quinta-feira, 30 de junho de 2016

Em Busca do Tempo Perdido - vol 7 - O Tempo Redescoberto - Marcel Proust



Comentário:
Numa espécie de exame de consciência, o narrador reconhece que a sua relação com Albertina fracassou devido ao seu “génio indeciso e impertinente”. Depois de tantas reflexões, de tantos fracassos e desilusões, ele parece chegar ao âmago da questão – entre indecisões e reflexões excessivas, ele deixou que o tempo o ultrapassasse; é o tempo que governa a vida, e não o pensamento. Mas agora, só pelo pensamento, pela memória, ele pode regressar a esse tempo perdido. Inicia-se aqui a grande luta: entre o tempo perdido e o tempo recuperado, reencontrado nos confins do pensamento. A dicotomia passado/presente é então substituída por uma outra: a dicotomia mundo real versus pensamento, como se estivéssemos perante dois mundos paralelos: o real e o pensado
Mas agora é o mundo real que se impõe com toda a sua crueza; é a guerra; a Primeira Guerra Mundial. A Grande Guerra. Nesse contexto não há espaço para o pensamento. A guerra abafa a memória e destrói o tempo ao eternizar o horror. Mas nos salões da aristocracia parisiense, tudo contínua igual, porque “a morte de milhões de desconhecidos traz apenas um arrepio, talvez menos desagradável que o causado pelas correntes de ar” (pág. 73). É a vulgarização da morte. Nos salões e nas discussões políticas isso pouco parece interessar. A alta sociedade parisiense tenta viver acima da guerra, mantendo as suas aparências, vícios e virtudes… mais aqueles que estas, diga-se. O próprio Charlus, germanófilo, tradicionalista, confessa: "perdemo-nos no diletantismo”.
Da mesma forma que Proust retrata as virtudes de grandes aristocratas como a Sra. de Guermantes, também retrata, com a mesma objetividade e crueza, os vícios incríveis de alguns outros nobres, como o quase louco Sr. de Charlus.
Mas este volume distingue-se dos outros, a meu ver, por ser o mais revelador da alma do narrador e, por extensão, do escritor; Marcel viaja constantemente para dentro de si, como se cada experiência vivida necessitasse de uma dimensão paralela, que ocorre interiormente.
Neste reinado do interior cabe um papel especial à arte. A arte é o único meio que permite ao homem sair de si mesmo e comungar com os artistas a múltiplas visões do mundo.
Mas o tempo é inexorável e é basicamente disso que trata este livro. Marcel sente a velhice aproximar-se e encara essa aproximação como uma espécie de derrota pessoal face ao Tempo. Na parte final do livro, à medida que as personagens principais envelhecem, o tom cada vez mais melancólico da linguagem vai sendo acompanhado por uma espécie de decadentismo latente. Sente-se a decadência da aristocracia. Com a derrota dos impérios na Primeira Guerra Mundial o novo mundo, é, definitivamente, da burguesia.
Mas o grande confronto dá-se no interior do narrador. Passado e presente, real e pensado, são elementos em conflito. A síntese há de encontrá-la Marcel na escrita; ele vai, finalmente, escrever o seu livro e nele se fará a fusão do Tempo; aí sim, será o Tempo reencontrado.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Em Busca do Tempo Perdido - vol 6 - A Fugitiva - Marcel Proust



Albertina sai de casa do narrador. Este, que ainda há pouco desejava a separação, fica quase desesperado com a sua ausência e planeia fazê-la voltar a todo o custo. Mais uma vez fica patente a inconstância emocional do narrador
Não é a inteligência que comanda a vida, diz Proust; esta é uma das ideias fundamentais desta grande obra e deste genial escritor. Alimentado pelas ideias de Bergson (segundo os especialistas) Proust dá primazia ao ser pensante mas sem que esse pensamento determine, racionalmente, a vida. O destino acaba por ser determinado por decisões intuitivas mais do que racionais. No caso do narrador desta história, ele parece alimentar uma necessidade contínua de reviver todo o seu passado, como que criando um tempo novo, em que todos os passos são analisados pelo pensamento e assim revividos interiormente (dando aqui sentido ao título geral da obra).
Este primado do pensamento é, no entanto, acompanhado por uma espécie de primazia da vontade – uma vontade egoísta: ele entendia como natural a partida de Albertina mas apenas se e quando determinada por ele.
A natureza complexa e mesmo absurda da alma do narrador – e do ser humano – é bem expressa neste exemplo: ele, agora, quer que ela volte mas não quer, de maneira nenhuma, que ela saiba que ele quer! Ou seja, para ele, Albertina há de voltar sem que ele se humilhe ao ponto de lhe pedir o regresso ou sequer admitir que o deseja.
Subitamente, neste volume, a morte entra em cena e o narrador é apanhado no seu mais profundo egoísmo pensante. É quase inacreditável como, perante a morte dramática e violenta de Albertina, o narrador continue a alimentar a sua obsessão sobre as hipotéticas traições. Seguem-se numerosas páginas em que ele esmiúça o passado da sua amada, alimentando o seu sofrimento agora em duplicado: sofrendo com a sua ausência mas principalmente com a certeza cada vez maior das infidelidades de Albertina. As razões deste procedimento, no entanto, têm mais a ver com um certo masoquismo do que com qualquer maldade ou sadismo. Tudo parece vontade, ou necessidade, de sofrer para que o tempo cumpra o seu destino. No fundo ele apenas quer aplacar a dor do ciúme, mas é atingido pela dor dos factos que o esmagam.
Uma ideia fundamental neste livro – e em toda a obra – é o peso do passado sobre o pensamento e, em consequência, sobre a vida. Prova disso é a sensação que o narrador tem da presença de Albertina após a sua morte. Por outro lado, a presença dela nas páginas do livro e, consequentemente, no espírito do narrador, vai muito para além da sua morte.
Nos capítulos finais, ele vai, finalmente, libertando o seu espírito do drama e regressam os salões da grande aristocracia, onde novas aventuras o esperam…
Uma nota final para afirmar que o título original deste volume - Albertine disparue - é bem mais adequado do que o título português. Às vezes pergunto-me porque é que as editoras têm de assassinar títulos originais...

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Em Busca do Tempo Perdido - vol. 5 - A Prisioneira - Marcel Proust


Comentário:
Neste quinto volume, talvez mais do que em qualquer outro, é notável a linguagem poética do autor e o caráter reflexivo da narrativa. Por isso, a obra exige uma leitura pausada, refletida, vagarosa, como se o mais importante fosse saborear a escrita.
Para Proust parece claro que o homem é aquilo que pensa. São os seus pensamentos que dão vida ao narrador e são eles que, em muitas fases, constituem a própria vida. Este primado do pensamento leva, muitas vezes, à inação, à derrota antecipada do ser e do agir, perante o mundo concreto. Outras vezes, este reinado do pensamento conduz a conflitos interiores profundos e graves: quando ele está com Albertina, quando a sua relação se concretiza no contacto físico, o narrador sente-se feliz e realizado (várias vezes compara os beijos de Albertina aos beijos de sua mãe, na infância) mas logo que fica entregue aos seus pensamentos, ele deixa-se conduzir pela tirania impiedosa do ciúme. Aí ele revive momentos dolorosos do passado, como quando soube do relacionamento homossexual de Albertina e logo inventa traições. Escreve Proust: “O ciúme nada mais é muitas vezes que uma inquieta necessidade de tirania”. Se é verdade que Proust considera Albertina prisioneira do narrador por via do seu ciúme, não é menos verdade que o próprio narrador é prisioneiro dos seus pensamentos.
O primado do pensamento conduz à inação. E isto nota-se na vida do narrador, também em termos profissionais. Embora inquieto e mesmo infeliz na maior parte das situações, o narrador tem uma profissão: ele considera-se escritor. No entanto, nem uma página ele escreve! Ao longo destes cinco volumes que já li não há referencia a nenhuma página escrita, apenas aos lamentos pela constante procrastinação.
Um dos muitos motivos de reflexão que este livro nos deixa, e que aponto aqui apenas a título de exemplo, é o tema da mentira nas relações amorosas. Albertina, Charlus, Morel, todos mentem. E a mentira alimenta o ciúme. E assim as relações amorosas se transformam em campos de batalha. O narrador (que neste volume aparece por duas vezes nomeado como Marcel) conduz essa guerra para o interior de si mesmo e com ela se martiriza – ele tanto diviniza a sua amada como a odeia pelo simples facto de ter contactos com as amigas.
Entretanto continuam as aventuras amorosas do senhor de Charlus. Agora é Morel, o jovem músico, o alvo da sua paixão. Significativo é o facto de o autor já falar do amor de Charlus com toda a naturalidade, embora noutras passagens o denomine de vício. No entanto, a paixão de Charlus e Morel desembocará numa curiosa tempestade, desencadeada pelas intrigas palacianas desta aristocracia que Proust mostra admirar mas que não deixa de viver mergulhada na maledicência, nas aparências, na frivolidade…
No entanto, na voz das personagens, a posição face à homossexualidade continua a ser muito negativa, o que parece contradizer a condição homossexual de Proust. Não sei qual a posição dos especialistas mas talvez Proust apenas tenha pretendido exprimir a voz da opinião pública da época que considerava a homossexualidade como uma doença ou um vício.
Como sempre, a arte está por todo o lado neste livro. Para Proust, a arte é um prolongamento da vida. É por isso que a literatura, a música e a pintura estão sempre presentes na vida do narrador. A pintura de Elstir e a música de Vinteuil dão-lhe a paz que o amor nem sempre proporciona.
Finalmente, uma referência ao último capítulo que é um texto magnífico sobre o ciúme e sobre a forma como este pode mortificar quem o sente e quem dele é vítima.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Em Busca do Tempo Perdido - vol. 4 - Sodoma e Gomorra - Marcel Proust



O título deste quarto volume – Sodoma e Gomorra – exprime com violência o assunto que atormenta o autor/narrador: no papel de narrador e personagem principal, vemos um Proust que sofre o estigma da homossexualidade, não só pela pressão da sociedade como pela própria consciência, de onde provém o maior dos castigos. Este título remete não só para o pecado como também para o castigo; não o castigo legal mas o da consciência; não é por acaso que o narrador se refere à homossexualidade como “o vício” e aos homossexuais como “os invertidos”. Obviamente, isto não exprime a opinião de Proust sobre o assunto mas sim a opinião generalizada na sociedade em que está inserido. Aliás, uma das caraterísticas desta narrativa é que o narrador nunca emite juízos de valor. Mas os personagens homossexuais, como o barão de Charlus, martirizam-se pela sua condição de “homem-mulher”. No entanto, eles são muitos e por vezes escondem-se no meio da sociedade. Esta é uma das mensagens que Proust quer transmitir: os homossexuais não são casos isolados e excecionais.
O Sr. de Charlus é o principal personagem homossexual e é notável a forma como Proust constrói e carateriza este fortíssimo personagem; ele revela uma dupla personalidade que se justifica pela sua dupla condição: o homem social mulherengo, socialmente bom sucedido como bon-vivant e por outro lado o “homem mulher” escondido, que só se revela aos seus pares. Esta dualidade justifica também o seu caráter dúplice: simpático e altruísta mas por vezes terrivelmente irascível e profundamente preconceituoso, por exemplo em relação aos judeus.
A ascendência judaica de Proust explica, talvez, a forte presença do tema nestes romances; o caso Dreyfus, em voga na época, bem como o consequente antissemitismo continuam na ordem do dia neste volume. A opinião sobre o assunto na alta aristocracia depende menos da eventual culpabilidade de Dreyfus do que do preconceito – ser a favor de Dreyfus é imoral; é uma tomada de posição contra a sociedade. Aqui, tal como na questão dos homossexuais, em vez de emitir uma opinião, o autor dá voz aos que dele discordam (anti homossexuais e antissemitas) deixando que eles próprios revelem a falibilidade dos seus argumentos.
No seu papel de heterossexual o narrador faz renascer o seu fascínio por Albertina. Os seus delírios, os seus dilemas interiores, as suas hesitações, a sua insegurança quase crónica, são elementos que fornecem à prosa de Proust momentos sublimes, principalmente nos últimos capítulos do livro; é genial, notável, brilhante, a forma como Proust nos descreve a mente e os sentimentos inseguros do narrador, de tal forma que para o leitor se torna quase natural que o narrador diga que é imprescindível cortar relações com Albertina para meia dúzia de páginas depois, no final do romance, concluir que é imprescindível casar-se com ela.
Nos momentos que passa sozinho, as longas reflexões do narrador debruçam-se muitas vezes sobre o tema do devir e do passado, como que justificando o título da obra; de como o tempo condiciona a vida; de como nos deixamos encaminhar por situações que relativizam o tempo – porque o “aceleram” quando o prazer impera e porque o “atrasam” quando a sorte não sorri ao nosso destino. Um outro aspeto curioso neste quarto volume é a introdução na narrativa de um certo sentido de humor, principalmente nas descrições da vida social dos salões, onde as famílias rivalizam entre si, criando situações e diálogos bastante caricatos.
Enfim, este quarto volume é até agora aquele que mais me deleitou pela objetividade da escrita acompanhada por uma notável profundidade dos assuntos tratados, convidando sempre à reflexão.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Em Busca do Tempo Perdido - vol. 3 - O caminho de Guermantes - Marcel Proust


Comentário:
Este volume apresenta-nos já um narrador totalmente adulto; as paixões juvenis, por Gilberta e por Albertina parece terem ficado para trás. Há neste livro uma visita de Albertina que nos revela um amor sem compromisso mas também sem laços fortes – o encontro limita-se a beijos na face. 
A amizade por Saint-Loup, por seu lado, fortalece-se, mas o narrador não esconde o interesse que ela envolve; na verdade, ele utiliza essa amizade para chegar perto da senhora de Guermantes, que é uma espécie de ídolo. A partir daí, quase todo o volume é dedicado à descrição da vida social na alta aristocracia. Se nos volumes anteriores ainda era visível alguma crítica social, aqui fica bem clara a admiração entusiasmada do narrador por essa alta sociedade, essencialmente nas pessoas da Sra. De Guermantes e na marquesa de Villeparisis. 
Antes de “mergulhar” nesta alta sociedade, Proust descreve-nos a relação de Saint-Loup com a sua apaixonada, Zezette. Esta, tal como Odette no primeiro volume, é apresentada como a mulher pérfida, malévola, capaz de torturar psicologicamente o apaixonado e de aproveitar as suas fraquezas em proveito próprio.
Depois o autor presenteia-nos com centenas de páginas dedicadas à alta aristocracia, com um enfoque muito acentuado no salão da Sra. de Guermantes. Se, por um lado, podemos queixar-nos de uma prosa demasiado enfática que se torna mesmo fastidiosa nessas descrições, por outro lado, ficamos necessariamente deleitados com a imensa capacidade descritiva do autor que não precisa de um enredo muito emocionante para manter a atenção do leitor.
A expressão que ainda hoje se usa “conversa de salão” para designar um diálogo sem grande conteúdo tem provavelmente origem nestes salões da velha nobreza onde, na ausência de meios de comunicação social, se conversava ao serão. O salão da Sra. de Guermantes é-nos apresentado como um local onde reina a inteligência, ao contrário de outros salões onde a maledicência tinha lugar de destaque. A duquesa era uma mulher inteligente e culta; possuía até uma espécie de inteligência superior a que chamavam “espírito”. A própria personagem principal, que é também o narrador, como que se ofusca perante a preponderância da duquesa na narrativa.
Ao longo de todo o livro o caso Dreyfus toma um lugar importante; trata-se de um processo judicial onde um judeu era acusado de traição à pátria e que se revelou mais tarde uma fraude, uma vez que a acusação se baseou em documentos falsos. Mas o caso despertou uma onda de xenofobia que dividiu a França e é nítida neste livro a tomada de partido da aristocracia contra Dreyfus, numa clara manifestação de anti-semitismo; mesmo pessoas inteligentes como a duquesa de Guermantes aceitavam a inocência de Dreyfus mas não deixavam de, socialmente, manifestar o seu anti-semitismo.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Em Busca do Tempo Perdido vol. 2 - À sombra das raparigas em flor - Marcel Proust


Comentário:
Neste segundo volume, Proust dá-nos a conhecer a juventude do narrador, numa fase em que este tenta esquecer a sua primeira grande paixão, um amor de infância, Gilberta. No entanto, a sua atitude perante as raparigas com que se depara é sempre algo amorfa, de contemplação, atitude essa que aliada ao seu caráter reflexivo não lhe favorece as artes da sedução. Pelo contrário, o seu caráter tímido, moldado talvez por uma educação demasiado rígida em termos morais leva-o a encarar as raparigas como se fossem obras de arte e não como mulheres a cortejar. Quando, na última fase do livro, consegue finalmente com que Albertina o receba no grupo das raparigas, é ela que lhe dirige a palavra e será sempre ela a conduzir o jogo de sedução.
Também neste segundo livro o tema central é o jogo social; as relações entre burguesia e aristocracia, um jogo que marcou esta época de encruzilhada que é a transição para o século XX. Swan é praticamente proscrito da alta sociedade devido ao seu amor por Odette. O seu lugar é tomado, junto dos pais do jovem narrador, pelo poderoso mas pouco simpático Marquês de Narpoir, um diplomata famoso. A altivez de Narpoir chega a humilhar o narrador (note-se o simbolismo deste pormenor, que conduz a um certo esmagamento do autoconceito do autor), considerando-o incapaz de vir a ser escritor.
Figura central desta primeira parte do livro é Odette; ela desafia o moralismo de uma alta sociedade muito influenciada (também) pelo moralismo burguês herdado do século anterior, aliado a uma espécie de novo clima aristocrático fomentado por países de regimes tradicionais como a Alemanha e a Áustria, muito poderosos neste início de século. 
Swan, o herói do narrador no primeiro volume mostra-se inicialmente contrário ao amor do narrador por Gilberta, mas essa oposição vai desaparecendo à medida que emerge o mais inopinado obstáculo: ele próprio, o narrador. É incrível a capacidade que qualquer ser humano tem para “inventar” obstáculos e “tolher” o seu próprio comportamento. O retrato que Proust no dá de si próprio (não esquecer que o jovem narrador é um alter-ego do autor) é o de um jovem extremamente passivo, mergulhado na sua melancolia, mau grado a crença no seu amor por Gilberta.
Nesta primeira parte do livro o narrador está mergulhado no mundo da aristocracia parisiense, pelo qual parece sentir um misto de admiração deslumbrada e, no plano racional, um sentido crítico em relação aos costumes. Essa admiração passa em grande parte pela veneração que cada vez mais sente por Odette. No entanto, esta Odette é bem diferente da que encontramos no primeiro livro: aí ela é a mulher leviana que “vitimou” Swann, tornando-se este seu verdadeiro escravo. Agora, ela é a mulher autónoma e livre que desafia a própria sociedade nobre. Mas aquele sentimento contraditório que acima referi é muito bem espelhado na figura do tio Charlus, um personagem fortíssimo.
A arte continua a ser uma forma de expressão fascinante para o jovem narrador, nomeadamente a pintura e a arquitetura. O convívio com o pintor Elstir, na segunda metade do livro, vem reforçar esta paixão. A arte não é apenas uma expressão de beleza; é também uma forma de linguagem que desperta o sonho e a imaginação, acabando por se sobrepor a ela, da mesma forma que o pensamento se sobrepõe ao real e às coisas comuns do quotidiano.
No final do livro é com surpresa que encontramos um narrador desinibido, feliz entre as raparigas e apaixonado por Albertina. Mas a força da moralidade e do pudor eram de tal ordem naquele contexto social que mesmo tendo tido acesso ao quarto de hotel de Albertina, o jovem narrador nem um beijo no rosto conseguiu. Mesmo assim ficou extasiado com a sublime visão… do pescoço de Albertina!

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Em Busca do Tempo Perdido, vol. I - No caminho de Swann - Marcel Proust


Comentário:
Este é o primeiro dos sete livros que compõem Em Busca do Tempo Perdido, uma das obras mais marcantes de toda a história da literatura mundial.
Antes de mais quero desenganar os potenciais leitores dizendo que, de facto, é uma leitura exigente. Difícil, mesmo. Esta dificuldade tem também a ver com os frequentes saltos temporais que exigem uma atenção especial por parte de quem lê. Para compreender corretamente o que Proust diz e quer dizer é necessário ler, por vezes reler e refletir. A linguagem em estilo de prosa poética aprofunda essa dificuldade.
Mas são as montanhas mais altas que fornecem as mais belas paisagens; ler este livro é um desafio que compensa pela beleza do texto mas também pela própria narrativa. Mas essa poesia também potencia o prazer de ler. Mesmo que lendo por ler, sem preocupações com a narrativa.
Já neste primeiro volume é nítida a influência de Bergson, o criador do intuicionismo; na verdade há uma espécie de primazia do pensamento; o homem é aquilo que pensa. A própria vida social (principal tema deste volume) é determinada pela forma como o sujeito apreende a personalidade dos seus pares: “A nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio”, diz Proust.
Uma espécie de ponto comum com um dos seus maiores ídolos, Baudelaire, Proust dá ênfase especial à crítica da sociedade. O formalismo, a atitude algo hipócrita das personagens, o seu caráter frívolo, são alguns dos aspetos apontados à sociedade parisiense do início do século XX. A própria educação do jovem narrador (alter-ego do autor) é baseada nesse formalismo aristocrático, com uma acentuada severidade dos costumes. No entanto, essa educação não deixa de distinguir o essencial do fútil; há aqui como que uma contradição – cultiva-se a aparência mas há uma consciência da necessidade da busca do essencial. Dessa forma, o jovem vai mesmo mais além do que a educação lhe forneceu. Ele cultiva a reflexão baseando-se em grande parte na função pedagógica da arte e do romance.
O predomínio da mente está patente, por exemplo, na forma como a arte é encarada; uma catedral gótica, por exemplo, é descrita pelas sensações que causa na mente de quem a aprecia, mais do que pelas suas caraterísticas arquitetónicas. Mesmo nas descrições naturalistas – paisagens, a floresta, o rio – o acento tónico é colocado nas sensações e impressões que suscitam.
O título deste volume remete para uma personagem fortíssima no livro que é um cavalheiro aristocrata de nome Swann profundamente admirada pelo jovem narrador (nunca nomeado, ele é uma criança cuja caraterização pode ter sido baseada no próprio Proust). Swann vivia perto da família do jovem e um dos caminhos de acesso à propriedade dessa família passava pela casa de Swann, daí “O caminho de Swann”. Mas este título tem um duplo significado: o jovem admira Swann e tenta seguir o seu caminho.
Swann é um cavalheiro muito bem colocado na alta sociedade, privando mesmo com príncipes. No entanto, apaixona-se por uma mulher, Odette. E Proust utiliza essa relação para deixar clara a sua crítica ao amor romântico e ao casamento: Swnn perde a sua personalidade nesse amor; pior que isso, deixa de ser bem visto na sociedade porque a “fama” de Odette era má. Tudo isto talvez tenha algo a ver com a condição homossexual de Proust, que via a heterossexualidade de uma forma muito crítica. Mesmo o jovem narrador, admirador de Swann acaba por seguir as suas pisadas e deixar-se levar pelo amor, curiosamente pela filha de Swann. A condição feminina não é muito valorizada pelo autor; o jovem tem um amor sublime pela mãe, sonhando todos os dias com o momento em que ela o beijará à noite, mas, pelo contrário, Odette é vista como algo pérfida e a maioria das personagens femininas secundárias são pouco valorizadas, dando demasiada atenção às aparências. Proust deixa bem claro que a verdadeira beleza não está no feminino mas na arte e na natureza.
Em conclusão, estamos perante uma obra profundamente reflexiva, filosófica nos temas abordados e poética na linguagem. No entanto, a narrativa de romance dá-lhe alguma leveza e convida à leitura. Por outro lado há que ter em conta o marco imenso que a obra constitui na História. Mas os próximos livros certamente continuarão a testemunhar os motivos desta importância.
Magnífica tradução de Mário Quintana nesta velhinha edição da mítica coleção Dois Mundos.

Sinopse (in Folha de S. Paulo - http://biblioteca.folha.com.br):
"Cessara de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria?"
Com estas duas frases, o narrador de Em Busca do Tempo Perdido registra o momento de epifania que o fará reconstituir toda sua vida, desde a remota infância até a maturidade.
A cena é aquela em que a personagem mergulha um pedaço de bolo --a famosa madeleine-- numa xícara de chá e, a partir daí, se deixa transportar pela memória. Está no começo de No Caminho de Swann, volume inicial do mais importante ciclo romanesco do século 20.
Lançado por Marcel Proust em 1913, depois de ter sido recusado pelas principais editoras francesas, este livro se concentra no período de formação do protagonista: o amor intenso pela mãe e a pouca simpatia pelo pai; o ambiente familiar dominado por mulheres; os sentimentos precoces de ódio e de culpa; as temporadas na provinciana Combray, com suas histórias locais; os primeiros contatos com pessoas que iriam viver, envelhecer e desaparecer sob os olhos do narrador.
Entre as muitas figuras que povoam o mundo de Proust, neste volume se destacam o rico sr. Charles Swann e a jovem e sedutora Odette de Crécy (casal interpretado no cinema por Jeremy Irons e Ornella Muti, numa adaptação do diretor alemão Volker Schlöndorff). O capítulo "Um Amor de Swann" é quase um romance à parte: um magistral estudo sobre o ciúme, talvez o melhor que a literatura já produziu.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

A Mão e a Luva - Machado de Assis


Comentário:
Os “ismos” são sempre reducionistas e às vezes, como neste caso, são mentirosos. Machado de Assis é muitas vezes encaixado na escola romântica, numa primeira fase da carreira literária e, depois, numa fase mais “madura”, no realismo. Pois a mim, leitor pouco conhecedor de teorias literárias, parece-me que Machado de Assis nunca foi nem romântico nem realista. Machado de Assis é um daqueles génios que não encaixa em escolas; o seu estilo é, pura e simplesmente, Machado de Assis. E então o que tem ele de peculiar, especificamente nesta obra? Acima de tudo, interessa-lhe a vida interior das personagens; é por isso que os seus livros são considerados percursores do romance psicológico.
No caso deste livro, a crítica literária teima em encaixá-lo na escola romântica. Trata-se, de facto de um enredo que, vistas as coisas “ao longe” pode assim parecer; está lá o triângulo amoroso (ou o quadrado?), está lá o sentimento, a emoção em vez da razão. Mas não estão lá o final feliz ou o bucolismo, enfim, não é uma obra tipicamente romântica. Uma passagem que testemunha precisamente este afastamento em relação ao romantismo: “o homem, ser complexo, vive não só do que ama, mas também (força é dizê-lo) do que come”

Trata-se do segundo livro do autor, publicado em 1874 e que revela, por isso, uma certa ingenuidade, principalmente no que respeita ao enredo, com os inevitáveis “chavões” românticos. Mesmo assim, o futuro romance psicológico revela aqui já algumas raízes, ao nível da caraterização das personagens; Luís é a voz da razão, da sobriedade e de um certo calculismo, enquanto Estevão é emoção acima de tudo, é impulso, é a voz do coração. Jorge vem completar o quadro fornecendo uma personagem frívola, exterior, marcada pela etiqueta e pela aparência. Guiomar é muito mais que uma personagem de história romântica: é uma mulher culta, com uma personalidade fortíssima, bem longe da ingenuidade romântica das personagens de Júlio Dinis, por exemplo.
O estilo de Machado de Assis neste primeira fase da sua carreira é muito objetivo, límpido, assumindo uma espécie de diálogo com o leitor
Enfim, estamos perante um livro simples e agradável, de leitura rápida; um livro despretensioso mas onde estão já as marcas do génio do grande escritor brasileiro.

terça-feira, 10 de maio de 2016

O Museu da Inocência - Orhan Pamuk



Em termos formais estamos perante um romance perfeito; a estrutura da obra é muito bem conseguida, dividida em cerca de oitenta pequenos capítulos e com uma coesão interna em termos de enredo que fazem deste livro um romance agradável de ler, mau grado o seu grande tamanho.
O pano de fundo é fornecido pela Turquia do último quartel do século XX (a maior parte do enredo passa-se em 1975). Este país, encruzilhada entre a Europa e a Ásia vivia uma época de grandes conflitos internos. Para lá dos eternos e conhecidos conflitos religiosos, vivia-se uma fase de quase guerra civil, com confrontos frequentes entre extremistas de direita e de esquerda. Perante isto, o governo respondia com um autêntico estado de sítio, com recolher obrigatório e um poder discricionário por parte das autoridades. 
É sobre este pano de fundo que decorre uma história de amor marcada pelo insucesso. Kemal, o herói do livro, é o homem ofuscado pelo amor por Füsun, doze anos mais jovem e, pior que tudo, proveniente de um grupo social inferior. Estamos assim perante o tradicional confronto com a sociedade que nos seus extratos mais altos aceita mal esta união mas, muito mais que isso, estamos perante uma união frustrada pelo destino; esta frustração, aliada a um amor alienado, conduzem Kemal a esse projeto que ele vai pondo em prática de colecionar tudo o que direta ou indiretamente dizia respeito a Füsun, colecionando milhares de objetos que constituirão o seu Museu da Inocência.
Por trás deste enredo está uma magnífica reflexão sobre o destino humano que por vezes construímos sobre sonhos que se revelam quimeras.
Despersonalização e Intemporalidade são dois palavrões que podem servir de síntese à mensagem deste livro. Kemal submete-se a um sentimento que, paulatinamente, vai tomando posse de si, da totalidade do seu ser. Nada mais faz sentido fora daquilo que se relacione com Füsun. E Kemal escraviza-se ao sentimento. Despersonaliza-se.
Por outro lado, ao contar a história na fase final da sua vida, é nítido o imenso peso do passado na vida de Kemal; esse tempo passado é outra forma de escravatura: a tirania do tempo a contribuir para a anulação do Eu. E Kemal procura essa intemporalidade; procura como que uma eternização do passado, uma negação da mudança, uma paragem no tempo; uma intemporalidade. O recurso ao cinema é outra metáfora usada pelo autor para reforçar essa ideia de intemporalidade: os filmes são uma forma de manter o passado presente, da mesma forma que o museu; ao optar pelo colecionismo de tudo quanto se relacionasse com Füsun, Kemal não procura mais que essa intemporalidade, esse perpetuar da sua própria despersonalização. Na página 509 desta edição Presença, o autor usa uma expressão que de uma forma muito bela sintetiza o estado de espírito de Kemal: PRESO NUM SONHO.


Sinopse: (in wook.pt)
O Museu da Inocência é uma história de amor, passada em Istambul, entre a Primavera de 1975 e os últimos anos do século XX, e conta a história da paixão obsessiva do herdeiro de uma família rica, Kemal, por uma prima afastada, Füsun, de um meio social menos favorecido. Mas Kemal está noivo da filha de uma das famílias da elite istambulense. Entretanto, Kemal começa a coleccionar objectos pessoais e outros que lhe fazem lembrar a sua amada. Esses objectos são simultaneamente um fetiche e uma crónica da sua felicidade e das mágoas, um mapa de sinais de todos os sítios onde estiveram juntos. Com o tempo, a compulsão do coleccionador acabará por dar origem a verdadeiro museu, que também permite explorar uma Istambul meio ocidental e meio tradicional, a sua emergente modernidade e a sua vastíssima história e cultura.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Margarita e o Mestre - Mikhail Bulgakov


Comentário:
Empolgante e genial são os adjetivos que me ocorrem para caraterizar esta obra-prima de Bulgakov. Esta é a grande literatura russa, na senda dos grandes mestres do século XIX, Lev Tolstoi e Fiodor Dostoievski.
O enredo do livro passa-se nos anos vinte, já em plena ditadura de Estaline. Descreve-se a vinda de Satanás à terra, com um séquito muito peculiar. Nitidamente para nós, o diabo, Woland, é uma referência corajosa mas bem disfarçada a Estaline. Por esta razão o livro foi proibido e só viria a ser publicado, ainda assim numa versão mutilada, nos anos sessenta. 
Como se vê, todo o livro é uma autêntica metáfora da situação que se vivia na União Soviética. Muitas vezes, os membros do séquito assumem um papel mais ativo que Woland, como acontece com qualquer regime ditatorial, em que o ditador se protege por trás de meia dúzia de “testas de ferro”. De resto, todos os componentes do regime de Estaline estão representados no livro: o hospital psiquiátrico para onde são enviados as vítimas de Woland é a metáfora dos locais para onde eram enviados os perseguidos do regime, tanto campos de trabalho como instituições psiquiátricas; os opositores ao regime são perseguidos da mesma forma que no livro são severamente castigados os que se opõem a Woland. 
Um dos aspetos fundamentais do livro é aquilo que se passa com o Mestre e com a sua amante, Margarita. Estes personagens, embora constituam o título da obra, só aparecem a partir do meio do livro, sensivelmente. O que os carateriza é o pacto com o Diabo; só assim o Mestre consegue publicar a sua obra e o seu amor por Margarita é permitido; é evidente a representação, aqui, dos artistas, escritores ou outras personalidades que só conseguiram “sobreviver” pactuando com Estaline e o seu regime.
Mas o livro vai mais longe do que uma metáfora do regime estalinista; é uma intensa reflexão sobre a luta entre o Bem e o Mal. Até que ponto o ser humano consegue ser feliz vivendo honestamente e procurando a virtude? Até que ponto vale a pena lutar contra demónios se a felicidade pode passar com uma simples convivência com o mal, aceitando-o como uma realidade incontornável? Para Bulgakov talvez estas questões se resumissem ao dilema que certamente sentiu sempre presente ao longo da sua vida: até que ponto vale a pena ser resistente e lutar por um ideal?
Por outro lado, até que ponto o mundo real não é uma construção onírica? Até que ponto a realidade concreta existe tal como nós a vemos, não sendo profundamente deturpada pela nossa mente, pelo menos em situações-limite?
Em termos de estilo, a escrita de Bulgakov é profundamente realista, o que torna a leitura bastante fluida e agradável; o enredo é por vezes empolgante, com aquele suspense que nos faz devorar as páginas do livro. A linguagem cuidada e precisa é acompanhada por um sentido de humor notável, muitas vezes verdadeiro humor negro, reforçando o prazer de ler. 
Sem dúvida, estamos perante um clássico da grande literatura russa, que merece ser lido por todos quantos apreciam a melhor literatura.

Sinopse (in wook.pt)
Margarita e o Mestre publicado pela primeira vez na revista Moskva, mais de vinte anos após a morte do autor — a primeira parte em Novembro de 1966 e a segunda em Janeiro do ano seguinte. Mikhail Bulgákov trabalhara nesta sua obra durante mais de dez anos, tendo escrito diferentes versões. A última foi ditada à sua companheira Elena Bulgákova, quando o autor se encontrava já muito doente, em Março de 1940. O romance é composto por duas narrativas ligadas entre si — uma passa-se na Moscovo dos anos 30 e a outra na Jerusalém antiga. As personagens são estranhas, complexas, ambíguas e algumas delas sobrenaturais, como Woland. As principais são o Mestre e a sua amante, Margarita. Como afirma Samuel Thomas, «o romance pulsa de maliciosa energia e invenção. Por vezes uma dura sátira da vida soviética, uma alegoria religiosa da dimensão do Fausto, de Goethe, e uma indomável fantasia burlesca, é uma obra de riso e terror, de liberdade e servidão — um romance que explode as verdades oficiais com a força de um carnaval descontrolado». A primeira edição desta tradução foi publicada em 1991, estando há muito esgotada. Esta nova edição, integralmente revista pelo tradutor, António Pescada, inclui as alterações que constam nas recentemente publicadas Obras Completas de Mikhail Bulgákov.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A Ilha das Vozes - Robert Louis Stevenson



Comentário:
Robert Louis Stevenson foi, antes de ser escritor, um grande aventureiro. Viveu muitos anos nas ilhas do Pacífico, ao que consta por motivos de saúde. O certo é que na escrita de Stevenson se nota um verdadeiro encantamento pelas ilhas e pelos seus mistérios. O seu livro maior, que qualquer amante dos livros conhece, é A Ilha do Tesouro, que fez dele um dos escritores mais famosos de sempre ao nível da literatura de aventuras e mistério.
Stevenson viveu no século XIX, tendo falecido em 1894, pelo que se pode incluir entre os grandes pioneiros da grande literatura europeia de ficção. 
Esta velhinha edição Cotovia (1988) inclui três contos, tendo como denominador comum um enredo que se desenvolve em ilhas fantásticas. O primeiro conto dá título à obra, A Ilha das Vozes, o segundo, que é o mais longo, intitula-se A Praia de Falesá e o último dá pelo título de O Diabrete da Garrafa. O primeiro conto é sem dúvida o mais estruturado, mais bem conseguido pela imaginação, pela criatividade e pelo inesperado das situações. Digamos que este conto está a meio caminho entre a literatura de aventuras e a ficção de terror. Situações tenebrosas, episódios destinados a assustar os leitores mais incautos mas, acima de tudo, a mais pura prosa de aventuras. 
O segundo conto é um longo exercício de criatividade cheio de aventura e suspense. O que mais nos surpreende neste conto é a criatividade imensa do autor; ficamos a perguntar a nós próprios onde é que Stevenson foi buscar tantas e tão estranhas ideias.
O terceiro conto é dos mais divertidos que li até hoje. Trata-se da estória incrível de uma garrafa com um génio dentro, um diabrete, que podia fazer a fortuna e a felicidade de quem possuísse a dita garrafa mas, ao mesmo tempo, obrigava o proprietário a vendê-la; se não encontrasse comprador as consequências podiam ser terríveis; como se imagina isto levava a situações verdadeiramente rocambolescas.
Em suma, ler Stevenson é uma verdadeira diversão, capaz de nos levar de volta à juventude.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Gato Preto - Edgar Allan Poe


Comentário:
Este é um dos contos mais famosos de Poe e, por conseguinte, um dos contos mais importantes da história da literatura de ficção. É preciso notar que Poe viveu na primeira metade do século XIX. Foi um pioneiro em vários aspetos. Morreu com menos de 40 anos, vítima de alcoolismo crónico, e por isso a sua obra podia ter sido ainda mais marcante. Tudo na obra de Poe é criação pura. Foi ele quem, criou o género de terror e obras que estão na base da atualmente tão apreciada literatura de fantasia. Trata-se portanto de um escritor a quem a literatura muito deve e não podemos nunca deixar de lembrar esse seu papel pioneiro.
Este O Gato Preto é, desde logo, uma evocação da tão injusta fama que o animal dessa cor tem na mentalidade europeia. Neste conto reflete-se todo o caráter que hoje se diria gótico da sua obra. Com muita emoção, muita incerteza em relação ao final, este conto exige ser lido de um fôlego; o suspense não nos deixa abandonar o livro sem chegar ao final. O enredo é um marco profundo no estilo romântico de que Poe é um dos criadores; tudo é enigmático, fantasioso, tenebroso mesmo.
Em parte, este conto revela alguns traços autobiográficos: o protagonista é claramente marcado pelo alcoolismo, que lhe provoca atitudes absolutamente revoltantes, horrendas de violência. Na verdade, o próprio Poe era vítima desse terrível vício, o que lhe provocava crises de autocomiseração e de arrependimento que transformaram a sua vida num autêntico conto de terror.

Em suma, este como qualquer conto de Poe é de leitura obrigatória para quem queira ter uma visão clara da história da literatura de ficção. Mas é também um magnífico passatempo pela forma como “agarra” o leitor da primeira à última página.

Animação com resenha do conto, aqui.

domingo, 24 de abril de 2016

As Regras da Casa da Sidra - John Irving


Comentário:
Um orfanato e uma fábrica de sidra, numa grande plantação de macieiras, no Maine. Estes são os cenários do livro, os cenários onde viveu Homer Wells, o herói do enredo. No orfanato primeiro e depois na fábrica de sidra, Homer nunca deixou de ser herói (Homer=Homero, o autor da Odisseia e da Ilíada, poemas épicos). 
Homer foi sempre um resistente; um herói na arte de saber viver com os problemas; de saber esperar, como ele tantas vezes dizia. No orfanato, o seu mentor, o formidável personagem Wilbur Larch ensinara-o a fazer partos e abortos; em causa estava a liberdade e o direito à vida. O aborto é aqui encarado como um mal necessário para que muitas mulheres pudessem ter uma vida digna.
No orfanato como na casa da sidra é notável a bondade da generalidade das personagens, a fazer lembrar Charles Dickens, tantas vezes referido neste livro. Irving traduz assim uma notável crença na bondade natural do ser humano, mau grado toda a maldade que conduz as mulheres à desgraça de ter filhos indesejados e de procurar abortos praticados por autênticos carniceiros; é por isso que Larch defende o aborto, praticado em condições dignas, como ele o faz. 
O aspeto mais curioso do livro é o facto de no mesmo local se praticar o aborto e o parto que dá origem aos miúdos do orfanato; tudo é serviço de Deus, afirmou sempre o Dr. Larch. O orfanato é um mundo nostálgico, onde reina a solidão. A mesma solidão de que sofrem as mulheres que lá abortam. O orfanato está inserido num meio natural, junto da floresta. Nota-se um certo paralelismo entre o mundo natural e uma espécie de “sociedade natural” que se vive no orfanato, onde não há hierarquias.
E toda a problemática do aborto ou dos partos “clandestinos” deriva de regras a cumprir ou a quebrar; no amago do livro está essa realidade – todo o destino é determinado por regras e toda a vida é uma luta constante entre liberdade e cumprimento de regras. Cometer um aborto pode ser crime; e furar um preservativo, como faz um personagem do livro não é crime porquê? As regras e respetivas punições colidem sempre com a procura da liberdade que as personagens encetam. No entanto, liberdade acaba sempre por ser palavra vã: todos são escravos de algo ou de alguém e têm de seguir as respetivas regras. Se as quebrarem terão sempre de se redimir pagando o respetivo “preço”. A regra mais importante é “que não se magoem uns aos outros”. Assim devia ser na sociedade humana.
Enfim, estamos perante um livro cheio de conteúdo, com ideias muito bem ilustradas pela ficção e com um estilo que agrada ao leitor pela fluência, pela objetividade e por um ritmo narrativo notável; a estória principal é muitas vezes acompanhada por pequenos episódios muito bem construídos e inseridos na estória global, o que dá origem a uma narrativa fluente e cheia de interesse. 


Sinopse:
A odisseia de Homer Wells começa no meio dos pomares de macieiras do Maine rural. Sendo a mais velha das crianças do orfanato de St Cloud’s que não chegaram a ser adotadas, Homer estabelece uma amizade profunda e invulgar com Wilbur Larch, o fundador do orfanato - um homem de rara compaixão viciado em éter. O que Homer aprende com Wilbur leva-o desde a sua primeira aprendizagem de cirurgia no orfanato até uma vida adulta à frente de uma fábrica de sidra e a uma estranha relação com a mulher do seu melhor amigo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Lionel Asbo - Martin Amis


Comentário:
A leitura deste livro inicia-se de rompante, a uma velocidade narrativa avassaladora. É uma entrada de choque, cheia de humor e vertiginosa na forma como nos faz devorar páginas. 
Esta narrativa assume especial importância na forma como retrata a sociedade inglesa atual num subúrbio de Londres. Lionel é um pequeno delinquente que se orgulha de ter começado na senda do crime aos dois anos de idade. Ele tem um coração de pedra, é profundamente sádico e cultiva um gosto especial pela violência, muitas vezes gratuita; é totalmente imbecil no que toca às faculdades intelectuais, em contraste com o seu sobrinho Des, um negro que representa aqui o futuro que a Inglaterra ainda pode ter, em contraste com o desastre que Lionel representa.
A partir de certa altura, o enredo tem uma viragem radical: Lionel, o detestável arruaceiro ganha a lotaria e torna-se multimilionário. Agora, ele convive com a alta sociedade; mas aqui o autor surpreende-nos com a caracterização dessa elite que Lionel encontra no hotel onde se aloja; eles, os ricos cultivam e a ignorância e idolatram a violência da mesma forma que a ralé a que Lionel pertenciam entes; pobres ou ricos, os ingleses são ignorantes e brutos; parece ser esta a mensagem do autor. Sem dúvida uma crítica social mordaz e impiedosa.
A partir desta viragem no enredo, no entanto, o livro segue um rumo diferente, o ritmo narrativo abranda imenso e a prosa torna-se mais reflexiva e mais séria. A meu ver, isto faz com que a obra perca interesse e qualidade literária; perde-se a emoção e a vertigem narrativa da primeira parte; perde-se, em parte o humor satírico da primeira fase do livro, que se torna sério e às vezes mesmo maçador.
Fica, no entanto, a evidente qualidade da escrita do autor: clara, incisiva, rica em termos de vocabulário e, a sua principal qualidade, bem-humorada. A crítica é incisiva e mordaz; na narrativa “vemos” uma Inglaterra decadente e um povo inglês passivo perante os graves problemas sociais como a exclusão e a forte diferenciação social, a falta de cultura, o culto da violência e da pornografia – Martin Amis afirma que Lionel não consegue viver sem cadeia nem pornografia; a cadeia é vista como a sua segunda casa, de onde sai e volta a entrar com frequência; a pornografia é, para Lionel, a substituta das relações humanas, o que diz muito sobre a forma como Amis aborda este fenómeno social da autoexclusão e consequente refúgio em comportamentos marginais.
Em suma, um livro com muito interesse, bem escrito, que merece uma leitura atenta. E divertida.

Sinopse in wook.pt
Durante o expediente matinal na prisão, Lionel Asbo, um delinquente de médio porte de Diston - zona fictiva de Londres - recebe a notícia de que ganhou 139 milhões de libras na lotaria.
Último rebento de Grace, cuja prole aos 19 anos ascendia aos sete, Lionel partilha a casa com o sobrinho órfão adolescente, Desmond Pepperdine, e com dois pitt-bull, Joe e Jeff, que alimenta com uma dieta de tabasco e maus-tratos.
Uma vez posto em liberdade, a fabulosa riqueza catapulta-o naturalmente para uma vida de excessos e gastos estratosféricos que, em substância, não difere muito do quotidiano de sarilhos e arruaças da anterior e, por isso, para as primeiras páginas dos tabloides: «O Tio Li - ele desapareceu e foi para a primeira página!». Lionel continua a preferir a pornografia à companhia de uma mulher (a pornografia que, com a prisão, constitui um dos dois pilares fundamentais da vida); persiste na educação férrea dos cães (outrora uma importante ferramenta do negócio); e em não prestar qualquer tipo de auxílio financeiro a qualquer membro da família.
Enquanto Lionel desbarata a fortuna, a um débito alucinante, e espreme todos os proveitos que pensa poder retirar da fama - Des, o sobrinho, está nos nos antípodas: é um rapaz inteligente e sensato, que procura no estudo e no trabalho, e numa relação estável, um sentido para a vida.
Um romance cómico, visceral, hiperbólico - uma sátira da Inglaterra contemporânea e da obsessão contemporânea pelo dinheiro e pela celebridade.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Os Piores Contos dos Irmãos Grim - Luis Sepúlveda, Mario Delgado Aparaín

Comentário:
Raramente arrisco o meu tempo num livro desconhecido e sem referências. Normalmente, um critério que uso é o de optar por escritores reconhecidos pela sua qualidade. Pois desta vez enganei-me. Este livro é um fiasco. Quando vi o nome de Luís Sepúlveda não hesitei em comprar o livro, até porque estava em promoção e a contracapa prometia que a obra seria extremamente divertida. Por outro lado já li muitos livros de Sepúlveda e nunca me desiludiram. Este desiludiu mesmo.
A ideia original até é interessante: reinventar os irmãos Grimm, transportando-os para o início do século XX e colocando-os na pele de Caim e Abel Grim, payadores de profissão. Os “payadores” (pessoas que pagavam com cantigas a comida e o alojamento) são uma espécie de trovadores que se deslocam de região em região cantando e tocando numa atividade que se pode comparar aos nossos “cantares ao desafio”. Portanto, os verdadeiros irmãos Grimm (com duplo ‘m’) nada têm a ver com isto.
O livro está escrito em formato de cartas entre dois estudiosos que, no final do século XX vasculham a vida e aventuras dos irmãos Grim. Os estudiosos, a fazer lembrar quaisquer académicos em final de carreira e de juízo deformado dão pelos nomes de Orson C. Castellanos e Segismundo Ramiro von Klatsch, Professores.
A correspondência trocada versa sobre as descobertas que cada um vai fazendo sobre as aventuras dos desventurados irmãos Grim bem como de outros assuntos laterais. A brincadeira pretende fazer rir o leitor. Mais nada. E isso é naturalmente pouco para um bom livro; o humor é muitas vezes fácil e artificial, sem contexto, recorrendo muitas vezes ao palavrão ou então ao trocadilho fácil. O grande problema deste livro é não ter enredo; chegamos ao final do livro sabendo muito pouco dos trovadores, a não ser as suas desastradas atuações e a forma exagerada como eram maltratados pelos ouvintes. Pode haver até alguma qualidade na ironia com que se critica o regime de Bush, com alusões muito sérias aos problemas ambientais ou com “farpas” políticas bem dirigidas mas tudo isso se perde numa leitura monótona e maçadora.
Em suma, um ato falhado do grande Luís Sepúlveda que nem por isso deixa de ser grande. Um dos maiores. Mas o livro, esse, é de fugir.

Sinopse:
Um livro inclassificável, uma brincadeira delirante, um atentado à seriedade dos leitores. Trata-se de uma obra séria, tão séria que, assim esperam os seus autores, só pode levar o infeliz leitor a desfazer-se às gargalhadas.
Os Irmãos Grim - gémeos, na realidade - terão sido dois tipos que passaram pelo Chile e pelo Urugai sem que deles restasse mais do que retalhos aleatórios das suas vidas e obras, num todo confuso e até boateiro, que os reduziu aos seus piores contos. Por sorte, para os amantes das sagas "gauchescas" e da poesia a cavalo, Luis Sepúlveda e Mario Delgado Aparaín conseguiram- com a inestimável colaboração dos Professores Orson C. Castellanos , Segismundo Ramiro von Klatsch e José Sarajevo - assinar a tempo esta crónica temporal que retrata as misteriosas origens e a efémera passagem pelas terras do Sul do mundo dos gémeos Grim, trovadores crioulos, músicos iconoclastas, poetas autodidactas e cantores de uma realidade que, devido à escassa transcendência do seu legado, continua hoje a ser um mistério que subjuga os viajantes.
Trata-se, pois, de uma obra séria - tão séria que, assim esperam os seus autores, só pode levar o infeliz leitor a desfazer-se às gargalhadas.

domingo, 10 de abril de 2016

O Músico Cego - Vladimir Korolenko

Comentário:
Korolenko talvez seja, depois de Gogol, o nome maior da literatura ucraniana do século XIX, embora na época a sua nacionalidade fosse russa já que a Ucrânia pertencia ao Império Russo. Mas é na literatura russa que Korolenko vai buscar as suas influências. *a data da publicação de O Músico Cego (1886) já Dostoievski havia publicado todos os seus livros, pelo que é natural alguma influência por parte do grande mestre russo. Na verdade, este livro faz lembrar a escrita de Fiodor na profundidade da análise psicológica e mental dos personagens, principalmente de Piotr, o músico. Por outro lado é incrível como Korolenko revela uma sensibilidade profunda para compreender a mentalidade do cego. As suas sensações, a sua relação com a natureza, o uso delicado dos sentidos dão-nos conta da beleza com que o autor dá conta da forma como Piotr interage com o meio que o rodeia.
Ao nível do estilo, este Músico Cego oferece-nos uma deliciosa mistura entre o romantismo e o realismo; com descrições cuidadas e uma ênfase especial nos grupos sociais a que pertencem os diferentes personagens, ele é sem dúvida realista, mas nos seus devaneios bucólicos, na forma como a natureza quase faz espalhar o seu perfume pelas páginas do livro, ele é romântico. Seja como for, os grandes mestres não têm de se encaixar em estilo nenhum e Korolenko foi sempre um escritor autónomo, pouco dado a “carimbos” como o mostra a sua relação com o poder: de início simpatizante das ideias revolucionárias, não se deixou encaminhar por elas quando viu que a sua aplicação prática, na revolução de 1917, não teve o resultado que desejava.
Em suma, trata-se de um livro com um enredo muito cativante, em que a saga do jovem cego nos é contada com acentuada sensibilidade humana e escrito numa linguagem clara, realista, mas muitas vezes poética. Um livro belo e singelo, sem dúvida que se recomenda a quem se quer iniciar na grande literatura russa. Excelente tradução nesta edição  Estrofes & Versos.

Sinopse:
A parteira não ouvia no grito do bebé nada de especial e, vendo que a jovem mãe falava como que em sonho, pelos vistos a delirar, afastou-se dela e pôs-se a tratar da criança. A jovem mãe calou-se, e apenas de vez em quando um penoso sofrimento, incapaz de prorromper em forma de movimento ou palavra, espremia dos seus olhos as lágrimas em bágoas. Corriam silenciosamente através das espessas pestanas pelas faces brancas como mármore. Talvez o coração da mãe sentisse que, juntamente com o recém-nascido, viera ao mundo uma desgraça negra e desesperada que pendia por cima do berço para acompanhar a nova vida até ao túmulo. De resto, talvez fosse mesmo delírio. Fosse como fosse, a criança nasceu cega.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Menina Else - Arthur Schnitzler


Nenhum livro pode ser devidamente analisado sem ter em conta o contexto em que ele é escrito. Em grande parte, o enredo deste livro e a forma como o autor o aborda deriva da época em que foi escrito. Publicado em 1924, Menina Else é fruto de duas grandes realidades históricas: o triunfo da psicanálise e a afirmação do papel da mulher na sociedade, se bem que de uma forma mais aparente do que real.
Menina Else é um dos primeiros livros escritos em formato de monólogo interior; Else fala com ela própria; auto-analisa-se, pensa em voz alta e exerce uma crítica constante aos seus próprios comportamentos e mesmo pensamentos. É este o mundo de Freud (amigo pessoal admirador de Schnitzer) e da psicanálise: o pôr em causa do individuo enquanto ser pensante, o triunfo do mundo das emoções, das paixões, das pulsões como determinantes do comportamento. Ao assumir sobre os seus ombros a responsabilidade de pagar a dívida da família, Else cai num mundo interior de luta constante entre o ser e o dever; entre a sua própria vida, o seu próprio mundo e a responsabilidade de assumir um encargo familiar; este processo de interiorização conduz a um sentimento de culpa que levará Else à desgraça.
Por detrás de tudo isto há uma enorme contradição histórica: o movimento feminista que parece triunfar e uma sociedade e uma mentalidade burguesas, com o seu código ético rígido que contraria o movimento histórico de libertação da mulher. Como sempre, a moralidade burguesa acaba por triunfar.

Sinopse:
Menina Else, de Arthur Schnitzler, é das primeiras obras literárias a expor um drama psicológico na primeira pessoa. Emblemático autor da Viena fin-de-siècle e importantíssimo escritor de língua alemã, Arthur Schnitzler (1862-1931) conviveu com figuras notáveis da cultura europeia, como Freud, Klimt, ou Schoenberg. Freud, que o considerava uma espécie de seu duplo na área da literatura.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Diário de Inverno - Paul Auster



Comentário:
Escrito na segunda pessoa, este livro, profundamente autobiográfico, é uma espécie de confissão do autor; mais do que um autorretrato, é uma confissão em profundidade, um relatório pessoal da alma do artista.
Em quase todos os livros que já li de Auster há um tom melancólico, qualquer coisa de cinzento, que parece provir da alma do autor. Auster é uma pessoa solidária, altruísta, desprendida e talvez essa preocupação com os outros e com o mundo o torne pessimista ou, pelo menos, algo desinteressado de si mesmo. Daí ao tom depressivo de muitas das páginas deste livro vai um pequeno passo.
É difícil entender como este Auster pode ser aquele que vende milhões de livros, aquele que já faturou uma imensa fortuna; é difícil entender como um homem com tão grande sucesso na carreira e na vida pode ser uma pessoa tão melancólica, triste mesmo. Neste livro, deparamos com um Auster profundamente desiludido com muitos dos aspetos da vida, confrontado com a velhice que se aproxima, mas acima de tudo olhando para o passado de uma forma triste. Aquilo que ocupa mais espaço neste livro não são as belas memórias dos namoricos, os momentos felizes da infância ou, muito menos, os grandes sucessos literários e as enormes alegrias que os seus melhores livros lhe valeram; a este último aspeto, Auster nem sequer uma palavra lhes dedica; prevalecem sempre as memórias mais tristes: um acidente de automóvel em que ele poderia ter sido responsável pela morte da família, a morte dos pais, os desentendimentos com as famílias, as ruturas nas relações e os incríveis ataques de pânico de que é vítima, são estes os temas mais recorrentes desta espécie de autobiografia. 
Talvez a herança judaica contribua para esta melancolia; na verdade poucos são os escritores judeus que não demonstram trazer em si a herança de séculos de perseguições e intolerância; também aqui se vê, na alma de Auster, as marcas dessa intolerância e a incontornável memória do holocausto.
Na verdade, é necessário que o leitor se afaste um pouco, em termos emocionais, para não se deixar influenciar pelo tom triste, quase deprimido, desta obra. 
Mesmo assim, é possível analisar o livro numa outra perspetiva, mais positiva: em termos de estilo, Auster é talvez o escritor atual com uma escrita mais “visual”; sem qualquer exagero na adjetivação, com frases curtas e uma prosa sem rodeios ou floreados, Auster expressa-se de forma direta, crua e nua. As suas descrições são precisas e concisas. Em termos de enredo, Auster faz de cada episódio da sua vida a página ou capítulo de um folhetim que desvendamos com interesse e que nos levam a ler o livro como se de um romance se tratasse, numa leitura sempre fluida e interessante. Ao longo do livro damos connosco a “torcer“ por Auster e um pouco tristes pela forma como o autor sofre com os males do mundo; é o preço de ser pensante, de refletir e de lutar constantemente por um mundo melhor; Auster é um homem comprometido; um homem de causas, pelo que lhe é impossível encarar o sucesso ou a riqueza como motivos de felicidade. Tal como já escrevi várias vezes, mais do que um grande escritor (para mim um dos 3 melhores do mundo atualmente, com Roth e Murakami) Auster é um Homem muito grande; um excelente ser humano. E todos sabem que um excelente ser humano dificilmente pode ser feliz…

Sinopse: (in wook.pt)

Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, e depois, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.

Paul Auster, incansável criador de ficções e de personagens inesquecíveis, vira agora o olhar para si próprio e para o sentido da sua vida. As descobertas da infância e as experiências da adolescência, o compromisso com a escrita - que marcou a sua entrada para a idade adulta -, as viagens, o casamento, a paternidade, a morte dos pais... Uma vida que transborda das páginas deste Diário de Inverno, um definitivo autorretrato construído com a paixão e a transbordante criatividade literária que são as marcas distintivas da identidade deste escritor amado pelos leitores e admirado pela crítica.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Cândido - Voltaire


Comentário:
Escrito no início da segunda metade do século XVIII, este livro tem um enorme valor histórico e filosófico. Pelo contrário, em termos literários não podemos dizer que estejamos perante uma grande obra-prima. Na verdade, o enredo está construído de uma forma algo precipitada, com uma ação tão veloz que muitas vezes o leitor não consegue compreender ou sequer identificar as sucessivas mudanças de cenário. Tudo se passa como se Voltaire escrevesse de forma ansiosa, pretendendo transmitir o mais depressa possível as suas mensagens, deixando para segundo plano uma estória que até é interessante e engraçada.
O verdadeiro significado desta obra está na afirmação do Iluminismo, corrente filosófica que viria a estar na base da Revolução Francesa, à qual forneceu as suas bases teóricas e doutrinárias. Voltaire, juntamente com Rousseau, Diderot, Montesquieu, etc. foi um dos mais importantes teóricos do iluminismo e utiliza esta obra como forma de expressar as suas principais ideias filosóficas: acima de tudo, a defesa inequívoca da liberdade religiosa, inclusivamente do direito ao ateísmo; a defesa da liberdade de comércio e da iniciativa individual; a crítica ao absolutismo e a todas as formas de concentração do poder político e, não menos importante, o combate pela igualdade social, lutando contra os privilégios das classes dominantes (nobreza e clero).
Assim, é em função destes valores que Voltaire constrói o enredo do seu Cândido. Antes de mais, o próprio nome indicia o espírito do herói do livro: ingénuo. Cândido acredita ingenuamente no seu amado mestre, um filósofo de nome Pangloss que defende o otimismo como sistema filosófico, uma visão positiva e benévola do mundo e dos outros. Obviamente, Voltaire ridiculariza o mais possível esta opinião, pois não partilhava minimamente esse otimismo; para ele, a Europa e o mundo são palco das maiores injustiças e violências, que ele descreve com crueza mesclada com ironia e sarcasmo; são as guerras que matam de forma cruel milhares e milhares de seres humanos, são os roubos e outros crimes com que os homens se destroem uns aos outros, são os réus corruptos e insensíveis às necessidades dos seus súbditos e, não menos importante, é um clero corrupto, pecador, sem fé e profundamente mergulhado nos mais interesseiros negócios terrenos. É este o quadro que Voltaire descreve: um quando de injustiça, violência, prepotência, miséria, etc. 
Assim se compreende a necessidade que Voltaire sente de uma revolução radical; e assim se justificará a violência e o radicalismo que alguns anos depois estarão presentes na Revolução Francesa, iniciada em 1789.
Quanto ao estilo, como se disse, a ação é veloz e algo precipitada mas o interesse maior da leitura está no humor sarcástico e irónico que Voltaire usa; tudo é alvo de troça e crítica, recorrendo frequentemente à caricatura dos diferentes personagens. Este tom sarcástico e crítico estende-se, creio, à própria literatura pois parece-me óbvia a crítica ao romance tradicional, neste caso o romance de aventuras e de cavalaria que (ainda) estava na moda nas classes aristocráticas daquele tempo, nomeadamente no público feminino; neste aspeto Cândido lembra (salvas as devidas distâncias) o D. Quixote de Cervantes, na forma como ridiculariza o viajante aventureiro à procura da sua Dulcineia (neste caso a formosa dama chama-se Cunegundes).

Sinopse: (in wook)

Publicada anonimamente em 1759 é logo identificado o seu Autor e nesse mesmo ano a obra conhece vinte edições, seguindo a sua fama para a Itália e Inglaterra onde é traduzida. 
Voltaire foi o introdutor de um género de conto que utiliza a ironia para revelar criticamente a realidade do mundo em que vivia: utiliza a ficção como interrogação e os seus personagens agem por vezes em contradição com o senso-comum da época. 
Em Cândido, o seu herói confronta-se regularmente com o optimismo veiculado pelas teorias de Leibniz (o melhor dos mundos possíveis), ou o seu nome não exprimisse precisamente a ideia da candura que o optimismo gera na adversidade através da existência do mal e da justiça divina.

domingo, 6 de março de 2016

O Cortiço - Aluísio Azevedo


Comentário:
Um dos maiores méritos deste livro é a análise comparativa das caraterísticas do ser português com o ser brasileiro; as diferenças são tão profundas que se torna admirável a forma como os dois tipos de personalidade convivem neste país que é o país-irmão.
Inicialmente o autor parece identificar três tipos de portugueses: o português de sucesso que escolheu o Brasil como terra dos seus sonhos e por isso sente que merece ser rico; o português que se cansa do espírito trabalhador luso e adere ao espírito brasileiro; finalmente, o português pobre, sem eira nem beira, que se limita a trabalhar para sobreviver. Cora constantemente de saudade e canta o fado; aliás o primeiro tipo também o faz, mas porque é um eterno insatisfeito.
Aluísio Azevedo encontrou no personagem Jerónimo um meio de plasmar as duas personalidades, ao fazer com que ele, por influência de uma moça de sangue bem quente, se transformasse de português em brasileiro; vejamos então alguns adjetivos usados para caracterizar o Jerónimo enquanto tinha um comportamento tipicamente português e depois o Jerónimo já “convertido” ao estilo de vida brasileiro: 
O Jerónimo português: trabalhador até à exaustão, poupado até à sovinice, vida sombria, tristonha, marcada pela saudade, pelo fado.
O Jerónimo “brasileiro”: apaixonado, afrouxado em energias, adquiria desejos, idealizava felicidades e prazeres, não dispensava o café e a cachaça, gastador, o samba toma o lugar do fado. Torna-se esbanjador e assim constrói a sua desgraça. 
Esta comparação, que à partida apanha o leitor desprevenido parece uma crítica ao espírito “sovina” do português mas, na verdade, a perspetiva crítica incide sobre os dois tipos; o português torna-se obcecado pela riqueza, egoísta e preso às aparências; o brasileiro torna-se preguiçoso, esbanjador e irresponsável.
O povo, como em qualquer escritor naturalista, é visto com grupo e não individualmente. Aqui, ao contrário do mestre Zola, a primazia não é dada às condições materiais dos mais pobres, mas sim aos seus costumes, crenças, superstições, hábitos. Pelo meio constrói uma curiosa crítica ao moralismo hipócrita que parece derivar de uma determinada interpretação do pensamento religioso, mesclado com superstições; a crença religiosa aparece sempre misturada com bruxaria, feitiçaria e as mais irracionais crenças… enfim, um belo retrato coletivo. Mesmo assim, a importância dada às condições materiais de existência vai crescendo ao longo do livro, à medida que se vão acentuando as desigualdades sociais; na parte final assistimos a esse “fim da história” em que os ricos se tornam mais ricos e prepotentes enquanto os pobres, à sombra dessa riqueza, caem na miséria, como os mineiros de Zola. Os poderosos, esses caem no ridículo da nova aristocracia, aderindo a uma sociedade que esconde as misérias pessoais por detrás da típica sociedade de aparências que rodeia a elite social dominante.
A solidariedade está sempre presente como um fator de união, e o cortiço é a personificação dessa união solidária. No entanto, quando os conflitos estalam emerge a desunião e com ela a violência. É com grande eficácia que o autor nos explica a relação intima entre a natureza extrovertida da alma brasileira e a facilidade com que surge a violência. É o “sangue quente”, reforçado pelo álcool, que comanda a ação coletiva e não a racionalidade.
A linguagem crua, direta, realista, aliada ao realismo com que é descrito o “calor” da alma brasileira conferem a algumas passagens do livro um aspeto de romance erótico pouco comum no século XIX. Mas o que se pretende não é acentuar o erotismo mas sim ilustrar um certo desregramento dos costumes por parte da comunidade brasileira. Noutras passagens, este hiper-realismo dá lugar a uma linguagem fria, chocante, como na descrição da criança que morreu esfacelada na pedreira.

Sinopse: (in fnac.pt) - contém revelações sobre o enredo -
O cortiço, publicado em 1890, focaliza a ascensão social do comerciante português João Romão, dono de uma venda, de uma pedreira e de um cortiço, bem perto do sobrado de um patrício endinheirado, o comendador Miranda. A rivalidade entre os dois aumenta à medida que cresce o número de casinhas do cortiço, alugadas, na sua maioria, pelos empregados da pedreira, que também fazem compras na venda de João Romão, que, desse modo, vai se enriquecendo rapidamente. Com a intenção obsessiva de tornar-se rico, João Romão não se permite o menor luxo, economizando cada moeda e explorando os outros sempre que pode. Vive amasiado com uma escrava fugida chamada Bertoleza, que o auxilia no trabalho duro, e para quem ele forjou um documento de alforria. O grande sonho de João Romão é adquirir prestígio social, como seu patrício Miranda. Este, à medida que o vendeiro vai enriquecendo, não vê com maus olhos a possibilidade de oferecer-lhe a mão de sua filha, Zulmira. Um amigo comum, Botelho, se faz intermediário das negociações e tudo fica arranjado. João Romão fica noivo de Zulmira, alcançando assim um patamar mais alto na escala social. O único inconveniente é Bertoleza, que não aceita ser descartada sumariamente. Botelho arma um plano: denuncia Bertoleza como escrava fugida a seu verdadeiro dono, que vai com a polícia prendê-la. João Romão faz de conta que não sabe de nada e a entrega. Bertoleza percebe que o vendeiro, sem coragem de mandá-la embora ou de matá-la, preparou essa armadilha para devolvê-la ao cativeiro. Desesperada, ela se mata. A narração desses fatos da vida de João Romão entrelaça-se com a narração de vários episódios dos moradores do cortiço, cuja luta pela sobrevivência é dura e cruel. O caso de Jerônimo é exemplar da visão naturalista do autor. Jerônimo é um operário português contratado por João Romão para trabalhar na pedreira. É um homem sério, casado com Piedade, também portuguesa. Eles têm uma filha adolescente e vivem bem como família. Mas, no cortiço, Jerônimo começa a sofrer influência daquele ambiente sensual e desregrado, apaixona-se pela mulata Rita Baiana, por ela mata um rival e abandona a família. Acompanhando a evolução social de João Romão, o cortiço também se desenvolve, principalmente depois de um grande incêndio, quando passa por reformas e transforma-se na "Avenida São Romão", com melhor aparência e uma população mais ordeira. A população mais baixa e miserável se transfere para outro cortiço, o Cabeça de Gato, mantendo-se assim a engrenagem do sistema social em que predomina a lei do mais forte.