segunda-feira, 28 de março de 2016

Menina Else - Arthur Schnitzler


Nenhum livro pode ser devidamente analisado sem ter em conta o contexto em que ele é escrito. Em grande parte, o enredo deste livro e a forma como o autor o aborda deriva da época em que foi escrito. Publicado em 1924, Menina Else é fruto de duas grandes realidades históricas: o triunfo da psicanálise e a afirmação do papel da mulher na sociedade, se bem que de uma forma mais aparente do que real.
Menina Else é um dos primeiros livros escritos em formato de monólogo interior; Else fala com ela própria; auto-analisa-se, pensa em voz alta e exerce uma crítica constante aos seus próprios comportamentos e mesmo pensamentos. É este o mundo de Freud (amigo pessoal admirador de Schnitzer) e da psicanálise: o pôr em causa do individuo enquanto ser pensante, o triunfo do mundo das emoções, das paixões, das pulsões como determinantes do comportamento. Ao assumir sobre os seus ombros a responsabilidade de pagar a dívida da família, Else cai num mundo interior de luta constante entre o ser e o dever; entre a sua própria vida, o seu próprio mundo e a responsabilidade de assumir um encargo familiar; este processo de interiorização conduz a um sentimento de culpa que levará Else à desgraça.
Por detrás de tudo isto há uma enorme contradição histórica: o movimento feminista que parece triunfar e uma sociedade e uma mentalidade burguesas, com o seu código ético rígido que contraria o movimento histórico de libertação da mulher. Como sempre, a moralidade burguesa acaba por triunfar.

Sinopse:
Menina Else, de Arthur Schnitzler, é das primeiras obras literárias a expor um drama psicológico na primeira pessoa. Emblemático autor da Viena fin-de-siècle e importantíssimo escritor de língua alemã, Arthur Schnitzler (1862-1931) conviveu com figuras notáveis da cultura europeia, como Freud, Klimt, ou Schoenberg. Freud, que o considerava uma espécie de seu duplo na área da literatura.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Diário de Inverno - Paul Auster



Comentário:
Escrito na segunda pessoa, este livro, profundamente autobiográfico, é uma espécie de confissão do autor; mais do que um autorretrato, é uma confissão em profundidade, um relatório pessoal da alma do artista.
Em quase todos os livros que já li de Auster há um tom melancólico, qualquer coisa de cinzento, que parece provir da alma do autor. Auster é uma pessoa solidária, altruísta, desprendida e talvez essa preocupação com os outros e com o mundo o torne pessimista ou, pelo menos, algo desinteressado de si mesmo. Daí ao tom depressivo de muitas das páginas deste livro vai um pequeno passo.
É difícil entender como este Auster pode ser aquele que vende milhões de livros, aquele que já faturou uma imensa fortuna; é difícil entender como um homem com tão grande sucesso na carreira e na vida pode ser uma pessoa tão melancólica, triste mesmo. Neste livro, deparamos com um Auster profundamente desiludido com muitos dos aspetos da vida, confrontado com a velhice que se aproxima, mas acima de tudo olhando para o passado de uma forma triste. Aquilo que ocupa mais espaço neste livro não são as belas memórias dos namoricos, os momentos felizes da infância ou, muito menos, os grandes sucessos literários e as enormes alegrias que os seus melhores livros lhe valeram; a este último aspeto, Auster nem sequer uma palavra lhes dedica; prevalecem sempre as memórias mais tristes: um acidente de automóvel em que ele poderia ter sido responsável pela morte da família, a morte dos pais, os desentendimentos com as famílias, as ruturas nas relações e os incríveis ataques de pânico de que é vítima, são estes os temas mais recorrentes desta espécie de autobiografia. 
Talvez a herança judaica contribua para esta melancolia; na verdade poucos são os escritores judeus que não demonstram trazer em si a herança de séculos de perseguições e intolerância; também aqui se vê, na alma de Auster, as marcas dessa intolerância e a incontornável memória do holocausto.
Na verdade, é necessário que o leitor se afaste um pouco, em termos emocionais, para não se deixar influenciar pelo tom triste, quase deprimido, desta obra. 
Mesmo assim, é possível analisar o livro numa outra perspetiva, mais positiva: em termos de estilo, Auster é talvez o escritor atual com uma escrita mais “visual”; sem qualquer exagero na adjetivação, com frases curtas e uma prosa sem rodeios ou floreados, Auster expressa-se de forma direta, crua e nua. As suas descrições são precisas e concisas. Em termos de enredo, Auster faz de cada episódio da sua vida a página ou capítulo de um folhetim que desvendamos com interesse e que nos levam a ler o livro como se de um romance se tratasse, numa leitura sempre fluida e interessante. Ao longo do livro damos connosco a “torcer“ por Auster e um pouco tristes pela forma como o autor sofre com os males do mundo; é o preço de ser pensante, de refletir e de lutar constantemente por um mundo melhor; Auster é um homem comprometido; um homem de causas, pelo que lhe é impossível encarar o sucesso ou a riqueza como motivos de felicidade. Tal como já escrevi várias vezes, mais do que um grande escritor (para mim um dos 3 melhores do mundo atualmente, com Roth e Murakami) Auster é um Homem muito grande; um excelente ser humano. E todos sabem que um excelente ser humano dificilmente pode ser feliz…

Sinopse: (in wook.pt)

Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.

Paul Auster, incansável criador de ficções e de personagens inesquecíveis, vira agora o olhar para si próprio e para o sentido da sua vida. As descobertas da infância e as experiências da adolescência, o compromisso com a escrita - que marcou a sua entrada para a idade adulta -, as viagens, o casamento, a paternidade, a morte dos pais... Uma vida que transborda das páginas deste Diário de Inverno, um definitivo autorretrato construído com a paixão e a transbordante criatividade literária que são as marcas distintivas da identidade deste escritor amado pelos leitores e admirado pela crítica.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Cândido - Voltaire


Comentário:
Escrito no início da segunda metade do século XVIII, este livro tem um enorme valor histórico e filosófico. Pelo contrário, em termos literários não podemos dizer que estejamos perante uma grande obra-prima. Na verdade, o enredo está construído de uma forma algo precipitada, com uma ação tão veloz que muitas vezes o leitor não consegue compreender ou sequer identificar as sucessivas mudanças de cenário. Tudo se passa como se Voltaire escrevesse de forma ansiosa, pretendendo transmitir o mais depressa possível as suas mensagens, deixando para segundo plano uma estória que até é interessante e engraçada.
O verdadeiro significado desta obra está na afirmação do Iluminismo, corrente filosófica que viria a estar na base da Revolução Francesa, à qual forneceu as suas bases teóricas e doutrinárias. Voltaire, juntamente com Rousseau, Diderot, Montesquieu, etc. foi um dos mais importantes teóricos do iluminismo e utiliza esta obra como forma de expressar as suas principais ideias filosóficas: acima de tudo, a defesa inequívoca da liberdade religiosa, inclusivamente do direito ao ateísmo; a defesa da liberdade de comércio e da iniciativa individual; a crítica ao absolutismo e a todas as formas de concentração do poder político e, não menos importante, o combate pela igualdade social, lutando contra os privilégios das classes dominantes (nobreza e clero).
Assim, é em função destes valores que Voltaire constrói o enredo do seu Cândido. Antes de mais, o próprio nome indicia o espírito do herói do livro: ingénuo. Cândido acredita ingenuamente no seu amado mestre, um filósofo de nome Pangloss que defende o otimismo como sistema filosófico, uma visão positiva e benévola do mundo e dos outros. Obviamente, Voltaire ridiculariza o mais possível esta opinião, pois não partilhava minimamente esse otimismo; para ele, a Europa e o mundo são palco das maiores injustiças e violências, que ele descreve com crueza mesclada com ironia e sarcasmo; são as guerras que matam de forma cruel milhares e milhares de seres humanos, são os roubos e outros crimes com que os homens se destroem uns aos outros, são os réus corruptos e insensíveis às necessidades dos seus súbditos e, não menos importante, é um clero corrupto, pecador, sem fé e profundamente mergulhado nos mais interesseiros negócios terrenos. É este o quadro que Voltaire descreve: um quando de injustiça, violência, prepotência, miséria, etc. 
Assim se compreende a necessidade que Voltaire sente de uma revolução radical; e assim se justificará a violência e o radicalismo que alguns anos depois estarão presentes na Revolução Francesa, iniciada em 1789.
Quanto ao estilo, como se disse, a ação é veloz e algo precipitada mas o interesse maior da leitura está no humor sarcástico e irónico que Voltaire usa; tudo é alvo de troça e crítica, recorrendo frequentemente à caricatura dos diferentes personagens. Este tom sarcástico e crítico estende-se, creio, à própria literatura pois parece-me óbvia a crítica ao romance tradicional, neste caso o romance de aventuras e de cavalaria que (ainda) estava na moda nas classes aristocráticas daquele tempo, nomeadamente no público feminino; neste aspeto Cândido lembra (salvas as devidas distâncias) o D. Quixote de Cervantes, na forma como ridiculariza o viajante aventureiro à procura da sua Dulcineia (neste caso a formosa dama chama-se Cunegundes).

Sinopse: (in wook)

Publicada anonimamente em 1759 é logo identificado o seu Autor e nesse mesmo ano a obra conhece vinte edições, seguindo a sua fama para a Itália e Inglaterra onde é traduzida. 
Voltaire foi o introdutor de um género de conto que utiliza a ironia para revelar criticamente a realidade do mundo em que vivia: utiliza a ficção como interrogação e os seus personagens agem por vezes em contradição com o senso-comum da época. 
Em Cândido, o seu herói confronta-se regularmente com o optimismo veiculado pelas teorias de Leibniz (o melhor dos mundos possíveis), ou o seu nome não exprimisse precisamente a ideia da candura que o optimismo gera na adversidade através da existência do mal e da justiça divina.

domingo, 6 de março de 2016

O Cortiço - Aluísio Azevedo


Comentário:
Um dos maiores méritos deste livro é a análise comparativa das caraterísticas do ser português com o ser brasileiro; as diferenças são tão profundas que se torna admirável a forma como os dois tipos de personalidade convivem neste país que é o país-irmão.
Inicialmente o autor parece identificar três tipos de portugueses: o português de sucesso que escolheu o Brasil como terra dos seus sonhos e por isso sente que merece ser rico; o português que se cansa do espírito trabalhador luso e adere ao espírito brasileiro; finalmente, o português pobre, sem eira nem beira, que se limita a trabalhar para sobreviver. Cora constantemente de saudade e canta o fado; aliás o primeiro tipo também o faz, mas porque é um eterno insatisfeito.
Aluísio Azevedo encontrou no personagem Jerónimo um meio de plasmar as duas personalidades, ao fazer com que ele, por influência de uma moça de sangue bem quente, se transformasse de português em brasileiro; vejamos então alguns adjetivos usados para caracterizar o Jerónimo enquanto tinha um comportamento tipicamente português e depois o Jerónimo já “convertido” ao estilo de vida brasileiro: 
O Jerónimo português: trabalhador até à exaustão, poupado até à sovinice, vida sombria, tristonha, marcada pela saudade, pelo fado.
O Jerónimo “brasileiro”: apaixonado, afrouxado em energias, adquiria desejos, idealizava felicidades e prazeres, não dispensava o café e a cachaça, gastador, o samba toma o lugar do fado. Torna-se esbanjador e assim constrói a sua desgraça. 
Esta comparação, que à partida apanha o leitor desprevenido parece uma crítica ao espírito “sovina” do português mas, na verdade, a perspetiva crítica incide sobre os dois tipos; o português torna-se obcecado pela riqueza, egoísta e preso às aparências; o brasileiro torna-se preguiçoso, esbanjador e irresponsável.
O povo, como em qualquer escritor naturalista, é visto com grupo e não individualmente. Aqui, ao contrário do mestre Zola, a primazia não é dada às condições materiais dos mais pobres, mas sim aos seus costumes, crenças, superstições, hábitos. Pelo meio constrói uma curiosa crítica ao moralismo hipócrita que parece derivar de uma determinada interpretação do pensamento religioso, mesclado com superstições; a crença religiosa aparece sempre misturada com bruxaria, feitiçaria e as mais irracionais crenças… enfim, um belo retrato coletivo. Mesmo assim, a importância dada às condições materiais de existência vai crescendo ao longo do livro, à medida que se vão acentuando as desigualdades sociais; na parte final assistimos a esse “fim da história” em que os ricos se tornam mais ricos e prepotentes enquanto os pobres, à sombra dessa riqueza, caem na miséria, como os mineiros de Zola. Os poderosos, esses caem no ridículo da nova aristocracia, aderindo a uma sociedade que esconde as misérias pessoais por detrás da típica sociedade de aparências que rodeia a elite social dominante.
A solidariedade está sempre presente como um fator de união, e o cortiço é a personificação dessa união solidária. No entanto, quando os conflitos estalam emerge a desunião e com ela a violência. É com grande eficácia que o autor nos explica a relação intima entre a natureza extrovertida da alma brasileira e a facilidade com que surge a violência. É o “sangue quente”, reforçado pelo álcool, que comanda a ação coletiva e não a racionalidade.
A linguagem crua, direta, realista, aliada ao realismo com que é descrito o “calor” da alma brasileira conferem a algumas passagens do livro um aspeto de romance erótico pouco comum no século XIX. Mas o que se pretende não é acentuar o erotismo mas sim ilustrar um certo desregramento dos costumes por parte da comunidade brasileira. Noutras passagens, este hiper-realismo dá lugar a uma linguagem fria, chocante, como na descrição da criança que morreu esfacelada na pedreira.

Sinopse: (in fnac.pt) - contém revelações sobre o enredo -
O cortiço, publicado em 1890, focaliza a ascensão social do comerciante português João Romão, dono de uma venda, de uma pedreira e de um cortiço, bem perto do sobrado de um patrício endinheirado, o comendador Miranda. A rivalidade entre os dois aumenta à medida que cresce o número de casinhas do cortiço, alugadas, na sua maioria, pelos empregados da pedreira, que também fazem compras na venda de João Romão, que, desse modo, vai se enriquecendo rapidamente. Com a intenção obsessiva de tornar-se rico, João Romão não se permite o menor luxo, economizando cada moeda e explorando os outros sempre que pode. Vive amasiado com uma escrava fugida chamada Bertoleza, que o auxilia no trabalho duro, e para quem ele forjou um documento de alforria. O grande sonho de João Romão é adquirir prestígio social, como seu patrício Miranda. Este, à medida que o vendeiro vai enriquecendo, não vê com maus olhos a possibilidade de oferecer-lhe a mão de sua filha, Zulmira. Um amigo comum, Botelho, se faz intermediário das negociações e tudo fica arranjado. João Romão fica noivo de Zulmira, alcançando assim um patamar mais alto na escala social. O único inconveniente é Bertoleza, que não aceita ser descartada sumariamente. Botelho arma um plano: denuncia Bertoleza como escrava fugida a seu verdadeiro dono, que vai com a polícia prendê-la. João Romão faz de conta que não sabe de nada e a entrega. Bertoleza percebe que o vendeiro, sem coragem de mandá-la embora ou de matá-la, preparou essa armadilha para devolvê-la ao cativeiro. Desesperada, ela se mata. A narração desses fatos da vida de João Romão entrelaça-se com a narração de vários episódios dos moradores do cortiço, cuja luta pela sobrevivência é dura e cruel. O caso de Jerônimo é exemplar da visão naturalista do autor. Jerônimo é um operário português contratado por João Romão para trabalhar na pedreira. É um homem sério, casado com Piedade, também portuguesa. Eles têm uma filha adolescente e vivem bem como família. Mas, no cortiço, Jerônimo começa a sofrer influência daquele ambiente sensual e desregrado, apaixona-se pela mulata Rita Baiana, por ela mata um rival e abandona a família. Acompanhando a evolução social de João Romão, o cortiço também se desenvolve, principalmente depois de um grande incêndio, quando passa por reformas e transforma-se na "Avenida São Romão", com melhor aparência e uma população mais ordeira. A população mais baixa e miserável se transfere para outro cortiço, o Cabeça de Gato, mantendo-se assim a engrenagem do sistema social em que predomina a lei do mais forte.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Pomar de Histórias - José Fernandes da Silva

Comentário:

Na senda dos seus livros anteriores, José Fernandes afirma-se como o escritor da terra e do povo; o artesão de uma prosa muito aparentada à poesia que tanto cultiva. Aqui, as palavras parecem nascer da terra amanhada pelo talento do poeta.
José Fernandes concretiza assim a fidelidade às raízes das quais ele próprio brotou; filho da terra e de um povo humilde; é a esse povo que ele procura fornecer uma identidade; o que o autor busca não é apenas contar belas estórias das suas gentes; é dar a essas gentes aquela identidade, aquela coesão enquanto Povo que os tempos modernos parecem ameaçar. Uma identidade que parece ser fornecida por uma espécie de honra que se configura como traço de união entre os vários contos; uma honra fundada sobre a moral cristã mas também sobre as leis da natureza.
Ao nível do estilo, José Fernandes reforça neste livro um aspeto que é transversal a toda a sua obra: a musicalidade das palavras. Raros são os escritores que conseguem obter descrições tão precisas e concisas, numa linguagem objetiva, bela mas sem floreados desnecessários. Para mim, que devo ao autor a honra da sua amizade, a explicação para esta filigrana das palavras é simples: é a arte do músico ao serviço da escrita. Sendo músico, José Fernandes transporta para as palavras os acordes e as melodias das pautas com que convive diariamente.
Nesta prosa natural lê-se a alma de poeta – a capacidade para encontrar mensagens nas coisas mais simples da vida; muitos destes contos partem de situações absolutamente banais da vida mas nas quais o autor encontra sempre um significado especial; e é aí que reside o encanto da vida: na beleza das pequenas coisas…
Mas este livro, como os anteriores do autor, é também um testemunho etnográfico; estamos perante um belo repositório de usos e costumes, tradições e até linguagem específicos de um mundo rural que está em vias de se perder; daí as numerosas referencias aos séculos passados onde o autor coloca a ação de várias destas narrativas; este já não é o mundo das novas gerações…
Finalmente, gostaria de destacar três contos como representativos da obra na sua globalidade, em termos de temática:
- Logo a abrir deparamos com A Pedra com Inscrições; desconcertante o humor com que termina o conto. Alguém escrevera numa enorme pedra uma frase que convidava a que a virassem; só que o seu peso era brutal e a aldeia em peso passou séculos a tentar virá-la. Um dia, todo o povo, unido pela curiosidade e pela força da união, lá conseguiu, depois de sacrifícios imensos, voltar a pedra. Surpresa das surpresas: por baixo não havia tesouro algum. Mas na face voltada antes para a terra e agora voltada ao céu alguém descobriu uma inscrição que agradecia aos heróis que voltaram a pedra, que se encontrava cansada de tantos anos virada para o mesmo lado…
- O conto O Rio Feliz e Infeliz é um verdadeiro hino ecológico; não a essa ecologia pintada de cores políticas mas como uma manifestação singela de amor à terra e à água que dela brota; uma manifestação de amor de alguém que não esqueceu as suas raízes e que sofre com os disparates que o homem faz na força destruidora que resulta da ambição de riqueza.
- Depois da queda é um conto sobre as desigualdades sociais, que ainda hoje prevalecem. A sociedade humana é por natureza desigual e injusta, no entanto, neste mundo fechado rural a desigualdade é marcada por barreiras quase inultrapassáveis entre os diferentes grupos; prevalece uma aristocracia terratenente herdeira da velha nobreza que se demarca em absoluto do povo.
Conclusão: este livro da Calígrafo merece ser lido pela linguagem clara, bela e cristalina; pela temática rural que faz do autor um lídimo herdeiro da melhor tradição neorrealista; pela graça, pelo humor discreto da malandrice, da mais inocente brejeirice; e, acima de tudo, pela alma da terra que brota em catadupas destas páginas.
Uma nota final para destacar o belo prefácio do escritor João Lobo, também ele uma emanação da alma da terra.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Dom Dinis - Cristina Torrão - Divulgação

Não costumo fazer divulgação neste blogue mas abro aqui uma exceção para anunciar a reedição de um grande livro, já analisado neste blogue, Dom Dinis, de Cristina Torrão.


“DOM DINIS - A QUEM CHAMARAM O LAVRADOR” DISPONÍVEL EM E-BOOK

Foi no passado dia 24 de Fevereiro editado em eBook o livro “Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador”, da autoria de Cristina Torrão. O livro digital, que poderá ser adquirido na Leyaonline bem como nas livrarias online associadas, é uma reedição revista e melhorada da versão em papel, editada em 2010 pela Editora Ésquilo. O texto foi devidamente trabalhado, de forma a dar mais realce ao enredo do que aos factos históricos, que podem tornar fastidiosa a leitura de um romance histórico.

Sobre o livro:
Dom Dinis, o Lavrador ou o Poeta?
Há ainda quem lhe chame o Trovador. E, no entanto, para fazermos justiça ao sexto rei de Portugal, teríamos de ir mais longe. Podíamos chamar-lhe o Legislador, o Reformador, ou até o Defensor, tanto ele fez pela defesa e delimitação das fronteiras do reino, apesar de não ter sido um rei propriamente guerreiro.
Dom Dinis não foi, porém, apenas o homem público. Dele se diz que, não se furtando a amores adúlteros, muito fez sofrer a rainha com quem esteve casado durante cerca de quarenta e quatro anos, uma rainha que foi canonizada. E, apesar de ter ficado na história como um rei justo e culto, debateu-se numa guerra civil contra o seu próprio filho e herdeiro, uma guerra que massacrou o reino português e amargurou os últimos cinco anos de vida do monarca, talvez até lhe tenha acelerado a morte.

«Quantas contendas são provocadas e quantas mágoas se guardam por palavras silenciadas? Palavras que se adivinham, mas que não são ditas? Não se duvida do amor de um pai por um filho e, no entanto, se não for continuamente expresso, seja por falas, seja por atos, deixará o filho eternamente insatisfeito, desconfiando desse afeto. Qualquer pessoa, desde o mais baixo serviçal, ao mais alto dos soberanos, há mister da aprovação e do apoio expresso de seus orientadores. É um erro abrigarmo-nos sob a capa das evidências. Amar não é apenas um conceito, é prová-lo, todos os dias, a todas as horas. Quer se trate de um pai, de uma mãe, seja de quem for: quem não pratica o amor, não o recebe de volta. Quanto desprezo, quanto abandono e, muitas vezes, quanto sarcasmo aguentaram aqueles de quem se diz não serem bons filhos?»
(palavras da rainha Santa Isabel, neste romance)

Sobre a autora:

Cristina Torrão nasceu a 16 de Julho de 1965, em Castelo de Paiva. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Ingleses e Alemães) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em Julho de 2007 venceu a segunda edição do Concurso Literário “O meu 1º Best-Seller”, levado a cabo pela Modelo/Continente em parceria com as Edições Asa e a revista Visão, com o livro “A Moura e o Cruzado”. No ano seguinte publicou, com a editora Ésquilo, o seu segundo romance histórico “Afonso Henriques - o Homem”, a que se seguiu uma reedição da sua primeira obra, que recebeu o título “A Cruz de Esmeraldas”, e “D. Dinis - a quem chamaram o Lavrador”. Em 2014 publicou, sob a chancela da Poética, “Os Segredos de Jacinta”, o percurso de uma jovem no século XII português.


Ficha do Livro:

Título: Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador
Autora: Cristina Torrão
Editora: edição de autor - Escrytos
ISBN: 9789892064505
Nº de Páginas: 300
Preço: 6,99 €

Lojas online onde o livro está disponível:
LeyaOnline, Amazon, Apple Store, Barnes & Noble, Fnac.pt, Gato Sabido, IBA, Kobo, Livraria Cultura, Submarino, Wook entre outras.



Blogues da autora:


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Oliver Twist - Charles Dickens


Comentário:
Segundo livro de Dickens, apresenta-nos as bases daqueles que serão os traços fundamentais da sua magnífica bibliografia: escrita muito visual, simples e fluída, servindo de base a uma temática de âmbito social que hoje talvez apelidaríamos “de intervenção”. Numa fase pré-socialista e pré-sindical, o capitalismo ainda mais selvagem que o de hoje imperava no ambiente vitoriano. A sociedade “british”, altiva e hipócrita, encaixava no seu seio a mais rude e desumana pobreza, encarando-a com naturalidade, como se os homens desprotegidos pela sorte constituíssem uma espécie de casta menor, que esses mesmos cidadãos “asseados” tinham de suportar.
Oliver, o miúdo órfão representa toda essa classe de crianças que a sociedade londrina rejeita, empurrando-a para a sarjeta da criminalidade e da miséria.
Este é um dos primeiros livros de Dickens e talvez por isso é um dos mais lineares e mais “ingénuos” na medida em que privilegia a narrativa, o humor e a emoção, a incerteza no evoluir da narrativa. Na sua tendência para a narrativa biográfica de ficção (que viria a reforçar e desenvolver com Nicholas Nickleby e David Copperfield, toda a ação é centrada nas personagens, nas suas emoções e sentimentos. Neste aspeto talvez Dickens tenha sido um dos percursores do género “novela”, entendido como romance ligeiro e que dá preferência às histórias “de vida”. Não sei, deixo isso aos especialistas da literatura. No entanto, o que interessa reter é que, sendo uma obra publicada em fascículos, Dickens, mesmo nesta fase inicial da carreira, manobra como ninguém a emoção e a incerteza na mente do leitor levando-o a devorar página sobre página.
Embora seja um crítico da austera sociedade vitoriana com todos os seus problemas. Dickens não deixa de ser, a seu modo, um moralista, como se vê numa parte essencial do livro em que um assassinato é seguido por uma violenta crise de consciência, um remorso a fazer lembrar o Crime e Castigo de Dostoievski.
Neste livro, o génio britânico desmente um pouco aquela ideia que por vezes fixamos a respeito das suas ideias, segundo a qual o autor defende incontornavelmente os elementos hierarquicamente mais baixos da sociedade; na verdade, aqui ele acusa claramente esse tipo de pobre que se refugia na criminalidade e por vezes roça até um certo moralismo. Mas depressa esse moralismo se desvanece e é substituído pelo humor com que a sua crítica atinge, por exemplo, os elementos da polícia londrina, supremos exemplos de estupidez.
O sentido de humor é finíssimo que deixa um sorriso permanente e não a gargalhada efémera. Exemplo, um trecho de um diálogo entre um bedel (funcionário paroquial) e a mulher de meia-idade, beata e bem nutrida:
“A dama não pôde resistir. Caiu nos braços do bedel, e este depôs um apaixonado beijo no nariz da matrona. 
— Que perfeição paroquial! — Exclamou o Sr. Bumble!”
Posteriormente, o casamento destes personagens serve a Dickens para uma corrosiva e brilhante crítica social, apresentando-nos um bedel que deixa de ser o altivo funcionário para se transformar no submisso marido, capaz de encaixar uma valentes “porradas” por parte da matrona.
O livro termina de forma algo melodramática, num quadro profundamente emotivo que Dickens não repetirá (pelo menos de forma tão vincada) nas obras subsequentes.
Uma nota final para esta histórica e excelente tradução de Machado de Assis: aqui nada é supérfluo. Assis terá optado por uma tradução bastante interventiva que tornou o livro mais sintético mas, ao mesmo tempo, mais atraente ao leitor.

Sinopse (in wook.pt)
Obra maior de Charles Dickens, Oliver Twist destaca-se pelo seu realismo, retratando pela primeira vez a rudez dos gangs londrinos, até então descritos com glamour e romantismo. Realça a vida de escravatura das crianças de rua e um submundo paralelo ao mundo imperial da Grã-Bretanha.
Ladrões, assassinos, mentes perversas, prostitutas, a dureza da vida na sarjeta num mundo sem esperança povoam o universo de Oliver Twist, o órfão que personifica a resistência ao sofrimento à corrupção e à luta pela vida que faz dele um verdadeiro sobrevivente. Diversas vezes adaptado ao cinema e à televisão, Oliver Twist tem agora uma nova versão cinematográfica pela mão do mestre Roman Polanski.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Francoatirador Paciente - Arturo Pérez-Reverte


Comentário:
Publicado em 2014, este é um dos mais recentes livros deste que é, na minha opinião, o melhor escritor espanhol da atualidade. Na contracapa da edição portuguesa da ASA há uma citação do La Repubblica que diz o seguinte: “Um escritor que cruza o melhor de Umberto Eco e de Steven Spielberg”. É caso para dizer, não exageremos. Reverte é excelente mas Eco e Spielberg são o topo em cada uma das suas artes. Eu diria antes, já que estamos a falar de literatura espanhola, que Reverte cruza o melhor de Eduardo Mendoza (a profundidade das ideias, o rigor formal do romance, a arte de bem escrever) com o melhor de Zafón (a beleza do thriller, a emoção, a incerteza no evoluir do enredo). E junta a tudo isso um gosto especial pela análise e crítica histórica. No entanto, este é (creio) o primeiro livro que leio de Reverte em que o autor não se debruça sobre assuntos históricos.
Pelo contrário, este livro é sobre algo de muito atual: a arte urbana nos seus limites ténues e polémicos com o vandalismo; o grafiti como arte de rua, livre mas sujeita a um certo radicalismo rebelde. Alexandra é uma jornalista que procura penetrar o mais profundamente possível nesse submundo, levando-a a descobertas inesperadas mas que viriam a terminar de uma forma absolutamente inesperada, dando ao livro um final surpreendente.
Desde cedo, algures nos anos oitenta, Reverte habituou-nos a duas vertentes na sua escrita: uma mais reflexiva, mais pensada, mais erudita talvez, de onde se destacam O Pintor de Batalhas e principalmente aquele que é o seu melhor livro na minha opinião, O Clube Dumas e uma outra vertente, mais divertida, mais detectivesca e normalmente centrada na narrativa histórica; dessa vertente destaca-se sem dúvida uma obra em sete episódios, As Aventuras do Capitão Alatriste. Nessa narrativa histórica Reverte salienta-se pela perspetiva crítica que verteu um pouco para este romance, se bem que colocando-o no século XXI. Toda esta “conversa” para dizer o seguinte: parece-me que este livro é uma espécie de romance histórico situado no presente. 
A questão central do livro é muito pertinente: a arte atual, principalmente a pintura, a partir do momento que seguiu o rumo do não figurativo prestou-se a uma certa falta de critério seguro de qualidade; os arrivistas que surgem protegidos por galerias famosas ou críticos bem colocados têm êxito garantido, deixando para trás pintores com talento. É neste contexto que surge a figura de Sniper, o artista de rua que recusa terminantemente adaptar-se à arte comercial das galerias, que ela considera abjeta por se ter vendido ao capitalismo. “A arte moderna não é cultura, é só moda social”, afirma Sniper.
Um dos aspetos mais meritórios do romance é que Reverte recusa totalmente qualquer maniqueísmo; pintura de galeria e grafitis não representam o bem nem o mal; os writers dos grafiti não são bons nem maus; nem artistas perfeitos nem vândalos. Fica ao leitor a tomada de posição. O romance, se bem que divertido e mesmo apaixonante em termos de suspense, não deixa de nos oferecer motivos de reflexão…

Sinopse (in wook.pt):
Sniper é uma lenda viva no mundo da arte de rua. Subversivo e omnipresente na tela urbana, ninguém conhece a sua identidade, poucos terão visto o seu rosto, não há relatos do seu paradeiro. Quem é o verdadeiro Sniper por detrás deste enigma que o mistifica? É um heroico cruzamento de Salman Rushdie e Banksy, um justiceiro solitário? Ou um terrorista urbano, um egomaníaco cujas ações já se revelaram fatais?
Alejandra Varela, especialista em arte, decide seguir os passos deste homem sem lei. Uma mira telescópica de francoatirador assina todos os trabalhos de Sniper, e é essa mira que leva Alejandra a infiltrar-se no submundo de Madrid e Lisboa, Verona e Nápoles. Cidades que são os campos de batalha prediletos deste caçador solitário. Mas, a coberto das sombras, uma outra pessoa aguarda para descobrir o paradeiro de Sniper, embora as suas motivações sejam bem diferentes…
Segue-se um formidável duelo de inteligências, um jogo de perseguição entre caçador e presa cujo final é, no mínimo, surpreendente.
Thriller centrado no obscuro e inexplorado submundo da arte urbana, nas suas leis e códigos éticos próprios, na frágil distinção entre arte e vandalismo, O Francoatirador Paciente é um convite à reflexão sobre a identidade urbana, a arte e o artista moderno.

domingo, 17 de janeiro de 2016

A Letra Escarlate - Nathaniel Hawthorne


Comentário:
Publicado em 1850, este livro é talvez o primeiro grande romance da literatura norte-americana; na verdade poucas obras de ficção poderão ter servido de inspiração a Hawthorne. Por outras palavras, estamos perante um autêntico pioneiro.   
Como pano de fundo, a América do Norte no século XVII em plena colonização pelos ingleses, assistindo-se à fixação das colónias de populações puritanas, verdadeiramente fanatizadas. Na realidade, a maioria destes colonos eram ingleses de baixa condição, perseguidos pela justiça ou então refugiados por motivos religiosos. Foi por esse motivo que muitas seitas protestantes puritanas acabaram por se instalar no território que hoje conhecemos como EUA e que explicam, em parte, a mentalidade conservadora patente na maioria da população deste país.
A ação decorre na cidade de Salem, precisamente onde se deu o processo de acusação de bruxaria que levou à condenação de dezenas de mulheres por bruxaria. Esse é o facto histórico; o enredo ficcional baseia-se na história de uma mulher que um dia cometeu um pecado; tornou-se adúltera num momento de fraqueza. Condenada, mal vista e mal-amada, foi obrigada pelos juízes da cidade a usar uma letra bordada, um A escarlate, inicial de adúltera. Mas pior que a condenação é a forma como Esther é totalmente ostracizada pela população; os habitantes da cidade são mesmo levados a não a olhar de frente quando se cruzam com ela e muito menos dirigir-lhe a palavra. E assim Esther deveria passar o resto da vida.
A caraterização das personagens é um dos pontos mais fortes e geniais deste livro; cada uma das personagens principais é uma figura fortíssima e representativa de uma figura social típica. Assim, o pai da criança é uma figura cobarde, apática perante o sofrimento de Esther mas ao longo do livro vai evoluindo para uma tomada de consciência e tentativa de redenção que não são mais que atitudes destinadas a combater o remorso que o atormentava. Curiosa a forma como o autor só nomeia o pai da criança quando o leitor já foi levado a descobrir a sua identidade.
A filha, resultado da aventura de Esther, é Pearl (Pérola), uma jóia no meio do preconceito. Ela não é a criança perfeita; não é propriamente o bom selvagem de Rousseau; é antes o ser livre que lhe permite ser pérfida por vezes e amorosa noutras. Ela simboliza precisamente o ser humano livre das peias da religião fanatizada.
A Esther, tal como acontece com Pearl, o autor atribuiu um nome bem significativo, numa referencia clara a Ester, figura bíblica, rainha da Pérsia casada com Xerxes que arriscou a vida para interceder junto do imperador para salvar o povo judeu. Aqui Esther parece redimir toda a população como se fosse, com o seu castigo, capaz de libertar a cidade de uma espécie de pecado original, num contexto em que o pecado está por todo o lado, tal é o fanatismo com que se vive a religião; ou seja, ao ser punida, ela constitui uma espécie de catarse, de libertação daquelas mentes atrofiadas pelo fanatismo.
Um dos aspetos mais curiosos e mais artísticos do livro é a forma como o autor cuidou do domínio espacial: a cidade é associada ao conservadorismo, à desumanização provocada pelo fanatismo e à escravidão a que estão sujeitos os cidadãos, especialmente as mulheres. A floresta, pelo contrário, é o espaço de liberdade. É lá que as bruxas moram e elas representam precisamente o espírito livre. A natureza é assim apresentada como contraponto a uma civilização peada pela religião, num espaço de felicidade, onde Esther encontra o raio de sol que lhe fugia, numa figura de estilo que configura uma das passagens mais brilhantes da obra.
Enfim, trata-se de um livro que não escapa a uma certa ingenuidade formal mas que se compreende perfeitamente pelo seu caráter pioneiro; antes de Hawthorne poucos foram os grandes escritores de ficção. Talvez Poe e Goethe tenham sido os seus únicos percursores, embora em dimensões completamente diferentes. Um livro que é um marco histórico, obrigatório para todos que pretendem conhecer um pouco da história da grande literatura mundial. Mas é também um livro que se lê com facilidade e com imenso prazer.

Sinopse: (in www.fnac.pt):
O ambiente, asfixiante de puritanismo, duma colónia do Novo Mundo e, nele, o drama de um amor taxado de pecaminoso pelo convencionalismo da sociedade. O drama do amor entre um homem e uma mulher – uma mulher corajosa e um homem frouxo: enquanto ela enfrenta o opróbrio a que a votam, ele, «piedoso» ministro da religião, acoberta-se na respeitabilidade de uma fachada irrepreensível, a esconder o drama profundo duma consciência torturada pelo remorso. Um livro forte e pungente, um dos mais poderosos romances da literatura americana do séc. XIX e ao qual Nathaniel Hawthorne deve a sua consagração como escritor com assento entre os grandes nomes da literatura universal.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Germinal - Émile Zola


Comentário:
Publicada em 1885 esta obra é um verdadeiro marco na afirmação do romance francês, num plano completamente diferente de Flaubert e outros realistas que pontificavam naquele tempo. Aliás, a crueza e a emoção com que a ação é descrita levam a que os críticos literários apontem Zola como o maior representante do Naturalismo. “Ismos” à parte, que pouco nos interessam, Zola expõe neste livro a situação dramática dos mineiros na extração de carvão e respetivas consequências políticas quando as ideias socialistas começam a ter impacto na Europa central. Mais tarde, Gorki colocará estas ideias num plano mais concreto, com A Mãe; estará feita nessa altura a ligação entre os livros e a ação política. Germinal é talvez a obra onde mais facilmente se pode reconhecer a linha de contacto entre o realismo literário e a ideologia socialista.
As condições de vida destes mineiros não são muito diferentes das que Follett descreve para os camponeses da Idade Média, ou dos pobres da Roma antiga descritos por Steven Saylor ou dos pobres de hoje. Afinal, a miséria, a injustiça, a desigualdade e a exploração são intemporais…
Um dos episódios mais marcantes deste livro é aquele em que Catherine, na mina, perante o calor insuportável é forçada a tirar toda a roupa; a sua nudez, perante os mineiros homens, é descrita com o a perda total da dignidade; a miséria não se exprime só pela falta de comida e de quaisquer comodidades por parte destes mineiros; exprime-se também pela perda total da dignidade. Como alguém escreveu um dia, não há dignidade na pobreza…
“As grandes empresas, com suas máquinas, esmagavam tudo, e não se tinham sequer as garantias de outrora, quando o pessoal da mesma profissão, reunido em corporações, sabia defender-se. Raios! Era por isso, por isso e por muitas outras coisas, que este mundo acabaria explodindo um dia, graças à instrução.” 
A nós, cidadãos do século XXI já não nos choca o contraste brutal entre o luxo dos administradores da mina e a miséria das famílias dos mineiros. Infelizmente, já todos sabemos como eram (e são) revoltantes mas verdadeiros tais contrastes. Mas na sociedade burguesa de finais do séc. XIX, este tipo de literatura teve um impacto brutal. Foi nestas narrativas que se baseou grande parte do sucesso do socialismo marxista, com especial relevo para os escritores russos, percursores da triunfal revolução de 1917. Zola, neste livro, chega mesmo a citar diretamente Marx. Note-se que à data da publicação do Germinal (1885) ainda não tinha terminado a publicação (em fascículos) de O Capital (o primeiro data de 1867 e o ultimo já em 1905 a título póstumo) mas já o Manifesto Comunista (1848) tinha corrido a Europa, com as ideias essências de Marx no plano social e político.
Entretanto surgem as divisões entre os revolucionários; alguns acham que as greves são insuficientes. Diz Etienne: “A mina deve ser do mineiro, como o mar é do pescador, como a terra é do camponês.” Esta fação radical, que vai ao ponto de pretender destruir toda a propriedade, as instituições e até o Estado opõe-se à fação moderada, aqui representada pelo taberneiro Rasseneur.
Mas os conflitos e mesmo a violência entre os seres humanos parece ser intrínseca da nossa própria natureza; não é a miséria apenas que causa o conflito, porque os burgueses também entram em conflitos bastante violentos. O que há é uma crença clara no determinismo económico bem ao estilo marxista: Zola parece acreditar que o conflito, não só a incontornável luta de classes como os próprios conflitos dentro da própria classe derivam das condições materiais da existência, ou seja, do fator económico.
No entanto, o sentido mais grave da violência é vertical; é de cima para baixo; é da classe dominante, a burguesia, sobre os desprotegidos e esfomeados, os proletários. É quando essa violência acontece que o livro entra numa fase verdadeiramente dramática. Revoltante. E o que mais revolta é sentirmos, cento e tal anos depois, que essa violência foi e é real, apoiada no poder político dito liberal, que protege sempre o interesse burguês.

Sinopse: (in http://www.companhiadasletras.com.br )
Um dos grandes romances do século XIX, expressão máxima do naturalismo literário, Germinal baseia-se em acontecimentos verídicos. Para escrevê-lo, Émile Zola trabalhou como mineiro numa mina de carvão, onde ocorreu uma greve sangrenta que durou dois meses. Atuando como repórter, adotando uma linguagem rápida e crua, Zola pintou a vida política e social da época como nenhum outro escritor. Mostrou, como jamais havia sido feito, que o ambiente social exerce efeitos diretos sobre os laços de família, sobre os vínculos de amizade, sobre as relações entre os apaixonados.
Germinal é o primeiro romance a enfocar a luta de classes no momento de sua eclosão. A história se passa na segunda metade do século XIX, mas os sofrimentos que Zola descreve continuam presentes em nosso tempo. É uma obra em tons escuros. Termina ensolarada, com a esperança de uma nova ordem social para o mundo.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Os assaltos à padaria - Haruki Murakami


Comentário:
Em boa hora a Casa das Letras deu à estampa (detesto a expressão mas por razões misteriosas achei piada usá-la aqui) esta atrativa edição em capa dura e profusamente ilustrada (esta expressão, sim, é linda) como que a justificar o preço desavergonhado de um livro constituído por duas narrativas tão curtas que se leem na paragem do autocarro, mesmo que eles sejam tão pontuais como os TUB da minha magnífica cidade.
Os contos, ligados entre si, foram escritos em 1981 e 1985, portanto numa fase muito inicial da carreira literária de Murakami, não deixando por isso de patentear um caráter claramente experimental. Diria mesmo que mais do que contos, são experiências literárias. Mesmo assim, o traço de genialidade está lá. Para começar, o título: assalto a uma padaria? Coisa estranha? Não há estranheza possível num livro de Murakami. Repare-se: é esquisito que se assalte uma padaria; o pão é barato, pouco lucro haveria de advir da aventura. No entanto, não há bem mais precioso, mesmo para roubar, do que o pão quando se tem fome. 
No primeiro assalto há um pormenor que será premonitório de toda a carreira literária do autor: além dos misteriosos e encantadores gatos, o que é que faz parte de todos (repito, todos) os livros de Murakami? Isso mesmo, a música. A música como arte mas também como necessidade básica de qualquer ser humano; é por isso que o assalto há de redundar numa troca de música por pão. Bonito, hem? Musica, pão e livros. Que mais é preciso para ser feliz?
Já agora: melhor que isso só talvez assaltando um restaurante do Mac Donald’s. Porquê? Resposta a esta pergunta, só lendo o segundo assalto; e aí encontramos suficientes motivos para rir e pensar. 
Enfim, estamos perante dois contos leves e divertidos, cheios de sentido de humor mas também de arte de bem escrever (a tradução pareceu-me bastante correta). Dois contos essenciais para compreendermos a origem da carreira deste génio nipónico que tem o condão de nunca nos cansar com o seu realismo fantástico (mais uma expressão talvez tola mas que me parece adequada a Murakami).

Sinopse in wook.pt:

Conto 1:
Munidos de facas de cozinha, dois amigos põem-se a caminho da padaria. A cena faz lembrar vagamente O Comboio Apitou Três Vezes. À medida que avançam, o odor do pão a cozer no forno torna-se mais forte. Quanto mais intenso o cheiro, mais se acentuava a vontade deles para praticar o mal.
Conto 2:
A meio da noite, um homem e uma mulher casados de fresco acordam com um ataque de fome de que não há memória. Levados pela imaginação, e por dores que se manifestam com a violência semelhante à do tornado em O Feiticeiro de Oz, trocam a cama pelas ruas desertas de Tóquio e passam ao ataque, perpetrando o mais absurdo e delicioso assalto de que há memória.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O Amante Japonês - Isabel Allende

Comentário:
Neste seu mais recente livro, datado de 2015, Isabel Allende presenteia-nos com uma bela história de amores que, como não podia deixar de ser, é bem mais que isso; diria mesmo que este livro é bem mais que um romance; é uma obra de ficção, é claro, mas também uma intensa reflexão sobre temas bem atuais como a maneira como encaramos a terceira idade nesta sociedade envelhecida e, ao mesmo tempo egoísta. Envelhecimento da sociedade e egoísmo parecem ser conceitos totalmente incompatíveis; sem solidariedade estaremos todos condenados a um envelhecimento infeliz. Por outro lado, a incontornável questão da eutanásia; ou melhor, do direito a uma morte pacífica; do direito à recusa de um sofrimento atroz que conduz inevitavelmente a essa mesma morte e que pode ser evitado.
Bem ao seu estilo, Allende conta-nos uma bela história em tempos narrativos diferentes, com os saltos temporais que exigem uma leitura atenta; mas não é difícil manter essa atenção tal a fluência e a beleza da escrita. Este parece ser o livro de Allende (pelo menos dos que li) em que a autora se afasta mais do realismo mágico, refugiando-se na história de amor, bem ao gosto dos leitores mais românticos, no sentido lírico do termo. Alma (belo nome, bem adequado à natureza da personagem) é uma idosa apaixonada que vive os seus últimos dias numa espécie de casa de repouso onde é acompanhada por Irina, uma bela jovem emigrante do leste europeu. Ao contrário da maioria dos seus livros, a narrativa não decorre na América do Sul mas sim na Califórnia, onde Allende vive atualmente; este pano de fundo serve para uma análise da sociedade e da mentalidade americana atual no que toca ao tratamento dado aos mais velhos, mas é também ponto de partida para uma viagem em flashback aos tempos conturbados da segunda guerra mundial, acompanhando o intenso amor de Alma por um jardineiro japonês. Este amor representa um choque profundo em termos sociais uma vez que Alma e Ichimei Fukuda pertencem a classes sociais diferentes. Tal choque social fará desta relação, para sempre, um amor proibido; ao longo do livro somos levados a viver essa incrível aventura de dois seres humanos com histórias de vida e destinos aparentemente incompatíveis mas que nunca deixam de cruzar os seus caminhos. Mas os obstáculos a esse amor não se limitam ao problema das classes sociais; Ichimei será vítima de uma perseguição pouco divulgada em termos historiográficos: a perseguição e segregação da comunidade de ascendência japonesa nos Estados Unidos durante a segunda guerra mundial e nos anos que se seguiram; poucos saberão, por exemplo, que estes cidadãos americanos de origem japonesa foram encarcerados em campos de concentração similares aos que os nazis utilizaram na Europa.
Em termos gerais, este livro não deixa de seguir a linha da obra de Allende em dois tópicos essenciais: a preponderância das personagens femininas, acentuando sempre um certo feminismo e, por outro lado, o gosto pela análise dos fenómenos históricos do século XX, sem nunca deixar de parte a defesa de uma ideologia marcadamente socialista, em defesa dos grupos sociais mais pobres e das comunidades marginalizadas. 
Enfim, estamos perante uma obra de leitura muita agradável, num tom neorromântico que faz lembrar A Casa dos Espíritos mas, obviamente, sem o fôlego e a grandeza dessa que foi a verdadeira obra-prima da escritora chilena e, sem dúvida, a melhor obra do realismo mágico se excluirmos dessa competição o incontornável Cem Anos de Solidão, livro-pai de toda a moderna escrita de ficção sul-americana.

Sinopse: (in www.wook.pt)
Em 1939, quando a Polónia capitula sob o jugo dos nazis, os pais da jovem Alma Belasco enviam-na para casa dos tios, uma opulenta mansão em São Francisco. Aí, Alma conhece Ichimei Fukuda, o filho do jardineiro japonês da casa. Entre os dois brota um romance ingénuo, mas os jovens amantes são forçados a separar-se quando, na sequência do ataque a Pearl Harbor, Ichimei e a família - como milhares de outros nipo-americanos - são declarados inimigos e enviados para campos de internamento. Alma e Ichimei voltarão a encontrar-se ao longo dos anos, mas o seu amor permanece condenado aos olhos do mundo.
Décadas mais tarde, Alma prepara-se para se despedir de uma vida emocionante. Instala-se na Lark House, um excêntrico lar de idosos, onde conhece Irina Bazili, uma jovem funcionária com um passado igualmente turbulento. Irina torna-se amiga do neto de Alma, Seth, e juntos irão descobrir a verdade sobre uma paixão extraordinária que perdurou por quase setenta anos.
Em O amante japonês, Isabel Allende regressa ao estilo que tanto entusiasma o seu público, relatando de forma soberba uma história de amor que sobrevive às rugas do tempo e atravessa gerações e continentes.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

As melhores leituras de 2015

Não sou muito dado ao cumprimento de tradições e muito menos de rituais. Mas não deixo de reconhecer que há alguma utilidade nesta coisa dos balanços anuais. Por isso também a mim me deu vontade de olhar para trás e escolher as melhores leituras do ano, que aqui deixo em formato de top 10, como nos mais enfadonhos sites da net.

10º lugar, um livro sobre gente simples como a gente. Pessoas apenas, na sua dignidade maior, a do trabalho e das lágrimas.
Pedras Negras - Dias de Melo

9º Lugar, uma das obras mais importantes da história da literatura. Uma obra de arte que nos fala de dilemas humanos e contradições do espírito.

O Vermelho e o Negro, de Stendhal

O 8º lugar vai para outro marco histórico; um livro original, de uma enorme criatividade embora não tão divertido como outras obras sobre esse período fabuloso da história que foi o império romano.


Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar 

Em 7º lugar, um clássico do texto dramático. à espera de alguém que ainda tamlvez não tenha chegado. Porque há coisas e pessoas pelas quais não vale a pena esperar...


À Espera de Godot - Samuel Beckett 

Em 6ª posição um clássico do século XIX. Uma epopeia sobre a capacidade de sofrimento. Um hino à força que o ser humano é capaz de buscar nas profundezas da alma.



No 5º lugar o mundo encantado de Dickens, num livro que é a imagem de todo o seu pensamento e obra: um livro sobre a força que vem da humildade, que não pode ser sinónimo de humilhação.


David Copperfield - Charles Dickens 

Na 4ª posição um livro percursor e, quem sabe, premonitório. Um livro inteligente que marcou o século XX e mudou para sempre a literatura de ficção científica.


2001 - Odisseia no Espaço - Arthur C. Clarke 

Em terceiro lugar, medalha de bronze, um pouco mais de Dickens; um pouco mais de genialidade pura; um pouco mais de generosidade, humanismo.



2º Lugar: mais um marco histórico, não só ao nível da literatura mas também no domínio político e de análise social. Um livro assustador pelo realismo da visão quase apocalíptica do futuro da humanidade.


Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley 

E, finalmente, a melhor leitura de 2015.
Trata-se de um livro monumental, em dois grandes volumes mas que se lê com prazer, de forma fluída e divertida.
Uma epopeia medieval cheia de sensibilidade, humanismo e emoção. Que mais se pode querer de um livro?
Follett cada vez mais próximo de Auster e Murakami na minha escala de valor :)




A todos, feliz 2016






quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Eva Luna - Isabel Allende


Comentário:
Quem decide ler um romance de Isabel Allende não pode esperar grandes surpresas: terá a certeza que vai ler um livro excelente. E essa excelência, também patente neste livro reside essencialmente naquele estilo que viaja sempre entre o real e o fantástico, estilo esse a que se convencionou chamar “realismo mágico”. A autora consegue manter a narrativa numa fronteira entre essas duas dimensões, levando o leitor a aceitar como verossímeis algumas situações que, vistas à distância, só caberiam numa obra de literatura fantástica.
Assim é Eva Luna, a história encantadora de uma menina e moça que vai construindo uma história de vida fascinante. Recorrendo, tal como é típico da literatura sul-americana, a numerosos personagens, a autora apresenta-nos um quadro social fascinante (comum a outras obras suas) entre revoluções e ditaduras. Do lado de Eva Luna estão os deserdados, os marginalizados, que acabam envolvidos na teia dos terroristas que, neste caso estão longe da definição atual do termo. Na verdade, Huberto Naranjo, por quem Eva se apaixona na primeira fase do livro, é a imagem do guerrilheiro que arrisca a vida com a ingenuidade de quem defende a causa coletiva dos injustiçados. 
É nesse meio, por vezes miserável e violento, que encontramos Eva Luna construindo a sua felicidade individual. Ela era a rapariga que contava histórias e com elas libertava as pessoas da desgraça em que viviam; é na procura dessa fantasia, desse caminho pessoal que os personagens podem encontrar a felicidade, como Mimi, o travesti que sofreu todas as agruras imagináveis, vítima dos preconceitos mas que não resiste até ser feliz. Também fundamental no enredo é a presença de Rolf Carlé, um europeu que sofrera as injustiças da ditadura que presumimos nazi e que emigra para a América do Sul onde se torna guerrilheiro; ele é a imagem da internacionalização da revolução, do carácter universal da luta dos povos pela justiça social.
Escrito em 1987, este livro é apenas o quarto da longa bibliografia da autora; no entanto está já aqui presentes todas as qualidades da escrita de Allende, bem como essa predileção pela defesa dos injustiçados, assim como uma propensão para a abordagem da história recente do Chile, cheia de conflitos políticos e ditaduras sanguinárias, das quais se destaca o governo fascista de Pinochet, responsável por milhares de crimes.
O único aspeto que não me agradou totalmente neste livro foi o facto de o enredo não criar no leitor aquela expetativa quanto ao final que muitas vezes encoraja a leitura. Seja como for este é, sem dúvida, um livro que merece ser lido e saboreado.

Sinopse (in wook.pt)
Em Eva Luna, Isabel Allende recupera o seu país através da memória e da imaginação. Eva, a cativante protagonista da narrativa, constitui um nostálgico alter ego da autora, pois também ela acredita que radica nas histórias o segredo da vida e do mundo. Filha da selva, do analfabetismo e da pobreza, Eva luta tenazmente por conquistar o seu espaço no mundo, sem nunca perder o encanto feminino.
Nesta obra, marcada por um profundo humanismo, Isabel Allende consegue fundir o destino individual com o coletivo através de uma fulgurante prosa, confirmando-se como uma das maiores escritoras dos nossos tempos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Mel e as Vespas - Fernando Évora


Comentário:
Tal como escrevi na altura, quando li as obras anteriores de Fernando Évora, fiquei com a impressão de “saber a pouco”. Naturalmente, gostei muito dos livros mas fiquei com a sensação que os respetivos enredos podiam ter sido mais desenvolvidos. Neste livro encontrei aquilo que procurava em Fernando Évora: um enredo mais intrincado, com personagens muito diversificadas e estórias de vida bem significativas. 
Este enredo, centrado em duas famílias, deixa clara uma certa influência da literatura sul-americana, especialmente se associarmos esse facto ao tom de realismo mágico que se pode saborear ao longo de todo o livro. Na verdade é este um dos maiores méritos de Évora: o de criar situações bem-humoradas de personagens com comportamentos “estranhos” mas que não deixam de nos encantar pelo exotismo mas também por um estranho realismo fundado sobre a realidade das nossas populações rurais.
Na verdade, este livro é também uma preciosa e bem-disposta história da ruralidade portuguesa no século XX. Estão ali as pessoas ingénuas e de coração naturalmente bom, facilmente enganadas pelas “vespas”, pelos senhores de Lisboa, daqueles que trazem carros sofisticados e notícias negras. Um dia um dos personagens, Adriano, nome de um dos maiores imperadores romanos, apaixonou-se por apicultura e descobriu que o mel podia ser a fortuna da sua terra; que o mel poderia tirar todo aquele povo da miséria. Mas as vespas vieram dizer que havia a campanha do trigo. Era preciso destruir as colmeias e plantar trigo, mesmo que este nada desse naquelas terras. E Adriano haveria de morrer miserável, com uma vespa enfiada no nariz, numa das páginas mais belas deste livro.
Na parte final do livro, Évora deixa-nos um certo tom de pessimismo em relação ao presente e futuro da nossa ruralidade: o “Portugal profundo” está entregue aos interesses de alguns senhores do dinheiro que nada se preocuparão com as almas das gentes, com as vidas dos que fizeram este país, à custa de sangue, suor e muitas lágrimas.
Tal como nos seus livros anteriores, Évora revela um talento muito especial para analisar a alma humana, especialmente nos estratos sociais mais desprotegidos e vítimas dessa indescritível injustiça que marcou três quartos do século XX português. Estas são almas que sofrem, que são injustiçadas, mas não se pense que o autor rejeita o lado menos colorido deste povo; para lá de uma admiração nítida pela cultura popular em todas as suas vertentes, aqui estão também as superstições, as invejas, as maldades que não deixam de existir em qualquer comunidade humana.
Mais uma vez, o estilo de Fernando Évora é um dos fatores mais positivos da sua obra: um estilo límpido, poético sem perder uma tremenda objetividade, são elementos que convidam o leitor a sorrir quanto percorre as páginas do romance.

Sinopse (in www.wook.pt)
Cancino, vila perdida na serra algarvia, é o cenário deste livro. Porém, este não é um livro sobre uma vila perdida, é antes uma espécie de revisitação da História de Portugal mais recente, num olhar profundamente humanista, que navega entre a miséria e o humor, o destino e o sonho, e também o acaso. Personagens inesquecíveis de carne e osso, narradas com a ironia queirosiana e a originalidade que encantam, que inebriam, e que, no fundo, caracterizam Fernando Évora.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A Harpa de Ervas - Truman Capote


Comentário:
Há muito tempo não lia uma obra de prosa tão poética. A escrita de Capote, servida por uma boa tradução nesta edição Sextante, revela uma musicalidade impressionante e o título da obra dá bem o tom dessa música: o vento inclina a erva, fazendo-a soltar uma espécie de zumbido, um conjunto de ecos que parecem sintetizar vozes humanas que cantam em uníssono.
Está dado o mote para um magnífico livro, bem típico da época em que foi escrito, o início dos anos 50 do século passado; época de ilusão e de esperança para muitos mas de pessimismo para outros. Entre esses descrentes, alarmados pelo império do capitalismo, pelo macartismo cada vez mais violento, pelo racismo e injustiças sociais, encontramos os escritores do movimento “Beat”, como são os casos de Capote e Kerouac.
Neste contexto, este livro é um intenso apelo à liberdade; ao direito que cada um deveria ter à diferença, a comportamentos socialmente atípicos e a todo um conjunto de pensamentos e comportamentos que devem ser respeitados. Assim, as personagens principais deste livro são seres antissociais, pessoas renegadas pela sociedade, perseguidos pela cor da pele, pela “deficiência” ou, como é o caso do narrador, por ter sido abandonado pelos pais. É neste aspeto que o livro é bastante autobiográfico – também Capote foi um jovem rejeitado pelas sociedade, um desenraizado, abandonado pelos pais.
Trata-se então de um livro típico desta época da escrita norte-americana, num belo estilo poético. Não é um livro grande; não é um livro com um grande enredo; mas é uma obra que prima pela beleza da própria escrita e por um belíssima mensagem de liberdade.

Sinopse (in wook.pt)
«Quando é que ouvi falar pela primeira vez da harpa de ervas? Muito antes do outono que passámos na amargoseira; num outono anterior, portanto; e, como não podia deixar de ser, foi Dolly quem me contou, pois mais ninguém se lembraria de lhe chamar isso, uma harpa de ervas.»
O narrador e protagonista desta maravilhosa história, Collin Fenwick, é órfão e tem onze anos quando vai viver para a casa das duas irmãs Talbo. História emocionante de desadaptados, inspirada numa memória de infância, A harpa de ervas é o terceiro romance de Truman Capote, originalmente publicado em 1951.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O Vermelho e o Negro - Stendhal


“É verdade que posso aqui ganhar alguns milhares de francos, e depois escolher com vantagem a carreira militar ou a de padre, consoante a moda que então reinar em França.” 
Escolher entre o vermelho da farda e o negro da sotaina. É este o propósito de Julião e explicação para o título, ponto de partida para este livro que foi um marco na história da literatura.
Julião representa todo um século em que, mau grado os efeitos da Revolução Francesa, a distinção social continua a ser procurada como forma de afirmação pessoal e onde as desigualdades continuam a ser gritantes. A obra foi publicada em 1830. Estava ainda vivo na memória dos franceses o período de Napoleão, última fase do processo revolucionário que deixou a França dividida em 3 partidos: os bonapartistas, aqui representados por Julião, os velhos revolucionários radicais (herdeiros do espírito jacobino) e os ainda fieis à velha realeza, os conservadores. Julião está entre os três partidos como o livro está entre 3 estilos: o velho romantismo herdado do século passado, o realismo nascente e um romance psicológico que apenas germina nestas páginas pioneiras. Mas já voltaremos a esta questão. 

Comecemos por esclarecer melhor o contexto em que se situa o enredo.
O exército e a religião são as vias de acesso ao mundo do poder e da riqueza numa França que ainda não se tornara o país moderno e justo que os revolucionários sonharam e que Napoleão tentou impor pelas armas.
Julião sabe o Novo Testamento de cor: é nítido o esforço de Stendhal para denunciar a futilidade do conhecimento antigo e do próprio clero tradicional. Mas a aristocracia admira-o! Note-se que Julião, bonapartista, é um fingidor; é alguém que se esforça por alinhar com todas as convenções em proveito próprio, embora seja por natureza e por via do seu passado pobre, um revolucionário. 
Um dos aspetos mais “realistas” da obra é o seu sentido crítico, principalmente perante as instituições ligadas ao poder. O Estado e a Igreja. Por vezes, principalmente no início de cada capítulo, é na primeira pessoa que o autor exerce esse sentido crítico. Um exemplo:
“O procedimento habitual do século XIX é: quando um ser poderoso e nobre encontra um homem de carácter, mata-o, exila-o, prende-o ou humilha-o de tal forma que o outro comete a parvoíce de morrer de dor.”
Outro exemplo deste sentido crítico é a descrição que faz do ambiente do seminário como o pior que há no mundo, em contraponto com a riqueza exagerada da igreja.

E, ontem como hoje, a futilidade das relações sociais e os jogos de interesses. Assim, a crítica social incide sobretudo na futilidade, a vaidade, a corrupção, a ignorância, o desprezo pelo saber e pelas ideias… 
O nosso herói, Julião, luta, à sua maneira, de uma forma subtil, contra a diferenciação de classes; nesse sentido, ele é um produto da revolução francesa. No entanto, as circunstâncias obrigam-no a seguir uma conduta de adaptação ao meio em que vive, profundamente injusto e que segrega precisamente homens como ele – nascidos numa classe social inferior.

Uma encruzilhada entre romantismo, realismo e romance psicológico:
Este livro foi considerado como a primeira das obras realistas. Sinceramente, não iria tão longe. É óbvio que evidencia alguns traços que distinguirão o realismo. Refiro-me à análise social ao espírito crítico no que respeita às condições materiais da existência humana, às já referidas críticas à desigualdade, etc. mas, acima de tudo, esta obra parece-me claramente marcada pelo romantismo literário: ainda há aqui muito do drama de Goethe, com o seu sentimentalismo quase radical; as paixões são exacerbadas e a mulher continua um ser algo amorfo, despersonalizada, cujos sentimentos e comportamentos se subordinam à ordem social vigente. Que longe estamos ainda de madame Bovary! É por isso que afirmo: que longe está Stendhal de Flaubert!
O facto de não ser ainda um romance realista não obsta a que se trate de uma obra magnífica e direi mesmo que é uma obra de charneira; mais do que precursora do realismo é precursora do grande romance psicológico. A preocupação do autor para com as ideias, as intenções, as estratégias de comportamento dos personagens, aproximam mais Stendhal de Dostoievski do que dos realistas. Por outro lado, é fundamental a importância que o autor atribui à formação do carácter na infância e juventude do herói do romance. Julião ficou marcado por uma educação paternal brutal, por uma falta de afeto que afetaria toda a formação do seu carácter. Algumas décadas mais tarde, estes aspetos seriam triviais em qualquer romance mas na época em que Stendhal escreveu, a importância da educação seria algo que não preocupava minimamente a maioria dos escritores, filósofos ou políticos…

Sinopse

Um romance histórico psicológico em dois volumes do escritor francês Stendhal, publicado em 1830. É frequentemente citado como o primeiro romance realista. Definido no período entre o final de setembro de 1826 até o final de julho de 1831, trata das tentativas de um jovem de subir na vida, apesar do seu nascimento plebeu, através de uma combinação de talento, trabalho duro, engano e hipocrisia, apenas para se encontrar traído pelas suas próprias paixões.



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley

Comentário:
Para compreender este livro é fundamental ter em conta o momento em que foi escrito, ou melhor, o contexto da época. A obra foi publicada no ano de 1932. Trata-se de um momento histórico fulcral: nos EUA e nos países ditos capitalistas viviam-se as consequências da crise bolsista de 1929, ou seja, a grande depressão, tão bem descrita por Steinbeck em As Vinhas da Ira. Foi nessa crise terrível que desembocou o crescimento desmedido em desorganizado dos anos 20, em que pontificou Henri Ford, como exemplo máximo do alienante trabalho em cadeia, parodiado magistralmente por Charlie Chaplin em Tempos Modernos. E é precisamente Henry Ford que Huxley ressuscita como uma espécie de ser superior neste livro. Ford é o modelo sagrado.
Por outro lado 1932 é também o ano de afirmação de Hitler na Alemanha. Aí, como em Itália, na Espanha, em Portugal e na União Soviética pontificava o totalitarismo, que é o outro lado do sistema descrito por Huxley neste livro, transposto para o século XXVI.
Está assim traçado o cenário para a distopia de Huxley: uma sociedade em que os cidadãos são submetidos a um processo de estandardização, como nas fábricas Ford e, afinal, como em toda a indústria capitalista moderna, em que a liberdade é uma ameaça e, como tal, totalmente banida e em que, pela mesma razão se eliminam todos os traços de individualidade. A arte, a beleza, a cultura, são também banidos por colocarem em causa o coletivo em nome da subjetividade. O Selvagem, personagem central do livro e que representa uma “réstia” de seres humanos não condicionados, cita Shakespeare e encara o escritor como uma fonte de verdade e de beleza. O próprio título do livro, irónico, é um verso do grande dramaturgo inglês.
Tradicionalmente, este livro é considerado de ficção científica. No entanto, quando falamos deste género referimo-nos normalmente a obras que retratam um mundo tecnologicamente avançado, num futuro distante. Mas neste livro há duas diferenças em relação ao padrão: o mundo imaginado é uma distopia; o nosso mundo é visto no sentido da perda. Por outro lado, a assustadora mudança que o livro nos mostra é bem real e já neste início do século XXI podemos ver no nosso mundo sinais desta distopia, deste futuro negro que pode esperar a humanidade.
O traço distintivo mais dramático desta obra é a ausência de liberdade e a aceitação geral da ideia de que a liberdade impede o progresso. Em contraponto, advoga-se uma espécie de felicidade coletiva, controlada pelo Estado e fundada sobre o condicionamento do indivíduo. Com uma certa dose de humor, Ford é o Deus. Desta forma, Huxley estabelece a ligação entre a felicidade coletiva e o avanço tecnológico. O problema é que esse conceito de progresso só é viável basado na alienação do indivíduo. Os próprios seres humanos deixam de ser concebidos na forma natural para serem “fabricados” em verdadeiras linhas de montagem, estandardizados à maneira dos Ford dos anos 20 do século passado. Assim, condicionamento, alienação, normalização, coletivismo e submissão são as palavras-chave deste admirável/abominável mundo novo.

Em conclusão: estamos perante uma obra de génio, um clássico da literatura mundial, pela lucidez na análise do presente e do futuro da humanidade e do próprio homem: a demência é o resultado da estandardização e da alienação: o ser humano é reduzido à incapacidade de pensar e de agir de acordo com a vontade. Daí a necessidade de eliminar os sentimentos, substituídos por um prazer artificial, puramente físico, obtido com base nas máquinas e em substâncias artificiais. Obtém-se assim uma sociedade onde não há dor nem infelicidade. Mas onde se perdeu a liberdade, a capacidade de amar e, enfim, a própria humanidade.

Sinopse:
Publicado em 1932, Admirável Mundo Novo tornar-se-ia um dos mais extraordinários sucessos literários europeus das décadas seguintes. O livro descreve uma sociedade futura em que as pessoas seriam condicionadas em termos genéticos e psicológicos, a fim de se conformarem com as regras sociais dominantes. Tal sociedade dividir-se-ia em castas e desconheceria os conceitos de família e de moral. Contudo, esse mundo quase irrespirável não deixa de gerar os seus anticorpos. Bernard Marx, o protagonista, sente-se descontente com ele, em parte por ser fisicamente diferente dos restantes membros da sua casta. Então, numa espécie de reserva histórica em que algumas pessoas continuam a viver de acordo com valores e regras do passado, Bernard encontra um jovem que irá apresentar à sociedade asséptica do seu tempo, como um exemplo de outra forma de ser e de viver. Sem imaginar sequer os problemas e os conflitos que essa sua decisão provocará. Admirável Mundo Novo é um aviso, um apelo à consciência dos homens. É uma denúncia do perigo que ameaça a humanidade, se a tempo não fechar os ouvidos ao canto da sereia de uma falsa noção de progresso.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Senhora dos Açores - Romana Petri


Comentário:
Não esteja a pensar as suas patetices racionais” – personagem Isabel Lima, dirigindo-se à autora.
Este é um livro diferente. No site da editora vem catalogado como “romance”. Mas não é um romance nem nunca pretendeu sê-lo. É, em parte, uma crónica de viagem. Escrito por uma jornalista e crítica literária italiana em viagem pelos Açores, este livro tem como maior mérito o facto de nos oferecer um retrato dos Açores cheio de humanismo e de beleza. O caráter das pessoas ocupa neste livro muito mais espaço do que as magníficas paisagens da ilha do Pico. Na verdade, este é mais um retrato do povo açoriano do que do arquipélago em si. E que belo retrato! A autora revela-se uma turista diferente, mais interessada nas pessoas e exibindo uma sensibilidade enorme e uma inteligência notável para analisar, compreender e descrever os grandes traços distintivos deste povo, marcado, é certo, pela geografia.
Como não podia deixar de ser, esta análise psicológica do povo açoriano é desde logo condicionada pelas diferenças entre os emigrantes e os residentes na ilha. É nítida e declarada a preferência e simpatia da autora por estes últimos. A emigração não é vista aqui como uma aventura corajosa ou como necessidade absoluta mas sim como uma espécie de cedência à ilusão americana, quase como uma traição à terra. O emigrante é visto como um ser americanizado, na pior aceção do termo: gordo, ignorante e vaidoso. O residente, pelo contrário é elogiado e admirado pela simplicidade, pela maneira de ser honesta, trabalhadora, honrada e sacrificada às exigências da terra e do mar. Os próprio emigrantes acabam sempre por regressar à terra, mau grado a pobreza. Na verdade, o regresso à terra, à procura da identidade perdida não é um mito.
Ao longo da obra é nítida a preocupação da autora em compreender e descrever os usos e costumes, a mentalidade, o pensamento, deste povo, numa manifestação de respeito e admiração que levam a autora a dizer claramente que mais facilmente se imagina a viver nos Açores do que emigrar para a terra da prosperidade, os EUA.
Globalmente trata-se de um livro muito bem escrito, numa tradução que me parece bastante bem conseguida. A sensibilidade da autora destaca-se claramente e exprime-se num estilo descritivo mas agradável.

Sinopse

A Senhora dos Açores traz-nos a história de uma terra longínqua, onde um mundo de mitos e de fantasmas, de pobreza e solidão, servem de pano de fundo à grande migração em direcção ao continente e à civilização industrializada. 
Aqui, nesta ilha rodeada de oceano, apenas resta a certeza dos sentimentos antigos, a substância das recordações, o silêncio e a companhia da natureza. A protagonista entra em contacto com esta comunidade imprevisível, através do encontro com as suas gentes, as histórias e a magia própria do lugar. E, quase sem dar por isso, acaba por se esquecer de si mesma, entrando naquela dimensão intemporal, onde a magia e as mágoas da vida comunicam e se unem. Romana Petri, com este romance, reafirma a singularidade da sua escrita no quadro da narrativa contemporânea italiana, revelando um mundo fantástico e excepcional. 

Uma viagem de descoberta de um mundo outro, os Açores vistos pelos olhos de uma estrangeira, um périplo poético, um caminho de aprendizagem... A personagem principal, uma italiana, um guia misterioso - João Freitas - minúsculos pedaços de terra por entre um imenso oceano.