domingo, 9 de novembro de 2014

A Peregrinação do Rapaz sem Cor - Haruki Murakami


Comentário:
Este é, sem dúvida, o mais intimista dos livros de Murakami. Escrito em 2013 e tratando-se da sua mais recente obra, ficamos expectantes sobre a possibilidade de ele marcar uma certa viragem na linha que o escritor vinha seguindo. De facto, aqui vê-se menos o âmbito social, a dimensão crítica, a reflexão sobre o mundo exterior e, pelo contrário, entramos numa certa reflexão interior, num questionar da existência que pode marcar essa hipotética viragem.
Seja como for, não deixa de estar bem patente, também neste livro, o traço indelével da escrita deste génio japonês: o confronto entre o real e o imaginário, ou entre o concreto e o simbólico. Por várias vezes já afirmei que, na minha perspectiva, o encanto da sua escrita reside muito na forma como o autor nos enquadra o fantástico no mundo real; mas este "fantástico" nada tem a ver com a moda literária que inundou o mundo literário ocidental pós-Martin; tem a ver, isso sim,com aquele misticismo oriental que tanto  tem encantado o ocidente.
Nesta obra, a análise interior da alma humana incide sobre a vida de Tsukuru Tazaki, um homem marcado pela paixão pelos comboios. Na sua juventude gostava de ver passar os comboios, da mesma forma que, ao longo da sua existência foi vendo passar a vida. A obra está escrita em três tempos narrativos: na sua juventude, Tazaki teve quatro amigos inseparáveis; de forma misteriosa, eles separaram-se. Aos vinte e um anos, Tazaki viveu uma amizade intensa com Haida; de forma misteriosa eles separaram-se. Aos trinta e seis, conheceu Sara. Irá, também agora, limitar-se a "ver passar" Sara na sua vida?
Os comboios simbolizam o devir; o correr do tempo e a necessidade vital que o ser humano tem de o fazer parar; é por isso que, em adulto, Tazaki se torna engenheiro de estações de caminho de ferro: "se não houvesse estações, os comboios não paravam". É vital construir estações na vida.
Mas essas estações, essas paragens, não são mais do que momentos fugazes; é esse o drama maior; a paragem, em breve dá lugar à separação. Mais do que as uniões, são as separações que marcam a vida do nosso herói; separações misteriosas como são misteriosas todas as separações que povoam as nossas vidas. Como é misteriosa a nossa vida e insondável qualquer destino.
Todo este simbolismo é encantador na escrita de Murakami; na literatura, o simbolismo é algo de muito perigoso. Muitas vezes ele resulta numa escrita confusa, enigmática, porque o leitor comum não consegue desvendar as mensagens que o escritor quer transmitir mas que, sádico e vaidoso, esconde. Em Murakami,pelo contrário, o simbolismo é claro,transparente... real.
Tecnicamente, um dos aspetos mais encantadores e geniais da escrita de Murakami (aspeto esse que ele tem vindo a aprimorar ao longo da carreira) é a forma como a resolução de um mistério dá lugar a um novo mistério. Quando se explica algo que inquietava a mente do leitor, é a própria resposta que dá lugar a outra questão; e assim a leitura avança de forma imparável. É muito difícil parar de ler Murakami. E quando o livro termina ficamos sempre com aquela ansiedade pelo próximo que esperamos seja publicado o mais depressa possível.
Sem duvida, este é o escritor atual que, na minha opinião, mais tem feito por merecer um prémio Nobel.

Sinopse:
Nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Agora, com 36 anos feitos, é engenheiro de profissão e projeta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Lá está ele na estação central de Shinjuku, ao que dizem «a mais movimentada do mundo», incapaz de despregar os olhos daquele mar selvagem e turbulento «que nenhum profeta, por mais poderoso, seria capaz de dividir em dois». Leva uma existência pacífica, que talvez peque por ser demasiado solitária, para não dizer insípida, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome. A entrada em cena de Sara, com o vestido verde-hortelã e os seus olhos brilhantes de curiosidade, vem mudar muita coisa na vida de Tsukuru. Acima de tudo, traz a lume uma história trágica, que a memória teima em não esquecer. Os quatro amigos de liceu, donos de personalidades diferentes e nomes coloridos, cortaram relações com ele sem lhe dar qualquer explicação. Profundamente ferido nos seus sentimentos, Tsukuru perdeu o gosto pela vida e esteve a um passo da morte. A páginas tantas, lá conseguiu não perder a carruagem. Com "Os Anos de Peregrinação" de Liszt nos ouvidos, regressa à cidade que o viu nascer e atravessa meio mundo, viajando até à Finlândia, em busca da amizade perdida. E de respostas para as perguntas que andam às voltas na sua cabeça e lhe queimam a língua. Será que o rapaz sem cor vai ser capaz de seguir em frente? Arranjará finalmente coragem para declarar de vez o seu amor por Sara? Uma inesquecível viagem pelo universo fascinante deste escritor japonês que chega a milhões de leitores espalhados pelo mundo inteiro. Um romance marcadamente intimista sobre a amizade, o amor e a solidão dos que ainda não encontraram o seu lugar no mundo.
In www.fnac.pt

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Homem de Sampetersburgo - Ken Follett


Comentário:
Indo diretamente ao assunto: todos os grandes autores têm obras menores e esta (daquilo que conheço) é uma das obras menores de Ken Follett. Obviamente, isto tem uma explicação: é um livro de início de carreira, escrito em 1982. No entanto, aquilo que constitui obra menor para um génio como este, seria considerado um bom livro para um escritor menor. Perante livros monumentais como a Trilogia o Século e principalmente Os Pilares da Terra, este Homem de Sampetersburgo é um livro situado num patamar bem inferior mas não deixa de ter qualidade.
Antes de mais nada convém salientar a eterna paixão de Follett pela História. Mais do que um escritor de romances históricos, ele é exemplar na forma com não se limita a buscar na História um cenário para os seus enredos mas sim na reflexão sobre grandes temas do nosso passado. Neste caso, o enquadramento é fornecido por uma época riquíssima para qualquer escritor: o início do século XX com as suas imensas intrigas políticas que haveriam de conduzir a dois acontecimentos de charneira na história do nosso mundo: a Revolução Soviética e a Primeira Guerra Mundial que agora comemora o seu primeiro centenário.
Alguma ingenuidade típica de um escritor novato fica bem patente nas coincidências mirabolantes que encontramos no enredo, bem como parentescos que se revelam de forma incrível. Estes traços novelísticos vão emergindo em crescendo ao longo da obra, deixando a dimensão histórica e historiográfica para segundo plano, o que não deixa de decepcionar o leitor minimamente conhecedor da obra deste escritor genial. Da mesma forma se desiludem os leitores que procuravam neste romance aquilo que ele prometia à partida: um livro de espionagem e de intriga política; esses traços estão lá, mas vão-se esfumando, em favor da novela.
Mesmo assim não deixam de marcar já presença aqueles que se tornariam os traços mais marcantes da escrita de Follett: uma simbiose perfeita entre História e estória, entre realidade e ficção.
Outro traço muito positivo é a seriedade e a frontalidade com que o autor traça um quadro crítico e por vezes satírico em relação ao moralismo burguês tão em voga naquela época, a que se convencionou chamar Belle Epoque mas que haveria apenas de ser o prelúdio de uma das maiores tragédias humanas da história: a Primeira Guerra Mundial.

Sinopse
1914: a Alemanha prepara-se para a guerra e os aliados constroem as suas defesas. Ambos os lados precisam da Rússia. O Duque de Walden e Winston Churchill planeiam, em total segredo, uma aliança russa mas um homem infiltra-se em Inglaterra com a intenção de deixar a sua marca na História e deixar o país a seus pés…
in  www.wook.pt

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Último Adeus - Li Marta


Comentário:
Ora aqui está uma bela surpresa que o Clube de Leitura Bertrand de Braga me proporcionou: um livro despretensioso, numa escrita límpida e agradável, que se lê de forma apaixonada e intensa. E uma situação que já se repete, infelizmente, amiúde no panorama literário português: nenhum livro  é divulgado em conformidade com a qualidade que revela; todos sabemos que há desígnios insondáveis nas prioridades das editoras...
Li Marta escreveu um livro sobre a família; sobre os amores da mãe e da avó materna; uma bela história, sem dúvida. E esse tom autobiográfico reforça ainda mais o carácter intimista e, ao mesmo tempo, tremendamente verossímil da obra. Quem lê fica com a impressão clara que é com toda a lógica e com toda a naturalidade que as coisas tenham ocorrido assim. Por outras palavras; trata-se de uma história perfeitamente plausível sobre uma família pobre em plena ditadura de Salazar.
As descrições das épocas retratadas são fiéis à realidade histórica e o realismo da escrita deixo-nos bem clara a imagem do país real nos segundo e terceiro quartel do século, num bom testemunho histórico das condições de vida dos mais pobres nesse contexto: a ingénua religiosidade popular, os costumes, a humildade de quem nada tem e, por outro lado, o peso dos preconceitos, do julgamento da tantas vezes impiedosa e ilógica moral pública.
Apenas um reparo: por vezes a falta de experiência da autora leva-a a atribuir discursos algo elaborados para personagens humildes, com reduzida ou nenhuma escolaridade.
Na aba do livro, a autora confessa, com toda a simplicidade a sua admiração por escritores que não são propriamente génios literários: Danielle Steel, Nora Roberts e Nicholas Sparks. No entanto não foram esses escritores que eu "li" na escrita de Li Marta; o que aqui redescobri foi um novo Júlio Dinis, principalmente naquela simplicidade romântica, naquele bucolismo colorido e, acima de tudo, naquela bondade natural do ser humano. Na verdade, a autora, ao construir todos os personagens, revela uma belíssima crença na bondade natural do ser humano; mesmo na maior miséria, na fome a que o regime de Salazar condenou aquelas ingénuas e puras gentes, há sempre um raio de sol e de esperança. Esta beleza interior da maioria dos personagens, confesso, enterneceu-me e talvez este comentário não esteja a ser suficientemente comandado por uma avaliação "técnica" da obra mas pelos belos sentimentos e pelo prazer de ler que me ofereceu. Mas, ao fim e ao cabo, o que é que procuramos num livro senão a paz, a beleza e o prazer?
É que é isso mesmo que este livro nos oferece: uma paisagem humana cheia de paz, de beleza e um imenso prazer de ler.
À autora, se alguma vez este comentário ler, só posso deixar um sincero OBRIGADO pelos momentos de paz e prazer que a sua leitura me propiciou. Li Marta não é um génio literário; o livro não é uma obra-prima, mas está repleto de motivos para nos deixar bem convictos de que uma leitura como esta pode ser um bocadinho de felicidade.

Sinopse
Baseado numa história verídica, vivida entre os distritos de Viseu e Aveiro. Passamos por localidades como Tondela, Caramulo, Sernancelhe, Moimenta da Beira e Águeda. Três gerações de primogénitas vivem grandes histórias de amores inesquecíveis.
Dionora vive pobremente mas feliz com António. Até ao dia em que descobrem a doença fatal vivida nos anos cinquenta, a tuberculose. Com a morte do marido, Dionora deixa de ter forças para viver.
Luzita, a primogénita de Dionora, terá de lutar pelo primeiro amor da sua vida, um homem de classe ligeiramente superior à dela. Só que o destino salpicou-lhe a vida de negro.
Lídia, a primogénita de Luzita, vive também um grande amor. Mas fica nas suas mãos dar continuidade ao último adeus. Será que é capaz?
in www.wook.pt

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Diabo dos Políticos - Fernando Évora, João Pedro Duarte, Miguel Almeida, Vítor Fernandes


Comentário:
Se este livro se chamasse O Diabo dos Benfiquistas também não calhava nada mal. 
Quatro bons escritores, quais quatro cavaleiros do Apocaliptro, quatro escribas cheios de sentido de humor e de espírito crítico deixam aqui bem claro que ninguém é perfeito: aquele tom encarnado de princípio a fim não agradou nada aqui ao bracarense :) Até a cor da capa foi escolhida a preceito: vermelha como Lúcifer e como o Benfica. 
No entanto, daqui para a frente escrevei apenas na condição de leitor, abandonando, embora a custo, a minha honrosa qualidade de vermelho com mangas brancas.
E, enquanto leitor, tenho de confessar que me diverti imenso ao ler o diabo do infólio. Para já, tudo começa com a originalidade de um livro que, escrito a quatro mãos, não perde uma linha narrativa coesa. Depois, vem ao de cima o imenso sentido de humor dos autores, apimentado por aquele espírito crítico que, como se diz aqui no Minho, leva tudo a eito, como a espada do rei Afonso curando dores de cabeça à moirama (sem acepção futebolística, note-se).
Mas não se pense que este é um livro escrito a brincar. Há aqui questões muito sérias, cheias de motivos de reflexão. Questões quase transcendentais, mesmo. Por exemplo: seria Adão alérgico a maçãs? Será que todos os demónios, a caminho do Parlamento, têm de passar pelo estádio da Luz? Haverá forma, mesmo que satânica, de quebrar a hegemonia do Norte? Terá o Antipapa D. João Relvas I, alguma vez, poder para defrontar o Papa do Norte? O verdadeiro Inferno fica na Alemanha ou em Boliqueime?
Estas e muitas outras questões podiam fazer deste livro um clássico da literatura universal e dos seus escritores candidatos ao Nobel. Mas não, porque eles até escrevem benzinho mas ousaram maldizer. Renegaram o Coelhinho da Páscoa e também o da Duracell. Enfrentaram descaradamente o Anjo da Guarda e o da Polícia. E o de Castelo Branco também. Por tudo isto, caros autores, se estas linhas tiverem a felicidade de ler, saibam que só uma via vos poderá conduzir à redenção: se um qualquer subsecretário de Estado da Cultura vos ler e amaldiçoar, as portas do Nobel podem ficar abertas. E as do Inferno também.
Termina aqui a primeira parte do meu comentário.
Segunda parte:
Este livro é uma paródia total no melhor dos sentidos. Sarcasmo, crítica, sátira e montes de gargalhadas. Parabéns e obrigado por este divertimento.

Sinopse
Um país chamado Portugal atravessa uma crise e está sob tutela de uma troika. Apesar da maior parte da população viver no limiar de pobreza, uma pequena elite desgoverna a nação, indiferente ao sofrimento dos seus conterrâneos. O Diabo, entediado pela espera de mil anos, vê a sua oportunidade de conquistar, como deputado de um partido de direita, este novo inferno com sede na Assembleia da República. Mas o que o Diabo veio encontrar envergonha até um Príncipe das Trevas. E, de natureza rebelde e contestatária, acaba por se apaixonar por uma deputada da ala contrária… Neste romance, os autores abordam despudoradamente religião, política, sexo, morte… e futebol, pois claro…

sábado, 1 de novembro de 2014

Ocaso das Letras - Pedro de Sá


Comentário:
Nesta publicação da Chiado Editora, este livro vem classificado como “de crónicas”. Custa-me um pouco encará-lo dessa forma; na minha opinião este é um livro de reflexões; um livro de pensamentos e emoções, sentimentos ou apenas emoções dispersas. Ou seja, um livro feito de todos aqueles pensamentos e emoções que compõem a nossa vida. Quase em forma de diário, Pedro de Sá, que já nos impressionara com as suas obras anteriores, oferece-nos um autêntico passeio pela intensa atividade interior que a vida desperta num ser humano sensível aos fenómenos, pequenos e grandes, que o rodeiam.
O maior problema dos livros ditos “de crónicas” é não seguirem aquela linha contínua que desperta e mantém o interesse do leitor, ou seja, uma narrativa; o formato de textos curtos tendem a espartilhar o enredo. Mas se o livro de Pedro de Sá corre, dessa forma, o risco de ser considerado menos apelativo, ele revela, por outro lado, fortes motivos de interesse. Antes de mais, é clara na escrita do autor uma certa procura do sentido da vida; isto pode parecer abstrato, mas o realismo da escrita torna essa procura algo de bem objetivo: esse sentido da vida parece situar-se algures entre dois extremos: o banal quotidiano e uma intensa vida interior. Do gesto mais banal ao pensamento mais elaborado, este livro é uma viagem entre esses dois polos. Afinal, dentro de um ser humano há sempre dois mundos – um objetivo, concreto, e outro feito de pensamentos e sonhos. É dentro desta última esfera que a escrita de Pedro de Sá se move, mas sem que este mundo interior alguma vez se liberte desse outro polo, o concreto. A questão que parece restar é esta: a qual desses dois mundos nos escravizamos? Ou aos dois?
À medida que avançamos no livro, algo vai surgindo, lentamente, como um verdadeiro monstro emergindo de águas profundas: o tempo. Um tempo que é passado, sob a forma de memórias de infância ou de sonhos perdidos, outras vezes tomando forma de saudade – “o passado a nascer-lhe” (pág. 85) é a força da memória, o peso das recordações, o labirinto da saudade. A saudade, uma espécie de dor que fica a meio passo da morte; passado e futuro unidos por uma dor de existir que é única e fatal. Este tom sombrio, de poesia dolorida, faz deste livro uma espécie de catarse da dor; um ocaso que não é só das letras – é da vida.
Enfim, uma obra que merece ser lida, a fazer lembrar Vergílio Ferreira na interioridade da prosa poética ou António Lobo Antunes num intenso  mergulho interior.



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

No Limiar da Eternidade - Ken Follett


Com mais de mil páginas, este terceiro volume da trilogia O Século vem apenas confirmar a magnífica saga que Follett foi capaz de construir. Continuo convencido que não conseguiu, nesta obra, ultrapassar esse festival de criatividade e de genialidade que conseguiu em Os Pilares da Terra; mas fez mais uma magnífica obra de arte.
No meu comentário ao primeiro volume enunciei um certo paralelismo com o Guerra e Paz de Tolstoi; também aqui há 5 famílias em torno de um século. Mas talvez seja injusto comparar as duas obras; se a genialidade do grande russo parece inultrapassável, também é verdade que o projeto de Follett era ainda mais ambicioso porque pretendia abordar o mundo todo num século inteiro. Obviamente, algo haveria de ficar de fora; a seleção dos factos abordados teria necessariamente de ser subjetiva e cada um de nós terá sempre um dedo a apontar a Follett porque se esqueceu ou desprezou algo. Também eu fiquei um pouco decepcionado por neste terceiro volume a França e a construção da União Europeia terem ficado para trás. E sobre Portugal não há sequer uma palavra.
Já que estamos a falar naquilo que desagradou, deixo apenas uma nota sobre a inevitável parcialidade do escritor. É absolutamente injusto exigir imparcialidade a um escritor de ficção histórica. Follett assume uma clara simpatia pela ideologia social democrata europeia, de centro esquerda, apologista do chamado Estado Social. E acho que fez bem :) Por outro lado é claro o seu patriotismo, ao deixar sempre muito clara a simpatia pelas terras de Sua Majestade. Inevitável...
Mas passemos aos aspetos mais geniais da obra:
Em primeiro lugar, o título. No Limiar da Eternidade parece-me um titulo genial pela ambivalência que encerra: na segunda metade do século XX, o mundo esteve perto da extinção; perto da eternidade. Mas, por outro lado, caminhamos um pouco mais em direção ao Paraíso. O final feliz, com a queda do muro e, depois, a eleição de Obama parece indicar um certo caminho para o felicidade.
Durante a leitura deste livro veio-me várias vezes à memória um tema musical belíssimo, Russians, de Sting:

Mr. Reagan says we will protect you
I don't subscribe to this point of view
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too

We share the same biology
Regardless of ideology
What might save us, me, and you
Is if the Russians love their children too

O livro não deixa de trazer uma mensagem de esperança, entre tantas guerras e desgraças. Nunca o autor caiu no erro de confundir os povos com o egoísmo e a cegueira dos seus lideres; os russos, como os alemães de leste, húngaros, etc., foram vítimas, assim como os negros na América, por exemplo, porque a injustiça nunca foi exclusiva dos países de leste.
É genial o paralelismo entre os assistentes de Kennedy e de Krutchev: não há bons nem maus; há apenas duas máquinas paralelas, preparadas para manter o equilíbrio precário de que o mundo depende.
De um lado e do outro, mantêm-se lutas ferozes pelo poder. E nesta luta desenfreada, a falta de ética, o recurso a maquinações obscuras, também não são exclusivas dos países comunistas. Por todo o lado pulula o arrivismo, a ambição desmedida e uma preocupação apenas: o sucesso pessoal, obtido a todo o custo.
Grande parte do enredo deste livro é dedicado à luta pela igualdade de direitos no que respeita ao racismo americano, à luta heróica de Martin Luther King, num processo que não termina com a morte desse grande ícone mas com a vitória triunfal de Obama, com que finaliza o livro.
Em termos de estilo, este livro é magnífico pela forma límpida e ultra objetiva com que Follett escreve; as estórias fabulosas de personagens magnificamente construídos, como Walli e Dave, o meu personagem preferido, mostram a razão pela qual este escritor bate todos os recordes de vendas: ele dá ao público aquilo que o público mais procura: estórias fantásticas mas credíveis; acontecimentos mirabolantes mas reais - que aconteceram ou que podiam ter acontecido. E uma tremenda sensibilidade para abordar os sentimentos humanos e o sofrimento dos injustiçados. Follett tem a o saber de um mestre e a sensibilidade de um artista. Um grande humanista e um enorme artista.
Lê-se Follett como quem lê História, mas com a vantagem de ler com um enorme prazer.
Finalmente, um dos aspetos mais belos do livro: a forma como a arte, neste caso a música, é apresentada como símbolo da paz, da felicidade e da harmonia entre os povos.
Em conclusão: esta trilogia é um dos momentos mais altos da história da literatura contemporânea. 
E que ninguém se assuste com estas quase 3000 páginas; estes 3 livros lêem-se com um enorme prazer!




sábado, 27 de setembro de 2014

A Tragédia de Fidel Castro - João Cerqueira


Comentário:
Às vezes aparecem surpresas assim; se há um mérito maior neste livro é o de ser completamente diferente de tudo quanto se publicou até hoje. Colocar frente a frente D. Afonso Henriques e Fidel Castro não é tarefa fácil. Mas com a ajuda de uma (i)lógica surrealista e com muita imaginação, João Cerqueira lá levou a água ao seu moinho, com criatividade e com muito humor. Criatividade, humor e sátira são as palavras-chave desta obra. 
E inteligência, já agora, porque escrever um livro assim implicou certamente muito trabalho das células cinzentas. A sátira é o principal objectivo da escrita deste livro. Obviamente, ele tem de ser lido com total desprendimento, sem preconceitos nem partidarismos ou qualquer outra forma de apriorismos; a maneira como a sátira incide sobre tão diversos quadrantes como comunismo, capitalismo, cristianismo e todos os “ismos” que se possam imaginar, faz com que todo e qualquer pré-conceito seja obstáculo a uma boa aceitação do livro. 
Em termos de estilo, não restam dúvidas que há aqui uma base surrealista; várias passagens do livro fizeram-me lembrar o nosso fantástico Mário de Carvalho, principalmente naquelas obras em que toca assuntos relacionados com a História de Portugal. Parece-me nítida esta influência, direta ou indireta, assim como a desse grande mestre do surrealismo literário que foi Boris Vian. 
Numa época em que está tão na moda a literatura de fantasia não se pense que este livro é mais um exemplar da literatura fantástica; o que aqui está é realidade; é um comunismo tornado utópico, um capitalismo selvagem e opressor, uma história e uma mentalidade portuguesas atuais e passadas, numa mescla por vezes difícil de compreender mas que constitui, sem dúvida, um testemunho bem criativo daquilo que é, simplesmente, Portugal. E o invólucro desta sátira não é a fantasia; é o surreal. Não é a fuga à realidade; é um mergulho na própria realidade, embora recorrendo a uma linguagem que a ultrapassa.
Poder-se-á perguntar porque é que este livro não teve um sucesso maior; a razão fundamental terá sido a falta de divulgação, tratando-se de um escritor ainda pouco divulgado; no entanto, há outro aspeto a ter em conta: o grande público procura algo que este livro não oferece: uma narrativa com suspense, uma estória envolvente e aquela incerteza sobre o desfecho típica do género romance. Esta não foi, de facto, uma preocupação do autor; mas um enredo um pouco mais elaborado poderia ter proporcionado ao livro um sucesso comercial que sem dúvida merecia.

Sinopse
Há quase 50 anos, Fidel Castro espantou o mundo com a sua revolução. Mas será que El Comandante perdeu o rumo? Ter-se- á transformado no pior inimigo do seu povo? 
A Tragédia de Fidel Castro é um livro simultaneamente divertido e exigente, conduzindo-nos à mente de um dos mais enigmáticos e polémicos líderes do mundo actual. A sátira e o humor inteligente — ora discreto ora descarado — prendem-nos e despertam a reflexão. A narrativa foge a quaisquer regras, propondo-se revelar a intricada mente de Fidel como nenhum outro livro o fez. 
Qualquer um ficará surpreendido com os personagens que irá encontrar: Cristo, Afonso Henriques, o Grande Inquisidor, Fátima, Deus e o Diabo... , figuras simbólicas desta tragédia fantástica onde apenas Fidel Castro é real. 
Entre as sátiras de Gil Vicente, Ramalho Ortigão e Fialho d’Almeida e a fantasia de Ruben A. Leitão, A Tragédia de Fidel Castro abre uma página nova na literatura portuguesa, na qual se descobre o nosso próprio país. 
Aviso: não aconselhável a leitores com susceptibilidade política ou religiosa.
Vencedor do Beverly Hills Book Awards 2014 (Multicultural Fiction)
in www.wook.pt

sábado, 20 de setembro de 2014

O Natal do Sr. Scrooge - Charles Dickens


Comentário:
Esta deve ter sido a terceira ou quarta vez que li este livrinho. E há sempre algo de novo a descobrir nestas singelas 114 páginas. Desta vez resolvi lê-lo longe da quadra natalícia porque um amigo pediu-me para selecionar 2 ou 3 trechos para um trabalho seu. Curiosamente, não foi fácil encontrar 3 frases lapidares; isto porque o livro, essencialmente narrativo, embora tenha uma mensagem muito forte, acaba por delinear essa mensagem através da globalidade da narrativa e não por frases lapidares.
E precisamente essa mensagem global tem algo de único: ao contrário de muitos outros livros sobre o espírito do Natal, esta obra de Dickens assenta numa fortíssima antítese entre o bem e o mal. Há, em determinadas fases do conto, um ambiente quase tétrico, em que o autor pretende chocar o leitor com os fantasmas do lado negro da alma humana. Na verdade, é mais esse lado negro que Dickens nos quer mostrar. E neste aspeto a obra é profundamente atual. Infelizmente, Scrooge não é apenas o velho avarento;é muito mais que isso; é o paradigma da maldade, do egoísmo interesseiro que ainda hoje domina o nosso mundo. São os Scrooge de hoje em dia que dominam as grandes finanças internacionais; as Troikas são feitas de Scrooges; as guerras e revoluções que vão decapitando inocentes são financiadas pelos Scrooges da atualidade. E muitos dos milhões que diariamente passam fome devem tal martírio a esses mesmos Scrooges...
Mais do que um livro sobre o Espírito do Natal, este é um belo livro sobre o lado negro da alma humana.

Sinopse:
O célebre conto “A Christmas Carol” (“O Natal do Sr. Scrooge”) foi publicado em 1843 e desde então tem sido alvo de sucessivas adaptações ao cinema, televisão e teatro.
Talvez porque este livro seja muito mais do que uma história natalícia. As imagens que geralmente se associam a esta época — o Natal como sinónimo de reunião familiar — foram fixadas e transmitidas de geração para geração por estas páginas que Dickens escreveu em apenas seis semanas.
Ebenezer Scrooge, o protagonista, é um homem velho e só, permanentemente mergulhado nas suas contas e negócios, de quem nem os cães ousam aproximar-se.
“Uma ave de rapina! Duro e afiado como uma pederneira, do qual nenhum aço conseguira fazer saltar uma centelha de generosidade; secreto, reservado e solitário como uma ostra. O frio que havia dentro dele gelava-lhe os traços, enregelava-lhe o nariz pontiagudo, enrugava-lhe as faces, endurecia-lhe o porte, avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os finos lábios e transparecia no rabugento tom da sua voz desagradável.”
Numa noite, porém, Scrooge recebe a visita inesperada do seu antigo sócio Marley. Este avisa-o de que vai ser perseguido por três espíritos: o do Natal passado, o do Natal presente e o do Natal futuro. E, ao longo destas viagens pelo tempo, Scrooge vai-se transformando num homem diferente.
in http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/charlesDickens/contosDeNatal.htm

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway


"...a morte de qualquer homem diminui-me, 
porque sou parte do género humano, 
e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; 
eles dobram por ti"

John Donne

Comentário:
Este livro é um marco histórico na literatura mundial do século XX. Publicado em 1940, ele é mais um testemunho dramático e sentido desse período tão negro da história da humanidade. Neste caso, Hemingway transpõe para o livro o reflexo da sua própria experiência pessoal: depois de ter combatido como voluntário na Guerra Civil de Espanha, em que alinhou nas brigadas republicanas, contra os fascistas, este enorme escritor faz refletir no protagonista essa mesma experiência. E é na sua habitual voz poética que o faz. Hemingway foi talvez o homem que no século XX melhor conseguiu descrever o drama das guerras na prosa de ficção. 
A ação desenrola-se nos arredores de Segóvia, onde o americano Robert Jordan chega com a missão de dinamitar uma ponte, juntando-se a uma brigada de revolucionários espanhóis. Todo o enredo se desenrola durante os dois dias que antecedem a explosão da ponte. Tal como é próprio de Hemingway, não é preciso um enredo muito factual para manter o leitor agarrado ao livro ao longo das suas 500 páginas. O poder e o encanto deste livro estão na força tremenda das palavras mas que refletem a força da personalidade do autor; um homem que viveu nos limites e escreveu nos limites. Daí a sua admiração por Espanha e pelo povo espanhol: um povo sem moderação, sem meios-termos; um povo que é amor e sangue; dor e paixão. 
Um dos aspetos mais significativos desta obra é o facto de os personagens praticamente não saberem nada sobre o desenrolar da guerra; mau grado arriscarem a vida em nome de um ideal que mal conhecem (a República), eles são meros peões. No entanto, nas suas vidas, a guerra deixou de ser um meio para se tornar um fim em si. Para eles o importante já não é para que serve a guerra mas sim como cumprir o seu papel na guerra.
Mas a guerra não é feita de ideais; a maioria do povo não lutava pela República ou pelo fascismo; lutava pela necessidade de se “agarrar” a um partido; por necessidade de defesa. O álcool, por exemplo, era uma fonte de coragem maior do que qualquer ideal. Muitas vezes a embriaguez era um motivo mais forte para matar do que qualquer ideal. Por outro lado, a multidão é propícia aos exageros; o entusiasmo coletivo é redobrado e a fúria revolucionária fazia surgir verdadeiros atos de terror.
Mas a força e mesmo a violência da escrita de Hemingway é temperada de forma quase mágica com uma espécie de poesia em prosa que nos surpreende em qualquer das suas obras. Este pano de fundo da guerra civil espanhola é o ideal para que o autor ponha em prática essa mescla, porque o povo espanhol e a sua mentalidade refletem precisamente esta mistura: tal como a escrita de Hemingway, os espanhóis são, ao mesmo tempo, violentos e apaixonados. Só os espanhóis são capazes de amar e matar ao mesmo tempo. Violência e amor caminham de mãos dadas ao longo destas 500 páginas tornando esta leitura verdadeiramente apaixonante.

Sinopse:
O mais célebre romance sobre a Espanha em luta com o franquismo conta a história de Robert Jordan, um jovem americano das Brigadas Internacionais, membro de uma unidade guerrilheira que combate algures numa zona montanhosa. É uma história de coragem e lealdade, de amor e derrota, que acabou por constituir um dos mais belos romances de guerra do século XX. «Se a função de um escritor é revelar a realidade», escreveria o editor Maxwell Perkins em carta dirigida a Hemingway após ter concluído a leitura do seu manuscrito, «nunca ninguém o fez melhor do que você».
in www.fnac.pt

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Novos Contos da Montanha - Miguel Torga


Imagine-se uma casa de pedra, numa aldeia fria, na encosta de uma montanha. Lá dentro, o fogo da lareira aquece os corpos e as almas. Alguém conta uma história. E nós, as crianças, queremos que o serão não acabe, que o fogo não se extinga e que as histórias não terminem. É assim que se lê Miguel Torga; à lareira; ouvindo nas páginas a voz que conta as peripécias por que se passa na serra.
Neste livro,continuação dos Contos da Montanha,  continua o encanto destes montes, umas vezes alegres e felizes, outras vezes frios e tenebrosos como a noite na serra.
De um lado a alegria da comunhão com a natureza; do outro a dor e o sofrimento de quem depende da terra. O pequeno conto "Natal" é um dos mais belos textos que já se escreveram em Portugal sobre esse assunto; e o último conto é uma belíssima síntese entre a beleza do nascimento e o fantasma da morte; ou de como o nascimento também pode ser sofrimento e de como a morte pode ser bela.
No outro extremo, a melancolia e a tristeza;  por vezes a força da terra e dos homens nada pode contra os destinos da natureza, sob a forma de epidemias, catástrofes naturais ou desgraças que os próprios homens criam como monstros.
O tom mais melancólico dos Novos Contos pode também ser um reflexo da época em que foi escrito (ano de 1944), em plena segunda guerra mundial. Mas também a repressão crescente do regime fascista. Timidamente, a repressão policial aparece nas páginas de Torga, mais explicitamente no conto A Confissão. Anunciavam-se tempos negros...
Em vários contos Torga aborda a festa popular como um momento verdadeiramente único e solene na vida da aldeia; a festa é também ela uma síntese de extremos: do sagrado e do profano, com as suas missas, rituais e sacrifícios misturadas com os bailaricos onde sobem ao palco as paixões mais desenfreadas e ainda os ajustes de contas, as brigas e as vinganças. A festa popular é vista como uma espécie de catarse: o sagrado e o profano levados ao extremo:"um homem sente-se capaz de tudo: de matar o semelhante e de comungar. " pg.93

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Contos da Montanha - Miguel Torga

Comentário:
Quando li este livro pela primeira vez tinha menos de 15 anos. Hoje, cerca de 35 anos depois, na memória pouco sobrava do enredo. Mas lembro perfeitamente a forma como estes personagens me atingiram; a pobreza quase extrema de um Portugal rural e desprezado; a honestidade e a honra de quem sabe atribuir todo o valor ao suor, ao sangue e às lágrimas; o sofrimento de quem trabalha apenas para sobreviver; mas também a alegria que vem da terra e do sol; a beleza da serra e dos penedios; a verdura da floresta e tudo isso, ainda assim, a iluminar a alma das gentes.
Às vezes não é fácil compreender Torga. Talvez porque para sentir o que ele descreve é preciso amar Trás os Montes. Aquelas montanhas falam uma linguagem diferente da nossa, homens urbanos do século XXI. Falam o dialeto da terra, nascido das raízes célticas de um povo que brotou da própria terra.
No prefácio à oitava edição deste livro, Torga salienta a época de emigração que se vivia (1968) devido à falta de recursos económicos e de liberdade. E o livro seria assim uma espécie de homenagem à terra que os homens eram forçados a abandonar. Nada de novo, nada que não mantenha um toque de atualidade...
O primeiro conto, Maria Lionça é profundamente simbólico e ajuda-nos a perceber toda a "alma" do livro: o retrato de Maria Lionça, a moça perfeita, é uma espécie de retrato da terra, enquanto elemento positivo, que fornece alimento mas também alegria aos homens. Mais do que emanação da terra, ela é a própria terra, uma espécie de Deusa-Mãe das comunidades neolíticas. Mas a vida encarrega-se de mostrar como o destino das pessoas, tal como o da terra, não é feito de esperança e de alegria: a vida é sofrimento e morte. E, no final, na morte, é de novo a terra que se abre para receber os homens.
Grande parte do sucesso destes contos reside numa espécie de sensibilidade dramática de Torga. Regra geral não há uma intenção moralista; muitas vezes acabam mal como a vida acaba mal. Nada nestes contos faz lembrar a tradição romântica do romance rural; estão muito longe os tempos de Júlio Dinis. Pelo contrário, predomina uma perspectiva marcadamente realista desse mundo rural, em que o romantismo da pureza de alma das gentes serranas é substituído pela crueza de um conceito de honra por vezes impiedoso e por uma visão do mundo algo irracional, que Torga aborda com um espírito crítico discreto, muitas vezes envolto num sentido de humor mordaz. Nada disto impede, no entanto, que a voz da terra se faça sentir com toda a força, fazendo deste livro, ele próprio, uma verdadeira força da natureza.

Sinopse:

Miguel Torga publicou em 1941 o livro de contos Montanha, que imediatamente foi apreendido pela polícia política. Em carta de Abril desse ano, Vitorino Nemésio, solidarizando-se com o amigo, escreveu a propósito dessa apreensão: «Acho a coisa tão estranha e arbitrária que não encontro palavras. De resto, para quê palavras se nelas é que está o crime?» Mais tarde, em 1955, Miguel Torga fez uma segunda edição no Brasil, com o título Contos da Montanha. A edição da Pongetti circulou clandestinamente em Portugal, assim como a 3.ª edição, de 1962. Em 1968, a obra Contos da Montanha foi de novo publicada em Coimbra, em edição do autor.
in wook.pt

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

À Espera no Centeio - J. D. Salinger


Comentário:
Um livro surpreendente pela sua beleza e simplicidade. Esteticamente, é uma perfeita obra de arte; o ritmo narrativo é alucinante, a escrita é límpida e a simplicidade do enredo contribui para que a mensagem passe com clareza e eficácia. O assunto da obra é muito claro: o desajuste e a revolta de um jovem, Holden, um adolescente de 16 anos, perante a sociedade norte-americana do pós guerra. Na verdade, o enredo podia muito bem situar-se nos nossos dias; o que está em jogo é muito mais do que o eterno conflito de gerações; é a crítica ao sistema educativo mas, mais do que isso, à incapacidade que a sociedade revela para enquadrar os seus jovens e oferecer-lhes uma perspetiva de futuro. Os pais de Holden são abastados e aparentemente realizados e bem sucedidos em termos materiais. Mas o relacionamento com os filhos é totalmente frio e distante. O protagonista é um ser inteligente, sensível e com uma bondade natural por vezes emocionante. Mas tudo o que o rodeia é desprovido de sentido e de esperança. A sua revolta é um processo surdo, contido, como se a própria revolta fosse, também ela, desprovida de esperança.
A ligação de Holden aos irmãos, principalmente à irmã Phoebe, é enternecedora. Na verdade, grande  parte da beleza estética deste livro está na bondade natural dos personagens jovens, em contraste com o egoísmo e uma certa perfídia interesseira dos adultos. Isto reflecte uma perspetiva notável de crítica social: quase todos os personagens que vão aparecendo na vida de Holden são ignorantes e mesmo estúpidos.
A ausência de futuro, a morte da esperança configuram a desmistificação do sonho americano, ao ponto de em algumas épocas ter sido uma obra perseguida e mesmo proibida em alguns setores mais conservadores da sociedade.
Em suma, um livro muito interessante, a confirmar a notável capacidade crítica dos grandes escritores norte americanos. Aliás, este livro, publicado em 19651, foi o primeiro responsável pela afirmação de Salinger como um dos nomes maiores de literatura americana do século XX.

Sinopse: (in www.wook.pt)
O livro conta as aventuras de Holden Caulfield, um rapaz de 16 anos, que ao ter de deixar o colégio interno que frequenta, mas receoso de enfrentar a fúria dos pais, decide passar uns dias em Nova Iorque até começarem as férias de Natal e poder voltar para casa.
Confuso, inseguro, incapaz de reconhecer a sua própria sensibilidade e fragilidade, Holden percorre nesses dias um intrincado labirinto de emoções e experiências, encontrando as mais diversas pessoas, como taxistas, freiras e prostitutas, e envolvendo-se em situações para as quais não está preparado.
"À Espera no Centeio" é contado na primeira pessoa. Ao fazer esta opção, Salinger introduz na literatura americana os recursos da oralidade, com a linguagem espontânea, o calão, os palavrões, o bordão das repetições frequentes, o humor inconsciente, procedendo a uma verdadeira revolução literária, que tornou o livro num clássico da literatura americana do pós-guerra.
Publicada pela primeira vez em 1951, À Espera no Centeio é a mais marcante obra de J. D. Salinger, e uma das mais controversas da história da literatura norte-americana após a II Guerra Mundial. Foi constantemente censurada e banida das escolas, livrarias e bibliotecas dos EUA devido ao seu conteúdo profano, à abordagem que faz do sexo e à forma como rejeita alguns dos ideais americanos.

domingo, 31 de agosto de 2014

Chama Devoradora - John Steinbeck


Comentário:
Ao contrário do que se passa nas obras mais conhecidas de Steinbeck, em "Chama Devoradora" o acento tónico não está nas relações do ser humano com o meio, quer físico quer social, mas sim nas terríveis lutas interiores que configuram os grandes dramas da existência humana. As "chamas devoradoras" a que o autor se refere são essencialmente chamas da alma, emoções profundas e conflitos interiores.
Livro muito simbólico, talvez não seja o que mais agrada aos admiradores da escrita emocionante de Steinbeck, cheia de ritmo narrativo e incerteza nos desfechos. É talvez a sua obra mais estranha. O próprio autor reconhece ter tentado fazer algo que nunca ninguém tinha feito: um romance-peça de teatro, tentando evitar a exaustão do romance e a dificuldade de leitura de uma peça de teatro.
A estrutura do livro é, por si só, um grande motivo de interesse: o mesmo tema repete-se, em três situações diferentes, correspondentes a três actos: uma jovem mulher grávida, o seu marido, o amigo do marido e o amante da jovem grávida. As três situações desenvolvem-se como se fossem três círculos concêntricos, cada vez mais concisos, até que o último se resume ao desfecho do drama. Nos 3 atos os personagens são os mesmos e o tema é o mesmo (a gravidez da mulher, perante o conflito entre o marido e o amante, mediado pelo amigo). Apenas diferem as profissões e o contexto em que se desenrola o conflito dramático entre as personagens.
O final do livro é belíssimo.
Toda a intensa poesia de Steinbeck numa fala,de um homem que acaba de descobrir a incapacidade de ser pai:
"Acabou-se! A minha geração, o meu sangue, toda a sucessão das idades está morta e eu é só esperar mais uns tempos e morrer também!" - página 100/101
NO ENTANTO:
"Tive de mergulhar nas trevas para saber que todo o homem é pai de todas as crianças e que todas as crianças devem ter por pai todos os homens" - página 112

Sinopse:
"O tema de Chama Devoradora é chocante e até sensacional. Nas mãos de um escritor menor, poderia tornar-se licencioso, mórbido e obsceno. Mas John Steinbeck, que é um dos maiores escritores da América, trabalhou-o com coragem, audácia, lucidez e compaixão. Esta é, afinal, a história do impulso fundamental, a ânsia de procriar, a necessidade premente de continuar a espécie, conduzindo-a à imortalidade… As personagens de Steinbeck encontram-se a braços com uma dolorosa situação humana, em que intervêm as mais importantes emoções do homem, tais como o amor, o orgulho, o egoísmo, a lealdade e a abnegação." Do New York Times
in www.wook.pt

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O Adeus às Armas - Ernest Hemingway


Comentário:
Escritor extremamente versátil, símbolo da chamada"geração perdida" Hemingway é, sem dúvida, um dos mais brilhantes representantes da literatura americana do século XX.
Se a história da literatura fosse um romance, Ernest Hemingway seria a personagem mais fascinante e mais rica. A sua vida foi agitada como os seus romances. Poucos autores deixaram transparecer a sua própria vida, de forma tão clara, para a ficção.  Neste romance, que se desenrola no norte de Itália durante a primeira guerra mundial está bem patente a experiência do autor na guerra civil espanhola. Tal como Hemingway (que foi repórter mas depois também soldado no conflito espanhol), o protagonista vê-se envolvido na guerra, mesmo não sendo propriamente soldado.
Mas o que encontrei de mais fascinante neste livro foi o paralelismo entre a vida individual do Tenente Henry e a vida coletiva, da Itália e da Europa em geral. Hemingway encara o amor atribulado de Henry por Catherine em paralelo com o desenvolvimento da guerra. E a tragédia pessoal será o corolário de uma aventura individual tão intensa e dramática como a própria guerra. A tragédia de um ser humano não é menor que a tragédia de uma nação, de um continente ou da humanidade inteira porque cada homem encerra em si um universo inteiro.
Em termos de estilo, este livro, um dos primeiros de Hemingway, revela já a sua característica fundamental: uma escrita objetiva, sem rodeios nem floreados mas, ao mesmo tempo, com uma tremenda dimensão poética. É isto que mais ninguém consegue: ser objetivo sem perder a beleza poética da própria prosa.
Eis aqui um dos exemplos:
"Quando me tiravam da cama para me levarem à sala dos curativos via pela janela os túmulos recém abertos no jardim. À porta que dava para o jardim, um soldado, sentado, fazia cruzes e pintava-lhes os nomes, o posto e o regimento dos homens que eram enterrados no jardim." (Pág. 75)

Sinopse:
Adeus às Armas, muito provavelmente o melhor romance americano sobre a I Guerra Mundial, é a história inesquecível de Frederic Henry, um condutor de ambulâncias que presta serviço na frente italiana, e da sua trágica paixão por uma bela enfermeira inglesa. Ernest Hemingway foi um dos autores que mais contribuiu para revolucionar o estilo da ficção de língua inglesa. Veio por isso a receber o Prémio Nobel de Literatura em 1954.
in www.wook.pt

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma Fazenda em África - João Pedro Marques


Uma agradável surpresa, esta que nos proporciona a sempre simpática Porto Editora. Com uma capa excelente e uma apresentação magnífica, este livro surpreende, acima de tudo, pelo rigor da abordagem histórica que está por detrás do enredo ficcional mas também pela habilidade com que o autor constrói esse mesmo enredo, gerindo com muita mestria o comportamento das personagens.
Estudar e recriar o funcionamento de uma colónia de pioneiros em África é, só por si, uma aventura. Algumas das grandes obras primas da literatura universal abordaram esta vertente do comportamento humano: o espírito gregário e as relações sociais que se estabelecem entre as pessoas. Aqui, em Moçámedes, como não podia deixar de ser, haveriam de surgir os maus e os bons, os trabalhadores e os diletantes. Por vezes afirmamos que a ficção cai sempre neste maniqueísmo de dividir os seres humanos em bons e em maus, mas a verdade é que essa perspetiva não é mais que um espelho da vida real. E, sem duvida, uma  das vertentes mais interessantes deste livro é precisamente essa dinâmica entre a ética e o lucro, essa oposição constante entre o proveito próprio e a filantropia de um grupo de pessoas que, bem ou mal, queria levar a civilização e os "bons" valores a África.
Mesmo assim, é possível notar que o autor não deixa de cair numa perspetiva preponderante do colonizador. Os negros são muitas vezes descritos como uma espécie de animal exótico ou simplesmente como seres destinados a serem "domados" por via da escravatura. Será interessante que o leitor confronte esta visão tipicamente europeia com uma outra, por exemplo a que encontramos em A Conjura, de José Eduardo Agualusa, em que o autor vê a colonização na perspetiva do angolano.
É que o tipo de colonização empreendido naquela época (segunda metade do século XIX) já nada tem a ver com a exploração comercial dos primórdios da expansão mas, pelo contrário, numa fase pré-Conferência de Berlim, em que se procurava a todo o custo estabelecer o domínio territorial e uma economia de fixação, de cariz agrícola, baseada na escravatura.
Um dos aspectos mais notáveis deste livro é a inteligência com que o autor consegue moldar e transformar o caráter da protagonista, Benedita, que, lentamente, se vai transformando, desde a ingénua donzela até à fortíssima personagem de mulher fatal.
Num país com uma história tão rica, é fundamental que em Portugal continuem a publicar-se obras de ficção histórica como esta. Embora caindo numa perspetiva algo etnocentrica, é uma obra com notável interesse pedagógico. E literário, obviamente.

SINOPSE
"Uma história de amor e aventura nos primórdios da colonização de Moçâmedes.
Ao acordar em sobressalto naquela noite de junho de 1848, a jovem Benedita não podia imaginar a transformação radical que a sua vida iria sofrer. Um ano volvido, tendo perdido tudo o que a prendia a Pernambuco, embarcava com escassos haveres e o coração apertado em direção a Moçâmedes. Consigo seguia mais de uma centena de portugueses que, desiludidos com o Brasil, procuravam uma nova oportunidade, fundando uma colónia agrícola do outro lado do Atlântico.
Uma Fazenda em África acompanha a vida e as histórias dos primeiros colonos numa terra brutal, trazendo à superfície os sucessos e desaires, os perigos e as surpresas da sua fixação num território
inóspito e selvagem.
Baseado numa investigação histórica meticulosa e tendo como pano de fundo a colonização de Moçâmedes, este novo romance de João Pedro Marques leva-nos por uma África simultaneamente
enternecedora e inclemente, carregada de exotismo e em cujos trilhos a aventura e o amor caminham de mãos dadas."
in http://www.portoeditora.pt/

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Leste do Paraíso - John Steinbeck

Comentário:
Escusado será de dizer que estamos perante um livro notável. Normalmente atribuo uma avaliação de zero a dez a todos os livros que leio. Até hoje só tinha atribuído a nota máxima a nove livros. Este é o décimo e Steinbek é o único escritor com dois livros nesta lista.
Publicado em 1952, nos alvores da Guerra Fria, este livro transporta consigo uma força tremenda. E essa força deteta-se, desde logo, num título belíssimo e também premonitório: a associação de ideias entre o Leste e o Mal será, ao longo da segunda metade do século XX, uma realidade incontornável (o lado Leste do Paraíso é o sítio para onde se deslocou Caim após ter matado Abel).
Uma das maiores virtudes deste escritor genial é a forma como gere a narração e o desenrolar do enredo, com uma economia narrativa notável: sem excessos de adjetivação nem de descrições, mas também sem lacunas; tudo nos é narrado  de uma forma objectiva, clara.
Quanto à temática do livro, ele tem de se entender na sequência dessa outra grande obra-prima do autor, As Vinhas da Ira (1939); tal como nesse outro grande livro, interessa mais a Steinbeck a compreensão e explicação do espírito humano do que os factos em si.
Outra marca distintiva deste génio é a força dos seus personagens. Em As Vinhas da Ira, Tom Joad e a mãe são os exemplos mais marcantes de força de caráter e bondade humana. Em A Leste do Paraíso, a bondade de alguns personagens aparece-nos em contraponto com uma espécie de maldade natural, mais evidente em Cathy mas também nos personagens Charles e Cal, claramente inspirados no personagem bíblico Caim. Aliás são inúmeras e muito significativas as referencia bíblicas nesta obra. Cathy representa a maldade mais requintada, como se alguns seres humanos nascessem como aberrações, como autênticos monstros. No entanto, em todos os personagens a quem é atribuída essa maldade natural, ela vem enquadrada numa certa lógica, como se o mal fosse inerente ao ser humano. No fundo, o confronto entre o Bem e o Mal constitui o verdadeiro âmago deste livro, como explicarei adiante.
A opção por personagens muito fortes não acontece por acaso; ela deriva da crença de Steinbeck na força do espírito humano; não na força do espírito coletivo, mas na força do ser individual: só individualmente o ser humano é capaz de criar, como o próprio autor explica no início do segundo capítulo.
Tal como em As Vinhas da Ira, também aqui é notável a relação do homem com a terra, como se esta fosse uma extensão do ser humano. No entanto, a Terra é fonte de alimento mas também de sofrimento; a alegria e o prazer parece só ganharem significado em confronto com o sofrimento, da mesma forma que o Bem só ganha sentido em paralelo com o Mal.
Esse confronto é analisado, ao longo de todo o enredo, em confronto com a própria Bíblia. O livro sagrado parece ser encarado como uma espécie de sentença de condenação perpétua que paira sobre o ser humano. Mas, pelo contrário, a religiosidade da personagem Lizzi é enternecedora. A ela só não agrada a ideia de no Paraíso não se trabalhar; por isso ela planeia realizar lá uns serviços, quando morrer,como remendar nuvens ou limpar as túnicas dos santos. Estas personagens positivas, como Lizzi ou Samuel são o contraponto da maldade extrema de Cathy mas também de uma espécie de maldade natural, humana, de Cal ou Charles, os herdeiros de Caim. O mais terrível é que esta luta está dentro de todos os seres humanos; todos nós temos no nosso espírito algo de Caim e de Abel. E essa luta prevalece até à morte, como acontece com Adam...
Lee, o criado chinês paira sobre o enredo como se fosse um elemento exterior ao livro: fruto de uma formação oriental, ele não foi contagiado pela bíblia; por isso ele detém a sabedoria e a racionalidade. É ele quem faz esta afirmação absolutamente notável:
"Fumo os meus dois cachimbos todas as tardes, como fazem os mais velhos, e sinto que sou um homem, e o homem é uma coisa muito importante, talvez mais importante ainda do que uma estrela. Isto não é teologia. Não dobrei a espinha perante os Deuses mas surgiu em mim um novo amor por esse instrumento brilhante que é a alma humana. É uma coisa maravilhosa e  única no mundo. Está sempre a  ser atacada e nunca é destruída porque TU PODES."

Sinopse:
Com acento bíblico, o grande autor de As Vinhas da Ira define o universo de A Leste do Paraíso através das seguintes inspiradas palavras: «O assunto é o mesmo que cada homem tem utilizado como tema: a existência, o equilibro, a batalha e a vitória, na eterna guerra entre a sabedoria e a ignorância, a luz e a treva, o bem e o mal.» A Leste do Paraíso, vasto fresco levantado a partir do relato da vida de várias gerações de duas famílias norte-americanas, os Trask e os Hamilton, num período crucial da história dos Estados Unidos (1860, Guerra da Secessão – 1920, anos imediatos à Primeira Grande Guerra), proporcionou ao malogrado James Dean talvez o mais importante papel da sua carreira.
in www.fnac.pt


terça-feira, 19 de agosto de 2014

A Dama de Espadas - Alexader Pushkin


Comentário:
Para quem, como eu, nutre uma autêntica veneração pela literatura russa, ler Pushkin era uma obrigação.
Alexander Pushkin é considerado por muitos especialistas como o primeiro grande representante da grande literatura russa. Ele nasceu no final do século XVIII (1799) e viria a falecer com apenas 37 anos, num estúpido duelo como suposto amante da esposa.
Puskin foi pioneiro em diversos aspetos. Desde logo, a nível político; ele foi um dos primeiros revolucionários, a lutar contra o absolutismo do Czar e contra as injustiças sociais a ele inerentes e que tanto pesariam na obra dos grandes mestres russos do século XIX, com destaque para Leon Tolstoi, Gogol ou Gorki.
Mas também em termos literários, ele foi um criador. Tendo sido essencialmente poeta, escreveu várias peças de teatro mas também algumas obras em prosa e por isso é considerado um dos pioneiros da ficção russa, no contexto da escola romântica então em voga.
É nesse contexto romântico que se situa A Dama de Espadas. Trata-se de uma pequena novela que viria a dar origem a uma ópera de Tchaikovsky. O enredo é muito simples e linear, narrado a estória misteriosa de uma velha dama da alta sociedade russa que detinha um temível e misterioso segredo que permitia a qualquer jogador de cartas vencer e tornar-se milionário. No entanto, o uso do segredo estava limitado a condições muito excecionais. O ambicioso Herman, um jogador de origem alemã, terá acesso a ele. Mas as consequências serão terríveis. Aparentemente, é apenas uma pequena estória destinada a entreter pelo mistério que envolve, pela fluidez da escrita e pela simplicidade da narrativa. No entanto, envolve também uma inovadora (para a  época) crítica social, perante a já então diletante alta sociedade e o vício do jogo que já se tinha instalado nesses meios e que viria a constituir a desgraça de grandes personalidades desse magnífico país, como foi o caso de Fiodor Dostoievski.
Numa época em que tanto se fala de literatura de fantasia, é bom ler um livro com quase 200 anos e que deixa a milhas, em termos de qualidade, qualquer um desses livrinhos sem nexo e algumas aberrações que por aí se publicam.
Sinopse:
Certo serão jogava-se às cartas em casa do oficial de cavalaria Narumov. A longa noite invernia chegara despercebidamente; a ceia fora servida às cinco da manhã. Aqueles que haviam ganho comiam com grande apetite, os restantes, distraídos, olhavam para os seus pratos vazios. Mas o champanhe apareceu, a conversa animouse, e todos participaram nela.
in www.wook.pt

sábado, 16 de agosto de 2014

O Senhor Ventura - Miguel Torga

Comentário:
O Senhor Ventura é a prova definitiva de como os grandes escritores nos reservam sempre grandes surpresas. Isto porque um grande escritor não se refugia num estilo definido, nem numa temática bem demarcada. Pelo contrário,um grande escritor é versátil. E Miguel Torga é um grande escritor.
Todos nós conhecemos Miguel Torga dos contos de cariz rural, expressando a luta do homem pela sobrevivência, num enquadramento por vezes poético outras vezes profundamente realista da relação do homem com a terra. Neste livro, Torga surpreende com um pequeno romance em que narra das aventuras de um português pelo mundo. Assim, o Senhor Ventura é o aventureiro luso, o português das sete partidas, que correu mundo, encantou e ficou encantado. Mas este não é um herói clássico. Muitas vezes é um anti-herói. As suas aventuras envolvem sempre a matreirice, aquele carácter "desenrascado" que muitas vezes não hesita em sair dos limites da lei. Um malandro, em suma. Mas, como qualquer malandro, o Senhor Ventura também se apaixonou. E, mais uma vez, aí temos o herói preso pelas saias. O amor foi o início da desgraça do Senhor Ventura, uma espécie de D. Quixote encandeado pela sua Dulcineia mas que não deixou de ser, tal como o herói de Cervantes, um porta voz de todas as virtudes e defeitos do seu povo. Na sua matreirice mas também no seu espírito de aventura, O Senhor Ventura é um verdadeiro resumo da alma portuguesa.
Acima de tudo, este livro é uma engraçada caricatura da alma portuguesa. Ao leitor fica a sensação que o autor de divertiu ao escrever este livro, que encarou de forma despretensiosa mas que se tornou, sem dúvida, uma das suas obras mais interessantes. Mesmo assim, há um aspeto muito sério que tem de ser referido: nas entrelinhas há aqui um recado à ditadura, durante a qual Torga escreveu este livro (1943) e contra a qual sempre se bateu...
Em suma, um livro sério mas divertido, cheio de conteúdo embora breve. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O homem que via passar os comboios - Georges Simenon


Comentário:
Já aquando da primeira leitura que fiz deste livro, há uns quinze anos, fiquei convencido que esta é uma das três maiores obras-primas da história da literatura policial, a par de O Cão dos Baskervilles, de Sir Arthur Conan Doyle e o eterno Crime no Expresso do Oriente, de Agatha Christie.
"O homem que via passar os comboios" tem tudo o que um grande livro deve ter: emoção, ritmo narrativo, ausência de descrições ou assuntos inúteis ou laterais, correção na escrita, objetividade e aquele toque de bom humor que nos deixa a sorrir durante a maior parte da leitura. 
Tecnicamente, um dos aspetos mais geniais deste livro é a forma como o autor gere a emoção: nós sabemos quem é o criminoso, sabemos quais são os crimes e a sua justificação. Só não sabemos se Popinga vai escapar.Ou até quando. E isso basta para um tremendo suspense. Só um génio literário é capaz deste desempenho!
Um certo exotismo começa logo com a apresentação do protagonista: Kees Popinga. Ele é um vulgar funcionário holandês, protótipo daquilo a que hoje chamamos classe média, com uma família vulgar e aparentemente feliz. Popinga até gosta do que faz. Mas um dia, como diria um adolescente dos nossos dias "passa-se". A empresa onde trabalha vai à falência e Popinga entra num percurso que o levará de discreto funcionário a um assassino apelidado de louco e perseguido como muito perigoso.
O que é absolutamente incrível é como o autor nos apresenta esse percurso como algo normal, credível. Tudo acontece com uma espantosa naturalidade! Isto só se explica pela genialidade de Georges Simenon, o notável criador do inspetor Maigret, que o notabilizou. Mas se o inspetor belga fez um sucesso absoluto, não tenho dúvidas que este Homem que Via Passar os Comboios é uma verdadeira obra de arte!
Há uma afirmação do nosso herói, Popinga, que resume bem o que se passa com este tipo de criminosos, e que ajuda a compreender a mente criminosa: quando lê no jornal, durante o seu refúgio em Paris, que a família e os amigos diziam que ele não estava no seu estado normal (ao cometer os crimes) Popinga diz: "era antes que eu não estava no meu estado normal". 
É óbvio que esta "anormalidade do normal", da loucura que resulta da normalidade, faz lembrar os estudos de Sigmund Freud, sobre a loucura e o seu método inovador, a psicanálise, tão em voga na época em que Simenon escreveu. Mas é muito mais que isso: é a humanidade na sua expressão mais radical. O ser humano não foi criado para se tornar um autómato. Popinga apenas procurava ser ele próprio. Ser livre e feliz. Foi essa procura da liberdade que o conduziu à criminalidade. Certamente, errou e o próprio Popinga reconhece a justiça do castigo que o espera. Mas a sociedade também falhou. E para essa falha não há castigo.

Sinopse:
"O Homem que via Passar os Comboios", publicado no ano de 1938, é uma obra que se insere no género da literatura policial, ou não fosse Georges Simenon o criador do celebérrimo comissário parisiense Jules Maigret. Kees Popinga é o protagonista deste divertido e admirável romance, que permite ao leitor realizar um trajecto pelos recantos mais sombrios da psicologia humana.
Empregado de Julius de Coster, o proprietário de uma empresa de abastecimento de navios, Kees Popinga leva uma vida respeitável e tranquila, sem grandes sobressaltos nem preocupações. Até que o seu patrão, confrontado com a inevitabilidade da falência financeira, decide fugir, simulando um suicídio. O sucedido opera uma profunda transformação em Popinga, que assume uma ruptura repentina com a sua rotina diária, profissão, mulher e dois filhos.
Após abandonar a família e Groninga, viaja até Paris, onde passa a viver numa marginalidade que desde sempre tinha ambicionado. Popinga é agora um lúcido assassino, que mata as suas vítimas com um inesperado sangue-frio, ao mesmo tempo que desafia as autoridades policiais ou escreve para os jornais de Paris a rectificar e comentar as notícias que são publicadas a seu respeito."
in: http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/georgesSimenon/amanha.htm

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sábado, 9 de agosto de 2014

O Códice Secreto - Lev Grossman


Quando saio da minha zona de conforto, ou seja, quando quebro a regra de só ler autores que me ofereçam garantias, acontece isto... desilusão. Não entendo muito bem porque é que algumas editoras tão bem conceituadas, tão competentes, como é o caso da Presença, editam livros como este (publicado em 2005). Bem, talvez eu esteja a exagerar. Este livro tem os seus méritos e certamente há por aí muito leitor que discorda desta avaliação negativa.
Na realidade há um ponto bastante positivo: o livro fornece-nos alguns dados interessantes sobre a Idade Média e tem fases de alguma emoção. Por outro lado, o facto de não se inserir em nenhuma etiqueta tradicional, como é enfatizado na sinpose (abaixo),  não deixa de ser um fator positivo. Há, de facto, qualquer coisa de original, de criativo, na forma como o livro é estruturado. No entanto, durante a maior parte da leitura, o ritmo narrativo é lento e esse é o maior pecado possível num livro que se pretendia emocionante.
O "cenário" até é muito bem montado: um génio das finanças, um verdadeiro workaholic, é surpreendido por uma proposta de trabalho muito peculiar: catalogar livros antigos e encontrar a todo o custo uma obra misteriosa do século XIV. Ao mesmo tempo, o nosso génio envolve-se com um jogo de computador altamente "viciante" que, misteriosamente, envolve um enredo cujos elementos se cruzam com a vida real do herói e com a história do tal livro misterioso da Idade Média. Esta ideia base parece-me bastante interessante e até oferece bons momentos literários, mas fica sempre a sensação que os elementos de mistério nunca foram explorados até ao limite.

Sinopse:
O Códice Secreto é um daqueles raros livros que escapam habilmente a uma categorização mais imediata. Thriller literário, histórico, bibliothriller ou romance com laivos de metaficção, a verdade é que este segundo livro de Lev Grossman exerce sobre o leitor uma embriaguês literária que, página a página, se vai transformando, insidiosamente, numa obsessão que só uma leitura ávida poderá aplacar. Aliás, o próprio protagonista, Edward Wozny, partilha com o leitor esse estado de inebriamento obsessivo, uma vez que também ele foi apanhado nas malhas do fascínio por uma obra da literatura medieval, um códice secreto do século XIV, atribuído a Gervase de Langford, e que supostamente encerra, numa mensagem criptografada, um segredo apocalíptico selado durante séculos. Edward estava prestes a gozar umas merecidas férias, depois de vários anos a construir uma carreira de sucesso num prestigiado banco nova-iorquino, quando lhe é pedido que organize a biblioteca privada de um casal de aristocratas britânicos, clientes do banco e fabulosamente ricos. Em breve, aquilo que se afigurava uma tarefa fastidiosa transforma-se numa odisseia de contornos inusitados onde ganham vida uma imaginação electrónica prodigiosa, na forma de um jogo de computador sofisticado e tão viciante quanto a própria procura do códice, e uma indecifrável teia de coincidências e ligações entre a realidade virtual, a lenda medieva e o presente de Edward. Plena de suspense e mistério, esta obra perturba e delicia, com o mesmo grau de intensidade, ao expor perante o nosso olhar a beleza e o incrível poder encantatório que podem envolver uma história bem contada e tornar tão vulnerável o leitor.
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