sábado, 2 de agosto de 2008

Léon Tolstoi - A Morte de Ivan Ilitch

Este romance do grande mestre Tolstoi é a prova definitiva de que uma obra-prima não tem de ser um livro volumoso. Em pouco mais de cem páginas nesta louvável edição de bolso, Tolstoi escreve quase tudo sobre a vida. Sim, porque não se trata de um livro (apenas) sobre a morte; como diz A. Lobo Antunes no pequeno e excelente prefácio desta edição, “tudo o que somos [ali] se acha em poucas páginas”.
No entanto, a morte não deixa de ser o centro do livro, ou melhor, da vida. A morte de Ilitch, vista pelos outros, representa a alegria dos que vivem; não só dos abutres que sempre esperam ganhar algo com a morte do outro, mas também por todos os que, perante o fim de Ilitch, sentem a alegria de continuar vivos. No entanto, a morte do outro desperta o medo da nossa própria morte; nesse sentido, agudiza o nosso egoísmo. A curiosidade em tomar conhecimento de todos os pormenores da morte de alguém reflecte a nossa vontade de transferir a ideia de morte para o outro.
Durante o caminho para a morte, ou seja, ao longo da vida, Ilitch vive praticamente obcecado pelo trabalho. Neste aspecto, Tolstoi toca nesse ponto que mais tarde constituirá um dos elementos-chave da obra de Kafka: a perda do sentido da vida entre a rotina e a alienação pelo trabalho. Por outro lado há a competição que arrasta consigo a perda de escrúpulos e a entrada em cena da inveja, transformando a vida numa luta sem sentido. A vida é encarada como um conjunto de elementos alienantes. O próprio casamento não foge à regra: Ilitch vive a sua relação marital como um hábito e um conjunto de obrigações formais e sociais. As relações inter-pessoais, por sua vez, são determinadas pelas exigências das relações de poder e pelas hierarquias. O ser humano é sempre ultrapassado pelo formalismo: a Ilich, enquanto juiz, tal como ao médico que trata a sua doença fatal, interessa mais a formalidade do processo do que a relação pessoal com o ser humano. O médico não trata doentes; trata doenças. O juiz não julga o homem, julga o crime.
Ao longo da doença, Ilitch vai-se transformando num empecilho para os outros. Põe-se aqui em causa toda a natureza essencialmente egoísta do ser humano, causadora da solidão e da carência afectiva que era, ao fim e ao cabo, o maior dos males de Ilitch. Um dos pontos altos desta obra, onde a sensibilidade do autor se exprime com eloquência é o episódio em que Ilitch, quase moribundo e sofrendo atrozmente, apenas encontra alívio quando o criado Guarassim o toca e lhe dedica algum afecto desinteressado. Ele é o único que nada lhe esconde e nada pede em troca. Os outros, todos os outros, escondem a verdade ao moribundo, não por piedade mas por egoísmo e hipocrisia: o objectivo é manter o moribundo afastado, é não se envolver e preservar-se a si próprio.
Perto da morte, resta a solidão – a dor maior! Mas mesmo perto do minuto final, quando as dores físicas e da alma são insuportáveis, Ilitch exclama: “Tudo menos a morte”. É assim a alma humana!
Em suma, trata-se de um verdadeiro tratado sobre a vida. O que é viver bem? Questiona-se Ilitch. O que é uma vida correcta? Qual o padrão a seguir? Terá o mundo o direito de nos dizer como devemos viver e morrer? Talvez cada um de nós deva procurar as suas próprias respostas, para que de repente não nos ocorra aquilo que se passou com Ilitch: “Aconteceu-lhe aquilo que lhe costumava acontecer na carruagem do comboio, quando pensava que seguia para a frente e ia para trás, e de repente descobria a verdadeira direcção”!
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