sábado, 28 de fevereiro de 2015

Charles Bukowski


Há embirrações incontornáveis. No que aos livros diz respeito, eu tenho pelo menos uma: Charles Bukowski. Dizem que é um dos nomes maiores da literatura dos EUA. Embora não seja grande adepto do país, admiro imenso os escritores norte-americanos: de Capote a Auster, de John dos Passos a Roth, de Kerouac a Mccarthy, etc. Todos eles são autores de grande dimensão artística mas também personalidades ímpares ao nível do humanismo, da sensibilidade na análise dos problemas sociais e extremamente críticos no que respeita aos assuntos políticos.
Mas não suporto o estilo descaradamente sexista, banal, alcoólico, ordinário e, para mais, histericamente hipocondríaco. Não sou propriamente um conservador e até julgo ter um espírito bastante aberto face a escritores polémicos, atrevidos e que rejeitam todos os cânones. Mas Bukowski resiste a todo esse meu liberalismo.
Raramente deixo um livro a meio e por isso, confesso, fiz um esforço desmedido para ler “Mulheres”, esse arrazoado de bestialidades que foi a vida de um escritor alcoólico, obsessivo e louco. Dizem que foi um grande crítico e talvez essa tenha sido a sua maior virtude. Mas todos os enormes escritores americanos que referi acima são ou foram enormes críticos sem nunca terem caído numa linguagem de sarjeta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Charles Dickens - Genialidade absoluta


Estou neste momento a ler Nicholas Nickleby e estou encantado. E dececionado por ter chegado a esta idade sem ler os grandes livros deste génio literário.
Talvez Charles Dickens tenha sido o maior contador de estórias de todos os tempos. Não me refiro, obviamente, a muitas estórias mas, certamente, a GRANDES estórias. Cada livro do grande mestre britânico é uma viagem encantadora a um mundo que já não sendo nosso, foi o meio encantado e desgraçado que nos precedeu: esse magnífico e medonho século XIX, cheio de esperanças e de fascínio mas também carregado de injustiças e medos.
Charles Dickens talvez tenha sido um comunista antes do comunismo: preocupado, acima de tudo, com as injustiças daquela época vitoriana, em que a exploração do homem pelo homem era uma regra implícita mas bem patente do universo vitoriano; um mundo cheio daquela perfídia que resulta da legitimidade na luta pelo sucesso material; a isso se chamou, com muito descaramento, moral burguesa. 
É por isso que as personagens de Dickens são tão encantadoramente maniqueístas: há uma linha clara que separa os bons, os honestos que são vítimas, daqueles que representam as forças do mal e que mais não são que os frutos desse meio burguês materialista e capitalista. E é por isso que é impossível a qualquer leitor esquecer personagens fantásticas, magníficas enquanto seres humanos como são Nicholas Nickleby, David Copperfield, mas também geniais personagens secundários, autenticas obras de arte na criação o romancista, como são Wilkins Micawber ou Newman Noggs. Mas, muitas vezes, é no horrível que encontramos a mais belas obras de arte e personagens pérfidas como Uriah Heep ou Wackford Squeers não deixam de ser criações únicas e geniais.
imagem de http://www.notable-quotes.com/

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

António Lobo Antunes - Um desastre - E daí?


Parece que o último romance, o 25º, de António Lobo Antunes está a ser um desastre de vendas.
Talvez esteja enganado mas atrevo-me a palpitar que o nosso velho guru está-se marimbando para isso. Alguns críticos andam certamente mais preocupados que ele; afinal são euros que não se ganham, são oportunidades que se perdem.
Acredito que para Lobo Antunes o sucesso já não está nas vendas; a imagem mental que tenho dele é a de um gato velho. Os gatos são, por definição, animais com uma personalidade muito forte; senhores do seu nariz; convencidos do seu poder embora ao mesmo tempo mimados. Assim é Lobo Antunes. A vida que trilhou, tão rica e tão cheia de obstáculos, está muito acima de qualquer sucesso ou insucesso editorial.
Seja como for, depois de ter ficado a saber que Caminho Como Uma Casa em Chamas só vendeu 1600 livros na FNAC fiquei ainda com mais vontade de ler o livro. E talvez esteja aqui o mote para um lema que o pessoal do marketing da editora D. Quixote poderia explorar: Não Perca o Único Livro de Lobo Antunes Que Foi Um Verdadeiro Desastre. Já que o próprio ALA não se promove e tanto despreza a sua imagem…
Para lá de tudo isto, está Lobo Antunes, que após a morte de Saramago se tornou, sem dúvida, o mais conceituado escritor português vivo.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Cristais de Natal - José Fernandes da Silva

Comentário:
Antes mais nada, o título. Cristais de Natal. Poucas vezes um livro terá tido um título tão feliz. Os cristais são belos e simples. Como belos e simples são os contos que José Fernandes da Silva escreveu para este livro.
E o Natal. A consoada e o dia de Nascimento, como são conhecidos no Minho os dois dias mais importantes da quadra. O Natal, logo no primeiro conto (Consoada Feliz) é-nos apresentado como um suave milagre, para usar a tão feliz expressão de Eça de Queirós. Um milagre singelo e suave, um tempo de felicidade discreta, tão simples como os cristais feitos de geada.
Nesse conto, o Rogério viera de fora. Era um migrante, como tantos que por aí encontramos hoje em dia, talvez à procura de um qualquer Natal. Mas alguém seria enviado pelo Espírito do Natal para oferecer ao Rogério uma réstia de luz, tão simples, tão singela, mas suficiente para fazer nascer um sorriso cristalino.
Por mais que o poeta proclame, o Natal nem sempre é quando um homem quiser. Porque como diz o autor, “uma grande parte das vezes, o homem não quer nem se esforça por querer”. É por isso que o 25 de Dezembro é e será sempre um dia único.
Uma das principais qualidades deste livro é a enorme variedade de abordagens do espírito natalício, fruto da fértil criatividade artística do autor. Por exemplo, no conto “Presente de Natal, a dádiva é da mãe natureza, sob a forma do azevinho, que é dádiva sagrada; no conto “Prenda de Natal” encontramos uma bela alusão a um momento histórico fulcral. É que houve um ano em que o Natal foi em Abril; porque é quando um homem quiser e nesse ano os homens quiseram, finalmente, acabar com a ditadura. Foi o ano em que o Natal se escreveu com as letras da palavra Liberdade.
São pobres aqueles sobre quem José Fernandes da Silva escreve; mas não são os pobres miserabilistas ou acomodados, à espera do subsídio, nem muito menos os pobres conformados com os velhos e tacanhos valores ultraconservadores da “pobreza honrada”. É, isso sim, a pobreza de um povo que luta, de um povo que, com suor e fé, sonha que um dia “a riqueza, fraterna, abrace a pobreza” (página 29). Ou seja, um povo que clama e luta por um mundo mais justo e fraterno.
É claro que os valores cristãos estão sempre presentes neste quadro social e mental. Mas não se esgotam em si mesmos. São valores ativos; constituem um quadro moral que não se pode separar das condições materiais de existência.
No entanto, nem mesmo o Natal é eterno; pelo menos algumas das tradições que envolve estão ameaçadas; é o caso do presépio tradicional ou dos jogos de pinhões. Este livro pode também ser entendido como um repositório dessas tradições e, acima de tudo, desse espírito que todos queremos manter. Ou melhor, cristalizar.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Humberto Delgado, Sem Medo


Um intervalo nos livros para lembrar os 50 anos que hoje se completam sobre a morte de uma das personagens mais importantes da História de Portugal.
O General Sem Medo, Humberto Delgado disse um dia que se ganhasse as eleições, obviamente, demitia Salazar. Pagou a ousadia com a própria vida mas escreveu assim a primeira página do caminho do país para a Liberdade.
Candidato às eleições para Presidente da República, perdeu para Américo Tomás num ato eleitoral marcado, mais uma vez pela fraude generalizada. Mas a vingança do decrépito ditador nem por isso se fez esperar e Delgado foi cruelmente assassinado pela PIDE.
Ficou a memória do herói e a vergonha de um ditador idiota, morto no tempo e agarrado ao poder, mesmo à custa do sacrifício de todo um povo. 
No entanto, a História acaba sempre por ser a última justiceira e para sempre ficará a imagem de um General que foi herói e mártir, face a um ditador dominado pelo ódio e pelos fantasmas que o atormentavam…

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Marco Aurélio - Frank McLynn


Comentário:
Penso que só uma vez abri uma exceção neste blogue para publicar um comentário de um livro de não ficção; a distinta honra foi para o enorme Carl Sagan. Hoje abro a segunda exceção para publicar a minha opinião sobre esta excecional, enorme em todos os sentidos, biografia do imperador Marco Aurélio.
Um grande escritor, sinceramente não recordo quem, disse um dia qualquer coisa como isto: prefiro a ficção porque normalmente fala verdade. Pois bem, esta biografia não é ficção e fala verdade. Em grande parte porque o autor manifesta uma enorme habilidade literária, que lhe permite contar toda a história de Marco Aurélio mantendo na narrativa aquilo que a ficção tem de melhor: o despertar do interesse do litor; a emoção, a beleza de um enredo. Ou seja, estamos perante um livro de história que se lê como se de um romance se tratasse.
Em primeiro lugar, um dos maiores méritos desta obra: uma biografia nunca pode restringir-se à vida e obra do personagem histórico aboradado. Na melhor tradição da historiografia britânica atual, Mclynn enquadra a vida de Marco Aurélio no contexto histórico, destacando os fenómenos mais significativos da época, recorrendo aos quadros politico, económico, social, religioso, mental, etc. Daí emana uma verdadeira aguarela de onde vemos surgir realidades por vezes surpreendentes, chocantes mesmo para o leitor do século XXI.
O Império Romano constituiu uma das realidades mais fascinantes de todos os tempos; o poder dos imperadores, a ofuscante riqueza que transitava nas estradas romanas, o espetáculo impressionante do Circo e do Coliseu, a devassidão algo escandalosa que é atribuída àquele povo são apenas alguns dos pormenores desse encanto. Mas poucos saberão de outras realidades que este livro muito bem destaca e que nos mostram “outro” império romano. Por exemplo, um  povo em que a esperança de vida não ultrapassava os 30 anos! Um povo onde as desigualdades sociais eram tais que era vulgar morrer de fome. Um povo onde  as condições de saúde eram tão precárias que qualquer doença se tornava mortal.  
No meio de tudo isto, emergiam os grandes personagens. Marco Aurélio foi um dos maiores. O imperador conquistador da Germânia e da Pártia (antiga Pérsia) foi também o imperador Filósofo. Escreveu uma das mais importantes obras literárias da Antiguidades (Meditações, uma obra em formato de aforismos) e foi um dos mais lídimos representantes da corrente estoica. 
A adesão de algumas elites romanas e mesmo imperadores ao estoicismo não deixa de ser curiosa, tendo em conta o contraste daquela filosofia (que proclama a virtude do sofrimento) face ao reconhecido (e talvez exageradamente propalado) hedonismo romano. Mas talvez o estoicismo fosse o “contrapeso” para tal culto do prazer…
Marco Aurélio foi, acima de tudo, um político sóbrio, sério, honesto. Muito no inverso do que hoje se usa… Totalmente desprovido de senso de humor incapaz de rir, tinha no entanto um impressionante sentido de justiça que não o impediu, no entanto, de ser um dos maiores perseguidores dos cristãos. 
No entanto, é necessário enquadrar devidamente esse fenómeno: as perseguições parecem refletir motivações políticas (o facto de os cristãos não aceitarem o culto do Imperador), religiosas (a negação do politeísmo),culturais (o desenquadramento do cristianismo face à realidade cultural romana, uma sociedade essencialmente urbana e comercial, face a uma religião que valorizava a pobreza) mas também cientificas, como muito bem destacava o famosos médico Galeno, que acusava os cristãos de acreditarem em princípios ingénuos, quase infantis, como a criação a partir do nada. A aceitação destes dogmas seria, segundo Galeno, um obstáculo ao conhecimento científico. O certo é que, para além destes motivos, as perseguições tendiam a aumentar à medida que crescia a insegurança e a crise no império.
Na verdade, Marco Aurélio governou numa época em que os sinais de decadência se tornavam cada vez mais óbvios (170-180 d.C.). As crises, quer económicas provocadas pelo fim das conquistas, quer demográficas provocadas por enormes mortandades, tendiam a indicar os cristãos como uma seita maléfica, culpada de todas as desgraças.
E não foram poucas essas desgraças no tempo de Marco Aurélio. Por exemplo, uma imensa crise demográfica terá sido causada por Pestes (designação de todas as doenças mortais mal identificadas) que hoje sabemos ter consistido numa imensa epidemia de malária e uma outra de varíola, a chamada Peste Antonina por ter surgido no tempo de Antonino Pio, antecessor de Marco Aurélio.
Todo o quadro económico-social do tempo de Marco Aurélio era também dramático: a agricultura estava totalmente dependente da escravatura, sabendo-se que tal realidade era impeditiva de um verdadeiro crescimento. Entre os romanos só algumas vozes mais ilustres, como Plínio o Velho, estavam conscientes desse terrível malefício da escravatura. Mesmo assim, os escravos esgotavam-se à medida que as conquistas diminuíam e os imperadores romanos iam, desesperadamente, tentando camuflar estas crises, tentando inventar estratégias que permitissem a Roma manter a todo o custo o seu espetacular estatuto de cidade imperial.
Em suma, estamos perante um livro que nos oferece um verdadeiro passeio pelas virtudes, riquezas, misérias e pecados desse universo fantástico que é a Roma Antiga. Fascinante. 

Sinopse(in wook.pt):
Marco Aurélio, o último dos "cinco bons imperadores" de Roma, é a única grande figura da Antiguidade que ainda nos toca, quase dois mil anos após a sua morte. Podemos entusiasmar-nos com os feitos de Alexandre o Grande, de Aníbal ou de Júlio César, mas a única voz do mundo greco-romano que ainda parece assumir relevância na nossa contemporaneidade é a do homem que dirigiu o Império Romano entre 161 e 180 d. C.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Fernando Namora


Completam-se hoje 26 anos sobre a morte de Fernando Namora e ainda me custa entender como é que este nome vai passando para segundo plano na literatura portuguesa, cada vez mais esquecido.
Pessoalmente, cresci lendo os livros de Namora. Foi um dos meus primeiros ídolos literários.
Médico de profissão, foi um dos mais bem sucedidos escritores portugueses das décadas de 50, 60, 70 e 80. Nesse período publicou obras de grande sucesso como Domingo à Tarde, O Trigo e o Joio, A Noite e a Madrugada e, acima de tudo, Retalhos da Vida de Um Médico, que ficou para a posteridade através da adaptação televisiva, numa série mas também num filme de 1962 que esteve no Festival de Berlim.
A sua formação de base como escritor pode enquadrar-se no rico e fértil meio neorrealista, onde pontificavam nomes como Carlos de Oliveira, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, etc. Mas depressa Namora foi complementando essa tendência natural com uma escrita cada vez mais pessoal, poética e psicológica.  A sua vivência como médico deu-lhe também uma enorme sensibilidade humana e consciência dos problemas sociais, nomeadamente da vida rural, naqueles tempos atribulados da ditadura fascista.
Vinte e seis anos depois penso que seria a altura de, finalmente, as editoras pensarem numa reedição das suas obras.
Aqui fica um episódio da referida série televisiva, de 1980 (primeiro ano da TV a cores em Portugal) com musica de Ary dos Santos e com a presença de grandes nomes do cinema e da televisão em Portugal.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Galveias - José Luís Peixoto


Comentário:
Sem dúvida um dos melhores romances deste José Luís Peixoto que é um dos melhores escritores portugueses do século XXI. E tal como já escrevi algures, Peixoto vai-se destacando não só pela inegável criatividade e qualidade da escrita como também por uma incrível versatilidade. Se nos fixarmos nos seus melhores livros vamos encontrar obras substancialmente diferentes entre si. Há, evidentemente alguns pontos de contacto, que são as "imagens de marca" do escritor (uma certa nostalgia acinzentada, um tom de escuridão no destino das personagens e uma visão um pouco sombria do mundo) mas há também uma criatividade que nos surpreende em cada livro.
O fator surpresa desta obra encontra-se na ambiência rural, fixada em Galveias, a vila onde nasceu e cresceu o autor, aqui recriada nos anos oitenta do século XX, ou seja, na infância do escritor (a ação decorre em 1984 e Peixoto nasceu em 1974).
A escrita de José Luís Peixoto é fria, cruel, às vezes agreste. Em determinados episódios da narrativa as palavras doem, ferem propositadamente a sensibilidade do leitor, tal é a leitura cruel das desgraças humanas. Porque ruralidade não é só bucolismo, moral e bons costumes; ruralidade também é o pecado sob as suas mais diversas formas: violência doméstica, abuso de menores,maus tratos, alcoolismo, etc.
Mesmo assim, não deixa de ser curioso o sentido de humor, um humor baseado nas incongruências do mundo rural.
Em termos de estrutura, o livro lê-se como um jogo: cada capítulo apresenta-nos uma ação aparentemente desligada das anteriores e, lentamente, o leitor vai encontrando os fios de ligação com os episódios anteriores, formando uma trama que é um cosmos único e fechado: Galveias.
Em termos de enredo, tudo começa com o impacto de um meteorito em Galveias, criando uma cratera e deixando um terrível cheiro a enxofre.É nítido o simbolismo deste acontecimento e, ao mesmo tempo, o seu sentido poético: é o universo que envia uma mensagem a Galveias; o meteorito é o traço de união entre a aldeia e todo o universo. 
Este simbolismo está um pouco por todo o lado ao longo do livro. Por exemplo, o ataque à professora que tenta alfabetizar a população simboliza a recusa do saber, no contexto de uma ruralidade conservadora, aversa a fatores externos, como a educação escolar. No entanto,a razão emerge por outras vias e o episódio termina de forma brilhante, com um belíssimo e artístico desfecho.
Ainda e sempre, as memórias e pesadelos da guerra colonial que ajudou a desgraçar este povo. No entanto, até a mais cruel das injustiças é capaz de espalhar sementes de esperança. Assim foi com Joaquim Janeiro que deixou raízes em África, para lá da guerra.
No coração da ruralidade ficam os animais. Em Galveias, os cães, mesmo vadios, são personagens fundamentais; neles se expressa toda a sensibilidade, todo o humanismo de quem vive em comunhão com a natureza e por isso vive e respira os mesmos dramas e o mesmo sofrimento dos animais. 
Em Galveias são as prostitutas que fazem o pão - duas formas complementares de alimentar a comunidade.
Alguns episódios parecem estranhamente desligados do contexto. Por exemplo, quando a  jovem Raquel perde o colar da bisavó numa discoteca de Lisboa. Mas depressa se compreende a dimensão simbólica - aquele colar é Galveias; é o velho mundo, perdido entre o mundo estridente da cidade.
À medida que nos aproximamos do final, adensa-se o dramatismo. O leitor adivinha destinos trágicos mas não pode alterar a trajetória das personagens que parecem caminhar para a desgraça. Porque a vida é mesmo assim: por vezes caminhamos cegamente para a desgraça. O cheiro a enxofre, odor do inferno, é prenúncio de um qualquer Apocalipse. Desde o dia do meteorito, nove meses antes,não chovia e o cheiro a enxofre era cada vez mais forte. No entanto, no final, a esperança triunfará. porque como escreve Neruda, a primavera é inexorável.

Sinopse (in www.wook.pt):
Galveias está entre os grandes romances alguma vez escritos sobre a ruralidade portuguesa.
O universo toca uma pequena vila com um mistério imenso. Esse é o ponto de acesso ao elenco de personagens que compõe este romance e que, capítulo a capítulo, ergue um mundo.
Como uma condensação de portugalidade, Galveias é um retrato de vida, imagem despudorada de uma realidade que atravessa o país e que, em grande medida, contribui para traçar-lhe a sua identidade mais profunda.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Fronteiras Perdidas - José Eduardo Agualusa


Comentário:
Neste blogue já muito se falou da literatura africana de língua portuguesa. Mia Couto, Onjaki, Pepetela, Agualusa, etc. não são apenas bons escritores. São génios. Nesta obra deparamos com uma seleção de pequenas narrativas, contos breves, escritos numa linguagem simples mas cuidada, ornamentada e perfumada pela presença constante da terra africana, das suas sombras e mistérios. E, acima de tudo, a alma africana, expressa nos homens mas também construídas pela natureza selvagem, feita de plantas, animais, terra, paisagem...
Sobre estes alicerces constitui-se um palco por onde desfilam as mais diversas personagens, todas estranhas, todas humanas.Alguns exemplos:
Tudo começa num hotel abandonado, fantasmagórico, tal e qual a nação angolana deprimida pelas guerras...
Um pintor revolucionário, deprimido, desiludido - "o socialismo é o caminho mais longo entre o capitalismo e o capitalismo" - Angola já não é o que era; já não é colonial; já não é revolucionária. Morreu o colonialismo mas morreu também a esperança...
Plácido Domingo é nome de traidor; um traidor fascista que foge aos homens refugiando-se na natureza.
Severino, jovem terrorista de Piuixe (vila de Pio IX) queria desviar o elevador de um prédio a fim de fugir para Cuba, à procura do socialismo...
Raquel, na verdade, chamava-se Fronteiras Perdidas porque em África um nome marca um destino. E Raquel umas vezes era branca, outras vezes mulata, desfazendo fronteiras. Como África que já não é branca nem preta.
Um assassino antropófago enlouquecido pela guerra: "Este país já não é  nosso". Este é o ponto fulcral do livro, tocando um tema transversal a toda a obra de Agualusa: a perda de referências de um povo e de uma nação. Ou de como o desenraizamento leva à desumanização.
A escrita de Agualusa é profundamente poética e triste; melancólica. Há nela a beleza de  paisagens sombrias, personagens quase autómatos, quase mortos-vivos, condenados a um mundo desumanizado.

Sinopse (in www.wook.pt)
Um morto da guerra descansa numa caneca de leite, a meio da noite, em Luanda. Está um passageiro transformado em serpente no lavabo do avião. Um elevador, no Recife, foi desviado para Cuba por alturas do quarto andar. 0 sonho, o delírio, a vergonha, a fé, a pele, a memória, o feitiço, o nome -o ódio e a entrega - são territórios de exílio, e nessa condição, lugares de morança. Misturam-se com uma fluidez voraz: são «Fronteiras Perdidas», linhas de vida de outra maneira, um catálogo de paisagens oníricas. Histórias que não são visíveis mas são visitáveis. Este livro é um caminho para elas e encerra pequenas sabedorias. Por exemplo, a maior: não existem sítios, apenas posições. «Não há mais lugar de origem», diz um dos percursos. Ou então: um hotel em que alguém afirma que dormiu e que está abandonado há anos. E Placido Domingo contempla o rio, em Corumbá.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Lendo Galveias - De volta à Ruralidade


A versatilidade parece ser uma das palavras-chave da escrita de José Luís Peixoto. Galveias (cuja leitura levo a meio) não se parece com nenhum dos seus livros anteriores. É, na minha perspetiva, uma agradável surpresa, por se tratar de uma incursão por um género que Peixoto ainda não explorara e que constitui um domínio tradicional da literatura portuguesa: o romance rural.
Na verdade, a ruralidade foi sempre um traço distintivo de alguns dos nossos melhores escritores. Logo no século XIX, Júlio Dinis presenteou-nos com pérolas deliciosas do romantismo como A Morgadinha dos Canaviais ou esse belo livro As Pupilas do Senhor Reitor. O grande Camilo, por oposição ao urbano Eça deixou-nos páginas brilhantes de ruralidade em obras geniais como as Novelas do Minho, Eusébio Macário ou A Brasileira de Prazins.
Já no século XX, é o neorrealismo, impulsionado pela necessidade de uma perspetiva critica face à ditadura, que assume a voz do povo rural, empobrecido pelo Estado Novo. É neste contexto que se afirmam nomes grandes como Alves Redol, Ferreira de Castro, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, etc. Numa perspetiva um pouco menos crítica, um escritor algo injustiçado pela crítica: Fernando Namora. E um escritor enorme da literatura portuguesa: Miguel Torga, esse poeta brilhante que fez poesia das fragas de Trás os Montes, do suor e do sangue do povo a que ele orgulhosamente quis sempre pertencer.
Agora, em pleno século XXI, é Miguel Torga que eu leio em José Luís Peixoto; um Miguel Torga modernizado, com motorizadas Famel e muito sentido de humor mas o mesmo povo sofredor e, acima de tudo, muito português.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os Cachorros Os Chefes - Mario Vargas Llosa

Comentário:
Nascido no Perú em 1936 e prémio Nobel da Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa configurava uma das grandes lacunas deste blogue. De facto, este foi o primeiro livro que li de Llosa. Não sou, como já disse várias vezes, apreciador da narrativa curta mas este livro é um dos melhores exemplares do género que li até hoje.
Na verdade, a escrita terrivelmente económica de Llosa dá espaço para um estilo cheio de simbolismo em que nada é deixado ao acaso. Os dois contos que dão título à obra encerram um simbolismo que, no entanto, não dão à escrita um carater hermético como tantas vezes acontece em obras do género. Tudo é claro e transparente. Senão vejamos:
No primeiro conto, Os Cachorros, narra-se a história de uma criança, depois adolescente e adulto, cuja vida fica marcada pelas regras rígidas de uma escola interna onde o convívio com colegas e professores é por vezes bastante duro. A essa violência do dia a dia junta-se um episódio dramático em que o nosso herói é mordido por um cão na zona genital. Obviamente, ele ficará marcado para o resto da vida e o seu destino ficará determinado por este acontecimento. No entanto, a castração de que foi vítima simboliza claramente muito mais do que o episódio do cão; representa todo o contexto social e educacional, todo ele castrador de que foi vítima. Assim, os Cachorros, assim mesmo nomeados no plural, só poderão ser entendidos como os seres humanos que rodearam o pobre e infeliz Cuellar. Nem ele nem ninguém pode viver sem os outros e estes são muitas vezes o inferno de Sartre…
Este conto, escrito em 1967, é sem dúvida o mais interessante deste volume. A segunda narrativa (Os Chefes) corresponde ao primeiro texto de ficção que Llosa escreveu, em 1959 e, nas suas palavras, constitui uma espécie de microcosmos de toda a sua obra posterior. O que aí encontramos de significativo e que talvez justifique essa opinião é a análise da violência, particularmente entre jovens, como expressão de um mundo extremamente competitivo, marcado sempre pelos impulsos mais primários do ser humano, que se sobrepõem a uma educação ineficaz. Tal abordagem constitui, certamente, um importante traço autobiográfico pois a personalidade do autor ficou marcada de forma indelével por uma educação muito austera, tendo frequentado um colégio militar.

Os restantes contos desta edição, mais narrativos e de fácil leitura, são interessantes mas não têm a mesma mestria de Os Cachorros, que se destaca claramente. Quanto à temática, o denominador comum a todas estas narrativas é a violência e as constrições sociais que afetam o comportamento humano.

Sinopse: (in www.wook.pt)
Os Chefes (1959) foi a primeira obra publicada de Mario Vargas Llosa, e com ela obteve o seu primeiro reconhecimento literário, o Prémio Leopoldo Alas.
Segundo o autor, «Os Chefes é um pequeno microcosmo do que viriam a ser o resto dos meus livros.» Quando escreveu Os Cachorros (1967) o escritor peruano já era mestre de todas as faculdades da sua narrativa, pelo que este livro acaba por ser uma mostra da diversidade das paixões pessoais e colectivas.
Como afirma Mario Vargas Llosa: «De todas as obras que escrevi, esta é a que tem as interpretações mais diversas.» A partir dos adolescentes protagonistas dos dois textos, o autor reflecte sobre a tirania e a violência que marcam uma sociedade e frustram as expectativas dos seus habitantes.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Segunda Vinda de Cristo à Terra - João Cerqueira


Comentário:
Chega hoje, 21 de Janeiro, às livraras este interessante e inovador livro de João Cerqueira.
A segunda vinda de Cristo à terra teria mesmo de ser diferente; logo de início, os cardeais convenceram Jesus Cristo a esquecer aquela história da pobreza, da justiça social e da igualdade, não fossemos nós cair no pior dos cismas, o Cisma do Património.
Portanto, esta segunda vinda à terra teria de ser mais discreta; nada de sermões para grandes audiências, nada de milagres mediáticos ou de pauladas brutas sobre os vendilhões do templo. 
Logo de início se vê que o livro de João Cerqueira será sustentado por dois grandes pilares, o humor e a sátira, pilares esses que se sustentam sobre um alicerce bem seguro: um enredo atrativo e temáticas polémicas mas atuais.
Em comparação com o seu livro anterior, A Tragédia de Fidel Castro, este apresenta-se de uma forma muito mais acessível ao grande público, com raciocínios bem mais simples e claros. A crítica, mordaz, faz lembrar a grande tradição do teatro vicentino e, em termos de ideias, algo nos faz recordar José Saramago.
Esta tremenda dimensão crítica fica logo bem clara na primeira aventura de Cristo na terra, quando, atraído pela beleza de Madalena, se junta a um grupo de ativistas ecológicos, novos apóstolos na luta contra o mal do capitalismo. No entanto, logo se prova que estes bravos ideais podem ser derrotados… pelos fueiros de um lavrador e sua esposa de pelo na venta.
Mas Jesus teria de ter paciência; não seria fácil trazer tantas almas transviadas ao bom caminho. Na sua primeira visita tinha lutado até à morte contra as injustiças e elas só tinham aumentado daí para diante. Talvez por isso, abalado psicologicamente pelo desastre anterior, volta à terra de cigarro ao canto da boca, em estilo “bon vivant” paz e amor. No entanto, o choque com a realidade foi tão duro que até o Padre Justino chegou à conclusão que Cristo precisava de formação moral e religiosa católica.
O Padre Justino é o símbolo da ignorância cimentada pelo preconceito. Mas é talvez por isso que a sua voz é muito mais aceite pelo povo do que a voz de qualquer Cristo ou de qualquer ativista ecológico. Por outro lado, os extremos tocam-se e os ativistas ecológicos padecem do mesmo radicalismo simplista e preconceituoso. Todos eles – cristãos à moda antiga e ativistas da ecologia - são acéfalos; as suas ”verdades universais” são ridículas; o Bem que eles defendem não passa de um cliché desfasado da realidade.
Um dos maiores méritos deste livro é ter feito do humor uma forma de expressão do absurdo real: de como revolucionários e ultra-conservadores convergem para o mesmo grau extremo de cegueira – o desprezo pela razão. E o humor, direto, incisivo, mordaz, incide precisamente sobre essa cegueira. 
A mesma ignorância é depois transposta para o plano político; o Portugal rural é invadido pelos novos analfabetos, patos-bravos do sistema, abutres das crises em que o país é campeão. São os espertos-saloios, mestres na arte de enrolar o incauto, que tanto pode ser o Estado, como a Câmara, como qualquer “saloio”.
E assim a prosa de João Cerqueira vai-se encaminhando para a sátira política, que mais não é que o retrato risonho e risível deste Portugal profundo dominado pelo xico-espertismo corrupto.
Na parte final do livro, o leitor dá conta que a pergunta fundamental continua sem resposta: afinal, o que veio Cristo fazer à terra nesta segunda visita? E, afinal, ele nada fez perante este miserável estado de coisas? O certo é que o próprio Jesus Cristo parece perdido entre estes cromos portugueses: os empreiteiros aldrabões, os autarcas corruptos, as autoridades saudosas de Salazar, etc.
Até que Jesus, finalmente, consegue fazer algo em prol da paz. Consegue acabar com a violência entre dois cães desavindos… e mais tarde falaria ao coração dos homens; apelaria à sensatez e proclamaria a paz. Mas apenas um cão vadio o ouviu…

Sinopse (in www.wook.pt):
Recorrendo ao humor, à ironia e ao sarcasmo, João Cerqueira apresenta um estilo único cuja qualidade lhe valeu a conquista de três prémios de literatura nos Estados Unidos e a tradução para inglês, italiano e espanhol."A Segunda Vinda de Cristo à Terra" aborda fenómenos de conflitualidade social e política que ocorrem no nosso país. De forma crua e inteligente, o autor conduz o leitor por uma história fascinante onde… no fim... é Portugal que acaba na cruz.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Impressões: Manual de como salvar o Mundo


Há muito tempo que o mundo não assistia a tão dramáticos e sangrentos conflitos relacionados com religião. 
Os chocantes acontecimentos terroristas em França; a catástrofe que se vai desenrolando na Nigéria; a tragédia continuada que se desenrola na Palestina; a desumanidade do Estado Islâmico, levam-me apensar que o nosso mundo está pejado de insanidade. 
As religiões, por definição, defendem o Bem, a paz e a harmonia. No entanto, nunca se matou tanta gente por outro motivo, como se mata pela religião. Desde a Idade Média que assistimos a este drama: muitos seres humanos já não se limitam, a dizer: “o meu Deus é melhor que o teu” e passaram a dizer: temos de exterminar a tua religião.
Quantos milhões morreram nas Cruzadas? Quantos milhões foram mortos ou torturados pela Inquisição? E quantos milhões estão hoje a ser vítimas do radicalismo islâmico?
Perante isto, o meu apreço pelas religiões praticamente reduz-se ao Budismo: a única grande religião que defende e pratica a tolerância.

E se a religião já não pode salvar o mundo, a pergunta que se coloca é: quem o poderá fazer?
E a minha resposta é: A ARTE!
A arte é a beleza; é o lado belo da humanidade.
E a literatura é arte por excelência.
Quantos escritores se notabilizaram por defender ideias totalitárias e violentas? Assim de memória, lembro-me de Celine numa determinada fase; talvez mais dois ou três estalinistas… tristes exceções que só confirmam a regra!
Mas a esmagadora maioria dos artistas são humanistas, defensores da vida humana, da paz e da harmonia entre os povos!
É por isso que, cada vez mais, ler é o melhor remédio!

Ilustração de Jarbas in blogs.diariodepernambuco.com.br

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

David Copperfield - Charles Dickens


Comentário:
Esta é uma das primeiras grandes obras literárias que denuncia a hipocrisia e a rigidez absurda da moral vitoriana (período histórico que acompanha o reinado da Rainha Vitória, de 1837 a 1901). Este livro, publicado pela primeira vez em 1850, é um testemunho forte da rigidez por vezes brutal de uma educação que encara a criança como um ser naturalmente malévolo, que é preciso civilizar, da mesma forma que, por essa época, os exércitos ingleses impunham a força das suas armas sobre o enorme império britânico. 
Esta época de forte industrialização serve de pano de fundo a uma sociedade que alimenta, cada vez mais, o orgulho britânico, tornando-o inquestionável e seguro de uma vanguarda civilizacional que deveria impor-se a todo o custo, tanto a nível externo como interno; assim se explica a emergência de uma sociedade eivada de injustiças e fortes contrastes sociais. É este o pano de fundo para o surgimento de diversas correntes revolucionárias, das quais o socialismo é o mais lídimo representante. E Dickens foi, indubitavelmente um percursor do pensamento revolucionário da segunda metade do século.
Um dos pontos fortes da arte literária de Dickens é a força das suas personagens; pela positiva ou pela negativa, a maioria delas têm uma personalidade bem definida, como se fossem modelos nos quais podemos encaixar qualquer ser humano. Desta variedade tão rica podemos destacar um personagem fascinante: Uriah Heep, o malévolo sócio de Mr. Wickfield. Trata-se daquele oportunista “lambe-botas” que tão bem conhecemos da vida real, sempre pronto a curvar a coluna vertebral para, hipocritamente, daí tirar o maior proveito. Até o retrato físico do personagem é eficaz, levando o leitor a imaginá-lo como uma autêntica ratazana.
Por oposição, merecem destaque três personagens muito poderosos que se afirmam pela bondade e pelas qualidades humanas: Mr. Dick, Wilkins Micawber e, na parte final do livro, o extraordinário amigo de David, Traddles; os três são algo alienados, ambos com aparência algo idiota. São três corações puros e três homens honestos vítimas da sociedade. 
Por outro lado, o meio em que David se move quando inicia a sua vida profissional é marcado por esse individualismo burguês que serve de base social à dinâmica capitalista liberal, assente sobre o princípio geral da concorrência. E o capitalismo, como sabemos, levou-nos dessa concorrência ao desprezo pela ética e pelo humanismo num abrir e fechar de olhos.
Mesmo assim prevalece ao longo de todo o livro a preocupação de manter o dedo acusatório em riste, sobre uma sociedade injusta e desigual, mais uma vez ilustrada pelo esforço feito pela personagem Mowcher para ser vista como um ser humano normal, mau grado a baixa estatura que a tornava alvo de desprezo. 
Esse dedo acusatório eleva-se de forma eloquente quando Dickens aborda as reações da ”sociedade” à perda da fortuna por parte de David. Na verdade, a necessidade de trabalhar é vista como uma desonra e a eminencia da pobreza é encarada como um fantasma tenebroso. A própria Dora não consegue colocar o amor por David acima desse fantasma que a assombra: a possibilidade de não ter todos os dias uma costeleta de carneiro para dar ao cão.
Aos pobres, a sociedade vitoriana exige, acima de tudo, humildade na aceitação da inferioridade social. No entanto, é forçoso distinguir a humildade honesta, fruto da consciência do seu papel secundário, do Sr.Pegotty da humildade falsa, calculista, do abominável Uriah Heep, esse personagem infelizmente tão atual cujos grandes méritos são a arte do fingimento e uma ambição capaz de o levar às maiores desonestidades e traições. Ontem como hoje.   
Dora é o testemunho implacável da ”cegueira” do amor de David; ela tem uma personalidade pueril, mimada e ideias totalmente ocas. No entanto, na mente apaixonada de David todos esses defeitos são vistos como qualidades.
Também na parte final do livro, emerge a importância vital da emigração para as colónias como meio de fuga às desigualdades e injustiças sociais. Países atualmente tão poderosos como EUA ou Austrália foram, naquela época, o refúgio para muitos pobres, perseguidos, enjeitados e deserdados da injusta sociedade de Sua Majestade Britânica.
O único aspeto menos positivo que podemos apontar a esta obra é a excessiva importância que Dickens dá aos pormenores. Tal preocupação faz com que o livro se torne demasiado extenso (esta edição tem 720 páginas) mas sem nunca deixar de ser uma leitura agradável, tal é a capacidade narrativa do autor.

Sinopse in www.wook.pt:

David Copperfield conta-nos a aventura de um rapaz, desde uma infância infeliz, até à descoberta da sua verdadeira vocação, a de romancista. Entre os fantásticos personagens do livro estão o seu padrasto, Mr. Murdstone; Steerforth, o brilhante, mas desprezível colega de escola; a formidável tia Betsey Trotwood; a humilde e traiçoeira Uriah Heep; a frívola e encantadora Dora; e ainda o "remediado" Micawber, uma das maiores criações cómicas da literatura de todos os tempos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

2001 - Odisseia no Espaço - Arthur C. Clarke

Comentário:
Nunca fui especial adepto ou fã da literatura de ficção científica. Mas comecei a mudar de ideias depois de ler os Mestres Ray Bradbury, nesse portentoso Fahrenheit 451 e H. G. Wells no magnífico A Guerra dos Mundos. E depois de ler estes gigantes cheguei à conclusão que tinha de completar a tríade com Arthur C.  Clarke. Tendo lido apenas um ou dois livros de cada um destes autores fico com a sensação de estar perante três génios com características bem diferentes: Bradbury mais poético, mais literário,Wells mais dramático e Clarke mais científico e mais premonitório.
Uma das razões pela qual nunca nutri grande simpatia por este género é o facto de muitos destes escritores se preocuparem demasiado em tentar adivinhar o futuro, sem o conseguir. No entanto, estes três autores mostram-nos que esse não deve ser o objetivo fundamental da ficção científica e essa mensagem é especialmente nítida em 2001 - Odisseia no Espaço.
Efetivamente, neste livro, publicado pela primeira vez em 1968 (um ano antes da chegada à Lua) Athur C. Clarke deixa em segundo plano tal objetivo, subjugando-o a um outro, bem mais significativo. Afirma o autor, no epílogo desta edição, escrito em 1982 que os autores de ficção científica tentam mais "precaver" o futuro do que prevê-lo. 
Então do que é que Clarke nos tenta precaver neste livro? Essencialmente, o que está no centro do enredo é a ameaça da inteligência artificial. Hal,o super computador que controla a nave espacial Discovery torna-se, num dado momento, um tirano capaz de subjugar a própria inteligência humana; este é o anuncio de uma época futura mas também um alerta para os caminhos perigosos que a inteligência artificial pode seguir.
Uma outra mensagem essencial neste livro, transmitida de uma forma profundamente poética é a sensação de solidão do homem perante a imensidão do universo; é a constatação da pequenez do ser humano num espaço e num tempo incomensuráveis para nós.
Esta dimensão humana da obra é especialmente nítida no belíssimo prólogo do livro, que abre com estas portentosas frases:
"Cada homem vivo transporta o peso de trinta fantasmas, pois é nesta proporção que o número de mortos excede o dos vivos. Desde o início dos tempos, cerca de cem biliões de seres humanos caminharam sobre o planeta Terra.
Ora, este é um número interessante, pois, por coincidência, há  aproximadamente cem biliões de estrelas no nosso universo, a Via Láctea. Portanto, por cada homem que alguma vez viveu, brilha uma estrela neste Universo."
Belíssima mensagem...

Sinopse
A Discovery movimenta-se no Espaço a 150 000 kms/h. É o primeiro ano do século XXI. A sua missão deve-se à descoberta de um estranho monólito encontrado na cratera Clavius, na Lua. Trata-se de um cartão de visita deliberadamente enterrado há milhões de anos, por uma inteligência extraterrestre. É preciso encontrá-la. Seja onde for. Seja quem for. O romance dramático de um dos filmes mais espectaculares jamais produzido.
sinopse in www.wook.pt

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O meu TOP 2014 - 22 leituras formidáveis


Em  matéria de leituras 2014 foi ano excelente.
Dos 87 livros lidos selecionei os 22 que mais me agradaram.
Note-se que nunca me atreveria a dizer os "melhores" - não sou ninguém para fazer juízos desse género - mas apenas os que mais gostei de ler.

01. A Leste do Paraíso – John Steinbeck.
Mas que hei de eu dizer perante uma obra que me faz sentir tão pequenino? Bastará talvez dizer que é um dos 12 livros que eu considero perfeitos.

02. O Adeus às Armas - Ernest Hemingway.
às vezes negro e tétrico como um quadro de Bosh. Outras vezes colorido de poesia como um quadro de Kandinsky. Mas sempre, sempre, cheio de humanidade. Uma crónica de guerra onde há frestas por onde espreita a esperança.

03. A sul da fronteira, a oeste do sol – Haruki Murakami.
Murakami no seu melhor, só superado, a meu ver, por Kafka à Beira Mar e 1Q84. Uma bela e triste mensagem: capitalismo é conforto; conforto é imobilismo; imobilismo é infelicidade. Para ler, para divertir e refletir.

04. O Adolescente - Fiodor Dostoievski.
Mesmo com uma nota de 19 em 20 este não é o melhor livro de Fiodor. O problema é que alguns dos outros são nota 20.

05. O homem que via passar os comboios - Georges Simenon .
Talvez o policial menos policial de sempre. Uma obra que ultrapassa muito os cânones desse tipo de literatura mas cheio de inteligência.

06. Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway.
A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. E muita, muita arte, numa estória sobre a guerra civil de Espanha. Mas uma estória cheia de História. E de arte.

07. O Natal do Sr. Scrooge - Charles Dickens.
Magia, arte e crítica. Umas dezenas de páginas escritas com dor e beleza. Talvez o melhor conto de sempre sobre o Natal.

08. A Peregrinação do Rapaz sem Cor - Haruki Murakami.
Enquanto não leva o Nobel, Murakami vai-se aproximando dos cânones ocidentais. Dessa forma talvez o Nobel fique ainda mais longe. Mas o mestre japonês não precisa dele para ser um génio.

09. O Ladrão Honesto e Outras Histórias – Fiodor Dostoievski .
Uma das obras mais simples e singelas do grande Fiodor.

10. Ferrugem Americana - Philipp Meyer.
Ferrugem corrosiva! Extremamente ácida! A América na cadeira do psicanalista: doente e louca. Uma obra cheia de ironia e beleza.

11. No Limiar da Eternidade - Ken Follett.
Formidável. A fechar da melhor maneira a trilogia O Século. A imensa capacidade narrativa de Follett está aqui bem patente numa obra monumental. Uma maratona literária ou a torre Eiffel dos livros.

12. O centenário que fugiu pela janela e desapareceu - Jonas Jonasson.
Como se diz na minha terra, de partir o coco a rir. Uma ideia genial e um enredo divertidíssimo. O livro mais cómico dos últimos tempos.

13. Chama Devoradora - John Steinbeck .
Um livro belíssimo, cheio de poesia, num formato muito criativo. Já antes considerava Steinbeck um grande escritor. Agora chamo-lhe génio.

14. A Guerra dos Mundos - H. G. Wells 
Os aliens até podem ser maus. Até podem assassinar pessoas e ter máquinas de matar terríveis. Mas não são piores que os humanos. E nós temos uma arma terrível para os liquidar nas últimas páginas. Talvez a leitura mais surpreendente do ano.

15. As Aventuras de Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle 
Precisa de medicamentos para a depressão? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

16. À Espera no Centeio - J. D. Salinger.
Holden era boa pessoa. Mas à sua volta tudo era estupidez, ignorância, preconceito. Bela crónica da América do século XX.

17. Liberdade de Pátio - Mário de Carvalho.
Tens aí vinte metros quadrados onde és totalmente livre. Mas livra-te de passar os limites. Aí está uma bela crónica dos nossos tempos.

18. Avó Dezanove e o Segredo dos Soviéticos – Ondjaki .
Os camarada soviético, o mausoléu dos camarada presidente e umas peças de dinamite para fazer uma bela “desplosão”. O singelo mas não ingénuo Ondjaki no seu melhor.

19. O Signo dos Quatro – Arthur Conan Doyle.
Precisa de medicamentos para estimular a memória? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

20. O Fundamentalista Relutante – Mohsin Hamid.
Uma abordagem fascinante do terrorismo mas também do seu fantasma. E há fantasmas mais medonhos do que a realidade…

21. Os Sinos de Ano Novo- Charles Dickens.
Sinos que não trazem alegria; Ano Novo que repete a tristeza que há na injustiça. No entanto, há a esperança. E a beleza. Sempre.

22. Afirma Pereira – António Tabucchi.
Uma visão inteligente do regime fascista e de como, por vezes, os algozes não passam de vítimas…tristes vítimas do obscurantismo e da estupidez.

Imagem daqui

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

The Chimes (Os Sinos de Ano Novo) - Charles Dickens


Comentário:
O  Natal de Mr. Scrooge é talvez o conto de Natal mais lido no mundo. Ele tornou-se um hino e  um símbolo dos valores humanos que rodeiam esta época festiva. No entanto, este conto, Os Sinos do Ano Novo, muito menos divulgado, não se pode considerar em nada inferior ao consagrado Scrooge.
Com o título original The Chimes, Os Sinos do Ano Novo foi publicado pela primeira vez em 1844, exactamente um ano depois do conto de Natal.
Talvez se note neste conto alguma influência de Victor Hugo (ou mera coincidência?): a simbologia dos sinos havia sido explorada de uma forma semelhante pelo grande mestre da literatura francesa treze anos antes quando, em 1831, foi publicado o belíssimo Notre-Dame de Paris, onde o famoso Corcunda de Notre-Dame convivia diariamente com os sinos da majestosa catedral da capital francesa.
É curioso que, tal como no grande romance de Hugo, também aqui os sinos não simbolizam a alegria da época festiva; não são sinos de júbilo ou de felicidade; são sinos que marcam o ritmo de um tempo em que nada se modifica. O ambiente do interior da igreja e do campanário faz também lembrar as descrições lúgubres do interior da Notre Dame habitada pelo corcunda; um ambiente soturno e triste.
Assim, os sinos não anunciam nada de novo, da mesma forma que o próprio Ano Novo não anuncia nada de feliz. Na verdade, uma das mensagens fundamentais do livro é precisamente essa: não há razão para festejar o novo ano porque a injustiça e a pobreza continuarão a reinar.
Nunca é demais realçar a sensibilidade para as questões sociais que Dickens demonstra. Ainda antes do aparecimento das ideias socialistas ele anuncia um tempo de contestação que será determinante para temperar essa fase de profundas desigualdades que foi a época vitoriana.
Mesmo os contos mais belos de Dickens têm o condão de revelar o Mal nas suas facetas mais macabras e mais pérfidas. Para quem espera um belo conto de Ano Novo é por vezes doloroso enfrentar as descrições que Dickens faz da maldade, da injustiça e das desigualdades daquele tempo. Daquele tempo e de todos os tempos.
No entanto, na tristeza também há poesia. E até alguns laivos de felicidade. 
Um livro curto, simples, direto, onde está patente toda a beleza da escrita de Dickens, talvez o melhor narrador de todos os tempos. 
E para todos os leitores deste blogue UM BOM ANO NOVO.

sábado, 27 de dezembro de 2014

AvóDezanove e o Segredo do Soviético - Ondjaki

Comentário:
À medida que vou avançando para o interior da obra de Ondjaki, menos provável se torna a hipótese de um dia me dececionar. Todos (ou quase todos) os génios da literatura têm um ou outro livro que nos desagrada. Neste maravilhoso escritor angolano tal parece ser impossível. Impossível não gostar. Impossível não sorrir e não sonhar; impossível não sentir aquela poesia e, acima de tudo, aquela ternura dos meninos de Luanda, a fazer lembrar os Capitães da Areia, ou seja, os Meninos do Rio do Jorge Amado!
As crianças desempenham um papel fulcral nas obras de Ondjaki; e a explicação envolve, entre outros fatores, o facto de o autor ser, ele próprio uma criança, embora tendo já perto de quarenta anos. Mas ele é uma criança no sonho, na esperança, na poesia.
Depois há o humor; com uma estória destas era impossível não sorrir e mesmo ceder à gargalhada sincera. Há pormenores simplesmente hilariantes, como os jacós (papagaios) com as suas sentenças políticas ou frases de telenovela brasileira. Outra nota de humor tem a ver com a alcunha da avó: dezanove. Não vou, obviamente, revelar, mas trata-se de algo que reflete a fineza e essa ingenuidade pueril que tanto enriquece a escrita de Onjaki.
É, portanto, um livro extraordinariamente divertido; e a melhor prova dessa qualidade é o facto de o ter lido praticamente na totalidade durante uma longa sessão de quimioterapia! Mesmo no meio da desgraça, este livro, acreditem, é capaz de nos fazer rir e sorrir.
No entanto, para lá desta dimensão lúdica, há um fundo muito sério no enredo deste livro. Se em Bom Dia Camaradas se elogia a presença dos cooperantes cubanos, neste livro aborda-se numa perspetiva muito crítica a presença dos militares soviéticos na Angola do pós independência. Uma perspetiva crítica que se centra numa hipotética construção de um gigantesco mausoléu para o “camarada presidente”. No entanto, as crianças lideraram a revolta; e o povo haveria de resistir, substituindo a inauguração do mausuléu por um memorável espetáculo.

Sinopse
As obras do Mausoléu que irá albergar os restos mortais do presidente da República estão quase a terminar. Os habitantes do bairro vizinho descobrem que as suas casas serão destruídas porque o espaço circundante ao monumento será requalificado. Duas crianças decidem explodir o Mausoléu e assim poupar o bairro onde sempre viveram. Entretanto o responsável pela obra, um soviético, apaixona-se pela avó de uma das crianças. Entretanto essa avó tem de ser operada para lhe amputarem um dedo do pé. Entretanto existe uma outra avó que aparece muito mas não existe. Entretanto o plano das crianças falha, mas o Mausoléu é destruído…
in www.wook.pt

domingo, 14 de dezembro de 2014

A Chave de Salomão - José Rodrigues dos Santos


Comentário:
Dos livros que já li do autor, este é, na minha opinião, o menos bem conseguido. Isto deve-se, essencialmente, a um menor ajuste entre a componente de divulgação cientifica e o enredo ficcional. Principalmente na primeira metade do livro o leitor tem dificuldade  em  ligar esses dois vetores e as explicações cientificas parecem surgir um pouco desajustadas em relação ao enredo. No final do livro, o ensaio de uma teoria do tudo parece-me algo forçada. Se décadas de esforço dos mais conceituados físicos não conseguiram chegar a tal teoria é pouco credível que um chefe da CIA consiga tal feito; ainda mais baseado num pressuposto demasiado incrível: o da consciência do Universo que acabaria por desempenhar o papel do tal "observador" capaz de criar o real através do processo de transformação das ondas em partículas e assim explicar a unificação do quântico com o nível macroscópico.
Pela positiva, há que destacar, mais uma vez,um enredo empolgante, com incerteza até final, se bem que marcado pelos habituais clichés deste tipo de literatura: o herói que aparece no último segundo quando a heroína está prestes a ser sacrificada, assim como o inevitável desfecho romântico.
Mas, ainda assim, subsiste o lado mais positivo dos livros de JRS: a divulgação cientifica, com explicações simples de problemas tão complexos como a eterna luta pela conciliação da física clássica com a física quântica. Personagens históricas tão magníficas como Niils Bohr e Albert Einstein são aqui apresentados de forma muito pedagógica e mostrando-nos mesmo um lado humano de génios como Einstein que também eram capazes de se enganar. Pelo meio, merece  também destaque a  explicação, muito simples e eficaz, desse fenómeno que foi a descoberta do campo de Higgs, tão importante para a física contemporânea.   Há alguns anos  atrás todos ouvimos falar do Bosão de Higgs, a Partícula de Deus, criadora da matéria resultante do Big Bang, que JRS  aqui nos explica de forma muito clara.
Em suma, este livro resume bem os segredos do sucesso de JRS, com os seus melhores méritos mas deixa indícios de algum "empolgamento" que ameaça levar longe demais este perigoso equilíbrio entre ficção e ciência.

Sinopse:
O corpo de Frank Bellamy, o director de Tecnologia da CIA, é descoberto no CERN, em Genebra, na altura em que os cientistas procuram o bosão de Higgs, também conhecido por Partícula de Deus. Entre os dedos da vítima é encontrada uma mensagem incriminatória. 
The Key: Tomás Noronha
A mensagem torna Tomás Noronha o principal suspeito do homicídio. Depressa o historiador português se vê na mira da CIA, que lança assassinos no seu encalço, e percebe que, se quiser sobreviver, terá de deslindar o crime e provar a sua inocência. 
Ou morrer a tentar. 
Começa assim uma busca que o conduzirá às mais surpreendentes descobertas científicas alguma vez feitas. 
Será que a alma existe?
O que acontece quando morremos?
O que é a realidade?
Com esta empolgante aventura que arrasta o leitor para o perturbador mundo da consciência e da natureza mais profunda do real, José Rodrigues dos Santos volta a afirmar-se como o grande mestre do mistério. Apesar de ser uma obra de ficção, A Chave de Salomão usa informação científica genuína para desvendar as espantosas ligações entre a mente, a matéria e o enigma da existência.
Sinopse in www.wook.pt

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A Longa Noite sem Lua - John Steinbeck


Comentário:
Escrito em 1942, esta obra de Steinbeck nunca foi, que eu tenha conhecimento, publicada em tradução portuguesa (de Portugal). A edição que li foi, portanto, a tradução brasileira.
Este livro revela-nos um Steinbeck muito diferente daquele a que estamos habituados pela leitura das suas grandes obras. The Moon is Down (A Longa Noite sem Lua na tradução brasileira) foi escrito em 1942, já em plena fase de maturidade do escritor, três anos depois da sua obra-prima, As Vinhas da Ira. Mesmo assim, este pequeno livro não deixa de ter algo de experimental, ao abordar uma temática pouco habitual no autor: a estória de uma cidade imaginária, ocupada por um inimigo enigmático, através da invasão militar, quase sem oposição. É bom lembrar que o ano de 1942 situa-se em plena segunda guerra mundial, em que a pátria do autor também esteve envolvida (EUA).
Vivia-se o terror nazi no seu auge, um pouco por toda a Europa mas com especial incidência na França, esse país mártir que deu ao mundo um exemplo de coragem através da famosa resistência francesa, à qual o livro parece prestar uma homenagem implícita.
Uma cidade qualquer, num país que podia ser a França, ocupado por outro país, que podia ser a Alemanha, numa guerra idiota que podia ser a segunda guerra mundial. Neste livro, o ”prefeito” é um homem passivo, um bom homem mas sem coragem para atos heroicos; ele vai tentado gerir a ocupação de forma pacífica, levando ao limite o seu esforço para acalmar a ira dos ocupantes. Mas nunca o prefeito deixou de acreditar naquele que é o verdadeiro herói do livro: o povo da cidade. Ele acredita que, seja qual for a sua atitude, um dia o povo se revoltará e o agressor tornar-se-á vítima. É esta a mensagem do livro: nada pode domar a vontade de um povo, por mais oprimido que ele seja.
E ao longo do livro, a premonição do prefeito vai-se concretizando; lentamente, a euforia de quem possui as armas vai-se esvaindo, à medida que a resistência do povo vai triunfando. A meio do livro, já os oficiais invasores, extenuados perante uma ocupação sob grande resistência, vão reconhecendo: “A cidade foi conquistada e estamos com medo; foi conquistada e estamos cercados.” Premonição perfeita do que viria a ser o desfecho da guerra: os nazis viriam a ser vencidos pelo desgaste.