segunda-feira, 29 de junho de 2015

Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar


Comentário:
Embora obviamente bem escrito não foi pelo talento de bem escrever que este livro se destacou na história da literatura; nem sequer pelo estilo objetivo, direto, belo na sua naturalidade. Foi pela enorme sensibilidade de Marguerite Yourcenar que interiorizou na perfeição a personalidade, o talento e a sabedoria deste personagem fascinante que foi um dos 5 grandes imperadores de Roma.
Adriano não tinha talento para as letras mas era apaixonado pela cultura grega. Um admirador do saber, da ciência, da filosofia mas, acima de tudo, do humanismo.
Adriano foi um dos maiores imperadores de Roma e, ao contrário de outros, não se distinguiu pelos feitos heróicos ou espetaculares mas pela sabedoria e pelo talento político. Acima de tudo há que destacar a humildade perante a sabedoria grega ¨sabia que seria sempre menos subtil do que um marinheiro de Egina, e menos sábio do que uma vendedora de ervas da ágora.” 
Embora não fosse um guerreiro, Adriano não podia escapar à guerra. O principal foco de , durante o seu reinado, situou-se no Oriente; árabes e judeus estavam unidos contra os romanos; Adriano não conseguia entender esta aversão aos romanos; sentia uma espécie de injustiça pelo não reconhecimento do papel civilizador dos romanos; talvez aqui resida o princípio das desgraças do povo judeu…
Uma das maiores lições que Adriano pode fornecer aos políticos é esta: ele tinha poucos inimigos porque prezava mais a liberdade que o poder. Era um apaixonado pelo mundo; um viajante; tinha o sonho de contornar o mundo, já reconhecidamente esférico segundo Eratóstenes.
Politicamente, Adriano foi um génio. Procurou sempre evitar a guerra, a rapina e o abuso. Assim conseguia agradar às populações e disciplinar o exército. Só a paz podia trazer prosperidade; foi este o seu lema quando chegou ao poder, estabelecendo a paz com os Partos e abandonando territórios mais longínquos, como a Arménia. Defendia o fim das conquistas. Em parte, estamos perante um pacifista no trono romano. 
Foi também um pacificador a nível interno: limitou a escravatura e impediu a existência de gladiadores forçados. Procurou estabelecer uma certa moralidade nos costumes, sem moralismos. 
Humanitas, Felicitas, Libertas": essas belas palavras que figuram nas moedas do meu reinado testemunham bem o seu caráter .
Foi o primeiro governante romano a proteger alguns direitos dos escravos: de fazer respeitar a sua família, protegendo-os de funções degradantes e limitando a tortura.
Da mesma forma defendeu os direitos das mulheres, por exemplo proibindo o casamento contra vontade. 
Foi um humanista mas procurou sempre por esse humanismo em prática. Tentou construir um império em que todos os homens pudessem ser felizes, sob a proteção da famosa Paz Romana. Ninguém encarnou tão bem o ideal civilizador de Roma.
A relação com Antinoo, o seu jovem catamita: é notável a naturalidade e a singeleza de uma relação homossexual que, entre os romanos, era vista com toda a naturalidade. A morte de Antínoo é o acontecimento que mais páginas ocupa no livro, tal era o amor que Adriano lhe dedicava, ao ponto de ter construído uma cidade em sua honra: Antinoé, ou Antinoópolis, nas margens do Nilo, onde o jovem se suicidara.
É curioso o respeito demonstrado pelos cristãos; apenas os achava demasiado humildes e incapazes de perceber que o amor ao próximo não se coaduna com a natureza humana. Mas o mais curioso (e o mais importante) é que Adriano vê nos cristãos o maior defeito que estes viam nos romanos: a intolerância, neste caso para com a religião romana.
A grandeza de Adriano ficou bem patente na escolha dos seus sucessores, Antonino, um homem essencialmente bom e honesto e Marco Aurélio, um dos imperadores mais cultos e inteligentes que Roma teve; um “filósofo de coração puro”, como o próprio Adriano o definia.

Sinopse
Memórias de Adriano tem a forma de uma longa carta dirigida pelo velho imperador, já minado pela doença, ao jovem Marco Aurélio, que deve suceder-lhe no trono de Roma (séc. II d.C.). Pouco a pouco, através desta serena confissão ficamos a conhecer os episódios decisivos da vida deste homem notável. Vencedor do prémio Femina Varesco, este romance é seguramente uma das mais importantes obras da literatura clássica contemporânea e, em particular, de Marguerite Yourcenar.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A Terceira Condição - Amos Oz


Sinopse
A Terceira Condição conta-nos, ao longo de seis dias, a vida banal de um homem de 54 anos, Fima de seu nome, recepcionista numa clínica ginecológica de Jerusalém, que sonha aliviar os sofrimentos do mundo - os das vítimas da Intifada, por exemplo, ou os do cão martirizado pelas crianças do bairro onde habita.

Comentário:
Em termos de estilo e de ideias, Amos Oz pode situar-se a meio caminho entre Phillip Roth e J.M. Coetzee, conseguindo aliar a leveza e o humor de um à capacidade do outro de colocar o dedo na ferida, com uma intensa profundidade reflexiva. No centro de tudo está a eterna questão israelo-árabe, vista pelo lado judaico mas naquele sentido profundamente crítico que carateriza os melhores escritores judaicos da atualidade. 
A vida do protagonista é colocada em paralelo com a vida e história de Israel e reside nesse paralelismo o maior mérito deste livro. Fima, diminutivo de Efraim, é um ser complexado como Israel; como se toda a história fosse um peso e todos os atos fonte de remorso. 
Em Fima como em Israel parece haver um eterno e incontornável complexo de culpa, particularmente no que respeita aos colonatos e aos territórios árabes ocupados:
Passamos a vida a tentar recalcar o que fazemos nos Territórios, e como consequência o ar fica tão carregado de fúria e agressividade que andam sempre todos a atirar-se uns aos outros” (pág. 41).
Esta perspetiva dá um tom algo sombrio ao livro mas o autor consegue equilibrar a reflexão com um sentido de humor peculiar derivado da personalidade distraída e desastrada de Fima, como do país. Fima é um incapaz, como o Estado de Israel. Este paralelismo entre o personagem e o país repete-se em diversos âmbitos. Fima “fala pelos cotovelos”; quer estabelecer laços de amizade com todos mas acaba apenas por ser um amigo pouco oportuno, que se intromete na vida de todos, nem sempre com consequências positivas para qualquer das partes. Esta crítica ao país repete-se, por exemplo, no pormenor de Fima anotar e estudar todos os seus sonhos. Israel vive ligada ao passado, revivendo sonhos e pesadelos constantemente, de forma teimosa e depressiva como acontece com Fima.
O que fica, no final, é a sensação de que o país é vítima de si próprio, o mesmo acontecendo com o judaísmo em geral, com a sua necessidade quase doentia de se autopunir, de se julgar constantemente e de não conseguir viver o seu destino de forma independente dos outros. 
“Então ainda não entendeu que o seu crime é o seu castigo?” (pg. 232)
E um taxista anónimo sentencia: 
“Desde que ocupámos os territórios e a Faixa de Gaza nunca mais tivemos sossego”. 
Fima decidiu que se formasse governo, este taxista seria o seu Ministro das Defesa.
Em suma, trata-se de um romance muito rico em conteúdo, sobre uma temática que Roth desenvolveu mais ou menos na mesma linha (talvez com um pouco mais de leveza que lhe confere um maior prazer de ler) e que me fez lembrar aquele que é, na minha opinião, o livro mais interessante sobre este assunto, A Questão Finkler, de Howard Jacobson. E já agora, quem se interessa mesmo por estas questões não pode perder Os Mistérios de Jerusalém, de Marek Halter.


sábado, 20 de junho de 2015

Uma morte suave - Simone de Beauvoir


Comentário:
Fui, noutros tempos, admirador incondicional do existencialismo francês. Mas dessa espécie de paixão juvenil restou apenas Camus. Pelo sentimento, pela crueza do discurso mas, acima de tudo, pela inteligência.
Quanto a Simone de Beauvoir, continuo a admirar a sua sensibilidade, a defesa de causas humanitárias fundamentais mas já não tenho paciência para tanto pessimismo, tanta negatividade.
Expor aos leitores a morte da mãe e, pior que isso, o atroz sofrimento provocado por um cancro terminal, é um exercício de sofrimento para quem lê e para quem escreve. Não vejo, na minha condição de leitor amador, qualquer beneficio que se possa tirar de uma leitura como esta. 
Em vários momentos da leitura, este livro fez-me lembrar um quadro de Edvard Munch intitulado precisamente A Mãe Morta; a morte da mãe é um momento que, pelo seu dramatismo e pela carga emocional que transporta, deve ser encarado como um momento profundamente pessoal, pelo que o leitor comum não está preparado para sentir toda essa emoção. Pelo contrário, o leitor sente-se um intruso na intimidade do escritor e do seu sofrimento.
Mas é assim o pensamento existencialista (nesse aspeto este livro é paradigmático): a existência, com todos os seus dramas sobrepõe-se ao pensamento e à reflexão; é o peso do real, da impiedade do destino humano. 
Enfim, uma leitura que se aconselha para um bom conhecimento do pensamento da autora e de todo o contexto literário da época (anos sessenta do século XX) mas à qual falta aquela componente lúdica que a literatura deve envolver.


Excerto (in Wook.pt)
«Na quinta-feira dia 24 de Outubro de 1963, às quatro da tarde, encontrava-me eu em Roma, no meu quarto do Hotel Minerva; devia regressar a casa de avião no dia seguinte, e estava a arrumar uns documentos quando o telefone tocou. Bost ligava de Paris: “A sua mãe teve um acidente”, disse-me ele. Pensei: foi atropelada por um carro. Ela estava a içar-se penosamente da calçada para o passeio, apoiando-se na sua bengala, quando um carro a atropelou. “Caiu na casa de banho; fracturou o colo do fémur”, acrescentou Bost. Ele morava no mesmo prédio. Na véspera, por volta das dez da noite, enquanto subia a escada com Olga, tinham reparado em três pessoas que os precediam: uma senhora e dois agentes da polícia. “É no segundo andar e meio”, dizia a senhora. Tinha acontecido alguma coisa à Senhora de Beauvoir?. Sim, uma queda. Durante duas horas, ela tinha rastejado no chão até alcançar o telefone; tinha pedido a uma amiga, a Senhora Tardieu, para arrombar a porta. Bost e Olga tinham acompanhado o grupo até ao apartamento.»

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O Hussardo - Arturo Pérez-Reverte


Comentário:
Arturo Pérez-Reverte  é um dos melhores escritores espanhóis contemporâneos. Pelo menos, é o meu preferido.
Perez-Reverte é um grande narrador de estórias de aventuras; os seus livros envolvem sempre o heroísmo, a bravura, a coragem, mas também a condição humana nas suas mais humildes e modestas facetas. Tudo se passa como se nos seus livros imperassem os opostos: a honra e a desonra, a coragem e a cobardia, o sucesso e o sofrimento. Alguns dos seus livros são profundamente reflexivos, em torno desses aspetos; outros, como este, são predominantemente narrativos, cheios de emoção.
Este é nada menos que o primeiro romance da carreira de Reverte; foi escrito em 1986 quando o autor era ainda jornalista, aos 35 anos de idade. Portanto, este livro é realmente histórico porque marcou a descoberta de um génio que de outro modo se teria perdido no jornalismo de investigação. Mesmo assim, a versão que foi traduzida para português nesta edição da ASA foi revista pelo autor e republicada em 2006.
O tema central da obra irá tornar-se uma constante no percurso literário do autor, por vezes com laivos de obsessão: o eterno conflito entre o idealismo da honra, da nobreza da guerra e a realidade dessa mesma guerra, uma realidade feita de violência e injustiça.
Na época em que Napoleão tentava dominar a Europa (inícios do século XIX) reinava em Espanha um irmão do imperador francês, José Bonaparte, obviamente imposto por Napoleão. Os espanhóis, no entanto, lutavam pelo seu rei e recusavam-se a obedecer ao francês; este invade Espanha e é dessa invasão que dá conta este livro, dando voz a um jovem hussardo (cavaleiro), Frederic, que entra no conflito cheio de vontade de honrar a Pátria, numa guerra que ele encara como forma de defender a civilização, numa perspetiva puramente romântica. Mas a realidade revelar-se-á cruel e dramática. Aquilo que Frederic encontra está longe de obedecer a essa visão romântica; o que ele encontra é o sofrimento humano elevado ao mais alto expoente; é a nobreza de quem combate por uma “Ideia” subjugada pela triste realidade da violência e de tudo quanto há de primário e primitivo.
A “civilização” de Bonaparte nada diz aos rudes e aguerridos camponeses espanhóis que defendem a sua terra com todas as forças. Aqui encontramos outro aspeto que se tornará uma constante no percurso literário de Reverte: uma perspetiva bastante crítica face à mentalidade espanhola, algo rude, violenta, numa teimosia constante que coloca o imediato à frente de qualquer ideal.

Sinopse (in wook.pt)
O primeiro romance de Arturo Pérez-Reverte, agora numa edição revista pelo autor.
Andaluzia, 1808. Numa terra assolada pelo horror da guerra, Frederic Glüntz, jovem oficial do regimento de cavalaria de Napoleão, prepara-se para a sua primeira incursão num campo de batalha. Na iminência do combate contra um exército aguerrido armado até aos dentes e disposto a morrer pela sua terra, os ensinamentos recebidos por Glüntz na escola militar parecem distantes. Rapidamente, uma realidade carregada de terror e sangue acabará por se impor, conduzindo o jovem hussardo a uma reflexão sobre a morte e o sentido da vida. Para trás ficam os seus ideais românticos de glória e heroísmo, derrotados face à crueldade da guerra.
A eterna luta entre idealismo e realismo, em que este último se impõe graças a uma das mais elementares razões humanas - a sobrevivência -, é aqui retratada em toda a sua crueza e impiedade, mas também com todo o talento e mestria a que Arturo Pérez-Reverte já nos habituou.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Ombro, Arma! - José Manuel Mendes

Comentário:
Esta é uma das obras mais significativas da literatura revolucionária portuguesa, se assim lhe posso chamar. Há muito que desejava preencher esta lacuna no blogue; José Manuel Mendes, um magnífico escritor bracarense, se bem que um pouco afastado dos projetores nos últimos anos, foi um marco significativo na literatura revolucionária do pós vinte e cinco de abril e esta é uma das suas obras mais importantes.
Ombro, Arma! Não é um romance de enredo muito rico nem obra de grande fôlego em termos de intriga, emoção ou riqueza de pormenores; é um pequeno romance, sintético, claro e objetivo mas, acima de tudo, com uma mensagem profunda sobre a dignidade do ser humano; uma dignidade roubada, espoliada e sobre uma condição humana subjugada aos interesses políticos de uma minoria. Por outras palavras, é um belíssimo manifesto contra a longa noite fascista.
Publicado pela primeira vez em 1978, narra a vida num quartel em plena ditadura fascista. Os soldados, subjugados, revoltados mas silenciosos, sonham com a libertação; com o fim do medo. A degradação da condição humana no aquartelamento é o tema central; os soldados são números mecanográficos e instrumentos destinados a manter o poder de alguns. Mas o monstro mais medonho é o medo; o medo da guerra. De África chegam notícias dos camaradas mortos, sacrificados por nada, ou melhor, por um sonho megalómano de um ditador ignorante e desumano. 
O amor e a literatura como escape, como compensação. As mulheres são encaradas como uma espécie de anjos, entes superiores com o condão de resgatar as almas dos terrores da vida. Os livros, por seu lado, são o refúgio indispensável mas também os mensageiros que anunciam uma mudança que será a salvação; a redenção.
Mas há um sentimento permanente de revolta e uma necessidade vital de pôr em prática essa revolta. Tudo se passa como se a revolução, que se adivinha no horizonte, fosse a razão de ser destes soldados. E tudo ganhará sentido no final do livro: em Abril.
Enfim, um livro que pode não ser empolgante mas é seguramente eficaz, numa técnica narrativa inovadora em que o narrador omnisciente “deriva” de vez em quando para um discurso na primeira pessoa que confere um aspeto mais profundo e reflexivo. Um livro importante também pela mensagem, pela chamada de atenção para a consciência da injustiça e o papel dos militares na luta política.
Vale a pena voltar a José Manuel Mendes, um escritor injustiçado pela crítica, talvez vítima das suas opções políticas.

Sinopse (in wook.pt)
«Mafra chegou ao fim, escuro exílio. Mafra, o frio de Janeiro tiritando no corpo, a humidade nas paredes, os corredores soturnos onde moram presságios e maldições. Tudo ali é fugaz, predicação de tormenta, manhãs de incerteza e sobressalto, também júbilo e azul — melodias da esperança — , mas a pedra, a abóbada dos tectos, o sombrio dos claustros, perdido o fulgor de outrora, repassam os dias de um torpor longevo. Tudo ali é breve. Mesmo que as horas pesem, a vida hiberne. Mesmo que haja instantes de cristal e levitação. Agora, ao deixar o Quartel e as suas extensões de beleza ao lusco-fusco, a acridez dos silêncios, as coisas desatam o nó dentro das vivências, que começam já a ser outras, solta-se o fio e nada resta. Nada? Os estigmas, a espessura dos constrangimentos, permanecem. E a atmosfera solidária com que defendemos a nossa humanidade ameaçada.» Este é um extracto do belo romance de José Manuel Mendes que a Caminho agora reedita.

terça-feira, 9 de junho de 2015

O Pórtico da Glória - Mário Cláudio


Comentário:
Há uns anos, António Lobo Antunes afirmava qualquer coisa como isto (cito de memória): Mário Cláudio é um daqueles escritores que, tal como ele (ALA) não procura o grande público; tem um público restrito, com o qual está satisfeito no seu reduto. Eu, sinceramente, coloco muitas reticências a um autor que se posiciona desta forma no mercado. Em primeiro lugar, é preciso notar que as grandes obras de ALA venderam dezenas de milhares de livros, pelo que não encaixam nesse público restrito; em segundo lugar, quando se colocam as coisas desta forma ficamos sempre sem saber se realmente o autor poderia, caso estivesse interessado, ser um escritor de grande sucesso. No caso de Mário Cláudio parece-me que, pelas suas caraterísticas enquanto escritor, ter um público restrito não é opção…
A história de Diego, emigrante espanhol em Portugal, tem o condão de ilustrar dois grandes fenómenos da história económica contemporânea de Portugal: a industrialização tardia e o papel da cidade do Porto como verdadeira capital da inovação industrial e do investimento em Portugal. Diego traz para Portugal processos produtivos ao nível da indústria têxtil que, sendo consideradas grandes inovações técnicas, eram uma realidade há muito tempo nos países mais evoluídos da Europa (a ação decorre nos finais do século XIX e início do século XX). 
Em termos de estilo, o grande problema desta obra é a linguagem muito elaborada, por vezes perfeccionista do autor que deixa para segundo plano a narrativa; na verdade, em termos de enredo este livro é absolutamente incapaz de captar o interesse do leitor; podemos dizer, isso sim, que vale pelo rigor da escrita, pela intelectualidade do autor e pelo perfeccionismo formal.

Sinopse (em fnac.pt):
Com "O Pórtico da Glória", encerra-se um percurso de crónica e de fábula, que elegeu a maravilha e a desolação do sangue da tribo, como seu motivo de privilégio.Não é, porém, de uma pura gesta familiar que se trata, neste romance, mas da dinânima do reconhecimento e da dispersão de um punhado de seres, marcados pela singularidade, em busca da chama da peregrinação redentora.Na biografia de um certo cavalheiro da indústria, castelhano de origem, e emigrado para Portugal, fica centrada uma acção inteiramente autónoma, se bem que encontrando, em dois livros anteriores do autor, "A Quinta das Virtudes" e "Tocata Para Dois Clarins", os painéis laterais de um tríptico desdobrado.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo


Antes de mais nada, uma séria advertência para o leitor, especialmente aquele que não conhece ainda as aventuras descritivas de Victor Hugo – este livro não deve ser lido com pressa de chegar ao fim. A única forma de apreciar este livro é saboreando-o, como se fosse uma sobremesa que merece ser mastigada muito devagar.
Mesmo assim, este livro não é tão descritivo como outros do mesmo autor, como por exemplo Nossa Senhora de Paris, com as suas imensas descrições da catedral parisiense. Logo nas primeiras páginas deparamos com um universo encantado bem típico do romantismo literário de Hugo: diabos, feiticeiros, casas mal-assombradas e outras crendices, muito populares e com muito humor. Aliás, em algumas passagens, esta parece ser a obra mais bem-humorada de Hugo. Por exemplo: diz-se que Voltaire resultou de uma visita do diabo ao leito conjugal dos seus pais, quando o pai dormia profundamente…
Este livro foi escrito na fase final da carreira, quando a maturidade de Hugo enquanto escritor vem ao de cima, com descrições muito visuais e sem o peso de grandes parágrafos descritivos como aconteceu noutras obras. As frases são mais curtas e objetivas. O sentido de humor está sempre presente, mesmo nos episódios mais dramáticos.
Mess Lethierry, por exemplo, é um personagem muito interessante. Grande símbolo do investimento industrial, nessa fase de afirmação do capitalismo industrial, ele representa uma nova vaga de homens empreendedores, pouco agarrados ao passado. Por exemplo: ele não gosta dos padres porque eles viam com maus olhos as suas inovações na navegação.
Aliás,o aspeto religioso é tratado neste livro de uma forma muito curiosa. A ação decorre na ilha de Guernesey, no canal da Mancha. A ilha tem duas religiões-católica francesa e protestante inglesa. Mas nenhuma agradava a Mess Lethierry. Ao investir na Durande, um moderno barco a vapor, ele demonstrou ser um homem dos novos tempos. Nessa época, um especialista de Paris dizia que investir no vapor era “Conversão de dinheiro em fumo” uma vez que as velas eram preferíveis.
A segunda parte do livro tem uma dimensão de epopeia; vem ao de cima o naturalismo romântico, com as suas tempestades e catástrofes naturais, exibindo a pequenez do ser humano perante as forças da natureza. Nesta fase, as descrições de Hugo têm qualquer coisa de épico; aquele mar tenebroso, aquelas rochas assassinas, as grutas escuras, medonhas… Gilliat no meio de tudo isso, é uma espécie de Hércules, ou de um super-homem, quando tenta desencalhar o navio. Gilliatt é um homem em luta com os seus limites. É assim o romantismo literário: grandioso, belo e exagerado. Faz lembrar as pinturas românticas de William Turner com o mar tumultuoso como tema.


“Os ventos correm, voam, abatem-se, expiram, revivem, pairam, assoviam, rugem, riem: frenéticos, lascivos, desvairados, tomam conta da vaga irascível.
Têm harmonia esses berradores. Tornam sonoro todo o céu. Sopram nas nuvens como num metal; embocam o espaço, e cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e trombetas, uma espécie de tangeres prometeanos. Quem os ouve, ouve Pã.”
(note-se que a edição que li foi a edição brasileira com tradução do grande Machado de Assis)
E que intelectualidade! Talvez nunca tenha existido um escritor que tão bem estudou os assuntos sobre os quais escreveu.
De todos os livros de Hugo que li até agora, este é seguramente o mais pobre em termos de enredo mas talvez o mais bem escrito e, com certeza, o mais bem traduzido para língua portuguesa.
E o final não deixa de corresponder a todos os cânones românticos…

segunda-feira, 25 de maio de 2015

O Guinéu da Orfã e A História do Limpador de Botas - Charles Dickens


Comentário:
Chegaram-me às mãos estes dois livrinhos que, como é óbvio, li num instante. Por se tratar de narrativas curtas com características comuns, optei por inseri-los numa mesma mensagem.
Trata-se de um curioso formato de minilivros, ideal para uma viagem ou uma sala de espera. O Guinéu da Órfã contem apenas um conto, enquanto a História do Limpador de Botas inclui para além do conto que dá título ao livro, A História de Ninguém e Entrar na Sociedade.
Para ir diretamente ao mais importante, o que melhor me impressionou nestes pequenos contos foi a constatação de uma verdade que só confirma o génio de Dickens: se, nas suas grandes obras, ele se espraia por explicações e descrições por vezes demasiado exaustivas, na narrativa curta, Dickens coloca totalmente de parte essa tendência, oferecendo-nos uma escrita muito económica, cingida ao essencial, desprovida de qualquer elemento supérfluo. Como é próprio de um contista de génio, ele consegue tratar a escrita de como se fosse filigrana, com um cuidado notável na escolha das palavras, o que confere uma enorme clareza à narrativa.
O Guinéu da órfã é um conto que sintetiza muitos dos grandes temas da obra de Dickens: a atenção dada aos desprotegidos, nomeadamente os órfãos, para quem a caridade vitoriana é mais um aspeto de exterioridade do que, de facto, obra de ajuda ao próximo. Por outro lado, a crítica social, nomeadamente em relação a uma aristocracia fútil e materialista.
A História do Limpador de Botas é um conto de raríssima beleza onde está bem vincada a sensibilidade e o humanismo de Dickens. O personagem central da estória é Cobbs, um modesto mas simpático criado de uma família abastada. Cobbs sintetiza as qualidades que o autor vê nas classes inferiores da sociedade: laboriosas e injustiçadas. Cobbs funciona, no entanto, como narrador da estória que nos fala da paixão infantil entre duas crianças com cerca de dez anos. Ao abordar o amor puro e belíssimo entre Henry e Norah, Dickens constrói algumas das páginas mais belas da sua bibliografia. É que Henry e Norah ainda não estão corrompidos pela hipocrisia e vícios da sociedade aristocrática; eles são belos e encantadores na sua pureza e na sua inocência. Eles são belos e de coração puro. Por oposição,  a sociedade é pérfida  e injusta.

sábado, 16 de maio de 2015

À Espera de Godot - Samuel Beckett

Comentário:
Há alguns dias vi num blogue amigo (aqui) um comentário muito interessante a esta peça de teatro e recordei-me de ter visto uma representação, salvo erro da Companhia de Teatro de Braga, há muitos anos atrás. Na altura eu era um jovem e, como tal, pouco dado a reflexões e talvez por isso achei a peça uma “valente seca”. Essas memórias levaram-me a ler a peça, com a pergunta subjacente: continuarei a achar a peça “uma seca” ou o seu inegável valor acabará por triunfar? Pois bem, depois de ler o texto, devo dizer que compreendo perfeitamente o tal jovem que saiu maçado do Theatro Circo de Braga nos anos 80. A peça é chata! Genial, mas chata. Não tem graça, não diverte, os diálogos são monótonos e obriga-nos a pensar. Mas… esperem lá… isto é um elogio; afinal os milhões de seres humanos que dizem que esta peça é genial lá terão também a sua razão; é que isto de esperar por um Godot ainda mais absurdo que o D. Sebastião tem muito de nosso. Não só de nós, portugueses que já nos basta o sebastianismo, mas de todos os seres humanos. Na maior parte das vezes nem sabemos se Godot é bom ou mau; e chegamos ao fim da vida sem saber, sequer, se valeu a pena esperar pelo Godot que nunca apareceu. Uma coisa é certa: o sentido da vida está precisamente nessa espera. A alternativa, tal como acontece com os personagens da peça, é pendurar a corda e esticá-la acima do nosso próprio pescoço…
Chamam-lhe teatro do absurdo mas isto parece-me bem real. E enquanto esperamos o que fazemos: falamos de banalidades; trocamos ideias; conhecemos gente como nós, que espera Godot ou outra coisa qualquer; algumas dessas pessoas até têm escravos para satisfazer algumas necessidades… mas nem essas conseguem evitar a angústia da espera…
Ao fim e ao cabo, do que aqui se trata é do “deixar passar a vida”, que é um dos grandes dramas de todos nós. Há sempre algo para fazer, algo para nos distrair e nem damos conta do tempo que passa, das coisas que ficam por fazer mas… mas afinal havia algo para fazer? Afinal será algum drama esperar por Godot? Não será esse o destino de todos nós? E tem isso de ser obrigatoriamente mau? É que Godot pode até ser a nossa salvação! 
Enfim, como se vê, a peça cumpre a sua função: levantar questões e, como obra de arte que é, suscitar interpretações, sejam elas tão doutorais como as inúmeras teses a que já deu origem, sejam apenas diletantes e amadoras no melhor sentido do termo, como a minha.

Sinopse: (in wikipedia.pt)
A rubrica inicial define: Estrada, árvore, à noite (Route à la campagne, avec arbre. Soir). Em cena Estragon e Vladimir. Aparentemente esperam um sujeito de nome Godot. Nada é esclarecido a respeito de quem é Godot ou o que eles desejam dele. Os dois iniciam longo diálogo, só interrompido quando da entrada de Pozzo e Lucky. Lucky carrega uma pesada mala que não larga um só instante. O segundo ato desenvolve a mesma dinâmica. O cenário é o mesmo, apenas a árvore está um pouco diferente, agora com algumas folhas. Estragon e Vladimir iniciam sua jornada na espera de Godot. Surgem novamente Pozzo e Lucky. Pozzo está cego e Lucky surdo. Após a partida destes, aparece novamente um garoto anunciando novamente que Godot não virá, talvez amanhã. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:
Vladimir: Então, devemos partir? (Alors, on y va?) (Well, shall we go?)
Estragon: Sim, vamos. (allons-y.) (Yes, let's go.)
Eles não se movem. (Ils ne bougent pas.) (They do not move.)

domingo, 3 de maio de 2015

Steven Saylor - O Abraço de Némesis


Continuo assustadoramente seduzido por esta coleção Roma Sub-Rosa. O autor é um autêntico Connan Doyle em plena República Romana e o seu herói, Gordiano, um Sherlock Holmes da antiguidade. Além de muitas outras coisas, este livro veio chamar-me a atenção para alguns aspetos desta temática que nós, leitores de romances históricos, tendemos a esquecer. Por exemplo, a República Romana é o verdadeiro berço da mentalidade europeia. Diz-se que o pensamento grego modelou a Europa Moderna. Disparate. O pensamento grego foi profundamente filtrado pelo crivo romano, que o temperou com a vida. Os romanos, nossos antepassados e mentores adoravam viver; mesmo que fosse preciso matar; o hedonismo romano, o seu apego à vida e ao prazer conduziu-os aos limites. No entanto, são limites dolorosos. Aquele Carpe Diem levou-os a fenómenos extremos, alguns deles bem narrados neste belíssimo Abraço de Némesis: a forma como o aristocrata Marco Crasso se dispõe a sacrificar 99 escravos para reforçar a sua carreira política diz bem até que ponto poderia chegar essa fibra romana, essa tenacidade em viver nos limites. 
Nesta altura alguns dos meus leitores poderão estar a pensar: ora, grande coisa, dispor da vida dos outros, ainda por cima escravos… como é que isso pode ser uma forma de viva no limite, ou de assumir riscos? É que da mesma forma que o romano dispõe da vida do escravo, não hesita em colocar o seu pescoço ao alcance do punhal de qualquer inimigo; era vulgar matar por interesse político. Daí que fosse vulgar morrer pelo mesmo motivo e todos os romanos sabiam isso. Na Europa, a morte como algo de assustador e distante é um fenómeno muito mais moderno do que se possa pensar. Basta ver a facilidade como que se morria nas batalhas napoleónicas, 1900 anos depois da República Romana. 
Némesis é a deusa da vingança. Mas uma vingança em função da verdade e da justiça. Neste livro, com um enredo muito imaginativo e engenhoso, conta-se uma estória cheia de interesse não só pelo colorido da realidade de Roma Antiga mas também pela forma como o autor constrói a narrativa, cheia de mistério e incerteza até ao fim. Na verdade, ao contrário do que me aconteceu com outros livros desta série, aqui o autor surpreende sempre o leitor, não deixando grandes pistas para que se possa adivinhar o assassino, nem sequer a forma como a narrativa evolui.
Isto significa que, na minha opinião, este é o livro mais interessante dos que já li desta série; empolgante e muito rico em informação. Por exemplo, as condições de vida dos escravos romanos são aqui descritas em grande pormenor e muito bem enquadradas. Mas um dos aspetos mais interessantes é a abordagem da religião romana, na figura da Sibila. As Sibilas representavam na perfeição o verdadeiro âmago da religião romana: uma mistura perfeita entre crença e superstição. Mas algo mais: uma voz da justiça que contribuía para um certo equilíbrio social. Isso reflete também uma dimensão prática, pragmática da religião. Realista, diria mesmo: a religião estava presente em todos os aspetos do dia-a-dia dos romanos, mas de uma forma muito mais pragmática do que aquilo que vai acontecer com o advento do cristianismo, em que a religião adquirirá uma feição preponderantemente moralista e condicionadora dos comportamentos. Por exemplo, o amor heterossexual só se afirmará com o paradigma judaico-cristão; neste livro está bem patente a naturalidade do amor a que hoje chamamos de homossexual e que para os romanos em nada se distinguia da heterossexualidade.

Sinopse (in wook.pt)
No sul de Roma, fica situada a magnífica vila de Marco Licínio Crasso, o mais rico cidadão romano. Quando o supervisor da propriedade é encontrado morto, Crasso conclui que terão sido dois escravos pertencentes ao Movimento de Libertação de Escravos. Mas quando Gordiano, o Descobridor, é chamado para investigar, a realidade revela-se muito diferente..

sábado, 25 de abril de 2015

Por uma nova Esperança


Havia cheiro a pólvora e miséria.
O Monstro fedia  a mofo e berrava por sangue.
E os homens, trémulos, a medo calavam as mágoas, as dores de uma pátria castrada, amordaçada, pisada pelas botas pétreas de dinossauros cinzentos, medonhos.
No ar pairava o cheiro a guerra, o pesadelo de corpos despedaçados que chegavam repartidos por caixões anónimos, revestidos a chumbo, e um povo que chorava de raiva, de fome e miséria.
E pairando acima de tudo isto, para lá das nuvens venenosas do vulcão fascista, uns quantos eleitos do regime continuavam a rugir, receosos do poder do povo mas vomitando raiva.
E tantos anos depois ainda ouvimos os ecos desse rugir, dessas barrigas poderosas alimentadas pela miséria do povo.
Quarenta e um anos depois são novos os fantasmas salazarentos. Vêm agora disfarçados de banqueiros, magnatas dos mercados e políticos de ocasião, paus-mandados e patos bravos sequiosos de sangue. São os novos vampiros, ó Zéca!
Portanto, façamos de novo Abril! Deixemos voar a gaivota! Ressuscitemos a Esperança! E enterremos esse bafio salazarento que por aí ainda nos obrigam a respirar.
Abril Sempre!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Terceiro Gémeo - Ken Follett

Ken Follett é um chato no bom sentido. Basta pegar num livro dele, de preferência um destes com largas centenas de páginas e temos noites mal dormidas asseguradas. Não que nos provoque pesadelos; pode até acontecer mas não é a isso que me refiro; é que livros como este não se largam facilmente; eles resistem colados à nossa mão enquanto o relógio avança na noite e a mesa de cabeceira ali, à espera que o livro vá ter com ela. Mas quando finalmente o livro regressa à mesinha, já leva o marcador de páginas bem lá para a frente e já uns raios de luz espreitam pela persiana mal fechada.
É assim Follett, empolgante!
Neste livro, que até nem tem um ritmo narrativo muito grande, o mistério não abandona o leitor do princípio ao fim; e cada vez mais me convenço que um dos maiores méritos deste génio literário é o fato de nunca ter prosa em demasia; a sua economia de escrita é excelente, fazendo com que tudo o que lá está nos pareça essencial e não careça de grande esforço de leitura.
O enredo deste livro passa-se, ao contrário do habitual em Follett, nos EUA. E atrevo-me a dizer que Follett não deve ter feito muitos amigos em terras do Tio Sam. É que muitos dos aspetos aqui desenvolvidos surgem numa perspetiva bastante crítica em relação aos ”States”: um sistema universitário corroído pelos interesses económicos, um sistema de saúde minado pela corrupção e pelo capitalismo selvagem; um sistema prisional muito falível; uma polícia muito pouco simpática e muitas vezes violenta e avessa a regras; uma comunicação social ávida de escândalos e uma sociedade cheia de preconceitos. 
Quanto à temática, aparentemente ela centra-se no atual tema da clonagem mas na verdade radica em algo mais profundo: na ameaça de controlo da genética pelos poderes económico e político, que podem constituir uma grave ameaça ao futuro de uma humanidade livre.
Finalmente, uma curiosidade: a certa altura do livro o leitor dá conta, surpreso, de que a chave do enigma está no título! Mas depressa se desengana; a questão está muito para lá de um terceiro gémeo.
Enfim, mais um livro excelente deste galês que não deixa de me surpreender. Não que estes policiais do início da sua carreira sejam geniais; não são pérolas literárias, mas são terrivelmente capazes de nos entreter e divertir. E que melhor podemos esperar dos livros?

Sinopse (in www.wook.pt)
A cientista Jeannie Ferrami, especialista em gémeos e nos componentes genéticos da agressão, faz uma descoberta espantosa. Recorrendo a um banco de dados do FBI, descobre dois homens que parecem ser gémeos verdadeiros: Steve, estudante de direito, e Dennis, assassino condenado. No entanto, nasceram em dias diferentes, de mães distintas, em hospitais separados por centenas de quilómetros.
Que segredo terá ela desvendado? Poderá confiar no seu chefe e mentor, ou terá de pôr a sua vida nas mãos de Steve Logan, o gémeo por quem se apaixona, apesar de ele estar envolto em intriga e suspeita? Uma coisa é certa: não há nada que faça certas pessoas deixar de conspirar na sombra…

domingo, 19 de abril de 2015

Gunter Grass partiu e nós continuamos a tocar tambor


Na semana que hoje termina faleceu um grande escritor; um génio chamado Gunter Grass.
Infelizmente, só li um livro dele, pelo que não sou a pessoa ideal para fazer grandes considerações em torno da sua obra. Mesmo assim, atrevo-me a dizer algo que me parece vir bem a propósito.
Li O Tambor (O Tambor de Lata no Brasil) há alguns anos. Se bem me recordo, o livro conta a estória de um jovem de nome Óscar, em plena segunda guerra mundial. A mensagem que me ficou do livro, ainda que vista à distância de vários anos, foi esta: Hitler tentava arrasar a Europa, chacinava os judeus, ambicionava dominar o mundo, causava uma guerra que resultou em vinte e tal milhões de mortos e, enquanto isso, Óscar tocava tambor. E parecia que toda a Alemanha tocava tambor enquanto Hitler e seus pares cometiam as maiores atrocidades.
A ideia que me fica hoje é que, no ano em que Gunter Grass nos deixou, muitos de nós continuam a tocar tambor…
É por isso que a Literatura é uma grande arte: há sempre atualidade nos grandes mestres, mesmo depois de eles nos deixarem…

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um Gladiador só Morre Uma Vez - Steven Saylor

Comentário:
Cá estou eu, de volta ao mestre da ficção, histórica, no que a Roma Antiga diz respeito.
Este é o segundo dos livros da coleção Roma Sub-Rosa em formato de contos. Começando pelo lado menos positivo, devo dizer que este conjunto de contos me pareceu menos rico e interessante que os do outro volume, A Casa das Vestais. Estes contos pareceram-me um pouco mais previsíveis, com enredos e desfechos por vezes um pouco forçados.
Mesmo assim, prevalece o enorme taleto do autor para a narrativa de ficção histórica. Em cada um dos contos há um aspeto da realidade romana antiga a ser desenvolvido. Todas as narrativas se situam, tal como acontece com todos os sete livros da coleção, na fase final da república romana, mais exatamente desde a ditadura de Sila à fase dos triunviratos que precedem a inauguração do sistema imperial por Octávio Augusto.
Os contos do presente volume abordam temáticas por vezes muito interessantes sobre o quotidiano de Roma antiga: em A Mulher do Cônsul, uma interessante história sobre o consulado de Décimo Bruto, Saylor dá-nos uma novidade incrível: embora os jornais diários tenham sido inventados na época contemporânea (salvo erro século XIX), em Roma ano séc. I a. C. já existia um diário: as Actas do Dia era uma espécie de jornal mural que se afixava diariamente em Roma e onde não faltavam as coscuvilhices, tão do agrado dos romanos e as não menos apetecíveis notícias desportivas. 
Um dos aspetos mais interessantes é a abordagem dessas grandes ameaças à Republica Romana e que, em parte, explicam o advento do sistema imperial: a ameaça de Mitridates do Ponto no Oriente do Império e o “reino” de Sertório na nossa Península Ibérica. Ambos ambicionavam derrotar Roma mas o assassínio de Sertório e a derrota de Mitridates às mãos de Lúculo e Pompeu, permitiram a sobrevivência desse grandioso e brilhante império que dois mil anos depois ainda encanta a nossa imaginação.
Os contos mais interessantes deste volume são, a meu ver, aquele que dá título ao livro e o último, As Cerejas de Lúculo. Em Um Gladiador só Morre Uma Vez dá-se a conhecer a incrível vida dos gladiadores, alguns deles lutadores profissionais e a maioria escravos obrigados a lutar até à morte. Este prazer que os romanos encontravam na violência é o aspeto mais sórdido e mesmo bárbaro deste povo brilhante. Mas nem todos apreciavam as lutas; um dos seus opositores é o brilhante Cícero que mais uma vez, neste livro, é retratado de uma forma muito mais positiva do que o fez a historiografia: menos austero, menos vaidoso e até com algum sentido de humor. 
O conto As Cerejas de Lúculo é uma interessante narrativa sobre esse magnífico fruto que os romanos foram buscar ao Ponto (reino oriental situado sensivelmente no norte da atual Turquia) e que depressa se espalhou pela Europa. Neste conto deparamos com duas interessantes e importantes figuras históricas da república romana: Lúculo, que iniciou a pacificação do Médio Oriente e se tornou cônsul em Roma e o austero Catão. Trata-se de uma estória notável com interessantes implicações filosóficas a propósito da natureza do conhecimento humano, um tema que como se sabe muito preocupava os intelectuais da época.
Sinopse (IN WWW.WOOK.PT)
Estas novas aventuras de Gordiano, o Descobridor, cobrem a fase inicial da brilhante carreira do detective em plena Roma antiga, num momento em que a mulher, Bethesda, era ainda sua escrava, e o filho, Eco, um rapazinho mudo, oferecendo aos seus fãs a possibilidade de assistir ao crescimento importantes relações pessoais e políticas, incluindo a de Gordiano com o legendário orador Cícero.

terça-feira, 14 de abril de 2015

O Estilete Assassino - Ken Follett


Comentário:
Empolgante. É este o único adjetivo que acho aplicável a este livro. Talvez Genial não destoe…
Na verdade, este senhor proveniente das verdes terras de Gales, esse belíssimo cantinho de sua Majestade, é um génio impar na arte de escrever estórias emocionantes, cativantes. Ele escreveu este livro com 28 anos, ainda muito longe da genialidade de Os Pilares da Terra ou da Trilogia do Século. Mas quem lê este livro dificilmente vaticina que teria sido escrito por um jovem de 28 anos. Trata-se de um tríler magnífico, com emoção do princípio ao fim, um daqueles livros que mau grado as quase 400 páginas não nos deixa dormir sossegados enquanto não terminamos. O ritmo narrativo é perfeito, não há descrições desnecessárias, a linguagem é clara e cativante e, acima de tudo, a emoção vai da primeira à última página, sem exageros nem situações forçadas. Aliás, para um autor de 28 anos é surpreendente como evita os clichés e constrói uma estória complexa sem recorrer a desfechos fáceis. Por outro lado é admirável como Follett, já nessa altura, estudava aprofundadamente os assuntos a abordar (como quase sempre de natureza histórica). Neste caso, é muito interessante e correta a forma como aborda as movimentações que conduziram ao desembarque na Normandia, movimento militar que conduziu de forma definitiva ao desfecho da segunda guerra mundial. Mas também é notável a abordagem das estratégias de espionagem e contraespionagem do referido conflito, assim como o efeito da guerra na população civil. Ou seja, como é próprio de um grande escritor, a Follett já nessa altura não escapava o drama humano como ingrediente essencial da grande literatura.
O espião alemão em Inglaterra, personagem principal desta estória, desde cedo se torna fascinante aos olhos do leitor pela forma como alia a frieza e a inteligência à ausência de sentimentos. No entanto, é esse um dos aspetos humanos mais interessantes do livro: a forma como, ao longo do enredo, o espião vai lidando com os sentimentos e as emoções que, como acontece com qualquer ser humano, rapidamente vão condicionar todas as suas ações. No entanto, os tempos eram de guerra e de horror. E todo esse ambiente negro é aqui, também, ele, bem retratado, com descrições cheias de um realismo alucinante e quase cruel para quem lê.
Mas como no melhor pano cai a nódoa, também neste livro veio a cair uma mancha bem feia que, no entanto, nada tem a ver com o autor. Tem a ver, isso sim, com o velho e irritante vício bem português de adulterar por completo os títulos originais. Este livro, no original, foi intitulado como “Eye of de Needle”. Needle, agulha, é a alcunhado nosso espião; por aqui se vê a riqueza deste título, por comparação com a quase pedante opção da edição portuguesa.

Sinopse (in www.wook.pt)
Um agente secreto de Hitler, um assassino frio e profissional com o nome de código «Agulha», vê-se envolvido na manobra de diversão dos aliados que antecede o desembarque militar em França. Estamos em 1944, a semanas do Dia D.
O Estilete Assassino é um arrebatador bestseller internacional em que o destino da guerra assenta nas mãos de um espião, do seu adversário e de uma mulher corajosa.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A Casa dos Anjos - Collen McCullough


Comentário:
De Colleen McCullough li há muitos anos três volumes da monumental série Os Senhores de Roma e estou desejoso de lá voltar. Por outro lado tenho lido comentários excelentes a Pássaros Feridos que terei de ler em breve. Pelo meio veio-me parar às mãos este romance despretensioso da genial escritora australiana. 
É um livro que me gerou emoções contraditórias. Por um lado, é uma obra que entusiasma pela leveza do enredo, pela facilidade com que a autora transmite uma mensagem de solidariedade em relação a franjas mais desprotegidas e mesmo ostracizadas. A linguagem fluente e um humor discreto fazem da leitura um ato de prazer.
Mas, por outro lado, perpassa pelo enredo uma sensação de “dejá vú”, ou melhor de “dejá lu”. Antes de mais nada, um problema que afeta negativamente qualquer romance: o ritmo narrativo lento; embora a leitura seja agradável, ficamos sempre com a sensação que a estória se contava com menos palavras.
Basicamente, o enredo envolve uma crítica bem vincada à sociedade australiana, onde é visível a separação entre os australianos “antigos”, herdeiros da colonização inglesa e os australianos novos, produto das enormes vagas de emigração de vários países europeus. A autora deixa bem clara a crítica à mentalidade de origem protestante, com alguns traços de puritanismo, mas é ainda mais severa em relação ao extremo conservadorismo da comunidade católica.
Além disto, este livro não deixa de ser um verdadeiro manifesto feminista que, se publicado umas décadas antes teria alguma originalidade; tratando-se de um livro de 2004, penso que se esperava um pouco mais de criatividade na mensagem.

Sinopse (in www.wook.pt)
A Casa dos Anjos é uma vivenda de um bairro mal afamado de Sidney para onde vai viver a jovem Harriet Purcell. São os anos 60, Harriet tem 21 anos e não suporta o ambiente machista da sua família burguesa.
Na nova casa, Harriet entra em contacto com um mundo bizarro e cativante. Estabelece relações com os outros inquilinos, um pintor sem recursos, um emigrante alemão apaixonado por música e culinária, um casal de namoradas. Sobretudo, inicia uma amizade especial com a dona da casa, a senhora Schwartz - cartomante, vidente e médium - e com a sua filha, a pequena Flo, que é muda.
No decorrer de um ano intenso, Harriet descobre o amor, o sexo, a liberdade e a afirmação de si própria. Mas quando uma tragédia se abate sobre a casa, a jovem tem de reunir todas as suas forças para salvar Flo de um destino de solidão e dor.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Mia Couto, voz da Terra


Mia Couto é poesia sem rima, é voz da Terra, sabor do Mar, alma de um povo inteiro.
Mia Couto é a força de uma Terra onde o sentimento resvala nas armas mas sobrevive e se fortalece na dor. É o mensageiro de uma Terra pintada de sangue mas perfumada pelo canto cristalino das sereias no Oceano Índico.
Mas Mia Couto é também o porta-voz da Alma, o cantor do gemido dolorido mas quase musical que emana do peito das gentes; a sua escrita é melodiosa, triste umas vezes, outras cheia daquele humor ingénuo das gentes de África.
E, acima de tudo, a voz de Mia é a voz do génio. Ele é, na minha opinião, o melhor escritor vivo de ficção de língua portuguesa. Ele é a prova viva de que os poetas têm razão: a nossa Pátria é a Língua portuguesa e muito mais é o que nos une do que aquilo que nos separa. Moçambique é da nossa Alma; muito sangue e muitas lágrimas nos uniram no passado e foi em português que sempre choramos as mesmas desgraças. Um fado que nenhuma união europeia ou aliança americana poderão contrariar.
Mia Couto pode não ganhar o Man Booker Prize. Mas para nós já ganhou.
Já ganhaste, irmão!

sábado, 28 de março de 2015

A Casa das Vestais - Steven Saylor


Talvez satisfeito com o comentário positivo que fiz a Sangue Romano, o “Descobridor” (como chamam a Gordiano em Roma no séc. I a.C.) voltou às minhas leituras. E desta vez com um título que induz em erro. Na verdade A Casa das Vestais é apenas um dos nove contos que compõem este livro.
O certo é que cada um destes contos é um painel de um belo mosaico chamado Roma Antiga. A escrita visual de Saylor, que já elogiei no livro anterior, permite-nos “ver” uma Roma castiça, cheia de particularidades que nos espicaçam a imaginação e que quase nos fazem reviver aqueles tempos. Na verdade, cada um dos contos parece ter sido escolhido para descrever um quadro em particular: o teatro onde se desenrola um crime de assassínio (as máscaras que os atores usavam adensa o mistério); um crime provocado por um Testamento adulterado (facto corrente em Roma), um crime muito curioso escondido por detrás de uma crença peculiar dos Romanos: os Lémures, que seriam os espíritos dos parentes falecidos que vagueavam pela terra atormentando os vivos; um episódio rocambolesco em torno de um rapto de César por Piratas muito peculiares; o pretenso roubo de um tesouro em prata durante as festas Saturnais, que nos são descritas com imensa curiosidade; um crime cometido por abelhas (!), um conto que dá título ao livro, com um drama empolgante passado em pleno Templo de Vesta, onde viviam as suas seis sacerdotisas virgens e dois episódios que se passam no Egito; mas convém não esquecer que a ação decorre durante os enigmáticos tempos dos Ptolomeus, onde todos os mistérios eram possíveis.
De tudo isto resulta um painel multicolorido que diverte, entretém e, acima de tudo, nos ensina bastantes coisas sobre a época em que se situa. Mais uma vez, como no volume anterior, destaca-se o papel bastante “terra a terra” do investigador, um cidadão comum não mais dotado que os seus concidadãos (por vezes até é a sua mulher, a bela ex-escrava Betesda ou filho, Eco, quem desvendam os crimes).

quarta-feira, 25 de março de 2015

Sangue Romano - Steven Saylor


Nunca compreendi muito bem porquê mas sempre senti um fascínio muito especial sobre o mundo antigo, especialmente no que respeita às civilizações clássicas. Por isso foi com especial curiosidade que decidi “dar uma hipótese” a Steven Saylor. Já tinha reparado nestes livros editados em Portugal pela simpática coleção 11/17 da Bertrand. 
Parti para a leitura com o chamado ”pé atrás” pela aparência de literatura “light” que têm e por algumas opiniões que li nesse sentido. Mas mais uma vez se confirma: livros atacados pelos críticos literários são livros divertidos, agradáveis, que fazem as pessoas gostar de ler.  
Este primeiro volume da série Roma Sub-Rosa não é, evidentemente, uma obra-prima nem pretende sê-lo. É um livro policial que tem como pano de fundo a Roma do século I a.C., mais exatamente a ditadura de Sila (ou Sula, nesta tradução), que governou imediatamente antes de Júlio César, na sequência da guerra civil que dizimou a cidade, entre os exércitos de Mário e de Sila.
Este romance, bastante bem estruturado e cheio de emoção, não deixa de cair naquele que é o maior defeito da má ficção: as coincidências, os acontecimentos fortuitos que, por mero acaso, definem o evoluir da ação. Neste caso, o nosso herói descobre a chave da investigação numa conversa casual numa taberna. Isto, obviamente, só acontece na ficção. Aliás, na má ficção. Mas este é o aspeto menos bom da obra. Tudo o resto faz deste livro uma obra que só se pode elogiar.
O herói é Gordiano, uma espécie de investigador por conta própria, ou detetive privado, em plana Roma Antiga. O que dá mais interesse à personagem é o facto de ele não ser um super-herói. Ele é humano e falha. Aliás, no final do enredo podemos ver como o desvendar dos mistérios não se deve a nenhum golpe de génio de Gordiano. Neste episódio Gordiano é contratado por um jovem advogado que é nada mais nada menos que o famoso Cícero. Curiosamente, este Cícero é bem menos prepotente e vaidoso que o Cícero da historiografia. 
Mas o aspeto que mais me seduziu neste livro foi a forma como o autor reconstitui, de uma forma muito clara, visual mesmo, a Roma Antiga, não apenas ao nível dos poderosos mas principalmente das classes inferiores, de um povo que vivia à sombra do poder.
Uma nota final para a editora: o Coliseu, que aparece na capa do livro, não existia no tempo em que decorre a ação. Foi construído cerca de 140 anos mais tarde pelo Imperador Vespasiano.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Cleópatra - Stacy Schiff


Eis um género (o único fora da ficção) que sempre me encantou: a biografia. A história, como a literatura, é feita de pessoas; de seres humanos. E quando olhamos para um rosto, ou para uns olhos, vemos apenas um resquício de um mundo inteiro. Sim, em cada um de nós há um cosmos completo, um mundo difícil de imaginar por qualquer observador. No entanto, escrever uma biografia não é propriamente o mesmo que fazer um retrato ou contar a história de uma vida; escrever uma biografia com qualidade implica penetrar profundamente na alma humana, mais do que desenterrar arquivos.
É tudo isto que esta biografia de Cleópatra nos oferece: a análise de um mundo perdido e de uma alma imensa. É por isso que esta não é uma biografia qualquer: com ela, a autora conquistou o prestigiado prémio Pulitzer.
Cleópatra é uma das personagens históricas mais misteriosas de sempre; além disso, a imagem que dela temos é, em grande parte, falsa e foi criada pelo cinema. A representação de Cleópatra por ElisabethTaylor sempre teve muito mais força do que qualquer retrato historiográfico. 

Mas poucos saberão que Cleópatra tinha um tom de pele que a aproximava muito da raça negra. 

Mas o que mais impressiona na figura de Cleópatra tal como nos é narrada neste livro é a sua enorme cultura. A grande rainha era herdeira da sabedoria grega – a dinastia dos Ptolomeus era descendente da monarquia macedónica. Por outro lado, tanto as tradições macedónicas como egípcias destinavam às mulheres o acesso à cultura tal como acontecia com qualquer homem; além disso, vivia em Alexandria, uma cidade maravilhosa cheia de cultura e encruzilhada de culturas: lá se cruzavam os mundos romano, egípcio grego/macedónico, persa, hebreu, etc. Assim, a poderosa rainha falava nove línguas, era especialista em finanças, conhecia profundamente os filósofos gregos, etc. A sua famosa relação com César teve aliás uma faceta pouco conhecida: ela tê-lo-á influenciado positivamente no amor que o ditador revelava pelo saber; um episódio muito marcante dessa relação foi a célebre viagem no Nilo, em que a curiosidade de descobrir a mítica nascente do imenso rio terá sido causa mais forte do que a aventura amorosa.
No entanto, feito este retrato, é difícil enfrentar esta realidade: Cleópatra ficou na história por ter sido amante de Júlio César e de Marco António, os dois homens mais poderosos do seu tempo!
Na realidade, sobre Cleópatra, as lacunas historiográficas são tão grandes que se justifica a construção de tantos mitos.
Um outro aspeto magnífico deste livro é a forma como a autora nos apresenta o cenário da época, dando-nos a conhecer realidades paralelas de grande interesse historiográfico; é o caso, por exemplo, da descrição que nos faz do grande sábio romano que foi Cícero, com o seu caráter tão peculiar: o mais sábio da época mas um dos mais arrogantes e vaidosos de todos os tempos.
Mas, para além de Cleópatra, a segunda personagem mais importante do livro é sem dúvida a cidade de Alexandria. 

Era uma espécie de capital de todas as civilizações. Roma tinha a fama de capital do grande império, mas era uma cidade suja e violenta, doente e doentia. Alexandria, pelo contrário, aberta aos ares saudáveis do Mediterrâneo, aliava a herança cultural grega ao encanto místico do Egito dos Faraós e a todo o requinte das civilizações orientais. O império de Cleópatra, que se estendia até à Síria, recolhia preciosidades e luxos que enriqueciam os alexandrinos, muito mais que os sujos e diletantes habitantes de Roma.
Mas também Cleópatra tinha um lado negro, um lado violento e cruel que encaixava perfeitamente na tradição ptolemaica: casou sucessivamente com os seus dois irmãos e acabou por assassina-los ambos (o casamento entre irmãos era perfeitamente aceite, com base na necessidade de preservar a transição do trono e a manutenção do património na família). Na verdade, depois de assassinar o seu jovem noivo/irmão Ptolomeu XIII, viria a fazer o mesmo com o segundo irmão, Ptolomeu XIV e ainda com a irmã, Arsinoe, elevando o seu filho (e de César) a imperador, com o nome de Cesarião.
Cleópatra ficou famosa pelo seu relacionamento com César mas foi depois da morte deste que ela revelou todo o seu génio como governante, negociando a autonomia e a liberdade do seu país e do seu povo com o poderoso Octávio César Augusto, que viria a ser o herdeiro de Júlio César e primeiro imperador de Roma. Nessa altura ele gere com extrema mestria o seu intenso, escaldante e profundo relacionamento com Marco António, o grande rival de Octávio.
A parte final do livro é dedicada, como não podia deixar de ser, ao destino trágico da grande rainha. Mas até aqui, na mais profunda das desgraças, Cleópatra foi brilhante. Cleópatra foi espetacular até na morte e a autora apresenta-nos aqui o seu suicídio de uma forma tão atrativa que o leitor sente estar a ler um romance, tal a forma como a verdade, por vezes, imita a ficção.