estas Novelas do Minho. Trata-se de uma obra em que o nosso genial Camilo demonstra toda a sua versatilidade como escritor, pondo em evidência dotes de sátiro notáveis, capazes de fazer rir e sorrir o leitor mais sorumbático. Que grande distância marca este Camilo realista em relação ao Camilo romântico! Mas este realismo é substancialmente diferente daquele que foi cultivado pelo seu rival Eça! O realismo de Camilo vai mais longe na sátira, quer de determinados padrões sociais quer mesmo do próprio romantismo e do naturalismo, tão em voga no século XIX português; na verdade, o mundo rural, tão bucólico e romântico em Júlio Dinis, aqui é povoado de gente interesseira e paisagens dominadas pelo estrume dos animais.
Por exemplo, na introdução ao conto O Comendador, Camilo faz uma exposição delirante da cidade de Braga, com um humor muito sarcástico: os seus hotéis pouco higiénicos, o passeio público com toda a sua futilidade, as farmácias com preços exorbitantes, enfim, com toda a ironia, “uma segunda Paris”.
Camilo conhecia como ninguém o carácter minhoto: alegre, folgazão,  beberrolas, bom anfitrião, mas também vingativo em questões de honra e malandro quanto baste no que aos negócios diz respeito.
Mas também a crítica social é uma preocupação constante. No conto O Comendador, aborda o tema dos enjeitados de uma forma crítica e cómica: Belchior, o enjeitado, haveria de vingar-se da sociedade e recuperar a mulher amada, a riqueza e a honra.
A crítica social é o tema fundamental, também, do livro O Cego de Landim: o cego é uma figura de estilo que envolve um certo sarcasmo; é caso para dizer que ele de cego nada tinha: enganava tudo e todos, agindo com a ladroagem e ganhando outro tanto denunciando-os à polícia. É o retrato típico do malandrote à minhota que fez fortuna com base nos negócios pouco claros que, naqueles tempos, muitos procuravam no Brasil, regressando ao Minho como beneméritos.
No entanto, o Destino, como sempre nas novelas de Camilo, teria uma palavra a dizer…
A crítica política e social, em A morgada de Romariz: Silvestre de S. Martinho era um fogueteiro que encontrou por acaso um tesouro escondido pelo avô. E assim se fez nobre, comprando uma propriedade da fidalguia.
Em O Filho Natural, Vasco Marramaque foi eleito deputado por “novecentos mil-réis, trinta e nove cabritos e duas e meia pipas de vinho verde”. Aí “Chegou, no delírio da sua alucinação, a imaginar que no Parlamento era necessário saber a língua portuguesa!” Esta passagem faz lembrar A Queda de um Anjo na sátira política. 
Álvaro, filho enjeitado de Vasco vai enriquecer no Brasil, levado por outro Álvaro enjeitado que lá enriquecera: o Brasil é encarado como uma espécie de terra prometida, último recurso dos enjeitados.
Também o conto O Degredado está repleto de “farpas” políticas. 
Um belo conto é sem dúvida Maria Moisés. Nesta novela, mais do que em qualquer outra, CCB satiriza a sabedoria popular baseada em crendices e na ignorância. Mas o alvo maior é um conceito de honra e uma moral hipócrita e violenta, cujas maiores vítimas eram as mulheres que engravidavam fora do casamento e os filhos naturais daí resultantes. Os homens, esses, vivem alheios a tudo isso… 
Mau grado esta tendência antirromântica, CCB não consegue afastar-se totalmente das suas raízes românticas. Por exemplo este livro, Maria Moisés, é uma narrativa capaz de fazer chorar as pedras da calçada… Sem dúvida um belo exemplar da criatividade, da imaginação e do humanismo deste enorme escritor português.
Pela sua extensão, e também porque foi publicado em separado, decidi não incluir neste comentário a novela A Viúva do Enforcado, que será comentada em separado.

Sinopse:
Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura, "Novelas do Minho" teve apenas uma edição em vida do autor, publicada entre 1875 e 1877. O 1º volume, "Gracejos que Matam", publicou-se em final de 1875. No ano seguinte foi a vez dos 2º ao 7º volumes, respectivamente, "O Comendador", "O Cego de Landim", "A Morgada de Romariz", "O Filho Natural" e "Maria Moisés". No ano seguinte publicou-se a continuação de "Maria Moisés" (8º volume), "O Degredado" (9º) e a mais conhecida das novelas, "A Viúva do Enforcado" (volumes 10 a 12).
in www.fnac.pt

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Morte no Retrovisor - Vasco Graça Moura


Comentário:
A sua morte, há três meses, apanhou-me desprevenido. Isto é, sem nunca o ter lido. Abona-me como desculpa o facto de Vasco Graça Moura ter sido, acima de tudo, um poeta. Um grande poeta. E, como já afirmei várias vezes, não sou, por incapacidade minha, um apreciador de poesia. Fiquei, portanto à espera da oportunidade certa para me iniciar na prosa deste grande intelectual português e decidi começar por esta obra, feita de narrativas curtas e aparentemente apropriada a leitores pouco versados na sua obra.
Pois bem, raras terão sido as ocasiões em que tão agradavelmente surpreendido fiquei ao ler um livro. Foi com imensa surpresa que encontrei um VGM bem humorado, irónico, por vezes satírico, outras vezes sarcástico. 
A maior parte destas 22 narrativas estão também cheias de referências literárias, de incursões pelas vidas e obras de grandes escritores. Por exemplo, chega a ser hilariante a descrição das aventuras amorosas escaldantes do católico Graham Green com a sua catolicíssima amante. O conto “Diálogo na Oficina”, por exemplo, é uma divertida narrativa em que Luís de Camões depara com uma espécie de acordo ortográfico com a Inquisição de permeio. Genial e divertido.
É certo que algumas outras narrativas, mais reflexivas, são mesmo enfadonhas, mas a maioria destes contos são estórias simples e engraçadas, com motivos tão peculiares como um novo heterónimo de Fernando Pessoa, ou mais complicado ainda, um “ortónimo” (nome do autor que teve existência real)… Outro exemplo curioso do sarcasmo deste livro é a opinião que um inglês do século XVII revela sobre os portugueses, nesta frase lapidar: ”gente que costuma de por os seus semelhantes na fogueira a fim de mais expeditamente se evaporarem para o céu”…
 A morte, sempre à espreita no retrovisor destes contos, aparece irónica, com um sorriso, melodramática como um tango argentino.
O humor atinge os limites da gargalhada em O Porco de Cobrição que é, ao mesmo tempo, uma sátira mordaz a um certo tipo de religiosidade hipócrita. Mas é a mais fina ironia que dá o tom ao momento mais alto deste livro: uma carta imaginária de Camilo Castelo Branco a Eça de Queirós, com algumas alfinetadas a ilustrar a inimizade de estimação que unia (ou separava) os dois génios da nossa literatura oitocentista.
Nota final para o último conto: hilariante!

Sinopse:

Um menino obcecado por um periquito azul, enquanto graves coisas se vão passando; uma conversa na oficina de António Gonçalves, o impressor de Os Lusíadas; o reencontro fatal de um casal suburbano desavindo; um maestro fatigado que se deixa adormecer à beira-mar; uma história de sexo, assassínio e talvez espionagem; Graham Greene, padrinho e amante de Catherine Walston: a segunda carta que Philip Lord Chandos, filhos mais novo do Conde de Bath, escreveu a Francis Bacon; um caso de amor e morte, com a Alemanha nazi em pano de fundo e latas de sardinhas Walkyrie de permeio, uma tragédia operática no Largo do Picadeiro, os bizarros mistérios de um colégio de meninas de boas famílias… e mais uma dezena de outros universos singulares revisitados com uma ironia que vai das ficções engendradas pelo autor.
in www.fnac.pt

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Anel - Jorge Molist


Comentário:
Às vezes até é agradável ouvir uma canção Pop, ver um filme do tipo Academia de Polícia ou então ler um livro como este. Isto acontece especialmente quando estamos em férias, como é óbvio. Livros de ficção histórica sobre os Templários, com muito suspense, tornaram-se o "pimba" da literatura de ficção. Podemos ler um ou cem que a estória é sempre a mesma. No entanto, por mais do mesmo que leiamos, este tipo de leitura não deixa de ter o seu lado agradável: não obriga a pensar muito e proporciona umas horas de entretenimento com muito mistério e algum humor. Mesmo que esse humor derive de clichés que nos fazem rir pela forma algo ingénua como são construídos. 
Neste livro os membros da seita de neo-templários, por vezes aparecem descritos mais como um bando de imbecis do que um grupo religioso; dá a impressão que estamos perante um grupo de alienados que, sem motivo aparente, se juntam numa velha igreja para celebrar missas em latim, ocultando a sua identidade.
De resto é o cliché do costume: uma jovem advogada terrivelmente bonita, um jovem esotérico, hippie do século XXI mas estudioso de arte antiga e doutorado em história medieval (!) perseguem um tesouro deixado pelos templários, tesouro esse que também é procurado pelos "maus da fita". Por isso, pelo meio, vai haver muita "porrada", muitos beijinhos e muita emoção. Eles quase vão morrer, mas vão ser felizes. Entre os dois há o inevitável vértice do triângulo, na figura de um jovem gorducho a fazer lembrar um personagem da série Verão Azul.
O final, obviamente, será surpreendente. Não muito original, confesso, mas engraçado. Pelo meio há um enigma interessante. Por vezes o autor perde-se um pouco em descrições históricas algo inúteis, dando a impressão de estar a encher umas páginas. Mas ao mesmo tempo há também informações interessantes para quem não conhece a história desta fascinante ordem religiosa que foram os Cavaleiros do Templo.
Em conclusão, um livro sem grande qualidade literária (mais do mesmo) mas que se lê de forma descontraída e até agradável. A tradução desta edição Ésquilo deixa algo a desejar mas, enfim, estamos no Verão...
Sinopse:
No seu vigésimo sétimo aniversário, Cristina, uma promissora advogada nova-iorquina, recebe dois anéis. O primeiro, um rico anel de noivado, é de um próspero corretor da bolsa, enquanto o outro, um misterioso anel antigo, provém de um remetente anónimo. Aceita ambos, sem saber que são incompatíveis e que o anel com o rubi vermelho irá arrastá-la para uma aventura que lhe dará ensinamentos sobre a vida, o amor e a morte, através de um conjunto de experiências inesquecíveis que alterarão para sempre o seu destino e a sua visão do mundo.
Sob a influência desse estranho anel, a jovem viaja para Barcelona, onde enfrenta misteriosas personagens, segredos de família inconfessáveis, o seu primeiro amor, lojas herméticas e uma enigmática herança que exige decifrar chaves ocultas na arte gótica templária.
Durante este périplo, tanto físico como espiritual, Cristina percorre a costa mediterrânica, regressando ao seu passado e a um outro muito mais longínquo: o trágico destino do último dos templários do reino de Aragão.

in www.esquilo.com

sábado, 12 de julho de 2014

A Confissão de Lúcio - Mário de Sá-Carneiro


Comentário:
Lúcio é um jovem desiludido não se sabe bem com quê, talvez com ele próprio e com o seu caráter. A sua personalidade sombria, cheia de dúvidas existenciais e problemas de identidade levam-no a deambular entre o estado depressivo e a procura do prazer radical. Um qualquer português médio, habituado às duras condições de vida do trabalho mal pago, facilmente diria que este personagem precisava era de trabalhar. Na verdade, o diletantismo de Lúcio só é possível por se tratar de um jovem de boas famílias...
No entanto, o que está aqui em causa não é o quadro social nem as condições económicas dos personagens; é o fado português; é o triste e acabrunhado ser português...
Este fado português, triste, sombrio, pessimista, derrotado, irrita-me profundamente. E nesta fase de inicio do século XX, quando este livro foi escrito, esse tom sombrio parece ter-se tornado uma espécie de moda. Um certo pessimismo diletante que Sá-Carneiro transpõe para o seu protagonista, Lúcio, mas que era também o traço definidor do seu caráter e que o levaria ao suicídio. No entanto, este pessimismo vem acompanhado de um narcisismo profundo. Lúcio, como Sá-Carneiro, tinha consciência da sua genialidade; no entanto, tudo se passa como se o mundo os desprezasse e eles tivessem que destruir o seu próprio caminho: um com o suicídio e o outro com a passividade total perante uma acusação errada de assassínio. E Lúcio nada faz para contrariar a injustiça que o leva à cadeia. Como se a desgraça fosse uma fatalidade e ele fosse totalmente impotente para contrariar o destino.
Tudo se passa como se esse pessimismo, essa tendência para a auto-destruição seja uma espécie de destino a que o ser humano assiste impávido. Irritante. 
Sinceramente, gostava de saber o que diria Eça de Queirós desta "moda". Provavelmente faria da vida de Lúcio (ou de Sá-Carneiro) uma comédia. Infelizmente, Sá-Carneiro preferiu fazer da sua inércia uma tragédia e suicidou-se.
Nada disto deve, no entanto, desvalorizar o livro; o conto, de pouco mais de oitenta páginas, lê-se de forma fácil e fluída, à boa maneira dos contos de Allan Poe que Sá-Carneiro certamente leu. O caráter "policial" e algum "suspense" conferem à narrativa um tom bastante ligeiro e interessante.
Nesta velhinha edição da Europa-América deparamos com uma "pérola" extra: uma excelente introdução de António Quadros, onde se retrata este curioso escritor português, futurista deprimido, poeta brilhante e romancista melancólico, amigo pessoal de Fernando Pessoa.

Sinopse:
"A Confissão de Lúcio", considerada a mais importante obra de Mário de Sá-Carneiro, tem como base o triângulo amoroso entre Lúcio, o seu amigo Ricardo de Loureiro e a mulher deste, Marta. Nesta novela escrita em forma de policial, o narrador, Lúcio, confessa a sua inocência, depois de ter passado dez anos na prisão acusado da morte de Ricardo, ocorrida em circunstâncias misteriosas e da qual a única testemunha é o próprio Lúcio. Obra vanguardista, nela se encontram algumas das obsessões do autor: o amor pervertido, o suicídio, o sentimento de incompletude e de alienação do eu que lhe conferiram uma aura de poeta maldito.
in www.fnac.pt


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Último acto em Lisboa - Robert Wilson


Comentário:
Porque é que os estrangeiros veem o nosso país e a nossa história de uma forma mais clara e acertada do que nós próprios? Esta questão há muito que me preocupa e fascina. Mas fiquemos-nos por este livro.
O autor, inglês, é conhecido internacionalmente como escritor policial. No entanto, nesta obra, ele vai bastante além das fronteiras do género.
Antes de mais nada deve dizer-se que não é um livro ambicioso, embora muito extenso. Não é um livro brilhante, mas lê-se com tremendo agrado. A narrativa de Wilson tem qualquer coisa de muito peculiar: sem imprimir um ritmo muito acelerado à acção, ele nunca deixa de nos prender totalmente a atenção. Por outras palavras: a qualidade da sua escrita permite criar uma envolvência tão grande que o autor se pode dar ao luxo de imprimir um ritmo por vezes algo lento, a não ser talvez nas últimas páginas.
Mas o que mais me impressionou neste livro foi a leitura tão clara, concisa e acertada que o autor faz da participação indireta de Portugal na segunda guerra mundial. Ele desmonta como nunca ninguém conseguiu, o velho erro que muitos de nós cometemos ao acreditar piamente que Salazar nos manteve afastados da guerra. Pelo contrário, Wilson demonstra-nos com clareza a forma descarada como o ditador negociou com Hitler, fornecendo-lhe o volfrâmio que ajudou a matar tantos milhões de pessoas, ao mesmo tempo que negociava também com a outra parte, os ingleses. Ao mesmo tempo, explica-se como o ouro nazi veio parar a Portugal, ouro sujo pelos crimes perpetrados contra os judeus e não só. Ao mesmo tempo, retrata-se um Portugal afundado na miséria, enquanto Salazar dormia sobre o ouro nazi.
Mas também a revolução de 25 de Abril tem lugar neste livro; mais uma vez, vista de forma muito clara e objetiva, mostrando-nos mesmo algumas facetas pouco esclarecidas pelos (talvez envergonhados) escritores portugueses; é o caso, por exemplo, da história ainda muito mal contada da fuga dos "Pides" para o Brasil e da inserção de outros, muitas vezes camuflados, nas forças de segurança do Portugal democrático. Dessa forma, muitos criminosos da tortura fascista acabaram por se integrar cobardemente na sociedade democrática, muitas vezes com falsas identidades.
Em termos formais, este livro apresenta-se também de forma muito interessante, com duas estórias separadas no tempo (anos 40 e anos 90), mas que acabarão por se cruzar nos finais da década de 90 do século XX. O enredo é digno da melhor literatura policial. O estilo é direto, objetivo, fácil. 
Enfim, um livro muito agradável para ler em férias, mas também uma obra cheia de informações preciosas para quem pretende conhecer melhor o século XX português.

Sinopse (in www.wook.pt):
1941
Klaus Felsen, o proprietário de uma fábrica em Berlim, é forçado a alistar-se nas SS e a dirigir-se a Lisboa, cidade de luz, onde ao ritmo dos dias convergem nazis e aliados, refugiados e especuladores, todos dançando ao compasso do oportunismo e do desespero. A sua missão é infiltrar-se nas geladas montanhas do Norte de Portugal, onde se trava uma luta traiçoeira pelo volfrâmio, elemento essencial à blitzkrieg de Hitler. Aí encontra Manuel Abrantes, o homem que põe em movimento a roda de ambição e vingança que irá girar até ao final do século.

Final dos anos 1990.
O inspector Zé Coelho, da Polícia Judiciária, investiga o crime sexual cometido contra uma jovem adolescente em Lisboa. Esta pesquisa conduzirá Coelho por terrenos lodosos da História a um crime mais antigo - enterrado com os ossos de um passado de fascismo - e a um pavoroso motivo enterrado ainda mais fundo. E, uma vez à superfície, o passado e o presente irão convergir com implicações arrepiantes e consequências insondáveis.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Acabadora - Michela Murgia


Sinopse:
Numa pequena vila sarda, a velha costureira, Ti Bonaria, acolhe Maria, «cedida» a ela por uma família humilde com muitos filhos. Oferece à sua «filha da alma» uma profissão e estudos, uma escolha audaciosa para uma mulher na Sardenha dos anos cinquenta. Maria cresce rodeada de ternura; mas há certos aspetos da vida da Ti Bonaria que a incomodam, em particular as suas ausências noturnas. Ela não sabe que a velha é a acabadora, a «última mãe», a mulher que ajuda os que sofrem a morrer. No dia em que descobre, a sua vida muda por completo e serão necessários muitos anos para que consiga perdoar à sua mãe adotiva. Com uma linguagem poética e essencial, Michela Murgia cria duas personagens inesquecíveis numa Sardenha intemporal, de costumes fascinantes.
in www.wook.pt
Comentário:
Eis como se pode escrever de forma agradável sobre a eutanásia; este é o melhor elogio que se pode fazer a este livro. Sobre um tema tão lúgubre, em que a morte está por todo o lado; sob um ambiente tão "pesado", a autora submete a morte ao amor. 
Esta não é uma obra-prima nem pretendeu ser; é um livro simples, que se lê num ou dois serões, com uma escrita profundamente poética mas ao mesmo tempo simples e objetiva. Ou seja, sendo um livro sobre algo que é por natureza doloroso, não deixa de ser uma leitura agradável e mesmo bastante positiva.
Mesmo assim, por detrás da aparente leveza da escrita não deixa de estar uma Itália profundamente triste e deprimida, saída da segunda guerra mundial, em que o fascismo de Mussolini provocou a devastação e a miséria. A comunidade rural da Sardenha, de onde é originária a protagonista, é retratada como palco da mais sórdida miséria, onde as famílias dificilmente conseguem sobreviver com dignidade. Esta realidade sócio económica é agravada por um quadro mental extremamente conservador, onde reina a superstição. Este conservadorismo, escondido por detrás de tradições e de uma moral apenas aparente, constitui um quadro de obscurantismo que prevalece nesta velha Europa, ainda e sempre dominada pelo preconceito.
Mas a critica social e de costumes não são as alavancas principais deste livro; ele ganha força, sobretudo, com a dinâmica emocional; não direi que é um livro escrito para fazer chorar as almas mais sensíveis mas anda muito perto disso; é uma obra que se dirige muito mais ao coração do que há racionalidade de quem lê.
Não é, por tudo isto, um livro de grande excelência literária; mas é um livro que encerra uma mensagem polémica e atual e, como toda a literatura de qualidade é uma obra capaz de fazer refletir o leitor.
Sendo um livro muito pequeno, com uma escrita muito sintética e um enredo muito linear, não é uma obra de profundo alcance literário. Mas vale bem todos os minutos que empregamos na sua leitura.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Adolescente - Fiodor Dostoievski

Sinopse:
Adolescente (1874-1875) é o menos conhecido dos cinco longos romances produzidos por Dostoiévski entre 1866 e 1880, o seu período de plena maturidade literária. Escrito na primeira pessoa, é a história de um filho ilegítimo. Mais um herói humilhado e ofendido, que cresceu entre estranhos, sem quase ter visto a mãe nos seus primeiros anos de vida, e atormentado por uma existência parental «dupla» - o pai biológico e o marido de sua mãe, que lhe deu o nome - divisão acentuada ainda pela diferença de estrato social entre essas figuras parentais. A história de Arkádi é assim uma espécie de «educação sentimental», extremamente complexa pela multiplicidade de contradições que dividem o jovem. Todos os grandes temas de Dostoiévski estão aqui presentes: a luta entre o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, a degradação moral inerente à condição humana e a possibilidade de redenção...Dostoiévski evidencia nesta obra os sinais terríveis que são o reflexo dessa dicotomia em todos os estratos da sociedade russa nos meados do século XIX.
in wook.pt

Comentário:
Esta é uma das obras mais complexas de Fiodor Dostoievski. Ao longo do livro, deparamos com uma personalidade muito complexa, a do jovem Arkadi, que Fiodor explora com a precisão de um relojoeiro. Nesta obra, mais do que em qualquer outra do génio russo, a alma e o cérebro do protagonista são esmiuçadas até ao limite, revelando-nos algo de extremamente complexo: uma personalidade perdida entre impulsos e emoções, uma inteligência que se esvai paulatinamente, perdida entre esses impulsos emotivos que traem qualquer racionalidade.
Nunca gostei do título de mestre do romance psicológico que vulgarmente é atribuído a Dostoievski, porque tal atributo é manifestamente redutor. Mas o certo é que se há obra em que essa designação pode encaixar, é esta. O próprio enredo parece ser deixado em segundo plano; ou melhor: o enredo serve apenas para reforçar toda uma abordagem psicológica do comportamento de Arkadi; o enredo é a expressão das hesitações, dúvidas e impulsos do jovem. É por isso que este livro pode ser considerado maçador por alguns leitores mais impacientes: a ação decorre de forma muito lenta.
Um dos motivos que me leva a considerar Fiodor um génio ímpar é a forma como ele lê e interpreta a alma humana. Ao ler estas páginas, ficamos com a sensação que Fiodor leu e estudou profundamente as obras de Freud. No entanto, ele viveu várias décadas antes da publicação das obras do fundador da psicanálise. E os fenómenos descritos por Freud, como a neurose ou o peso dos traumas de infância na vida das personagens, estão lá, em todas as obras de Fiodor. Arkadi sofreu as consequências de uma infância conturbada, onde não faltou um pai ausente, uma mãe que abandonou o marido e até um amigo violento. Essas marcas fizeram dele o adolescente intempestivo e com um caráter peculiar, cheio de dúvidas e contradições: ele é muitas vezas apático, mesmo medroso e de repente assume atitudes de enorme coragem; a sua relação com Versilov exibe sempre um inacreditável misto de paixão e ódio; o seu estado de espírito oscila entre a depressão e a alegria exaltada, sem meios termos; a sua vida é pautada pelo irracional, pela emoção, mas ele não deixa de ser dotado de uma inteligência brilhante. Quer dizer: Arkadi é um somatório de contradições.
Por outro lado, a impulsividade e emotividade de Arkadi simbolizam também o caráter que o autor atribui ao povo russo, muito emotivo, deixando-se dominar pelo sentimentalismo, em desfavor da inteligência. Por outro lado, ao longo de toda a obra, está bem patente a crítica ao servilismo relativamente ao estrangeiro, desde o "vicio" snobe de falar francês até à influencia inglesa na politica e na economia. Há mesmo um momento hilariante no que respeita a esta crítica, quando Fiodor no conta um episódio anedótico mas cheio de intenção crítica:algures numa estrada havia um enorme penedo a dificultar o trânsito; o governo mandou fazer um estudo e gastou-se dinheiro; houve propostas que chegaram ao ponto de construir uma via férrea, que os ingleses contratariam por alguns milhões de rublos, para tirar dali a pedra. E depois de muitos estudos e de planos milionários, os mujiques (camponeses) encontraram uma solução: abrir um buraco ao lado, empurrar para lá a pedra e cobri-la de terra. Assim se fez. Mas a tentação é sempre esta: lá como cá, ontem como hoje, é preciso gastar dinheiro e entregá-lo a alguém...
Em termos formais, este é o romance mais inovador de Dostoievski; a ação decorre no passado, em que os flashbacks se sobrepõem, sem linearidade mas também sem deixar que o leitor alguma vez perca "o fio à meada".
Como não podia deixar de ser numa obra deste escritor, a critica social está sempre presente; a fidalguia russa, muitas vezes ociosa e sempre pouco produtiva, vai alimentando um estatuto baseado nas aparências burguesas mantido na maior parte dos casos por fortunas apenas aparentes e recorrendo constantemente ao crédito. Na verdade, na sociedade peterburguense do século XIX era normal que estes fidalgos vivessem do crédito, alimentando inúmeros usurários. Por outro lado, vícios públicos como a prostituição e o jogo (do qual o próprio autor foi vítima) estão também por todo o lado. Dostoievski tinha plena consciência de que nunca poderia haver uma verdadeira evolução na vida da Rússia sem uma verdadeira revolução ao nível das relações sociais; e não se tratava apenas do problema da servidão; essas réstias de feudalismo eram apenas os sinais de toda uma sociedade caduca que viria a provocar as graves convulsões do início do século XX. E (também) nesse sentido, a obra de Fiodor foi premonitória.
Mas é no âmbito filosófico que, a meu ver, este romance tem um alcance mais modernista. A geração de Arkadi, a nova geração russa da segunda metade do século XIX: o caráter de Arkadi que expus acima representa a geração russa de finais de século, marcada pela influência política do socialismo e do anarquismo e pela influência filosófica de um certo niilismo. Este assunto, aliás, parece ser transversal a toda a obra de Dostoievski mas é em Os Irmãos Karamazov que explana melhor esta ideia: a de uma geração descrente, assente sobre a desconfiança no futuro e uma certa resignação perante um presente em que as ideias revolucionárias não se afiguram muito concretas. O século XX mostraria, mais tarde, que, afinal, essas ideias revolucionárias podiam concretizar-se...

domingo, 22 de junho de 2014

Joana, a Louca - Linda Carlino

Sinopse:
Joana, a Louca é o primeiro romance da autora Linda Carlino. Um romance histórico, onde Carlino ficciona a biografia de uma das personalidades mais intrigantes da história do século XVI europeu. A obra tem início em 1496, quando a jovem filha dos Reis Católicos, com apenas 16 anos, embarca para a Flandres para desposar Filipe, o Belo, e acompanha toda a sua vida até ao final dos seus dias, encarcerada em Tordesilhas pelo próprio filho, Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Um romance com uma nítida descrição da personalidade de Joana, uma mulher de inteligência arguta e sentimentos nobres, de espírito inquebrantável que a fez resistir à traição por parte daqueles que lhe eram mais próximos e que lhe valeu o injusto epíteto de Louca
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Comentário:
Linda Carlino, infelizmente falecida em  2010, foi uma escritora inglesa de ficção histórica que nunca teve grande impacto em Portugal, pelo menos até ao lançamento no nosso país, no ano de 2009, deste livro sobre a rainha Joana. E o sucesso (embora relativo) que este livro teve no nosso mercado, estou convencido que se ficou a dever mais ao nome da Rainha Joana do que ao nome da autora ou à qualidade literária da obra.
Para ir direto ao assunto, estamos perante uma grande história num livro que poderia ter sido uma obra-prima. A riqueza e o encanto da história de Joana justificava um romance bem mais interessante.O que Linda Carlino faz é, apenas, contar a história da vida de Joana. Só por si, esse é já um importante ponto a favor do livro; não é preciso mais nada; basta contar a história e ela tem força suficiente para agarrar o leitor. 
Joana era filha dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, réis de Castela aquando da descoberta da América. Vitima da necessidade de estabelecer relações de aliança com a Flandres e a Casa de Áustria, Joana é destinada ao casamento com um dos políticos mais pérfidos de toda a história da Europa Ocidental: o irascível Filipe, o Belo. Um casamento condenado ao fracasso e à desgraça de Joana, que mesmo assim viria a ser uma mulher que marcou a história da Europa, ao dar origem ao império dos Habsburgos.
Mesmo assim, parece que a autora desperdiçou várias oportunidades para alcançar um sucesso bem mais retumbante:
- A história tem pouca "estória"; falta aqui o sal da imaginação e o encanto da criatividade; trata-se de muita história e pouco romance. Obviamente, isto tem um lado positivo: o caráter pedagógico do livro. Na verdade, este romance pode muito bem funcionar como um manual de história dos tempos dos Reis Católicos e do império de Carlos V. Mas não é isso que se espera de um romance histórico.
- Mesmo ao nível da história propriamente dita, Linda Carlino podia e devia ter explorado muito melhor um episódio crucial em toda esta história e que no livro a autora teve a infeliz ideia de contornar: a morte de Filipe, o Belo foi, ao que tudo indica pela historiografia, provocada; ele terá sido envenenado. Perante a incerteza deste facto e a incerteza do autor do crime caso tenha existido, a autora prefere contorna-lo. Perdeu, a meu ver, uma oportunidade de melhorar o enredo, tornando-o bem mais interessante.
- Como acontece em muitos romances históricos, também neste livro há um exagero no que respeita a descrições do ambiente da época. É caso para dizer que não era necessário ser tão verossímil
Perante tudo isto só me resta concluir que o livro tem um grande valor pedagógico por ser muito fiel à verdade histórica. Para quem não conhece o drama de Joana a Louca, esta pode ser uma excelente leitura; mas para quem já conhece o assunto, esta pode tornar-se uma leitura algo fastidiosa.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Ladrão Honesto e Outras Histórias - Fiodor Dostoievski


Sinopse:
Este décimo terceiro volume da colecção «Obras de Fiódor Dostoiévski» é uma colectânea de contos e novelas que reúne quatro obras escritas ou publicadas entre os anos de 1848 e 1849. São elas "O Ladrão Honesto", "Uma Festa com Árvore de Natal e Um Casamento", "O Pequeno Herói" e "Nétotchka Nezvánova". Os dois últimos títulos ficarão para sempre associados às circunstâncias conturbadas que envolveram a sua concepção — "Nétotchka Nezvánova", originalmente projectado por Dostoiévski para ser um romance, foi abruptamente interrompido pela prisão do autor, que só anos mais tarde o viria a concluir, com grandes alterações, e optando por transformá-lo num conto; "O Pequeno Herói" foi escrito durante o encarceramento na cela solitária da Fortaleza de Pedro e Paulo. Não obstante as vicissitudes biográficas, o génio de Dostoiévski nunca deixou de se manifestar em todas as páginas da sua obra, e é com deleite que o reconhecemos, uma vez mais, nesta colectânea que espelha com nitidez o conhecimento profundo que o escritor tem da alma humana e a sensibilidade ímpar com que retrata as suas variegadas expressões e idiossincrasias
in www.presenca.pt
Comentário:
Em narrativas curtas, este livro apresenta-nos uma valiosa amostra de todas as características que fizeram de Fiodor Dostoievski um escritor único: o seu humanismo, a sua sensibilidade em relação às injustiças sociais, a capacidade de crítica social objetiva e mordaz e, acima de tudo, aquela magnífica capacidade de penetrar nas profundezas da mente humana, através de personagens reveladoras dos dilemas e conflitos interiores que caraterizam o ser humano.. É isto que faz dele um dos pioneiros e mestres do chamado romance psicológico.
O conto "O Pequeno Herói", escrito na prisão, é um notável exercício literário em que o autor se coloca na pele de uma criança, interpretando e expondo com genialidade todos os dilemas da criança rejeitada e incompreendida, vítima de uma sociedade fútil e egocêntrica. Uma criança esmagada por essa sociedade feita de rivalidades e aparências, vai descobrindo o feminino como refúgio e encanto da alma. Mas também depressa esses encantos esbarram nos vícios e na própria degradação da condição feminina, também ela esmagada pelas constrições sociais.
O conto de maior dimensão, já próximo do romance, Netotchka Nezvánova, é uma extraordinária incursão pela mais profunda miséria da sociedade russa do século XIX, dominada pela frivolidade e pelo vício. A protagonista, Netotchka, é vítima das tremendas desigualdades sociais da época, marcada ainda pela servidão feudal dos tempos do czar. A miséria revoltante e o ambiente de violência doméstica em que vive, num meio onde predomina o álcool e a degradação, constituem o quadro de vida de Netotchka. A miséria em que vive vai criando na criança uma estranha sensação de culpa, que mais não é que o reflexo do esmagamento da personalidade. No entanto, não são apenas as condições sócio-económicas que preenchem este quadro de miséria e infelicidade: quando Netotchka  se vê num meio social elevado, depois de adoptada por um príncipe, nem por isso ela encontra a felicidade; a miséria material é substituída por outros vícios e injustiças. O estigma da sua condição social permanecerá e a sua personalidade permanecerá esmagada.
A prosa de Dostoievski, no seu realismo e humanidade, contradiz todo o preconceito de que este génio é vítima em alguns tipos de leitores; este livro contradiz todos aqueles que continuam a afirmar que Dostoievski é chato e difícil. Difícil é apenas sentir a miséria e suportar a infelicidade dos seus personagens, uma vez que a arte do génio leva o leitor a sofrer como se revivesse a história. A escrita, essa, é objetiva e fluida. Aí reside um dos aspetos mais geniais deste grande escritor: a facilidade com que as misérias que descreve entram na mente de quem lê, de forma fácil e clara. Talvez este seja o livro ideal para quem pretende iniciar-se na leitura de Dostoievski ou então para quem pretende reformular a sua opinião.

domingo, 15 de junho de 2014

Os Segredos de Jacinta - Cristina Torrão


Sinopse:
Os anos entre 1138 e 1147 foram decisivos para a formação do reino de Portugal, acontecimentos como a Batalha de Ourique, o casamento de D. Afonso Henriques e a Conquista de Lisboa influenciaram igualmente a vida dos mais humildes, que foram afinal os primeiros portugueses da História.
Jacinta, a personagem principal deste romance, é uma dessas pessoas.
Seguindo o percurso desta jovem, o leitor é introduzido na forma de vida do século XII, em que virtude e pecado andavam lado a lado, sendo ténue a fronteira entre o aceitamento e a maldição. Quem não se conformava com as normas caía facilmente na marginalidade.
«E porque haveria de consentir no nascimento de uma criança que seria igualmente alvo da crueldade daquela gente?
Jacinta cerrou as mãos em punho, por baixo da mesa, ao surgir do pensamento que a assustava. Sabia que havia guisas de evitar que uma criança nascesse. E que a bruxa do Serro do Cão era sábia nesses procedimentos…»
Violação, aborto, adultério, bruxaria e prostituição são algumas das situações em que Jacinta se vê enredada, enquanto a História de um condado feito reino segue o seu curso. 

Comentário:
Tal como nas suas obras anteriores, também neste livro, Cristina Torrão leva-nos pela mão a um passeio pelo Portugal Medieval com todos os seus encantos e terrores. Mais do que a conturbada situação política e militar da época, está em cena o enquadramento mental, social e moral desse período, salpicado por descrições objetivas e agradáveis dos usos e costumes da época.
Não se pense, no entanto, que este é um livro apenas sobre o século XII; o que está em causa é muito mais que a formação de Portugal; é a formação da mentalidade portuguesa, com todos os vícios e qualidades com que hoje nos identificamos: a bondade natural do nosso povo, uma certa ingenuidade que tanto conduz à solidariedade como à fácil assunção de comportamentos e atitudes ditadas pela pressão social dos grupos privilegiados; em suma, é a construção do nosso quadro mental que está em jogo neste livro.
Os usos e costumes da época são precisamente apresentados como testemunho deste quadro mental. Por exemplo, as festas populares são momentos de profunda religiosidade, de humilde submissão aos ditames da santa madre igreja, ao mesmo tempo que são ocasião para as mais profanas diversões, onde tudo funciona como uma catarse social face ao rígido quadro de valores imposto pela moral cristã que mais não é que uma forma de submissão do povo aos ditames do poder. A festa religiosa tal como nos é descrita neste livro assume portanto um caráter ambivalente onde a religiosidade tem o seu contraponto na extroversão de atitudes mentais reprimidas.
Ao contrário do que acontece nos livros anteriores da autora, o acento tónico é colocado no povo, enquadrado numa sociedade de ordens fortemente estratificada. No topo da pirâmide, o alto clero, que rodeia o poder político e o condiciona. Ao lado desta elite eclesiástica, os fidalgos, a nobreza terratenente que nasceu da elite guerreira constituída pelos líderes dos exércitos cristãos, compensados, também eles, pelo poder político pela doação de terras. Por outro lado, o povo é constituído por uma maioria de pobres vivendo do trabalho agrícola nas terras dos “filhos de algo”, os nobres, e por uma minoria de pequenos proprietários como Ataúlfo, o pai de Jacinta.
A rigidez desta sociedade, bem como o conservadorismo extremo que a sua manutenção implicava, conduz a maioria da população a um estado de miséria social e, por outro lado, à manutenção de um quadro mental fundado sobre a ignorância e o preconceito. Portanto, a vida conturbada de Jacinta, o esmagamento da sua personalidade enquanto mulher e ser humano tem muito menos a ver com as precárias condições de vida do que com esse quadro mental de obscurantismo e preconceito, funcionando como verdadeiros alicerces de um quadro social que se pretende cimentar.
Um dos temas fundamentais do livro é constituído pela abordagem da condição feminina, num mundo em que o masculino é preponderante a vários níveis. Mas o papel da mulher na sociedade medieval não é apenas secundário; ela é frequentemente associada às forças demoníacas, por via do pecado de Eva que constitui um estigma para toda a condição feminina. O próprio aborto provocado é de certa forma justificado porque o pecado mortal estava já cometido e o inferno era o destino incontornável. Dessa forma o aborto apenas confirmava o triunfo de Lúcifer. Esta associação de ideias entre a mulher e o diabo justifica também uma outra prática cujo papel é fulcral no mundo medieval – a bruxaria. O papel da bruxa é ambivalente: por um lado ela é o protótipo da mulher pecadora, condenada e amaldiçoada. Por outro ela é a salvadora; aquela que tem poder para expulsar o próprio demónio. 
No entanto, há estratégias de superação deste bloqueio mental; e Jacinta procurara-as desesperadamente. Segundo a bruxa, as únicas mulheres que conseguem escapar a esta pressão social eram as monjas e as próprias bruxas, precisamente aquelas que optavam de forma voluntária pela solidão. A solidão voluntária é uma via de libertação.
Na verdade, o tema da bruxaria é um dos mais complexos na historiografia medieval – se, por um lado, é reconhecido à bruxa o poder de afastar o próprio diabo, por outro, elas próprias são associadas ao demónio, sendo perseguidas e condenadas por isso.
A autoexclusão social é, portanto, uma forma de escapar a todas aquelas constrições sociais. O mosteiro surge aqui como um espaço de liberdade mas também de tolerância; só aí Jacinta encontra a paz interior porque só aí lhe é permitida uma identidade, uma autonomia enquanto ser humano livre e pensante. A própria oração é encarada por Jacinta como um momento de escape e de reencontro consigo própria; como se o verdadeiro Deus existisse dentro dela, no seu espírito e não como um ente superior e castigador.
É genial a forma como a autora estabelece um paralelismo entre Joana, a irmã monja de Jacinta e a soldadeira moura Zaida: duas personagens só aparentemente opostas, uma freira e uma prostituta, duas mulheres livres que conseguiram levar a paz ao coração de Jacinta.
Mas o preço da independência pessoal é sempre elevado: Joana, Zaida e a bruxa conseguiram essa rara autonomia, essa paz interior, mas tiveram de prescindir de algo: Joana prescindira dos sentimentos; a bruxa da sua identidade social e Zaida prescindira do próprio corpo. Para ser livre é preciso abdicar de algo. Na verdade, se o mundo humano, com as suas contradições e injustiças é uma ameaça permanente à paz de espírito, o amor não o é menos, apresentando-se como uma fonte de tormentos e de conflitos interiores. Mesmo que disfarçado de idílio e sonho, o Amor é uma vigorosa e trágica fonte de sofrimento e de dependência.
O talento literário de Cristina Torrão radica no seu estilo objetivo, cinematográfico, como já o adjetivei a propósito de obras anteriores, mas não é só isso. Há nas suas obras um humanismo notável, uma sensibilidade apurada mas também uma dimensão de análise psicológica profunda, uma capacidade de entrar na mente das personagens, a fazer lembrar grandes mestres neste domínio como Dostoievski ou James Joyce. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Campeonato do Mundo de Escritores

Na próxima segunda feira Portugal defronta a Alemanha no Campeonato do mundo de futebol.
Como este é um blogue sobre livros, imaginei o que seria um Campeonato do Mundo com escritores em vez de craques da bola.
Se assim fosse, na segunda feira entrariam em campo estes senhores:
PORTUGAL
Luís de Camões
Camilo Castelo Branco
Mário de Carvalho
José Luís Peixoto
Valter Hugo Mãe
Eça de Queirós
Fernando Pessoa
José Cardoso Pires
José Saramago
António Lobo Antunes
Manuel Alegre
 ALEMANHA
      Bertolt Brecht
Günter Grass
Hermann Hesse
Thomas Mann
Karl Marx
Friedrich Nietzsche
Erich Maria Remarque
Bernhard Schlink
Patrick Süskind
Eckhart Tolle
Leopold von Ranke

Com estas equipas não tenho grandes dúvidas de que ganhávamos o jogo com goleada; a Alemanha, com estes jogadores apenas teriam uma estratégia com alguma possibilidade e sucesso: adormecer os nossos jogadores, principalmente o guarda redes que, como se sabe, só tem um olho.


quarta-feira, 11 de junho de 2014

Uma outra voz - Gabriela Ruivo Trindade


Sinopse:
José Mariano Serrão foi um republicano convicto que contribuiu decisivamente para a elevação de Estremoz a cidade e o seu posterior desenvolvimento. Solteiro, generoso e empreendedor como poucos, abriu lojas, cafés e uma oficina, trouxe a electricidade às ruas sombrias e criou um rancho de sobrinhos a quem deu um lar e um futuro. É em torno deste homem determinado, mas também secreto e contido, que giram as cinco vozes que nos guiam ao longo destas páginas, numa viagem que é a um tempo pessoal e colectiva, porque não raro as estórias dos narradores se cruzam com momentos-chave da história portuguesa. Assim conheceremos um adolescente que espreitava mulheres nuas e ria nos momentos menos oportunos; a noiva cujos olhos azuis guardavam um terrível segredo; um jovem apaixonado pela melhor amiga que vê a vida subitamente atravessada por uma tragédia; a mãe que experimentou o escândalo e chora a partida do filho para a guerra; e ainda a prostituta que escondia documentos comprometedores na sua alcova e recusou casar-se com o homem que a amava. Por fim, quando estas vozes se calam, é tempo de ouvirmos o protagonista através de um diário escrito noutras latitudes e ressuscitado das cinzas muitos anos mais tarde.
Baseado em factos reais, Uma Outra Voz é uma ficção que nos oferece uma multiplicidade de olhares sobre a mesma paisagem, urdindo a história de uma família ao longo de um século através das revelações de cada um dos seus membros, numa interessante teia de complementaridade.
in wook.pt
Comentário:
O simples facto de a narrativa ser feita em cinco vozes dá ao livro um aspecto original que muito terá contribuído para o prémio Leya com que foi agraciado. Na verdade, trata-se de um estilo algo inovador que nos permite ter uma visão global de uma personalidade, vista por cinco narradores bem distintos.
Por outro lado, o livro associa com algum sucesso a ficção à biografia. Se acrescentarmos a isto uma escrita fluída, clara e um autêntico passeio pelo século XX português, encontramos talvez a explicação completa para a seleção do júri deste prestigiado prémio.
Mesmo assim, eu, leitor comum e desinteressado, não deixo de ficar algo surpreendido. O livro tem qualidade mas a verdade é que não consigo encontrar nele nada que verdadeiramente traga inovação. Por outro lado, a narrativa acaba por se perder em bruscos saltos temporais que dão ao livro um aspeto de "manta de retalhos" sendo que alguns deles parecem claramente desenquadrados do tema central, a vida do benemérito republicano João José Mariano Serrão. 
Talvez a expetativa fosse demasiado elevada quando parti para a leitura, no entanto fica a sensação de que falta aqui algo que distinga realmente o livro das centenas que todos os meses se publicam em Portugal.
Esperava mais e melhor, é certo. No entanto, como referi, a obra tem qualidade. 
O aspecto mais positivo centra-se na forma como a vida do protagonista testemunha momentos chave da nossa história, como o movimento republicano, com as suas contradições, dificuldades e conflitos, bem como a ascensão do Estado Novo, que terá precipitado a fuga para África do protagonista. 
Passando pelos últimos tempos da Monarquia, pela Primeira Republica, pelo Estado Novo e mesmo pelos primeiros anos da democracia, fica bem patente a força do conservadorismo luso, não só na evolução política como, acima de tudo, nos costumes e na mentalidade, o que acaba por se plasmar num quadro social dominado pelo preconceito, pela intriga interesseira e por uma certa perpetuação do obscurantismo.
Em suma, estamos perante um grande prémio para uma pequena desilusão.

domingo, 8 de junho de 2014

A Guarda Branca - Mikhaíl Bulgákov


Sinopse:
Primeiro romance de Mikhaíl Bulgákov, largamente inspirado nas suas experiências pessoais, A Guarda Branca apresenta-nos a cidade de Kíev, em 1918, através dos olhos dos irmãos Turbin. Mergulhados no caos da guerra civil, Aleksei, Elena e Nikolka constituem um retrato brilhante das crises existenciais provocadas pela guerra e pela perda de alicerces sociais, morais e políticos.
in www.presenca.pt

Comentário:
Se é difícil compreender o que actualmente se passa na Ucrânia, é incrível como um livro escrito em 1926 nos pode ajudar  a  contornar essa dificuldade.
A povo ucraniano foi um dos mais martirizados pelo incrível processo de mudanças políticas nos primeiros 25 anos do século XX: na sequência do domingo sangrento, em 1905, em que tropas do czar assassinaram milhares de camponeses famintos, o processo revolucionário foi despoletado e viria a culminar com a revolução bolchevique de 1917. Entretanto, a Rússia abandonara a primeira guerra mundial, deixando vários territórios nas mãos da Alemanha, pelo vergonhoso tratado de Brest-Litovski. Dessa forma, os ucranianos ficaram abandonados a uma multiplicidade de conflitos: os Alemães, derrotados na guerra, rapidamente abandonaram os ucranianos; os Russos encontravam-se mergulhados no conflito entre os socialistas moderados do Exército Branco e os Bolcheviques do Exército Vermelho; na Ucrânia, uns sonhavam com o regresso à paz czarista e autocrática, outros alinhavam com a revolução bolchevique e outros encaravam o exército branco de Kerenski como o compromisso de salvação. Outros ainda apoiavam um cacique local, o sanguinário Petliura, que se afirmava nacionalista mas não hesitando em massacrar os seus opositores ucranianos.
É entre esta terrível encruzilhada de interesses que encontramos os irmãos Turbin, generosos e ingénuos, lutando como podem pelo poder branco, aquele que consideram mais justo.
O irmão mais velho, Aleksei, é o alter-ego do autor, médico e combatente algo ingénuo mas um verdadeiro resistente. Nikolka, o mais novo, é um generoso combatente. Por todo o lado,  no entanto, reina a violência e o horror da guerra; uma guerra terrível, entre compatriotas, abandonados por russos e alemães, entregues aos mais violentos oportunistas.
O mais terrível deste livro é que nele encontramos uma assustadora actualidade; entre ideologias e interesses, é o povo quem se sacrifica sempre.
No estilo profundamente poético de Bulgákov encontramos, no entanto, a sua tendência para a dramaturgia; em muitos momentos o leitor dá conta de estar a ler uma verdadeira peça de teatro. Assim, é notável a junção de uma escrita poética a uma magnifica objectividade das descrições e clareza dos diálogos.
Ou seja, estamos perante um bom exemplar da melhor literatura russa, se bem que muito longe daqueles que eram os ídolos de Bulgakov, então em início de carreira, principalmente na influência notável da análise psicológica e crítica social que caracterizaram esse grande mestre que foi Fiodor Dostoievski.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Os livros que devoraram o meu pai, na opinião da Catarina Macedo


Hoje volto a dar a palavra aos meus caros jovens. A minha aluna Catarina Macedo, de 14 anos, leu Afonso Cruz e gostou.
Aqui fica, pois, a sua opinião sobre esse interessante livrinho que foi o primeiro êxito deste novo nome grande da literatura portuguesa:
A obra “Os livros que devoraram o meu pai” foi um dos melhores livros que li.
Nesta história muita fantasia é envolvida, o que dá um toque interessante. Este livro, escrito por Afonso Cruz, fala sobre Vivaldo Bonfim que passava o seu tempo a ler. Um dia ficou preso no livro “A Ilha do Dr. Moreau” fazendo com que o seu filho, seguindo os seus passos de leitura, o procurasse por todas as obras lidas por Bonfim. Este vai interagir com autores e personagens, entrando dentro das histórias, à procura do seu pai.
A única crítica que podia fazer a este livro é o facto de, por vezes, durante a leitura, não se percebe se na realidade, o filho de Vivaldo está dentro ou fora do livro.
É uma história com muita fantasia e com algumas partes de humor que eu aconselho a toda a gente. É verdadeiramente uma aventura no mundo literário que desperta interesse.
Catarina Macedo