quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Segunda Vinda de Cristo à Terra - João Cerqueira


Comentário:
Chega hoje, 21 de Janeiro, às livraras este interessante e inovador livro de João Cerqueira.
A segunda vinda de Cristo à terra teria mesmo de ser diferente; logo de início, os cardeais convenceram Jesus Cristo a esquecer aquela história da pobreza, da justiça social e da igualdade, não fossemos nós cair no pior dos cismas, o Cisma do Património.
Portanto, esta segunda vinda à terra teria de ser mais discreta; nada de sermões para grandes audiências, nada de milagres mediáticos ou de pauladas brutas sobre os vendilhões do templo. 
Logo de início se vê que o livro de João Cerqueira será sustentado por dois grandes pilares, o humor e a sátira, pilares esses que se sustentam sobre um alicerce bem seguro: um enredo atrativo e temáticas polémicas mas atuais.
Em comparação com o seu livro anterior, A Tragédia de Fidel Castro, este apresenta-se de uma forma muito mais acessível ao grande público, com raciocínios bem mais simples e claros. A crítica, mordaz, faz lembrar a grande tradição do teatro vicentino e, em termos de ideias, algo nos faz recordar José Saramago.
Esta tremenda dimensão crítica fica logo bem clara na primeira aventura de Cristo na terra, quando, atraído pela beleza de Madalena, se junta a um grupo de ativistas ecológicos, novos apóstolos na luta contra o mal do capitalismo. No entanto, logo se prova que estes bravos ideais podem ser derrotados… pelos fueiros de um lavrador e sua esposa de pelo na venta.
Mas Jesus teria de ter paciência; não seria fácil trazer tantas almas transviadas ao bom caminho. Na sua primeira visita tinha lutado até à morte contra as injustiças e elas só tinham aumentado daí para diante. Talvez por isso, abalado psicologicamente pelo desastre anterior, volta à terra de cigarro ao canto da boca, em estilo “bon vivant” paz e amor. No entanto, o choque com a realidade foi tão duro que até o Padre Justino chegou à conclusão que Cristo precisava de formação moral e religiosa católica.
O Padre Justino é o símbolo da ignorância cimentada pelo preconceito. Mas é talvez por isso que a sua voz é muito mais aceite pelo povo do que a voz de qualquer Cristo ou de qualquer ativista ecológico. Por outro lado, os extremos tocam-se e os ativistas ecológicos padecem do mesmo radicalismo simplista e preconceituoso. Todos eles – cristãos à moda antiga e ativistas da ecologia - são acéfalos; as suas ”verdades universais” são ridículas; o Bem que eles defendem não passa de um cliché desfasado da realidade.
Um dos maiores méritos deste livro é ter feito do humor uma forma de expressão do absurdo real: de como revolucionários e ultra-conservadores convergem para o mesmo grau extremo de cegueira – o desprezo pela razão. E o humor, direto, incisivo, mordaz, incide precisamente sobre essa cegueira. 
A mesma ignorância é depois transposta para o plano político; o Portugal rural é invadido pelos novos analfabetos, patos-bravos do sistema, abutres das crises em que o país é campeão. São os espertos-saloios, mestres na arte de enrolar o incauto, que tanto pode ser o Estado, como a Câmara, como qualquer “saloio”.
E assim a prosa de João Cerqueira vai-se encaminhando para a sátira política, que mais não é que o retrato risonho e risível deste Portugal profundo dominado pelo xico-espertismo corrupto.
Na parte final do livro, o leitor dá conta que a pergunta fundamental continua sem resposta: afinal, o que veio Cristo fazer à terra nesta segunda visita? E, afinal, ele nada fez perante este miserável estado de coisas? O certo é que o próprio Jesus Cristo parece perdido entre estes cromos portugueses: os empreiteiros aldrabões, os autarcas corruptos, as autoridades saudosas de Salazar, etc.
Até que Jesus, finalmente, consegue fazer algo em prol da paz. Consegue acabar com a violência entre dois cães desavindos… e mais tarde falaria ao coração dos homens; apelaria à sensatez e proclamaria a paz. Mas apenas um cão vadio o ouviu…

Sinopse (in www.wook.pt):
Recorrendo ao humor, à ironia e ao sarcasmo, João Cerqueira apresenta um estilo único cuja qualidade lhe valeu a conquista de três prémios de literatura nos Estados Unidos e a tradução para inglês, italiano e espanhol."A Segunda Vinda de Cristo à Terra" aborda fenómenos de conflitualidade social e política que ocorrem no nosso país. De forma crua e inteligente, o autor conduz o leitor por uma história fascinante onde… no fim... é Portugal que acaba na cruz.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Impressões: Manual de como salvar o Mundo


Há muito tempo que o mundo não assistia a tão dramáticos e sangrentos conflitos relacionados com religião. 
Os chocantes acontecimentos terroristas em França; a catástrofe que se vai desenrolando na Nigéria; a tragédia continuada que se desenrola na Palestina; a desumanidade do Estado Islâmico, levam-me apensar que o nosso mundo está pejado de insanidade. 
As religiões, por definição, defendem o Bem, a paz e a harmonia. No entanto, nunca se matou tanta gente por outro motivo, como se mata pela religião. Desde a Idade Média que assistimos a este drama: muitos seres humanos já não se limitam, a dizer: “o meu Deus é melhor que o teu” e passaram a dizer: temos de exterminar a tua religião.
Quantos milhões morreram nas Cruzadas? Quantos milhões foram mortos ou torturados pela Inquisição? E quantos milhões estão hoje a ser vítimas do radicalismo islâmico?
Perante isto, o meu apreço pelas religiões praticamente reduz-se ao Budismo: a única grande religião que defende e pratica a tolerância.

E se a religião já não pode salvar o mundo, a pergunta que se coloca é: quem o poderá fazer?
E a minha resposta é: A ARTE!
A arte é a beleza; é o lado belo da humanidade.
E a literatura é arte por excelência.
Quantos escritores se notabilizaram por defender ideias totalitárias e violentas? Assim de memória, lembro-me de Celine numa determinada fase; talvez mais dois ou três estalinistas… tristes exceções que só confirmam a regra!
Mas a esmagadora maioria dos artistas são humanistas, defensores da vida humana, da paz e da harmonia entre os povos!
É por isso que, cada vez mais, ler é o melhor remédio!

Ilustração de Jarbas in blogs.diariodepernambuco.com.br

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

David Copperfield - Charles Dickens


Comentário:
Esta é uma das primeiras grandes obras literárias que denuncia a hipocrisia e a rigidez absurda da moral vitoriana (período histórico que acompanha o reinado da Rainha Vitória, de 1837 a 1901). Este livro, publicado pela primeira vez em 1850, é um testemunho forte da rigidez por vezes brutal de uma educação que encara a criança como um ser naturalmente malévolo, que é preciso civilizar, da mesma forma que, por essa época, os exércitos ingleses impunham a força das suas armas sobre o enorme império britânico. 
Esta época de forte industrialização serve de pano de fundo a uma sociedade que alimenta, cada vez mais, o orgulho britânico, tornando-o inquestionável e seguro de uma vanguarda civilizacional que deveria impor-se a todo o custo, tanto a nível externo como interno; assim se explica a emergência de uma sociedade eivada de injustiças e fortes contrastes sociais. É este o pano de fundo para o surgimento de diversas correntes revolucionárias, das quais o socialismo é o mais lídimo representante. E Dickens foi, indubitavelmente um percursor do pensamento revolucionário da segunda metade do século.
Um dos pontos fortes da arte literária de Dickens é a força das suas personagens; pela positiva ou pela negativa, a maioria delas têm uma personalidade bem definida, como se fossem modelos nos quais podemos encaixar qualquer ser humano. Desta variedade tão rica podemos destacar um personagem fascinante: Uriah Heep, o malévolo sócio de Mr. Wickfield. Trata-se daquele oportunista “lambe-botas” que tão bem conhecemos da vida real, sempre pronto a curvar a coluna vertebral para, hipocritamente, daí tirar o maior proveito. Até o retrato físico do personagem é eficaz, levando o leitor a imaginá-lo como uma autêntica ratazana.
Por oposição, merecem destaque três personagens muito poderosos que se afirmam pela bondade e pelas qualidades humanas: Mr. Dick, Wilkins Micawber e, na parte final do livro, o extraordinário amigo de David, Traddles; os três são algo alienados, ambos com aparência algo idiota. São três corações puros e três homens honestos vítimas da sociedade. 
Por outro lado, o meio em que David se move quando inicia a sua vida profissional é marcado por esse individualismo burguês que serve de base social à dinâmica capitalista liberal, assente sobre o princípio geral da concorrência. E o capitalismo, como sabemos, levou-nos dessa concorrência ao desprezo pela ética e pelo humanismo num abrir e fechar de olhos.
Mesmo assim prevalece ao longo de todo o livro a preocupação de manter o dedo acusatório em riste, sobre uma sociedade injusta e desigual, mais uma vez ilustrada pelo esforço feito pela personagem Mowcher para ser vista como um ser humano normal, mau grado a baixa estatura que a tornava alvo de desprezo. 
Esse dedo acusatório eleva-se de forma eloquente quando Dickens aborda as reações da ”sociedade” à perda da fortuna por parte de David. Na verdade, a necessidade de trabalhar é vista como uma desonra e a eminencia da pobreza é encarada como um fantasma tenebroso. A própria Dora não consegue colocar o amor por David acima desse fantasma que a assombra: a possibilidade de não ter todos os dias uma costeleta de carneiro para dar ao cão.
Aos pobres, a sociedade vitoriana exige, acima de tudo, humildade na aceitação da inferioridade social. No entanto, é forçoso distinguir a humildade honesta, fruto da consciência do seu papel secundário, do Sr.Pegotty da humildade falsa, calculista, do abominável Uriah Heep, esse personagem infelizmente tão atual cujos grandes méritos são a arte do fingimento e uma ambição capaz de o levar às maiores desonestidades e traições. Ontem como hoje.   
Dora é o testemunho implacável da ”cegueira” do amor de David; ela tem uma personalidade pueril, mimada e ideias totalmente ocas. No entanto, na mente apaixonada de David todos esses defeitos são vistos como qualidades.
Também na parte final do livro, emerge a importância vital da emigração para as colónias como meio de fuga às desigualdades e injustiças sociais. Países atualmente tão poderosos como EUA ou Austrália foram, naquela época, o refúgio para muitos pobres, perseguidos, enjeitados e deserdados da injusta sociedade de Sua Majestade Britânica.
O único aspeto menos positivo que podemos apontar a esta obra é a excessiva importância que Dickens dá aos pormenores. Tal preocupação faz com que o livro se torne demasiado extenso (esta edição tem 720 páginas) mas sem nunca deixar de ser uma leitura agradável, tal é a capacidade narrativa do autor.

Sinopse in www.wook.pt:

David Copperfield conta-nos a aventura de um rapaz, desde uma infância infeliz, até à descoberta da sua verdadeira vocação, a de romancista. Entre os fantásticos personagens do livro estão o seu padrasto, Mr. Murdstone; Steerforth, o brilhante, mas desprezível colega de escola; a formidável tia Betsey Trotwood; a humilde e traiçoeira Uriah Heep; a frívola e encantadora Dora; e ainda o "remediado" Micawber, uma das maiores criações cómicas da literatura de todos os tempos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

2001 - Odisseia no Espaço - Arthur C. Clarke

Comentário:
Nunca fui especial adepto ou fã da literatura de ficção científica. Mas comecei a mudar de ideias depois de ler os Mestres Ray Bradbury, nesse portentoso Fahrenheit 451 e H. G. Wells no magnífico A Guerra dos Mundos. E depois de ler estes gigantes cheguei à conclusão que tinha de completar a tríade com Arthur C.  Clarke. Tendo lido apenas um ou dois livros de cada um destes autores fico com a sensação de estar perante três génios com características bem diferentes: Bradbury mais poético, mais literário,Wells mais dramático e Clarke mais científico e mais premonitório.
Uma das razões pela qual nunca nutri grande simpatia por este género é o facto de muitos destes escritores se preocuparem demasiado em tentar adivinhar o futuro, sem o conseguir. No entanto, estes três autores mostram-nos que esse não deve ser o objetivo fundamental da ficção científica e essa mensagem é especialmente nítida em 2001 - Odisseia no Espaço.
Efetivamente, neste livro, publicado pela primeira vez em 1968 (um ano antes da chegada à Lua) Athur C. Clarke deixa em segundo plano tal objetivo, subjugando-o a um outro, bem mais significativo. Afirma o autor, no epílogo desta edição, escrito em 1982 que os autores de ficção científica tentam mais "precaver" o futuro do que prevê-lo. 
Então do que é que Clarke nos tenta precaver neste livro? Essencialmente, o que está no centro do enredo é a ameaça da inteligência artificial. Hal,o super computador que controla a nave espacial Discovery torna-se, num dado momento, um tirano capaz de subjugar a própria inteligência humana; este é o anuncio de uma época futura mas também um alerta para os caminhos perigosos que a inteligência artificial pode seguir.
Uma outra mensagem essencial neste livro, transmitida de uma forma profundamente poética é a sensação de solidão do homem perante a imensidão do universo; é a constatação da pequenez do ser humano num espaço e num tempo incomensuráveis para nós.
Esta dimensão humana da obra é especialmente nítida no belíssimo prólogo do livro, que abre com estas portentosas frases:
"Cada homem vivo transporta o peso de trinta fantasmas, pois é nesta proporção que o número de mortos excede o dos vivos. Desde o início dos tempos, cerca de cem biliões de seres humanos caminharam sobre o planeta Terra.
Ora, este é um número interessante, pois, por coincidência, há  aproximadamente cem biliões de estrelas no nosso universo, a Via Láctea. Portanto, por cada homem que alguma vez viveu, brilha uma estrela neste Universo."
Belíssima mensagem...

Sinopse
A Discovery movimenta-se no Espaço a 150 000 kms/h. É o primeiro ano do século XXI. A sua missão deve-se à descoberta de um estranho monólito encontrado na cratera Clavius, na Lua. Trata-se de um cartão de visita deliberadamente enterrado há milhões de anos, por uma inteligência extraterrestre. É preciso encontrá-la. Seja onde for. Seja quem for. O romance dramático de um dos filmes mais espectaculares jamais produzido.
sinopse in www.wook.pt

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O meu TOP 2014 - 22 leituras formidáveis


Em  matéria de leituras 2014 foi ano excelente.
Dos 87 livros lidos selecionei os 22 que mais me agradaram.
Note-se que nunca me atreveria a dizer os "melhores" - não sou ninguém para fazer juízos desse género - mas apenas os que mais gostei de ler.

01. A Leste do Paraíso – John Steinbeck.
Mas que hei de eu dizer perante uma obra que me faz sentir tão pequenino? Bastará talvez dizer que é um dos 12 livros que eu considero perfeitos.

02. O Adeus às Armas - Ernest Hemingway.
às vezes negro e tétrico como um quadro de Bosh. Outras vezes colorido de poesia como um quadro de Kandinsky. Mas sempre, sempre, cheio de humanidade. Uma crónica de guerra onde há frestas por onde espreita a esperança.

03. A sul da fronteira, a oeste do sol – Haruki Murakami.
Murakami no seu melhor, só superado, a meu ver, por Kafka à Beira Mar e 1Q84. Uma bela e triste mensagem: capitalismo é conforto; conforto é imobilismo; imobilismo é infelicidade. Para ler, para divertir e refletir.

04. O Adolescente - Fiodor Dostoievski.
Mesmo com uma nota de 19 em 20 este não é o melhor livro de Fiodor. O problema é que alguns dos outros são nota 20.

05. O homem que via passar os comboios - Georges Simenon .
Talvez o policial menos policial de sempre. Uma obra que ultrapassa muito os cânones desse tipo de literatura mas cheio de inteligência.

06. Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway.
A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. A estupidez da guerra. E muita, muita arte, numa estória sobre a guerra civil de Espanha. Mas uma estória cheia de História. E de arte.

07. O Natal do Sr. Scrooge - Charles Dickens.
Magia, arte e crítica. Umas dezenas de páginas escritas com dor e beleza. Talvez o melhor conto de sempre sobre o Natal.

08. A Peregrinação do Rapaz sem Cor - Haruki Murakami.
Enquanto não leva o Nobel, Murakami vai-se aproximando dos cânones ocidentais. Dessa forma talvez o Nobel fique ainda mais longe. Mas o mestre japonês não precisa dele para ser um génio.

09. O Ladrão Honesto e Outras Histórias – Fiodor Dostoievski .
Uma das obras mais simples e singelas do grande Fiodor.

10. Ferrugem Americana - Philipp Meyer.
Ferrugem corrosiva! Extremamente ácida! A América na cadeira do psicanalista: doente e louca. Uma obra cheia de ironia e beleza.

11. No Limiar da Eternidade - Ken Follett.
Formidável. A fechar da melhor maneira a trilogia O Século. A imensa capacidade narrativa de Follett está aqui bem patente numa obra monumental. Uma maratona literária ou a torre Eiffel dos livros.

12. O centenário que fugiu pela janela e desapareceu - Jonas Jonasson.
Como se diz na minha terra, de partir o coco a rir. Uma ideia genial e um enredo divertidíssimo. O livro mais cómico dos últimos tempos.

13. Chama Devoradora - John Steinbeck .
Um livro belíssimo, cheio de poesia, num formato muito criativo. Já antes considerava Steinbeck um grande escritor. Agora chamo-lhe génio.

14. A Guerra dos Mundos - H. G. Wells 
Os aliens até podem ser maus. Até podem assassinar pessoas e ter máquinas de matar terríveis. Mas não são piores que os humanos. E nós temos uma arma terrível para os liquidar nas últimas páginas. Talvez a leitura mais surpreendente do ano.

15. As Aventuras de Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle 
Precisa de medicamentos para a depressão? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

16. À Espera no Centeio - J. D. Salinger.
Holden era boa pessoa. Mas à sua volta tudo era estupidez, ignorância, preconceito. Bela crónica da América do século XX.

17. Liberdade de Pátio - Mário de Carvalho.
Tens aí vinte metros quadrados onde és totalmente livre. Mas livra-te de passar os limites. Aí está uma bela crónica dos nossos tempos.

18. Avó Dezanove e o Segredo dos Soviéticos – Ondjaki .
Os camarada soviético, o mausoléu dos camarada presidente e umas peças de dinamite para fazer uma bela “desplosão”. O singelo mas não ingénuo Ondjaki no seu melhor.

19. O Signo dos Quatro – Arthur Conan Doyle.
Precisa de medicamentos para estimular a memória? Aqui tem uma bela dose sem contraindicações nem efeitos secundários.

20. O Fundamentalista Relutante – Mohsin Hamid.
Uma abordagem fascinante do terrorismo mas também do seu fantasma. E há fantasmas mais medonhos do que a realidade…

21. Os Sinos de Ano Novo- Charles Dickens.
Sinos que não trazem alegria; Ano Novo que repete a tristeza que há na injustiça. No entanto, há a esperança. E a beleza. Sempre.

22. Afirma Pereira – António Tabucchi.
Uma visão inteligente do regime fascista e de como, por vezes, os algozes não passam de vítimas…tristes vítimas do obscurantismo e da estupidez.

Imagem daqui

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

The Chimes (Os Sinos de Ano Novo) - Charles Dickens


Comentário:
O  Natal de Mr. Scrooge é talvez o conto de Natal mais lido no mundo. Ele tornou-se um hino e  um símbolo dos valores humanos que rodeiam esta época festiva. No entanto, este conto, Os Sinos do Ano Novo, muito menos divulgado, não se pode considerar em nada inferior ao consagrado Scrooge.
Com o título original The Chimes, Os Sinos do Ano Novo foi publicado pela primeira vez em 1844, exactamente um ano depois do conto de Natal.
Talvez se note neste conto alguma influência de Victor Hugo (ou mera coincidência?): a simbologia dos sinos havia sido explorada de uma forma semelhante pelo grande mestre da literatura francesa treze anos antes quando, em 1831, foi publicado o belíssimo Notre-Dame de Paris, onde o famoso Corcunda de Notre-Dame convivia diariamente com os sinos da majestosa catedral da capital francesa.
É curioso que, tal como no grande romance de Hugo, também aqui os sinos não simbolizam a alegria da época festiva; não são sinos de júbilo ou de felicidade; são sinos que marcam o ritmo de um tempo em que nada se modifica. O ambiente do interior da igreja e do campanário faz também lembrar as descrições lúgubres do interior da Notre Dame habitada pelo corcunda; um ambiente soturno e triste.
Assim, os sinos não anunciam nada de novo, da mesma forma que o próprio Ano Novo não anuncia nada de feliz. Na verdade, uma das mensagens fundamentais do livro é precisamente essa: não há razão para festejar o novo ano porque a injustiça e a pobreza continuarão a reinar.
Nunca é demais realçar a sensibilidade para as questões sociais que Dickens demonstra. Ainda antes do aparecimento das ideias socialistas ele anuncia um tempo de contestação que será determinante para temperar essa fase de profundas desigualdades que foi a época vitoriana.
Mesmo os contos mais belos de Dickens têm o condão de revelar o Mal nas suas facetas mais macabras e mais pérfidas. Para quem espera um belo conto de Ano Novo é por vezes doloroso enfrentar as descrições que Dickens faz da maldade, da injustiça e das desigualdades daquele tempo. Daquele tempo e de todos os tempos.
No entanto, na tristeza também há poesia. E até alguns laivos de felicidade. 
Um livro curto, simples, direto, onde está patente toda a beleza da escrita de Dickens, talvez o melhor narrador de todos os tempos. 
E para todos os leitores deste blogue UM BOM ANO NOVO.

sábado, 27 de dezembro de 2014

AvóDezanove e o Segredo do Soviético - Ondjaki

Comentário:
À medida que vou avançando para o interior da obra de Ondjaki, menos provável se torna a hipótese de um dia me dececionar. Todos (ou quase todos) os génios da literatura têm um ou outro livro que nos desagrada. Neste maravilhoso escritor angolano tal parece ser impossível. Impossível não gostar. Impossível não sorrir e não sonhar; impossível não sentir aquela poesia e, acima de tudo, aquela ternura dos meninos de Luanda, a fazer lembrar os Capitães da Areia, ou seja, os Meninos do Rio do Jorge Amado!
As crianças desempenham um papel fulcral nas obras de Ondjaki; e a explicação envolve, entre outros fatores, o facto de o autor ser, ele próprio uma criança, embora tendo já perto de quarenta anos. Mas ele é uma criança no sonho, na esperança, na poesia.
Depois há o humor; com uma estória destas era impossível não sorrir e mesmo ceder à gargalhada sincera. Há pormenores simplesmente hilariantes, como os jacós (papagaios) com as suas sentenças políticas ou frases de telenovela brasileira. Outra nota de humor tem a ver com a alcunha da avó: dezanove. Não vou, obviamente, revelar, mas trata-se de algo que reflete a fineza e essa ingenuidade pueril que tanto enriquece a escrita de Onjaki.
É, portanto, um livro extraordinariamente divertido; e a melhor prova dessa qualidade é o facto de o ter lido praticamente na totalidade durante uma longa sessão de quimioterapia! Mesmo no meio da desgraça, este livro, acreditem, é capaz de nos fazer rir e sorrir.
No entanto, para lá desta dimensão lúdica, há um fundo muito sério no enredo deste livro. Se em Bom Dia Camaradas se elogia a presença dos cooperantes cubanos, neste livro aborda-se numa perspetiva muito crítica a presença dos militares soviéticos na Angola do pós independência. Uma perspetiva crítica que se centra numa hipotética construção de um gigantesco mausoléu para o “camarada presidente”. No entanto, as crianças lideraram a revolta; e o povo haveria de resistir, substituindo a inauguração do mausuléu por um memorável espetáculo.

Sinopse
As obras do Mausoléu que irá albergar os restos mortais do presidente da República estão quase a terminar. Os habitantes do bairro vizinho descobrem que as suas casas serão destruídas porque o espaço circundante ao monumento será requalificado. Duas crianças decidem explodir o Mausoléu e assim poupar o bairro onde sempre viveram. Entretanto o responsável pela obra, um soviético, apaixona-se pela avó de uma das crianças. Entretanto essa avó tem de ser operada para lhe amputarem um dedo do pé. Entretanto existe uma outra avó que aparece muito mas não existe. Entretanto o plano das crianças falha, mas o Mausoléu é destruído…
in www.wook.pt

domingo, 14 de dezembro de 2014

A Chave de Salomão - José Rodrigues dos Santos


Comentário:
Dos livros que já li do autor, este é, na minha opinião, o menos bem conseguido. Isto deve-se, essencialmente, a um menor ajuste entre a componente de divulgação cientifica e o enredo ficcional. Principalmente na primeira metade do livro o leitor tem dificuldade  em  ligar esses dois vetores e as explicações cientificas parecem surgir um pouco desajustadas em relação ao enredo. No final do livro, o ensaio de uma teoria do tudo parece-me algo forçada. Se décadas de esforço dos mais conceituados físicos não conseguiram chegar a tal teoria é pouco credível que um chefe da CIA consiga tal feito; ainda mais baseado num pressuposto demasiado incrível: o da consciência do Universo que acabaria por desempenhar o papel do tal "observador" capaz de criar o real através do processo de transformação das ondas em partículas e assim explicar a unificação do quântico com o nível macroscópico.
Pela positiva, há que destacar, mais uma vez,um enredo empolgante, com incerteza até final, se bem que marcado pelos habituais clichés deste tipo de literatura: o herói que aparece no último segundo quando a heroína está prestes a ser sacrificada, assim como o inevitável desfecho romântico.
Mas, ainda assim, subsiste o lado mais positivo dos livros de JRS: a divulgação cientifica, com explicações simples de problemas tão complexos como a eterna luta pela conciliação da física clássica com a física quântica. Personagens históricas tão magníficas como Niils Bohr e Albert Einstein são aqui apresentados de forma muito pedagógica e mostrando-nos mesmo um lado humano de génios como Einstein que também eram capazes de se enganar. Pelo meio, merece  também destaque a  explicação, muito simples e eficaz, desse fenómeno que foi a descoberta do campo de Higgs, tão importante para a física contemporânea.   Há alguns anos  atrás todos ouvimos falar do Bosão de Higgs, a Partícula de Deus, criadora da matéria resultante do Big Bang, que JRS  aqui nos explica de forma muito clara.
Em suma, este livro resume bem os segredos do sucesso de JRS, com os seus melhores méritos mas deixa indícios de algum "empolgamento" que ameaça levar longe demais este perigoso equilíbrio entre ficção e ciência.

Sinopse:
O corpo de Frank Bellamy, o director de Tecnologia da CIA, é descoberto no CERN, em Genebra, na altura em que os cientistas procuram o bosão de Higgs, também conhecido por Partícula de Deus. Entre os dedos da vítima é encontrada uma mensagem incriminatória. 
The Key: Tomás Noronha
A mensagem torna Tomás Noronha o principal suspeito do homicídio. Depressa o historiador português se vê na mira da CIA, que lança assassinos no seu encalço, e percebe que, se quiser sobreviver, terá de deslindar o crime e provar a sua inocência. 
Ou morrer a tentar. 
Começa assim uma busca que o conduzirá às mais surpreendentes descobertas científicas alguma vez feitas. 
Será que a alma existe?
O que acontece quando morremos?
O que é a realidade?
Com esta empolgante aventura que arrasta o leitor para o perturbador mundo da consciência e da natureza mais profunda do real, José Rodrigues dos Santos volta a afirmar-se como o grande mestre do mistério. Apesar de ser uma obra de ficção, A Chave de Salomão usa informação científica genuína para desvendar as espantosas ligações entre a mente, a matéria e o enigma da existência.
Sinopse in www.wook.pt

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A Longa Noite sem Lua - John Steinbeck


Comentário:
Escrito em 1942, esta obra de Steinbeck nunca foi, que eu tenha conhecimento, publicada em tradução portuguesa (de Portugal). A edição que li foi, portanto, a tradução brasileira.
Este livro revela-nos um Steinbeck muito diferente daquele a que estamos habituados pela leitura das suas grandes obras. The Moon is Down (A Longa Noite sem Lua na tradução brasileira) foi escrito em 1942, já em plena fase de maturidade do escritor, três anos depois da sua obra-prima, As Vinhas da Ira. Mesmo assim, este pequeno livro não deixa de ter algo de experimental, ao abordar uma temática pouco habitual no autor: a estória de uma cidade imaginária, ocupada por um inimigo enigmático, através da invasão militar, quase sem oposição. É bom lembrar que o ano de 1942 situa-se em plena segunda guerra mundial, em que a pátria do autor também esteve envolvida (EUA).
Vivia-se o terror nazi no seu auge, um pouco por toda a Europa mas com especial incidência na França, esse país mártir que deu ao mundo um exemplo de coragem através da famosa resistência francesa, à qual o livro parece prestar uma homenagem implícita.
Uma cidade qualquer, num país que podia ser a França, ocupado por outro país, que podia ser a Alemanha, numa guerra idiota que podia ser a segunda guerra mundial. Neste livro, o ”prefeito” é um homem passivo, um bom homem mas sem coragem para atos heroicos; ele vai tentado gerir a ocupação de forma pacífica, levando ao limite o seu esforço para acalmar a ira dos ocupantes. Mas nunca o prefeito deixou de acreditar naquele que é o verdadeiro herói do livro: o povo da cidade. Ele acredita que, seja qual for a sua atitude, um dia o povo se revoltará e o agressor tornar-se-á vítima. É esta a mensagem do livro: nada pode domar a vontade de um povo, por mais oprimido que ele seja.
E ao longo do livro, a premonição do prefeito vai-se concretizando; lentamente, a euforia de quem possui as armas vai-se esvaindo, à medida que a resistência do povo vai triunfando. A meio do livro, já os oficiais invasores, extenuados perante uma ocupação sob grande resistência, vão reconhecendo: “A cidade foi conquistada e estamos com medo; foi conquistada e estamos cercados.” Premonição perfeita do que viria a ser o desfecho da guerra: os nazis viriam a ser vencidos pelo desgaste.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Adultério - Paulo Coelho


Comentário:
Na mais positiva das leituras, este é um livro sobre a eterna inquietude do ser humano; sobre aquilo que António Variações chamava de Estar Além: só querer estar onde não estou, só querer ser o que não sou. Há no ser humano qualquer coisa que não se adapta à quietude, à paz de espírito; há sempre necessidade de algo mais, não necessariamente material; é por isso que a paz é tão difícil de obter.
Por outro lado, algo nos vai dizendo, ao longo da leitura que estamos perante um livro banal. No centro do enredo está a velha e mil vezes repetida questão dos limites do normal; a questão de saber se a loucura a que qualquer ser humano é levado pelas circunstancias, muitas vezes pela inquietude que referi, não é afinal um estado de “normalidade”. Mas, sinceramente, sobre esse assunto será possível que Paulo Coelho vá mais longe do que já foram os também brasileiros Machado de Assis e Clarice Lispector? Não me parece.
Depois vêm os lugares comuns a fazer lembrar a mais vulgar literatura de autoajuda: a medicina não dá respostas; apenas vende. O ioga e as técnicas orientais de meditação também não… 
A mais descarada banalidade e, ao mesmo tempo, uma generalização abusiva, mas que fica sempre bem num livro de Paulo Coelho:
“Os homens traem porque está no seu sistema genético. A mulher o faz porque não tem dignidade suficiente, e além de entregar seu corpo acaba sempre entregando um pouco do seu coração”.
Mas aqui está uma das grandes razões do sucesso dos livros deste autor: ele diz exatamente aquilo que a maioria dos leitores quer ler.
A vida exige desafios; quando eles não existem, o indivíduo tende a procurar situações de risco e aventura que, regra geral, resultam em comportamentos que conduzem à autodestruição. Isto não é uma descoberta de Paulo Coelho; é uma caraterística da alma humana há muito conhecida; o que o autor faz é apenas ilustrá-la com o exemplo típico da pessoa que, aparentemente, tinha tudo para ser feliz e que se vai auto-destruindo. Como é óbvio, “aparentemente” é a palavra-chave neste processo. E o grande problema deste livro é que tudo é demasiado óbvio; demasiado comum. E a literatura, como arte que é, exige algo mais que o banal.
Pela parte que me toca, acho que já esgotei a minha paciência para com Paulo Coelho; respeito o sucesso que tem e o bem que faz a muita gente que já o leu e com ele ganhou algo. Só por isso, já Paulo Coelho merece o reconhecimento que tem. Mas a mim já nada de novo diz…

Sinopse:
Uma mulher, casada, mãe de dois filhos, e jornalista de carreira, começa a questionar a rotina e a previsibilidade dos seus dias. Ao olhos de todos, tem uma vida perfeita: um casamento sólido e estável, um marido dedicado, filhos alegres e felizes, um trabalho que a faz sentir-se realizada. Contudo, já não é capaz de suportar o esforço necessário para fingir que é feliz, quando a única coisa que sente pela vida é uma enorme apatia. Tudo muda quanto reencontra, acidentalmente, um antigo namorado da sua adolescência. Quando se reencontram, desperta nela uma inesperada e violenta paixão, e fará tudo o que seja preciso para conquistar esse amor impossível.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Guerra dos Mundos - H. G. Wells


Comentário:
Antes de mais nada convém esclarecer uma confusão que também eu possuía antes de ler este livro: Orson Welles foi um cineasta e produtor de rádio e H. G.Wells foi o verdadeiro autor deste livro; a semelhança dos apelidos costuma gerar confusões.
Quando A Guerra dos Mundos, de Herbert George Wells foi adaptada a um programa de rádio, da responsabilidade de Orson Welles, em 1938, gerou um pânico enorme na população de Londres, uma vez que a obra retrata, de uma forma muito realista, uma invasão de marcianos. 
Para compreendermos tal fenómeno, convém fazer um pequeno enquadramento na época: 1938 foi o ano anterior ao início da Segunda Guerra Mundial; nessa altura, Hitler era uma séria ameaça à paz na Europa e podemos afirmar que o medo já estava bem patente na maioria dos cidadãos ingleses. O impacto de tal emissão é facilmente explicado por esse clima, aliado à genialidade do escritor Wells e do radialista Welles.
Por outro lado, convém ter em conta a época em que o livro foi escrito (1898). Vivia-se um clima de euforia na Europa, um tempo de prosperidade, mas também era claro que essa prosperidade escondia uma ameaça gigantesca: as grandes rivalidades na Europa que haveriam de conduzir à primeira guerra mundial; portanto, podemos afirmar que o livro é duplamente premonitório: podemos encarar a sua publicação como uma premonição da Primeira Guerra Mundial e a emissão de rádio é uma espécie de antecipação da Segunda.
Quanto ao livro em si, só encontro uma palavra para o definir: empolgante. Wells apresenta-nos e invasão como algo menos estranho à realidade do que possa parecer; logo no início do livro, ele adverte o leitor para esta verdade tão simples: porque é que havemos de estranhar uma invasão extraterrestre se toda a história do próprio homem está cheia de destruições maciças, provocadas pela sua própria agressividade? 

Repare-se   nas palavras do autor:

"Antes de formularmos a seu respeito um juízo demasiado severo, devemos recordar-nos que destruímos, implacável e totalmente, não apenas animais, como o bisão e o dodó, mas também raças inferiores. Os dasiúros, apesar da sua semelhança com os homens, foram inteiramente aniquilados no decorrer de uma guerra de extermínio empreendida por imigrantes europeus no espaço de cinquenta anos. Seremos tão piedosos que tenhamos o direito de nos lamentar se os marcianos fizerem a guerra movidos pelo mesmo espírito? "


Quanto aos marcianos que  invadem Inglaterra, há neles caraterísticas que merecem destaque pelo seu tremendo simbolismo. Por exemplo, eles não têm aparelho digestivo; “Eram cabeças – meras cabeças”. É impressionante como as caraterísticas aparentemente “monstruosas” dos marcianos não são mais do que a projeção de uma eventual continuação da evolução do homem, no sentido darwiniano, ou seja, fazendo com que órgãos ou membros menos úteis desapareçam (nariz externo, orelhas, cabelo, unhas, queixo, etc.) ao mesmo tempo que se desenvolvem de forma desmesurada os órgãos mais importantes, nomeadamente o cérebro e as mãos.
Da mesma forma, o aparelho digestivo reduz-se e o alien acaba por se alimentar diretamente do sangue das presas. Impressionante. Mas não é assim o ser humano enquanto predador?
A visão algo apocalíptica do autor é reforçada pela opinião negativa que ele emite sobre a natureza do ser humano, bem explícito no exemplo do padre. Trata-se de um homem da religião que manifesta um caráter problemático, egoísta, maldoso. Em plena contradição com o próprio pensamento religioso.
Outro pormenor curioso é o facto de um dos personagens principais, o artilheiro, através do seu discurso e dos seus planos, representar a crença na construção de um futuro melhor para a humanidade através de uma espécie de nova seleção natural, em que os mais fracos, os inúteis, são eliminados. Assim, há uma espécie de aproveitamento do lado positivo da desgraça: de como a “razia” provocada pela guerra (neste caso frente aos marcianos) funciona como uma forma de selecionar os melhores. 
O final do livro é interessante e, mais uma vez cheio de simbolismo; sem querer revelar o desfecho do enredo, é importante dizer que o maior inimigo da humanidade, ao longo dos seus 2,5 milhões de anos de História pode ser, ao mesmo tempo, a sua melhor defesa.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A Fórmula de Deus - José Rodrigues dos Santos

Comentário:
Aquilo de que não gostei neste livro resume-se a muito pouco: algum exagero nas explicações científicas, por vezes repetitivas, redundantes mesmo. Esse aspeto retira alguma fluidez à leitura e pode desagradar a leitores mais desejosos de um ritmo narrativo rápido. Mas fica por aqui a minha crítica negativa.
O que de positivo posso dizer é muito mais significativo. Sem tirar  interesse às aventuras de Tomás Noronha, JRS oferece-nos um presente notável: uma obra de divulgação cientifica riquíssima, a fazer lembrar o grande e saudoso Carl Sagan. O livro tem 570 páginas mas só consigo fazer uma pequeníssima ideia dos milhares de páginas que o autor leu para compor esta obra. 
Tudo começa com uma enigmática conversa entre Einstein e o antigo primeiro ministro israelita Ben Gurion. Dessa conversa resultou a elaboração, pelo génio da ciência, de um documento cientifico que, na interpretação dos espiões norte-americanos e, mais tarde, dos serviços secretos iranianos, de um plano para uma bomba atómica potente e acessível. Lentamente, ao longo do livro, JRS vai dando pistas para que o leitor vá descobrindo que o conteúdo do tal documento é bem diferente. No entanto, é o "nosso" Tomás Noronha que se vê "emparedado" entre americanos e iranianos. 
Pelo meio fica um admirável passeio pelos mais diversos aspetos da evolução do conhecimento cientifico no século XX pós-Einstein, especificamente no domínio da Física. 
Paralelamente, o autor oferece-nos interessantes reflexões sobre a natureza do pensamento religioso e suas relações, sempre explosivas, com o poder político.
Depressa a obsessão pelas armas nucleares vai dando lugar a uma outra obsessão da humanidade: a existência de Deus perante a validade sempre relativa do conhecimento científico. O interesse do livro atinge o clímax quando o leitor é levado a constatar das fronteiras tão ténues entre a física e a metafísica ou, em última análise, entre a ciência e a religião. A aceitação de um Deus criador não está, afinal, tão distante da realidade da própria ciência.
O final do livro, embora não tenha agradado a muitos dos aficionados da escrita de JRS é, a meu ver, belíssimo. A mensagem final tem tanto de surpreendente como de genial pela forma como o leitor é levado a reflectir sobre questões tão fundamentais como a existência de Deus, a origem, os limites e o futuro do Universo e da humanidade.
Em jeito de conclusão: não sendo um génio de criação literária, José Rodrigues dos Santos compensa essa lacuna com um imenso trabalho de preparação e elaboração das suas obras, ao mesmo tempo que revela um certo talento na gestão do "suspense" que imprime ao enredo, levando o leitor a uma certa avidez na leitura. 

Sinopse:
Nas escadarias do Museu Egípcio em pleno Cairo, Tomás Noronha é abordado por uma desconhecida. Chama-se Ariana Pakravan, é iraniana e traz consigo a cópia de um documento inédito, um velho manuscrito com um estranho título e um poema enigmático.
O inesperado encontro lança Tomás numa empolgante aventura, colocando-o na rota da crise nuclear com o Irão e da mais importante descoberta jamais efectuada por Albert Einstein, um achado que o conduz ao maior de todos os mistérios: a prova científica da existência de Deus.
Uma história de amor, uma intriga de traição, uma perseguição implacável, uma busca espiritual que nos leva à mais espantosa revelação mística de todos os tempos.
Baseada nas últimas e mais avançadas descobertas científicas nos campos da física, da cosmologia e da matemática, A Fórmula de Deus transporta-nos numa surpreendente viagem até às origens do tempo, à essência do universo e o sentido da vida.
in www.wook.pt

domingo, 9 de novembro de 2014

A Peregrinação do Rapaz sem Cor - Haruki Murakami


Comentário:
Este é, sem dúvida, o mais intimista dos livros de Murakami. Escrito em 2013 e tratando-se da sua mais recente obra, ficamos expectantes sobre a possibilidade de ele marcar uma certa viragem na linha que o escritor vinha seguindo. De facto, aqui vê-se menos o âmbito social, a dimensão crítica, a reflexão sobre o mundo exterior e, pelo contrário, entramos numa certa reflexão interior, num questionar da existência que pode marcar essa hipotética viragem.
Seja como for, não deixa de estar bem patente, também neste livro, o traço indelével da escrita deste génio japonês: o confronto entre o real e o imaginário, ou entre o concreto e o simbólico. Por várias vezes já afirmei que, na minha perspectiva, o encanto da sua escrita reside muito na forma como o autor nos enquadra o fantástico no mundo real; mas este "fantástico" nada tem a ver com a moda literária que inundou o mundo literário ocidental pós-Martin; tem a ver, isso sim,com aquele misticismo oriental que tanto  tem encantado o ocidente.
Nesta obra, a análise interior da alma humana incide sobre a vida de Tsukuru Tazaki, um homem marcado pela paixão pelos comboios. Na sua juventude gostava de ver passar os comboios, da mesma forma que, ao longo da sua existência foi vendo passar a vida. A obra está escrita em três tempos narrativos: na sua juventude, Tazaki teve quatro amigos inseparáveis; de forma misteriosa, eles separaram-se. Aos vinte e um anos, Tazaki viveu uma amizade intensa com Haida; de forma misteriosa eles separaram-se. Aos trinta e seis, conheceu Sara. Irá, também agora, limitar-se a "ver passar" Sara na sua vida?
Os comboios simbolizam o devir; o correr do tempo e a necessidade vital que o ser humano tem de o fazer parar; é por isso que, em adulto, Tazaki se torna engenheiro de estações de caminho de ferro: "se não houvesse estações, os comboios não paravam". É vital construir estações na vida.
Mas essas estações, essas paragens, não são mais do que momentos fugazes; é esse o drama maior; a paragem, em breve dá lugar à separação. Mais do que as uniões, são as separações que marcam a vida do nosso herói; separações misteriosas como são misteriosas todas as separações que povoam as nossas vidas. Como é misteriosa a nossa vida e insondável qualquer destino.
Todo este simbolismo é encantador na escrita de Murakami; na literatura, o simbolismo é algo de muito perigoso. Muitas vezes ele resulta numa escrita confusa, enigmática, porque o leitor comum não consegue desvendar as mensagens que o escritor quer transmitir mas que, sádico e vaidoso, esconde. Em Murakami,pelo contrário, o simbolismo é claro,transparente... real.
Tecnicamente, um dos aspetos mais encantadores e geniais da escrita de Murakami (aspeto esse que ele tem vindo a aprimorar ao longo da carreira) é a forma como a resolução de um mistério dá lugar a um novo mistério. Quando se explica algo que inquietava a mente do leitor, é a própria resposta que dá lugar a outra questão; e assim a leitura avança de forma imparável. É muito difícil parar de ler Murakami. E quando o livro termina ficamos sempre com aquela ansiedade pelo próximo que esperamos seja publicado o mais depressa possível.
Sem duvida, este é o escritor atual que, na minha opinião, mais tem feito por merecer um prémio Nobel.

Sinopse:
Nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Agora, com 36 anos feitos, é engenheiro de profissão e projeta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Lá está ele na estação central de Shinjuku, ao que dizem «a mais movimentada do mundo», incapaz de despregar os olhos daquele mar selvagem e turbulento «que nenhum profeta, por mais poderoso, seria capaz de dividir em dois». Leva uma existência pacífica, que talvez peque por ser demasiado solitária, para não dizer insípida, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome. A entrada em cena de Sara, com o vestido verde-hortelã e os seus olhos brilhantes de curiosidade, vem mudar muita coisa na vida de Tsukuru. Acima de tudo, traz a lume uma história trágica, que a memória teima em não esquecer. Os quatro amigos de liceu, donos de personalidades diferentes e nomes coloridos, cortaram relações com ele sem lhe dar qualquer explicação. Profundamente ferido nos seus sentimentos, Tsukuru perdeu o gosto pela vida e esteve a um passo da morte. A páginas tantas, lá conseguiu não perder a carruagem. Com "Os Anos de Peregrinação" de Liszt nos ouvidos, regressa à cidade que o viu nascer e atravessa meio mundo, viajando até à Finlândia, em busca da amizade perdida. E de respostas para as perguntas que andam às voltas na sua cabeça e lhe queimam a língua. Será que o rapaz sem cor vai ser capaz de seguir em frente? Arranjará finalmente coragem para declarar de vez o seu amor por Sara? Uma inesquecível viagem pelo universo fascinante deste escritor japonês que chega a milhões de leitores espalhados pelo mundo inteiro. Um romance marcadamente intimista sobre a amizade, o amor e a solidão dos que ainda não encontraram o seu lugar no mundo.
In www.fnac.pt

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Homem de Sampetersburgo - Ken Follett


Comentário:
Indo diretamente ao assunto: todos os grandes autores têm obras menores e esta (daquilo que conheço) é uma das obras menores de Ken Follett. Obviamente, isto tem uma explicação: é um livro de início de carreira, escrito em 1982. No entanto, aquilo que constitui obra menor para um génio como este, seria considerado um bom livro para um escritor menor. Perante livros monumentais como a Trilogia o Século e principalmente Os Pilares da Terra, este Homem de Sampetersburgo é um livro situado num patamar bem inferior mas não deixa de ter qualidade.
Antes de mais nada convém salientar a eterna paixão de Follett pela História. Mais do que um escritor de romances históricos, ele é exemplar na forma com não se limita a buscar na História um cenário para os seus enredos mas sim na reflexão sobre grandes temas do nosso passado. Neste caso, o enquadramento é fornecido por uma época riquíssima para qualquer escritor: o início do século XX com as suas imensas intrigas políticas que haveriam de conduzir a dois acontecimentos de charneira na história do nosso mundo: a Revolução Soviética e a Primeira Guerra Mundial que agora comemora o seu primeiro centenário.
Alguma ingenuidade típica de um escritor novato fica bem patente nas coincidências mirabolantes que encontramos no enredo, bem como parentescos que se revelam de forma incrível. Estes traços novelísticos vão emergindo em crescendo ao longo da obra, deixando a dimensão histórica e historiográfica para segundo plano, o que não deixa de decepcionar o leitor minimamente conhecedor da obra deste escritor genial. Da mesma forma se desiludem os leitores que procuravam neste romance aquilo que ele prometia à partida: um livro de espionagem e de intriga política; esses traços estão lá, mas vão-se esfumando, em favor da novela.
Mesmo assim não deixam de marcar já presença aqueles que se tornariam os traços mais marcantes da escrita de Follett: uma simbiose perfeita entre História e estória, entre realidade e ficção.
Outro traço muito positivo é a seriedade e a frontalidade com que o autor traça um quadro crítico e por vezes satírico em relação ao moralismo burguês tão em voga naquela época, a que se convencionou chamar Belle Epoque mas que haveria apenas de ser o prelúdio de uma das maiores tragédias humanas da história: a Primeira Guerra Mundial.

Sinopse
1914: a Alemanha prepara-se para a guerra e os aliados constroem as suas defesas. Ambos os lados precisam da Rússia. O Duque de Walden e Winston Churchill planeiam, em total segredo, uma aliança russa mas um homem infiltra-se em Inglaterra com a intenção de deixar a sua marca na História e deixar o país a seus pés…
in  www.wook.pt

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

O Último Adeus - Li Marta


Comentário:
Ora aqui está uma bela surpresa que o Clube de Leitura Bertrand de Braga me proporcionou: um livro despretensioso, numa escrita límpida e agradável, que se lê de forma apaixonada e intensa. E uma situação que já se repete, infelizmente, amiúde no panorama literário português: nenhum livro  é divulgado em conformidade com a qualidade que revela; todos sabemos que há desígnios insondáveis nas prioridades das editoras...
Li Marta escreveu um livro sobre a família; sobre os amores da mãe e da avó materna; uma bela história, sem dúvida. E esse tom autobiográfico reforça ainda mais o carácter intimista e, ao mesmo tempo, tremendamente verossímil da obra. Quem lê fica com a impressão clara que é com toda a lógica e com toda a naturalidade que as coisas tenham ocorrido assim. Por outras palavras; trata-se de uma história perfeitamente plausível sobre uma família pobre em plena ditadura de Salazar.
As descrições das épocas retratadas são fiéis à realidade histórica e o realismo da escrita deixo-nos bem clara a imagem do país real nos segundo e terceiro quartel do século, num bom testemunho histórico das condições de vida dos mais pobres nesse contexto: a ingénua religiosidade popular, os costumes, a humildade de quem nada tem e, por outro lado, o peso dos preconceitos, do julgamento da tantas vezes impiedosa e ilógica moral pública.
Apenas um reparo: por vezes a falta de experiência da autora leva-a a atribuir discursos algo elaborados para personagens humildes, com reduzida ou nenhuma escolaridade.
Na aba do livro, a autora confessa, com toda a simplicidade a sua admiração por escritores que não são propriamente génios literários: Danielle Steel, Nora Roberts e Nicholas Sparks. No entanto não foram esses escritores que eu "li" na escrita de Li Marta; o que aqui redescobri foi um novo Júlio Dinis, principalmente naquela simplicidade romântica, naquele bucolismo colorido e, acima de tudo, naquela bondade natural do ser humano. Na verdade, a autora, ao construir todos os personagens, revela uma belíssima crença na bondade natural do ser humano; mesmo na maior miséria, na fome a que o regime de Salazar condenou aquelas ingénuas e puras gentes, há sempre um raio de sol e de esperança. Esta beleza interior da maioria dos personagens, confesso, enterneceu-me e talvez este comentário não esteja a ser suficientemente comandado por uma avaliação "técnica" da obra mas pelos belos sentimentos e pelo prazer de ler que me ofereceu. Mas, ao fim e ao cabo, o que é que procuramos num livro senão a paz, a beleza e o prazer?
É que é isso mesmo que este livro nos oferece: uma paisagem humana cheia de paz, de beleza e um imenso prazer de ler.
À autora, se alguma vez este comentário ler, só posso deixar um sincero OBRIGADO pelos momentos de paz e prazer que a sua leitura me propiciou. Li Marta não é um génio literário; o livro não é uma obra-prima, mas está repleto de motivos para nos deixar bem convictos de que uma leitura como esta pode ser um bocadinho de felicidade.

Sinopse
Baseado numa história verídica, vivida entre os distritos de Viseu e Aveiro. Passamos por localidades como Tondela, Caramulo, Sernancelhe, Moimenta da Beira e Águeda. Três gerações de primogénitas vivem grandes histórias de amores inesquecíveis.
Dionora vive pobremente mas feliz com António. Até ao dia em que descobrem a doença fatal vivida nos anos cinquenta, a tuberculose. Com a morte do marido, Dionora deixa de ter forças para viver.
Luzita, a primogénita de Dionora, terá de lutar pelo primeiro amor da sua vida, um homem de classe ligeiramente superior à dela. Só que o destino salpicou-lhe a vida de negro.
Lídia, a primogénita de Luzita, vive também um grande amor. Mas fica nas suas mãos dar continuidade ao último adeus. Será que é capaz?
in www.wook.pt

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Diabo dos Políticos - Fernando Évora, João Pedro Duarte, Miguel Almeida, Vítor Fernandes


Comentário:
Se este livro se chamasse O Diabo dos Benfiquistas também não calhava nada mal. 
Quatro bons escritores, quais quatro cavaleiros do Apocaliptro, quatro escribas cheios de sentido de humor e de espírito crítico deixam aqui bem claro que ninguém é perfeito: aquele tom encarnado de princípio a fim não agradou nada aqui ao bracarense :) Até a cor da capa foi escolhida a preceito: vermelha como Lúcifer e como o Benfica. 
No entanto, daqui para a frente escrevei apenas na condição de leitor, abandonando, embora a custo, a minha honrosa qualidade de vermelho com mangas brancas.
E, enquanto leitor, tenho de confessar que me diverti imenso ao ler o diabo do infólio. Para já, tudo começa com a originalidade de um livro que, escrito a quatro mãos, não perde uma linha narrativa coesa. Depois, vem ao de cima o imenso sentido de humor dos autores, apimentado por aquele espírito crítico que, como se diz aqui no Minho, leva tudo a eito, como a espada do rei Afonso curando dores de cabeça à moirama (sem acepção futebolística, note-se).
Mas não se pense que este é um livro escrito a brincar. Há aqui questões muito sérias, cheias de motivos de reflexão. Questões quase transcendentais, mesmo. Por exemplo: seria Adão alérgico a maçãs? Será que todos os demónios, a caminho do Parlamento, têm de passar pelo estádio da Luz? Haverá forma, mesmo que satânica, de quebrar a hegemonia do Norte? Terá o Antipapa D. João Relvas I, alguma vez, poder para defrontar o Papa do Norte? O verdadeiro Inferno fica na Alemanha ou em Boliqueime?
Estas e muitas outras questões podiam fazer deste livro um clássico da literatura universal e dos seus escritores candidatos ao Nobel. Mas não, porque eles até escrevem benzinho mas ousaram maldizer. Renegaram o Coelhinho da Páscoa e também o da Duracell. Enfrentaram descaradamente o Anjo da Guarda e o da Polícia. E o de Castelo Branco também. Por tudo isto, caros autores, se estas linhas tiverem a felicidade de ler, saibam que só uma via vos poderá conduzir à redenção: se um qualquer subsecretário de Estado da Cultura vos ler e amaldiçoar, as portas do Nobel podem ficar abertas. E as do Inferno também.
Termina aqui a primeira parte do meu comentário.
Segunda parte:
Este livro é uma paródia total no melhor dos sentidos. Sarcasmo, crítica, sátira e montes de gargalhadas. Parabéns e obrigado por este divertimento.

Sinopse
Um país chamado Portugal atravessa uma crise e está sob tutela de uma troika. Apesar da maior parte da população viver no limiar de pobreza, uma pequena elite desgoverna a nação, indiferente ao sofrimento dos seus conterrâneos. O Diabo, entediado pela espera de mil anos, vê a sua oportunidade de conquistar, como deputado de um partido de direita, este novo inferno com sede na Assembleia da República. Mas o que o Diabo veio encontrar envergonha até um Príncipe das Trevas. E, de natureza rebelde e contestatária, acaba por se apaixonar por uma deputada da ala contrária… Neste romance, os autores abordam despudoradamente religião, política, sexo, morte… e futebol, pois claro…

sábado, 1 de novembro de 2014

Ocaso das Letras - Pedro de Sá


Comentário:
Nesta publicação da Chiado Editora, este livro vem classificado como “de crónicas”. Custa-me um pouco encará-lo dessa forma; na minha opinião este é um livro de reflexões; um livro de pensamentos e emoções, sentimentos ou apenas emoções dispersas. Ou seja, um livro feito de todos aqueles pensamentos e emoções que compõem a nossa vida. Quase em forma de diário, Pedro de Sá, que já nos impressionara com as suas obras anteriores, oferece-nos um autêntico passeio pela intensa atividade interior que a vida desperta num ser humano sensível aos fenómenos, pequenos e grandes, que o rodeiam.
O maior problema dos livros ditos “de crónicas” é não seguirem aquela linha contínua que desperta e mantém o interesse do leitor, ou seja, uma narrativa; o formato de textos curtos tendem a espartilhar o enredo. Mas se o livro de Pedro de Sá corre, dessa forma, o risco de ser considerado menos apelativo, ele revela, por outro lado, fortes motivos de interesse. Antes de mais, é clara na escrita do autor uma certa procura do sentido da vida; isto pode parecer abstrato, mas o realismo da escrita torna essa procura algo de bem objetivo: esse sentido da vida parece situar-se algures entre dois extremos: o banal quotidiano e uma intensa vida interior. Do gesto mais banal ao pensamento mais elaborado, este livro é uma viagem entre esses dois polos. Afinal, dentro de um ser humano há sempre dois mundos – um objetivo, concreto, e outro feito de pensamentos e sonhos. É dentro desta última esfera que a escrita de Pedro de Sá se move, mas sem que este mundo interior alguma vez se liberte desse outro polo, o concreto. A questão que parece restar é esta: a qual desses dois mundos nos escravizamos? Ou aos dois?
À medida que avançamos no livro, algo vai surgindo, lentamente, como um verdadeiro monstro emergindo de águas profundas: o tempo. Um tempo que é passado, sob a forma de memórias de infância ou de sonhos perdidos, outras vezes tomando forma de saudade – “o passado a nascer-lhe” (pág. 85) é a força da memória, o peso das recordações, o labirinto da saudade. A saudade, uma espécie de dor que fica a meio passo da morte; passado e futuro unidos por uma dor de existir que é única e fatal. Este tom sombrio, de poesia dolorida, faz deste livro uma espécie de catarse da dor; um ocaso que não é só das letras – é da vida.
Enfim, uma obra que merece ser lida, a fazer lembrar Vergílio Ferreira na interioridade da prosa poética ou António Lobo Antunes num intenso  mergulho interior.



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

No Limiar da Eternidade - Ken Follett


Com mais de mil páginas, este terceiro volume da trilogia O Século vem apenas confirmar a magnífica saga que Follett foi capaz de construir. Continuo convencido que não conseguiu, nesta obra, ultrapassar esse festival de criatividade e de genialidade que conseguiu em Os Pilares da Terra; mas fez mais uma magnífica obra de arte.
No meu comentário ao primeiro volume enunciei um certo paralelismo com o Guerra e Paz de Tolstoi; também aqui há 5 famílias em torno de um século. Mas talvez seja injusto comparar as duas obras; se a genialidade do grande russo parece inultrapassável, também é verdade que o projeto de Follett era ainda mais ambicioso porque pretendia abordar o mundo todo num século inteiro. Obviamente, algo haveria de ficar de fora; a seleção dos factos abordados teria necessariamente de ser subjetiva e cada um de nós terá sempre um dedo a apontar a Follett porque se esqueceu ou desprezou algo. Também eu fiquei um pouco decepcionado por neste terceiro volume a França e a construção da União Europeia terem ficado para trás. E sobre Portugal não há sequer uma palavra.
Já que estamos a falar naquilo que desagradou, deixo apenas uma nota sobre a inevitável parcialidade do escritor. É absolutamente injusto exigir imparcialidade a um escritor de ficção histórica. Follett assume uma clara simpatia pela ideologia social democrata europeia, de centro esquerda, apologista do chamado Estado Social. E acho que fez bem :) Por outro lado é claro o seu patriotismo, ao deixar sempre muito clara a simpatia pelas terras de Sua Majestade. Inevitável...
Mas passemos aos aspetos mais geniais da obra:
Em primeiro lugar, o título. No Limiar da Eternidade parece-me um titulo genial pela ambivalência que encerra: na segunda metade do século XX, o mundo esteve perto da extinção; perto da eternidade. Mas, por outro lado, caminhamos um pouco mais em direção ao Paraíso. O final feliz, com a queda do muro e, depois, a eleição de Obama parece indicar um certo caminho para o felicidade.
Durante a leitura deste livro veio-me várias vezes à memória um tema musical belíssimo, Russians, de Sting:

Mr. Reagan says we will protect you
I don't subscribe to this point of view
Believe me when I say to you
I hope the Russians love their children too

We share the same biology
Regardless of ideology
What might save us, me, and you
Is if the Russians love their children too

O livro não deixa de trazer uma mensagem de esperança, entre tantas guerras e desgraças. Nunca o autor caiu no erro de confundir os povos com o egoísmo e a cegueira dos seus lideres; os russos, como os alemães de leste, húngaros, etc., foram vítimas, assim como os negros na América, por exemplo, porque a injustiça nunca foi exclusiva dos países de leste.
É genial o paralelismo entre os assistentes de Kennedy e de Krutchev: não há bons nem maus; há apenas duas máquinas paralelas, preparadas para manter o equilíbrio precário de que o mundo depende.
De um lado e do outro, mantêm-se lutas ferozes pelo poder. E nesta luta desenfreada, a falta de ética, o recurso a maquinações obscuras, também não são exclusivas dos países comunistas. Por todo o lado pulula o arrivismo, a ambição desmedida e uma preocupação apenas: o sucesso pessoal, obtido a todo o custo.
Grande parte do enredo deste livro é dedicado à luta pela igualdade de direitos no que respeita ao racismo americano, à luta heróica de Martin Luther King, num processo que não termina com a morte desse grande ícone mas com a vitória triunfal de Obama, com que finaliza o livro.
Em termos de estilo, este livro é magnífico pela forma límpida e ultra objetiva com que Follett escreve; as estórias fabulosas de personagens magnificamente construídos, como Walli e Dave, o meu personagem preferido, mostram a razão pela qual este escritor bate todos os recordes de vendas: ele dá ao público aquilo que o público mais procura: estórias fantásticas mas credíveis; acontecimentos mirabolantes mas reais - que aconteceram ou que podiam ter acontecido. E uma tremenda sensibilidade para abordar os sentimentos humanos e o sofrimento dos injustiçados. Follett tem a o saber de um mestre e a sensibilidade de um artista. Um grande humanista e um enorme artista.
Lê-se Follett como quem lê História, mas com a vantagem de ler com um enorme prazer.
Finalmente, um dos aspetos mais belos do livro: a forma como a arte, neste caso a música, é apresentada como símbolo da paz, da felicidade e da harmonia entre os povos.
Em conclusão: esta trilogia é um dos momentos mais altos da história da literatura contemporânea. 
E que ninguém se assuste com estas quase 3000 páginas; estes 3 livros lêem-se com um enorme prazer!




sábado, 27 de setembro de 2014

A Tragédia de Fidel Castro - João Cerqueira


Comentário:
Às vezes aparecem surpresas assim; se há um mérito maior neste livro é o de ser completamente diferente de tudo quanto se publicou até hoje. Colocar frente a frente D. Afonso Henriques e Fidel Castro não é tarefa fácil. Mas com a ajuda de uma (i)lógica surrealista e com muita imaginação, João Cerqueira lá levou a água ao seu moinho, com criatividade e com muito humor. Criatividade, humor e sátira são as palavras-chave desta obra. 
E inteligência, já agora, porque escrever um livro assim implicou certamente muito trabalho das células cinzentas. A sátira é o principal objectivo da escrita deste livro. Obviamente, ele tem de ser lido com total desprendimento, sem preconceitos nem partidarismos ou qualquer outra forma de apriorismos; a maneira como a sátira incide sobre tão diversos quadrantes como comunismo, capitalismo, cristianismo e todos os “ismos” que se possam imaginar, faz com que todo e qualquer pré-conceito seja obstáculo a uma boa aceitação do livro. 
Em termos de estilo, não restam dúvidas que há aqui uma base surrealista; várias passagens do livro fizeram-me lembrar o nosso fantástico Mário de Carvalho, principalmente naquelas obras em que toca assuntos relacionados com a História de Portugal. Parece-me nítida esta influência, direta ou indireta, assim como a desse grande mestre do surrealismo literário que foi Boris Vian. 
Numa época em que está tão na moda a literatura de fantasia não se pense que este livro é mais um exemplar da literatura fantástica; o que aqui está é realidade; é um comunismo tornado utópico, um capitalismo selvagem e opressor, uma história e uma mentalidade portuguesas atuais e passadas, numa mescla por vezes difícil de compreender mas que constitui, sem dúvida, um testemunho bem criativo daquilo que é, simplesmente, Portugal. E o invólucro desta sátira não é a fantasia; é o surreal. Não é a fuga à realidade; é um mergulho na própria realidade, embora recorrendo a uma linguagem que a ultrapassa.
Poder-se-á perguntar porque é que este livro não teve um sucesso maior; a razão fundamental terá sido a falta de divulgação, tratando-se de um escritor ainda pouco divulgado; no entanto, há outro aspeto a ter em conta: o grande público procura algo que este livro não oferece: uma narrativa com suspense, uma estória envolvente e aquela incerteza sobre o desfecho típica do género romance. Esta não foi, de facto, uma preocupação do autor; mas um enredo um pouco mais elaborado poderia ter proporcionado ao livro um sucesso comercial que sem dúvida merecia.

Sinopse
Há quase 50 anos, Fidel Castro espantou o mundo com a sua revolução. Mas será que El Comandante perdeu o rumo? Ter-se- á transformado no pior inimigo do seu povo? 
A Tragédia de Fidel Castro é um livro simultaneamente divertido e exigente, conduzindo-nos à mente de um dos mais enigmáticos e polémicos líderes do mundo actual. A sátira e o humor inteligente — ora discreto ora descarado — prendem-nos e despertam a reflexão. A narrativa foge a quaisquer regras, propondo-se revelar a intricada mente de Fidel como nenhum outro livro o fez. 
Qualquer um ficará surpreendido com os personagens que irá encontrar: Cristo, Afonso Henriques, o Grande Inquisidor, Fátima, Deus e o Diabo... , figuras simbólicas desta tragédia fantástica onde apenas Fidel Castro é real. 
Entre as sátiras de Gil Vicente, Ramalho Ortigão e Fialho d’Almeida e a fantasia de Ruben A. Leitão, A Tragédia de Fidel Castro abre uma página nova na literatura portuguesa, na qual se descobre o nosso próprio país. 
Aviso: não aconselhável a leitores com susceptibilidade política ou religiosa.
Vencedor do Beverly Hills Book Awards 2014 (Multicultural Fiction)
in www.wook.pt

sábado, 20 de setembro de 2014

O Natal do Sr. Scrooge - Charles Dickens


Comentário:
Esta deve ter sido a terceira ou quarta vez que li este livrinho. E há sempre algo de novo a descobrir nestas singelas 114 páginas. Desta vez resolvi lê-lo longe da quadra natalícia porque um amigo pediu-me para selecionar 2 ou 3 trechos para um trabalho seu. Curiosamente, não foi fácil encontrar 3 frases lapidares; isto porque o livro, essencialmente narrativo, embora tenha uma mensagem muito forte, acaba por delinear essa mensagem através da globalidade da narrativa e não por frases lapidares.
E precisamente essa mensagem global tem algo de único: ao contrário de muitos outros livros sobre o espírito do Natal, esta obra de Dickens assenta numa fortíssima antítese entre o bem e o mal. Há, em determinadas fases do conto, um ambiente quase tétrico, em que o autor pretende chocar o leitor com os fantasmas do lado negro da alma humana. Na verdade, é mais esse lado negro que Dickens nos quer mostrar. E neste aspeto a obra é profundamente atual. Infelizmente, Scrooge não é apenas o velho avarento;é muito mais que isso; é o paradigma da maldade, do egoísmo interesseiro que ainda hoje domina o nosso mundo. São os Scrooge de hoje em dia que dominam as grandes finanças internacionais; as Troikas são feitas de Scrooges; as guerras e revoluções que vão decapitando inocentes são financiadas pelos Scrooges da atualidade. E muitos dos milhões que diariamente passam fome devem tal martírio a esses mesmos Scrooges...
Mais do que um livro sobre o Espírito do Natal, este é um belo livro sobre o lado negro da alma humana.

Sinopse:
O célebre conto “A Christmas Carol” (“O Natal do Sr. Scrooge”) foi publicado em 1843 e desde então tem sido alvo de sucessivas adaptações ao cinema, televisão e teatro.
Talvez porque este livro seja muito mais do que uma história natalícia. As imagens que geralmente se associam a esta época — o Natal como sinónimo de reunião familiar — foram fixadas e transmitidas de geração para geração por estas páginas que Dickens escreveu em apenas seis semanas.
Ebenezer Scrooge, o protagonista, é um homem velho e só, permanentemente mergulhado nas suas contas e negócios, de quem nem os cães ousam aproximar-se.
“Uma ave de rapina! Duro e afiado como uma pederneira, do qual nenhum aço conseguira fazer saltar uma centelha de generosidade; secreto, reservado e solitário como uma ostra. O frio que havia dentro dele gelava-lhe os traços, enregelava-lhe o nariz pontiagudo, enrugava-lhe as faces, endurecia-lhe o porte, avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os finos lábios e transparecia no rabugento tom da sua voz desagradável.”
Numa noite, porém, Scrooge recebe a visita inesperada do seu antigo sócio Marley. Este avisa-o de que vai ser perseguido por três espíritos: o do Natal passado, o do Natal presente e o do Natal futuro. E, ao longo destas viagens pelo tempo, Scrooge vai-se transformando num homem diferente.
in http://static.publico.pt/docs/cmf/autores/charlesDickens/contosDeNatal.htm

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway


"...a morte de qualquer homem diminui-me, 
porque sou parte do género humano, 
e por isso não me perguntes por quem os sinos dobram; 
eles dobram por ti"

John Donne

Comentário:
Este livro é um marco histórico na literatura mundial do século XX. Publicado em 1940, ele é mais um testemunho dramático e sentido desse período tão negro da história da humanidade. Neste caso, Hemingway transpõe para o livro o reflexo da sua própria experiência pessoal: depois de ter combatido como voluntário na Guerra Civil de Espanha, em que alinhou nas brigadas republicanas, contra os fascistas, este enorme escritor faz refletir no protagonista essa mesma experiência. E é na sua habitual voz poética que o faz. Hemingway foi talvez o homem que no século XX melhor conseguiu descrever o drama das guerras na prosa de ficção. 
A ação desenrola-se nos arredores de Segóvia, onde o americano Robert Jordan chega com a missão de dinamitar uma ponte, juntando-se a uma brigada de revolucionários espanhóis. Todo o enredo se desenrola durante os dois dias que antecedem a explosão da ponte. Tal como é próprio de Hemingway, não é preciso um enredo muito factual para manter o leitor agarrado ao livro ao longo das suas 500 páginas. O poder e o encanto deste livro estão na força tremenda das palavras mas que refletem a força da personalidade do autor; um homem que viveu nos limites e escreveu nos limites. Daí a sua admiração por Espanha e pelo povo espanhol: um povo sem moderação, sem meios-termos; um povo que é amor e sangue; dor e paixão. 
Um dos aspetos mais significativos desta obra é o facto de os personagens praticamente não saberem nada sobre o desenrolar da guerra; mau grado arriscarem a vida em nome de um ideal que mal conhecem (a República), eles são meros peões. No entanto, nas suas vidas, a guerra deixou de ser um meio para se tornar um fim em si. Para eles o importante já não é para que serve a guerra mas sim como cumprir o seu papel na guerra.
Mas a guerra não é feita de ideais; a maioria do povo não lutava pela República ou pelo fascismo; lutava pela necessidade de se “agarrar” a um partido; por necessidade de defesa. O álcool, por exemplo, era uma fonte de coragem maior do que qualquer ideal. Muitas vezes a embriaguez era um motivo mais forte para matar do que qualquer ideal. Por outro lado, a multidão é propícia aos exageros; o entusiasmo coletivo é redobrado e a fúria revolucionária fazia surgir verdadeiros atos de terror.
Mas a força e mesmo a violência da escrita de Hemingway é temperada de forma quase mágica com uma espécie de poesia em prosa que nos surpreende em qualquer das suas obras. Este pano de fundo da guerra civil espanhola é o ideal para que o autor ponha em prática essa mescla, porque o povo espanhol e a sua mentalidade refletem precisamente esta mistura: tal como a escrita de Hemingway, os espanhóis são, ao mesmo tempo, violentos e apaixonados. Só os espanhóis são capazes de amar e matar ao mesmo tempo. Violência e amor caminham de mãos dadas ao longo destas 500 páginas tornando esta leitura verdadeiramente apaixonante.

Sinopse:
O mais célebre romance sobre a Espanha em luta com o franquismo conta a história de Robert Jordan, um jovem americano das Brigadas Internacionais, membro de uma unidade guerrilheira que combate algures numa zona montanhosa. É uma história de coragem e lealdade, de amor e derrota, que acabou por constituir um dos mais belos romances de guerra do século XX. «Se a função de um escritor é revelar a realidade», escreveria o editor Maxwell Perkins em carta dirigida a Hemingway após ter concluído a leitura do seu manuscrito, «nunca ninguém o fez melhor do que você».
in www.fnac.pt

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Novos Contos da Montanha - Miguel Torga


Imagine-se uma casa de pedra, numa aldeia fria, na encosta de uma montanha. Lá dentro, o fogo da lareira aquece os corpos e as almas. Alguém conta uma história. E nós, as crianças, queremos que o serão não acabe, que o fogo não se extinga e que as histórias não terminem. É assim que se lê Miguel Torga; à lareira; ouvindo nas páginas a voz que conta as peripécias por que se passa na serra.
Neste livro,continuação dos Contos da Montanha,  continua o encanto destes montes, umas vezes alegres e felizes, outras vezes frios e tenebrosos como a noite na serra.
De um lado a alegria da comunhão com a natureza; do outro a dor e o sofrimento de quem depende da terra. O pequeno conto "Natal" é um dos mais belos textos que já se escreveram em Portugal sobre esse assunto; e o último conto é uma belíssima síntese entre a beleza do nascimento e o fantasma da morte; ou de como o nascimento também pode ser sofrimento e de como a morte pode ser bela.
No outro extremo, a melancolia e a tristeza;  por vezes a força da terra e dos homens nada pode contra os destinos da natureza, sob a forma de epidemias, catástrofes naturais ou desgraças que os próprios homens criam como monstros.
O tom mais melancólico dos Novos Contos pode também ser um reflexo da época em que foi escrito (ano de 1944), em plena segunda guerra mundial. Mas também a repressão crescente do regime fascista. Timidamente, a repressão policial aparece nas páginas de Torga, mais explicitamente no conto A Confissão. Anunciavam-se tempos negros...
Em vários contos Torga aborda a festa popular como um momento verdadeiramente único e solene na vida da aldeia; a festa é também ela uma síntese de extremos: do sagrado e do profano, com as suas missas, rituais e sacrifícios misturadas com os bailaricos onde sobem ao palco as paixões mais desenfreadas e ainda os ajustes de contas, as brigas e as vinganças. A festa popular é vista como uma espécie de catarse: o sagrado e o profano levados ao extremo:"um homem sente-se capaz de tudo: de matar o semelhante e de comungar. " pg.93

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Contos da Montanha - Miguel Torga

Comentário:
Quando li este livro pela primeira vez tinha menos de 15 anos. Hoje, cerca de 35 anos depois, na memória pouco sobrava do enredo. Mas lembro perfeitamente a forma como estes personagens me atingiram; a pobreza quase extrema de um Portugal rural e desprezado; a honestidade e a honra de quem sabe atribuir todo o valor ao suor, ao sangue e às lágrimas; o sofrimento de quem trabalha apenas para sobreviver; mas também a alegria que vem da terra e do sol; a beleza da serra e dos penedios; a verdura da floresta e tudo isso, ainda assim, a iluminar a alma das gentes.
Às vezes não é fácil compreender Torga. Talvez porque para sentir o que ele descreve é preciso amar Trás os Montes. Aquelas montanhas falam uma linguagem diferente da nossa, homens urbanos do século XXI. Falam o dialeto da terra, nascido das raízes célticas de um povo que brotou da própria terra.
No prefácio à oitava edição deste livro, Torga salienta a época de emigração que se vivia (1968) devido à falta de recursos económicos e de liberdade. E o livro seria assim uma espécie de homenagem à terra que os homens eram forçados a abandonar. Nada de novo, nada que não mantenha um toque de atualidade...
O primeiro conto, Maria Lionça é profundamente simbólico e ajuda-nos a perceber toda a "alma" do livro: o retrato de Maria Lionça, a moça perfeita, é uma espécie de retrato da terra, enquanto elemento positivo, que fornece alimento mas também alegria aos homens. Mais do que emanação da terra, ela é a própria terra, uma espécie de Deusa-Mãe das comunidades neolíticas. Mas a vida encarrega-se de mostrar como o destino das pessoas, tal como o da terra, não é feito de esperança e de alegria: a vida é sofrimento e morte. E, no final, na morte, é de novo a terra que se abre para receber os homens.
Grande parte do sucesso destes contos reside numa espécie de sensibilidade dramática de Torga. Regra geral não há uma intenção moralista; muitas vezes acabam mal como a vida acaba mal. Nada nestes contos faz lembrar a tradição romântica do romance rural; estão muito longe os tempos de Júlio Dinis. Pelo contrário, predomina uma perspectiva marcadamente realista desse mundo rural, em que o romantismo da pureza de alma das gentes serranas é substituído pela crueza de um conceito de honra por vezes impiedoso e por uma visão do mundo algo irracional, que Torga aborda com um espírito crítico discreto, muitas vezes envolto num sentido de humor mordaz. Nada disto impede, no entanto, que a voz da terra se faça sentir com toda a força, fazendo deste livro, ele próprio, uma verdadeira força da natureza.

Sinopse:

Miguel Torga publicou em 1941 o livro de contos Montanha, que imediatamente foi apreendido pela polícia política. Em carta de Abril desse ano, Vitorino Nemésio, solidarizando-se com o amigo, escreveu a propósito dessa apreensão: «Acho a coisa tão estranha e arbitrária que não encontro palavras. De resto, para quê palavras se nelas é que está o crime?» Mais tarde, em 1955, Miguel Torga fez uma segunda edição no Brasil, com o título Contos da Montanha. A edição da Pongetti circulou clandestinamente em Portugal, assim como a 3.ª edição, de 1962. Em 1968, a obra Contos da Montanha foi de novo publicada em Coimbra, em edição do autor.
in wook.pt

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

À Espera no Centeio - J. D. Salinger


Comentário:
Um livro surpreendente pela sua beleza e simplicidade. Esteticamente, é uma perfeita obra de arte; o ritmo narrativo é alucinante, a escrita é límpida e a simplicidade do enredo contribui para que a mensagem passe com clareza e eficácia. O assunto da obra é muito claro: o desajuste e a revolta de um jovem, Holden, um adolescente de 16 anos, perante a sociedade norte-americana do pós guerra. Na verdade, o enredo podia muito bem situar-se nos nossos dias; o que está em jogo é muito mais do que o eterno conflito de gerações; é a crítica ao sistema educativo mas, mais do que isso, à incapacidade que a sociedade revela para enquadrar os seus jovens e oferecer-lhes uma perspetiva de futuro. Os pais de Holden são abastados e aparentemente realizados e bem sucedidos em termos materiais. Mas o relacionamento com os filhos é totalmente frio e distante. O protagonista é um ser inteligente, sensível e com uma bondade natural por vezes emocionante. Mas tudo o que o rodeia é desprovido de sentido e de esperança. A sua revolta é um processo surdo, contido, como se a própria revolta fosse, também ela, desprovida de esperança.
A ligação de Holden aos irmãos, principalmente à irmã Phoebe, é enternecedora. Na verdade, grande  parte da beleza estética deste livro está na bondade natural dos personagens jovens, em contraste com o egoísmo e uma certa perfídia interesseira dos adultos. Isto reflecte uma perspetiva notável de crítica social: quase todos os personagens que vão aparecendo na vida de Holden são ignorantes e mesmo estúpidos.
A ausência de futuro, a morte da esperança configuram a desmistificação do sonho americano, ao ponto de em algumas épocas ter sido uma obra perseguida e mesmo proibida em alguns setores mais conservadores da sociedade.
Em suma, um livro muito interessante, a confirmar a notável capacidade crítica dos grandes escritores norte americanos. Aliás, este livro, publicado em 19651, foi o primeiro responsável pela afirmação de Salinger como um dos nomes maiores de literatura americana do século XX.

Sinopse: (in www.wook.pt)
O livro conta as aventuras de Holden Caulfield, um rapaz de 16 anos, que ao ter de deixar o colégio interno que frequenta, mas receoso de enfrentar a fúria dos pais, decide passar uns dias em Nova Iorque até começarem as férias de Natal e poder voltar para casa.
Confuso, inseguro, incapaz de reconhecer a sua própria sensibilidade e fragilidade, Holden percorre nesses dias um intrincado labirinto de emoções e experiências, encontrando as mais diversas pessoas, como taxistas, freiras e prostitutas, e envolvendo-se em situações para as quais não está preparado.
"À Espera no Centeio" é contado na primeira pessoa. Ao fazer esta opção, Salinger introduz na literatura americana os recursos da oralidade, com a linguagem espontânea, o calão, os palavrões, o bordão das repetições frequentes, o humor inconsciente, procedendo a uma verdadeira revolução literária, que tornou o livro num clássico da literatura americana do pós-guerra.
Publicada pela primeira vez em 1951, À Espera no Centeio é a mais marcante obra de J. D. Salinger, e uma das mais controversas da história da literatura norte-americana após a II Guerra Mundial. Foi constantemente censurada e banida das escolas, livrarias e bibliotecas dos EUA devido ao seu conteúdo profano, à abordagem que faz do sexo e à forma como rejeita alguns dos ideais americanos.