sábado, 25 de abril de 2015

Por uma nova Esperança


Havia cheiro a pólvora e miséria.
O Monstro fedia  a mofo e berrava por sangue.
E os homens, trémulos, a medo calavam as mágoas, as dores de uma pátria castrada, amordaçada, pisada pelas botas pétreas de dinossauros cinzentos, medonhos.
No ar pairava o cheiro a guerra, o pesadelo de corpos despedaçados que chegavam repartidos por caixões anónimos, revestidos a chumbo, e um povo que chorava de raiva, de fome e miséria.
E pairando acima de tudo isto, para lá das nuvens venenosas do vulcão fascista, uns quantos eleitos do regime continuavam a rugir, receosos do poder do povo mas vomitando raiva.
E tantos anos depois ainda ouvimos os ecos desse rugir, dessas barrigas poderosas alimentadas pela miséria do povo.
Quarenta e um anos depois são novos os fantasmas salazarentos. Vêm agora disfarçados de banqueiros, magnatas dos mercados e políticos de ocasião, paus-mandados e patos bravos sequiosos de sangue. São os novos vampiros, ó Zéca!
Portanto, façamos de novo Abril! Deixemos voar a gaivota! Ressuscitemos a Esperança! E enterremos esse bafio salazarento que por aí ainda nos obrigam a respirar.
Abril Sempre!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Terceiro Gémeo - Ken Follett

Ken Follett é um chato no bom sentido. Basta pegar num livro dele, de preferência um destes com largas centenas de páginas e temos noites mal dormidas asseguradas. Não que nos provoque pesadelos; pode até acontecer mas não é a isso que me refiro; é que livros como este não se largam facilmente; eles resistem colados à nossa mão enquanto o relógio avança na noite e a mesa de cabeceira ali, à espera que o livro vá ter com ela. Mas quando finalmente o livro regressa à mesinha, já leva o marcador de páginas bem lá para a frente e já uns raios de luz espreitam pela persiana mal fechada.
É assim Follett, empolgante!
Neste livro, que até nem tem um ritmo narrativo muito grande, o mistério não abandona o leitor do princípio ao fim; e cada vez mais me convenço que um dos maiores méritos deste génio literário é o fato de nunca ter prosa em demasia; a sua economia de escrita é excelente, fazendo com que tudo o que lá está nos pareça essencial e não careça de grande esforço de leitura.
O enredo deste livro passa-se, ao contrário do habitual em Follett, nos EUA. E atrevo-me a dizer que Follett não deve ter feito muitos amigos em terras do Tio Sam. É que muitos dos aspetos aqui desenvolvidos surgem numa perspetiva bastante crítica em relação aos ”States”: um sistema universitário corroído pelos interesses económicos, um sistema de saúde minado pela corrupção e pelo capitalismo selvagem; um sistema prisional muito falível; uma polícia muito pouco simpática e muitas vezes violenta e avessa a regras; uma comunicação social ávida de escândalos e uma sociedade cheia de preconceitos. 
Quanto à temática, aparentemente ela centra-se no atual tema da clonagem mas na verdade radica em algo mais profundo: na ameaça de controlo da genética pelos poderes económico e político, que podem constituir uma grave ameaça ao futuro de uma humanidade livre.
Finalmente, uma curiosidade: a certa altura do livro o leitor dá conta, surpreso, de que a chave do enigma está no título! Mas depressa se desengana; a questão está muito para lá de um terceiro gémeo.
Enfim, mais um livro excelente deste galês que não deixa de me surpreender. Não que estes policiais do início da sua carreira sejam geniais; não são pérolas literárias, mas são terrivelmente capazes de nos entreter e divertir. E que melhor podemos esperar dos livros?

Sinopse (in www.wook.pt)
A cientista Jeannie Ferrami, especialista em gémeos e nos componentes genéticos da agressão, faz uma descoberta espantosa. Recorrendo a um banco de dados do FBI, descobre dois homens que parecem ser gémeos verdadeiros: Steve, estudante de direito, e Dennis, assassino condenado. No entanto, nasceram em dias diferentes, de mães distintas, em hospitais separados por centenas de quilómetros.
Que segredo terá ela desvendado? Poderá confiar no seu chefe e mentor, ou terá de pôr a sua vida nas mãos de Steve Logan, o gémeo por quem se apaixona, apesar de ele estar envolto em intriga e suspeita? Uma coisa é certa: não há nada que faça certas pessoas deixar de conspirar na sombra…

domingo, 19 de abril de 2015

Gunter Grass partiu e nós continuamos a tocar tambor


Na semana que hoje termina faleceu um grande escritor; um génio chamado Gunter Grass.
Infelizmente, só li um livro dele, pelo que não sou a pessoa ideal para fazer grandes considerações em torno da sua obra. Mesmo assim, atrevo-me a dizer algo que me parece vir bem a propósito.
Li O Tambor (O Tambor de Lata no Brasil) há alguns anos. Se bem me recordo, o livro conta a estória de um jovem de nome Óscar, em plena segunda guerra mundial. A mensagem que me ficou do livro, ainda que vista à distância de vários anos, foi esta: Hitler tentava arrasar a Europa, chacinava os judeus, ambicionava dominar o mundo, causava uma guerra que resultou em vinte e tal milhões de mortos e, enquanto isso, Óscar tocava tambor. E parecia que toda a Alemanha tocava tambor enquanto Hitler e seus pares cometiam as maiores atrocidades.
A ideia que me fica hoje é que, no ano em que Gunter Grass nos deixou, muitos de nós continuam a tocar tambor…
É por isso que a Literatura é uma grande arte: há sempre atualidade nos grandes mestres, mesmo depois de eles nos deixarem…

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um Gladiador só Morre Uma Vez - Steven Saylor

Comentário:
Cá estou eu, de volta ao mestre da ficção, histórica, no que a Roma Antiga diz respeito.
Este é o segundo dos livros da coleção Roma Sub-Rosa em formato de contos. Começando pelo lado menos positivo, devo dizer que este conjunto de contos me pareceu menos rico e interessante que os do outro volume, A Casa das Vestais. Estes contos pareceram-me um pouco mais previsíveis, com enredos e desfechos por vezes um pouco forçados.
Mesmo assim, prevalece o enorme taleto do autor para a narrativa de ficção histórica. Em cada um dos contos há um aspeto da realidade romana antiga a ser desenvolvido. Todas as narrativas se situam, tal como acontece com todos os sete livros da coleção, na fase final da república romana, mais exatamente desde a ditadura de Sila à fase dos triunviratos que precedem a inauguração do sistema imperial por Octávio Augusto.
Os contos do presente volume abordam temáticas por vezes muito interessantes sobre o quotidiano de Roma antiga: em A Mulher do Cônsul, uma interessante história sobre o consulado de Décimo Bruto, Saylor dá-nos uma novidade incrível: embora os jornais diários tenham sido inventados na época contemporânea (salvo erro século XIX), em Roma ano séc. I a. C. já existia um diário: as Actas do Dia era uma espécie de jornal mural que se afixava diariamente em Roma e onde não faltavam as coscuvilhices, tão do agrado dos romanos e as não menos apetecíveis notícias desportivas. 
Um dos aspetos mais interessantes é a abordagem dessas grandes ameaças à Republica Romana e que, em parte, explicam o advento do sistema imperial: a ameaça de Mitridates do Ponto no Oriente do Império e o “reino” de Sertório na nossa Península Ibérica. Ambos ambicionavam derrotar Roma mas o assassínio de Sertório e a derrota de Mitridates às mãos de Lúculo e Pompeu, permitiram a sobrevivência desse grandioso e brilhante império que dois mil anos depois ainda encanta a nossa imaginação.
Os contos mais interessantes deste volume são, a meu ver, aquele que dá título ao livro e o último, As Cerejas de Lúculo. Em Um Gladiador só Morre Uma Vez dá-se a conhecer a incrível vida dos gladiadores, alguns deles lutadores profissionais e a maioria escravos obrigados a lutar até à morte. Este prazer que os romanos encontravam na violência é o aspeto mais sórdido e mesmo bárbaro deste povo brilhante. Mas nem todos apreciavam as lutas; um dos seus opositores é o brilhante Cícero que mais uma vez, neste livro, é retratado de uma forma muito mais positiva do que o fez a historiografia: menos austero, menos vaidoso e até com algum sentido de humor. 
O conto As Cerejas de Lúculo é uma interessante narrativa sobre esse magnífico fruto que os romanos foram buscar ao Ponto (reino oriental situado sensivelmente no norte da atual Turquia) e que depressa se espalhou pela Europa. Neste conto deparamos com duas interessantes e importantes figuras históricas da república romana: Lúculo, que iniciou a pacificação do Médio Oriente e se tornou cônsul em Roma e o austero Catão. Trata-se de uma estória notável com interessantes implicações filosóficas a propósito da natureza do conhecimento humano, um tema que como se sabe muito preocupava os intelectuais da época.
Sinopse (IN WWW.WOOK.PT)
Estas novas aventuras de Gordiano, o Descobridor, cobrem a fase inicial da brilhante carreira do detective em plena Roma antiga, num momento em que a mulher, Bethesda, era ainda sua escrava, e o filho, Eco, um rapazinho mudo, oferecendo aos seus fãs a possibilidade de assistir ao crescimento importantes relações pessoais e políticas, incluindo a de Gordiano com o legendário orador Cícero.

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Estilete Assassino - Ken Follett


Comentário:
Empolgante. É este o único adjetivo que acho aplicável a este livro. Talvez Genial não destoe…
Na verdade, este senhor proveniente das verdes terras de Gales, esse belíssimo cantinho de sua Majestade, é um génio impar na arte de escrever estórias emocionantes, cativantes. Ele escreveu este livro com 28 anos, ainda muito longe da genialidade de Os Pilares da Terra ou da Trilogia do Século. Mas quem lê este livro dificilmente vaticina que teria sido escrito por um jovem de 28 anos. Trata-se de um tríler magnífico, com emoção do princípio ao fim, um daqueles livros que mau grado as quase 400 páginas não nos deixa dormir sossegados enquanto não terminamos. O ritmo narrativo é perfeito, não há descrições desnecessárias, a linguagem é clara e cativante e, acima de tudo, a emoção vai da primeira à última página, sem exageros nem situações forçadas. Aliás, para um autor de 28 anos é surpreendente como evita os clichés e constrói uma estória complexa sem recorrer a desfechos fáceis. Por outro lado é admirável como Follett, já nessa altura, estudava aprofundadamente os assuntos a abordar (como quase sempre de natureza histórica). Neste caso, é muito interessante e correta a forma como aborda as movimentações que conduziram ao desembarque na Normandia, movimento militar que conduziu de forma definitiva ao desfecho da segunda guerra mundial. Mas também é notável a abordagem das estratégias de espionagem e contraespionagem do referido conflito, assim como o efeito da guerra na população civil. Ou seja, como é próprio de um grande escritor, a Follett já nessa altura não escapava o drama humano como ingrediente essencial da grande literatura.
O espião alemão em Inglaterra, personagem principal desta estória, desde cedo se torna fascinante aos olhos do leitor pela forma como alia a frieza e a inteligência à ausência de sentimentos. No entanto, é esse um dos aspetos humanos mais interessantes do livro: a forma como, ao longo do enredo, o espião vai lidando com os sentimentos e as emoções que, como acontece com qualquer ser humano, rapidamente vão condicionar todas as suas ações. No entanto, os tempos eram de guerra e de horror. E todo esse ambiente negro é aqui, também, ele, bem retratado, com descrições cheias de um realismo alucinante e quase cruel para quem lê.
Mas como no melhor pano cai a nódoa, também neste livro veio a cair uma mancha bem feia que, no entanto, nada tem a ver com o autor. Tem a ver, isso sim, com o velho e irritante vício bem português de adulterar por completo os títulos originais. Este livro, no original, foi intitulado como “Eye of de Needle”. Needle, agulha, é a alcunhado nosso espião; por aqui se vê a riqueza deste título, por comparação com a quase pedante opção da edição portuguesa.

Sinopse (in www.wook.pt)
Um agente secreto de Hitler, um assassino frio e profissional com o nome de código «Agulha», vê-se envolvido na manobra de diversão dos aliados que antecede o desembarque militar em França. Estamos em 1944, a semanas do Dia D.
O Estilete Assassino é um arrebatador bestseller internacional em que o destino da guerra assenta nas mãos de um espião, do seu adversário e de uma mulher corajosa.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Casa dos Anjos - Collen McCullough


Comentário:
De Colleen McCullough li há muitos anos três volumes da monumental série Os Senhores de Roma e estou desejoso de lá voltar. Por outro lado tenho lido comentários excelentes a Pássaros Feridos que terei de ler em breve. Pelo meio veio-me parar às mãos este romance despretensioso da genial escritora australiana. 
É um livro que me gerou emoções contraditórias. Por um lado, é uma obra que entusiasma pela leveza do enredo, pela facilidade com que a autora transmite uma mensagem de solidariedade em relação a franjas mais desprotegidas e mesmo ostracizadas. A linguagem fluente e um humor discreto fazem da leitura um ato de prazer.
Mas, por outro lado, perpassa pelo enredo uma sensação de “dejá vú”, ou melhor de “dejá lu”. Antes de mais nada, um problema que afeta negativamente qualquer romance: o ritmo narrativo lento; embora a leitura seja agradável, ficamos sempre com a sensação que a estória se contava com menos palavras.
Basicamente, o enredo envolve uma crítica bem vincada à sociedade australiana, onde é visível a separação entre os australianos “antigos”, herdeiros da colonização inglesa e os australianos novos, produto das enormes vagas de emigração de vários países europeus. A autora deixa bem clara a crítica à mentalidade de origem protestante, com alguns traços de puritanismo, mas é ainda mais severa em relação ao extremo conservadorismo da comunidade católica.
Além disto, este livro não deixa de ser um verdadeiro manifesto feminista que, se publicado umas décadas antes teria alguma originalidade; tratando-se de um livro de 2004, penso que se esperava um pouco mais de criatividade na mensagem.

Sinopse (in www.wook.pt)
A Casa dos Anjos é uma vivenda de um bairro mal afamado de Sidney para onde vai viver a jovem Harriet Purcell. São os anos 60, Harriet tem 21 anos e não suporta o ambiente machista da sua família burguesa.
Na nova casa, Harriet entra em contacto com um mundo bizarro e cativante. Estabelece relações com os outros inquilinos, um pintor sem recursos, um emigrante alemão apaixonado por música e culinária, um casal de namoradas. Sobretudo, inicia uma amizade especial com a dona da casa, a senhora Schwartz - cartomante, vidente e médium - e com a sua filha, a pequena Flo, que é muda.
No decorrer de um ano intenso, Harriet descobre o amor, o sexo, a liberdade e a afirmação de si própria. Mas quando uma tragédia se abate sobre a casa, a jovem tem de reunir todas as suas forças para salvar Flo de um destino de solidão e dor.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Mia Couto, voz da Terra


Mia Couto é poesia sem rima, é voz da Terra, sabor do Mar, alma de um povo inteiro.
Mia Couto é a força de uma Terra onde o sentimento resvala nas armas mas sobrevive e se fortalece na dor. É o mensageiro de uma Terra pintada de sangue mas perfumada pelo canto cristalino das sereias no Oceano Índico.
Mas Mia Couto é também o porta-voz da Alma, o cantor do gemido dolorido mas quase musical que emana do peito das gentes; a sua escrita é melodiosa, triste umas vezes, outras cheia daquele humor ingénuo das gentes de África.
E, acima de tudo, a voz de Mia é a voz do génio. Ele é, na minha opinião, o melhor escritor vivo de ficção de língua portuguesa. Ele é a prova viva de que os poetas têm razão: a nossa Pátria é a Língua portuguesa e muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa. Moçambique é da nossa Alma; muito sangue e muitas lágrimas nos uniram no passado e foi em português que sempre choramos as mesmas desgraças. Um fado que nenhuma união europeia ou aliança americana poderão contrariar.
Mia Couto pode não ganhar o Man Booker Prize. Mas para nós já ganhou.
Já ganhaste, irmão!

sábado, 28 de março de 2015

A Casa das Vestais - Steven Saylor


Talvez satisfeito com o comentário positivo que fiz a Sangue Romano, o “Descobridor” (como chamam a Gordiano em Roma no séc. I a.C.) voltou às minhas leituras. E desta vez com um título que induz em erro. Na verdade A Casa das Vestais é apenas um dos nove contos que compõem este livro.
O certo é que cada um destes contos é um painel de um belo mosaico chamado Roma Antiga. A escrita visual de Saylor, que já elogiei no livro anterior, permite-nos “ver” uma Roma castiça, cheia de particularidades que nos espicaçam a imaginação e que quase nos fazem reviver aqueles tempos. Na verdade, cada um dos contos parece ter sido escolhido para descrever um quadro em particular: o teatro onde se desenrola um crime de assassínio (as máscaras que os atores usavam adensa o mistério); um crime provocado por um Testamento adulterado (facto corrente em Roma), um crime muito curioso escondido por detrás de uma crença peculiar dos Romanos: os Lémures, que seriam os espíritos dos parentes falecidos que vagueavam pela terra atormentando os vivos; um episódio rocambolesco em torno de um rapto de César por Piratas muito peculiares; o pretenso roubo de um tesouro em prata durante as festas Saturnais, que nos são descritas com imensa curiosidade; um crime cometido por abelhas (!), um conto que dá título ao livro, com um drama empolgante passado em pleno Templo de Vesta, onde viviam as suas seis sacerdotisas virgens e dois episódios que se passam no Egito; mas convém não esquecer que a ação decorre durante os enigmáticos tempos dos Ptolomeus, onde todos os mistérios eram possíveis.
De tudo isto resulta um painel multicolorido que diverte, entretém e, acima de tudo, nos ensina bastantes coisas sobre a época em que se situa. Mais uma vez, como no volume anterior, destaca-se o papel bastante “terra a terra” do investigador, um cidadão comum não mais dotado que os seus concidadãos (por vezes até é a sua mulher, a bela ex-escrava Betesda ou filho, Eco, quem desvendam os crimes).

quarta-feira, 25 de março de 2015

Sangue Romano - Steven Saylor


Nunca compreendi muito bem porquê mas sempre senti um fascínio muito especial sobre o mundo antigo, especialmente no que respeita às civilizações clássicas. Por isso foi com especial curiosidade que decidi “dar uma hipótese” a Steven Saylor. Já tinha reparado nestes livros editados em Portugal pela simpática coleção 11/17 da Bertrand. 
Parti para a leitura com o chamado ”pé atrás” pela aparência de literatura “light” que têm e por algumas opiniões que li nesse sentido. Mas mais uma vez se confirma: livros atacados pelos críticos literários são livros divertidos, agradáveis, que fazem as pessoas gostar de ler.  
Este primeiro volume da série Roma Sub-Rosa não é, evidentemente, uma obra-prima nem pretende sê-lo. É um livro policial que tem como pano de fundo a Roma do século I a.C., mais exatamente a ditadura de Sila (ou Sula, nesta tradução), que governou imediatamente antes de Júlio César, na sequência da guerra civil que dizimou a cidade, entre os exércitos de Mário e de Sila.
Este romance, bastante bem estruturado e cheio de emoção, não deixa de cair naquele que é o maior defeito da má ficção: as coincidências, os acontecimentos fortuitos que, por mero acaso, definem o evoluir da ação. Neste caso, o nosso herói descobre a chave da investigação numa conversa casual numa taberna. Isto, obviamente, só acontece na ficção. Aliás, na má ficção. Mas este é o aspeto menos bom da obra. Tudo o resto faz deste livro uma obra que só se pode elogiar.
O herói é Gordiano, uma espécie de investigador por conta própria, ou detetive privado, em plana Roma Antiga. O que dá mais interesse à personagem é o facto de ele não ser um super-herói. Ele é humano e falha. Aliás, no final do enredo podemos ver como o desvendar dos mistérios não se deve a nenhum golpe de génio de Gordiano. Neste episódio Gordiano é contratado por um jovem advogado que é nada mais nada menos que o famoso Cícero. Curiosamente, este Cícero é bem menos prepotente e vaidoso que o Cícero da historiografia. 
Mas o aspeto que mais me seduziu neste livro foi a forma como o autor reconstitui, de uma forma muito clara, visual mesmo, a Roma Antiga, não apenas ao nível dos poderosos mas principalmente das classes inferiores, de um povo que vivia à sombra do poder.
Uma nota final para a editora: o Coliseu, que aparece na capa do livro, não existia no tempo em que decorre a ação. Foi construído cerca de 140 anos mais tarde pelo Imperador Vespasiano.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Cleópatra - Stacy Schiff


Eis um género (o único fora da ficção) que sempre me encantou: a biografia. A história, como a literatura, é feita de pessoas; de seres humanos. E quando olhamos para um rosto, ou para uns olhos, vemos apenas um resquício de um mundo inteiro. Sim, em cada um de nós há um cosmos completo, um mundo difícil de imaginar por qualquer observador. No entanto, escrever uma biografia não é propriamente o mesmo que fazer um retrato ou contar a história de uma vida; escrever uma biografia com qualidade implica penetrar profundamente na alma humana, mais do que desenterrar arquivos.
É tudo isto que esta biografia de Cleópatra nos oferece: a análise de um mundo perdido e de uma alma imensa. É por isso que esta não é uma biografia qualquer: com ela, a autora conquistou o prestigiado prémio Pulitzer.
Cleópatra é uma das personagens históricas mais misteriosas de sempre; além disso, a imagem que dela temos é, em grande parte, falsa e foi criada pelo cinema. A representação de Cleópatra por ElisabethTaylor sempre teve muito mais força do que qualquer retrato historiográfico. 

Mas poucos saberão que Cleópatra tinha um tom de pele que a aproximava muito da raça negra. 

Mas o que mais impressiona na figura de Cleópatra tal como nos é narrada neste livro é a sua enorme cultura. A grande rainha era herdeira da sabedoria grega – a dinastia dos Ptolomeus era descendente da monarquia macedónica. Por outro lado, tanto as tradições macedónicas como egípcias destinavam às mulheres o acesso à cultura tal como acontecia com qualquer homem; além disso, vivia em Alexandria, uma cidade maravilhosa cheia de cultura e encruzilhada de culturas: lá se cruzavam os mundos romano, egípcio grego/macedónico, persa, hebreu, etc. Assim, a poderosa rainha falava nove línguas, era especialista em finanças, conhecia profundamente os filósofos gregos, etc. A sua famosa relação com César teve aliás uma faceta pouco conhecida: ela tê-lo-á influenciado positivamente no amor que o ditador revelava pelo saber; um episódio muito marcante dessa relação foi a célebre viagem no Nilo, em que a curiosidade de descobrir a mítica nascente do imenso rio terá sido causa mais forte do que a aventura amorosa.
No entanto, feito este retrato, é difícil enfrentar esta realidade: Cleópatra ficou na história por ter sido amante de Júlio César e de Marco António, os dois homens mais poderosos do seu tempo!
Na realidade, sobre Cleópatra, as lacunas historiográficas são tão grandes que se justifica a construção de tantos mitos.
Um outro aspeto magnífico deste livro é a forma como a autora nos apresenta o cenário da época, dando-nos a conhecer realidades paralelas de grande interesse historiográfico; é o caso, por exemplo, da descrição que nos faz do grande sábio romano que foi Cícero, com o seu caráter tão peculiar: o mais sábio da época mas um dos mais arrogantes e vaidosos de todos os tempos.
Mas, para além de Cleópatra, a segunda personagem mais importante do livro é sem dúvida a cidade de Alexandria. 

Era uma espécie de capital de todas as civilizações. Roma tinha a fama de capital do grande império, mas era uma cidade suja e violenta, doente e doentia. Alexandria, pelo contrário, aberta aos ares saudáveis do Mediterrâneo, aliava a herança cultural grega ao encanto místico do Egito dos Faraós e a todo o requinte das civilizações orientais. O império de Cleópatra, que se estendia até à Síria, recolhia preciosidades e luxos que enriqueciam os alexandrinos, muito mais que os sujos e diletantes habitantes de Roma.
Mas também Cleópatra tinha um lado negro, um lado violento e cruel que encaixava perfeitamente na tradição ptolemaica: casou sucessivamente com os seus dois irmãos e acabou por assassina-los ambos (o casamento entre irmãos era perfeitamente aceite, com base na necessidade de preservar a transição do trono e a manutenção do património na família). Na verdade, depois de assassinar o seu jovem noivo/irmão Ptolomeu XIII, viria a fazer o mesmo com o segundo irmão, Ptolomeu XIV e ainda com a irmã, Arsinoe, elevando o seu filho (e de César) a imperador, com o nome de Cesarião.
Cleópatra ficou famosa pelo seu relacionamento com César mas foi depois da morte deste que ela revelou todo o seu génio como governante, negociando a autonomia e a liberdade do seu país e do seu povo com o poderoso Octávio César Augusto, que viria a ser o herdeiro de Júlio César e primeiro imperador de Roma. Nessa altura ele gere com extrema mestria o seu intenso, escaldante e profundo relacionamento com Marco António, o grande rival de Octávio.
A parte final do livro é dedicada, como não podia deixar de ser, ao destino trágico da grande rainha. Mas até aqui, na mais profunda das desgraças, Cleópatra foi brilhante. Cleópatra foi espetacular até na morte e a autora apresenta-nos aqui o seu suicídio de uma forma tão atrativa que o leitor sente estar a ler um romance, tal a forma como a verdade, por vezes, imita a ficção.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Uma Questão Pessoal - Kenzaburo Oe

Comentário:
Antes de mais nada gostava de deixar aqui expressa a minha incompreensão pelo facto de este livro, o mais importante do autor (que foi Prémio Nobel) não estar editado em Portugal. A edição que usei é um e-book brasileiro.
Um dos livros mais perturbadores que li nos últimos tempo. O tema acarreta desde logo um tom perturbador, que assusta pela estranha realidade de um fenómeno que a nossa mente só concebe como irreal: o desejo de morte de um filho… o que perturba mais não é a iminência da morte do bebé nem a monstruosidade da deficiência com que nasceu. O que choca mais é o realismo, a lógica, do desejo que o pai sente de que o seu próprio filho morra.
O pai é Bird de alcunha; “pássaro”: alguém que inocentemente procurava a liberdade; como se isso fosse coisa simples… ele é um modesto professor japonês que vive obcecado por colecionar mapas de África. Absurdo? Infantil? Ilógico? Talvez não… África era a liberdade. Estranha e distante. Inimaginável.
À medida que Bird vai sendo confrontado com a realidade da deficiência do filho, perante a quase insignificância da mãe, Bird deambula pela vida à procura de um sentido; nem a amante, que o leva ao extremo do prazer carnal, lhe pode dar esse sentido; e, lentamente, a partir do nascimento de um filho horrivelmente deformado, Bird leva o leitor a colocar a terrível questão: até onde pode chegar a degradação? Bird mostra-nos que se pode ir cada vez mais fundo, até atingir limites inimagináveis de desumanização…
Kenzaburo Oe foi Prémio nobel da literatura (1994) e facilmente se percebe porquê; 
só talvez Kafka exprimiu melhor a desumanização. No contexto de um país industrializado como o Japão…
Estamos perante um livro revoltante pela crueza com que a vida pode submeter um ser humano à mais degradante desumanização; um livro original pela forma única como as palavras ferem como facas, palavras simples, diretas, cortantes. E, finalmente, em termos formais, uma escrita algo surrealista, em que o Hospital pediátrico onde o bebé é destinado à morte, faz lembrar a estrada no deserto, de Outono em Pequim, em que nada faz sentido a não ser a dor, a tortura da alma…

“e à abominável e obscena miséria humana de toda a espécie, que os indiferentes fingem ignorar e, coniventes, chamam a esse fingimento humanismo.” Pg. 54

Mesmo assim, no final há sempre a hipótese de uma redenção. E a perturbação com que lemos o livro esvai-se, alivia-se um pouco num final de esperança e crença no ser humano. É sempre possível reformular o sentido da vida…

Sinopse:
Em 1964, o romancista japonês Kenzaburo Oe recebia a notícia de que o seu primeiro filho nascera com uma anomalia cerebral. É a mesma situação enfrentada pelo protagonista de Uma questão Pessoal, o professor Bird. Aos 27 anos, Bird leva uma vida medíocre, bebendo pelos bares de Tóquio a sonhar com aventuras no continente africano. A gravidez da mulher acrescenta angústia ao quotidiano de Bird. A ideia de que será pai e chefe de família faz com que se sinta condenado à vida quotidiana. Para piorar, depois do parto, os pais descobrem que a anomalia cerebral fará o menino ter uma vida vegetativa. Bird não suporta a possibilidade de se ver atrelado para sempre a um filho anormal. Passa, então, a desejar a morte da criança. Aos poucos, porém, dá-se conta de que a crise era uma oportunidade. Bird deve percorrer um longo caminho de conquista da realidade, enfrentando os desafios de amadurecimento da vida adulta.
Sinopse in http://chaehistorias.com/

segunda-feira, 9 de março de 2015

Nicholas Nickleby - Charles Dickens


Comentário:
Só agora, à medida que vou conhecendo a obra de Dickens, começo a compreender porque é que os seus livros me fazem sentir jovem. É que livros como este despertam o sonho; são dramas da vida real em que o bem e o mal entram em confronto, mas sendo o Bem o eterno vencedor. Esta ingenuidade não é mais que o reflexo da bondade natural que caraterizava este magnífico ser humano chamado Charles Dickens. Os famosos finais felizes de Dickens não são apenas elementos de simplismo romântico; são um manifesto da sua crença no futuro da humanidade, com base na bondade natural do ser humano.
Este é talvez o seu livro mais dramático, em que as situações de injustiça e de maldade são mais cruas e violentas; mas é também o livro (dos que já li) em que a redenção é maior, em que os castigos são mais pesados e em que os bons são mais magnanimamente premiados, a fazer lembrar as mais românticas novelas dos séculos XIX e XX, com personagens profundamente maniqueístas
Este é talvez o livro de Dickens em que a sua experiência como jornalista é mais notória, com descrições objetivas, claras, quase visuais. Daí advém uma leitura simples e agradável.
Ao longo do livro, o protagonista vai reforçando o seu caráter. De início ele é uma boa alma, mas de comportamento algo amorfo. Mas a violência da sociedade leva-o à necessidade de moldar esse carater forte e na segunda metade da obra deparamos com um Nicholas com grande força de caráter, um justiceiro, um elemento de força e de crença capaz de servir de modelo aos políticos amorfos e interesseiros que Dickens também ridiculariza. Na verdade, o que distingue os personagens, mais do que o Bem ou o Mal é a Vontade; é o querer, é a força para querer mudar, para salvar uma sociedade manchada violentamente pela desigualdade e pela injustiça.
Ou seja, o âmago do livro assenta uma profunda crítica social acima de tudo, mas também critica política. Os alvos são o lorde, ou seja, o aristocrata balofo, interesseiro e ignorante, o burguês explorador e egoísta mas também os políticos, desinteressados do bem público. Convém notar que o livro foi escrito em 1838/39, 4 a 5 anos depois da publicação das leis conhecidas como Poor Laws, em que o governo britânico adotava uma estratégia de apoio aos pobres com base na segregação. Dickens, como é óbvio, esteve na charneira do debate.
A crítica ao sistema de ensino parece estender-se, de uma forma mais global, a todo um sistema social assente sobre o materialismo e uma certa ordem racionalista. A crítica assume uma forma satírica, mau grado o dramatismo da forma como são tratados os alunos do internato onde Nicholas trabalha; o mestre-escola, avaro, pérfido, é a imagem do personagem a quem apenas interessam os bens materiais e a escola pratica um sistema de castigos corporais violentos justificados pela necessidade de ordem; ora, esta ”ordem” parece ser também o motivo de uma repressão social mais global que Dickens acusa na figura dos políticos, dos comerciantes sem escrúpulos, dos funcionários do estado, enfim de toda a classe burguesa reinante na época.
Mas não se pense que o livro redunda numa pesada e austera crítica; de repente o livro deixa de ser um drama para se ir transformando num quase alegre livro de aventuras;  a transformação de Nicholas em ator e o contacto com as novas personagens dão ao livro uma leveza, uma graça que à partida não se descortinava, tal era o peso das desgraças da família Nickleby.


Sinopse: (in wikipedia)
O romance retrata os percalços de um jovem britânico, Nicholas Nickleby que, com a morte do pai, tornou-se responsável pela família composta por sua mãe e irmã. Nicholas, porém, não tinha emprego nem dinheiro e sua mãe escreve para Ralph Nickleby, irmão de seu marido recém-falecido, solicitando ajuda. Ralph é um homem desalmado, com muito dinheiro e amigos desagradáveis e perigosos. Sua ajuda tem um quê de crueldade levando Nicholas a separar-se de sua família e a conviver com situações muito dolorosas. O jovem, porém, digno e sensível, direciona seus esforços para ajudar a sua família e seus amigos que direta ou indiretamente passam a ter suas vidas atormentadas pelas ações do tio Ralph.

quarta-feira, 4 de março de 2015

The Ring - O Aviso - Koji Suzuki


Terminei a leitura deste livro sem saber muito bem o que pensar dele.
Por um lado, é um livro que entretém, pela sua escrita simples e cinematográfica. Na realidade, deu até origem a um filme japonês de grande qualidade e também a uma produção norte-americana, e respetiva sequela, quando se anuncia já uma terceira filmagem. Para os cinéfilos, aqui ficam os filmes no IMDB, sendo que o primeiro é, sem dúvida, o mais cotado:
Ringu – A maldição (produção japonesa) 
The Ring – produção norte-americana 
The Ring 2 - a sequela 
Receio que a minha opinião sobre o livro esteja algo contaminada pelo facto de ter visto os filmes anteriormente. Na verdade, parece que estamos perante um caso, muito raro, em que o filme supera o livro (no caso do filme japonês, obviamente). Lembro-me de ficar absolutamente petrificado quando vi o filme e, por contraste, agora, o livro não me despertou qualquer interesse.
Terminei a leitura mais cansado com este livro de 250 páginas do que com qualquer livro de mil páginas do Ken Follett.
A narração pareceu-me muito lenta, com um ritmo narrativo pastoso que obriga o leitor àquele sacrificiozinho tão aborrecido de aguentar umas dezenas de páginas para saber o que vai acontecer a seguir e, pior que isso, o livro chega a um ponto em que a única coisa que interessa ao leitor é o desfecho; ora o desfecho chega a 50 páginas do final e depois o leitor ainda tem de aguentar mais 50 paginas que, sinceramente, não compreendi bem que interesse possam ter. O final mais ou menos aberto (ou confuso) só se pode explicar pela vontade de o autor querer futuramente explorar mais a estória. Mas não me pareceu nada boa ideia.
Enfim, de um país que deu à literatura nomes como Yukio Mishima, Kenzaburo Oe ou Murakami, esperava-se bem mais, para mais tratando-se de um escritor a quem já chamaram o Stephen King japonês e de um livro que vendeu mais de 4 milhões de exemplares.
Até o principal atrativo do livro, o seu enredo linear e fácil, baseado numa ideia genial (como se vê abaixo, na sinopse) se vai perdendo ao longo da leitura.
Aqui fica, para os corajosos, o trailer do filme japonês.



Sinopse: (in www.wook.pt)
Numa noite em Tóquio quatro jovens morrem simultaneamente, vítimas de paragem cardíaca. O jornalista Asakawa começa a investigar este estranho caso e descobre que os quatro amigos viram juntos uma cassete de vídeo, uma semana antes de morrerem. Quando Asakawa vê essa cassete de vídeo, é avisado que também ele tem uma semana de vida a não ser que consiga decifrar a sua mensagem subliminar. A partir daí, solucionar este mistério torna-se absolutamente urgente e imprescindível. The Ring - O Aviso é o livro que inspirou o filme de culto japonês Ringu, em 1998, e a versão americana de sucesso, The Ring, em 2002. Mesmo para quem já viu os dois filmes, a surpresa é garantida ao ler este livro, pois a sua adaptação ao cinema alterou as personagens e o final.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Charles Bukowski


Há embirrações incontornáveis. No que aos livros diz respeito, eu tenho pelo menos uma: Charles Bukowski. Dizem que é um dos nomes maiores da literatura dos EUA. Embora não seja grande adepto do país, admiro imenso os escritores norte-americanos: de Capote a Auster, de John dos Passos a Roth, de Kerouac a Mccarthy, etc. Todos eles são autores de grande dimensão artística mas também personalidades ímpares ao nível do humanismo, da sensibilidade na análise dos problemas sociais e extremamente críticos no que respeita aos assuntos políticos.
Mas não suporto o estilo descaradamente sexista, banal, alcoólico, ordinário e, para mais, histericamente hipocondríaco. Não sou propriamente um conservador e até julgo ter um espírito bastante aberto face a escritores polémicos, atrevidos e que rejeitam todos os cânones. Mas Bukowski resiste a todo esse meu liberalismo.
Raramente deixo um livro a meio e por isso, confesso, fiz um esforço desmedido para ler “Mulheres”, esse arrazoado de bestialidades que foi a vida de um escritor alcoólico, obsessivo e louco. Dizem que foi um grande crítico e talvez essa tenha sido a sua maior virtude. Mas todos os enormes escritores americanos que referi acima são ou foram enormes críticos sem nunca terem caído numa linguagem de sarjeta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Charles Dickens - Genialidade absoluta


Estou neste momento a ler Nicholas Nickleby e estou encantado. E dececionado por ter chegado a esta idade sem ler os grandes livros deste génio literário.
Talvez Charles Dickens tenha sido o maior contador de estórias de todos os tempos. Não me refiro, obviamente, a muitas estórias mas, certamente, a GRANDES estórias. Cada livro do grande mestre britânico é uma viagem encantadora a um mundo que já não sendo nosso, foi o meio encantado e desgraçado que nos precedeu: esse magnífico e medonho século XIX, cheio de esperanças e de fascínio mas também carregado de injustiças e medos.
Charles Dickens talvez tenha sido um comunista antes do comunismo: preocupado, acima de tudo, com as injustiças daquela época vitoriana, em que a exploração do homem pelo homem era uma regra implícita mas bem patente do universo vitoriano; um mundo cheio daquela perfídia que resulta da legitimidade na luta pelo sucesso material; a isso se chamou, com muito descaramento, moral burguesa. 
É por isso que as personagens de Dickens são tão encantadoramente maniqueístas: há uma linha clara que separa os bons, os honestos que são vítimas, daqueles que representam as forças do mal e que mais não são que os frutos desse meio burguês materialista e capitalista. E é por isso que é impossível a qualquer leitor esquecer personagens fantásticas, magníficas enquanto seres humanos como são Nicholas Nickleby, David Copperfield, mas também geniais personagens secundários, autenticas obras de arte na criação o romancista, como são Wilkins Micawber ou Newman Noggs. Mas, muitas vezes, é no horrível que encontramos a mais belas obras de arte e personagens pérfidas como Uriah Heep ou Wackford Squeers não deixam de ser criações únicas e geniais.
imagem de http://www.notable-quotes.com/

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

António Lobo Antunes - Um desastre - E daí?


Parece que o último romance, o 25º, de António Lobo Antunes está a ser um desastre de vendas.
Talvez esteja enganado mas atrevo-me a palpitar que o nosso velho guru está-se marimbando para isso. Alguns críticos andam certamente mais preocupados que ele; afinal são euros que não se ganham, são oportunidades que se perdem.
Acredito que para Lobo Antunes o sucesso já não está nas vendas; a imagem mental que tenho dele é a de um gato velho. Os gatos são, por definição, animais com uma personalidade muito forte; senhores do seu nariz; convencidos do seu poder embora ao mesmo tempo mimados. Assim é Lobo Antunes. A vida que trilhou, tão rica e tão cheia de obstáculos, está muito acima de qualquer sucesso ou insucesso editorial.
Seja como for, depois de ter ficado a saber que Caminho Como Uma Casa em Chamas só vendeu 1600 livros na FNAC fiquei ainda com mais vontade de ler o livro. E talvez esteja aqui o mote para um lema que o pessoal do marketing da editora D. Quixote poderia explorar: Não Perca o Único Livro de Lobo Antunes Que Foi Um Verdadeiro Desastre. Já que o próprio ALA não se promove e tanto despreza a sua imagem…
Para lá de tudo isto, está Lobo Antunes, que após a morte de Saramago se tornou, sem dúvida, o mais conceituado escritor português vivo.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Cristais de Natal - José Fernandes da Silva

Comentário:
Antes mais nada, o título. Cristais de Natal. Poucas vezes um livro terá tido um título tão feliz. Os cristais são belos e simples. Como belos e simples são os contos que José Fernandes da Silva escreveu para este livro.
E o Natal. A consoada e o dia de Nascimento, como são conhecidos no Minho os dois dias mais importantes da quadra. O Natal, logo no primeiro conto (Consoada Feliz) é-nos apresentado como um suave milagre, para usar a tão feliz expressão de Eça de Queirós. Um milagre singelo e suave, um tempo de felicidade discreta, tão simples como os cristais feitos de geada.
Nesse conto, o Rogério viera de fora. Era um migrante, como tantos que por aí encontramos hoje em dia, talvez à procura de um qualquer Natal. Mas alguém seria enviado pelo Espírito do Natal para oferecer ao Rogério uma réstia de luz, tão simples, tão singela, mas suficiente para fazer nascer um sorriso cristalino.
Por mais que o poeta proclame, o Natal nem sempre é quando um homem quiser. Porque como diz o autor, “uma grande parte das vezes, o homem não quer nem se esforça por querer”. É por isso que o 25 de Dezembro é e será sempre um dia único.
Uma das principais qualidades deste livro é a enorme variedade de abordagens do espírito natalício, fruto da fértil criatividade artística do autor. Por exemplo, no conto “Presente de Natal, a dádiva é da mãe natureza, sob a forma do azevinho, que é dádiva sagrada; no conto “Prenda de Natal” encontramos uma bela alusão a um momento histórico fulcral. É que houve um ano em que o Natal foi em Abril; porque é quando um homem quiser e nesse ano os homens quiseram, finalmente, acabar com a ditadura. Foi o ano em que o Natal se escreveu com as letras da palavra Liberdade.
São pobres aqueles sobre quem José Fernandes da Silva escreve; mas não são os pobres miserabilistas ou acomodados, à espera do subsídio, nem muito menos os pobres conformados com os velhos e tacanhos valores ultraconservadores da “pobreza honrada”. É, isso sim, a pobreza de um povo que luta, de um povo que, com suor e fé, sonha que um dia “a riqueza, fraterna, abrace a pobreza” (página 29). Ou seja, um povo que clama e luta por um mundo mais justo e fraterno.
É claro que os valores cristãos estão sempre presentes neste quadro social e mental. Mas não se esgotam em si mesmos. São valores ativos; constituem um quadro moral que não se pode separar das condições materiais de existência.
No entanto, nem mesmo o Natal é eterno; pelo menos algumas das tradições que envolve estão ameaçadas; é o caso do presépio tradicional ou dos jogos de pinhões. Este livro pode também ser entendido como um repositório dessas tradições e, acima de tudo, desse espírito que todos queremos manter. Ou melhor, cristalizar.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Humberto Delgado, Sem Medo


Um intervalo nos livros para lembrar os 50 anos que hoje se completam sobre a morte de uma das personagens mais importantes da História de Portugal.
O General Sem Medo, Humberto Delgado disse um dia que se ganhasse as eleições, obviamente, demitia Salazar. Pagou a ousadia com a própria vida mas escreveu assim a primeira página do caminho do país para a Liberdade.
Candidato às eleições para Presidente da República, perdeu para Américo Tomás num ato eleitoral marcado, mais uma vez pela fraude generalizada. Mas a vingança do decrépito ditador nem por isso se fez esperar e Delgado foi cruelmente assassinado pela PIDE.
Ficou a memória do herói e a vergonha de um ditador idiota, morto no tempo e agarrado ao poder, mesmo à custa do sacrifício de todo um povo. 
No entanto, a História acaba sempre por ser a última justiceira e para sempre ficará a imagem de um General que foi herói e mártir, face a um ditador dominado pelo ódio e pelos fantasmas que o atormentavam…

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Marco Aurélio - Frank McLynn


Comentário:
Penso que só uma vez abri uma exceção neste blogue para publicar um comentário de um livro de não ficção; a distinta honra foi para o enorme Carl Sagan. Hoje abro a segunda exceção para publicar a minha opinião sobre esta excecional, enorme em todos os sentidos, biografia do imperador Marco Aurélio.
Um grande escritor, sinceramente não recordo quem, disse um dia qualquer coisa como isto: prefiro a ficção porque normalmente fala verdade. Pois bem, esta biografia não é ficção e fala verdade. Em grande parte porque o autor manifesta uma enorme habilidade literária, que lhe permite contar toda a história de Marco Aurélio mantendo na narrativa aquilo que a ficção tem de melhor: o despertar do interesse do litor; a emoção, a beleza de um enredo. Ou seja, estamos perante um livro de história que se lê como se de um romance se tratasse.
Em primeiro lugar, um dos maiores méritos desta obra: uma biografia nunca pode restringir-se à vida e obra do personagem histórico aboradado. Na melhor tradição da historiografia britânica atual, Mclynn enquadra a vida de Marco Aurélio no contexto histórico, destacando os fenómenos mais significativos da época, recorrendo aos quadros politico, económico, social, religioso, mental, etc. Daí emana uma verdadeira aguarela de onde vemos surgir realidades por vezes surpreendentes, chocantes mesmo para o leitor do século XXI.
O Império Romano constituiu uma das realidades mais fascinantes de todos os tempos; o poder dos imperadores, a ofuscante riqueza que transitava nas estradas romanas, o espetáculo impressionante do Circo e do Coliseu, a devassidão algo escandalosa que é atribuída àquele povo são apenas alguns dos pormenores desse encanto. Mas poucos saberão de outras realidades que este livro muito bem destaca e que nos mostram “outro” império romano. Por exemplo, um  povo em que a esperança de vida não ultrapassava os 30 anos! Um povo onde as desigualdades sociais eram tais que era vulgar morrer de fome. Um povo onde  as condições de saúde eram tão precárias que qualquer doença se tornava mortal.  
No meio de tudo isto, emergiam os grandes personagens. Marco Aurélio foi um dos maiores. O imperador conquistador da Germânia e da Pártia (antiga Pérsia) foi também o imperador Filósofo. Escreveu uma das mais importantes obras literárias da Antiguidades (Meditações, uma obra em formato de aforismos) e foi um dos mais lídimos representantes da corrente estoica. 
A adesão de algumas elites romanas e mesmo imperadores ao estoicismo não deixa de ser curiosa, tendo em conta o contraste daquela filosofia (que proclama a virtude do sofrimento) face ao reconhecido (e talvez exageradamente propalado) hedonismo romano. Mas talvez o estoicismo fosse o “contrapeso” para tal culto do prazer…
Marco Aurélio foi, acima de tudo, um político sóbrio, sério, honesto. Muito no inverso do que hoje se usa… Totalmente desprovido de senso de humor incapaz de rir, tinha no entanto um impressionante sentido de justiça que não o impediu, no entanto, de ser um dos maiores perseguidores dos cristãos. 
No entanto, é necessário enquadrar devidamente esse fenómeno: as perseguições parecem refletir motivações políticas (o facto de os cristãos não aceitarem o culto do Imperador), religiosas (a negação do politeísmo),culturais (o desenquadramento do cristianismo face à realidade cultural romana, uma sociedade essencialmente urbana e comercial, face a uma religião que valorizava a pobreza) mas também cientificas, como muito bem destacava o famosos médico Galeno, que acusava os cristãos de acreditarem em princípios ingénuos, quase infantis, como a criação a partir do nada. A aceitação destes dogmas seria, segundo Galeno, um obstáculo ao conhecimento científico. O certo é que, para além destes motivos, as perseguições tendiam a aumentar à medida que crescia a insegurança e a crise no império.
Na verdade, Marco Aurélio governou numa época em que os sinais de decadência se tornavam cada vez mais óbvios (170-180 d.C.). As crises, quer económicas provocadas pelo fim das conquistas, quer demográficas provocadas por enormes mortandades, tendiam a indicar os cristãos como uma seita maléfica, culpada de todas as desgraças.
E não foram poucas essas desgraças no tempo de Marco Aurélio. Por exemplo, uma imensa crise demográfica terá sido causada por Pestes (designação de todas as doenças mortais mal identificadas) que hoje sabemos ter consistido numa imensa epidemia de malária e uma outra de varíola, a chamada Peste Antonina por ter surgido no tempo de Antonino Pio, antecessor de Marco Aurélio.
Todo o quadro económico-social do tempo de Marco Aurélio era também dramático: a agricultura estava totalmente dependente da escravatura, sabendo-se que tal realidade era impeditiva de um verdadeiro crescimento. Entre os romanos só algumas vozes mais ilustres, como Plínio o Velho, estavam conscientes desse terrível malefício da escravatura. Mesmo assim, os escravos esgotavam-se à medida que as conquistas diminuíam e os imperadores romanos iam, desesperadamente, tentando camuflar estas crises, tentando inventar estratégias que permitissem a Roma manter a todo o custo o seu espetacular estatuto de cidade imperial.
Em suma, estamos perante um livro que nos oferece um verdadeiro passeio pelas virtudes, riquezas, misérias e pecados desse universo fantástico que é a Roma Antiga. Fascinante. 

Sinopse(in wook.pt):
Marco Aurélio, o último dos "cinco bons imperadores" de Roma, é a única grande figura da Antiguidade que ainda nos toca, quase dois mil anos após a sua morte. Podemos entusiasmar-nos com os feitos de Alexandre o Grande, de Aníbal ou de Júlio César, mas a única voz do mundo greco-romano que ainda parece assumir relevância na nossa contemporaneidade é a do homem que dirigiu o Império Romano entre 161 e 180 d. C.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Fernando Namora


Completam-se hoje 26 anos sobre a morte de Fernando Namora e ainda me custa entender como é que este nome vai passando para segundo plano na literatura portuguesa, cada vez mais esquecido.
Pessoalmente, cresci lendo os livros de Namora. Foi um dos meus primeiros ídolos literários.
Médico de profissão, foi um dos mais bem sucedidos escritores portugueses das décadas de 50, 60, 70 e 80. Nesse período publicou obras de grande sucesso como Domingo à Tarde, O Trigo e o Joio, A Noite e a Madrugada e, acima de tudo, Retalhos da Vida de Um Médico, que ficou para a posteridade através da adaptação televisiva, numa série mas também num filme de 1962 que esteve no Festival de Berlim.
A sua formação de base como escritor pode enquadrar-se no rico e fértil meio neorrealista, onde pontificavam nomes como Carlos de Oliveira, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol, etc. Mas depressa Namora foi complementando essa tendência natural com uma escrita cada vez mais pessoal, poética e psicológica.  A sua vivência como médico deu-lhe também uma enorme sensibilidade humana e consciência dos problemas sociais, nomeadamente da vida rural, naqueles tempos atribulados da ditadura fascista.
Vinte e seis anos depois penso que seria a altura de, finalmente, as editoras pensarem numa reedição das suas obras.
Aqui fica um episódio da referida série televisiva, de 1980 (primeiro ano da TV a cores em Portugal) com musica de Ary dos Santos e com a presença de grandes nomes do cinema e da televisão em Portugal.