Há muito tempo não lia uma obra de prosa tão poética. A escrita de Capote, servida por uma boa tradução nesta edição Sextante, revela uma musicalidade impressionante e o título da obra dá bem o tom dessa música: o vento inclina a erva, fazendo-a soltar uma espécie de zumbido, um conjunto de ecos que parecem sintetizar vozes humanas que cantam em uníssono.
Está dado o mote para um magnífico livro, bem típico da época em que foi escrito, o início dos anos 50 do século passado; época de ilusão e de esperança para muitos mas de pessimismo para outros. Entre esses descrentes, alarmados pelo império do capitalismo, pelo macartismo cada vez mais violento, pelo racismo e injustiças sociais, encontramos os escritores do movimento “Beat”, como são os casos de Capote e Kerouac.
Neste contexto, este livro é um intenso apelo à liberdade; ao direito que cada um deveria ter à diferença, a comportamentos socialmente atípicos e a todo um conjunto de pensamentos e comportamentos que devem ser respeitados. Assim, as personagens principais deste livro são seres antissociais, pessoas renegadas pela sociedade, perseguidos pela cor da pele, pela “deficiência” ou, como é o caso do narrador, por ter sido abandonado pelos pais. É neste aspeto que o livro é bastante autobiográfico – também Capote foi um jovem rejeitado pelas sociedade, um desenraizado, abandonado pelos pais.
Trata-se então de um livro típico desta época da escrita norte-americana, num belo estilo poético. Não é um livro grande; não é um livro com um grande enredo; mas é uma obra que prima pela beleza da própria escrita e por um belíssima mensagem de liberdade.
Sinopse (in wook.pt)
«Quando é que ouvi falar pela primeira vez da harpa de ervas? Muito antes do outono que passámos na amargoseira; num outono anterior, portanto; e, como não podia deixar de ser, foi Dolly quem me contou, pois mais ninguém se lembraria de lhe chamar isso, uma harpa de ervas.»
O narrador e protagonista desta maravilhosa história, Collin Fenwick, é órfão e tem onze anos quando vai viver para a casa das duas irmãs Talbo. História emocionante de desadaptados, inspirada numa memória de infância, A harpa de ervas é o terceiro romance de Truman Capote, originalmente publicado em 1951.
“É verdade que posso aqui ganhar alguns milhares de francos, e depois escolher com vantagem a carreira militar ou a de padre, consoante a moda que então reinar em França.”
Escolher entre o vermelho da farda e o negro da sotaina. É este o propósito de Julião e explicação para o título, ponto de partida para este livro que foi um marco na história da literatura.
Julião representa todo um século em que, mau grado os efeitos da Revolução Francesa, a distinção social continua a ser procurada como forma de afirmação pessoal e onde as desigualdades continuam a ser gritantes. A obra foi publicada em 1830. Estava ainda vivo na memória dos franceses o período de Napoleão, última fase do processo revolucionário que deixou a França dividida em 3 partidos: os bonapartistas, aqui representados por Julião, os velhos revolucionários radicais (herdeiros do espírito jacobino) e os ainda fieis à velha realeza, os conservadores. Julião está entre os três partidos como o livro está entre 3 estilos: o velho romantismo herdado do século passado, o realismo nascente e um romance psicológico que apenas germina nestas páginas pioneiras. Mas já voltaremos a esta questão.
Comecemos por esclarecer melhor o contexto em que se situa o enredo.
O exército e a religião são as vias de acesso ao mundo do poder e da riqueza numa França que ainda não se tornara o país moderno e justo que os revolucionários sonharam e que Napoleão tentou impor pelas armas.
Julião sabe o Novo Testamento de cor: é nítido o esforço de Stendhal para denunciar a futilidade do conhecimento antigo e do próprio clero tradicional. Mas a aristocracia admira-o! Note-se que Julião, bonapartista, é um fingidor; é alguém que se esforça por alinhar com todas as convenções em proveito próprio, embora seja por natureza e por via do seu passado pobre, um revolucionário.
Um dos aspetos mais “realistas” da obra é o seu sentido crítico, principalmente perante as instituições ligadas ao poder. O Estado e a Igreja. Por vezes, principalmente no início de cada capítulo, é na primeira pessoa que o autor exerce esse sentido crítico. Um exemplo:
“O procedimento habitual do século XIX é: quando um ser poderoso e nobre encontra um homem de carácter, mata-o, exila-o, prende-o ou humilha-o de tal forma que o outro comete a parvoíce de morrer de dor.”
Outro exemplo deste sentido crítico é a descrição que faz do ambiente do seminário como o pior que há no mundo, em contraponto com a riqueza exagerada da igreja.
E, ontem como hoje, a futilidade das relações sociais e os jogos de interesses. Assim, a crítica social incide sobretudo na futilidade, a vaidade, a corrupção, a ignorância, o desprezo pelo saber e pelas ideias…
O nosso herói, Julião, luta, à sua maneira, de uma forma subtil, contra a diferenciação de classes; nesse sentido, ele é um produto da revolução francesa. No entanto, as circunstâncias obrigam-no a seguir uma conduta de adaptação ao meio em que vive, profundamente injusto e que segrega precisamente homens como ele – nascidos numa classe social inferior.
Uma encruzilhada entre romantismo, realismo e romance psicológico:
Este livro foi considerado como a primeira das obras realistas. Sinceramente, não iria tão longe. É óbvio que evidencia alguns traços que distinguirão o realismo. Refiro-me à análise social ao espírito crítico no que respeita às condições materiais da existência humana, às já referidas críticas à desigualdade, etc. mas, acima de tudo, esta obra parece-me claramente marcada pelo romantismo literário: ainda há aqui muito do drama de Goethe, com o seu sentimentalismo quase radical; as paixões são exacerbadas e a mulher continua um ser algo amorfo, despersonalizada, cujos sentimentos e comportamentos se subordinam à ordem social vigente. Que longe estamos ainda de madame Bovary! É por isso que afirmo: que longe está Stendhal de Flaubert!
O facto de não ser ainda um romance realista não obsta a que se trate de uma obra magnífica e direi mesmo que é uma obra de charneira; mais do que precursora do realismo é precursora do grande romance psicológico. A preocupação do autor para com as ideias, as intenções, as estratégias de comportamento dos personagens, aproximam mais Stendhal de Dostoievski do que dos realistas. Por outro lado, é fundamental a importância que o autor atribui à formação do carácter na infância e juventude do herói do romance. Julião ficou marcado por uma educação paternal brutal, por uma falta de afeto que afetaria toda a formação do seu carácter. Algumas décadas mais tarde, estes aspetos seriam triviais em qualquer romance mas na época em que Stendhal escreveu, a importância da educação seria algo que não preocupava minimamente a maioria dos escritores, filósofos ou políticos…
Sinopse
Um romance histórico psicológico em dois volumes do escritor francês Stendhal, publicado em 1830. É frequentemente citado como o primeiro romance realista. Definido no período entre o final de setembro de 1826 até o final de julho de 1831, trata das tentativas de um jovem de subir na vida, apesar do seu nascimento plebeu, através de uma combinação de talento, trabalho duro, engano e hipocrisia, apenas para se encontrar traído pelas suas próprias paixões.
Para compreender este livro é fundamental ter em conta o
momento em que foi escrito, ou melhor, o contexto da época. A obra foi
publicada no ano de 1932. Trata-se de um momento histórico fulcral: nos EUA e
nos países ditos capitalistas viviam-se as consequências da crise bolsista de
1929, ou seja, a grande depressão, tão bem descrita por Steinbeck em As Vinhas
da Ira. Foi nessa crise terrível que desembocou o crescimento desmedido em
desorganizado dos anos 20, em que pontificou Henri Ford, como exemplo máximo do
alienante trabalho em cadeia, parodiado magistralmente por Charlie Chaplin em
Tempos Modernos. E é precisamente Henry Ford que Huxley ressuscita como uma
espécie de ser superior neste livro. Ford é o modelo sagrado.
Por outro lado 1932 é também o ano de afirmação de Hitler na
Alemanha. Aí, como em Itália, na Espanha, em Portugal e na União Soviética
pontificava o totalitarismo, que é o outro lado do sistema descrito por Huxley
neste livro, transposto para o século XXVI.
Está assim traçado o cenário para a distopia de Huxley: uma
sociedade em que os cidadãos são submetidos a um processo de estandardização,
como nas fábricas Ford e, afinal, como em toda a indústria capitalista moderna,
em que a liberdade é uma ameaça e, como tal, totalmente banida e em que, pela
mesma razão se eliminam todos os traços de individualidade. A arte, a beleza, a
cultura, são também banidos por colocarem em causa o coletivo em nome da
subjetividade. O Selvagem, personagem central do livro e que representa uma “réstia”
de seres humanos não condicionados, cita Shakespeare e encara o escritor como
uma fonte de verdade e de beleza. O próprio título do livro, irónico, é um verso
do grande dramaturgo inglês.
Tradicionalmente, este livro é considerado de ficção
científica. No entanto, quando falamos deste género referimo-nos normalmente a
obras que retratam um mundo tecnologicamente avançado, num futuro distante. Mas
neste livro há duas diferenças em relação ao padrão: o mundo imaginado é uma distopia;
o nosso mundo é visto no sentido da perda. Por outro lado, a assustadora
mudança que o livro nos mostra é bem real e já neste início do século XXI
podemos ver no nosso mundo sinais desta distopia, deste futuro negro que pode
esperar a humanidade.
O traço distintivo mais dramático desta obra é a ausência de
liberdade e a aceitação geral da ideia de que a liberdade impede o progresso. Em
contraponto, advoga-se uma espécie de felicidade coletiva, controlada pelo Estado
e fundada sobre o condicionamento do indivíduo. Com uma certa dose de humor, Ford
é o Deus. Desta forma, Huxley estabelece a ligação entre a felicidade coletiva
e o avanço tecnológico. O problema é que esse conceito de progresso só é viável
basado na alienação do indivíduo. Os próprios seres humanos deixam de ser
concebidos na forma natural para serem “fabricados” em verdadeiras linhas de
montagem, estandardizados à maneira dos Ford dos anos 20 do século passado. Assim,
condicionamento, alienação, normalização, coletivismo e submissão são as palavras-chave
deste admirável/abominável mundo novo.
Em conclusão: estamos perante uma obra de génio, um clássico
da literatura mundial, pela lucidez na análise do presente e do futuro da
humanidade e do próprio homem: a demência é o resultado da estandardização e da
alienação: o ser humano é reduzido à incapacidade de pensar e de agir de acordo
com a vontade. Daí a necessidade de eliminar os sentimentos, substituídos por
um prazer artificial, puramente físico, obtido com base nas máquinas e em substâncias
artificiais. Obtém-se assim uma sociedade onde não há dor nem infelicidade. Mas
onde se perdeu a liberdade, a capacidade de amar e, enfim, a própria
humanidade.
Sinopse:
Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.
“Não esteja a pensar as suas patetices racionais” – personagem Isabel Lima, dirigindo-se à autora.
Este é um livro diferente. No site da editora vem catalogado como “romance”. Mas não é um romance nem nunca pretendeu sê-lo. É, em parte, uma crónica de viagem. Escrito por uma jornalista e crítica literária italiana em viagem pelos Açores, este livro tem como maior mérito o facto de nos oferecer um retrato dos Açores cheio de humanismo e de beleza. O caráter das pessoas ocupa neste livro muito mais espaço do que as magníficas paisagens da ilha do Pico. Na verdade, este é mais um retrato do povo açoriano do que do arquipélago em si. E que belo retrato! A autora revela-se uma turista diferente, mais interessada nas pessoas e exibindo uma sensibilidade enorme e uma inteligência notável para analisar, compreender e descrever os grandes traços distintivos deste povo, marcado, é certo, pela geografia.
Como não podia deixar de ser, esta análise psicológica do povo açoriano é desde logo condicionada pelas diferenças entre os emigrantes e os residentes na ilha. É nítida e declarada a preferência e simpatia da autora por estes últimos. A emigração não é vista aqui como uma aventura corajosa ou como necessidade absoluta mas sim como uma espécie de cedência à ilusão americana, quase como uma traição à terra. O emigrante é visto como um ser americanizado, na pior aceção do termo: gordo, ignorante e vaidoso. O residente, pelo contrário é elogiado e admirado pela simplicidade, pela maneira de ser honesta, trabalhadora, honrada e sacrificada às exigências da terra e do mar. Os próprio emigrantes acabam sempre por regressar à terra, mau grado a pobreza. Na verdade, o regresso à terra, à procura da identidade perdida não é um mito.
Ao longo da obra é nítida a preocupação da autora em compreender e descrever os usos e costumes, a mentalidade, o pensamento, deste povo, numa manifestação de respeito e admiração que levam a autora a dizer claramente que mais facilmente se imagina a viver nos Açores do que emigrar para a terra da prosperidade, os EUA.
Globalmente trata-se de um livro muito bem escrito, numa tradução que me parece bastante bem conseguida. A sensibilidade da autora destaca-se claramente e exprime-se num estilo descritivo mas agradável.
Sinopse
A Senhora dos Açores traz-nos a história de uma terra longínqua, onde um mundo de mitos e de fantasmas, de pobreza e solidão, servem de pano de fundo à grande migração em direcção ao continente e à civilização industrializada.
Aqui, nesta ilha rodeada de oceano, apenas resta a certeza dos sentimentos antigos, a substância das recordações, o silêncio e a companhia da natureza. A protagonista entra em contacto com esta comunidade imprevisível, através do encontro com as suas gentes, as histórias e a magia própria do lugar. E, quase sem dar por isso, acaba por se esquecer de si mesma, entrando naquela dimensão intemporal, onde a magia e as mágoas da vida comunicam e se unem. Romana Petri, com este romance, reafirma a singularidade da sua escrita no quadro da narrativa contemporânea italiana, revelando um mundo fantástico e excepcional.
Uma viagem de descoberta de um mundo outro, os Açores vistos pelos olhos de uma estrangeira, um périplo poético, um caminho de aprendizagem... A personagem principal, uma italiana, um guia misterioso - João Freitas - minúsculos pedaços de terra por entre um imenso oceano.
É muito interessante, depois de ler uma dúzia de livros de Murakami, descobrir que as grandes caraterísticas da sua escrita já “estavam lá”, no início da sua carreira. De facto, este Em Busca do Carneiro Selvagem, publicado pela primeira vez em 1982, faz parte da “trilogia do rato” (alcunha de um dos personagens) com que o génio nipónico iniciou a sua carreira literária.
Mas quais são, afinal, esses traços distintivos que já se podem identificar neste livro? Antes de mais essa fantasia do mundo real que, como disse alguém, só um oriental podia criar. Se Murakami não fosse oriental, a sua escrita nunca poderia ter esta magia. Pessoalmente nunca me atraiu a chamada literatura de fantasia (com honrosas exceções, é óbvio) mas a fantasia de Murakami é completamente diferente. Há ali uma magia, qualquer coisa como uma magia real, que não nos deixa sair do mundo concreto. E tudo aparece com naturalidade; até um carneiro que se mete dentro da gente, numa fantasia cheia de simbolismo. Para o leitor mais distraído talvez se torne difícil descortinar esse simbolismo. Sem querer revelar muito do enredo e muito menos do seu belíssimo final, deixo aqui uma dica de interpretação: será Deus um carneiro? :)
Um outro traço distintivo de Murakami é o sentido de humor discreto mas eficaz e criativo. É um prazer ler este autor pelo sorriso constante que nos desperta, para além de um estilo muito claro, muito fluente.
Este não é o melhor livro do autor nem poderia ser. Nota-se um certo experimentalismo na escrita. Por exemplo, os frequentes flashbacks nem sempre são bem enquadrados, cortando o ritmo narrativo, que se torna muito oscilante: ora bem fluido, despertando o interesse do leitor, ora algo monótono devido aos referidos saltos temporais.
Mas a escrita de Murakami nunca deixa de ser excecional. Se este não é o melhor livro do autor, também é verdade que exibe uma qualidade refinada e noutro autor qualquer este livro seria uma obra-prima. E um desafio para os leitores mais “entendidos” que eu: alguém me saberá interpretar a presença dos gatos em todos os livros de Murakami? Será apenas o gosto do autor pelos bichanos ou haverá também algo de simbólico nisso?
Sinopse
Ambientado numa atmosfera japonesa, mas com um pé no noir americano, Murakami tece uma história detectivesca onde a realidade é palpável, dura e fria, e seria a verdade de qualquer um, não fosse um leve pormenor: é uma realidade absolutamente fantástica. Um publicitário divorciado, que tem um caso com uma rapariga de orelhas fascinantes, vê-se envolvido, graças a uma fotografia publicitária, numa trama inesperada: alguém quer que ele encontre um carneiro! Mas não é um carneiro qualquer. É um animal que pode mudar o rumo da história. Um carneiro sobrenatural…
Murakami dá a esta estranha história um tom que só um oriental pode imprimir a uma crença, fazendo-a figurar como um facto da realidade. Coloca, de uma forma genial, a fantasia na aridez do mundo real.
Cadernos dos Subterrâneo ou Notas do Subsolo, Memórias do
Subsolo, Diário do Subsolo ou ainda A Voz Subterrânea, conforme a tradução, é o
livro mais negro, mais pessimista do grande mestre russo. Não sei qual dos títulos
se aproxima mais do original russo mas qualquer deles reflete o espírito da
obra: uma análise do interior mais profundo da mente humana.
Já alguém afirmou que se trata da primeira obra
existencialista da história da literatura. Eu não ia por aí; o contexto e a
arte literária de Fiodor está muito longe dos existencialistas franceses como Sartre
ou Camus. Aqui trata-se, antes de mais, de uma visão pessimista da condição humana que faz deste livro a obra menos agradável de Dostoievski. Para quem,
como eu, aprecia os belos enredos das grandes obras deste génio, torna-se algo
tortuoso deparar com tanto pessimismo, tanta reflexão negativa.
O herói do livro é o típico anti-herói: o homem maldoso,
egoísta, cruel que considera a bondade como fraqueza. Um homem inteligente é um
homem sem caráter; um homem inteligente é um homem de ação, não de reflexão e
essa ação pode perfeitamente ser considerada como maldade. A ação, por sua vez,
deve derivar mais da vontade que da razão. Por vezes o homem age mesmo contra a
sua própria pessoa porque por vezes é essa a sua vontade superior. Tudo o que o
homem precisa para se realizar é de uma vontade independente, suprema, à qual
ele se deve submeter.
Depois há homem normal: covarde, apático, escravo da sua condição
de normal.
Esta é a visão teórica da condição humana.
No entanto, na segunda parte do livro, esta perspetiva
teórica choca de frente, de forma estrondosa, com a realidade. E essa realidade
é-nos apresentada através da estória concreta do próprio narrador, num episódio
da sua vida, a sua relação com Lizza, uma prostituta.
No contanto com a realidade, podemos dizer com algum humor,
que lá se vai o super-homem! Perante Lizza, a prostituta, o narrador acaba por
encontrar a sua verdadeira condição humana: escravizado ao amor ou a algo que
ele não consegue entender. Perante o seu criado, que o chantageia, lá se vai
mais uma vez o poder! Ele escraviza-se ao próprio criado que controla
totalmente a sua vida. Ou seja, perante o criado e perante Lizza, acaba-se a
teoria do super-homem porque a realidade não se compadece com uma vida ideal, livre,
que o espírito teórico desenha na perfeição.
Em conclusão: por mais belos que sejam os ideais, o autor
cai na realidade como se ela fosse um abismo: a infelicidade total. Na primeira
parte o nosso anti-herói odeia-se porque não consegue corresponder à noção de
homem ideal que o seu espírito desenha e na segunda parte ele descreve, com
algum humor a forma como esse choque se processa.
Comecemos pelo aspeto mais visível: a capa e o título. Excelentes, a meu ver. Sobreposta, a bela freguesia do concelho de Braga inspirou o artista (Maciel Cardeira) para uma magnífica aguarela que destaca o verde dominante da paisagem, em tons suaves e cores que nos fazem sentir a brisa do verde dominante. E o título retrata essa mesma airosa paisagem que se esconde nas costas de Nossa Senhora do Sameiro e do Santuário do Bom Jesus: ares que se respiram com prazer.
O livro divide-se em duas partes: narrativa curta e poesia. Como já referi várias vezes, nunca cultivei o gosto pela poesia, pelo que o meu comentário à obra é feito com base na primeira parte.
Transversal a todos os textos é o tom autobiográfico da escrita; o que aqui lemos são histórias de gente comum, pessoas que apelidamos de simples querendo dizer singelas, almas honestas que formam o coração deste Minho, verde de vida e esperança. É daí que vem o prazer de ler este livro: da singeleza e da bondade destas almas, num coração verde de uma paisagem pura que acompanhou a infância e juventude do autor.
A terra dá o mote para o bucolismo da escrita; uma terra bela, airosa e fresca mas, acima de tudo, uma terra que dá o sustento à gente, a troco do sofrer do labor em tempos de ditadura, guerra e pobreza. Os jovens morriam na guerra e os outros calavam a revolta por um destino traçado lá longe, nos gabinetes do poder, onde os negros destinos da gente eram desprezados.
Mas nem a fome nem a ditadura impedem a alegria, o humor, a música e a festa. É assim a nossa gente: a concertina, por vezes, tem mais força que a desgraça. E grande parte do encanto da escrita do Zé Fernandes reside precisamente nessa alegria com que deixa correr a pena; está lá o humor bem popular, bem “castiço” e malandro que nos deixa um sorriso maroto a cada passo. Está lá o som alegre da concertina e a malga do verdinho a alegrar corações.
A festa popular, a taberna ou a simples eira são palcos privilegiados para o convívio desta gente simples e trabalhadora, a gente que afinal fez este país. E, por todo o lado, a religiosidade. Não a beatice nem a crença interesseira de quem negoceia favores a troco de promessas; antes uma religiosidade pura e ingénua, que adoça ainda mais a bondade natural desta gente.
Finalmente, o destaque para um dos traços mais característicos e meritórios da escrita do autor: o realismo, a economia da escrita, a objetividade e o amor à verdade (o gosto pela autenticidade, como diz José Manuel Mendes na contracapa deste livro). No entanto, não se trata aqui de um realismo submisso à descrição e à aridez da narrativa; é um realismo onde o sentimento também tem lugar; uma escrita singela e honesta que nos mostra que por trás do escritor há um homem de grandes e nobres sentimentos.
Como nota de rodapé, referência a uma surpresa agradável, mesmo para quem, como eu, tem o privilégio de conhecer pessoalmente o autor: um belo texto (Uma Fraterna Reminiscência) dá-nos a conhecer a influência literária e a bela amizade entre o autor e o genial escritor, ilustre homem das letras bracarense e excelente ser humano que é José Manuel Mendes.
Comecemos pelo aspeto mais estranho do livro: o título. O protagonista do livro, Lenz Buchmann nunca aprendeu a rezar nem a técnica é o maior obstáculo a essa falta de fé. Este título é, como tantas outras coisas na escrita de GMT, simbólico. Lenz é um pragmático radical; rezar seria a última coisa que lhe passaria pela cabeça como hipótese para enfrentar qualquer problema; nem mesmo na hora da morte, corroído pelo sofrimento mais atroz.
Lenz é um ser humano abominável; para ele, o objetivo mais nobre de qualquer ser humano deve ser o de adquirir poder; ser superior.
Lenz Buchmann acredita ser uma espécie de super-homem. Ele é o resultado de uma educação fortemente controladora, em que o pai assume uma imagem poderosíssima que Lenz idolatra e tudo faz para imitar. Curiosamente, o pai idolatrado tem o nome de Friedrich, tal como Nietzche, o filósofo alemão criador da ideia de super-homem – o indivíduo enquanto elemento de superação contínua.
Lenz Buchmann é o abominável anti-herói. Se o título reflete, como um espelho, uma imagem invertida do tema central da obra, o seu personagem principal é também a imagem invertida daquilo que seria um herói. Ele é abominável porque é o fruto da modernidade, num mundo dominado pela conquista do poder. Primeiro como médico-cirurgião e depois como político de sucesso, Lenz faz a síntese do homem ideal na era da técnica – aquele que associadois poderes supremos- o de salvar e o de matar, duas faces da mesma moeda. Como cirurgião, ele é dono e senhor do destino dos seus pacientes; como político ele amplia esse poder; ele controla a vida e o destino de uma sociedade, cujos membros nem se apercebem de como colocam o destino nas mãos de Lenz. Essa inocência do cidadão comum é vista por Lenz como um sinal de fraqueza; só os poderosos, os eleitos, como ele, têm o poder, a capacidade de decidir o destino dos outros.
Até que um dia… uma força maior vai destronar o poderoso super-homem!
Neste livro, a mensagem, a ideia, são mais importantes que o enredo. O livro é uma oportunidade para GMT explanar uma verdadeira crónica do fracasso do humanismo. Até certo ponto, a estória de Lenz é a crónica deste mundo moderno onde humanismo, solidariedade, sentimento, etc. são apenas manifestações de fraqueza. No entanto, o final do livro é ainda mais perturbador; será que há no destino dos homens uma espécie de força maior que se sobrepõe ao próprio poder supremo do super-homem?
Em jeito de conclusão, trata-se de um livro interessante, em que determinadas ideias, se bem que já bastante debatidas, são aqui expostas de forma muito direta, crua, numa estória que se segue com interesse. O formato em pequenos capítulos ajuda o leitor menos paciente a avançar na leitura e a linguagem simples, direta se bem que cuidada fazem deste livro uma proposta interessante para que gosta de livros que aliem forma e conteúdo, enredo de ficção e mensagem filosófica.
Sinopse
Os «Livros Negros» de Gonçalo M. Tavares têm um novo Reino: Aprender a rezar na Era da Técnica.
Lenz Buchmann é um homem atroz. Como médico, despreza os doentes. Como político, despreza a sociedade. Como marido..., como irmão... Como filho, enaltece irracionalmente o pai porque é assim que se comportam os homens desprezíveis.
Depois de Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser e Jerusalém, Aprender a rezar na Era da Técnica mantém o mesmo olhar agreste e tantas vezes sombrio sobre a condição humana: «O que vês quando olhas para onde todos olham?».
Logo depois de ler as primeiras páginas, vem-nos à memória as obras mais conhecidas do neorrealismo português. Recordamos os Gaibéus de Redol ou os Esteiros do Soeiro. Mas à medida que a leitura avança depressa verificamos que há aqui algo mais. Dias de Melo apresenta-nos aqui uma estória linear, contada de forma objetiva e entusiasmante.
Francisco Marroco foi escorraçado pela ilha mas haveria de ser atraído fatalmente por ela. Pelo meio fica o sofrimento na indústria baleeira e um drama intenso na procura da sobrevivência numa América feita de promessas mas também desilusões e injustiças.
Mas por detrás dessa estória há muito mais; há uma intensa reflexão sobre a condição humana.
No magnífico prefácio a esta edição (Varaçor 2008), Luiz Fagundes Duarte atribui a Dias de Melo o mérito de personificar na sua obra o conceito de Açorianidade, criado por Vitorino Nemésio e que é, em parte, sustentado por esta afirmação: “A geografia, para nós, vale outro tanto que a história”. Visão interessante e que este livro reflete na perfeição. Negras são as pedras como as vidas deste povo, condicionado pelo fogo dos vulcões, pela água furiosa dos ciclones, pela seca ou por inundações, pela fúria do mar, enfim por toda a sorte de desvarios da terra e dos elementos. “Somos carne e pedra“, diz Nemésio. Assim é Fernando Marroco que fugiu da miséria para voltar à terra, às pedras negras que haveriam de assistir ao seu fim.
Afirmei acima que havia neste livro algo mais do que neorrealismo; digo isso porque não é só a miséria material que dita a desgraça destes personagens; há aqui algo que provém da própria condição humana: a ambição desmedida de alguns que determina a miséria der muitos, os injustiçados. O que determina a desgraça destas gentes não é só a miséria material: é também uma ingenuidade, uma incapacidade de lutar contra o pior que a alma humana é capaz de criar. O que causa a desgraça do povo, afinal, não é a geografia nem a natureza madrasta; é a injustiça; é a exploração do homem pelo homem. É neste campo que as letras de Dias de Melo nos fazem lembrar, por várias vezes, As Vinhas da Ira.
Em conclusão, estamos perante um livro que envolve uma sensibilidade enorme, uma capacidade para sentir e transmitir o sentimento e sofrimento de um povo. Uma leitura que se faz com prazer devido à enorme capacidade narrativa do autor mas que, no final. Deixa no próprio leitor a dor dos personagens, tal é o realismo com que a história nos é contada.
Citação:
«Porque é de açorianidade que falamos quando falamos de "Pedras Negras", da açorianidade picarota, que o mesmo é dizer, da alma de uma gente rija que jamais se deixou embrandecer por séculos de "fome, secas, ciclones, fogo de vulcões, terramotos", sobrevividos numa ilha de pedras negras de onde sempre se quis sair (porque "a ilha escorraça a gente"), e a que sempre se quis regressar (porque a ilha chama pela gente).»
Luís Fagundes Duarte
Estranha e surpreendentemente dececionado, após ter terminado este segundo volume. A ação é menos intensa, o ritma narrativo mais lento e a incerteza no desfecho é menor. Continua a ler-se com muito agrado mas há menos mistério, ficando o livro muito preso à guerra dos cem anos e, principalmente, à Peste Negra.
Isto não impede, obviamente, que o génio de Follett esteja sempre presente, na sua escrita muito clara, fácil e objetiva.
A primeira fase deste segundo volume inicia-se com a abordagem desse enorme acontecimento político que foi o início da guerra dos 100 anos. Os exércitos ingleses invadem a França, pilhando, incendiando, roubando. Follett, inglês, não se deixa levar pelo patriotismo e é até com muito espírito crítico que nos mostra essa realidade, marcada pela afirmação dos interesses e ambições pessoais, num total desprezo pela vida humana. O cruel e ambicioso Ralph encontra nessa guerra o seu ambiente ideal. Como muitos outros… nesse como em todos os tempos, a guerra interessa aos poderosos…
O rei Eduardo III é mesmo descrito como sanguinário em impiedoso, tal como Ralph.
Uma parte do enredo situa-se em Florença, a maior cidade do mundo cristão, graças ao comércio e às manufaturas, principalmente tecidos. Mas era especialmente nas artes e numa nova mentalidade que o norte de Itália já se destacava.
A peste é vista, em parte, -como elemento de equilíbrio num mundo cheio: o excesso de população parece que fazia prever a necessidade de uma “razia” que voltasse a equilibrar pessoas e recursos. Assim, de repente, os homens vêem a morte surgir por todos os lados, intensificando a familiaridade, cada vez maior, da morte.
Um dos aspetos mais peculiares da peste negra que Follett muito bem desenvolve é o desregulamento dos costumes - da prostituição aos flagelantes, tudo parece configurar uma espécie de loucura coletiva gerada por um ambiente de Apocalipse, em que as pessoas misturam de forma estranha a vontade de viver com mais intensidade com a necessidade de uma penitência radical já que poucos duvidavam que a peste era um castigo de Deus pelos próprios pecados; era essa a contradição maior do ser humano: era levado a pecar até à exaustão ao mesmo tempo que assumia a peste como castigo.
Um aspeto que muitas vezes é negligenciado, mesmo pela historiografia: a peste negra, como acontece com todas as crises, teve o dom de despertar novas estratégias de progresso económico; muitos agricultores sobreviventes beneficiaram de um considerável subida dos salários (devido à quebra na oferta de mão de obra) mas principalmente, dá-se uma certa reconversão da agricultura, deixando, em certas zonas, os cereais de serem as colheitas mais vulgares, para dar lugar a culturas inovadoras, como as plantas tintureiras, que ajudariam ao crescimento notável do setor secundário no séc. XV, contribuindo assim de forma direta para a afirmação do movimento renascentista. Na história como na vida, as crises podem ser oportunidades de crescimento.
E o livro termina com uma mensagem velada mas importantíssima: a grande crise do século XIV foi também o momento de arranque de uma nova europa. O velho senhorialismo, no entanto não estava morto; as revoltantes diferenças entre ricos e pobres não desapareceriam com os novos ventos do Renascimento; e nós, quinhentos anos depois, cá estamos para testemunhar como as injustiças persistiram…
Sinopse (in wook.pt):
Não é apenas em Espanha que Ken Follett é um autor bestseller, vendendo cerca de 575.000 exemplares em apenas três dias. Noutros países, como Itália e Alemanha o feito repete-se e por cá, em Portugal, os leitores começam a ganhar avanço e a percorrer as páginas volumosas de um autor de culto. Em O Mundo Sem Fim encontramos Follett ao seu melhor nível, nesta que é a continuação de Os Pilares da Terra, o épico histórico que vendeu 90 milhões de exemplares em todo o mundo. Devido ao seu tamanho, a Presença decidiu dividi-lo em dois volumes distanciados na publicação por um espaço de um mês.
Críticas de imprensa
«A vida medieval retratada com enorme realismo... Faz-nos sentir na pele das personagens. Follett é um grande contador de histórias e, apesar da extensão, é impossível deixar esta epopeia a meio.»
Daily Express
«Uma narrativa para os fãs de O Rei que Foi e Um Dia Será, O Senhor dos Anéis e outras epopeias do género.»
Kirkus Reviews
«Os fãs da anterior epopeia medieval de Follett não ficarão nada desiludidos.»
Quando, há anos, li desta autora O Último Catão, fiquei entusiasmado e este livro vem confirmar que Matilde Asenci é uma mestra do suspense. Uma magnífica contadora de estórias de aventuras, na melhor linha da literatura espanhola. Não tem uma carreira literária comparável a Reverte ou Zafón mas não fica atrás destes mestres na capacidade de criar um enredo envolvente, cheio de mistério, capaz de agarrar o leitor numa série de serões bem passados.
É claro que O Último Catão, o seu livro de maior sucesso, é mais interessante; mais misterioso e, acima de tudo, sem o grande “pecado” deste livro: demasiado preso à informação. Na verdade, o facto de toda a ação se situar na China e também devido ao nítido encanto da autora pela história e cultura chinesa, faz com que, na minha opinião, este livro caia nessa armadilha que atraiçoa muitos escritores: demasiada história e pouca estória; ou seja, um esforço tão grande por divulgar a cultura e as tradições chinesas que por vezes se torna algo maçador. Mas é por pouco tempo; depressa Asenci regressa às aventuras da pintora francesa que procura o tesouro místico nas profundezas da China dos anos 20.
Como se depreende daquilo que escrevi, a autora não escapa a alguns clichés do género. Mas o mérito de nos dar a conhecer a China tradicional não deixa de ser notável. Por exemplo. Poucos de nós saberiam que “Tudo debaixo do mundo” é o nome que os chineses antigos davam à sua terra.
Para finalizar, podemos dizer que é o livro ideal para o tempo de férias; um enredo que não nos obriga a raciocinar e onde Até nos podemos distrair um pouco da leitura porque depressa voltamos a entender o que se está a passar no enredo.
Sinopse:
Elvira, uma pintora espanhola radicada em Paris, recebe a notícia de que o seu marido morreu em Xangai, na sua casa.
Acompanhada por Fernanda, a sobrinha, parte de Marselha, de barco, com o objectivo de recuperar o cadáver.
O que não sabe é que esta viagem é o começo de uma grande aventura que nunca teria imaginado viver: pela China, perseguidas por eunucos imperiais, por sicários, em busca do túmulo do primeiro Imperador e da última peça do tesouro mais bem guardado da história da Humanidade.
Esta é a última das obras monumentais de Follett que ainda
não constava da minha lista de livros “lidos”. Trata-se de uma espécie de
continuação de Os Pilares da Terra, uma vez que a ação deste primeiro volume
inicia-se em 1327 e família de Caris, protagonista da obra, é descendente de
Tom Builder, padrasto de Jack Builder construtor da Catedral 200 anos antes.
Neste comentário abordo apenas o conteúdo do volume 1.
Caris parece ser
o protótipo da criança inteligente, que questiona. É essa a base da
inteligência e da desgraça. Na idade média e não só, mas nesse tempo de uma
forma mais dramática. Ser esposa ou freira era o destino normal de qualquer
mulher. Quando, em criança, afirmava escolher ser doutora todos riam da
infantilidade. Mas Caris viria a ser a mulher do novo mundo; do mundo de fuga
ao obscurantismo.
Ao mesmo tempo, o tio, Godwyn,
frade com 21 anos quer estudar em Oxford. O seu tio, Anthony responde-lhe que
estudar é perigoso porque põe em causa a fé. Godwin, no entanto, não está
interessado em estudar para ampliar conhecimentos mas para obter poder. E assim
ele se transformará no “mau da fita” deste primeiro volume.
No que respeita à condição feminina, pouco mudou em relação
a Os Pilares da Terra; já no que respeita à educação, há alguns progressos que
ficaram na história com a afirmação das universidades: elas serão centros de
cultura laica, ou pelo menos não tão dependente da religião, e ciências como a
medicina começarão a beneficiar desse progresso. Mas eram muitos os obstáculos,
um dos quais o financiamento dos estudos, que deixava as universidades e os
alunos muitas vezes dependentes da igreja.
O livro dá uma ideia bastante positiva da Igreja inglesa do
século XIV, tendencialmente mais moderna, mais aberta, do que a da “velha
Europa”. No entanto, o conservadorismo surge como um recurso de personagens
oportunistas que nele se refugiam para, com os seus argumentos retóricos
fazerem prevalecer as suas opiniões e assim materializarem as suas ambições
pessoais.
Um dos aspetos em que o livro mais brilha é na forma clara,
correta e mesmo divertida com que nos traça o quadro mental, social e económico
daquela época.
A cidade imaginária de Kingsbridge vive da produção e
transformação da lã. É inegável a importância da lã inglesa na economia
europeia, ainda 300 anos antes da revolução industrial. Os têxteis eram em grande
parte responsáveis pela prosperidade inglesa, em contraste com uma Europa
continental ainda demasiado feudal. Da mesma forma eram importantes as guildas
como forma de proteger os artesãos ingleses; elas representam uma espécie de
protecionismo, algo estranho mas eficaz, no contexto proto capitalista da
época. No entanto, Follett mostra-nos bem como esse protecionismo pode ser
prejudicial. Ontem como hoje…
Ao mesmo tempo, para trilhar os caminhos da modernidade e da
liberdade, Follett leva-nos a assistir ao renascimento dos burgos (cidades)
que, com os seus cidadãos livres (burgueses) contribuem decisivamente para a
centralização do poder real. Assiste-se em Inglaterra a uma espécie de aliança
entre povo (mais concretamente burguesia) e o rei, o que muito contribuiu para
o fim dos laços de dependência pessoal.
Todo este contexto testemunha uma coisa: há mudanças profundas
antes do Renascimento! Esta fase final da Idade Média é tão revolucionária como
os tempos de Da Vinci.
Merthin é o prenúncio do homem renascentista. Em Inglaterra!
… por oposição a Elfric, sempre fiel à
tradição. Interessante perspetiva de um pormenor que muitas vezes é
desconhecido: é precisamente no final da Idade Média que as casas passam a ter
compartimentos, anunciando um novo conceito de privacidade e, consequentemente,
um novo conceito de moral privada. É importante reter que tal mudança não se
deve atribuir ao renascimento, com a sua moral individualista e burguesa, mas
sim a uma espécie de pré-renascimento medieval que Follett interpreta na
perfeição.
Ralph simboliza o cavaleiro medieval, corajoso por obrigação
e oportunista por natureza.
Caris é a mulher inteligente, logo, a bruxa. Mas o advento
do renascimento talvez não altere significativamente essa situação.
E o esclarecimento de uma dúvida que existe na mente de
muitos de nós: como começar a construir os pilares de uma ponte, tendo em conta
que o rio pode ter vários metros de profundidade? Follett responde, também, a isso.
Mais uma vez, Follett traduz-se por Fabuloso.
Sinopse (in Wook.pt)
À semelhança de Os Pilares da Terra Ken Follett volta ao registo do romance histórico, numa obra dividida em duas partes graças às quase mil páginas que a compõem. A Presença publica agora o primeiro volume de Um Mundo Sem Fim, que se prevê repetir o sucesso de Os Pilares da Terra. O autor sentiu-se bastante motivado a escrever este novo livro já que desde Os Pilares da Terra, publicado em 1989, os leitores de todo o mundo clamavam insistentemente por uma sequela. Finalmente Follett inspirado e com coragem e determinação, sem esquecer uma enorme dedicação, lançou-se na escrita de Um Mundo Sem Fim, a continuação de Os Pilares da Terra, onde recorre a elementos comuns do primeiro livro e dá vida a descendentes de algumas personagens. Recuperando a mesma cidade Kingsbridge, o cenário é ambientado dois séculos mais tarde onde nos transporta até 1327. Aí iremos ao encontro de quatro crianças que presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro. Três delas fogem com medo, ao passo que uma se mantém no local e ajuda o cavaleiro ferido a recompor-se e a esconder uma carta que contém informação secreta que não pode ser revelada enquanto ele for vivo. Estas crianças quando chegam à idade adulta viverão sempre na sombra daquelas mortes inexplicáveis que presenciaram naquele dia fatídico. Uma obra de fôlego com a marca assinalável e absolutamente incontornável de Ken Follett.
E agora, algo de completamente novo neste blogue. Este livro não é um romance, não é ficção, nem biografia ou ensaio científico. Ou seja, é de um género que nunca tinha tido lugar neste espaço: o pensamento religioso.
Tratando-se de um livro de teologia, devo dizer desde já que não sou absolutamente ninguém para comentar ou avaliar este livro. Não reconheço a mim próprio qualquer competência na matéria, pelo que o meu comentário será apenas o do cidadão comum que lê e reflete sobre a fé e sobre a vida. Sim, porque por mais voltas que demos, nunca conseguiremos negar que a fé e o pensamento religioso fazem parte da vida de TODOS nós.
Para a maioria dos católicos Deus é uma entidade distante, sem corpo nem imagem. Assim sendo, é Jesus Cristo que assume essa imagem de Deus. Ele é mais do que um intermediário entre Deus e os homens; ele transmite aos homens uma ideia de Bem, de paz, de positividade.
No entanto não há cristão que não se tenha já deparado com a dúvida. E a dúvida, muitas vezes, nasce desta reação ao sofrimento: “onde está Deus e como é possível que ele permita este mal ou este sofrimento?” A tentativa de resposta a esta questão constitui o âmago deste livro.
Ao contrário daquilo que algum senso comum pretende, este Cristo que sofre uma tortura desumana não é o filho de um Deus impotente ou então egoísta, incapaz de derrotar o mal; pelo contrário, é um Deus que sofre por causa do mal que os homens criaram.
Na tese do autor, Jesus Cristo, no seu sofrimento e na sua dor, transporta consigo o mal e a dor da humanidade. Ele sofre com os homens e como os homens quando depara com o mal causador de sofrimento. A mensagem de Cristo crucificado é precisamente essa: um deus humanizado, humilde, que compartilha a dúvida com o comum dos mortais: “Meu Deus, porque me abandonaste?”
Este livro constitui também uma enorme declaração de humildade: a morte de Deus, essa tese que tanto encantou o pensamento ocidental a partir de Nietzsche, está também ela patente no sofrimento de Cristo – quando Ele pergunta porque foi abandonado, ele penetra no inferno; ele duvida e assim experimenta a morte de Deus; neste sentido a própria fé de Cristo é morta e ressuscitada; é crítica e indagadora. A dúvida passa a fazer parte da fé – é aí, talvez, que o pensamento religioso se aproxima do pensamento científico: também ele parte da dúvida para alcançar a verdade - ter dúvidas é um importante passo para o progresso.
Estamos perante um Deus inteligente e humano, num livro inteligente e humano. Se repito estes dois adjetivos é porque eles exprimem aquilo que os críticos mais acusam a igreja de desprezar: a inteligência e o humanismo.
Neste livro sentimos muito mais dor que prazer, porque essa dor, esse sofrimento, são próprios de Cristo. E do homem. Se a dor faz parte da vida, do mundo e dos homens, então Deus está na dor. Porque:
“O Deus em que acreditamos não está por detrás da realidade, antes é a profundeza da realidade, o seu mistério, é a realidade da realidade”. (pág. 80)
Este é o grande equívoco do ateu: ele nunca encontrará Deus por trás da realidade, escondido atrás de um arbusto manipulando a realidade, porque Deus é o Universo, o mundo, os mares e os continentes, é toda a beleza e toda a dor que nos rodeia.
A partir de certa altura também o livro se liberta do Deus/homem sofredor para nos apresentar um Cristo jovial, um “Deus que dança”, o Deus da alegria pascal. É precisamente este Deus jovial que deve presidir à nossa relação com os outros. Só evitando responder ao mal com o mal poderemos construir um mundo melhor:
“Não podemos ajudar a violência e a maldade a obter a vitória, deixando que elas nos arrastem para o seu campo, nos piquem com o veneno do ódio” (pág.117)
As grandes surpresas às vezes chegam em embrulhos pequenos. Um amigo disse-me que me enviaria pelo correio um livro de que gostara muito. Aguardei, sempre com receio porque a caixa de correio é pequena e o carteiro nem sempre consegue encaixar lá um livro. Mas passados uns dias qual não foi a minha surpresa quando dou com um pequeníssimo volume de papel pardo atado com uma fina corda, em estilo bem artesanal!
Ficou Tanto Por Dizer é um livro um pouco maior do que a palma de uma mão, contento pouco mais de uma centena de microcontos, do escritor Fernando Guerreiro.
Obviamente não é uma obra de génio, nem pretende sê-lo. Mas é uma pequena obra cheia de criatividade, de engenho, de algum humor e muita sensibilidade. Cada microconto não ocupa mais do que uma micropágina. Por vezes são apenas duas ou três linhas, mas encerram sempre algo de significativo que o autor nos quer transmitir.
Por exemplo:
…uma sensibilidade ingénua mas com o seu quê de romantismo de praia deserta:
“Foi até à praia e afogou
as mágoas no mar.
depois, abriu os braços,
abraçou o sol e nunca
mais os seus dias
foram pintados de negro.!”
…um discreto e encantador romantismo no período de digestão:
“Depois de jantar, ficaram
sentados a frente a frente
sem dizerem uma única
palavra. Ele escutou
atentamente o silêncio
e nesse momento
entendeu, finalmente,
tudo o que ela tinha para
lhe dizer.”
…um humor fino e colegial:
Visão
“Sempre foi um visionário.
Já na escola, quando
os professores faziam
a chamada, enquanto
os colegas diziam
presente, ele gritava
futuro.”
…um cheirinho a lição de aritmética com um toque de comédia rural:
Três
“Havia um que a abafava.
Outro havia com o qual
desabafava. Passado
pouco tempo, com
o segundo ela arfava
e ao primeiro mandou-o
à fava.”
… e até um guia (ou manual de instruções) se o leitor for candidato a poeta. Ou bombeiro. Ou técnico do INEM:
Aproveitamento
“Ela era um pedaço de mau
caminho e ele era um
condutor inexperiente.
O acidente não foi nada
de inesperado. No meio
dos destroços ainda
se aproveitaram algumas
peças para os corações
que vieram a seguir.”
Em suma, um livro descontraído, que pode ser divertido se assim o entendermos e pode ser sério se nele quisermos encontrar umas mensagenzinhas sérias e suficientemente profundas, que acompanharão bem uma estafante sessão de sala de espera do dentista.
Tudo sobre o livro, incluindo contactos e encomendas em www.microcontos.pt
Este livro deixou-me com impressões contraditórias; gostei da capa, apelativa e nostálgica, gostei do subtítulo (A última viagem, com todo o requinte), poético e ao mesmo tempo bem-humorado, uma vez que revela uma referência a uma agência funerária, que está próxima do centro da ação. Gostei ainda e principalmente do estilo do escritor, que eu não conhecia; um estilo direto, bastante visual, fácil e atrativo. Gostei de algumas imagens, como a da referida agência funerária, a dar o toque trágico-cómico bem enquadrado com o regime político e a vida social daqueles tempos. Gostei, da contextualização política e social: os quadros sociais são bem delineados, os cenários bem construídos e todo o contexto da ditadura é fiel à verdade histórica.
No entanto, houve algumas coisas que me dececionaram e é difícil falar disso tendo em conta as qualidades que acabei de enumerar. Acima de tudo, esperava mais, em quantidade de informação. Escolhi este livro para ler porque me interessa bastante o assunto: as negociatas escuras do regime fascista de Salazar com a Alemanha Nazi no que respeita à venda de volfrâmio. É que com esse volfrâmio seriam fabricadas muitas armas e munições assassinas enquanto o nosso ditador procurava sair da guerra com o “mérito” da falsa neutralidade. Mas o livro acaba por ter pouco volfrâmio, para minha deceção; o autor constrói diversos cenários, em dois tempos narrativos, mas desmultiplica esses tempos em contextos diversos, dando à obra um aspeto de mosaico que me desagradou por fugir ao tema central.
Mesmo assim é sem dúvida um autor que merece ser mais conhecido e um livro que merece ser lido. O sentido de humor é muitas vezes refinado e eficaz, se bem que outras vezes algo forçado.
Deixo para o fim o aspeto que considero mais bem-sucedido no livro: o rigor com que são retratados os diversos tipos sociais; o autor revela um conhecimento bem seguro dos quadros sociais das épocas descritas e consegue com um notável à-vontade, descrever os diversos “bonecos” que correspondem a esses tipos.
Sinopse (in www.wook.pt)
Na primeira metade do século XX, o mundo foi flagelado por guerras sucessivas, que causaram milhões de mortos, destruição e sofrimento. Houve também quem prosperasse com o esforço bélico, como os volframistas. Portugal foi um dos principais exportadores de volfrâmio, durante a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial.
O enriquecimento súbito dos volframistas e a sua queda na penúria do pós-guerra são motivo para uma tese de doutoramento do investigador João de Deus. Mergulhado numa conturbada vida amorosa, investiga o passado de Petrónio Chibante, o Rei do Volfrâmio, explorador da mina Paraíso, em Vilar das Almas. O passado, convocado de forma estranha pela alma de Serafina Amásio, antes de abandonar o corpo, cruza-se com o presente, revivendo amores e desamores de cada época, no lugar recôndito de Vilar e por esse mundo fora.
O Rei do Volfrâmio é a saga de um país e das suas almas, vivendo de um passado faustoso e iluminado, sem canalizar forças para o futuro. É uma reflexão sobre a diáspora e as gerações de novos párias.
É também uma ode ao amor, nas suas mais diversas e estranhas formas. É ainda uma elegia aos que das fraquezas fizeram forças, em nome da razão.
Embora obviamente bem escrito não foi pelo talento de bem escrever que este livro se destacou na história da literatura; nem sequer pelo estilo objetivo, direto, belo na sua naturalidade. Foi pela enorme sensibilidade de Marguerite Yourcenar que interiorizou na perfeição a personalidade, o talento e a sabedoria deste personagem fascinante que foi um dos 5 grandes imperadores de Roma.
Adriano não tinha talento para as letras mas era apaixonado pela cultura grega. Um admirador do saber, da ciência, da filosofia mas, acima de tudo, do humanismo.
Adriano foi um dos maiores imperadores de Roma e, ao contrário de outros, não se distinguiu pelos feitos heróicos ou espetaculares mas pela sabedoria e pelo talento político. Acima de tudo há que destacar a humildade perante a sabedoria grega ¨sabia que seria sempre menos subtil do que um marinheiro de Egina, e menos sábio do que uma vendedora de ervas da ágora.”
Embora não fosse um guerreiro, Adriano não podia escapar à guerra. O principal foco de , durante o seu reinado, situou-se no Oriente; árabes e judeus estavam unidos contra os romanos; Adriano não conseguia entender esta aversão aos romanos; sentia uma espécie de injustiça pelo não reconhecimento do papel civilizador dos romanos; talvez aqui resida o princípio das desgraças do povo judeu…
Uma das maiores lições que Adriano pode fornecer aos políticos é esta: ele tinha poucos inimigos porque prezava mais a liberdade que o poder. Era um apaixonado pelo mundo; um viajante; tinha o sonho de contornar o mundo, já reconhecidamente esférico segundo Eratóstenes.
Politicamente, Adriano foi um génio. Procurou sempre evitar a guerra, a rapina e o abuso. Assim conseguia agradar às populações e disciplinar o exército. Só a paz podia trazer prosperidade; foi este o seu lema quando chegou ao poder, estabelecendo a paz com os Partos e abandonando territórios mais longínquos, como a Arménia. Defendia o fim das conquistas. Em parte, estamos perante um pacifista no trono romano.
Foi também um pacificador a nível interno: limitou a escravatura e impediu a existência de gladiadores forçados. Procurou estabelecer uma certa moralidade nos costumes, sem moralismos.
“Humanitas, Felicitas, Libertas": essas belas palavras que figuram nas moedas do meu reinado testemunham bem o seu caráter .
Foi o primeiro governante romano a proteger alguns direitos dos escravos: de fazer respeitar a sua família, protegendo-os de funções degradantes e limitando a tortura.
Da mesma forma defendeu os direitos das mulheres, por exemplo proibindo o casamento contra vontade.
Foi um humanista mas procurou sempre por esse humanismo em prática. Tentou construir um império em que todos os homens pudessem ser felizes, sob a proteção da famosa Paz Romana. Ninguém encarnou tão bem o ideal civilizador de Roma.
A relação com Antinoo, o seu jovem catamita: é notável a naturalidade e a singeleza de uma relação homossexual que, entre os romanos, era vista com toda a naturalidade. A morte de Antínoo é o acontecimento que mais páginas ocupa no livro, tal era o amor que Adriano lhe dedicava, ao ponto de ter construído uma cidade em sua honra: Antinoé, ou Antinoópolis, nas margens do Nilo, onde o jovem se suicidara.
É curioso o respeito demonstrado pelos cristãos; apenas os achava demasiado humildes e incapazes de perceber que o amor ao próximo não se coaduna com a natureza humana. Mas o mais curioso (e o mais importante) é que Adriano vê nos cristãos o maior defeito que estes viam nos romanos: a intolerância, neste caso para com a religião romana.
A grandeza de Adriano ficou bem patente na escolha dos seus sucessores, Antonino, um homem essencialmente bom e honesto e Marco Aurélio, um dos imperadores mais cultos e inteligentes que Roma teve; um “filósofo de coração puro”, como o próprio Adriano o definia.
Sinopse
Memórias de Adriano tem a forma de uma longa carta dirigida pelo velho imperador, já minado pela doença, ao jovem Marco Aurélio, que deve suceder-lhe no trono de Roma (séc. II d.C.). Pouco a pouco, através desta serena confissão ficamos a conhecer os episódios decisivos da vida deste homem notável. Vencedor do prémio Femina Varesco, este romance é seguramente uma das mais importantes obras da literatura clássica contemporânea e, em particular, de Marguerite Yourcenar.
A Terceira Condição conta-nos, ao longo de seis dias, a vida banal de um homem de 54 anos, Fima de seu nome, recepcionista numa clínica ginecológica de Jerusalém, que sonha aliviar os sofrimentos do mundo - os das vítimas da Intifada, por exemplo, ou os do cão martirizado pelas crianças do bairro onde habita.
Comentário:
Em termos de estilo e de ideias, Amos Oz pode situar-se a meio caminho entre Phillip Roth e J.M. Coetzee, conseguindo aliar a leveza e o humor de um à capacidade do outro de colocar o dedo na ferida, com uma intensa profundidade reflexiva. No centro de tudo está a eterna questão israelo-árabe, vista pelo lado judaico mas naquele sentido profundamente crítico que carateriza os melhores escritores judaicos da atualidade.
A vida do protagonista é colocada em paralelo com a vida e história de Israel e reside nesse paralelismo o maior mérito deste livro. Fima, diminutivo de Efraim, é um ser complexado como Israel; como se toda a história fosse um peso e todos os atos fonte de remorso.
Em Fima como em Israel parece haver um eterno e incontornável complexo de culpa, particularmente no que respeita aos colonatos e aos territórios árabes ocupados:
“Passamos a vida a tentar recalcar o que fazemos nos Territórios, e como consequência o ar fica tão carregado de fúria e agressividade que andam sempre todos a atirar-se uns aos outros” (pág. 41).
Esta perspetiva dá um tom algo sombrio ao livro mas o autor consegue equilibrar a reflexão com um sentido de humor peculiar derivado da personalidade distraída e desastrada de Fima, como do país. Fima é um incapaz, como o Estado de Israel. Este paralelismo entre o personagem e o país repete-se em diversos âmbitos. Fima “fala pelos cotovelos”; quer estabelecer laços de amizade com todos mas acaba apenas por ser um amigo pouco oportuno, que se intromete na vida de todos, nem sempre com consequências positivas para qualquer das partes. Esta crítica ao país repete-se, por exemplo, no pormenor de Fima anotar e estudar todos os seus sonhos. Israel vive ligada ao passado, revivendo sonhos e pesadelos constantemente, de forma teimosa e depressiva como acontece com Fima.
O que fica, no final, é a sensação de que o país é vítima de si próprio, o mesmo acontecendo com o judaísmo em geral, com a sua necessidade quase doentia de se autopunir, de se julgar constantemente e de não conseguir viver o seu destino de forma independente dos outros.
“Então ainda não entendeu que o seu crime é o seu castigo?” (pg. 232)
E um taxista anónimo sentencia:
“Desde que ocupámos os territórios e a Faixa de Gaza nunca mais tivemos sossego”.
Fima decidiu que se formasse governo, este taxista seria o seu Ministro das Defesa.
Em suma, trata-se de um romance muito rico em conteúdo, sobre uma temática que Roth desenvolveu mais ou menos na mesma linha (talvez com um pouco mais de leveza que lhe confere um maior prazer de ler) e que me fez lembrar aquele que é, na minha opinião, o livro mais interessante sobre este assunto, A Questão Finkler, de Howard Jacobson. E já agora, quem se interessa mesmo por estas questões não pode perder Os Mistérios de Jerusalém, de Marek Halter.
Fui, noutros tempos, admirador incondicional do existencialismo francês. Mas dessa espécie de paixão juvenil restou apenas Camus. Pelo sentimento, pela crueza do discurso mas, acima de tudo, pela inteligência.
Quanto a Simone de Beauvoir, continuo a admirar a sua sensibilidade, a defesa de causas humanitárias fundamentais mas já não tenho paciência para tanto pessimismo, tanta negatividade.
Expor aos leitores a morte da mãe e, pior que isso, o atroz sofrimento provocado por um cancro terminal, é um exercício de sofrimento para quem lê e para quem escreve. Não vejo, na minha condição de leitor amador, qualquer beneficio que se possa tirar de uma leitura como esta.
Em vários momentos da leitura, este livro fez-me lembrar um quadro de Edvard Munch intitulado precisamente A Mãe Morta; a morte da mãe é um momento que, pelo seu dramatismo e pela carga emocional que transporta, deve ser encarado como um momento profundamente pessoal, pelo que o leitor comum não está preparado para sentir toda essa emoção. Pelo contrário, o leitor sente-se um intruso na intimidade do escritor e do seu sofrimento.
Mas é assim o pensamento existencialista (nesse aspeto este livro é paradigmático): a existência, com todos os seus dramas sobrepõe-se ao pensamento e à reflexão; é o peso do real, da impiedade do destino humano.
Enfim, uma leitura que se aconselha para um bom conhecimento do pensamento da autora e de todo o contexto literário da época (anos sessenta do século XX) mas à qual falta aquela componente lúdica que a literatura deve envolver.
Excerto (in Wook.pt)
«Na quinta-feira dia 24 de Outubro de 1963, às quatro da tarde, encontrava-me eu em Roma, no meu quarto do Hotel Minerva; devia regressar a casa de avião no dia seguinte, e estava a arrumar uns documentos quando o telefone tocou. Bost ligava de Paris: “A sua mãe teve um acidente”, disse-me ele. Pensei: foi atropelada por um carro. Ela estava a içar-se penosamente da calçada para o passeio, apoiando-se na sua bengala, quando um carro a atropelou. “Caiu na casa de banho; fracturou o colo do fémur”, acrescentou Bost. Ele morava no mesmo prédio. Na véspera, por volta das dez da noite, enquanto subia a escada com Olga, tinham reparado em três pessoas que os precediam: uma senhora e dois agentes da polícia. “É no segundo andar e meio”, dizia a senhora. Tinha acontecido alguma coisa à Senhora de Beauvoir?. Sim, uma queda. Durante duas horas, ela tinha rastejado no chão até alcançar o telefone; tinha pedido a uma amiga, a Senhora Tardieu, para arrombar a porta. Bost e Olga tinham acompanhado o grupo até ao apartamento.»
Arturo Pérez-Reverte é um dos melhores escritores espanhóis contemporâneos. Pelo menos, é o meu preferido.
Perez-Reverte é um grande narrador de estórias de aventuras; os seus livros envolvem sempre o heroísmo, a bravura, a coragem, mas também a condição humana nas suas mais humildes e modestas facetas. Tudo se passa como se nos seus livros imperassem os opostos: a honra e a desonra, a coragem e a cobardia, o sucesso e o sofrimento. Alguns dos seus livros são profundamente reflexivos, em torno desses aspetos; outros, como este, são predominantemente narrativos, cheios de emoção.
Este é nada menos que o primeiro romance da carreira de Reverte; foi escrito em 1986 quando o autor era ainda jornalista, aos 35 anos de idade. Portanto, este livro é realmente histórico porque marcou a descoberta de um génio que de outro modo se teria perdido no jornalismo de investigação. Mesmo assim, a versão que foi traduzida para português nesta edição da ASA foi revista pelo autor e republicada em 2006.
O tema central da obra irá tornar-se uma constante no percurso literário do autor, por vezes com laivos de obsessão: o eterno conflito entre o idealismo da honra, da nobreza da guerra e a realidade dessa mesma guerra, uma realidade feita de violência e injustiça.
Na época em que Napoleão tentava dominar a Europa (inícios do século XIX) reinava em Espanha um irmão do imperador francês, José Bonaparte, obviamente imposto por Napoleão. Os espanhóis, no entanto, lutavam pelo seu rei e recusavam-se a obedecer ao francês; este invade Espanha e é dessa invasão que dá conta este livro, dando voz a um jovem hussardo (cavaleiro), Frederic, que entra no conflito cheio de vontade de honrar a Pátria, numa guerra que ele encara como forma de defender a civilização, numa perspetiva puramente romântica. Mas a realidade revelar-se-á cruel e dramática. Aquilo que Frederic encontra está longe de obedecer a essa visão romântica; o que ele encontra é o sofrimento humano elevado ao mais alto expoente; é a nobreza de quem combate por uma “Ideia” subjugada pela triste realidade da violência e de tudo quanto há de primário e primitivo.
A “civilização” de Bonaparte nada diz aos rudes e aguerridos camponeses espanhóis que defendem a sua terra com todas as forças. Aqui encontramos outro aspeto que se tornará uma constante no percurso literário de Reverte: uma perspetiva bastante crítica face à mentalidade espanhola, algo rude, violenta, numa teimosia constante que coloca o imediato à frente de qualquer ideal.
Sinopse (in wook.pt)
O primeiro romance de Arturo Pérez-Reverte, agora numa edição revista pelo autor.
Andaluzia, 1808. Numa terra assolada pelo horror da guerra, Frederic Glüntz, jovem oficial do regimento de cavalaria de Napoleão, prepara-se para a sua primeira incursão num campo de batalha. Na iminência do combate contra um exército aguerrido armado até aos dentes e disposto a morrer pela sua terra, os ensinamentos recebidos por Glüntz na escola militar parecem distantes. Rapidamente, uma realidade carregada de terror e sangue acabará por se impor, conduzindo o jovem hussardo a uma reflexão sobre a morte e o sentido da vida. Para trás ficam os seus ideais românticos de glória e heroísmo, derrotados face à crueldade da guerra.
A eterna luta entre idealismo e realismo, em que este último se impõe graças a uma das mais elementares razões humanas - a sobrevivência -, é aqui retratada em toda a sua crueza e impiedade, mas também com todo o talento e mestria a que Arturo Pérez-Reverte já nos habituou.
Esta é uma das obras mais significativas da literatura revolucionária portuguesa, se assim lhe posso chamar. Há muito que desejava preencher esta lacuna no blogue; José Manuel Mendes, um magnífico escritor bracarense, se bem que um pouco afastado dos projetores nos últimos anos, foi um marco significativo na literatura revolucionária do pós vinte e cinco de abril e esta é uma das suas obras mais importantes.
Ombro, Arma! Não é um romance de enredo muito rico nem obra de grande fôlego em termos de intriga, emoção ou riqueza de pormenores; é um pequeno romance, sintético, claro e objetivo mas, acima de tudo, com uma mensagem profunda sobre a dignidade do ser humano; uma dignidade roubada, espoliada e sobre uma condição humana subjugada aos interesses políticos de uma minoria. Por outras palavras, é um belíssimo manifesto contra a longa noite fascista.
Publicado pela primeira vez em 1978, narra a vida num quartel em plena ditadura fascista. Os soldados, subjugados, revoltados mas silenciosos, sonham com a libertação; com o fim do medo. A degradação da condição humana no aquartelamento é o tema central; os soldados são números mecanográficos e instrumentos destinados a manter o poder de alguns. Mas o monstro mais medonho é o medo; o medo da guerra. De África chegam notícias dos camaradas mortos, sacrificados por nada, ou melhor, por um sonho megalómano de um ditador ignorante e desumano.
O amor e a literatura como escape, como compensação. As mulheres são encaradas como uma espécie de anjos, entes superiores com o condão de resgatar as almas dos terrores da vida. Os livros, por seu lado, são o refúgio indispensável mas também os mensageiros que anunciam uma mudança que será a salvação; a redenção.
Mas há um sentimento permanente de revolta e uma necessidade vital de pôr em prática essa revolta. Tudo se passa como se a revolução, que se adivinha no horizonte, fosse a razão de ser destes soldados. E tudo ganhará sentido no final do livro: em Abril.
Enfim, um livro que pode não ser empolgante mas é seguramente eficaz, numa técnica narrativa inovadora em que o narrador omnisciente “deriva” de vez em quando para um discurso na primeira pessoa que confere um aspeto mais profundo e reflexivo. Um livro importante também pela mensagem, pela chamada de atenção para a consciência da injustiça e o papel dos militares na luta política.
Vale a pena voltar a José Manuel Mendes, um escritor injustiçado pela crítica, talvez vítima das suas opções políticas.
Sinopse (in wook.pt)
«Mafra chegou ao fim, escuro exílio. Mafra, o frio de Janeiro tiritando no corpo, a humidade nas paredes, os corredores soturnos onde moram presságios e maldições. Tudo ali é fugaz, predicação de tormenta, manhãs de incerteza e sobressalto, também júbilo e azul — melodias da esperança — , mas a pedra, a abóbada dos tectos, o sombrio dos claustros, perdido o fulgor de outrora, repassam os dias de um torpor longevo. Tudo ali é breve. Mesmo que as horas pesem, a vida hiberne. Mesmo que haja instantes de cristal e levitação. Agora, ao deixar o Quartel e as suas extensões de beleza ao lusco-fusco, a acridez dos silêncios, as coisas desatam o nó dentro das vivências, que começam já a ser outras, solta-se o fio e nada resta. Nada? Os estigmas, a espessura dos constrangimentos, permanecem. E a atmosfera solidária com que defendemos a nossa humanidade ameaçada.» Este é um extracto do belo romance de José Manuel Mendes que a Caminho agora reedita.