segunda-feira, 30 de março de 2015

Mia Couto, voz da Terra


Mia Couto é poesia sem rima, é voz da Terra, sabor do Mar, alma de um povo inteiro.
Mia Couto é a força de uma Terra onde o sentimento resvala nas armas mas sobrevive e se fortalece na dor. É o mensageiro de uma Terra pintada de sangue mas perfumada pelo canto cristalino das sereias no Oceano Índico.
Mas Mia Couto é também o porta-voz da Alma, o cantor do gemido dolorido mas quase musical que emana do peito das gentes; a sua escrita é melodiosa, triste umas vezes, outras cheia daquele humor ingénuo das gentes de África.
E, acima de tudo, a voz de Mia é a voz do génio. Ele é, na minha opinião, o melhor escritor vivo de ficção de língua portuguesa. Ele é a prova viva de que os poetas têm razão: a nossa Pátria é a Língua portuguesa e muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa. Moçambique é da nossa Alma; muito sangue e muitas lágrimas nos uniram no passado e foi em português que sempre choramos as mesmas desgraças. Um fado que nenhuma união europeia ou aliança americana poderão contrariar.
Mia Couto pode não ganhar o Man Booker Prize. Mas para nós já ganhou.
Já ganhaste, irmão!

sábado, 28 de março de 2015

A Casa das Vestais - Steven Saylor


Talvez satisfeito com o comentário positivo que fiz a Sangue Romano, o “Descobridor” (como chamam a Gordiano em Roma no séc. I a.C.) voltou às minhas leituras. E desta vez com um título que induz em erro. Na verdade A Casa das Vestais é apenas um dos nove contos que compõem este livro.
O certo é que cada um destes contos é um painel de um belo mosaico chamado Roma Antiga. A escrita visual de Saylor, que já elogiei no livro anterior, permite-nos “ver” uma Roma castiça, cheia de particularidades que nos espicaçam a imaginação e que quase nos fazem reviver aqueles tempos. Na verdade, cada um dos contos parece ter sido escolhido para descrever um quadro em particular: o teatro onde se desenrola um crime de assassínio (as máscaras que os atores usavam adensa o mistério); um crime provocado por um Testamento adulterado (facto corrente em Roma), um crime muito curioso escondido por detrás de uma crença peculiar dos Romanos: os Lémures, que seriam os espíritos dos parentes falecidos que vagueavam pela terra atormentando os vivos; um episódio rocambolesco em torno de um rapto de César por Piratas muito peculiares; o pretenso roubo de um tesouro em prata durante as festas Saturnais, que nos são descritas com imensa curiosidade; um crime cometido por abelhas (!), um conto que dá título ao livro, com um drama empolgante passado em pleno Templo de Vesta, onde viviam as suas seis sacerdotisas virgens e dois episódios que se passam no Egito; mas convém não esquecer que a ação decorre durante os enigmáticos tempos dos Ptolomeus, onde todos os mistérios eram possíveis.
De tudo isto resulta um painel multicolorido que diverte, entretém e, acima de tudo, nos ensina bastantes coisas sobre a época em que se situa. Mais uma vez, como no volume anterior, destaca-se o papel bastante “terra a terra” do investigador, um cidadão comum não mais dotado que os seus concidadãos (por vezes até é a sua mulher, a bela ex-escrava Betesda ou filho, Eco, quem desvendam os crimes).

quarta-feira, 25 de março de 2015

Sangue Romano - Steven Saylor


Nunca compreendi muito bem porquê mas sempre senti um fascínio muito especial sobre o mundo antigo, especialmente no que respeita às civilizações clássicas. Por isso foi com especial curiosidade que decidi “dar uma hipótese” a Steven Saylor. Já tinha reparado nestes livros editados em Portugal pela simpática coleção 11/17 da Bertrand. 
Parti para a leitura com o chamado ”pé atrás” pela aparência de literatura “light” que têm e por algumas opiniões que li nesse sentido. Mas mais uma vez se confirma: livros atacados pelos críticos literários são livros divertidos, agradáveis, que fazem as pessoas gostar de ler.  
Este primeiro volume da série Roma Sub-Rosa não é, evidentemente, uma obra-prima nem pretende sê-lo. É um livro policial que tem como pano de fundo a Roma do século I a.C., mais exatamente a ditadura de Sila (ou Sula, nesta tradução), que governou imediatamente antes de Júlio César, na sequência da guerra civil que dizimou a cidade, entre os exércitos de Mário e de Sila.
Este romance, bastante bem estruturado e cheio de emoção, não deixa de cair naquele que é o maior defeito da má ficção: as coincidências, os acontecimentos fortuitos que, por mero acaso, definem o evoluir da ação. Neste caso, o nosso herói descobre a chave da investigação numa conversa casual numa taberna. Isto, obviamente, só acontece na ficção. Aliás, na má ficção. Mas este é o aspeto menos bom da obra. Tudo o resto faz deste livro uma obra que só se pode elogiar.
O herói é Gordiano, uma espécie de investigador por conta própria, ou detetive privado, em plana Roma Antiga. O que dá mais interesse à personagem é o facto de ele não ser um super-herói. Ele é humano e falha. Aliás, no final do enredo podemos ver como o desvendar dos mistérios não se deve a nenhum golpe de génio de Gordiano. Neste episódio Gordiano é contratado por um jovem advogado que é nada mais nada menos que o famoso Cícero. Curiosamente, este Cícero é bem menos prepotente e vaidoso que o Cícero da historiografia. 
Mas o aspeto que mais me seduziu neste livro foi a forma como o autor reconstitui, de uma forma muito clara, visual mesmo, a Roma Antiga, não apenas ao nível dos poderosos mas principalmente das classes inferiores, de um povo que vivia à sombra do poder.
Uma nota final para a editora: o Coliseu, que aparece na capa do livro, não existia no tempo em que decorre a ação. Foi construído cerca de 140 anos mais tarde pelo Imperador Vespasiano.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Cleópatra - Stacy Schiff


Eis um género (o único fora da ficção) que sempre me encantou: a biografia. A história, como a literatura, é feita de pessoas; de seres humanos. E quando olhamos para um rosto, ou para uns olhos, vemos apenas um resquício de um mundo inteiro. Sim, em cada um de nós há um cosmos completo, um mundo difícil de imaginar por qualquer observador. No entanto, escrever uma biografia não é propriamente o mesmo que fazer um retrato ou contar a história de uma vida; escrever uma biografia com qualidade implica penetrar profundamente na alma humana, mais do que desenterrar arquivos.
É tudo isto que esta biografia de Cleópatra nos oferece: a análise de um mundo perdido e de uma alma imensa. É por isso que esta não é uma biografia qualquer: com ela, a autora conquistou o prestigiado prémio Pulitzer.
Cleópatra é uma das personagens históricas mais misteriosas de sempre; além disso, a imagem que dela temos é, em grande parte, falsa e foi criada pelo cinema. A representação de Cleópatra por ElisabethTaylor sempre teve muito mais força do que qualquer retrato historiográfico. 

Mas poucos saberão que Cleópatra tinha um tom de pele que a aproximava muito da raça negra. 

Mas o que mais impressiona na figura de Cleópatra tal como nos é narrada neste livro é a sua enorme cultura. A grande rainha era herdeira da sabedoria grega – a dinastia dos Ptolomeus era descendente da monarquia macedónica. Por outro lado, tanto as tradições macedónicas como egípcias destinavam às mulheres o acesso à cultura tal como acontecia com qualquer homem; além disso, vivia em Alexandria, uma cidade maravilhosa cheia de cultura e encruzilhada de culturas: lá se cruzavam os mundos romano, egípcio grego/macedónico, persa, hebreu, etc. Assim, a poderosa rainha falava nove línguas, era especialista em finanças, conhecia profundamente os filósofos gregos, etc. A sua famosa relação com César teve aliás uma faceta pouco conhecida: ela tê-lo-á influenciado positivamente no amor que o ditador revelava pelo saber; um episódio muito marcante dessa relação foi a célebre viagem no Nilo, em que a curiosidade de descobrir a mítica nascente do imenso rio terá sido causa mais forte do que a aventura amorosa.
No entanto, feito este retrato, é difícil enfrentar esta realidade: Cleópatra ficou na história por ter sido amante de Júlio César e de Marco António, os dois homens mais poderosos do seu tempo!
Na realidade, sobre Cleópatra, as lacunas historiográficas são tão grandes que se justifica a construção de tantos mitos.
Um outro aspeto magnífico deste livro é a forma como a autora nos apresenta o cenário da época, dando-nos a conhecer realidades paralelas de grande interesse historiográfico; é o caso, por exemplo, da descrição que nos faz do grande sábio romano que foi Cícero, com o seu caráter tão peculiar: o mais sábio da época mas um dos mais arrogantes e vaidosos de todos os tempos.
Mas, para além de Cleópatra, a segunda personagem mais importante do livro é sem dúvida a cidade de Alexandria. 

Era uma espécie de capital de todas as civilizações. Roma tinha a fama de capital do grande império, mas era uma cidade suja e violenta, doente e doentia. Alexandria, pelo contrário, aberta aos ares saudáveis do Mediterrâneo, aliava a herança cultural grega ao encanto místico do Egito dos Faraós e a todo o requinte das civilizações orientais. O império de Cleópatra, que se estendia até à Síria, recolhia preciosidades e luxos que enriqueciam os alexandrinos, muito mais que os sujos e diletantes habitantes de Roma.
Mas também Cleópatra tinha um lado negro, um lado violento e cruel que encaixava perfeitamente na tradição ptolemaica: casou sucessivamente com os seus dois irmãos e acabou por assassina-los ambos (o casamento entre irmãos era perfeitamente aceite, com base na necessidade de preservar a transição do trono e a manutenção do património na família). Na verdade, depois de assassinar o seu jovem noivo/irmão Ptolomeu XIII, viria a fazer o mesmo com o segundo irmão, Ptolomeu XIV e ainda com a irmã, Arsinoe, elevando o seu filho (e de César) a imperador, com o nome de Cesarião.
Cleópatra ficou famosa pelo seu relacionamento com César mas foi depois da morte deste que ela revelou todo o seu génio como governante, negociando a autonomia e a liberdade do seu país e do seu povo com o poderoso Octávio César Augusto, que viria a ser o herdeiro de Júlio César e primeiro imperador de Roma. Nessa altura ele gere com extrema mestria o seu intenso, escaldante e profundo relacionamento com Marco António, o grande rival de Octávio.
A parte final do livro é dedicada, como não podia deixar de ser, ao destino trágico da grande rainha. Mas até aqui, na mais profunda das desgraças, Cleópatra foi brilhante. Cleópatra foi espetacular até na morte e a autora apresenta-nos aqui o seu suicídio de uma forma tão atrativa que o leitor sente estar a ler um romance, tal a forma como a verdade, por vezes, imita a ficção.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Uma Questão Pessoal - Kenzaburo Oe

Comentário:
Antes de mais nada gostava de deixar aqui expressa a minha incompreensão pelo facto de este livro, o mais importante do autor (que foi Prémio Nobel) não estar editado em Portugal. A edição que usei é um e-book brasileiro.
Um dos livros mais perturbadores que li nos últimos tempo. O tema acarreta desde logo um tom perturbador, que assusta pela estranha realidade de um fenómeno que a nossa mente só concebe como irreal: o desejo de morte de um filho… o que perturba mais não é a iminência da morte do bebé nem a monstruosidade da deficiência com que nasceu. O que choca mais é o realismo, a lógica, do desejo que o pai sente de que o seu próprio filho morra.
O pai é Bird de alcunha; “pássaro”: alguém que inocentemente procurava a liberdade; como se isso fosse coisa simples… ele é um modesto professor japonês que vive obcecado por colecionar mapas de África. Absurdo? Infantil? Ilógico? Talvez não… África era a liberdade. Estranha e distante. Inimaginável.
À medida que Bird vai sendo confrontado com a realidade da deficiência do filho, perante a quase insignificância da mãe, Bird deambula pela vida à procura de um sentido; nem a amante, que o leva ao extremo do prazer carnal, lhe pode dar esse sentido; e, lentamente, a partir do nascimento de um filho horrivelmente deformado, Bird leva o leitor a colocar a terrível questão: até onde pode chegar a degradação? Bird mostra-nos que se pode ir cada vez mais fundo, até atingir limites inimagináveis de desumanização…
Kenzaburo Oe foi Prémio nobel da literatura (1994) e facilmente se percebe porquê; 
só talvez Kafka exprimiu melhor a desumanização. No contexto de um país industrializado como o Japão…
Estamos perante um livro revoltante pela crueza com que a vida pode submeter um ser humano à mais degradante desumanização; um livro original pela forma única como as palavras ferem como facas, palavras simples, diretas, cortantes. E, finalmente, em termos formais, uma escrita algo surrealista, em que o Hospital pediátrico onde o bebé é destinado à morte, faz lembrar a estrada no deserto, de Outono em Pequim, em que nada faz sentido a não ser a dor, a tortura da alma…

“e à abominável e obscena miséria humana de toda a espécie, que os indiferentes fingem ignorar e, coniventes, chamam a esse fingimento humanismo.” Pg. 54

Mesmo assim, no final há sempre a hipótese de uma redenção. E a perturbação com que lemos o livro esvai-se, alivia-se um pouco num final de esperança e crença no ser humano. É sempre possível reformular o sentido da vida…

Sinopse:
Em 1964, o romancista japonês Kenzaburo Oe recebia a notícia de que o seu primeiro filho nascera com uma anomalia cerebral. É a mesma situação enfrentada pelo protagonista de Uma questão Pessoal, o professor Bird. Aos 27 anos, Bird leva uma vida medíocre, bebendo pelos bares de Tóquio a sonhar com aventuras no continente africano. A gravidez da mulher acrescenta angústia ao quotidiano de Bird. A ideia de que será pai e chefe de família faz com que se sinta condenado à vida quotidiana. Para piorar, depois do parto, os pais descobrem que a anomalia cerebral fará o menino ter uma vida vegetativa. Bird não suporta a possibilidade de se ver atrelado para sempre a um filho anormal. Passa, então, a desejar a morte da criança. Aos poucos, porém, dá-se conta de que a crise era uma oportunidade. Bird deve percorrer um longo caminho de conquista da realidade, enfrentando os desafios de amadurecimento da vida adulta.
Sinopse in http://chaehistorias.com/

segunda-feira, 9 de março de 2015

Nicholas Nickleby - Charles Dickens


Comentário:
Só agora, à medida que vou conhecendo a obra de Dickens, começo a compreender porque é que os seus livros me fazem sentir jovem. É que livros como este despertam o sonho; são dramas da vida real em que o bem e o mal entram em confronto, mas sendo o Bem o eterno vencedor. Esta ingenuidade não é mais que o reflexo da bondade natural que caraterizava este magnífico ser humano chamado Charles Dickens. Os famosos finais felizes de Dickens não são apenas elementos de simplismo romântico; são um manifesto da sua crença no futuro da humanidade, com base na bondade natural do ser humano.
Este é talvez o seu livro mais dramático, em que as situações de injustiça e de maldade são mais cruas e violentas; mas é também o livro (dos que já li) em que a redenção é maior, em que os castigos são mais pesados e em que os bons são mais magnanimamente premiados, a fazer lembrar as mais românticas novelas dos séculos XIX e XX, com personagens profundamente maniqueístas
Este é talvez o livro de Dickens em que a sua experiência como jornalista é mais notória, com descrições objetivas, claras, quase visuais. Daí advém uma leitura simples e agradável.
Ao longo do livro, o protagonista vai reforçando o seu caráter. De início ele é uma boa alma, mas de comportamento algo amorfo. Mas a violência da sociedade leva-o à necessidade de moldar esse carater forte e na segunda metade da obra deparamos com um Nicholas com grande força de caráter, um justiceiro, um elemento de força e de crença capaz de servir de modelo aos políticos amorfos e interesseiros que Dickens também ridiculariza. Na verdade, o que distingue os personagens, mais do que o Bem ou o Mal é a Vontade; é o querer, é a força para querer mudar, para salvar uma sociedade manchada violentamente pela desigualdade e pela injustiça.
Ou seja, o âmago do livro assenta uma profunda crítica social acima de tudo, mas também critica política. Os alvos são o lorde, ou seja, o aristocrata balofo, interesseiro e ignorante, o burguês explorador e egoísta mas também os políticos, desinteressados do bem público. Convém notar que o livro foi escrito em 1838/39, 4 a 5 anos depois da publicação das leis conhecidas como Poor Laws, em que o governo britânico adotava uma estratégia de apoio aos pobres com base na segregação. Dickens, como é óbvio, esteve na charneira do debate.
A crítica ao sistema de ensino parece estender-se, de uma forma mais global, a todo um sistema social assente sobre o materialismo e uma certa ordem racionalista. A crítica assume uma forma satírica, mau grado o dramatismo da forma como são tratados os alunos do internato onde Nicholas trabalha; o mestre-escola, avaro, pérfido, é a imagem do personagem a quem apenas interessam os bens materiais e a escola pratica um sistema de castigos corporais violentos justificados pela necessidade de ordem; ora, esta ”ordem” parece ser também o motivo de uma repressão social mais global que Dickens acusa na figura dos políticos, dos comerciantes sem escrúpulos, dos funcionários do estado, enfim de toda a classe burguesa reinante na época.
Mas não se pense que o livro redunda numa pesada e austera crítica; de repente o livro deixa de ser um drama para se ir transformando num quase alegre livro de aventuras;  a transformação de Nicholas em ator e o contacto com as novas personagens dão ao livro uma leveza, uma graça que à partida não se descortinava, tal era o peso das desgraças da família Nickleby.


Sinopse: (in wikipedia)
O romance retrata os percalços de um jovem britânico, Nicholas Nickleby que, com a morte do pai, tornou-se responsável pela família composta por sua mãe e irmã. Nicholas, porém, não tinha emprego nem dinheiro e sua mãe escreve para Ralph Nickleby, irmão de seu marido recém-falecido, solicitando ajuda. Ralph é um homem desalmado, com muito dinheiro e amigos desagradáveis e perigosos. Sua ajuda tem um quê de crueldade levando Nicholas a separar-se de sua família e a conviver com situações muito dolorosas. O jovem, porém, digno e sensível, direciona seus esforços para ajudar a sua família e seus amigos que direta ou indiretamente passam a ter suas vidas atormentadas pelas ações do tio Ralph.

quarta-feira, 4 de março de 2015

The Ring - O Aviso - Koji Suzuki


Terminei a leitura deste livro sem saber muito bem o que pensar dele.
Por um lado, é um livro que entretém, pela sua escrita simples e cinematográfica. Na realidade, deu até origem a um filme japonês de grande qualidade e também a uma produção norte-americana, e respetiva sequela, quando se anuncia já uma terceira filmagem. Para os cinéfilos, aqui ficam os filmes no IMDB, sendo que o primeiro é, sem dúvida, o mais cotado:
Ringu – A maldição (produção japonesa) 
The Ring – produção norte-americana 
The Ring 2 - a sequela 
Receio que a minha opinião sobre o livro esteja algo contaminada pelo facto de ter visto os filmes anteriormente. Na verdade, parece que estamos perante um caso, muito raro, em que o filme supera o livro (no caso do filme japonês, obviamente). Lembro-me de ficar absolutamente petrificado quando vi o filme e, por contraste, agora, o livro não me despertou qualquer interesse.
Terminei a leitura mais cansado com este livro de 250 páginas do que com qualquer livro de mil páginas do Ken Follett.
A narração pareceu-me muito lenta, com um ritmo narrativo pastoso que obriga o leitor àquele sacrificiozinho tão aborrecido de aguentar umas dezenas de páginas para saber o que vai acontecer a seguir e, pior que isso, o livro chega a um ponto em que a única coisa que interessa ao leitor é o desfecho; ora o desfecho chega a 50 páginas do final e depois o leitor ainda tem de aguentar mais 50 paginas que, sinceramente, não compreendi bem que interesse possam ter. O final mais ou menos aberto (ou confuso) só se pode explicar pela vontade de o autor querer futuramente explorar mais a estória. Mas não me pareceu nada boa ideia.
Enfim, de um país que deu à literatura nomes como Yukio Mishima, Kenzaburo Oe ou Murakami, esperava-se bem mais, para mais tratando-se de um escritor a quem já chamaram o Stephen King japonês e de um livro que vendeu mais de 4 milhões de exemplares.
Até o principal atrativo do livro, o seu enredo linear e fácil, baseado numa ideia genial (como se vê abaixo, na sinopse) se vai perdendo ao longo da leitura.
Aqui fica, para os corajosos, o trailer do filme japonês.



Sinopse: (in www.wook.pt)
Numa noite em Tóquio quatro jovens morrem simultaneamente, vítimas de paragem cardíaca. O jornalista Asakawa começa a investigar este estranho caso e descobre que os quatro amigos viram juntos uma cassete de vídeo, uma semana antes de morrerem. Quando Asakawa vê essa cassete de vídeo, é avisado que também ele tem uma semana de vida a não ser que consiga decifrar a sua mensagem subliminar. A partir daí, solucionar este mistério torna-se absolutamente urgente e imprescindível. The Ring - O Aviso é o livro que inspirou o filme de culto japonês Ringu, em 1998, e a versão americana de sucesso, The Ring, em 2002. Mesmo para quem já viu os dois filmes, a surpresa é garantida ao ler este livro, pois a sua adaptação ao cinema alterou as personagens e o final.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Charles Bukowski


Há embirrações incontornáveis. No que aos livros diz respeito, eu tenho pelo menos uma: Charles Bukowski. Dizem que é um dos nomes maiores da literatura dos EUA. Embora não seja grande adepto do país, admiro imenso os escritores norte-americanos: de Capote a Auster, de John dos Passos a Roth, de Kerouac a Mccarthy, etc. Todos eles são autores de grande dimensão artística mas também personalidades ímpares ao nível do humanismo, da sensibilidade na análise dos problemas sociais e extremamente críticos no que respeita aos assuntos políticos.
Mas não suporto o estilo descaradamente sexista, banal, alcoólico, ordinário e, para mais, histericamente hipocondríaco. Não sou propriamente um conservador e até julgo ter um espírito bastante aberto face a escritores polémicos, atrevidos e que rejeitam todos os cânones. Mas Bukowski resiste a todo esse meu liberalismo.
Raramente deixo um livro a meio e por isso, confesso, fiz um esforço desmedido para ler “Mulheres”, esse arrazoado de bestialidades que foi a vida de um escritor alcoólico, obsessivo e louco. Dizem que foi um grande crítico e talvez essa tenha sido a sua maior virtude. Mas todos os enormes escritores americanos que referi acima são ou foram enormes críticos sem nunca terem caído numa linguagem de sarjeta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Charles Dickens - Genialidade absoluta


Estou neste momento a ler Nicholas Nickleby e estou encantado. E dececionado por ter chegado a esta idade sem ler os grandes livros deste génio literário.
Talvez Charles Dickens tenha sido o maior contador de estórias de todos os tempos. Não me refiro, obviamente, a muitas estórias mas, certamente, a GRANDES estórias. Cada livro do grande mestre britânico é uma viagem encantadora a um mundo que já não sendo nosso, foi o meio encantado e desgraçado que nos precedeu: esse magnífico e medonho século XIX, cheio de esperanças e de fascínio mas também carregado de injustiças e medos.
Charles Dickens talvez tenha sido um comunista antes do comunismo: preocupado, acima de tudo, com as injustiças daquela época vitoriana, em que a exploração do homem pelo homem era uma regra implícita mas bem patente do universo vitoriano; um mundo cheio daquela perfídia que resulta da legitimidade na luta pelo sucesso material; a isso se chamou, com muito descaramento, moral burguesa. 
É por isso que as personagens de Dickens são tão encantadoramente maniqueístas: há uma linha clara que separa os bons, os honestos que são vítimas, daqueles que representam as forças do mal e que mais não são que os frutos desse meio burguês materialista e capitalista. E é por isso que é impossível a qualquer leitor esquecer personagens fantásticas, magníficas enquanto seres humanos como são Nicholas Nickleby, David Copperfield, mas também geniais personagens secundários, autenticas obras de arte na criação o romancista, como são Wilkins Micawber ou Newman Noggs. Mas, muitas vezes, é no horrível que encontramos a mais belas obras de arte e personagens pérfidas como Uriah Heep ou Wackford Squeers não deixam de ser criações únicas e geniais.
imagem de http://www.notable-quotes.com/

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

António Lobo Antunes - Um desastre - E daí?


Parece que o último romance, o 25º, de António Lobo Antunes está a ser um desastre de vendas.
Talvez esteja enganado mas atrevo-me a palpitar que o nosso velho guru está-se marimbando para isso. Alguns críticos andam certamente mais preocupados que ele; afinal são euros que não se ganham, são oportunidades que se perdem.
Acredito que para Lobo Antunes o sucesso já não está nas vendas; a imagem mental que tenho dele é a de um gato velho. Os gatos são, por definição, animais com uma personalidade muito forte; senhores do seu nariz; convencidos do seu poder embora ao mesmo tempo mimados. Assim é Lobo Antunes. A vida que trilhou, tão rica e tão cheia de obstáculos, está muito acima de qualquer sucesso ou insucesso editorial.
Seja como for, depois de ter ficado a saber que Caminho Como Uma Casa em Chamas só vendeu 1600 livros na FNAC fiquei ainda com mais vontade de ler o livro. E talvez esteja aqui o mote para um lema que o pessoal do marketing da editora D. Quixote poderia explorar: Não Perca o Único Livro de Lobo Antunes Que Foi Um Verdadeiro Desastre. Já que o próprio ALA não se promove e tanto despreza a sua imagem…
Para lá de tudo isto, está Lobo Antunes, que após a morte de Saramago se tornou, sem dúvida, o mais conceituado escritor português vivo.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Cristais de Natal - José Fernandes da Silva

Comentário:
Antes mais nada, o título. Cristais de Natal. Poucas vezes um livro terá tido um título tão feliz. Os cristais são belos e simples. Como belos e simples são os contos que José Fernandes da Silva escreveu para este livro.
E o Natal. A consoada e o dia de Nascimento, como são conhecidos no Minho os dois dias mais importantes da quadra. O Natal, logo no primeiro conto (Consoada Feliz) é-nos apresentado como um suave milagre, para usar a tão feliz expressão de Eça de Queirós. Um milagre singelo e suave, um tempo de felicidade discreta, tão simples como os cristais feitos de geada.
Nesse conto, o Rogério viera de fora. Era um migrante, como tantos que por aí encontramos hoje em dia, talvez à procura de um qualquer Natal. Mas alguém seria enviado pelo Espírito do Natal para oferecer ao Rogério uma réstia de luz, tão simples, tão singela, mas suficiente para fazer nascer um sorriso cristalino.
Por mais que o poeta proclame, o Natal nem sempre é quando um homem quiser. Porque como diz o autor, “uma grande parte das vezes, o homem não quer nem se esforça por querer”. É por isso que o 25 de Dezembro é e será sempre um dia único.
Uma das principais qualidades deste livro é a enorme variedade de abordagens do espírito natalício, fruto da fértil criatividade artística do autor. Por exemplo, no conto “Presente de Natal, a dádiva é da mãe natureza, sob a forma do azevinho, que é dádiva sagrada; no conto “Prenda de Natal” encontramos uma bela alusão a um momento histórico fulcral. É que houve um ano em que o Natal foi em Abril; porque é quando um homem quiser e nesse ano os homens quiseram, finalmente, acabar com a ditadura. Foi o ano em que o Natal se escreveu com as letras da palavra Liberdade.
São pobres aqueles sobre quem José Fernandes da Silva escreve; mas não são os pobres miserabilistas ou acomodados, à espera do subsídio, nem muito menos os pobres conformados com os velhos e tacanhos valores ultraconservadores da “pobreza honrada”. É, isso sim, a pobreza de um povo que luta, de um povo que, com suor e fé, sonha que um dia “a riqueza, fraterna, abrace a pobreza” (página 29). Ou seja, um povo que clama e luta por um mundo mais justo e fraterno.
É claro que os valores cristãos estão sempre presentes neste quadro social e mental. Mas não se esgotam em si mesmos. São valores ativos; constituem um quadro moral que não se pode separar das condições materiais de existência.
No entanto, nem mesmo o Natal é eterno; pelo menos algumas das tradições que envolve estão ameaçadas; é o caso do presépio tradicional ou dos jogos de pinhões. Este livro pode também ser entendido como um repositório dessas tradições e, acima de tudo, desse espírito que todos queremos manter. Ou melhor, cristalizar.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Humberto Delgado, Sem Medo


Um intervalo nos livros para lembrar os 50 anos que hoje se completam sobre a morte de uma das personagens mais importantes da História de Portugal.
O General Sem Medo, Humberto Delgado disse um dia que se ganhasse as eleições, obviamente, demitia Salazar. Pagou a ousadia com a própria vida mas escreveu assim a primeira página do caminho do país para a Liberdade.
Candidato às eleições para Presidente da República, perdeu para Américo Tomás num ato eleitoral marcado, mais uma vez pela fraude generalizada. Mas a vingança do decrépito ditador nem por isso se fez esperar e Delgado foi cruelmente assassinado pela PIDE.
Ficou a memória do herói e a vergonha de um ditador idiota, morto no tempo e agarrado ao poder, mesmo à custa do sacrifício de todo um povo. 
No entanto, a História acaba sempre por ser a última justiceira e para sempre ficará a imagem de um General que foi herói e mártir, face a um ditador dominado pelo ódio e pelos fantasmas que o atormentavam…

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Marco Aurélio - Frank McLynn


Comentário:
Penso que só uma vez abri uma exceção neste blogue para publicar um comentário de um livro de não ficção; a distinta honra foi para o enorme Carl Sagan. Hoje abro a segunda exceção para publicar a minha opinião sobre esta excecional, enorme em todos os sentidos, biografia do imperador Marco Aurélio.
Um grande escritor, sinceramente não recordo quem, disse um dia qualquer coisa como isto: prefiro a ficção porque normalmente fala verdade. Pois bem, esta biografia não é ficção e fala verdade. Em grande parte porque o autor manifesta uma enorme habilidade literária, que lhe permite contar toda a história de Marco Aurélio mantendo na narrativa aquilo que a ficção tem de melhor: o despertar do interesse do litor; a emoção, a beleza de um enredo. Ou seja, estamos perante um livro de história que se lê como se de um romance se tratasse.
Em primeiro lugar, um dos maiores méritos desta obra: uma biografia nunca pode restringir-se à vida e obra do personagem histórico aboradado. Na melhor tradição da historiografia britânica atual, Mclynn enquadra a vida de Marco Aurélio no contexto histórico, destacando os fenómenos mais significativos da época, recorrendo aos quadros politico, económico, social, religioso, mental, etc. Daí emana uma verdadeira aguarela de onde vemos surgir realidades por vezes surpreendentes, chocantes mesmo para o leitor do século XXI.
O Império Romano constituiu uma das realidades mais fascinantes de todos os tempos; o poder dos imperadores, a ofuscante riqueza que transitava nas estradas romanas, o espetáculo impressionante do Circo e do Coliseu, a devassidão algo escandalosa que é atribuída àquele povo são apenas alguns dos pormenores desse encanto. Mas poucos saberão de outras realidades que este livro muito bem destaca e que nos mostram “outro” império romano. Por exemplo, um  povo em que a esperança de vida não ultrapassava os 30 anos! Um povo onde as desigualdades sociais eram tais que era vulgar morrer de fome. Um povo onde  as condições de saúde eram tão precárias que qualquer doença se tornava mortal.  
No meio de tudo isto, emergiam os grandes personagens. Marco Aurélio foi um dos maiores. O imperador conquistador da Germânia e da Pártia (antiga Pérsia) foi também o imperador Filósofo. Escreveu uma das mais importantes obras literárias da Antiguidades (Meditações, uma obra em formato de aforismos) e foi um dos mais lídimos representantes da corrente estoica. 
A adesão de algumas elites romanas e mesmo imperadores ao estoicismo não deixa de ser curiosa, tendo em conta o contraste daquela filosofia (que proclama a virtude do sofrimento) face ao reconhecido (e talvez exageradamente propalado) hedonismo romano. Mas talvez o estoicismo fosse o “contrapeso” para tal culto do prazer…
Marco Aurélio foi, acima de tudo, um político sóbrio, sério, honesto. Muito no inverso do que hoje se usa… Totalmente desprovido de senso de humor incapaz de rir, tinha no entanto um impressionante sentido de justiça que não o impediu, no entanto, de ser um dos maiores perseguidores dos cristãos. 
No entanto, é necessário enquadrar devidamente esse fenómeno: as perseguições parecem refletir motivações políticas (o facto de os cristãos não aceitarem o culto do Imperador), religiosas (a negação do politeísmo),culturais (o desenquadramento do cristianismo face à realidade cultural romana, uma sociedade essencialmente urbana e comercial, face a uma religião que valorizava a pobreza) mas também cientificas, como muito bem destacava o famosos médico Galeno, que acusava os cristãos de acreditarem em princípios ingénuos, quase infantis, como a criação a partir do nada. A aceitação destes dogmas seria, segundo Galeno, um obstáculo ao conhecimento científico. O certo é que, para além destes motivos, as perseguições tendiam a aumentar à medida que crescia a insegurança e a crise no império.
Na verdade, Marco Aurélio governou numa época em que os sinais de decadência se tornavam cada vez mais óbvios (170-180 d.C.). As crises, quer económicas provocadas pelo fim das conquistas, quer demográficas provocadas por enormes mortandades, tendiam a indicar os cristãos como uma seita maléfica, culpada de todas as desgraças.
E não foram poucas essas desgraças no tempo de Marco Aurélio. Por exemplo, uma imensa crise demográfica terá sido causada por Pestes (designação de todas as doenças mortais mal identificadas) que hoje sabemos ter consistido numa imensa epidemia de malária e uma outra de varíola, a chamada Peste Antonina por ter surgido no tempo de Antonino Pio, antecessor de Marco Aurélio.
Todo o quadro económico-social do tempo de Marco Aurélio era também dramático: a agricultura estava totalmente dependente da escravatura, sabendo-se que tal realidade era impeditiva de um verdadeiro crescimento. Entre os romanos só algumas vozes mais ilustres, como Plínio o Velho, estavam conscientes desse terrível malefício da escravatura. Mesmo assim, os escravos esgotavam-se à medida que as conquistas diminuíam e os imperadores romanos iam, desesperadamente, tentando camuflar estas crises, tentando inventar estratégias que permitissem a Roma manter a todo o custo o seu espetacular estatuto de cidade imperial.
Em suma, estamos perante um livro que nos oferece um verdadeiro passeio pelas virtudes, riquezas, misérias e pecados desse universo fantástico que é a Roma Antiga. Fascinante. 

Sinopse(in wook.pt):
Marco Aurélio, o último dos "cinco bons imperadores" de Roma, é a única grande figura da Antiguidade que ainda nos toca, quase dois mil anos após a sua morte. Podemos entusiasmar-nos com os feitos de Alexandre o Grande, de Aníbal ou de Júlio César, mas a única voz do mundo greco-romano que ainda parece assumir relevância na nossa contemporaneidade é a do homem que dirigiu o Império Romano entre 161 e 180 d. C.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Fernando Namora


Completam-se hoje 26 anos sobre a morte de Fernando Namora e ainda me custa entender como é que este nome vai passando para segundo plano na literatura portuguesa, cada vez mais esquecido.
Pessoalmente, cresci lendo os livros de Namora. Foi um dos meus primeiros ídolos literários.
Médico de profissão, foi um dos mais bem sucedidos escritores portugueses das décadas de 50, 60, 70 e 80. Nesse período publicou obras de grande sucesso como Domingo à Tarde, O Trigo e o Joio, A Noite e a Madrugada e, acima de tudo, Retalhos da Vida de Um Médico, que ficou para a posteridade através da adaptação televisiva, numa série mas também num filme de 1962 que esteve no Festival de Berlim.
A sua formação de base como escritor pode enquadrar-se no rico e fértil meio neorrealista, onde pontificavam nomes como Carlos de Oliveira, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, etc. Mas depressa Namora foi complementando essa tendência natural com uma escrita cada vez mais pessoal, poética e psicológica.  A sua vivência como médico deu-lhe também uma enorme sensibilidade humana e consciência dos problemas sociais, nomeadamente da vida rural, naqueles tempos atribulados da ditadura fascista.
Vinte e seis anos depois penso que seria a altura de, finalmente, as editoras pensarem numa reedição das suas obras.
Aqui fica um episódio da referida série televisiva, de 1980 (primeiro ano da TV a cores em Portugal) com musica de Ary dos Santos e com a presença de grandes nomes do cinema e da televisão em Portugal.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Galveias - José Luís Peixoto


Comentário:
Sem dúvida um dos melhores romances deste José Luís Peixoto que é um dos melhores escritores portugueses do século XXI. E tal como já escrevi algures, Peixoto vai-se destacando não só pela inegável criatividade e qualidade da escrita como também por uma incrível versatilidade. Se nos fixarmos nos seus melhores livros vamos encontrar obras substancialmente diferentes entre si. Há, evidentemente alguns pontos de contacto, que são as "imagens de marca" do escritor (uma certa nostalgia acinzentada, um tom de escuridão no destino das personagens e uma visão um pouco sombria do mundo) mas há também uma criatividade que nos surpreende em cada livro.
O fator surpresa desta obra encontra-se na ambiência rural, fixada em Galveias, a vila onde nasceu e cresceu o autor, aqui recriada nos anos oitenta do século XX, ou seja, na infância do escritor (a ação decorre em 1984 e Peixoto nasceu em 1974).
A escrita de José Luís Peixoto é fria, cruel, às vezes agreste. Em determinados episódios da narrativa as palavras doem, ferem propositadamente a sensibilidade do leitor, tal é a leitura cruel das desgraças humanas. Porque ruralidade não é só bucolismo, moral e bons costumes; ruralidade também é o pecado sob as suas mais diversas formas: violência doméstica, abuso de menores,maus tratos, alcoolismo, etc.
Mesmo assim, não deixa de ser curioso o sentido de humor, um humor baseado nas incongruências do mundo rural.
Em termos de estrutura, o livro lê-se como um jogo: cada capítulo apresenta-nos uma ação aparentemente desligada das anteriores e, lentamente, o leitor vai encontrando os fios de ligação com os episódios anteriores, formando uma trama que é um cosmos único e fechado: Galveias.
Em termos de enredo, tudo começa com o impacto de um meteorito em Galveias, criando uma cratera e deixando um terrível cheiro a enxofre.É nítido o simbolismo deste acontecimento e, ao mesmo tempo, o seu sentido poético: é o universo que envia uma mensagem a Galveias; o meteorito é o traço de união entre a aldeia e todo o universo. 
Este simbolismo está um pouco por todo o lado ao longo do livro. Por exemplo, o ataque à professora que tenta alfabetizar a população simboliza a recusa do saber, no contexto de uma ruralidade conservadora, aversa a fatores externos, como a educação escolar. No entanto,a razão emerge por outras vias e o episódio termina de forma brilhante, com um belíssimo e artístico desfecho.
Ainda e sempre, as memórias e pesadelos da guerra colonial que ajudou a desgraçar este povo. No entanto, até a mais cruel das injustiças é capaz de espalhar sementes de esperança. Assim foi com Joaquim Janeiro que deixou raízes em África, para lá da guerra.
No coração da ruralidade ficam os animais. Em Galveias, os cães, mesmo vadios, são personagens fundamentais; neles se expressa toda a sensibilidade, todo o humanismo de quem vive em comunhão com a natureza e por isso vive e respira os mesmos dramas e o mesmo sofrimento dos animais. 
Em Galveias são as prostitutas que fazem o pão - duas formas complementares de alimentar a comunidade.
Alguns episódios parecem estranhamente desligados do contexto. Por exemplo, quando a  jovem Raquel perde o colar da bisavó numa discoteca de Lisboa. Mas depressa se compreende a dimensão simbólica - aquele colar é Galveias; é o velho mundo, perdido entre o mundo estridente da cidade.
À medida que nos aproximamos do final, adensa-se o dramatismo. O leitor adivinha destinos trágicos mas não pode alterar a trajetória das personagens que parecem caminhar para a desgraça. Porque a vida é mesmo assim: por vezes caminhamos cegamente para a desgraça. O cheiro a enxofre, odor do inferno, é prenúncio de um qualquer Apocalipse. Desde o dia do meteorito, nove meses antes,não chovia e o cheiro a enxofre era cada vez mais forte. No entanto, no final, a esperança triunfará. porque como escreve Neruda, a primavera é inexorável.

Sinopse (in www.wook.pt):
Galveias está entre os grandes romances alguma vez escritos sobre a ruralidade portuguesa.
O universo toca uma pequena vila com um mistério imenso. Esse é o ponto de acesso ao elenco de personagens que compõe este romance e que, capítulo a capítulo, ergue um mundo.
Como uma condensação de portugalidade, Galveias é um retrato de vida, imagem despudorada de uma realidade que atravessa o país e que, em grande medida, contribui para traçar-lhe a sua identidade mais profunda.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Fronteiras Perdidas - José Eduardo Agualusa


Comentário:
Neste blogue já muito se falou da literatura africana de língua portuguesa. Mia Couto, Onjaki, Pepetela, Agualusa, etc. não são apenas bons escritores. São génios. Nesta obra deparamos com uma seleção de pequenas narrativas, contos breves, escritos numa linguagem simples mas cuidada, ornamentada e perfumada pela presença constante da terra africana, das suas sombras e mistérios. E, acima de tudo, a alma africana, expressa nos homens mas também construídas pela natureza selvagem, feita de plantas, animais, terra, paisagem...
Sobre estes alicerces constitui-se um palco por onde desfilam as mais diversas personagens, todas estranhas, todas humanas.Alguns exemplos:
Tudo começa num hotel abandonado, fantasmagórico, tal e qual a nação angolana deprimida pelas guerras...
Um pintor revolucionário, deprimido, desiludido - "o socialismo é o caminho mais longo entre o capitalismo e o capitalismo" - Angola já não é o que era; já não é colonial; já não é revolucionária. Morreu o colonialismo mas morreu também a esperança...
Plácido Domingo é nome de traidor; um traidor fascista que foge aos homens refugiando-se na natureza.
Severino, jovem terrorista de Piuixe (vila de Pio IX) queria desviar o elevador de um prédio a fim de fugir para Cuba, à procura do socialismo...
Raquel, na verdade, chamava-se Fronteiras Perdidas porque em África um nome marca um destino. E Raquel umas vezes era branca, outras vezes mulata, desfazendo fronteiras. Como África que já não é branca nem preta.
Um assassino antropófago enlouquecido pela guerra: "Este país já não é  nosso". Este é o ponto fulcral do livro, tocando um tema transversal a toda a obra de Agualusa: a perda de referências de um povo e de uma nação. Ou de como o desenraizamento leva à desumanização.
A escrita de Agualusa é profundamente poética e triste; melancólica. Há nela a beleza de  paisagens sombrias, personagens quase autómatos, quase mortos-vivos, condenados a um mundo desumanizado.

Sinopse (in www.wook.pt)
Um morto da guerra descansa numa caneca de leite, a meio da noite, em Luanda. Está um passageiro transformado em serpente no lavabo do avião. Um elevador, no Recife, foi desviado para Cuba por alturas do quarto andar. 0 sonho, o delírio, a vergonha, a fé, a pele, a memória, o feitiço, o nome -o ódio e a entrega - são territórios de exílio, e nessa condição, lugares de morança. Misturam-se com uma fluidez voraz: são «Fronteiras Perdidas», linhas de vida de outra maneira, um catálogo de paisagens oníricas. Histórias que não são visíveis mas são visitáveis. Este livro é um caminho para elas e encerra pequenas sabedorias. Por exemplo, a maior: não existem sítios, apenas posições. «Não há mais lugar de origem», diz um dos percursos. Ou então: um hotel em que alguém afirma que dormiu e que está abandonado há anos. E Placido Domingo contempla o rio, em Corumbá.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Lendo Galveias - De volta à Ruralidade


A versatilidade parece ser uma das palavras-chave da escrita de José Luís Peixoto. Galveias (cuja leitura levo a meio) não se parece com nenhum dos seus livros anteriores. É, na minha perspetiva, uma agradável surpresa, por se tratar de uma incursão por um género que Peixoto ainda não explorara e que constitui um domínio tradicional da literatura portuguesa: o romance rural.
Na verdade, a ruralidade foi sempre um traço distintivo de alguns dos nossos melhores escritores. Logo no século XIX, Júlio Dinis presenteou-nos com pérolas deliciosas do romantismo como A Morgadinha dos Canaviais ou esse belo livro As Pupilas do Senhor Reitor. O grande Camilo, por oposição ao urbano Eça deixou-nos páginas brilhantes de ruralidade em obras geniais como as Novelas do Minho, Eusébio Macário ou A Brasileira de Prazins.
Já no século XX, é o neorrealismo, impulsionado pela necessidade de uma perspetiva critica face à ditadura, que assume a voz do povo rural, empobrecido pelo Estado Novo. É neste contexto que se afirmam nomes grandes como Alves Redol, Ferreira de Castro, Soeiro Pereira Gomes, Manuel da Fonseca, etc. Numa perspetiva um pouco menos crítica, um escritor algo injustiçado pela crítica: Fernando Namora. E um escritor enorme da literatura portuguesa: Miguel Torga, esse poeta brilhante que fez poesia das fragas de Trás os Montes, do suor e do sangue do povo a que ele orgulhosamente quis sempre pertencer.
Agora, em pleno século XXI, é Miguel Torga que eu leio em José Luís Peixoto; um Miguel Torga modernizado, com motorizadas Famel e muito sentido de humor mas o mesmo povo sofredor e, acima de tudo, muito português.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Os Cachorros Os Chefes - Mario Vargas Llosa

Comentário:
Nascido no Perú em 1936 e prémio Nobel da Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa configurava uma das grandes lacunas deste blogue. De facto, este foi o primeiro livro que li de Llosa. Não sou, como já disse várias vezes, apreciador da narrativa curta mas este livro é um dos melhores exemplares do género que li até hoje.
Na verdade, a escrita terrivelmente económica de Llosa dá espaço para um estilo cheio de simbolismo em que nada é deixado ao acaso. Os dois contos que dão título à obra encerram um simbolismo que, no entanto, não dão à escrita um carater hermético como tantas vezes acontece em obras do género. Tudo é claro e transparente. Senão vejamos:
No primeiro conto, Os Cachorros, narra-se a história de uma criança, depois adolescente e adulto, cuja vida fica marcada pelas regras rígidas de uma escola interna onde o convívio com colegas e professores é por vezes bastante duro. A essa violência do dia a dia junta-se um episódio dramático em que o nosso herói é mordido por um cão na zona genital. Obviamente, ele ficará marcado para o resto da vida e o seu destino ficará determinado por este acontecimento. No entanto, a castração de que foi vítima simboliza claramente muito mais do que o episódio do cão; representa todo o contexto social e educacional, todo ele castrador de que foi vítima. Assim, os Cachorros, assim mesmo nomeados no plural, só poderão ser entendidos como os seres humanos que rodearam o pobre e infeliz Cuellar. Nem ele nem ninguém pode viver sem os outros e estes são muitas vezes o inferno de Sartre…
Este conto, escrito em 1967, é sem dúvida o mais interessante deste volume. A segunda narrativa (Os Chefes) corresponde ao primeiro texto de ficção que Llosa escreveu, em 1959 e, nas suas palavras, constitui uma espécie de microcosmos de toda a sua obra posterior. O que aí encontramos de significativo e que talvez justifique essa opinião é a análise da violência, particularmente entre jovens, como expressão de um mundo extremamente competitivo, marcado sempre pelos impulsos mais primários do ser humano, que se sobrepõem a uma educação ineficaz. Tal abordagem constitui, certamente, um importante traço autobiográfico pois a personalidade do autor ficou marcada de forma indelével por uma educação muito austera, tendo frequentado um colégio militar.

Os restantes contos desta edição, mais narrativos e de fácil leitura, são interessantes mas não têm a mesma mestria de Os Cachorros, que se destaca claramente. Quanto à temática, o denominador comum a todas estas narrativas é a violência e as constrições sociais que afetam o comportamento humano.

Sinopse: (in www.wook.pt)
Os Chefes (1959) foi a primeira obra publicada de Mario Vargas Llosa, e com ela obteve o seu primeiro reconhecimento literário, o Prémio Leopoldo Alas.
Segundo o autor, «Os Chefes é um pequeno microcosmo do que viriam a ser o resto dos meus livros.» Quando escreveu Os Cachorros (1967) o escritor peruano já era mestre de todas as faculdades da sua narrativa, pelo que este livro acaba por ser uma mostra da diversidade das paixões pessoais e colectivas.
Como afirma Mario Vargas Llosa: «De todas as obras que escrevi, esta é a que tem as interpretações mais diversas.» A partir dos adolescentes protagonistas dos dois textos, o autor reflecte sobre a tirania e a violência que marcam uma sociedade e frustram as expectativas dos seus habitantes.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Segunda Vinda de Cristo à Terra - João Cerqueira


Comentário:
Chega hoje, 21 de Janeiro, às livraras este interessante e inovador livro de João Cerqueira.
A segunda vinda de Cristo à terra teria mesmo de ser diferente; logo de início, os cardeais convenceram Jesus Cristo a esquecer aquela história da pobreza, da justiça social e da igualdade, não fossemos nós cair no pior dos cismas, o Cisma do Património.
Portanto, esta segunda vinda à terra teria de ser mais discreta; nada de sermões para grandes audiências, nada de milagres mediáticos ou de pauladas brutas sobre os vendilhões do templo. 
Logo de início se vê que o livro de João Cerqueira será sustentado por dois grandes pilares, o humor e a sátira, pilares esses que se sustentam sobre um alicerce bem seguro: um enredo atrativo e temáticas polémicas mas atuais.
Em comparação com o seu livro anterior, A Tragédia de Fidel Castro, este apresenta-se de uma forma muito mais acessível ao grande público, com raciocínios bem mais simples e claros. A crítica, mordaz, faz lembrar a grande tradição do teatro vicentino e, em termos de ideias, algo nos faz recordar José Saramago.
Esta tremenda dimensão crítica fica logo bem clara na primeira aventura de Cristo na terra, quando, atraído pela beleza de Madalena, se junta a um grupo de ativistas ecológicos, novos apóstolos na luta contra o mal do capitalismo. No entanto, logo se prova que estes bravos ideais podem ser derrotados… pelos fueiros de um lavrador e sua esposa de pelo na venta.
Mas Jesus teria de ter paciência; não seria fácil trazer tantas almas transviadas ao bom caminho. Na sua primeira visita tinha lutado até à morte contra as injustiças e elas só tinham aumentado daí para diante. Talvez por isso, abalado psicologicamente pelo desastre anterior, volta à terra de cigarro ao canto da boca, em estilo “bon vivant” paz e amor. No entanto, o choque com a realidade foi tão duro que até o Padre Justino chegou à conclusão que Cristo precisava de formação moral e religiosa católica.
O Padre Justino é o símbolo da ignorância cimentada pelo preconceito. Mas é talvez por isso que a sua voz é muito mais aceite pelo povo do que a voz de qualquer Cristo ou de qualquer ativista ecológico. Por outro lado, os extremos tocam-se e os ativistas ecológicos padecem do mesmo radicalismo simplista e preconceituoso. Todos eles – cristãos à moda antiga e ativistas da ecologia - são acéfalos; as suas ”verdades universais” são ridículas; o Bem que eles defendem não passa de um cliché desfasado da realidade.
Um dos maiores méritos deste livro é ter feito do humor uma forma de expressão do absurdo real: de como revolucionários e ultra-conservadores convergem para o mesmo grau extremo de cegueira – o desprezo pela razão. E o humor, direto, incisivo, mordaz, incide precisamente sobre essa cegueira. 
A mesma ignorância é depois transposta para o plano político; o Portugal rural é invadido pelos novos analfabetos, patos-bravos do sistema, abutres das crises em que o país é campeão. São os espertos-saloios, mestres na arte de enrolar o incauto, que tanto pode ser o Estado, como a Câmara, como qualquer “saloio”.
E assim a prosa de João Cerqueira vai-se encaminhando para a sátira política, que mais não é que o retrato risonho e risível deste Portugal profundo dominado pelo xico-espertismo corrupto.
Na parte final do livro, o leitor dá conta que a pergunta fundamental continua sem resposta: afinal, o que veio Cristo fazer à terra nesta segunda visita? E, afinal, ele nada fez perante este miserável estado de coisas? O certo é que o próprio Jesus Cristo parece perdido entre estes cromos portugueses: os empreiteiros aldrabões, os autarcas corruptos, as autoridades saudosas de Salazar, etc.
Até que Jesus, finalmente, consegue fazer algo em prol da paz. Consegue acabar com a violência entre dois cães desavindos… e mais tarde falaria ao coração dos homens; apelaria à sensatez e proclamaria a paz. Mas apenas um cão vadio o ouviu…

Sinopse (in www.wook.pt):
Recorrendo ao humor, à ironia e ao sarcasmo, João Cerqueira apresenta um estilo único cuja qualidade lhe valeu a conquista de três prémios de literatura nos Estados Unidos e a tradução para inglês, italiano e espanhol."A Segunda Vinda de Cristo à Terra" aborda fenómenos de conflitualidade social e política que ocorrem no nosso país. De forma crua e inteligente, o autor conduz o leitor por uma história fascinante onde… no fim... é Portugal que acaba na cruz.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Impressões: Manual de como salvar o Mundo


Há muito tempo que o mundo não assistia a tão dramáticos e sangrentos conflitos relacionados com religião. 
Os chocantes acontecimentos terroristas em França; a catástrofe que se vai desenrolando na Nigéria; a tragédia continuada que se desenrola na Palestina; a desumanidade do Estado Islâmico, levam-me apensar que o nosso mundo está pejado de insanidade. 
As religiões, por definição, defendem o Bem, a paz e a harmonia. No entanto, nunca se matou tanta gente por outro motivo, como se mata pela religião. Desde a Idade Média que assistimos a este drama: muitos seres humanos já não se limitam, a dizer: “o meu Deus é melhor que o teu” e passaram a dizer: temos de exterminar a tua religião.
Quantos milhões morreram nas Cruzadas? Quantos milhões foram mortos ou torturados pela Inquisição? E quantos milhões estão hoje a ser vítimas do radicalismo islâmico?
Perante isto, o meu apreço pelas religiões praticamente reduz-se ao Budismo: a única grande religião que defende e pratica a tolerância.

E se a religião já não pode salvar o mundo, a pergunta que se coloca é: quem o poderá fazer?
E a minha resposta é: A ARTE!
A arte é a beleza; é o lado belo da humanidade.
E a literatura é arte por excelência.
Quantos escritores se notabilizaram por defender ideias totalitárias e violentas? Assim de memória, lembro-me de Celine numa determinada fase; talvez mais dois ou três estalinistas… tristes exceções que só confirmam a regra!
Mas a esmagadora maioria dos artistas são humanistas, defensores da vida humana, da paz e da harmonia entre os povos!
É por isso que, cada vez mais, ler é o melhor remédio!

Ilustração de Jarbas in blogs.diariodepernambuco.com.br