domingo, 26 de janeiro de 2014

As Aventuras de João Sem Medo - José Gomes Ferreira




Sinopse:
Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura 3º Ciclo - Leitura Autónoma Centro Novas Oportunidades - Leitura Autónoma - Grau de dificuldade II História fantástica que recorre ao imaginário mágico, por vezes de inspiração surrealista, este romance é um prodígio de efabulação e engenho narrativo.

Comentário:
Sob a aparência de um (falso) conto infantil esconde-se uma belíssima e divertida obra de arte. Este está longe de ser um livro para crianças. O livro foi escrito na fase emergente da ditadura fascista (1933), quando foi publicado sob a forma de folhetim e, depois, com alterações em pleno período negro e decadente do salazarismo, em 1963. Neste contexto, a sua aparência de ingénuo conto infantil terá enganado certamente a censura do regime.
Mas talvez a intenção inicial de José Gomes Ferreira não tenha sido a mensagem política; antes qualquer leitura ideológica, é necessário afirmar que a ideia fundamental é a da inversão da lógica do conto maravilhoso: em vez de prosseguir o cominho da felicidade, o nosso herói envereda pelo caminho mais difícil, pelo caminho pedregoso, onde até as pedras mordiam os pés do viajante. Pelo contrário, quem seguia o caminho da felicidade, teria de ficar sem cabeça. Talvez seja esta a primeira leitura política da obra; aqueles que apoiaram a ditadura terão sido iludidos por um caminho de felicidade, tendo para isso prescindido da racionalidade.
Ao longo da obra, em vez de palácios encantados e fadas madrinhas, João Sem Medo enfrenta monstros, bruxas e feiticeiras malévolas e toda a sorte de obstáculos; tudo era infelicidade e desventura. No entanto, o medo só por uma vez o assaltou. E nessa altura dá-se o momento mais divertido do livro: João, em desespero, apela para a única pessoa que o podia salvar: José Gomes Ferreira.
Ao longo destas desventuras, são bem visíveis as alusões ao regime fascista: personagens que se vangloriam de serem os salvadores, os redentores e outros que se destacam pelos belos discursos mas sem nunca construírem nada que pudesse contribuir para a felicidade dos habitantes da floresta. No final, como no início, fica a mensagem positiva, a contrastar com a realidade da floresta amaldiçoada: há sempre uma esperança que nunca morre, desde que o medo não morra; a esperança que João viveu logo no início, quando salta o muro que o fez sair da sua aldeia de chorões e a esperança final, quando regressa aos braços de sua mãe…
Num tempo em que a literatura fantástica tem adquirido tantos adeptos seria bom que os leitores portugueses, principalmente os mais jovens, ganhassem coragem para ler este livrinho. E, já agora, que os editores pensassem um pouco mais na literatura portuguesa e na sua promoção. José Gomes Ferreira é, também, um escritor fantástico. Literalmente e não só…

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O último moicano - J. Fenimore Cooper


Sinopse:
Uma narrativa que combina heroísmo e romance com uma crítica poderosa da destruição da Natureza e da tradição. No cenário do cerco francês e índio do Fort William Henry em 1757, relata a história de duas irmãs, Cora e Alice Munro, filhas do Comandante inglês, que lutam para poder voltar para junto do seu pai. Nesta perigosa jornada, são ajudas por Hawk-eye e os seus companheiros Chingachgook e Uncas, os dois únicos sobreviventes da tribo. Mas as suas vidas são postas em risco por Mangua, o selvagem traidor índio, que captura as irmãs, querendo que Cora se torne sua mulher.

Comentário:
Para o público menos familiarizado com a literatura do século XIX, este livro ficou célebre pelo magnífico filme de Michael Mann, de1992,com uma magnífica interpretação de Daniel Day-Lewis e com uma inesquecível banda sonora.
No entanto, como é normal, o livro conta-nos uma história bem mais rica e profunda. Na verdade, poucos serão os livros de aventuras que nos testemunhem de forma tão credível a verdadeira história dos índios norte-americanos, face à colonização inglesa e francesa no século XVVIII. O autor deste livro nasceu em 1789, o ano da revolução francesa e escreveu esta obra em 1826. O seu pai era, ele próprio, um colonizador, um pioneiro que fundou uma pequena cidade na zona do atual estado de Nova Iorque. Portanto, Fenimore Cooper conhecia como ninguém a realidade desse tremendo choque cultural que ocorreu em solo americano. No entanto, não se pense que estamos perante a simples versão do colonizador. Estamos muito longe ainda dos infelizes enredos de cow-boys do cinema do século XX, em que os Índios eram sempre os maus da fita. Pelo contrário, Fenimore Cooper dá-nos uma versão bastante humanista do referido choque e presenteia-nos com um enredo cheio de emoção mas também de dramas humanos, vividos na violência da colonização.
Aqui não há maus nem bons; ou melhor, há maus e bons mas eles não se distinguem pela cor da pele. Obviamente, é necessário compreender e aceitar como natural que nem sempre os índios tivessem respondido com paz à violência que lhe foi imposta.
O próprio índio malévolo, Magua, afirma na fase inicial do enredo que antes da chegada do colonizador, ele era feliz e pacífico. Depois, a presença dos europeus não se limitou a exercer a violência sobre os nativos; muito pior que isso, promoveu conflitos gravíssimos entre as diversas tribos, fazendo alianças com uns e inimizades com outros. Franceses e ingleses, em guerra, tinham aliados diferentes entre as tribos o que provocava mais atritos e guerras entre os peles vermelhas.
Mas não se pense que este livro se limita à história; ele é, também, um belo e agradável livro de aventuras, cheio de dramas e de intrigas, de mistérios e de amores fatais.

Em suma, um livro muito agradável a não perder por todos aqueles que apreciam a literatura desse século de ouro que foi o século dezanove.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Alves & Cia - Eça de Queirós




Sinopse:
Tudo estava bem na vida de Godofredo Conceição Alves até ao dia em que chega a casa e tem a terrível visão: sua mulher no sofá amarelo, em postura inconveniente, trocando afagos com um outro homem. E logo o seu sócio! Negócios, tranquilidade, o doce lar, tudo vem abaixo, como num pesadelo. Desesperado, Alves vê sua vida ruir e, indignado, anseia por vingança; afinal, perde-se a mulher, mas não se perde a honra. Com este enredo, Eça construiu esta novela, uma obra-prima de ironia e humor. E o desconforto de Alves, a sua ansiedade por lavar a honra, acaba por levar a um desfecho verdadeiramente surpreendente. Afinal, o que os vizinhos vão pensar?

Comentário:
Alves e Companhia é um dos romances menos conhecidos do grande mestre do realismo português. Na verdade, esta obra, publicada a título póstumo, está longe do fôlego dos grandes romances de Eça, como Os Maias. No entanto, estamos perante um dos livros mais agradáveis de Eça. A meu ver é este tipo de narrativa que devia ser incentivada nas escolas porque são livros como este, ou o Conde de Abranhos, ou ainda A Relíquia, que deliciam os leitores que apreciam uma narrativa leve e bem-disposta; por outras palavras, o valor deste livro reside essencialmente na motivação do leitor para depois enfrentar as obras mais profundas de Eça de Queiroz.
Alves e Companhia é um livro sobre a inação humana. Godofredo Alves é enganado pela mulher, com o seu sócio. A traição, segundo a tradição da honra masculina, exigia vingança, ou melhor, um ato de reposição da honra. Mas depressa ele se encontra sozinho nessa vontade de vingança e todos os que o rodeiam preferem fugir ao escândalo; os amigos têm medo de apadrinhar o duelo; o sogro prefere transformar em vítima a esposa traidora; esta prefere escapar-se para umas proveitosas férias na praia. E Godofredo fica só na sua dor, vendo todos os outros tirarem proveito da sua desonra.
Não andarei longe da verdade se disser que estamos perante uma crítica de costumes, mas talvez seja mais exato se disser que se trata de uma sátira de costumes; uns, os “machos latinos” aproveitam as mulheres dos outros para se divertirem; e como todos podem ser ao mesmo tempo traídos e traidores, tudo rola na paz dos Deuses; outros, como Godofredo, representam o romantismo tradicional, cheio de boas intenções e moral católica. O que é peculiar em Eça e que neste romance se torna o seu ponto crucial, é o facto de o escritor não tomar partido e parodiar de igual forma as duas atitudes.
Mais do que uma sátira aos comportamentos, o livro acaba por constituir uma sátira à própria moral, por um lado, e à tão satirizada “honra” do cavalheiro enganado.
Enfim, um livro bem-disposto, de leitura fluida e muito agradável. O bom velho Eça no seu melhor.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Ferrugem Americana - Philipp Meyer




Sinopse:
Passado na Pensilvânia, num cenário de grande beleza mas economicamente destruído, é um livro sobre a perda do sonho americano e do desespero - bem como da amizade, lealdade e amor - que dela advêm.
Esta é a história de dois rapazes ligados à cidade pela família, responsabilidade, inércia e beleza, que sonham com um futuro para além das fábricas e das casas abandonadas. Isaac English é deixado a tomar conta do pai depois do suicídio da mãe e de a irmã ter fugido para a universidade de Yale. Quando finalmente decide partir, acompanhado pelo seu melhor amigo, o temperamental Billy Poe, antiga estrela do futebol do liceu, são apanhados num terrível acto de violência que muda as suas vidas para sempre. Ferrugem Americana, evocativa dos romances de Steinbeck, leva-nos ao coração da América contemporânea num momento de profunda inquietação e incerteza quanto ao futuro. Trata-se de um romance negro mas lúcido e comovente, acerca da desolação que se bate com o nosso desejo de transcendência e acerca da capacidade salvadora do amor e da amizade.

Comentário:
Na capa desta edição da Bertrand deparamos com uma citação do jornal Washington Post segundo a qual este livro segue a tradição de Hemingway e McCarthy. De facto, pode haver aqui algo da solidão de O Velho e o Mar ou algum tom distópico a lembrar A Estrada, no entanto, a meu ver, o que mais se destaca neste livro é o realismo de Steinbeck em Ratos e Homens ou na miserável saga da família Jude em As Vinhas da Ira, numa estória onde é nítida a influência de Jack Kerouac em Pela Estrada Fora.
Seja como for, este livro é a prova acabada de como é possível escrever um grande livro sem fugir à influência dos grandes mestres. O que Philipp Meyer fez aqui foi uma magnífica homenagem aos grandes génios da literatura dos Estados Unidos da América, plasmando aqui as suas grandes virtudes, nomeadamente a humanidade das suas descrições, nas situações mais pungentes do sofrimento humano e, ao mesmo tempo, uma espécie de grito de revolta perante uma sociedade cada vez mais desumanizada.
Está aqui todo o sentido crítico da grande literatura norte-americana, toda a arte de descrever e desmascarar as situações de exploração humana.
Confesso que quando vi este livro pela primeira vez pensei: “mais uma distopia; está na moda”. Mas isto não é uma distopia; não é uma visão escatológica da humanidade ou da sociedade americana; é uma descrição e uma reflexão profunda sobre a América atual. Uma América corroída pela ferrugem da crise económica, social e moral, mas também uma América perdida numa crise de identidade de valores que põe em causa todo o velho mito do sonho americano.
É genial neste livro a identificação das raízes da criminalidade e das injustiças sociais que lhe estão associadas; uma sociedade corrompida pelo neoliberalismo, uma justiça ofuscada pela aparência de um rigor implacável e, finalmente, uma ausência de esperança que manieta todos os velhos sonhos.
Mesmo assim, o final do livro deixa-nos um agradável sabor a esperança; uma certa crença na bondade natural do ser humano que as estruturas económicas e políticas teimam em deixar reservada à solidariedade entre os mais pobres e injustiçados.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Está a fazer-se cada vez mais tarde - Antonio Tabucchi




Sinopse
Com este romance epistolar, Tabucchi renova uma ilustre tradição narrativa, subvertendo muito embora os códigos e pervertendo o género. Com efeito, apercebemo-nos a pouco e pouco que alguma coisa "não bate certo" nestas missivas: a paisagem parece resvalar sob os nossos olhos, os destinatários parecem errados, os remetentes desapareceram e os tempos inverteram-se, como se o antes e o depois tivessem trocado de posição e as cartas se antecipassem ou se atrasassem relativamente à própria mensagem que transmitem. Como se a vida fosse afinal um filme perfeito em que só a montagem falhou.

Comentário:
Este é um livro pouco convencional. Quem, como eu, leu antes Afirma Pereira, estranha bastante a diferença entre as duas obras. Neste livro, Tabucchi envereda por um formato peculiar, a que o autor (ou o editor?) chama “romance em forma de cartas”, embora seja muito difícil considerar este livro um “romance”. Na verdade, esta multiplicidade de tempos, de personagens e até de narradores leva o leitor a um trabalho desmedido na procura de uma linha de rumo que permita compor este enorme puzzle, em que as peças parecem não encaixar nunca. Talvez esta diversidade de narradores seja influência direta de Fernando Pessoa, tratando-se de escritor que viveu largos anos em Portugal e admirador confesso do nosso grande poeta.
Na verdade, o único fio condutor que, depois de tanto esforço, podemos encontrar é a multiplicidade de destinos a que as paixões conduzem os homens, num palco de múltiplos cenários, a que chamamos vida.
Por entre tantas cartas, tantas estórias, perpassa uma certa nostalgia, mesmo uma certa angústia perante os destinos tantas vezes cinzentos desses amores. Assim, mais do que um romance, este livro não é mais queum conjunto de impressões e reflexões sobre a vida e o amor. No entanto, não deixa de ser muito interessante a forma como o autor aborda os mais variados assuntos nessas cartas, fazendo apelo a elementos relacionados com as artes e a literatura. Por outro lado, talvez sob a influência, que o próprio autor assume, de Nikos Katanzakis, são muito interessantes as descrições de paisagens rurais.
Trata-se, portanto, de uma obra bastante reflexiva, de leitura difícil, árdua mesmo, a não ser que nos limitemos a encarar as cartas de forma independente. No entanto, a designação de romance encaminha o leitor para essa procura do fio condutor, de um enredo, o que prejudica o caráter lúdico que, em meu entender, deve estar sempre presente numa obra literária de ficção.

sábado, 11 de janeiro de 2014

O Cavaleiro de Westeros e outras histórias - George R. R. Martin




Sinopse
Cerca de um século antes dos eventos narrados em A Guerra dos Tronos, um jovem escudeiro parte em busca de fama e glória num dos mais famosos torneios de Westeros. Mas o destino prega-lhe uma partida e coloca-o no caminho de um rapaz misterioso que irá mudar a sua vida para sempre. A não perder para os fãs da melhor série de fantasia da atualidade.

O Cavaleiro de Westeros abre esta coletânea com os melhores contos de George R. R. Martin. Nela encontrarão também uma cidade dominada por uma elite de lobisomens, onde ocorrem horrendos acontecimentos; um magnata excêntrico com gosto por espécies exóticas que vai ser confrontado com o que não esperava; um padre em crise de fé num mundo distante; uma mulher que vasculha universos em busca do amor perdido; ou um homem que se vê confrontado com a derradeira escolha, num mundo em que o fim da vida não equivale necessariamente à morte. Dez histórias nascidas da imaginação do criador de As Crónicas de Gelo e Fogo.

Comentário:
Este livro, constituído por diversos contos, na sua maioria, escritos na juventude de Martin constituem um belo testemunho da primeira fase de afirmação deste escritor de enorme sucesso. Aliás, tão importantes como os contos são as introduções que o escritor faz, onde nos revela peripécias muito interessantes da sua juventude, num bairro modesto nos arredores de Nova Iorque.
Muito interessante, por exemplo, a humildade do autor na veneração que diz nutrir pelo grande mestre Tolkien, já nessa altura o grande mentor de escritores do fantástico.
Os contos que aqui se apresentam são bastante variados no que toca à temática e ao estilo. Na verdade, ao longo de quase todo o livro manifesta-se um deambular constante entre oi fantástico de raiz histórica e a ficção científica. Sendo este domínio o mais apreciado na época é nítida no entanto a maior vocação de Martin para o terror e o fantástico.
Pessoalmente, parece-me bem mais conseguida a fantasia histórica de onde se destaca, sem dúvida, o conto que dá nome ao livro: O Cavaleiro de Westeros.
Mesmo no que respeita à ficção científica, Martin nunca põe de parte uma visão humana das narrativas; por exemplo em “Uma canção para Lya” é notável como Martin antevê aquele que é um dos aspetos mais perturbadores da visão que podemos ter do futuro: a capacidade para ler os pensamentos e os sentimentos dos seres humanos. Assustador, mesmo. Este toque de realismo é, a meu ver, a característica distintiva desse género que sinceramente não aprecio, a ficção científica. Mesmo assim, há pormenores notáveis na mensagem de alguns contos, como por exemplo em O Caminho da Cruz e do Dragão, onde a mentira é vista como a perfeição. Afinal, todas as religiões se baseiam em mentiras mas apenas aquela seita, os Mentirosos, assumem tal condição. É inevitável, aqui, a referência a Maquiavel, em que a arte da política se baseia na capacidade de oferecer ao povo as mentiras com que este deseja ser enganado.
No que respeita ao fantástico, chega a ser encantadora a evocação do passado, mais especificamente do imaginário medieval presente em O Cavaleiro de Westeros.
Finalmente, um destaque muito especial para Reis de Areia: um conto magnífico. Trata-se de uma espécie de fábula sobre a natureza da guerra. Toda a estória está cheia de simbolismo sobre os senhores da guerra e como eles manipulam os mais modestos dos seres, transformados em máquinas de matar.
Enfim, um livro revelador de muitas das facetas desconhecidas de Martin, um escritor que sempre rejeitou rótulos: ele não é o mestre do fantástico nem da ficção científica ou do horror; ele é apenas o escritor de “coisas esquisitas” como dizia o seu pai.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Afirma Pereira - António Tabucchi


Sinopse
A quem e em que circunstâncias conta Pereira o mês crucial da sua vida, um fatídico Agosto de 1938? O livro não o diz, caberá ao leitor escolher entre várias repostas possíveis. Mas Pereira é uma testemunha exata e, com obstinação e minúcia conta, como se fizesse um depoimento, um período trágico da sua existência e da história da Europa. Tendo por pano de fundo o Salazarismo Português, o Fascismo Italiano e a Guerra Civil Espanhola, Afirma Pereira é a história atormentada da tomada de consciência de um velho jornalista solitário e infeliz.

Comentário:
Este livro é uma magnífica homenagem a todos aqueles heróis anónimos que simbolizam a resistência à ditadura salazarista. Pereira não era um homem talhado para revoluções nem para heroísmos; como não o eram a maioria dos portugueses; mas enquanto essa maioria preferiu adaptar-se, compreendendo o incompreensível, Pereira preferiu ser fiel a uma voz diferente…
Pereira era apenas um homem simples e solitário, que gostava de limonada e falava com o retrato da falecida esposa. No entanto, depressa se viu devorado pelos tempos conturbados em que vivia, em plena guerra civil espanhola, nos alvores da ditadura salazarista. Pereira não tinha sonhos; apenas desejava manter a pacatez do jornalista modesto, responsável pela página cultural de um jornal de fraca tiragem. Mas aqueles tempos não se compadeciam com sonhos de anonimato. Pereira vai ter de tomar partido.
Quando Pereira vai para a clinica de talassoterapia, é inevitável a evocação da Montanha Mágica, de Thomas Mann por parte de Tabucchi. Aí, o Dr. Cardoso diagnostica em Pereira a emergência do seu “Eu hegemónico” que o leva a simpatizar com os jovens revolucionários. Eu hegemónico ou simplesmente consciência social? Assim Pereira perde a inocência da passividade e muda a sua vida para sempre; o comprometimento político é, às vezes, uma obrigação e, ao mesmo tempo, uma necessidade profunda.
Assim, em pouco mais de 150 páginas, este genial escritor italiano apaixonado por Portugal transmite-nos uma mensagem bem atual: perante a injustiça, é obrigatório tomar partido.
Finalmente, referência para o filme de 1996 (Sostiene Pereira no título original), realizado por Antonio Faenza, com Marcello Mastroianni num dos seus últimos desempenhos e com alguns dos melhores atores portugueses: Joaquim de Almeida, Nicolau Breyner, Mário Viegas e ainda com a magnífica Nicoletta Braschi, conhecida pelo desempenho em A Vida é Bela: