sexta-feira, 11 de abril de 2014

Estórias Abensonhadas - Mia Couto



Sinopse:
Depois de Terra Sonâmbula estas estórias fazem regressar o imaginário moçambicano pela mão de Mia Couto. Se o romance deste autor moçambicano nos transportou para o universo trágico da guerra, estas breves histórias são flagrantes do renascer do país, depois da assinatura do Acordo de Paz. Reúnem-se aqui contos, alguns já publicados em jornal, em que se inscreve o mesmo estilo e a mesma capacidade de sonhar já consagrados em anteriores obras (Vozes Anoitecidas, Cronicando, Cada Homem é uma Raça, Terra Sonâmbula). Os contos já publicados foram, no entanto, revistos e alterados para publicação em livro. Em todas as estórias se reconhece o trabalho profundamente pessoal de recriação da linguagem, o aproveitamento literário da fala popular moçambicana e o pleno exercício da poesia.
In wook.pt

Comentário:
Antes de mais nada, o título: duas palavras magníficas. O termo “estórias” é uma palavra que gostava de ver mais usada quando nos referimos a literatura de ficção. “Abensonhadas” é uma palavra que exemplifica bem a poesia e a criatividade da escrita de Mia Couto.
Já poucos adjetivos me sobram para comentar uma obra deste grande escritor moçambicano. Resta-me talvez dizer que, na minha opinião, é o melhor escritor vivo da língua portuguesa.
Tal como acontece em todas as suas obras, também em Estorias Abensonhadas, Mia Couto brinca com a Língua Portuguesa de forma hábil e divertida; e nesses trocadilhos há uma poesia por vezes genial, como quando do sorriso de uma mulher se diz que “nem água fosse mais cristalinda”. É raro encontrarmos uma beleza como esta na língua portuguesa.
E depois há aquele toque de maravilhoso, de mágico, como no conto “O Cego Estrelinho”, em que o guia do cego, o miúdo Gigito, lhe inventa um mundo maravilhoso, se bem que todo ele inventado. No entanto, para que serve a realidade se podemos inventar mundos muito mais belos?
De notar que estas estórias foram escritas no final da guerra civil que assolou Moçambique. Mas é para lá da guerra que Mia Couto escreve; e para lá da guerra há a terra. A terra maravilhosa, imortal, a terra “perfumegante que semelha a mulher”; a terra sobre a qual cai a chuva que lava o sangue; a terra que é a “mãe das mães”. E o apelo da terra é tão forte que o velho Felizbento, que tem de ser deslocado por causa da guerra, não sai sem levar consigo a árvore da sua terra.
Uma referência para o conto “A Guerra dos Palhaços”. Trata-se de uma bela alegoria da guerra: dois palhaços simulam uma briga e a partir daí provocam uma verdadeira guerra na cidade; e depois de recolherem os seus lucros, vão provocar a mesma guerra noutra cidade…
Finalmente, um destaque muito especial para o último conto: cheio de uma inexcedível e singela beleza…

terça-feira, 8 de abril de 2014

Quincas Borba - Machado de Assis

Sinopse:
Ao ceticismo distanciado de Memórias Póstumas de Brás Cubas segue-se, seis anos depois, em Quincas Borba a credulidade romântica de Rubião, humilde professor tornado rico por herança de filósofo e perdido no Rio de Janeiro e na Corte em busca de emoções. Rubião é fascinado por Sofia e enganado pelo marido desta, Cristiano Palha, que transforma a mulher em instrumento da sua ascensão burguesa. Mas Sofia não tem a audácia de uma Bovary, nem sequer a desenvoltura da Luísa de O Primo Basílio e Rubião naufraga nas esperanças perdidas.
Se Memórias Póstumas de Brás Cubas deixa um rasto de lúcida diversão que evita a tragédia, Quincas Borba mergulha na irreversível loucura do seu personagem. Rubião parece destinado a ilustrar a teoria do filósofo Quincas Borba, resumida na frase: ao vencedor, as batatas. Neste romance cuja acção decorre entre 1867 e 1870 são visíveis os reflexos dos acontecimentos da época, desde a guerra do Brasil com o Paraguai ao esplendor e queda de Napoleão III, com quem Rubião se identificaria.
Comentário:
Misturando um pessimismo ontológico com uma narrativa marcadamente realista, resulta daqui uma obra notável pelo seu simbolismo mas também por uma história agradável e bem humorada. É este, em minha opinião, o mérito maior de Machado de Assis: o de combinar de forma genial o pessimismo com uma escrita agradável e bem humorada.
O nosso herói, tal como em Memórias Póstumas de Brás Cubas, está morto. Machado de Assis mata-o logo nas primeiras páginas do livro. Tratar-se-á de uma metáfora sobre a vida, que não se esgota com a morte? De Quincas Borba ficam duas coisas notáveis que marcarão todo o enredo: o cão com o mesmo nome do dono e a sua filosofia original: o humanitismo.
Rubião é o herói do livro; ele herda três coisas do seu amigo Quincas: o cão, a filosofia com todos os seus efeitos e uma fortuna enorme.
Mas Rubião, ao longo do livro, vai-se “coisificando”. É aqui que entra o pessimismo do autor perante os destinos do ser humano; Rubião há de cair nas garras de uma mulher, Sofia, que o levará à loucura. E de um homem, o marido de Sofia, Cristiano Palha, que o ajudará a esfarrapar a fortuna.
Não estou com isto a revelar segredos sobre o enredo porque para o leitor há surpresas a rodos ao longo do livro; se o destino de Rubião é a loucura, isso qualquer leitor adivinha a meio do livro; no entanto, como Rubião lá chega, isso sim, é a marca do artista Machado de Assis.
Não é por acaso que muitos leitores consideram Machado de Assis um concorrente direto de Eça de Queirós; tal como o génio português, também o escritor brasileiro deixa bem marcado o seu espírito crítico, nomeadamente sobre aquela aristocracia anacrónica, diletante e oca de ideias que se limita a vegetar em torno de quem tem poder e dinheiro. Dessa vida vegetal à política vai um pequeno passo. A ambição do ser humano não reside no enriquecimento pessoal ou ético, mas no poder e estatuto social.

Quanto ao elemento feminino, nem aí Assis deixa os seus créditos por mãos alheias: as atitudes de Sofia perante a paixão proibida de Rubião representarão alguma acusação a uma atitude provocatória típica do sexo feminino? Será Sofia, a mulher fatal, causa de todas as desgraças? Se é este o intento de Machado de Assis, não sei, mas assim parece ao modesto leitor.

sábado, 5 de abril de 2014

O Décimo Terceiro Conto - Diane Setterfield

Sinopse: O Décimo Terceiro Conto narra o encontro de duas mulheres: Margaret, jovem, filha de um alfarrabista, biógrafa amadora, e Vida Winter, escritora famosa, que, sentindo aproximar-se o final dos seus dias, convida a primeira para escrever a sua biografia.
Na sua casa de campo, a escritora decide contar a verdadeira história da sua vida, revelando um passado misterioso e cheio de segredos. As duas vão partilhar vivências profundas, resgatando velhas memórias e confrontando-se com fantasmas há muito adormecidos.
Sem que pudessem inicialmente prever, acabam por entrelaçar as suas vidas de forma tão intensa, que o resultado não poderia ser outro que não uma inesquecível história de amor, amizade e solidão.
in www.presença.pt


Comentário:
Uma autora praticamente desconhecida até agora, revela neste livro uma habilidade narrativa notável. Estamos perante um livro com uma arquitetura muito bem estruturada, uma narrativa complexa mas imaginativa e desenvolvida de forma original. Ao mesmo tempo, vai-se mantendo um mistério que só se revela na última fase do livro, de forma surpreendente. Aliás, este é o aspeto mais polémico do livro. Se, por um lado há um certo suspense que se desfaz de forma surpreendente, por outro lado o leitor pode sentir uma certa deceção porque esse elemento que vem desfazer o mistério tinha sido ocultado pela autora desde o início da narração.
Desde o início é nítida a abordagem da importância da educação por um lado e da força dos laços de sangue por outro, nos destinos individuais. No entanto, para lá dessas duas forças parece haver algo mais, uma espécie de força maior, algo misteriosa e inexplicável que transforma o fantástico no "acontecível".
Um dos aspetos mais notáveis deste livro é a abordagem dos limites ténues entre a realidade e a ficção; Vida Winter, a protagonista do livro, é uma escritora de sucesso. A sua própria vida, no entanto, acaba por confundir-se com esse mundo ficcionado, numa interdependência constante. Se é a vida que imita a arte, como dizia Oscar Wilde ou se, pelo contrário é a arte a imitar a vida, ficamos sem saber e talvez seja isso o menos importante. O que realmente é uma verdade incontornável é que a ficção e a fantasia fazem parte da vida. Neste livro, há um fantasma; mas um fantasma real. Em vários aspetos, a escrita de Diane Setterfield faz lembrar o realismo mágico de Garcia- Márquez ou Isabel Allende. Mas aqui a fantasia é real e verdadeira. Acontecível, como diria Mia Couto. Aliás esse foi outro nome que me veio à memória ao ler este livro. A narrativa do escritor moçambicano é também marcada por esse fantástico que emerge sempre do real, do concreto que há na vida e na mente do ser humano.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O diário oculto de Nora Rute - Mário Zambujal



Sinopse
Nora Rute é uma personagem de romance e, ao escrever o seu diário, vai escrevendo, no desconhecimento do que virá a seguir, o seu próprio romance. Ao mesmo tempo, acrescenta-lhe o registo de acontecimentos e usos que marcaram um ano (1969) desde a chegada do Homem à Lua à moda da minissaia, das manifestações estudantis a guerras em África, aos bares e cafés de Lisboa.
Narrativa de marcada originalidade, O Diário Oculto de Nora Rute coloca os leitores no caminho irrequieto de uma jovem que desafia as regras, as de uma sociedade machista de um pai austero. Predominam as personagens que são membros da família, não só uma misteriosa tia Nanda, a prima Mé mas um quase desconhecido que parece ter conquistado, em definitivo, o amor de Nora Rute. E um primo ribatejano que lhe revelará o reverso das luzes e sombras da cidade.
Ao colocar-se na sua mente de uma forma travessa, Mário Zambujal, sem abandonar o seu estilo próprio de escrita, incorpora-o no espírito e na conduta de uma jovem que descreve no seu diário a agitação dos seus dias.
In wook.pt

Comentário:
Está aqui toda a insustentável leveza da escrita de Mário Zambujal. Fiel ao seu estilo ultra-objetivo, direto e sintético, este simpático jornalista e escritor é uma das pessoas que, em Portugal, melhor convence o leitor que ler é divertido.
Está ali todo o seu talento para nos fazer sorrir, toda a leveza de uma crónica de (sempre) bons malandros. Está ali também a vida como ela é, simples, mesmo que vivida sob o jugo da ditadura e de uma falsa primavera marcelista: a vida de gente comum, mesmo quando nascida no seio da alta burguesia. Nora Rute é filha da burguesia mas anseia, como a maioria dos jovens daquela época, por uma sociedade mais justa e, acima de tudo, menos sujeita aos hipócritas espartilhos morais que a ditadura e a mentalidade mesquinha da velha geração ainda mantinham vivos.
A luta de Nora Rute não é apenas a luta por uma felicidade pessoal mas sim por um país melhor. E é esse sentido do social ou mesmo do “humano” que talvez se tenha perdido no tempo; e talvez seja por isso que se vislumbra, nas entrelinhas de Zambujal, alguma melancolia, perdida entre o humor e a leveza da sua escrita.
No entanto, se adjetivei esta leveza como “insustentável” foi porque, no final do livro, fica esta sensação desagradável de insatisfação pela modéstia da obra. Trata-se do diário de uma jovem durante o ano de 1969. Foi um dos anos mais fascinantes do século XX. Em Portugal, o fascínio da chegada à Lua ou do Woodstock foi acompanhado pela falsa esperança da primavera marcelista e pelos indícios, ainda que ténues, de uma mudança que se adivinhava como inevitável na História de Portugal. Mas Mário Zambujal, para desespero do leitor, limita-se a tocar ao de leve todos estes acontecimentos. Esta limitação é inerente ao estilo de Zambujal, bem sei, mas o modesto leitor não deixa de pedir mais…
Um dos aspetos mais interessantes do livro e que Zambujal poderia ter desenvolvido um pouco mais é a abordagem que faz à alta burguesia, no papel do pai de Nora Rute, empresário ligado ao regime mas hesitante e desconfiado em relação ao mesmo.

Enfim um livro agradável que se lê de um fôlego, exigindo atenção máxima em virtude da escrita “económica” de Zambujal, um livro divertido, agradável mas não se espere deste autor obras de fundo ou reflexões para as quais ele não está, decididamente, voltado.

terça-feira, 25 de março de 2014

O centenário que fugiu pela janela e desapareceu - Jonas Jonasson

Sinopse:
No dia em que Allan Karlsson celebra 100 anos, toda a cidade o aguarda para uma grande festa em sua honra.
Mas Allan tem outros planos... Morrer de velho? Sim, mas não ali!
Munido de um par de chinelos gastos, joelhos empenados e uma ousadia tremenda, Allan lança-se numa extraordinária aventura, arrastado numa torrente de equívocos e golpes de sorte.
E ao mesmo tempo que acompanhamos a sua última viagem (ou será que não?), conhecemos o seu passado, perdido entre guerras, explosões e mulheres fatais - qual delas a mais perigosa!
Uma estreia literária impressionante que conquistou centenas de milhares de fãs.

Comentário:
Tão só, a maior surpresa dos últimos tempos. Uma estória hilariante, de uma criatividade notável.
A Porto Editora está de parabéns. Nos últimos tempos tem-nos revelado autores de enorme qualidade. Este é um deles.
 A linguagem, simples, direta e objetiva mostra bem a formação do autor como jornalista, uma escrita muito visual, sem adjetivações ou descrições desnecessárias.
O enredo envolve uma imaginação extraordinária. O aspeto que mais me impressionou neste livro foi a verdadeira lição que o autor nos dá de como tornar credível uma história completamente inacreditável. Há peripécias que, à luz da inteligência, são praticamente impossíveis mas que, no contexto que o autor constrói se tornam quase lógicas. Assim, o leitor vai aceitando com a maior das naturalidades todas aquelas peripécias, como um bandido a ser abatido pelo traseiro de um elefante.
O lado mais sério do livro é a forma como o autor, com toda a leveza, nos ir apontando e ilustrando toda a sorte de anormalidades que o ser humano alimenta; estão aqui todos os vícipos e defeitos da humanidade: o racismo, a violência, a ambição desmedida, a corrupção, todo o tipo de preconceitos e de atividades criminosas que forma povoando a história da humanidade ao longo do século XX. E o nosso herói passa por todos esses episódios de malvadez, sempre com a mesma capacidade de nos fazer rir à gargalhada.
Não é um livro capaz de se tornar um clássico; não tem, nem podia ter a dimensão de uma grande obra literária; não é um livro escrito para nos fazer refletir profundamente; mas é um livro como poucos para cumprir essa missão que todos os livros de ficção deviam ter: a capacidade de nos fazer rir e de nos tornar um pouco mais felizes.
Uma das opiniões mais interessantes e verdadeiras que li sobre este livro foi-nos dada pela N. Martins, do Blogue Quero Um Livro:
Este livro é absurdo da primeira à última página! A história é absurda, Allan Karlsson, o centenário que no dia do seu centésimo aniversário decide que não quer morrer no lar de terceira idade, é absurdo e, por fim, todo o livro é absurdamente bom e divertido!”

É isso mesmo: é absurdo mas verdadeiro; é absurdo mas credível; é absurdo mas tremendamente divertido.

sábado, 22 de março de 2014

O Menino Grapiúna - Jorge Amado



Sinopse:
No sul da Bahia, o menino Jorge Amado testemunhou o nascimento de cidades, as guerras pela posse da terra, o florescimento de uma cultura e de uma mitologia. Nesse mundo rude conturbado, de muita vitalidade e quase sem lei, forjaram-se a sensibilidade e os valores do futuro escritor.
Esse processo de formação, entre jagunços, coronéis, malandros e prostitutas que serviriam de modelo a muitas de suas criações literárias, o autor evoca aqui com as cores vivas e o humor caloroso a que estão habituados seus leitores.
São personagens inesquecíveis, como o aventureiro tio Álvaro Amado, que o levava às mesas de jogatina e aos bordéis; o jagunço José Nique e o padre Cabral, que apresentou ao pequeno Jorge as Viagens de Gulliver e os livros de Charles Dickens.
Jorge Amado também adquiriu nesses primeiros anos seu inquebrantável amor pela liberdade, sobretudo quando se viu privado dela, ao ser enviado a um internato jesuíta.
Não por acaso, estas breves memórias se encerram com a fuga espetacular do internato: "Fugi no início do terceiro ano, atravessei o sertão da Bahia no rumo de Sergipe, iniciando minhas universidades". O aprendizado elementar da vida já estava completo, e é ele que Jorge resgata neste livro encantador, publicado originalmente em 1981.
In http://www.livrariasaraiva.com.br
Comentário:
Impressionante a forma como em poucas dezenas de páginas Jorge Amado consegue construir uma autobiografia (embora parcial) em que, de forma muito transparente, o leitor encontra explicação para tantas das suas características essenciais como escritor.
Na verdade, este livrinho é essencial para compreender a obra deste imenso escritor que tão dignamente engrandeceu a língua portuguesa. Aqui encontramos a explicação para muitos dos seus personagens-tipo, para as paisagens físicas e humanas dos seus livros, assim como os seus dilemas e problemas sociais. Não é necessário recorrer a leituras psicológicas profundas para perceber como a infância de um escritor determina muitos dos seus traços fundamentais. Neste livro, essa influência é absolutamente clara.
Nascido numa família de aventureiros, na primeira fase do século XX, o miúdo grapiúna ficou desde cedo marcado pelo contacto com toda a sorte de homens de armas, soldados da fortuna ou da miséria, homens deserdados à procura de um sonho. Fruto de uma família marcada por mais desventuras que sortilégios, o pequeno teve uma infância marcada pelo contacto com um tio paterno, Álvaro Amado, um personagem fascinante. Mais tarde veio o contacto com os vagabundos e os jesuítas; o leitor fica sem saber qual destas influências se tornou mais positiva para o escritor; da mesma maneira se pode falar das prostitutas e dos jagunços da Baía.
Numa infância marcada pelo mais profundo conhecimento da natureza e do povo brasileiro, não podia faltar o convívio com o regime dos coronéis e da heróica resistência a uma das fases mais violentas da história do país-irmão.

E, obviamente, os livros: um mundo em que o autor se iniciou no colégio dos jesuítas, emergindo o génio da escrita nos seus modestos onze anos. Finalmente, a raiz dos sonhos. Sonho de vida mas, acima de tudo, sonhos que acalentou sempre para uma humanidade mais feliz; uma humanidade que teria de ser conquistada por uma revolução, mas sem ideologia. A isto se resumiu, talvez, o sonho maior do menino grapiúna e do escritor.

sábado, 15 de março de 2014

Coração, Cabeça e Estômago - Camilo Castelo Branco


Este livro é, acima de tudo, mais uma prova da enorme versatilidade deste escritor. Poucos como ele foram capazes de construir um estilo que perpassou três “escolas” oitocentistas: o romantismo, o realismo e até o naturalismo.
Nesta obra podemos encontrar um pouco de tudo: uma abordagem de notável crítica social, uma sátira de costumes e, acima de tudo, um exercício literário do mais fino e requintado humor, ao nível das suas obras mais hilariantes, como A Queda de um Anjo ou Eusébio Macário.
Esta é a história de um desgraçado; talvez mesmo apaixonado pelo fado se fado houvesse naqueles tempos. Silvestre segue os ditames do coração, depois da cabeça e depois do estômago mas só encontra a desventura; talvez seja esse o destino de quem se deixa conduzir pelas exigências do corpo.
As donzelas e senhoras por quem ele se apaixona são o reflexo de todos os males da época, que Camilo aponta com mordacidade: a ignorância da donzela destinada apenas ao casamento, a menina que lê romances de amor construindo castelos encantados que depois troca pela paixão de um caixeiro bêbado, a senhora que apenas vê o estatuto social e a renda, ou a pobre que se desgraçou porque a sociedade a julgou pela aparência.
É muito curiosa, por exemplo, a forma como Camilo, na voz do narrador (o próprio Silvestre) se refere à mudança de padrão de beleza feminina: “Estas meninas de quinze anos, que eu hoje conheço no Porto, são as filhas das robustas donzelas, que me enchiam de satisfação os olhos na minha mocidade. Que degeneração!”
Também os homens acabam por ser vítimas de uma mentalidade e de um enquadramento social que Camilo ridiculariza em cenas quase queirosianas: os duelos patetas e a cobardia de quem nem essa patetice enfrenta, o ridículo dos cavalheiros que encaram o amor como uma forma de obter distinção social e que exploram de forma abjeta a posição inferior da mulher na sociedade.
Em conclusão, estamos perante um dos livros mais divertidos de Camilo Castelo Branco: singelo, fácil, de escrita fluida e despretensiosa, própria de um escritor que trabalhava para sobreviver. Mas nem por isso deixa de ser uma obra com grande impacto na sociedade do século XIX, à qual Camilo não hesitou em apontar os defeitos: o snobismo das aparências de uma aristocracia falida, a futilidade interesseira do pensamento burguês ou a ignorância e mesmo o obscurantismo de um Portugal ainda (e sempre) algo medieval.

terça-feira, 11 de março de 2014

Million Dollar Baby - F. X. Toole



Confesso que parti para a leitura deste livro com alguma dose de masoquismo. Não gosto de boxe e o que aqui se trata é de seis contos sobre boxe. No entanto, já muitas vezes me surpreendi com livros que, à partida, também tinham tudo o que é preciso para não me agradar e, no entanto, revelaram-se boas surpresas. Não é este o caso e as minhas piores expetativas confirmaram-se: estes contos, principalmente o mais conhecido e que dá nome ao livro, narra acontecimentos que derivam de uma atividade física que, desculpem-me a sinceridade, envolve uma violência atroz.
Se levava um pré-conceito pouco abonatório para o livro tinha também alguma esperança que esta leitura me mostrasse algo de positivo neste desporto. Nem isso se verificou.
Trata-se de seis contos sem grande qualidade literária, escritos numa linguagem vulgar, que se leem sem esforço, é certo, mas sem qualquer primor literário.
O sangue e o sofrimento humano fazem parte da vida, mas quando eles derivam de uma atividade dita desportiva, tudo acontece como se esse sofrimento perdesse qualquer sentido. A história da protagonista do conto principal, que deu origem ao famoso filme do mesmo título, é uma história dramática, pungente, que desperta a compaixão do leitor e mesmo alguma revolta perante a injustiça humana. Mas continua a prevalecer aquela ideia de insensatez de tudo quanto levou ao desastre da personagem.
Mas, independentemente da minha dificuldade em compreender o espírito do boxe, devo reconhecer que se trata de uma obra que pode ser muito interessante para quem compreende aquilo que eu não consigo compreender. E admito que se trate de mera incapacidade minha.
Na imagem, Clint Eastwood e Hillary Swank, no filme de 2004 vencedor de 4 Óscares.

domingo, 9 de março de 2014

Mistérios de Lisboa - Camilo Castelo Branco





Sinopse:
Alexandre Cabral em Dicionário de Camilo Castelo Branco considera os Mistérios de Lisboa o "produto de uma imaginação truculenta e incontrolável". "Os enredos - múltiplos e diversificados - entrelaçam-se no conjunto dos 3 vols., sendo os seus protagonistas personagens estranhas que têm em comum a faculdade exótica de mudarem de nome com a mesma facilidade como quem muda de camisa. Assim, Pedro da Silva, conhecido por João, chamar-se-á também Álvaro de Oliveira; o "Come-Facas" usava os seguintes pseudónimos: Barba-Roxa, Leopoldo Saavedra, Tobias Navarro e Alberto Magalhães, e Sebastião de Melo faz-se passar pelo padre Dinis Ramalho e Sousa e duque de Cliton. Por outro lado, a vastidão do mundo (Portugal, França, Bélgica, Inglaterra, África, Japão e Brasil) é o cenário onde se desenrolam os conflitos ficcionais, marcados por vectores que perdurarão na novelística camiliana: a vingança, o anátema, o amor de mãe, a passionalidade, que se confunde com a ganância, a perversidade e a santidade. De permeio indícios vários de reminiscências biográficas do autor." Mais de 150 anos após a sua publicação original o livro "em que os pecadores podem ascender à virtude, e a virtude se conquista através de sofrimentos e lágrimas" é levado ao cinema pelo realizador Raúl Ruiz.
In wook.pt
 Comentário:
Camilo Castelo Branco publicou esta obra com apenas 28 anos, constituindo a sua primeira obra de grande folego. Não é, nem de perto nem de longe, uma leitura agradável; trata-se de um livro muito extenso, com centenas de personagens e um enredo algo complexo, em que as personagens aparecem e desaparecem de cena de forma algo abrupta. Também as coincidências, essas inimigas da boa ficção, se multiplicam de forma perturbadora. Talvez, nesta fase da sua vida, Camilo ainda procurasse um estilo, mas a experiência acabou por redundar num livro excessivamente extenso e exagerado em vários aspetos.
É conhecida a famosa instabilidade de Camilo enquanto escritor. Ele é, na sua base, um romântico mas vai mesclando esse predomínio com traços realistas e até naturalistas. No entanto, neste livro reina um forte e exagerado romantismo, na análise psicológica das personagens e, principalmente numa visão catastrofista da vida.
Nas novelas tipicamente românticas do século XIX, a tendência das personagens femininas vai para o desmaio fácil, o choro e o desespero. Aqui, pura e simplesmente, elas morrem! Convento, loucura e morte. Isto, para o leitor comum, como é o meu caso, chega a ser desesperante. Desistir da leitura foi uma tentação constante. Não o fiz por saber que se trata de uma obra fundamental na bibliografia de Camilo; mas chega a ser desesperante a forma como Camilo deixa as suas mulheres cair numa profunda e dramática instabilidade mental e na velha e irritante estória da morte por amor!
Quanto aos homens, esses chafurdam no amor, deixam-se ridicularizar pelas paixões e acabam em duelos de honra! Irritante! O aspeto mais positivo desta obra é, a meu ver, a abordagem de temas fulcrais da realidade social e política da época, nomeadamente as convulsões provocadas pela guerra civil entre miguelistas e liberais e, acima de tudo, a crítica ao sistema de morgadio vigente na época. É nítida uma certa compaixão e mesmo revolta do autor perante o desprezo a que eram votados os filhos segundos, em detrimento do morgado. Também os filhos ilegítimos, os direitos das mulheres, a ignorância da burguesia e a arrogância da nobreza são temas fulcrais na época, a partir dos quais a escrita de Camilo se aproxima da abordagem realista, tão bem cultivada pelo seu contemporâneo Eça de Queirós.
Em suma, trata-se de uma obra onde Camilo parece ter procurado uma certa erudição, uma profundidade narrativa talvez influenciada pelo romantismo francês mas que redunda num enredo pastoso, difícil, pejado de coincidências inacreditáveis e, acima de tudo, uma melancolia quase macabra onde a morte espreita por todos os lados, até dominar todo o enredo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Zangado com o Blogspot

Estou a ficar farto disto! Não consigo resolver o problema e parece que não sou o único: a maioria das minhas atualizações não aparecem nas listas de blogues dos meus seguidores!
Já enviei reclamação para lá mas, como é óbvio, querem lá saber!
Apetecia-me dizer um palavrão, mas como não posso, limito-me a um desabafo amputado: da-se lá o Blogspot!
(perdoem a falta de estilo literário) :)

Bel-Ami - Guy de Maupassant


Sinopse:
“Bel-Ami” é um romance realista escrito por Guy de Maupassant publicado em 1885 sob a forma de folhetim na revista literária “Gil Blas”. O romance explora a sociedade e as atitudes em relação à riqueza, ao poder e ao oportunismo, retratando a ascensão social de Georges Duroy, homem ambicioso e sedutor, além de arrivista e oportunista, lançado ao topo sociedade parisiense, graças à ajuda de suas amantes e do conluio entre a imprensa, as finanças e a política. Maupassant descreve as ligações existentes entre o capitalismo, a política e a imprensa, além da influência feminina, privadas da vida pública da época. A obra se apresenta como uma pequena monografia da imprensa parisiense, onde Maupassant retrata implicitamente a sua própria experiência como jornalista. Assim a ascensão de Georges Duroy, ou “Bel-Ami”, pode ser comparada à própria ascensão de Maupassant. De fato, “Bel-Ami” é a descrição perfeita e inversa da vida de Guy de Maupassant, onde Georges Duroy representa o contrário do autor, conforme pode ser visto ao longo do romance. Através do personagem, o autor nos faz descobrir o mundo do jornalismo e da alta sociedade, sob a ótica dos escândalos políticos e financeiros.
In http://www.livrariasaraiva.com.br
 
Comentário:
Enquanto romancista, Guy de Maupassant foi considerado um dos mais importantes representantes do naturalismo que, na literatura francesa foi uma espécie de realismo levado aos limites. Aparentemente esta opção estética é resultante de uma aprendizagem de Maupassant com o seu amigo e mentor Gustave Flaubert. Nesta obra, Bel-Ami é um excelente exemplo deste estilo, que teve em Émile Zola o seu expoente máximo.
Bel-Ami é o “nickname” de um jovem aventureiro na sociedade francesa de finais do século XIX. Bel Ami é ambicioso, é prepotente e, acima de tudo é amoral. Tudo na sua vida se pauta por um desejo indómito de atingir os seus objetivos, principalmente o de conseguir um lugar de destaque na sociedade parisiense. Para tal, as mulheres são as suas vítimas prediletas; elas são os degraus de uma escada que não respeita limites nem obstáculos. Neste aspeto, Maupassant parece exprimir algum repúdio pelo espírito feminino: é admirável a forma como as mulheres parisienses se deixam envolver pela perfídia e pelo charme de Bel-Ami.
Se, por um lado, o naturalismo de Maupassant se exprime no encarar da personalidade humana como fruto do meio social, a verdade é que o traço dominante desta obra é a crítica social: muitas vezes mordaz, esta crítica é, acima de tudo, profundamente melancólica. Ao longo do livro vai-se tornando cada vez mais nítida a visão pessimista da vida humana: Bel-Ami não olha a meios para atingir os seus fins mas toda a sociedade vive nessa ânsia quase irracional de procura do sucesso e da riqueza, levando os personagens à perda de qualquer conteúdo moral. Neste aspeto, afasta-se muito do realismo de Flaubert, nomeadamente na visão algo trocista e mesmo cómica de Madame Bovary.
Por outro lado, a perfídia de Bel-Ami é interpretada, em grande parte, a partir do seu passado miserável. Neste aspeto, a escrita de Maupassant herda a tradição da literatura francesa oitocentista, no que respeita à intervenção política. Ou seja, o associar das condições materiais de existência à origem social. Bel-Ami é, em parte, empurrado para a devassidão moral pela miséria da vida material. Neste campo, as páginas de Maupassant aproximam-se das mais belas páginas de Victor Hugo.
Em termos de estilo, estamos perante uma leitura muito agradável, com uma escrita fluida, objetiva e algo cinematográfica.
De 2012, há uma adaptação cinematográfica desta obra:
http://www.imdb.com/title/tt1440732/

segunda-feira, 3 de março de 2014

A Arte da Guerra - Sun Tzu



Sinopse:
Sun Tzu (544 - 496 A.C.), é considerado um dos maiores estrategas militares de todos os tempos. Esta sua obra é considerada de grande importância nos escritos militares e estratégicos de toda a história da humanidade. Segundo os especialistas, apenas Carl von Clausewitz (Arte e Ciência da Guerra) se pode comparar, embora A Arte da Guerra seja mais acessível à leitura. Mais do que um livro militar, A Arte da Guerra é considerado um livro filosófico e vezes sem conta, acaba por ser uma referência noutras áreas como por exemplo, a gestão. A presente edição, para além de profusamente ilustrada, conta com um texto que provém da edição clássica de 1963, da Oxford University Press.
Sem dúvida, estamos perante a edição mais cuidada e quiçá a mais completa, alguma vez editada em Portugal.

Comentário:
A Arte da Guerra é considerada uma das obras literárias mais antigas do mundo, escrita por Sun Tzu, um estratega chinês, no século V ou VI a.C.)
Em termos objetivos, trata-se de um autêntico manual para quem dirige um exército, em guerra. Nesse âmbito, surpreende a escrita objetiva, direta, muito clara, com todos os aspetos que rodeiam a arte da guerra, desde a preparação da batalha até ao seu desfecho.
Obviamente, se este fosse o único aspeto notável da obra, nunca eu a teria lido. Acontece que o impacto deste livro no mundo literário e mesmo em termos históricos foi enorme. Hoje em dia há mesmo empresas que aconselham os seus funcionários a ler este livrinho e a tentar associar aquele espírito guerreiro à sua atividade profissional. É que, mais do que um tratado de guerra, este livro é um tratado na arte do engano, do engodo, da capacidade para iludir os adversários. Por outro lado, ao longo de todo o livro é exaltado o valor da disciplina; esse é um aspeto fundamental, não só na guerra tradicional como nas muitas guerras que o mundo capitalista em que vivemos acaba por envolver. Na verdade, se há 2500 anos era fundamental enganar os inimigos no terreno de batalha, hoje parece ser fundamental enganar os inimigos no campo de batalha empresarial. E esses inimigos são muitos, desde o Estado que cobra impostos, a concorrência que nos quer esmagar e, acima de tudo, essa massa anónima que são os consumidores que se pretende subjugar.
Todo este impacto deste pequeno livrinho levou a que fosse mesmo encarado como um tratado filosófico. De facto, nele se encara a vida como uma extensão da guerra; não como se as batalhas fossem uma consequência da vida das nações mas como se toda a vida da nação derivasse da guerra.
Não se pense, n o entanto, que o conceito de guerra, neste livro, se transforma na exaltação da violência. Pelo contrário: uma das ideias mais interessantes do livro é esta: a maior vitória é aquela que se consegue sem batalha; sem confronto; é aquela que resulta da subjugação do inimigo antes mesmo do confronto. O pior é que, para lá chegar, Sun Tzu defende toda a sorte de  estratégias, algumas delas que consideraríamos hoje como muito pouco éticas: tudo vale para enganar o adversário.