sábado, 2 de novembro de 2013

A Feira dos Assombrados - José Eduardo Agualusa


Sinopse
Publicada pela primeira vez em 1992, A Feira Dos Assombrados, tem como cenário a velha cidade do Dondo, às margens do Rio Quanza, em Angola, nos últimos dias do século XIX. Tudo começa com a descoberta de um misterioso cadáver: O primeiro corpo que o rio trouxe ainda nos pareceu humano. Tinha as partes todas de que somos compostos, a pele lisa e sem escamas, como a nossa, e os enormes olhos abertos guardavam até um resto de luz e de calor. A partir desta descoberta, o Dondo, lugar inteiramente apartado do mundo, vai mergulhar num estranho pesadelo. Uma alegoria sobre a presente situação política e social de Angola.

Comentário
É uma limitação minha, reconheço, a pouca apetência para ler e gostar de contos. Talvez por esse motivo, esta foi a obra de Agualusa que menos me entusiasmou.
Estas estórias parecem-me algo insipidas quando comparadas com os livros de maior folego deste grande escritor angolano. Seja como for, não deixam de marcar presença os mais significativos traços da sua escrita: a fantasia, a ingenuidade do falar do povo, a poesia da linguagem falada, naquela mescla sui generis do português com a voz da terra africana. Por exemplo: (o boato) “ faz acontecer; dá acontecência ao insucedido.” Repare-se na forma simples, sintética, como se alia a musicalidade da língua à verdade ingénua e, ao mesmo tempo, profunda da sabedoria popular.
No conto principal, que dá título ao livro, Agualusa faz entrar em cena a sua paixão pela história de Angola, nomeadamente pelo período final do século XIX. Aí se cimentou a presença portuguesa na ocupação da terra angolana. E é de uma forma crua, quase brutal que Agualusa nos transmite a imagem do colonizador:
Os ratos não tardaram a fugir, transferindo-se para o norte com as suas veneradas doenças de ofício, as suas balanças viciadas, as suas quinquilharias baratas, o seu vinho triste, os seus ferros de educar gentio. E por ratos quero dizer os comerciantes portugueses, quase todos antigos degredados, a medrosa cáfila de pequenos artífices e as inevitáveis putas, ávidas aves que vêm e que voam…” É a tristeza nua e crua da verdade histórica, de uma nação brutalmente colonizada e espoliada.
Nesse conto, o mais extenso, na típica mescla de fantasia e realismo que carateriza este autor, dá-se conta do aparecimento de uma série de misteriosos cadáveres, trazidos por um rio, o Quanza. Simbolicamente, o primeiro cadáver surge no dia 31 de janeiro, o dia em que a monarquia portuguesa foi pela primeira vez abalada. Sobreviveu, no entanto, como sobreviveria a miséria moral do colonizador, assim como a terra sedenta de liberdade.
Na verdade, este conto destaca-se dos restantes não só pela sua extensão mas principalmente pelo simbolismo do seu conteúdo; os cadáveres trazidos pelo rio são as oferendas negras de uma realidade externa que fez Angola mergulhar no terror, no medo, na tristeza.

Mau grado toda a poesia desta escrita e todo este simbolismo, o leitor fica algo dececionado; de Agualusa espera-se sempre um pouco mais.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A Queda de Um Anjo - Camilo Castelo Branco


Li este livro pela primeira vez quando ainda era estudante. Hoje, uns 30 anos depois, deliciei-me da mesma forma com as aventuras e desventuras deste deputado transmontano do século XIX mas que nos faz lembrar, a cada passo, os políticos de hoje em dia. Afinal, há vícios que são intemporais.
Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, o morgado de Agra de Freimas era um ingénuo, o puro, o quase santo miguelista, defensor acérrimo da moral e bons costumes. Logo no início da carreira tentou impor na câmara de Miranda do Douro as leis do foral de Afonso II. Não lho permitiram, afirmando os progressistas que tais leis estavam desatualizadas. Calisto ficou despeitado! Furioso! Como podem a moral e os bons costumes estar desatualizados? Esta pureza de sentimentos, esta generosidade na defesa dos valores maiores, fazia de Calisto o verdadeiro anjo! Uma preciosidade!
Casado era com a prima Teodora, uma mulher pouco afortunada pelas belezas temporais mas um exemplo de qualidades morais; um poço de virtudes. Uma mulher ignorante mas pura, feia mas adornada pelas maiores virtudes da alma.
No entanto, bastaria avançar uns dez anos na linha do tempo para encontrarmos um Calisto Eloy deputado em Lisboa, elegantemente vestido, fumando charuto e acompanhando uma bela e elegante amante, nos teatros da capital. Até de partido mudara: tornara-se deputado do governo, traindo todos os princípios conservadores que tão acerrimamente defendera.
Esta é a caricatura de toda a corrupção a que o poder conduz. Um livro que se afasta imenso do tradicional romantismo camiliano para formar um quadro de crítica social que o aproxima, por exemplo, da crítica queirosiana.
O provincianismo é o menos mau dos males. Muito pior que ser provinciano é defender ideias ao sabor das conveniências. O tradicionalismo de Calisto é visto como expressão de uma certa ingenuidade. Pelo contrário, a sua adaptação aos luxos e vícios do poder são expressão de toda a hipocrisia que o próprio poder gera.
É um pouco injusto considerar Camilo um escritor romântico ou de novelas “fáceis”. Ele revelou uma qualidade que poucos conseguiram superar: a versatilidade. Este livro é incomparável, como foram incomparáveis As Novelas do Minho ou Eusébio Macário.
O que mais surpreende neste livro é a extensão da visão crítica de Camilo; não é só a hipocrisia da classe política que está em causa; é o seu intemporal oportunismo, mas é também a crítica de costumes, a crítica social a uma fidalguia pedante, beata e ignorante de que ainda hoje encontramos eco nos corredores do poder político.

Enfim, um livro agradável, por vezes hilariante, inteligente e… atual!

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Terra Sonâmbula - Mia Couto

Sinopse:
Moçambique, década de 1990. Numa terra devastada pela guerra, um menino sem memória é encontrado por um velho errante. Muidinga e Tuahir, ambos marcados por conflitos que não entendem, desprovidos de passado e de esperança. Unidos, fazem de um machimbombo incendiado a sua casa, e de um diário, encontrado junto de um cadáver, a sua demanda. Nas linhas do caderno, Muidinga acredita ter um mapa que o levará de volta à sua mãe. Nessa busca, o insólito par descobre-se, reinventa-se, enfrenta a insanidade e a miséria que grassam em seu redor, e recusa deixar morrer o alento. Tal como a terra que percorrem sem destino, uma terra que nunca dorme, nunca descansa, uma terra sonâmbula.
Já adaptado ao cinema, Terra Sonâmbula foi considerado um dos doze melhores romances do século XX em África. Cruza elementos da cultura tradicional moçambicana com a própria história do país, realismo e magia, factos e símbolos, Terra Sonâmbulaé, acima de tudo, um hino ao poder dos sonhos e da vida.

Comentário:
Este talvez seja o melhor livro de Mia Couto.
Pelo menos, é o mais simbólico. Tudo neste livro é pensado, calculado, como se tudo o que Mia escreve tivesse por trás um segundo significado.
Mas é também o livro de Mia Couto que mais me agradou em termos de linguagem:

 O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.
A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca.

Isto é Poesia saída da terra. Os livros de Mia Couto têm este condão de nos embalar numa beleza impar das palavras. A sua escrita sintética, depurada, tem a mesma beleza que as paisagens de Moçambique.

Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
O chão, a vida e a morte; o céu enquanto sonho.

… a guerra que contaminara toda a sua terra
A guerra contaminara a terra com a morte.

Seu conceito era que a morte nos apanha deitados sobre a moleza de uma esteira. Leito dele era o puro chão, lugar onde a chuva também gosta de deitar:

Um conceito puro da terra: o pai de Kindzu encarava a terra como algo de puro e benéfico; ainda não estava conspurcada e amaldiçoada pela guerra.

Taímo recebia notícia do futuro por via dos antepassados. Dizia tantas previsões que nem havia tempo de provar nenhuma. Eu me perguntava sobre a verdade daquelas visões do velho, estorinhador como ele era.
O pai de Kindzu alinhava o tempo numa única realidade, sintetizando passado, presente e futuro através do sonho.

O comerciante indiano, Surendra, vítima de racismo, por ser ”monhé”: Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.

Depois há aqueles palavras em que Mia Couto transforma adjetivos em verbos; fico sem saber se será recurso literário de Mia Couto ou parte integrante do falar moçambicano?
As palavras originárias do falar moçambicano soam a poesia: “pensageiro” J o povo fala poesia…
E depois há o autor, na sua forma peculiar de brincar com a língua portuguesa, criando palavras como “administraidor”.

- Fica saber: o chão deste mundo é o tecto de um mundo mais por baixo. E sucessivamente, até ao centro, onde mora o primeiro dos mortos.

A terra está sempre presente. Numa visão ecológica, ela é o mundo natural que se mistura com a vida humana. Mas numa visão mais transcendente, ela é a pátria dos mortos que, no entanto, fazem parte do mundo dos vivos.

A guerra é uma desgraça que nunca vem só. Além de trazer a fome, trouxe a corrupção, que é a forma de os ricos se fazerem donos daquilo que seria dos pobres.

O tchóti, o anão caído dos céus, é o elemento fantástico que representa a intervenção do além na vida dos homens; ele não é da terra, assim como a bela mulher, a aparição que surge ao rapaz, no barco. Farida era filhado Céu. Pelo contrário, o velho Siqueleto é emanação da terra, mas uma terra violenta porque violentada, cruel porque vítima de crueldade.

Os personagens do livro são, todos eles, nómadas; desenraizados; como se a terra, sonâmbula, lhes fugisse.

Nhamataca, amigo de Tuhair, é o fazedor de rios: a água purifica a terra, é o elemento positivo. Veja-se a diferença entre o autocarro e o barco; aquele encerra a morte, enquanto o barco abriga o amor.
Na parte final o mar surge como elemento redentor e nascente de esperança, por oposição a uma terra sonâmbula, na antecâmara da morte e de um autocarro queimado, onde a esperança da partida para outras paragens há muito morrera.


Esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós – diz o feiticeiro; é com esta angústia de uma terra vencida pela guerra e de um povo massacrado que termina o livro.

domingo, 13 de outubro de 2013

A História de uma Serva - Margaret Atwood



Sinopse
Uma visão marcante da nossa sociedade radicalmente transformada por uma revolução teocrática. A História de Uma Serva tornou-se um dos livros mais influentes e mais lidos do nosso tempo.
Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.
Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.

Comentário:
A leitura deste livro fez-me viajar mentalmente, várias vezes, para esse magnífico livro que é “A Estrada” de Cormac Mccarthy. Neste como naquele, o cenário apocalíptico assola a mente do leitor com aquilo que tem de mais medonho: a sensação de realidade, de um pesadelo real. A serva é uma personagem anónima e subjugada por um mundo onde todo o sonho se perdeu, onde a vida não passa de uma terrível prisão, sem destino, sem qualquer raio de esperança. O seu nome, por exemplo, é apenas um patronímico (Defred resulta do seu dono ser Fred). Até ao nome ela perdera o direito.
No fundo, é esta a realidade contraditória da atual sociedade americana: a pátria do capitalismo, das liberdades individuais, a pátria do sonho, caminha para um abismo. São enormes as implicações políticas desta mensagem; trata-se de um estrondoso grito de alerta perante o crescente radicalismo de algumas ideologias políticas mas é mais que isso: é uma reflexão filosófica mas tremendamente real sobre o futuro da América. E não é só o caminho errado das políticas americanas que está em causa. É também um culto do obscurantismo, da ignorância, que haveria de conduzir a tal desgraça. Essa ignorância haveria de conduzir a conflitos políticos e militares que estiveram na base da afirmação da tirania geradora de tal cataclismo social.
O final do livro revela-nos que o apocalipse não é universal: a velha Europa tinha escapado àquele caminho. Não deixa de ser curiosa esta leitura tendo em conta a onda de pessimismo em que o velho continente está hoje em dia mergulhado.
Um aspeto fundamental deste livro é o facto de serem as mulheres as vítimas de toda a opressão que o regime ultra conservador envolveu; elas são a esperança de um novo mundo mas são também as escravas do regime. O facto de só elas serem portadoras da esperança, gerando filhos (e é essa a sua única função) levou ao inverso do que seria lógico: levou ao desprezo total dos seus direitos e da sua própria vida.
Muito mais do que um livro escatológico, este é um livro negro; a voz da autora soa como um grito de alarme perante as contradições e os erros do sistema político, da mentalidade e das estruturas sociais dos EUA.
No entanto, a intervenção social da mensagem não é o único ponto forte da obra; a narrativa é sempre emocionante, numa estrutura que Margaret Atwood concebeu de forma magistral, com flashbacks que contribuem para manter acesa toda a curiosidade do leitor sobre a origem daquele beco sem saída em que entrara a sociedade norte-americana.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Ficções - Jorge Luís Borges

Sinopse:
Ficções reúne os contos publicados por Borges em 1941 sob o título de O jardim de veredas que se bifurcam (com exceção de "A aproximação a Almotásim", incorporado a outra obra) e outras dez narrativas com o subtítulo de Artifícios. Nesses textos, o leitor se defronta com um narrador inquisitivo que expõe, com elegância e economia de meios, de forma paradoxal e lapidar, suas conjeturas e perplexidades sobre o universo, retomando motivos recorrentes em seus poemas e ensaios desde o início de sua carreira: o tempo, a eternidade, o infinito. Os enredos são como múltiplos labirintos e se desdobram num jogo infindável de espelhos, especulações e hipóteses, às vezes com a perícia de intrigas policiais e o gosto da aventura, para quase sempre desembocar na perplexidade metafísica. Chamam a atenção a frase enxuta, o poder de síntese e o rigor da construção, que tem algo da poesia e outro tanto da prosa filosófica, sem nunca perder o humor desconcertante. 

Comentário:
A narrativa fantástica de Borges é, além de pioneira, única e peculiar.
Este livro de contos tornou-se um marco na literatura do século XX pela sua perfeição de estilo, pela abrangência filosófica e por uma estética interna feita de rigor e delicadeza formal.
A capa exibida acima, de uma edição brasileira, é uma síntese magnífica dessa delicadeza formal, construída sobre uma espécie de geometria, como se todos os contos fossem traçados a régua e esquadro.
Borges não escreve “ao correr da pena”; a sua escrita parece ter saído de um laboratório, em que cada palavra foi medida e pesada. Não há adjetivos como adorno de linguagem, nem frases construídas em função da estética. Há, isso sim, um rigor quase matemático que torna a leitora difícil para um leitor que apenas procure diversão.
Na realidade, estas ficções não foram construídas para divertir, mas sim para exprimir sensações, sentimentos e pensamentos em torno do mundo, do ser, da morte, da imortalidade, do tempo e da sua relatividade.
Alguns contos, com estrutura que os aproximam da literatura policial podem considerar-se mas “leves”, em termos narrativos. Mas por detrás de todos eles há uma visão pensada, refletida, do sentido da vida humana e do tempo.
Por vezes, o fantástico que percorre todo o livro faz lembrar o surrealismo, pela forma absurda com que o real é exposto; assim é, por exemplo, no primeiro conto. Aí deparamos com uma verdade universal escondida pro detrás das palavras e da estória: toda e qualquer leitura do real será sempre absurda; porque todo o real é absurdo. Esta ideia parece-me ser transportada para outros contos, fazendo desta narrativa inicial uma espécie de mote para todo o livro.
Confunde-se no livro, como na vida, o real com o ilusório; o fantástico com o objetivo. Mas também o passado com o presente e o interior de um homem com o que lhe é exterior. O homem de Babilónia, no conto “A Lotaria de Babilónia” afirma que conheceu “o que os gregos ignoram: a incerteza”. “A lotaria é parte principal da realidade”. Assim é o pensamento de Borges: muito mais do que realista – surreal, fantástico, metafisico, transcendente.

Numa nota pessoal posso dizer que me senti mais pequeno perante este livro de Borges: o mundo e a vida são demasiado complexos para julgarmos que os conhecemos. E tudo aquilo a que chamamos fantástico, ou irreal, ou até errado pode ser tão verdadeiro como a morte.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A sondagem - Bimbys ou coisas que nos moam o juízo?


Agora sim, está fechada a sondagem. Já com um número de participantes minimamente representativo (76) conclui-se que 44 deles (57%) preferem ler nas férias livros mais reflexivos, em vez dos tão propalados “levezinhos”.
Já tivemos também aqui uma interessante discussão sobre o que se considera ser levezinho. Pode tratar-se de literatura light, literatura de cordel, literatura de casa de banho. Ou, para ser mais simpático, uma espécie de literatura Bimby, fácil de cozinhar, fácil de comer.
Mas pode tratar-se também de literatura conceituada mas com leitura fácil e agradável, como por exemplo os magníficos exemplares da literatura romântica francesa do século XIX. Seja como for, estes livros parecem ser preteridos, pelo menos pela maioria dos frequentadores deste blogue, em favor das obras que apelam mais à reflexão.

Sem qualquer pretenciosismo acho que estes números são surpreendentes; na verdade, a maioria das editoras encaram o verão como um período em que as pessoas procuram principalmente os tais “levezinhos”. Talvez não seja bem assim, afinal…

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A Náusea - Jean Paul Sartre


Sinopse:
A Náusea foi o primeiro romance de Sartre e foi saudado aquando do seu aparecimento como a revelação dum escritor de grande talento. Através do diário diurno íntimo do protagonista, Antoine Roquentin, Sartre retrata com um realismo digno de Maupassant a vida e os habitantes duma cidade da província, explorando a fundo o absurdo da condição humana, tema que mais tarde o tornaria um autor incontornável.

Comentário:
A aversão aos outros, o culto de um determinado tipo de evasão solitária, o pessimismo angustiado são algumas das ideias base deste livro, ideias essas que vieram a tornar-se fulcrais em toda a literatura existencialista francesa.
Não há dúvidas que estamos perante uma obra de charneira naquela corrente literária e um exercício literário único na vida deste filósofo que um dia afirmou que “o Inferno são os outros”.
No entanto, mau grado a dimensão filosófica da obra, ela é-nos apresentada num estilo algo poético, que cativa por uma subjetividade por vezes pungente, dramática. Roquetin é um homem solitário. Ou melhor, um homem que construiu a sua própria solidão, de forma voluntária.
No período da sua vida a que o livro se refere, Roquetin é assolado frequentemente por uma sensação de náusea que o atinge especialmente em determinadas situações de confronto com os outros. Eles surgem quase sempre como veículos de sofrimento. Todos exceto Anny. No entanto, na parte final do livro, nem Anny haverá de o ajudar a ultrapassar esse sofrimento.
O que mais choca o leitor (e terá sido essa uma das principais intenções de Sartre) é a sensação de impotência do personagem perante o mundo que o rodeia: perante os outros e perante as coisas. Tudo serve para subjugar Roquetin que se refugia numa profunda e irritante inação. Uma inação assumida, é certo, mas que a espaços se confunde com o mais atroz egoísmo.
Da inação ao desprezo pelos outros vai um pequeno passo; mas depressa Roquetin cai em contradições que talvez sejam próprias da alma humana: despreza os outros porque eles vivem em rotinas monótonas mas ele próprio, por outras vias, cai no mesmo tipo de rotinas, agravadas pela subjugação total da sua personalidade. Roquetin entende que não tem qualquer obrigação de ajudar os outros porque eles em nada servem para a sua felicidade mas fica bem patente que Anny, que não deixa de ser um “outro”, seria a única escapatória à desgraça.
Roquetin abomina especialmente os humanistas, considerando-os ingénuos. No entanto, nem ele escapa à tentação de ajudar desesperadamente o seu único amigo (o Autodidata, um humanista que ele abomina também) no momento em que ele se encontra numa situação perigosa.
Enfim, ficamos sem saber se estas são as contradições de um Roquetin condenado à inação ou se estas serão mesmo as contradições de todas as almas humanas.
Goste-se ou não, concorde-se ou discorde-se, este livro foi um duplo marco na cultura do século XX: um marco literário nas letras francesas e um marco filosófico, num livro de charneira no existencialismo europeu.

Um livro que se lê com alguma dificuldade tal é a profundidade psicológica e filosófica do enredo mas, ao mesmo tempo, uma obra fascinante pela abordagem corajosa embora pessimista, profunda embora deprimida da alma humana.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

E se for rapariga chama-se Custódia - Luís de Sttau Monteiro

Sinopse
Que circunstâncias levam dois homens a revelarem o que de mais íntimo têm em si, que circunstâncias determinam que dois homens procurem ultrapassar os seus medos, procurarem libertar-se da solidão que os oprime...?
O Mais Velho e o Mais Novo são dois homens que, numa noite na prisão revivem memórias num diálogo acompanhado pela noite e pela solidão.

Comentário:
 “A derrota, pensou o mais novo, seria aceitável se deixasse um homem sem futuro – o futuro constrói-se, falseia-se – mas deixa um homem sem passado.”
Falecido em 1993 com sessenta e sete anos e tendo sido perseguido pela censura da ditadura salazarista, Sttau Monteiro escreveu pouco. Foi essencialmente dramaturgo, tendo como obra-prima essa magnífica peça de teatro, Felizmente Há Luar. No que respeita à prosa de ficção escreveu e publicou apenas quatro obras, sendo uma delas, de 1966, este E Se For Rapariga Chama-se Custódia.
Trata-se de um relato impressionante de uma conversa entre dois homens, na prisão. Um diálogo que é confissão, desabafo, libertação.
É na prisão que estes homens encontram a paz suficiente para pensar e conversar; no campo o trabalho não lhes deixa tempo para tais devaneios. Mas aqui, entre quatro paredes, o pensamento acarreta a solidão; é por isso que a noite cai sobre eles.
O tom poético da escrita de Sttau Monteiro é encantador para quem lê e reforça o ambiente de doce solidão que os envolve. Porque só nessa solidão podem vir ao de cima os sentimentos.
O quadro é sóbrio e cheio de intensidade dramática; é uma espécie de microcosmos desse universo fascista castrador, aterrorizador, numa realidade de opressão escondida, velada, sofrida na sombra. É neste quadro sombrio e ao mesmo tempo poético que vai emergindo um amor, primeiro nebuloso depois triunfal por Custódia.
A prosa de Sttau Monteiro é também expressão de um profundo humanismo na forma como os homens confessam as suas fraquezas e limitações.
E o valor da solidariedade: Um homem não vive só como um chaparro velho num montado: basta-lhe estender a mão.
Custódia é muito mais que memória; é sonho, futuro e… liberdade. Mas é também memória; uma memória avassaladora, por vezes doentia, perante a qual o discurso de desabafo do “mais velho” funciona como uma catarse e, ao mesmo, redenção de um passado doloroso. No entanto, nas memórias do mais velho mistura-se a dor com a esperança. E há-de ser com esperança que o livro há-de terminar, porque como escrevera Manuel Alegre um ano antes, Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não.


domingo, 1 de setembro de 2013

Contos do Caneco - Fernando Évora, João Pedro Duarte, José Teles Lacerda, Luís Miguel Ricardo e Vítor Encarnação

Apresentação:
Em Maio de 2013 o Clube dos Poetas Vivos reuniu, numa célebre tertúlia, cinco escritores cuja vida e obra estão, de algum modo, ligadas ao Alentejo. Os escolhidos foram Fernando Évora, João Pedro Duarte, José Teles Lacerda, Luís Miguel Ricardo e Vítor Encarnação. Foi um fim-de-semana de conversas com leitores, trocas de opiniões, passeios, petiscos e muito mais. Um fim-de-semana inspirador para que esses cinco autores viessem a escrever cinco contos cujo cenário são as terras de São Teotónio e Zambujeira do Mar. Cinco “Contos do Caneco”.



Comentário:
Em boa hora tomei conhecimento deste livrinho de contos, proveniente de um dos sítios mais encantadores de Portugal: a região do Mira. Recebi-o num dia e acabei de o ler 24 horas depois. Só isto diz bem da forma agradável como se lê.
Cinco escritores oferecem-nos outros tantos contos, todos eles com um denominador comum: as terras do Mira; do calor humano de Odemira ao azul mágico da Zambujeira, passando pelas festas coloridas de S. Teotónio e com um saltinho cheio de mistério ao assustadoramente belo Cabo Sardão.
Para mim, pessoalmente, foi um regresso a esse Alentejo tão belo, no seu cantinho sudoeste- Gente pura, gente de trabalho e amizades fortes, todos eles, os alentejanos, estão nestes contos, dando vida a paisagens encantas e searas escaldantes.
Nunca foi um adepto deste género literário, os contos. No entanto, aqui senti-me voltar à grande tradição do conto popular, ouvido com quase devoção na soleira da porta de uma casita branca e azul, ou nas eiras do Minho, em volta de um cesto de espigas de milho acabado de desfolhar. Reerguer este conto popular, parece ser o valor maior desta obra. O conto nascido da emoção, imaginação mas também do sofrimento do povo que somos nós e contado por sábios diplomados pela carta de rugas que trazem no rosto, 
O humor matreiro, bem patente em alguns destes contos é o veículo da sátira, por vezes ligada de forma genial à atualidade deste nosso reyno, assim como a ironia fina, a crítica social, por exemplo com essa figura magnífica que é o Chef Raton do conto “Paris Existe?” são armas de grande alcance nestes magníficos textos.
Talvez não o devesse fazer (porque são cinco contos magníficos) mas não resisto a destacar dois deles porque me agradaram sobremaneira. Refiro-me a Terno Tesouro, pelo espírito de intervenção social a fazer lembrar as cantigas do Vitorino: um patrão que é um símbolo da prepotência dos líderes da ditadura mas também de muitos “coirões” atuais e um operário que luta contra tudo e todos, incluindo a sua própria loucura. E destaco também Paris Existe? Talvez o conto mais elaborado deste livro, com um tom de crítica social divertida e atual, um sentido de humor a que o autor já nos habituou e, acima de tudo, por uma mensagenzinha que me ficou na mente: talvez o destino de qualquer homem seja procurar a sua Paris e talvez ela só se encontre bem junto das suas raízes…
Apresentação e foto de http://www.riomira.com


sábado, 31 de agosto de 2013

O Intendente e os Patos-Bravos - uma carta de Abraão Forjaz


(Carta recentemente descoberta, do espólio de Abraão Forjaz, dirigida ao seu amigo Visconde da Ribeira Seca).

Meu caro Visconde, muita água tem corrido por baixo da ponte desde que o enviaram aí para o Brasil, como inspetor dos negócios de Pau Brasil.
Como sabe, há muito que Sua Majestade se demitiu da governaçom do Reyno, (como se escrevia antes do acordo ortográfico) deixando todo o poder nas mãos do nosso santo e sábio Intendente. Dizem que vai por aí uma crise dos diabos, mas o certo é que temos herói na coisa pública. Dizem que há por aí gente a passar fome de cão mas todos os dias o nosso Intendente aparece nos noticiários, distribuindo sorrisos e estórias de embalar.
Os patos bravos seguem-no para todo o lado; são como moscas.
Alguns dizem que o Intendente é um homem do povo; que subiu a pulso. Dizem ainda que é um homem sensível, dedicado à sua missão, sábio, desinteressado… enfim, meu caro visconde, só falta que o coloquem em cima de um andor e lhe façam uma procissão.
Pois, e não será isso verdade? perguntará o amigo Visconde.
De todo, como diria a tia do Estoril. De todo. O homem é um nabo, para ser direto. O que acontece é que anda na moda, que é como quem diz, cultiva a imagem. Veste bons fatos e penteia-se bem, dirá o Visconde. Olhe que não, olhe que não, responderia o Cunhal que Deus tem. O pior é que a imagem a que me refiro não é bem isso; é a arte global de convencer os patos bravos a segui-lo até pertinho da falésia; até que ele, em pessoa, surja em cima da dita cuja falésia, como um Cristo-Rei (ou Corcovado como aí se diz) glorioso e triunfal, enquanto os patos bravos, embalados por ele, não conseguirão travar e se esbardalharão por completo falésia abaixo.
Então e a lei? Perguntará o amigo Visconde. A lei, meu caro, tem sido o maior motivo de divertimento. O nosso Intendente, no alto da sua sapiência inventou um expediente infalível: sempre que lhe dizem que a lei não permite isto ou aquilo, faz beicinho, arrota a bafio, deixa correr o ranho pelo nariz afora e, comovidos, os patos bravos oferecem-se em sacrifício no altar da Pátria.


(O autor deste blogue limita-se a publicar a carta sem qualquer alteração, omissão ou acrescento, não se responsabilizando por qualquer eventual semelhança em relação à realidade atual).

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O Guarani - José de Alencar


Sinopse:
José de Alencar, um dos grandes patriarcas da literatura brasileira, pelo volume e mensagem de sua obra, deu à ficção produzida no século XIX, um tratamento monumental. Escritor romântico, enfocou os mais importantes aspetos da nossa realidade: o índio e o branco; a cidade e o campo; o sertão e o litoral. A presente obra, que lhe granjeou popularidade ao ser lançado em folhetim, era lido avidamente, até nas ruas, à luz dos lampiões. O romance conta a história de amor entre o índio Peri e a moça branca Ceci, tendo como cenário o Brasil do século XVII.

Comentário:
Ler José de Alencar é regressar ao mais genuíno romantismo literário oitocentista. “Está cheio de clichés”, poderá afirmar o leitor desprevenido; no entanto, aquilo a que hoje chamamos clichés da literatura romântica eram, naquela época, o segredo do sucesso: as paixões exacerbadas e a tragédia a que muitas vezes conduziam; tragédia ou felicidade suprema; a supervalorização do meio natural… Não havia lugar a meios-termos nem meias tintas.
A maior parte do livro é dominada por um tom bastante benévolo perante, por um lado, a bondade cristã dos colonizadores portugueses e a bondade natural dos Guaranis. Mau grado a existência de personagens realmente maléficos como o italiano e ex-frade Loredano, eles são sempre vistos como exceções à regra; uma espécie de ovelhas tresmalhadas. Assim, na maior parte do enredo, o leitor deixa-se levar por descrições idílicas, paixões supremas e uma exemplar figura do fidalgo português que preza a honra acima de tudo. D. António Mariz e aqueles de quem se rodeia são figuras de grande valor literário por representarem essa honradez aristocrática que começava a perder-se no tempo em que Alencar escreveu.
No entanto há um certo tom escatológico que confere à obra, na sua parte final uma aparência de dramalhão, contrastando com o espírito jovial e encantado que domina a primeira parte do livro.
Por todo o livro reina a beleza fantástica e majestosa da natureza; as cores, os sons e até os perigos da floresta amazónica são-nos apresentados de forma realmente idílica, como se de quadros vivos se tratasse. Mas estamos longe das fastidiosas descrições dos escritores realistas; o tom é sempre poético e agradável.
Um dos personagens principais, Peri, o índio Guarani, representa nesta obra o bom selvagem de Rousseau: Alencar partilha da crença no índio puro e bom. Aqueles que se revoltaram contra os portugueses e que, na verdade, eram tremendamente cruéis, não fizeram mais do que defender a sua própria terra, perante o colonizador português que, curiosamente, também é visto de forma positiva por Alencar. Ou seja: não há “maus”; não há personagens pérfidos a não ser essa figura terrível que escapa a toda a moral (seja divina ou natural), que é Loredano; ele é uma espécie de encarnação do demónio.
Um dos aspetos mais marcantes em Alencar é uma religiosidade profunda, ingénua, que mesmo assim não deixa de envolver um admirável espírito de tolerância perante as crenças e a cultura dos indígenas.
“O pensamento é a arma mais poderosa que Deus deu ao homem, e que com ela se abatem os inimigos, se quebra o ferro, se doma o fogo, e se vence por essa força irresistível e providencial que manda ao espírito dominar a matéria.”

terça-feira, 27 de agosto de 2013

História de Duas Cidades - Charles Dickens

Sinopse
Ao fim de dezoito anos de prisão na Bastilha como prisioneiro político, o envelhecido Dr. Manette é libertado e parte para a Inglaterra, onde volta a encontrar a filha. Aí, dois homens, Charles Darnay, um aristocrata francês exilado, e Sydney Carton, um advogado brilhante mas de má reputação, apaixonam-se por Lucie Manette. Das ruas pacíficas de Londres, são levados para a Paris do Reino do Terror, onde a sombra fatal da guilhotina abarca tudo e todos.

Comentário:
Talvez só Victor Hugo tenha trasposto a Revolução Francesa para a literatura de ficção de forma tão fiel e emocionante como o fez Charles Dickens nesta obra. O enredo desenvolve-se em duas cidades, Londres e Paris e por detrás de todos os acontecimentos está esta tremenda verdade: as injustiças sociais que conduziram à grande revolução não eram específicas de França; elas existiam da mesma forma em Londres porque o sofrimento dos injustiçados é universal.
O que mais impressiona neste livro é este desmascarar das injustiças e a justificação das terríveis e sangrentas vinganças que marcaram aqueles anos de finais do século XVIII. Mas mais admirável é ainda o facto de este livro ter sido escrito em 1859, antes do surgimento das teorias socialistas. Na verdade, as ideias de Dickens podem, neste livro, ser consideradas percursoras do socialismo, tal é a preocupação com o desmascarar de tais injustiças.
No entanto, não se pense que estamos perante uma obra de cariz ideológico; pelo contrário, o autor consegue “ver os dois lados” a apontar o dedo às outras injustiças: as que se cometeram no período do terror, em que a vingança (neste livro personificada como a personagem Vingança) assume uma matriz de violência extrema, da qual foram vítimas muitos inocentes, em nome dos belos ideais da Revolução.
Pelo meio fica a inevitável estória de amor. Mas mesmo nesse aspeto, tão sujeito aos clichés da literatura oitocentista, Dickens não deixa de nos presentear com aquilo que, na minha opinião há de mais encantador na sua escrita: a caracterização das personagens; desde o bondoso Lorry, um velho e amável banqueiro até à impiedosa Madame Defarge, a imagem terrífica do mais cruel jacobinismo, desfilam personagens tipo, todas elas cheias de significado na representação global da alma humana: o magnífico e heroico Sidney Carton, que dá a vida para salvar os que ama, a singela Lucie, a imagem da ingenuidade imaculada e Charles Darnay, um herói quase imbecil, um homem de bom caráter mas incapaz de se opor à fúria dos tempos e dos homens.
Exposto o que de mais genial tem este livro, não posso deixar de apontar um defeito que, num autor como Dickens, é algo estranho: a imensa quantidade de coincidências que tornam o enredo francamente “impossível”. Alguns dos personagens cruzam-se de forma completamente impensável, em situações inimagináveis.
O final do livro é constituído por algumas páginas de arte em estado puro. Algumas das páginas mais belas que até hoje se escreveram. Simplesmente magistral.
Enfim, um livro de leitura fácil e apaixonante que me ajuda a cimentar a convicção que venho formando há uns anos: a literatura oitocentista é verdadeiramente apaixonante. Embora com grandes e honrosas exceções (Fitzgerald, Joyce, Mann, Murakami, Auster, Kafka, etc.), o século XX, a meu ver, não superou a centúria grandiosa que o precedeu. Mas isso será assunto para outros escritos…

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Os Filhos da Meia-Noite - Salman Rushdie


Sinopse:
A história da Índia no século XX narrada em chave de realismo fantástico. Assim pode ser descrito o romance Os filhos da meia-noite, de 1980, que rendeu a Salman Rushdie o Booker Prize de 1981 e o Booker of Bookers Prize, em 1993, conferido ao melhor livro publicado durante os primeiros 25 anos do mais importante prêmio literário britânico.
O muçulmano de família abastada Salim Sinai, que narra em primeira pessoa a sua história, nasceu em Bombaim à meia-noite de 15 de agosto de 1947, no instante em que a Índia se tornava uma nação independente. A trajetória de Salim estará ligada à complexa e conturbada saga de seu país. Para complicar, ele descobre que foi trocado na maternidade por outro recém-nascido. Na verdade, deveria ser um hindu de família pobre.
Todos os mil e um indianos nascidos entre a meia-noite de 15 de agosto e a uma hora da madrugada de 16 de agosto de 1947 desenvolveram poderes extraordinários; o de Salim é a telepatia, que lhe permite reconstituir a história de sua família desde 1910 e examinar os acontecimentos políticos e culturais da Índia.
Primeiro livro a projetar Rushdie como um dos grandes escritores de nossa época, é considerado por boa parte da crítica o melhor livro já escrito pelo autor.
In http://www.companhiadasletras.com.br

Comentário:
Sem querer, acabei por encontrar um importante ponto de contacto entre os dois livros que li ultimamente: o que têm de comum Os Filhos da Meia Noite e Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier? Coincidência das coincidências, são dois livros marcantes dos alvores do realismo mágico. E são nítidas as influências de Garcia Marquez nesta obra de Rushdie, nomeadamente na estrutura da obra, baseada numa longa saga familiar, para além do estilo.
Neste livro, Rushdie presenteia-nos com uma obra fantástica, cheia de pormenores sobre a história da Índia no século XX.
Este livro, publicado em 1981, precedeu o famoso “Versículos Satânicos” em oito anos. Mas já aqui Rushdie deixa clara a sua tendência para abordar os costumes religiosos numa perspetiva muito crítica, irónica e até bastante mordaz. Exemplo disso é a forma como brinca com o culto das vacas sagradas e a valorização da bosta. Mas não é só o hinduísmo o alvo da crítica; há um padre católico que afirma que Jesus Cristo é azul, justificando: "o importante é evitar o preto e o branco”. O avô de Aziz, por exemplo, odeia as religiões porque ensinam a odiar.
Todo o livro é uma imensa caricatura da Índia e não é só a religião que contribui para a paródia: são os costumes, as injustiças, e até o sofrimento de milhões; são quinhentas páginas de humor negro e sarcástico. Outro exemplo significativo é o costume dos velhos de Bombaim cujo passatempo favorito era cuspir para uma escarradeira a vários metros de distância, enquanto as crianças se divertem passando entre os jatos de expetoração, evitando ser atingidos por elas.
O poder político é outro grande alvo. Os FILHOS DA MEIA NOITE são, afinal, os filhos da Índia livre que Indira Gandhi condenou. De facto, a senhora Gandhi (que governou a Índia de 1966 a 1977 e de 1980 a 1984) é o principal alvo de Rushdie.
Quanto ao herói do livro, Saleem Sinai, não passa de um menino-prodígio tornado vítima da própria Índia e de um conjunto de conflitos totalmente insanos. As guerras com o Paquistão, a Guerra do Bangladesh e os conflitos com a China fazem com que a vida de Sinai nada tenha de autónomo, de individual; tudo se passa como se ele não tivesse vida própria e fosse levado por uma enxurrada de acontecimentos trágicos, de tal forma que a vida não passa de isso mesmo: uma sucessão de desgraças e misérias.
Para o leitor, esta sucessão de desgraças pode tornar-se algo fastidiosa, no entanto, a escrita irónica e o tom de humor que o autor imprime à escrita tornam a leitura agradável e fluida.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Levezinhos mas geniais - o meu TOP 15



C., um amigo deste blog, colocou uma questão muito interessante no comentário ao meu tópico anterior:
"Pode um livro levezinho ser um bom, um ótimo livro?"
Vinha isto a propósito da sondagem sobre o tipo de livro preferido para férias.
Como achei a pergunta muito interessante e pertinente, resolvi dar a resposta neste novo tópico.
Obviamente, acho que sim. E justifico a resposta com o meu top 15 feito à pressa de livros que acho levezinhos e, ao mesmo tempo, livros muito bons.
Passemos então à contagem decrescente:

No 15º lugar, uma obra que passou quase desapercebida em Portugal mas que constitui um thriller excecional, cheio de emoção, no estilo Dan Brown mas bem escrito:
- O Último Catão, de Matilde Asensi

Em 14º, um autor acusado de ser demasiado “levezinho” mas que, na verdade, agarra os leitores com uma arte excecional:
- A Sombra do Vento - Ruiz Zafón

O 13º é um clássico da literatura juvenil; um livro encantador; um livro mágico:
- Ivanhoe, de Sir Walter Scott

No meu 12º posto um clássico da literatura erótica. Só não está nos primeiros lugares desta lista porque é dos menos “levezinhos” mas é um excelente livro:
- O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence

Em 11º lugar, mais um clássico da literatura classificada habitualmente (embora de forma errada, a meu ver) como infanto-juvenil. É um livro cheio de emoção e de intrigas palacianas. E também amor e humor:
- Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas

No 10º lugar uma pérola africana de língua portuguesa, onde se conjuga o humor dos meninos da rua com a magia e o perfume de Angola:
- Bom Dia Camaradas, de Ondjaki

Em 9º lugar uma comédia intemporal sobre a política portuguesa. Uma sátira que hoje faz todo o sentido, mesmo cento e tal anos depois de ter sido escrita:
- O Conde de Abranhos, de Eça de Queirós

O oitavo classificado é um livro denso e intenso mas que se lê muito bem. Recordo-me de ter devorado aquelas mais de 700 páginas em 3 dias, tal a forma emocionante como o enredo é exposto:
- A História Secreta, de Donna Tartt                       

Em sétimo lugar um livro que li aos 47 anos mas devia ter lido aos 14. Mas que se deve ler em qualquer idade e de preferência mais que uma vez. É o emocionante e divertido:
- O Conde de Monte-Cristo de Alexandre Dumas

Os livros que coloco em 6º e 5º (a ordem não interessa), são dois dos livros mais hilariantes que li até hoje. São dois clássicos da mais pura comédia. Dois livros para ler e rir até cair para o lado, sobre um cobarde que chegou a herói do exército britânico.
- Flashman, a Odisseia de um Cobarde e Royal Flash, A Odisseia de um Cobarde, de George Mac Donald Fraser 
(continuo à espera do 3º volume da saga do cobarde).

Em 4º lugar, uma comédia romântica deliciosa, leve, divertida. Com o traço de génio de um dos maiores homens do século XX, o enorme Garcia Marquez.
- Gabriel Garcia Marquez - O Amor nos Tempos de Cólera

O meu terceiro classificado, medalha de bronze, é verdadeiramente um livro mágico. Com raízes bem seguras na tradição da magia céltica, é um livro fantástico antes da moda do fantástico. Um livro maravilhoso.
- Jonathan Srange & o Sr. Norrell, de Susanna Clarke

Em 2º Lugar, um livro lindíssimo para quem gosta de uma bela história de amor. Um livro cheio de sensibilidade, escrito numa linguagem “fotográfica”, intenso, quente, lindo…
- As Pontes de Madison County, de Robert James Waller.

E em primeiro lugar, o rato mais espetacular de toda a história da literatura no período pós-Mickey. Ele é o sensacional rato de biblioteca, filho de uma mãe rata bêbada, o mais novo de uma ninhada de 12 que haveria de passar a vida nas estantes de uma biblioteca. Este é o verdadeiro rato de biblioteca, o rato que devorava livros. Literalmente. Ele é o grande:

- Firmin, de Sam Savage

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Sondagem

Aqui ao lado, na coluna direita deste blogue, coloquei durante uns dias uma pequena sondagem sobre as preferências literárias durante as férias.
Resolvi prolongar o período de votação pelas seguintes razões: em tempo de férias o número de frequentadores do blogue diminui bastante,pelo que só contava com 26 votos. Em segundo lugar e, principalmente, porque acho os resultados até ao momento tão surpreendentes que quero ver se eles se confirmam numa votação mais alargada.
Na verdade, acho surpreendente que 70% dos votantes afirmem preferir livros mais reflexivos em tempo de férias. Eu, pelo menos, não esperava tal sentença. Não quer isto dizer que não concorde...

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Os Passos Perdidos - Alejo Carpentier


Sinopse
Um livro estimulante, quase mítico. Representativo daquilo a que o próprio Alejo Carpentier chamou "o real maravilhoso americano", este romance constitui uma busca das origens, a procura de uma Idade de Ouro perdida. A personagem central dispôe-se a subir Orenoco, na Venezuela, em busca de um tempo primordial, tentando assim alcançar as raizes da vida. Desfilam nesta obra os mineiros dos campos de petróleo, os padres missionários, os vaqueiros, os astrólogos, as prostitutas em busca do El Dorado, os índios dos lugares visitados, os espirítos, os rituais, as histórias e os mitos de um tempo em que um homem branco ainda não pisara o continente americano. Para Carpentier, a América é um repto de um "novo mundo" apressadamente entrevisto por viajantes e poetas, poucas vezes correctamente apreendido.
In wook.pt
Comentário:
 Este livro foi, para mim, a maior surpresa dos últimos meses. Nunca tinha ouvido falar do autor e, logicamente, nunca tinha lido nada dele. Peguei nele mais por curiosidade do que por aposta numa leitura agradável e, confesso, por ter lido na contracapa que foi um autor a quem recusaram a atribuição do prémio Nobel por motivos ideológicos.
Mas, no fundo, a ideologia é o que menos se encontra neste livro. Pelo contrário, uma imensa qualidade literária está por todo o lado.
As primeiras páginas podem afastar um leitor mais ávido de enredos emocionantes e narrativas fluidas. Carpentier tem um estilo muito pessoal, muito reflexivo e profundamente artístico. Musical, é o adjetivo que me ocorre para caraterizar esta escrita fluida, ritmada, belíssima. Os olhos percorrem as palavras, as linhas, os enormes parágrafos e o cérebro passeia pela cadência ritmada das frases, a que não é alheia uma excelente tradução da editora Saída de Emergência (ainda por cima com a capa belíssima que vemos acima).
O protagonista, nunca nomeado, descreve na primeira pessoa uma incursão quase heroica pela selva sul-americana, a partir da Venezuela. Trata-se de um estudioso da música, à procura das sonoridades dos instrumentos índios. Mas o objetivo profissional é a apenas o pretexto para uma verdadeira fuga, à procura de algo muito mais importante: a eterna busca da identidade, o exorcizar dos demónios modernos e a procura do mito do Novo Mundo que encantara os seus antepassados. Pelo meio, o protagonista encontrará na expedição diversas ocasiões para reorientar a sua vida amorosa; ou melhor, para dar de caras com todos os seus sonhos e pesadelos. Só a selva lhe permitirá encarar de frente todo o paraíso e todo o inferno.
A América mais profunda é descrita por Carpentier como o Novo Mundo, a terra prometida do ouro e dos diamantes. O homem continua a ser o explorador da natureza, a ave da rapina a que nada pode escapar. A selva, como a vida amorosa do protagonista é a materialização de uma incerteza permanente; um desafio a que o ser humano procura impor-se mas em que, a todo o momento, se transforma em vítima. Insatisfeito, o homem, neste caso o protagonista, procura a paixão de forma desenfreada. Ruth, depois Mouche, depois Rosário… sonhos prometidos, desilusões repetidas. Afinal de contas, o homem será sempre o elo mais fraco, perante a natureza ou o destino, por mais senhor do universo que se considere.
No final, o livro revela-se como uma imensa lição de humildade perante a natureza. Porque só o medievalismo dos conquistadores poderia justificar tamanhas vontades de poder.
E pelo meio fica uma aventura magnífica, sem vitórias mas com imensas lições. Rosário, a mulher saída da terra índia personifica de forma magistral esse poder que imana do Novo Mundo, incompreensível e indomável. Tentando aliar a melodia à palavra, o protagonista almeja a um ideal ainda maior: aliar a sua própria vida ao pulsar da terra. Sonhos que se revelariam quimeras…


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Tsunami - Robert Muchamore




Num país em que se lê tão pouco e em que se acusa os jovens (por vezes injustamente) de lerem pouco, é com enorme satisfação que assisto ao sucesso destes livros em boa hora editados em Portugal pela Porto Editora.
Entre os jovens e adolescentes, tão grande tem sido o sucesso desta coleção CHERUB que me decidi a experimentá-la.
Esta primeira série é constituída por 12 livros, todos eles versando a atividade de uma ficcionada agência pertencente aos serviços secretos ingleses, cujos agentes têm uma caraterística peculiar: têm entre 10 e 17 anos de idade. A ideia de Robert Muchamore é genial: imaginar uma agência secreta composta por jovens, de forma a tirar partido da sua facilidade de aprendizagem e do inesperado da situação para os malfeitores. Os agentes (querubins) são recrutados em lares de acolhimento e dispõem de uma sofisticada preparação, numa academia preparada para o efeito: a CHERUB.
Como não pretendia ler a coleção toda decidi começar pelo último. Percebe-se de imediato que não é necessário seguir a ordem de publicação para se compreender o enredo. E percebe-se também que estamos perante uma obra de grande qualidade.
A leitura deste volume fez-me pensar numa coisa: porque é que a literatura tradicionalmente apelidada de infanto-juvenil faz tão pouco sucesso em Portugal? Não andarei longe da verdade se concluir que tais obras caem num pecadilho que não vemos em Muchamore: o de considerar, de certa forma, os jovens como mentecaptos, apresentando enredos muito simplistas. Pelo contrário, nesta obra, não só se respeita a capacidade de raciocínio dos jovens leitores como lhes lança desafios de raciocínio muito interessantes, para além de se aventurar em temas que, na nossa mente tradicionalista muitas vezes consideramos “para adultos”.
Para além da muita emoção que o enredo proporciona é também assinalável valor pedagógico da obra, ao envolver temas muito atuais e polémicos, como os direitos das minorias e as opções sexuais dos jovens.

Muito interessante também a forma como se destaca um problema grave que, infelizmente, é bastante esquecido nos nossos dias: o aproveitamento político e principalmente económico que alguns poderosos fazem das grandes catástrofes naturais, sempre em prejuízo dos mais desfavorecidos. É assim neste volume, em que se denuncia o aproveitamento por parte do turismo do terramoto e maremoto que assolou o sudoeste asiático e que foi justificação para retirar terrenos às populações locais, que constituíam as suas fontes de subsistência, transformando-os em luxuosos empreendimentos turísticos.

domingo, 4 de agosto de 2013

Marquesa de Alorna - Maria João Lopo de Carvalho

Sinopse:
Leonor, Alcipe, condessa d’Oeynhausen, marquesa de Alorna - nomes de uma mulher única e invulgarmente plural. Chamei-lhe Senhora do Mundo. Poderia ter-lhe chamado senhora dos mundos. Dos muitos mundos de que se fez senhora. Inconfundível entre as elites europeias pela sua personalidade forte e enorme devoção à cultura, desconcertou e deslumbrou o Portugal do séc. XVIII e XIX, onde ser mãe de oito filhos, católica, poetisa, política, instruída, inteligente e sedutora era uma absoluta raridade. 
Viveu uma vida intensa e dramática, mas jamais sucumbiu. Privou com reis e imperadores, filósofos e poetas, influenciou políticas, conheceu paixões ardentes, experimentou a opulência e a pobreza, a veneração e o exílio. Viu Lisboa e a infância desmoronarem-se no terramoto de 1755, passou dezoito anos atrás das grades de um convento por ordem do Marquês de Pombal e repartiu a vida, a curiosidade e os afectos por Lisboa, Porto, Paris, Viena, Avinhão, Marselha, Madrid e Londres. 
Marquesa de Alorna, Senhora do Mundo é uma história de amor à Liberdade e de amor a Portugal. A história de uma mulher apaixonada, rebelde, determinada e sonhadora que nunca desistiu de tentar ganhar asas em céus improváveis, como a estrela que, em pequena, via cruzar a noite.

In wook.pt

Comentário:
Aqui está um romance histórico que é muito mais “histórico” do que “romance”. Na verdade, o esforço da autora para não fugir à verdade histórica faz com que a obra se aproxime um pouco da biografia, deixando os adeptos do romance um pouco desencantados com uma certa “aridez” dos factos. O livro inicia-se com uma (mais uma, ufa!) descrição do terramoto de Lisboa e a autora não consegue escapar ao estafado cliché da menina sobredotada que deteta os sinais do terramoto antes deles surgirem. A partir daí, Maria João Lopo de Carvalho arranca para uma triunfal epopeia de louvor à Marquesa de Alorna. Ninguém duvida da enorme importância histórica desta notável mulher, mas é claro que, como ser humano, tinha as suas limitações e defeitos. No entanto, a autora encaminha todo o enredo no sentido de um “endeusamento” da protagonista, mesmo quando veste a pele da aristocrata conservadora.
Comecei este meu comentário pelos aspetos que menos me agradaram mas eles são também compensados por outros que me levaram a empreender a leitura com algum prazer. Na verdade estamos perante um livro que se lê com prazer, quer pelo encanto que, de facto, rodeia a personagem principal, quer pelo estilo leve, claro, puro, da autora. Com frases curtas, pouca adjetivação e algum sentido de humor, a vida da Marquesa é exposta de forma bastante agradável ao leitor.
Por outro lado, este livro não deixa de ter um notável valor pedagógico; é com obras como esta que, realmente, se promove a História de Portugal.
No entanto, esse valor pedagógico acaba por ser prejudicado por um outro pecadilho muito comum neste tipo de abordagens: a autora não consegue (ou não quer?) fazer uma leitura isenta da figura do Marquês. Ele é visto sempre no seu lado mais nefasto, apresentando-se como uma figura quase diabólica. Fica por abordar todo o lado positivo e progressista da sua governação. Por outro lado, a nobreza de Portugal, representada pelas suas famílias aristocráticas nunca é referida como causa (que foi real) do conservadorismo e de parte do atraso económico em que o país mergulhou, para além das graves injustiças sociais a que estiveram associadas.
Mesmo assim, podemos afirmar em abono da autora que apenas se pretendeu realçar a figura, magnífica, sem dúvida da marquesa de Alorna. Ela foi uma “Madame Stael” portuguesa, defensora do progresso, das ciências, da cultura e não uma simples feminista antes do feminismo. Um aspeto histórico poucas vezes notado quando se fala desta época, entre o auge já passado da Inquisição e a austeridade burguesa de costumes que marcará o século XIX, é uma verdadeira fase de libertação da mulher, pelo menos ao nível intelectual. O próprio Marquês de Pombal (em mais uma das suas contradições) foi um impulsionador das ideias iluministas em Portugal, que defendiam a igualdade de oportunidades, se bem que de uma forma muito titubeante.
Como se vê, trata-se de uma obra que encerra algumas contradições; alguns motivos para a considerar um livro de grande importância para o conhecimento da época e divulgação da personagem principal, mas uma obra que não escapa a alguns preconceitos ideológicos.