sábado, 31 de janeiro de 2015

Fernando Namora


Completam-se hoje 26 anos sobre a morte de Fernando Namora e ainda me custa entender como é que este nome vai passando para segundo plano na literatura portuguesa, cada vez mais esquecido.
Pessoalmente, cresci lendo os livros de Namora. Foi um dos meus primeiros ídolos literários.
Médico de profissão, foi um dos mais bem sucedidos escritores portugueses das décadas de 50, 60, 70 e 80. Nesse período publicou obras de grande sucesso como Domingo à Tarde, O Trigo e o Joio, A Noite e a Madrugada e, acima de tudo, Retalhos da Vida de Um Médico, que ficou para a posteridade através da adaptação televisiva, numa série mas também num filme de 1962 que esteve no Festival de Berlim.
A sua formação de base como escritor pode enquadrar-se no rico e fértil meio neorrealista, onde pontificavam nomes como Carlos de Oliveira, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, etc. Mas depressa Namora foi complementando essa tendência natural com uma escrita cada vez mais pessoal, poética e psicológica.  A sua vivência como médico deu-lhe também uma enorme sensibilidade humana e consciência dos problemas sociais, nomeadamente da vida rural, naqueles tempos atribulados da ditadura fascista.
Vinte e seis anos depois penso que seria a altura de, finalmente, as editoras pensarem numa reedição das suas obras.
Aqui fica um episódio da referida série televisiva, de 1980 (primeiro ano da TV a cores em Portugal) com musica de Ary dos Santos e com a presença de grandes nomes do cinema e da televisão em Portugal.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Galveias - José Luís Peixoto


Comentário:
Sem dúvida um dos melhores romances deste José Luís Peixoto que é um dos melhores escritores portugueses do século XXI. E tal como já escrevi algures, Peixoto vai-se destacando não só pela inegável criatividade e qualidade da escrita como também por uma incrível versatilidade. Se nos fixarmos nos seus melhores livros vamos encontrar obras substancialmente diferentes entre si. Há, evidentemente alguns pontos de contacto, que são as "imagens de marca" do escritor (uma certa nostalgia acinzentada, um tom de escuridão no destino das personagens e uma visão um pouco sombria do mundo) mas há também uma criatividade que nos surpreende em cada livro.
O fator surpresa desta obra encontra-se na ambiência rural, fixada em Galveias, a vila onde nasceu e cresceu o autor, aqui recriada nos anos oitenta do século XX, ou seja, na infância do escritor (a ação decorre em 1984 e Peixoto nasceu em 1974).
A escrita de José Luís Peixoto é fria, cruel, às vezes agreste. Em determinados episódios da narrativa as palavras doem, ferem propositadamente a sensibilidade do leitor, tal é a leitura cruel das desgraças humanas. Porque ruralidade não é só bucolismo, moral e bons costumes; ruralidade também é o pecado sob as suas mais diversas formas: violência doméstica, abuso de menores,maus tratos, alcoolismo, etc.
Mesmo assim, não deixa de ser curioso o sentido de humor, um humor baseado nas incongruências do mundo rural.
Em termos de estrutura, o livro lê-se como um jogo: cada capítulo apresenta-nos uma ação aparentemente desligada das anteriores e, lentamente, o leitor vai encontrando os fios de ligação com os episódios anteriores, formando uma trama que é um cosmos único e fechado: Galveias.
Em termos de enredo, tudo começa com o impacto de um meteorito em Galveias, criando uma cratera e deixando um terrível cheiro a enxofre.É nítido o simbolismo deste acontecimento e, ao mesmo tempo, o seu sentido poético: é o universo que envia uma mensagem a Galveias; o meteorito é o traço de união entre a aldeia e todo o universo. 
Este simbolismo está um pouco por todo o lado ao longo do livro. Por exemplo, o ataque à professora que tenta alfabetizar a população simboliza a recusa do saber, no contexto de uma ruralidade conservadora, aversa a fatores externos, como a educação escolar. No entanto,a razão emerge por outras vias e o episódio termina de forma brilhante, com um belíssimo e artístico desfecho.
Ainda e sempre, as memórias e pesadelos da guerra colonial que ajudou a desgraçar este povo. No entanto, até a mais cruel das injustiças é capaz de espalhar sementes de esperança. Assim foi com Joaquim Janeiro que deixou raízes em África, para lá da guerra.
No coração da ruralidade ficam os animais. Em Galveias, os cães, mesmo vadios, são personagens fundamentais; neles se expressa toda a sensibilidade, todo o humanismo de quem vive em comunhão com a natureza e por isso vive e respira os mesmos dramas e o mesmo sofrimento dos animais. 
Em Galveias são as prostitutas que fazem o pão - duas formas complementares de alimentar a comunidade.
Alguns episódios parecem estranhamente desligados do contexto. Por exemplo, quando a  jovem Raquel perde o colar da bisavó numa discoteca de Lisboa. Mas depressa se compreende a dimensão simbólica - aquele colar é Galveias; é o velho mundo, perdido entre o mundo estridente da cidade.
À medida que nos aproximamos do final, adensa-se o dramatismo. O leitor adivinha destinos trágicos mas não pode alterar a trajetória das personagens que parecem caminhar para a desgraça. Porque a vida é mesmo assim: por vezes caminhamos cegamente para a desgraça. O cheiro a enxofre, odor do inferno, é prenúncio de um qualquer Apocalipse. Desde o dia do meteorito, nove meses antes,não chovia e o cheiro a enxofre era cada vez mais forte. No entanto, no final, a esperança triunfará. porque como escreve Neruda, a primavera é inexorável.

Sinopse (in www.wook.pt):
Galveias está entre os grandes romances alguma vez escritos sobre a ruralidade portuguesa.
O universo toca uma pequena vila com um mistério imenso. Esse é o ponto de acesso ao elenco de personagens que compõe este romance e que, capítulo a capítulo, ergue um mundo.
Como uma condensação de portugalidade, Galveias é um retrato de vida, imagem despudorada de uma realidade que atravessa o país e que, em grande medida, contribui para traçar-lhe a sua identidade mais profunda.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Fronteiras Perdidas - José Eduardo Agualusa


Comentário:
Neste blogue já muito se falou da literatura africana de língua portuguesa. Mia Couto, Onjaki, Pepetela, Agualusa, etc. não são apenas bons escritores. São génios. Nesta obra deparamos com uma seleção de pequenas narrativas, contos breves, escritos numa linguagem simples mas cuidada, ornamentada e perfumada pela presença constante da terra africana, das suas sombras e mistérios. E, acima de tudo, a alma africana, expressa nos homens mas também construídas pela natureza selvagem, feita de plantas, animais, terra, paisagem...
Sobre estes alicerces constitui-se um palco por onde desfilam as mais diversas personagens, todas estranhas, todas humanas.Alguns exemplos:
Tudo começa num hotel abandonado, fantasmagórico, tal e qual a nação angolana deprimida pelas guerras...
Um pintor revolucionário, deprimido, desiludido - "o socialismo é o caminho mais longo entre o capitalismo e o capitalismo" - Angola já não é o que era; já não é colonial; já não é revolucionária. Morreu o colonialismo mas morreu também a esperança...
Plácido Domingo é nome de traidor; um traidor fascista que foge aos homens refugiando-se na natureza.
Severino, jovem terrorista de Piuixe (vila de Pio IX) queria desviar o elevador de um prédio a fim de fugir para Cuba, à procura do socialismo...
Raquel, na verdade, chamava-se Fronteiras Perdidas porque em África um nome marca um destino. E Raquel umas vezes era branca, outras vezes mulata, desfazendo fronteiras. Como África que já não é branca nem preta.
Um assassino antropófago enlouquecido pela guerra: "Este país já não é  nosso". Este é o ponto fulcral do livro, tocando um tema transversal a toda a obra de Agualusa: a perda de referências de um povo e de uma nação. Ou de como o desenraizamento leva à desumanização.
A escrita de Agualusa é profundamente poética e triste; melancólica. Há nela a beleza de  paisagens sombrias, personagens quase autómatos, quase mortos-vivos, condenados a um mundo desumanizado.

Sinopse (in www.wook.pt)
Um morto da guerra descansa numa caneca de leite, a meio da noite, em Luanda. Está um passageiro transformado em serpente no lavabo do avião. Um elevador, no Recife, foi desviado para Cuba por alturas do quarto andar. 0 sonho, o delírio, a vergonha, a fé, a pele, a memória, o feitiço, o nome -o ódio e a entrega - são territórios de exílio, e nessa condição, lugares de morança. Misturam-se com uma fluidez voraz: são «Fronteiras Perdidas», linhas de vida de outra maneira, um catálogo de paisagens oníricas. Histórias que não são visíveis mas são visitáveis. Este livro é um caminho para elas e encerra pequenas sabedorias. Por exemplo, a maior: não existem sítios, apenas posições. «Não há mais lugar de origem», diz um dos percursos. Ou então: um hotel em que alguém afirma que dormiu e que está abandonado há anos. E Placido Domingo contempla o rio, em Corumbá.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Lendo Galveias - De volta à Ruralidade


A versatilidade parece ser uma das palavras-chave da escrita de José Luís Peixoto. Galveias (cuja leitura levo a meio) não se parece com nenhum dos seus livros anteriores. É, na minha perspetiva, uma agradável surpresa, por se tratar de uma incursão por um género que Peixoto ainda não explorara e que constitui um domínio tradicional da literatura portuguesa: o romance rural.
Na verdade, a ruralidade foi sempre um traço distintivo de alguns dos nossos melhores escritores. Logo no século XIX, Júlio Dinis presenteou-nos com pérolas deliciosas do romantismo como A Morgadinha dos Canaviais ou esse belo livro As Pupilas do Senhor Reitor. O grande Camilo, por oposição ao urbano Eça deixou-nos páginas brilhantes de ruralidade em obras geniais como as Novelas do Minho, Eusébio Macário ou A Brasileira de Prazins.
Já no século XX, é o neorrealismo, impulsionado pela necessidade de uma perspetiva critica face à ditadura, que assume a voz do povo rural, empobrecido pelo Estado Novo. É neste contexto que se afirmam nomes grandes como Alves Redol, Ferreira de Castro, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, etc. Numa perspetiva um pouco menos crítica, um escritor algo injustiçado pela crítica: Fernando Namora. E um escritor enorme da literatura portuguesa: Miguel Torga, esse poeta brilhante que fez poesia das fragas de Trás os Montes, do suor e do sangue do povo a que ele orgulhosamente quis sempre pertencer.
Agora, em pleno século XXI, é Miguel Torga que eu leio em José Luís Peixoto; um Miguel Torga modernizado, com motorizadas Famel e muito sentido de humor mas o mesmo povo sofredor e, acima de tudo, muito português.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os Cachorros Os Chefes - Mario Vargas Llosa

Comentário:
Nascido no Perú em 1936 e prémio Nobel da Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa configurava uma das grandes lacunas deste blogue. De facto, este foi o primeiro livro que li de Llosa. Não sou, como já disse várias vezes, apreciador da narrativa curta mas este livro é um dos melhores exemplares do género que li até hoje.
Na verdade, a escrita terrivelmente económica de Llosa dá espaço para um estilo cheio de simbolismo em que nada é deixado ao acaso. Os dois contos que dão título à obra encerram um simbolismo que, no entanto, não dão à escrita um carater hermético como tantas vezes acontece em obras do género. Tudo é claro e transparente. Senão vejamos:
No primeiro conto, Os Cachorros, narra-se a história de uma criança, depois adolescente e adulto, cuja vida fica marcada pelas regras rígidas de uma escola interna onde o convívio com colegas e professores é por vezes bastante duro. A essa violência do dia a dia junta-se um episódio dramático em que o nosso herói é mordido por um cão na zona genital. Obviamente, ele ficará marcado para o resto da vida e o seu destino ficará determinado por este acontecimento. No entanto, a castração de que foi vítima simboliza claramente muito mais do que o episódio do cão; representa todo o contexto social e educacional, todo ele castrador de que foi vítima. Assim, os Cachorros, assim mesmo nomeados no plural, só poderão ser entendidos como os seres humanos que rodearam o pobre e infeliz Cuellar. Nem ele nem ninguém pode viver sem os outros e estes são muitas vezes o inferno de Sartre…
Este conto, escrito em 1967, é sem dúvida o mais interessante deste volume. A segunda narrativa (Os Chefes) corresponde ao primeiro texto de ficção que Llosa escreveu, em 1959 e, nas suas palavras, constitui uma espécie de microcosmos de toda a sua obra posterior. O que aí encontramos de significativo e que talvez justifique essa opinião é a análise da violência, particularmente entre jovens, como expressão de um mundo extremamente competitivo, marcado sempre pelos impulsos mais primários do ser humano, que se sobrepõem a uma educação ineficaz. Tal abordagem constitui, certamente, um importante traço autobiográfico pois a personalidade do autor ficou marcada de forma indelével por uma educação muito austera, tendo frequentado um colégio militar.

Os restantes contos desta edição, mais narrativos e de fácil leitura, são interessantes mas não têm a mesma mestria de Os Cachorros, que se destaca claramente. Quanto à temática, o denominador comum a todas estas narrativas é a violência e as constrições sociais que afetam o comportamento humano.

Sinopse: (in www.wook.pt)
Os Chefes (1959) foi a primeira obra publicada de Mario Vargas Llosa, e com ela obteve o seu primeiro reconhecimento literário, o Prémio Leopoldo Alas.
Segundo o autor, «Os Chefes é um pequeno microcosmo do que viriam a ser o resto dos meus livros.» Quando escreveu Os Cachorros (1967) o escritor peruano já era mestre de todas as faculdades da sua narrativa, pelo que este livro acaba por ser uma mostra da diversidade das paixões pessoais e colectivas.
Como afirma Mario Vargas Llosa: «De todas as obras que escrevi, esta é a que tem as interpretações mais diversas.» A partir dos adolescentes protagonistas dos dois textos, o autor reflecte sobre a tirania e a violência que marcam uma sociedade e frustram as expectativas dos seus habitantes.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Segunda Vinda de Cristo à Terra - João Cerqueira


Comentário:
Chega hoje, 21 de Janeiro, às livraras este interessante e inovador livro de João Cerqueira.
A segunda vinda de Cristo à terra teria mesmo de ser diferente; logo de início, os cardeais convenceram Jesus Cristo a esquecer aquela história da pobreza, da justiça social e da igualdade, não fossemos nós cair no pior dos cismas, o Cisma do Património.
Portanto, esta segunda vinda à terra teria de ser mais discreta; nada de sermões para grandes audiências, nada de milagres mediáticos ou de pauladas brutas sobre os vendilhões do templo. 
Logo de início se vê que o livro de João Cerqueira será sustentado por dois grandes pilares, o humor e a sátira, pilares esses que se sustentam sobre um alicerce bem seguro: um enredo atrativo e temáticas polémicas mas atuais.
Em comparação com o seu livro anterior, A Tragédia de Fidel Castro, este apresenta-se de uma forma muito mais acessível ao grande público, com raciocínios bem mais simples e claros. A crítica, mordaz, faz lembrar a grande tradição do teatro vicentino e, em termos de ideias, algo nos faz recordar José Saramago.
Esta tremenda dimensão crítica fica logo bem clara na primeira aventura de Cristo na terra, quando, atraído pela beleza de Madalena, se junta a um grupo de ativistas ecológicos, novos apóstolos na luta contra o mal do capitalismo. No entanto, logo se prova que estes bravos ideais podem ser derrotados… pelos fueiros de um lavrador e sua esposa de pelo na venta.
Mas Jesus teria de ter paciência; não seria fácil trazer tantas almas transviadas ao bom caminho. Na sua primeira visita tinha lutado até à morte contra as injustiças e elas só tinham aumentado daí para diante. Talvez por isso, abalado psicologicamente pelo desastre anterior, volta à terra de cigarro ao canto da boca, em estilo “bon vivant” paz e amor. No entanto, o choque com a realidade foi tão duro que até o Padre Justino chegou à conclusão que Cristo precisava de formação moral e religiosa católica.
O Padre Justino é o símbolo da ignorância cimentada pelo preconceito. Mas é talvez por isso que a sua voz é muito mais aceite pelo povo do que a voz de qualquer Cristo ou de qualquer ativista ecológico. Por outro lado, os extremos tocam-se e os ativistas ecológicos padecem do mesmo radicalismo simplista e preconceituoso. Todos eles – cristãos à moda antiga e ativistas da ecologia - são acéfalos; as suas ”verdades universais” são ridículas; o Bem que eles defendem não passa de um cliché desfasado da realidade.
Um dos maiores méritos deste livro é ter feito do humor uma forma de expressão do absurdo real: de como revolucionários e ultra-conservadores convergem para o mesmo grau extremo de cegueira – o desprezo pela razão. E o humor, direto, incisivo, mordaz, incide precisamente sobre essa cegueira. 
A mesma ignorância é depois transposta para o plano político; o Portugal rural é invadido pelos novos analfabetos, patos-bravos do sistema, abutres das crises em que o país é campeão. São os espertos-saloios, mestres na arte de enrolar o incauto, que tanto pode ser o Estado, como a Câmara, como qualquer “saloio”.
E assim a prosa de João Cerqueira vai-se encaminhando para a sátira política, que mais não é que o retrato risonho e risível deste Portugal profundo dominado pelo xico-espertismo corrupto.
Na parte final do livro, o leitor dá conta que a pergunta fundamental continua sem resposta: afinal, o que veio Cristo fazer à terra nesta segunda visita? E, afinal, ele nada fez perante este miserável estado de coisas? O certo é que o próprio Jesus Cristo parece perdido entre estes cromos portugueses: os empreiteiros aldrabões, os autarcas corruptos, as autoridades saudosas de Salazar, etc.
Até que Jesus, finalmente, consegue fazer algo em prol da paz. Consegue acabar com a violência entre dois cães desavindos… e mais tarde falaria ao coração dos homens; apelaria à sensatez e proclamaria a paz. Mas apenas um cão vadio o ouviu…

Sinopse (in www.wook.pt):
Recorrendo ao humor, à ironia e ao sarcasmo, João Cerqueira apresenta um estilo único cuja qualidade lhe valeu a conquista de três prémios de literatura nos Estados Unidos e a tradução para inglês, italiano e espanhol."A Segunda Vinda de Cristo à Terra" aborda fenómenos de conflitualidade social e política que ocorrem no nosso país. De forma crua e inteligente, o autor conduz o leitor por uma história fascinante onde… no fim... é Portugal que acaba na cruz.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Impressões: Manual de como salvar o Mundo


Há muito tempo que o mundo não assistia a tão dramáticos e sangrentos conflitos relacionados com religião. 
Os chocantes acontecimentos terroristas em França; a catástrofe que se vai desenrolando na Nigéria; a tragédia continuada que se desenrola na Palestina; a desumanidade do Estado Islâmico, levam-me apensar que o nosso mundo está pejado de insanidade. 
As religiões, por definição, defendem o Bem, a paz e a harmonia. No entanto, nunca se matou tanta gente por outro motivo, como se mata pela religião. Desde a Idade Média que assistimos a este drama: muitos seres humanos já não se limitam, a dizer: “o meu Deus é melhor que o teu” e passaram a dizer: temos de exterminar a tua religião.
Quantos milhões morreram nas Cruzadas? Quantos milhões foram mortos ou torturados pela Inquisição? E quantos milhões estão hoje a ser vítimas do radicalismo islâmico?
Perante isto, o meu apreço pelas religiões praticamente reduz-se ao Budismo: a única grande religião que defende e pratica a tolerância.

E se a religião já não pode salvar o mundo, a pergunta que se coloca é: quem o poderá fazer?
E a minha resposta é: A ARTE!
A arte é a beleza; é o lado belo da humanidade.
E a literatura é arte por excelência.
Quantos escritores se notabilizaram por defender ideias totalitárias e violentas? Assim de memória, lembro-me de Celine numa determinada fase; talvez mais dois ou três estalinistas… tristes exceções que só confirmam a regra!
Mas a esmagadora maioria dos artistas são humanistas, defensores da vida humana, da paz e da harmonia entre os povos!
É por isso que, cada vez mais, ler é o melhor remédio!

Ilustração de Jarbas in blogs.diariodepernambuco.com.br

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

David Copperfield - Charles Dickens


Comentário:
Esta é uma das primeiras grandes obras literárias que denuncia a hipocrisia e a rigidez absurda da moral vitoriana (período histórico que acompanha o reinado da Rainha Vitória, de 1837 a 1901). Este livro, publicado pela primeira vez em 1850, é um testemunho forte da rigidez por vezes brutal de uma educação que encara a criança como um ser naturalmente malévolo, que é preciso civilizar, da mesma forma que, por essa época, os exércitos ingleses impunham a força das suas armas sobre o enorme império britânico. 
Esta época de forte industrialização serve de pano de fundo a uma sociedade que alimenta, cada vez mais, o orgulho britânico, tornando-o inquestionável e seguro de uma vanguarda civilizacional que deveria impor-se a todo o custo, tanto a nível externo como interno; assim se explica a emergência de uma sociedade eivada de injustiças e fortes contrastes sociais. É este o pano de fundo para o surgimento de diversas correntes revolucionárias, das quais o socialismo é o mais lídimo representante. E Dickens foi, indubitavelmente um percursor do pensamento revolucionário da segunda metade do século.
Um dos pontos fortes da arte literária de Dickens é a força das suas personagens; pela positiva ou pela negativa, a maioria delas têm uma personalidade bem definida, como se fossem modelos nos quais podemos encaixar qualquer ser humano. Desta variedade tão rica podemos destacar um personagem fascinante: Uriah Heep, o malévolo sócio de Mr. Wickfield. Trata-se daquele oportunista “lambe-botas” que tão bem conhecemos da vida real, sempre pronto a curvar a coluna vertebral para, hipocritamente, daí tirar o maior proveito. Até o retrato físico do personagem é eficaz, levando o leitor a imaginá-lo como uma autêntica ratazana.
Por oposição, merecem destaque três personagens muito poderosos que se afirmam pela bondade e pelas qualidades humanas: Mr. Dick, Wilkins Micawber e, na parte final do livro, o extraordinário amigo de David, Traddles; os três são algo alienados, ambos com aparência algo idiota. São três corações puros e três homens honestos vítimas da sociedade. 
Por outro lado, o meio em que David se move quando inicia a sua vida profissional é marcado por esse individualismo burguês que serve de base social à dinâmica capitalista liberal, assente sobre o princípio geral da concorrência. E o capitalismo, como sabemos, levou-nos dessa concorrência ao desprezo pela ética e pelo humanismo num abrir e fechar de olhos.
Mesmo assim prevalece ao longo de todo o livro a preocupação de manter o dedo acusatório em riste, sobre uma sociedade injusta e desigual, mais uma vez ilustrada pelo esforço feito pela personagem Mowcher para ser vista como um ser humano normal, mau grado a baixa estatura que a tornava alvo de desprezo. 
Esse dedo acusatório eleva-se de forma eloquente quando Dickens aborda as reações da ”sociedade” à perda da fortuna por parte de David. Na verdade, a necessidade de trabalhar é vista como uma desonra e a eminencia da pobreza é encarada como um fantasma tenebroso. A própria Dora não consegue colocar o amor por David acima desse fantasma que a assombra: a possibilidade de não ter todos os dias uma costeleta de carneiro para dar ao cão.
Aos pobres, a sociedade vitoriana exige, acima de tudo, humildade na aceitação da inferioridade social. No entanto, é forçoso distinguir a humildade honesta, fruto da consciência do seu papel secundário, do Sr.Pegotty da humildade falsa, calculista, do abominável Uriah Heep, esse personagem infelizmente tão atual cujos grandes méritos são a arte do fingimento e uma ambição capaz de o levar às maiores desonestidades e traições. Ontem como hoje.   
Dora é o testemunho implacável da ”cegueira” do amor de David; ela tem uma personalidade pueril, mimada e ideias totalmente ocas. No entanto, na mente apaixonada de David todos esses defeitos são vistos como qualidades.
Também na parte final do livro, emerge a importância vital da emigração para as colónias como meio de fuga às desigualdades e injustiças sociais. Países atualmente tão poderosos como EUA ou Austrália foram, naquela época, o refúgio para muitos pobres, perseguidos, enjeitados e deserdados da injusta sociedade de Sua Majestade Britânica.
O único aspeto menos positivo que podemos apontar a esta obra é a excessiva importância que Dickens dá aos pormenores. Tal preocupação faz com que o livro se torne demasiado extenso (esta edição tem 720 páginas) mas sem nunca deixar de ser uma leitura agradável, tal é a capacidade narrativa do autor.

Sinopse in www.wook.pt:

David Copperfield conta-nos a aventura de um rapaz, desde uma infância infeliz, até à descoberta da sua verdadeira vocação, a de romancista. Entre os fantásticos personagens do livro estão o seu padrasto, Mr. Murdstone; Steerforth, o brilhante, mas desprezível colega de escola; a formidável tia Betsey Trotwood; a humilde e traiçoeira Uriah Heep; a frívola e encantadora Dora; e ainda o "remediado" Micawber, uma das maiores criações cómicas da literatura de todos os tempos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

2001 - Odisseia no Espaço - Arthur C. Clarke

Comentário:
Nunca fui especial adepto ou fã da literatura de ficção científica. Mas comecei a mudar de ideias depois de ler os Mestres Ray Bradbury, nesse portentoso Fahrenheit 451 e H. G. Wells no magnífico A Guerra dos Mundos. E depois de ler estes gigantes cheguei à conclusão que tinha de completar a tríade com Arthur C.  Clarke. Tendo lido apenas um ou dois livros de cada um destes autores fico com a sensação de estar perante três génios com características bem diferentes: Bradbury mais poético, mais literário,Wells mais dramático e Clarke mais científico e mais premonitório.
Uma das razões pela qual nunca nutri grande simpatia por este género é o facto de muitos destes escritores se preocuparem demasiado em tentar adivinhar o futuro, sem o conseguir. No entanto, estes três autores mostram-nos que esse não deve ser o objetivo fundamental da ficção científica e essa mensagem é especialmente nítida em 2001 - Odisseia no Espaço.
Efetivamente, neste livro, publicado pela primeira vez em 1968 (um ano antes da chegada à Lua) Athur C. Clarke deixa em segundo plano tal objetivo, subjugando-o a um outro, bem mais significativo. Afirma o autor, no epílogo desta edição, escrito em 1982 que os autores de ficção científica tentam mais "precaver" o futuro do que prevê-lo. 
Então do que é que Clarke nos tenta precaver neste livro? Essencialmente, o que está no centro do enredo é a ameaça da inteligência artificial. Hal,o super computador que controla a nave espacial Discovery torna-se, num dado momento, um tirano capaz de subjugar a própria inteligência humana; este é o anuncio de uma época futura mas também um alerta para os caminhos perigosos que a inteligência artificial pode seguir.
Uma outra mensagem essencial neste livro, transmitida de uma forma profundamente poética é a sensação de solidão do homem perante a imensidão do universo; é a constatação da pequenez do ser humano num espaço e num tempo incomensuráveis para nós.
Esta dimensão humana da obra é especialmente nítida no belíssimo prólogo do livro, que abre com estas portentosas frases:
"Cada homem vivo transporta o peso de trinta fantasmas, pois é nesta proporção que o número de mortos excede o dos vivos. Desde o início dos tempos, cerca de cem biliões de seres humanos caminharam sobre o planeta Terra.
Ora, este é um número interessante, pois, por coincidência, há  aproximadamente cem biliões de estrelas no nosso universo, a Via Láctea. Portanto, por cada homem que alguma vez viveu, brilha uma estrela neste Universo."
Belíssima mensagem...

Sinopse
A Discovery movimenta-se no Espaço a 150 000 kms/h. É o primeiro ano do século XXI. A sua missão deve-se à descoberta de um estranho monólito encontrado na cratera Clavius, na Lua. Trata-se de um cartão de visita deliberadamente enterrado há milhões de anos, por uma inteligência extraterrestre. É preciso encontrá-la. Seja onde for. Seja quem for. O romance dramático de um dos filmes mais espectaculares jamais produzido.
sinopse in www.wook.pt

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O meu TOP 2014 - 22 leituras formidáveis


Em  matéria de leituras 2014 foi ano excelente.
Dos 87 livros lidos selecionei os 22 que mais me agradaram.
Note-se que nunca me atreveria a dizer os "melhores" - não sou ninguém para fazer juízos desse género - mas apenas os que mais gostei de ler.

01. A Leste do Paraíso – John Steinbeck.
Mas que hei de eu dizer perante uma obra que me faz sentir tão pequenino? Bastará talvez dizer que é um dos 12 livros que eu considero perfeitos.

02. O Adeus às Armas - Ernest Hemingway.
às vezes negro e tétrico como um quadro de Bosh. Outras vezes colorido de poesia como um quadro de Kandinsky. Mas sempre, sempre, cheio de humanidade. Uma crónica de guerra onde há frestas por onde espreita a esperança.

03. A sul da fronteira, a oeste do sol – Haruki Murakami.
Murakami no seu melhor, só superado, a meu ver, por Kafka à Beira Mar e 1Q84. Uma bela e triste mensagem: capitalismo é conforto; conforto é imobilismo; imobilismo é infelicidade. Para ler, para divertir e refletir.

04. O Adolescente - Fiodor Dostoievski.
Mesmo com uma nota de 19 em 20 este não é o melhor livro de Fiodor. O problema é que alguns dos outros são nota 20.

05. O homem que via passar os comboios - Georges Simenon .
Talvez o policial menos policial de sempre. Uma obra que ultrapassa muito os cânones desse tipo de literatura mas cheio de inteligência.

06. Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway.
A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. E muita, muita arte, numa estória sobre a guerra civil de Espanha. Mas uma estória cheia de História. E de arte.

07. O Natal do Sr. Scrooge - Charles Dickens.
Magia, arte e crítica. Umas dezenas de páginas escritas com dor e beleza. Talvez o melhor conto de sempre sobre o Natal.

08. A Peregrinação do Rapaz sem Cor - Haruki Murakami.
Enquanto não leva o Nobel, Murakami vai-se aproximando dos cânones ocidentais. Dessa forma talvez o Nobel fique ainda mais longe. Mas o mestre japonês não precisa dele para ser um génio.

09. O Ladrão Honesto e Outras Histórias – Fiodor Dostoievski .
Uma das obras mais simples e singelas do grande Fiodor.

10. Ferrugem Americana - Philipp Meyer.
Ferrugem corrosiva! Extremamente ácida! A América na cadeira do psicanalista: doente e louca. Uma obra cheia de ironia e beleza.

11. No Limiar da Eternidade - Ken Follett.
Formidável. A fechar da melhor maneira a trilogia O Século. A imensa capacidade narrativa de Follett está aqui bem patente numa obra monumental. Uma maratona literária ou a torre Eiffel dos livros.

12. O centenário que fugiu pela janela e desapareceu - Jonas Jonasson.
Como se diz na minha terra, de partir o coco a rir. Uma ideia genial e um enredo divertidíssimo. O livro mais cómico dos últimos tempos.

13. Chama Devoradora - John Steinbeck .
Um livro belíssimo, cheio de poesia, num formato muito criativo. Já antes considerava Steinbeck um grande escritor. Agora chamo-lhe génio.

14. A Guerra dos Mundos - H. G. Wells 
Os aliens até podem ser maus. Até podem assassinar pessoas e ter máquinas de matar terríveis. Mas não são piores que os humanos. E nós temos uma arma terrível para os liquidar nas últimas páginas. Talvez a leitura mais surpreendente do ano.

15. As Aventuras de Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle 
Precisa de medicamentos para a depressão? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

16. À Espera no Centeio - J. D. Salinger.
Holden era boa pessoa. Mas à sua volta tudo era estupidez, ignorância, preconceito. Bela crónica da América do século XX.

17. Liberdade de Pátio - Mário de Carvalho.
Tens aí vinte metros quadrados onde és totalmente livre. Mas livra-te de passar os limites. Aí está uma bela crónica dos nossos tempos.

18. Avó Dezanove e o Segredo dos Soviéticos – Ondjaki .
Os camarada soviético, o mausoléu dos camarada presidente e umas peças de dinamite para fazer uma bela “desplosão”. O singelo mas não ingénuo Ondjaki no seu melhor.

19. O Signo dos Quatro – Arthur Conan Doyle.
Precisa de medicamentos para estimular a memória? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

20. O Fundamentalista Relutante – Mohsin Hamid.
Uma abordagem fascinante do terrorismo mas também do seu fantasma. E há fantasmas mais medonhos do que a realidade…

21. Os Sinos de Ano Novo- Charles Dickens.
Sinos que não trazem alegria; Ano Novo que repete a tristeza que há na injustiça. No entanto, há a esperança. E a beleza. Sempre.

22. Afirma Pereira – António Tabucchi.
Uma visão inteligente do regime fascista e de como, por vezes, os algozes não passam de vítimas…tristes vítimas do obscurantismo e da estupidez.

Imagem daqui

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

The Chimes (Os Sinos de Ano Novo) - Charles Dickens


Comentário:
O  Natal de Mr. Scrooge é talvez o conto de Natal mais lido no mundo. Ele tornou-se um hino e  um símbolo dos valores humanos que rodeiam esta época festiva. No entanto, este conto, Os Sinos do Ano Novo, muito menos divulgado, não se pode considerar em nada inferior ao consagrado Scrooge.
Com o título original The Chimes, Os Sinos do Ano Novo foi publicado pela primeira vez em 1844, exactamente um ano depois do conto de Natal.
Talvez se note neste conto alguma influência de Victor Hugo (ou mera coincidência?): a simbologia dos sinos havia sido explorada de uma forma semelhante pelo grande mestre da literatura francesa treze anos antes quando, em 1831, foi publicado o belíssimo Notre-Dame de Paris, onde o famoso Corcunda de Notre-Dame convivia diariamente com os sinos da majestosa catedral da capital francesa.
É curioso que, tal como no grande romance de Hugo, também aqui os sinos não simbolizam a alegria da época festiva; não são sinos de júbilo ou de felicidade; são sinos que marcam o ritmo de um tempo em que nada se modifica. O ambiente do interior da igreja e do campanário faz também lembrar as descrições lúgubres do interior da Notre Dame habitada pelo corcunda; um ambiente soturno e triste.
Assim, os sinos não anunciam nada de novo, da mesma forma que o próprio Ano Novo não anuncia nada de feliz. Na verdade, uma das mensagens fundamentais do livro é precisamente essa: não há razão para festejar o novo ano porque a injustiça e a pobreza continuarão a reinar.
Nunca é demais realçar a sensibilidade para as questões sociais que Dickens demonstra. Ainda antes do aparecimento das ideias socialistas ele anuncia um tempo de contestação que será determinante para temperar essa fase de profundas desigualdades que foi a época vitoriana.
Mesmo os contos mais belos de Dickens têm o condão de revelar o Mal nas suas facetas mais macabras e mais pérfidas. Para quem espera um belo conto de Ano Novo é por vezes doloroso enfrentar as descrições que Dickens faz da maldade, da injustiça e das desigualdades daquele tempo. Daquele tempo e de todos os tempos.
No entanto, na tristeza também há poesia. E até alguns laivos de felicidade. 
Um livro curto, simples, direto, onde está patente toda a beleza da escrita de Dickens, talvez o melhor narrador de todos os tempos. 
E para todos os leitores deste blogue UM BOM ANO NOVO.

sábado, 27 de dezembro de 2014

AvóDezanove e o Segredo do Soviético - Ondjaki

Comentário:
À medida que vou avançando para o interior da obra de Ondjaki, menos provável se torna a hipótese de um dia me dececionar. Todos (ou quase todos) os génios da literatura têm um ou outro livro que nos desagrada. Neste maravilhoso escritor angolano tal parece ser impossível. Impossível não gostar. Impossível não sorrir e não sonhar; impossível não sentir aquela poesia e, acima de tudo, aquela ternura dos meninos de Luanda, a fazer lembrar os Capitães da Areia, ou seja, os Meninos do Rio do Jorge Amado!
As crianças desempenham um papel fulcral nas obras de Ondjaki; e a explicação envolve, entre outros fatores, o facto de o autor ser, ele próprio uma criança, embora tendo já perto de quarenta anos. Mas ele é uma criança no sonho, na esperança, na poesia.
Depois há o humor; com uma estória destas era impossível não sorrir e mesmo ceder à gargalhada sincera. Há pormenores simplesmente hilariantes, como os jacós (papagaios) com as suas sentenças políticas ou frases de telenovela brasileira. Outra nota de humor tem a ver com a alcunha da avó: dezanove. Não vou, obviamente, revelar, mas trata-se de algo que reflete a fineza e essa ingenuidade pueril que tanto enriquece a escrita de Onjaki.
É, portanto, um livro extraordinariamente divertido; e a melhor prova dessa qualidade é o facto de o ter lido praticamente na totalidade durante uma longa sessão de quimioterapia! Mesmo no meio da desgraça, este livro, acreditem, é capaz de nos fazer rir e sorrir.
No entanto, para lá desta dimensão lúdica, há um fundo muito sério no enredo deste livro. Se em Bom Dia Camaradas se elogia a presença dos cooperantes cubanos, neste livro aborda-se numa perspetiva muito crítica a presença dos militares soviéticos na Angola do pós independência. Uma perspetiva crítica que se centra numa hipotética construção de um gigantesco mausoléu para o “camarada presidente”. No entanto, as crianças lideraram a revolta; e o povo haveria de resistir, substituindo a inauguração do mausuléu por um memorável espetáculo.

Sinopse
As obras do Mausoléu que irá albergar os restos mortais do presidente da República estão quase a terminar. Os habitantes do bairro vizinho descobrem que as suas casas serão destruídas porque o espaço circundante ao monumento será requalificado. Duas crianças decidem explodir o Mausoléu e assim poupar o bairro onde sempre viveram. Entretanto o responsável pela obra, um soviético, apaixona-se pela avó de uma das crianças. Entretanto essa avó tem de ser operada para lhe amputarem um dedo do pé. Entretanto existe uma outra avó que aparece muito mas não existe. Entretanto o plano das crianças falha, mas o Mausoléu é destruído…
in www.wook.pt

domingo, 14 de dezembro de 2014

A Chave de Salomão - José Rodrigues dos Santos


Comentário:
Dos livros que já li do autor, este é, na minha opinião, o menos bem conseguido. Isto deve-se, essencialmente, a um menor ajuste entre a componente de divulgação cientifica e o enredo ficcional. Principalmente na primeira metade do livro o leitor tem dificuldade  em  ligar esses dois vetores e as explicações cientificas parecem surgir um pouco desajustadas em relação ao enredo. No final do livro, o ensaio de uma teoria do tudo parece-me algo forçada. Se décadas de esforço dos mais conceituados físicos não conseguiram chegar a tal teoria é pouco credível que um chefe da CIA consiga tal feito; ainda mais baseado num pressuposto demasiado incrível: o da consciência do Universo que acabaria por desempenhar o papel do tal "observador" capaz de criar o real através do processo de transformação das ondas em partículas e assim explicar a unificação do quântico com o nível macroscópico.
Pela positiva, há que destacar, mais uma vez,um enredo empolgante, com incerteza até final, se bem que marcado pelos habituais clichés deste tipo de literatura: o herói que aparece no último segundo quando a heroína está prestes a ser sacrificada, assim como o inevitável desfecho romântico.
Mas, ainda assim, subsiste o lado mais positivo dos livros de JRS: a divulgação cientifica, com explicações simples de problemas tão complexos como a eterna luta pela conciliação da física clássica com a física quântica. Personagens históricas tão magníficas como Niils Bohr e Albert Einstein são aqui apresentados de forma muito pedagógica e mostrando-nos mesmo um lado humano de génios como Einstein que também eram capazes de se enganar. Pelo meio, merece  também destaque a  explicação, muito simples e eficaz, desse fenómeno que foi a descoberta do campo de Higgs, tão importante para a física contemporânea.   Há alguns anos  atrás todos ouvimos falar do Bosão de Higgs, a Partícula de Deus, criadora da matéria resultante do Big Bang, que JRS  aqui nos explica de forma muito clara.
Em suma, este livro resume bem os segredos do sucesso de JRS, com os seus melhores méritos mas deixa indícios de algum "empolgamento" que ameaça levar longe demais este perigoso equilíbrio entre ficção e ciência.

Sinopse:
O corpo de Frank Bellamy, o director de Tecnologia da CIA, é descoberto no CERN, em Genebra, na altura em que os cientistas procuram o bosão de Higgs, também conhecido por Partícula de Deus. Entre os dedos da vítima é encontrada uma mensagem incriminatória. 
The Key: Tomás Noronha
A mensagem torna Tomás Noronha o principal suspeito do homicídio. Depressa o historiador português se vê na mira da CIA, que lança assassinos no seu encalço, e percebe que, se quiser sobreviver, terá de deslindar o crime e provar a sua inocência. 
Ou morrer a tentar. 
Começa assim uma busca que o conduzirá às mais surpreendentes descobertas científicas alguma vez feitas. 
Será que a alma existe?
O que acontece quando morremos?
O que é a realidade?
Com esta empolgante aventura que arrasta o leitor para o perturbador mundo da consciência e da natureza mais profunda do real, José Rodrigues dos Santos volta a afirmar-se como o grande mestre do mistério. Apesar de ser uma obra de ficção, A Chave de Salomão usa informação científica genuína para desvendar as espantosas ligações entre a mente, a matéria e o enigma da existência.
Sinopse in www.wook.pt

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A Longa Noite sem Lua - John Steinbeck


Comentário:
Escrito em 1942, esta obra de Steinbeck nunca foi, que eu tenha conhecimento, publicada em tradução portuguesa (de Portugal). A edição que li foi, portanto, a tradução brasileira.
Este livro revela-nos um Steinbeck muito diferente daquele a que estamos habituados pela leitura das suas grandes obras. The Moon is Down (A Longa Noite sem Lua na tradução brasileira) foi escrito em 1942, já em plena fase de maturidade do escritor, três anos depois da sua obra-prima, As Vinhas da Ira. Mesmo assim, este pequeno livro não deixa de ter algo de experimental, ao abordar uma temática pouco habitual no autor: a estória de uma cidade imaginária, ocupada por um inimigo enigmático, através da invasão militar, quase sem oposição. É bom lembrar que o ano de 1942 situa-se em plena segunda guerra mundial, em que a pátria do autor também esteve envolvida (EUA).
Vivia-se o terror nazi no seu auge, um pouco por toda a Europa mas com especial incidência na França, esse país mártir que deu ao mundo um exemplo de coragem através da famosa resistência francesa, à qual o livro parece prestar uma homenagem implícita.
Uma cidade qualquer, num país que podia ser a França, ocupado por outro país, que podia ser a Alemanha, numa guerra idiota que podia ser a segunda guerra mundial. Neste livro, o ”prefeito” é um homem passivo, um bom homem mas sem coragem para atos heroicos; ele vai tentado gerir a ocupação de forma pacífica, levando ao limite o seu esforço para acalmar a ira dos ocupantes. Mas nunca o prefeito deixou de acreditar naquele que é o verdadeiro herói do livro: o povo da cidade. Ele acredita que, seja qual for a sua atitude, um dia o povo se revoltará e o agressor tornar-se-á vítima. É esta a mensagem do livro: nada pode domar a vontade de um povo, por mais oprimido que ele seja.
E ao longo do livro, a premonição do prefeito vai-se concretizando; lentamente, a euforia de quem possui as armas vai-se esvaindo, à medida que a resistência do povo vai triunfando. A meio do livro, já os oficiais invasores, extenuados perante uma ocupação sob grande resistência, vão reconhecendo: “A cidade foi conquistada e estamos com medo; foi conquistada e estamos cercados.” Premonição perfeita do que viria a ser o desfecho da guerra: os nazis viriam a ser vencidos pelo desgaste.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Adultério - Paulo Coelho


Comentário:
Na mais positiva das leituras, este é um livro sobre a eterna inquietude do ser humano; sobre aquilo que António Variações chamava de Estar Além: só querer estar onde não estou, só querer ser o que não sou. Há no ser humano qualquer coisa que não se adapta à quietude, à paz de espírito; há sempre necessidade de algo mais, não necessariamente material; é por isso que a paz é tão difícil de obter.
Por outro lado, algo nos vai dizendo, ao longo da leitura que estamos perante um livro banal. No centro do enredo está a velha e mil vezes repetida questão dos limites do normal; a questão de saber se a loucura a que qualquer ser humano é levado pelas circunstancias, muitas vezes pela inquietude que referi, não é afinal um estado de “normalidade”. Mas, sinceramente, sobre esse assunto será possível que Paulo Coelho vá mais longe do que já foram os também brasileiros Machado de Assis e Clarice Lispector? Não me parece.
Depois vêm os lugares comuns a fazer lembrar a mais vulgar literatura de autoajuda: a medicina não dá respostas; apenas vende. O ioga e as técnicas orientais de meditação também não… 
A mais descarada banalidade e, ao mesmo tempo, uma generalização abusiva, mas que fica sempre bem num livro de Paulo Coelho:
“Os homens traem porque está no seu sistema genético. A mulher o faz porque não tem dignidade suficiente, e além de entregar seu corpo acaba sempre entregando um pouco do seu coração”.
Mas aqui está uma das grandes razões do sucesso dos livros deste autor: ele diz exatamente aquilo que a maioria dos leitores quer ler.
A vida exige desafios; quando eles não existem, o indivíduo tende a procurar situações de risco e aventura que, regra geral, resultam em comportamentos que conduzem à autodestruição. Isto não é uma descoberta de Paulo Coelho; é uma caraterística da alma humana há muito conhecida; o que o autor faz é apenas ilustrá-la com o exemplo típico da pessoa que, aparentemente, tinha tudo para ser feliz e que se vai auto-destruindo. Como é óbvio, “aparentemente” é a palavra-chave neste processo. E o grande problema deste livro é que tudo é demasiado óbvio; demasiado comum. E a literatura, como arte que é, exige algo mais que o banal.
Pela parte que me toca, acho que já esgotei a minha paciência para com Paulo Coelho; respeito o sucesso que tem e o bem que faz a muita gente que já o leu e com ele ganhou algo. Só por isso, já Paulo Coelho merece o reconhecimento que tem. Mas a mim já nada de novo diz…

Sinopse:
Uma mulher, casada, mãe de dois filhos, e jornalista de carreira, começa a questionar a rotina e a previsibilidade dos seus dias. Ao olhos de todos, tem uma vida perfeita: um casamento sólido e estável, um marido dedicado, filhos alegres e felizes, um trabalho que a faz sentir-se realizada. Contudo, já não é capaz de suportar o esforço necessário para fingir que é feliz, quando a única coisa que sente pela vida é uma enorme apatia. Tudo muda quanto reencontra, acidentalmente, um antigo namorado da sua adolescência. Quando se reencontram, desperta nela uma inesperada e violenta paixão, e fará tudo o que seja preciso para conquistar esse amor impossível.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Guerra dos Mundos - H. G. Wells


Comentário:
Antes de mais nada convém esclarecer uma confusão que também eu possuía antes de ler este livro: Orson Welles foi um cineasta e produtor de rádio e H. G.Wells foi o verdadeiro autor deste livro; a semelhança dos apelidos costuma gerar confusões.
Quando A Guerra dos Mundos, de Herbert George Wells foi adaptada a um programa de rádio, da responsabilidade de Orson Welles, em 1938, gerou um pânico enorme na população de Londres, uma vez que a obra retrata, de uma forma muito realista, uma invasão de marcianos. 
Para compreendermos tal fenómeno, convém fazer um pequeno enquadramento na época: 1938 foi o ano anterior ao início da Segunda Guerra Mundial; nessa altura, Hitler era uma séria ameaça à paz na Europa e podemos afirmar que o medo já estava bem patente na maioria dos cidadãos ingleses. O impacto de tal emissão é facilmente explicado por esse clima, aliado à genialidade do escritor Wells e do radialista Welles.
Por outro lado, convém ter em conta a época em que o livro foi escrito (1898). Vivia-se um clima de euforia na Europa, um tempo de prosperidade, mas também era claro que essa prosperidade escondia uma ameaça gigantesca: as grandes rivalidades na Europa que haveriam de conduzir à primeira guerra mundial; portanto, podemos afirmar que o livro é duplamente premonitório: podemos encarar a sua publicação como uma premonição da Primeira Guerra Mundial e a emissão de rádio é uma espécie de antecipação da Segunda.
Quanto ao livro em si, só encontro uma palavra para o definir: empolgante. Wells apresenta-nos e invasão como algo menos estranho à realidade do que possa parecer; logo no início do livro, ele adverte o leitor para esta verdade tão simples: porque é que havemos de estranhar uma invasão extraterrestre se toda a história do próprio homem está cheia de destruições maciças, provocadas pela sua própria agressividade? 

Repare-se   nas palavras do autor:

"Antes de formularmos a seu respeito um juízo demasiado severo, devemos recordar-nos que destruímos, implacável e totalmente, não apenas animais, como o bisão e o dodó, mas também raças inferiores. Os dasiúros, apesar da sua semelhança com os homens, foram inteiramente aniquilados no decorrer de uma guerra de extermínio empreendida por imigrantes europeus no espaço de cinquenta anos. Seremos tão piedosos que tenhamos o direito de nos lamentar se os marcianos fizerem a guerra movidos pelo mesmo espírito? "


Quanto aos marcianos que  invadem Inglaterra, há neles caraterísticas que merecem destaque pelo seu tremendo simbolismo. Por exemplo, eles não têm aparelho digestivo; “Eram cabeças – meras cabeças”. É impressionante como as caraterísticas aparentemente “monstruosas” dos marcianos não são mais do que a projeção de uma eventual continuação da evolução do homem, no sentido darwiniano, ou seja, fazendo com que órgãos ou membros menos úteis desapareçam (nariz externo, orelhas, cabelo, unhas, queixo, etc.) ao mesmo tempo que se desenvolvem de forma desmesurada os órgãos mais importantes, nomeadamente o cérebro e as mãos.
Da mesma forma, o aparelho digestivo reduz-se e o alien acaba por se alimentar diretamente do sangue das presas. Impressionante. Mas não é assim o ser humano enquanto predador?
A visão algo apocalíptica do autor é reforçada pela opinião negativa que ele emite sobre a natureza do ser humano, bem explícito no exemplo do padre. Trata-se de um homem da religião que manifesta um caráter problemático, egoísta, maldoso. Em plena contradição com o próprio pensamento religioso.
Outro pormenor curioso é o facto de um dos personagens principais, o artilheiro, através do seu discurso e dos seus planos, representar a crença na construção de um futuro melhor para a humanidade através de uma espécie de nova seleção natural, em que os mais fracos, os inúteis, são eliminados. Assim, há uma espécie de aproveitamento do lado positivo da desgraça: de como a “razia” provocada pela guerra (neste caso frente aos marcianos) funciona como uma forma de selecionar os melhores. 
O final do livro é interessante e, mais uma vez cheio de simbolismo; sem querer revelar o desfecho do enredo, é importante dizer que o maior inimigo da humanidade, ao longo dos seus 2,5 milhões de anos de História pode ser, ao mesmo tempo, a sua melhor defesa.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A Fórmula de Deus - José Rodrigues dos Santos

Comentário:
Aquilo de que não gostei neste livro resume-se a muito pouco: algum exagero nas explicações científicas, por vezes repetitivas, redundantes mesmo. Esse aspeto retira alguma fluidez à leitura e pode desagradar a leitores mais desejosos de um ritmo narrativo rápido. Mas fica por aqui a minha crítica negativa.
O que de positivo posso dizer é muito mais significativo. Sem tirar  interesse às aventuras de Tomás Noronha, JRS oferece-nos um presente notável: uma obra de divulgação cientifica riquíssima, a fazer lembrar o grande e saudoso Carl Sagan. O livro tem 570 páginas mas só consigo fazer uma pequeníssima ideia dos milhares de páginas que o autor leu para compor esta obra. 
Tudo começa com uma enigmática conversa entre Einstein e o antigo primeiro ministro israelita Ben Gurion. Dessa conversa resultou a elaboração, pelo génio da ciência, de um documento cientifico que, na interpretação dos espiões norte-americanos e, mais tarde, dos serviços secretos iranianos, de um plano para uma bomba atómica potente e acessível. Lentamente, ao longo do livro, JRS vai dando pistas para que o leitor vá descobrindo que o conteúdo do tal documento é bem diferente. No entanto, é o "nosso" Tomás Noronha que se vê "emparedado" entre americanos e iranianos. 
Pelo meio fica um admirável passeio pelos mais diversos aspetos da evolução do conhecimento cientifico no século XX pós-Einstein, especificamente no domínio da Física. 
Paralelamente, o autor oferece-nos interessantes reflexões sobre a natureza do pensamento religioso e suas relações, sempre explosivas, com o poder político.
Depressa a obsessão pelas armas nucleares vai dando lugar a uma outra obsessão da humanidade: a existência de Deus perante a validade sempre relativa do conhecimento científico. O interesse do livro atinge o clímax quando o leitor é levado a constatar das fronteiras tão ténues entre a física e a metafísica ou, em última análise, entre a ciência e a religião. A aceitação de um Deus criador não está, afinal, tão distante da realidade da própria ciência.
O final do livro, embora não tenha agradado a muitos dos aficionados da escrita de JRS é, a meu ver, belíssimo. A mensagem final tem tanto de surpreendente como de genial pela forma como o leitor é levado a reflectir sobre questões tão fundamentais como a existência de Deus, a origem, os limites e o futuro do Universo e da humanidade.
Em jeito de conclusão: não sendo um génio de criação literária, José Rodrigues dos Santos compensa essa lacuna com um imenso trabalho de preparação e elaboração das suas obras, ao mesmo tempo que revela um certo talento na gestão do "suspense" que imprime ao enredo, levando o leitor a uma certa avidez na leitura. 

Sinopse:
Nas escadarias do Museu Egípcio em pleno Cairo, Tomás Noronha é abordado por uma desconhecida. Chama-se Ariana Pakravan, é iraniana e traz consigo a cópia de um documento inédito, um velho manuscrito com um estranho título e um poema enigmático.
O inesperado encontro lança Tomás numa empolgante aventura, colocando-o na rota da crise nuclear com o Irão e da mais importante descoberta jamais efectuada por Albert Einstein, um achado que o conduz ao maior de todos os mistérios: a prova científica da existência de Deus.
Uma história de amor, uma intriga de traição, uma perseguição implacável, uma busca espiritual que nos leva à mais espantosa revelação mística de todos os tempos.
Baseada nas últimas e mais avançadas descobertas científicas nos campos da física, da cosmologia e da matemática, A Fórmula de Deus transporta-nos numa surpreendente viagem até às origens do tempo, à essência do universo e o sentido da vida.
in www.wook.pt

domingo, 9 de novembro de 2014

A Peregrinação do Rapaz sem Cor - Haruki Murakami


Comentário:
Este é, sem dúvida, o mais intimista dos livros de Murakami. Escrito em 2013 e tratando-se da sua mais recente obra, ficamos expectantes sobre a possibilidade de ele marcar uma certa viragem na linha que o escritor vinha seguindo. De facto, aqui vê-se menos o âmbito social, a dimensão crítica, a reflexão sobre o mundo exterior e, pelo contrário, entramos numa certa reflexão interior, num questionar da existência que pode marcar essa hipotética viragem.
Seja como for, não deixa de estar bem patente, também neste livro, o traço indelével da escrita deste génio japonês: o confronto entre o real e o imaginário, ou entre o concreto e o simbólico. Por várias vezes já afirmei que, na minha perspectiva, o encanto da sua escrita reside muito na forma como o autor nos enquadra o fantástico no mundo real; mas este "fantástico" nada tem a ver com a moda literária que inundou o mundo literário ocidental pós-Martin; tem a ver, isso sim,com aquele misticismo oriental que tanto  tem encantado o ocidente.
Nesta obra, a análise interior da alma humana incide sobre a vida de Tsukuru Tazaki, um homem marcado pela paixão pelos comboios. Na sua juventude gostava de ver passar os comboios, da mesma forma que, ao longo da sua existência foi vendo passar a vida. A obra está escrita em três tempos narrativos: na sua juventude, Tazaki teve quatro amigos inseparáveis; de forma misteriosa, eles separaram-se. Aos vinte e um anos, Tazaki viveu uma amizade intensa com Haida; de forma misteriosa eles separaram-se. Aos trinta e seis, conheceu Sara. Irá, também agora, limitar-se a "ver passar" Sara na sua vida?
Os comboios simbolizam o devir; o correr do tempo e a necessidade vital que o ser humano tem de o fazer parar; é por isso que, em adulto, Tazaki se torna engenheiro de estações de caminho de ferro: "se não houvesse estações, os comboios não paravam". É vital construir estações na vida.
Mas essas estações, essas paragens, não são mais do que momentos fugazes; é esse o drama maior; a paragem, em breve dá lugar à separação. Mais do que as uniões, são as separações que marcam a vida do nosso herói; separações misteriosas como são misteriosas todas as separações que povoam as nossas vidas. Como é misteriosa a nossa vida e insondável qualquer destino.
Todo este simbolismo é encantador na escrita de Murakami; na literatura, o simbolismo é algo de muito perigoso. Muitas vezes ele resulta numa escrita confusa, enigmática, porque o leitor comum não consegue desvendar as mensagens que o escritor quer transmitir mas que, sádico e vaidoso, esconde. Em Murakami,pelo contrário, o simbolismo é claro,transparente... real.
Tecnicamente, um dos aspetos mais encantadores e geniais da escrita de Murakami (aspeto esse que ele tem vindo a aprimorar ao longo da carreira) é a forma como a resolução de um mistério dá lugar a um novo mistério. Quando se explica algo que inquietava a mente do leitor, é a própria resposta que dá lugar a outra questão; e assim a leitura avança de forma imparável. É muito difícil parar de ler Murakami. E quando o livro termina ficamos sempre com aquela ansiedade pelo próximo que esperamos seja publicado o mais depressa possível.
Sem duvida, este é o escritor atual que, na minha opinião, mais tem feito por merecer um prémio Nobel.

Sinopse:
Nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Agora, com 36 anos feitos, é engenheiro de profissão e projeta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Lá está ele na estação central de Shinjuku, ao que dizem «a mais movimentada do mundo», incapaz de despregar os olhos daquele mar selvagem e turbulento «que nenhum profeta, por mais poderoso, seria capaz de dividir em dois». Leva uma existência pacífica, que talvez peque por ser demasiado solitária, para não dizer insípida, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome. A entrada em cena de Sara, com o vestido verde-hortelã e os seus olhos brilhantes de curiosidade, vem mudar muita coisa na vida de Tsukuru. Acima de tudo, traz a lume uma história trágica, que a memória teima em não esquecer. Os quatro amigos de liceu, donos de personalidades diferentes e nomes coloridos, cortaram relações com ele sem lhe dar qualquer explicação. Profundamente ferido nos seus sentimentos, Tsukuru perdeu o gosto pela vida e esteve a um passo da morte. A páginas tantas, lá conseguiu não perder a carruagem. Com "Os Anos de Peregrinação" de Liszt nos ouvidos, regressa à cidade que o viu nascer e atravessa meio mundo, viajando até à Finlândia, em busca da amizade perdida. E de respostas para as perguntas que andam às voltas na sua cabeça e lhe queimam a língua. Será que o rapaz sem cor vai ser capaz de seguir em frente? Arranjará finalmente coragem para declarar de vez o seu amor por Sara? Uma inesquecível viagem pelo universo fascinante deste escritor japonês que chega a milhões de leitores espalhados pelo mundo inteiro. Um romance marcadamente intimista sobre a amizade, o amor e a solidão dos que ainda não encontraram o seu lugar no mundo.
In www.fnac.pt

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Homem de Sampetersburgo - Ken Follett


Comentário:
Indo diretamente ao assunto: todos os grandes autores têm obras menores e esta (daquilo que conheço) é uma das obras menores de Ken Follett. Obviamente, isto tem uma explicação: é um livro de início de carreira, escrito em 1982. No entanto, aquilo que constitui obra menor para um génio como este, seria considerado um bom livro para um escritor menor. Perante livros monumentais como a Trilogia o Século e principalmente Os Pilares da Terra, este Homem de Sampetersburgo é um livro situado num patamar bem inferior mas não deixa de ter qualidade.
Antes de mais nada convém salientar a eterna paixão de Follett pela História. Mais do que um escritor de romances históricos, ele é exemplar na forma com não se limita a buscar na História um cenário para os seus enredos mas sim na reflexão sobre grandes temas do nosso passado. Neste caso, o enquadramento é fornecido por uma época riquíssima para qualquer escritor: o início do século XX com as suas imensas intrigas políticas que haveriam de conduzir a dois acontecimentos de charneira na história do nosso mundo: a Revolução Soviética e a Primeira Guerra Mundial que agora comemora o seu primeiro centenário.
Alguma ingenuidade típica de um escritor novato fica bem patente nas coincidências mirabolantes que encontramos no enredo, bem como parentescos que se revelam de forma incrível. Estes traços novelísticos vão emergindo em crescendo ao longo da obra, deixando a dimensão histórica e historiográfica para segundo plano, o que não deixa de decepcionar o leitor minimamente conhecedor da obra deste escritor genial. Da mesma forma se desiludem os leitores que procuravam neste romance aquilo que ele prometia à partida: um livro de espionagem e de intriga política; esses traços estão lá, mas vão-se esfumando, em favor da novela.
Mesmo assim não deixam de marcar já presença aqueles que se tornariam os traços mais marcantes da escrita de Follett: uma simbiose perfeita entre História e estória, entre realidade e ficção.
Outro traço muito positivo é a seriedade e a frontalidade com que o autor traça um quadro crítico e por vezes satírico em relação ao moralismo burguês tão em voga naquela época, a que se convencionou chamar Belle Epoque mas que haveria apenas de ser o prelúdio de uma das maiores tragédias humanas da história: a Primeira Guerra Mundial.

Sinopse
1914: a Alemanha prepara-se para a guerra e os aliados constroem as suas defesas. Ambos os lados precisam da Rússia. O Duque de Walden e Winston Churchill planeiam, em total segredo, uma aliança russa mas um homem infiltra-se em Inglaterra com a intenção de deixar a sua marca na História e deixar o país a seus pés…
in  www.wook.pt

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Último Adeus - Li Marta


Comentário:
Ora aqui está uma bela surpresa que o Clube de Leitura Bertrand de Braga me proporcionou: um livro despretensioso, numa escrita límpida e agradável, que se lê de forma apaixonada e intensa. E uma situação que já se repete, infelizmente, amiúde no panorama literário português: nenhum livro  é divulgado em conformidade com a qualidade que revela; todos sabemos que há desígnios insondáveis nas prioridades das editoras...
Li Marta escreveu um livro sobre a família; sobre os amores da mãe e da avó materna; uma bela história, sem dúvida. E esse tom autobiográfico reforça ainda mais o carácter intimista e, ao mesmo tempo, tremendamente verossímil da obra. Quem lê fica com a impressão clara que é com toda a lógica e com toda a naturalidade que as coisas tenham ocorrido assim. Por outras palavras; trata-se de uma história perfeitamente plausível sobre uma família pobre em plena ditadura de Salazar.
As descrições das épocas retratadas são fiéis à realidade histórica e o realismo da escrita deixo-nos bem clara a imagem do país real nos segundo e terceiro quartel do século, num bom testemunho histórico das condições de vida dos mais pobres nesse contexto: a ingénua religiosidade popular, os costumes, a humildade de quem nada tem e, por outro lado, o peso dos preconceitos, do julgamento da tantas vezes impiedosa e ilógica moral pública.
Apenas um reparo: por vezes a falta de experiência da autora leva-a a atribuir discursos algo elaborados para personagens humildes, com reduzida ou nenhuma escolaridade.
Na aba do livro, a autora confessa, com toda a simplicidade a sua admiração por escritores que não são propriamente génios literários: Danielle Steel, Nora Roberts e Nicholas Sparks. No entanto não foram esses escritores que eu "li" na escrita de Li Marta; o que aqui redescobri foi um novo Júlio Dinis, principalmente naquela simplicidade romântica, naquele bucolismo colorido e, acima de tudo, naquela bondade natural do ser humano. Na verdade, a autora, ao construir todos os personagens, revela uma belíssima crença na bondade natural do ser humano; mesmo na maior miséria, na fome a que o regime de Salazar condenou aquelas ingénuas e puras gentes, há sempre um raio de sol e de esperança. Esta beleza interior da maioria dos personagens, confesso, enterneceu-me e talvez este comentário não esteja a ser suficientemente comandado por uma avaliação "técnica" da obra mas pelos belos sentimentos e pelo prazer de ler que me ofereceu. Mas, ao fim e ao cabo, o que é que procuramos num livro senão a paz, a beleza e o prazer?
É que é isso mesmo que este livro nos oferece: uma paisagem humana cheia de paz, de beleza e um imenso prazer de ler.
À autora, se alguma vez este comentário ler, só posso deixar um sincero OBRIGADO pelos momentos de paz e prazer que a sua leitura me propiciou. Li Marta não é um génio literário; o livro não é uma obra-prima, mas está repleto de motivos para nos deixar bem convictos de que uma leitura como esta pode ser um bocadinho de felicidade.

Sinopse
Baseado numa história verídica, vivida entre os distritos de Viseu e Aveiro. Passamos por localidades como Tondela, Caramulo, Sernancelhe, Moimenta da Beira e Águeda. Três gerações de primogénitas vivem grandes histórias de amores inesquecíveis.
Dionora vive pobremente mas feliz com António. Até ao dia em que descobrem a doença fatal vivida nos anos cinquenta, a tuberculose. Com a morte do marido, Dionora deixa de ter forças para viver.
Luzita, a primogénita de Dionora, terá de lutar pelo primeiro amor da sua vida, um homem de classe ligeiramente superior à dela. Só que o destino salpicou-lhe a vida de negro.
Lídia, a primogénita de Luzita, vive também um grande amor. Mas fica nas suas mãos dar continuidade ao último adeus. Será que é capaz?
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