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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Polikuchka - Leon Tolstoi

Nota prévia: há uma edição recente que apresenta este livro com o título “Polikuchka, o Enforcado”. A edição que usei tem apenas o nome do personagem no título. Trata-se do número 30 da velhinha e saudosa coleção de Livros de Bolso da Europa América.
Bastava o facto de ter sido escrito por Tolstoi para que este livro merecesse ser lido com atenção. Se acrescentarmos o facto de ter sido escrito poucos meses antes do monumental Guerra e Paz, então esses motivos duplicam. Mas há mais; este livro, pequeno e simples, é um testemunho inequívoco da sensibilidade de Tolstoi para os problemas sociais. Ele ajuda-nos a compreender o próprio Guerra e Paz e permite-nos uma compreensão mais profunda da opinião de Tolstoi face à realidade socio-económica do seu tempo.
Recorde-se que a servidão tinha sido abolida pelo czar (salvo erro Alexandre III) mas essa decisão não era respeitada: os camponeses eram tratados quase como escravos, podendo mesmo ser vendidos juntamente com a terra.
As condições de vida destes servos eram, pois, miseráveis. Polikuchka é um servo que trabalha para uma grande proprietária que representa aqui aquele tipo de pessoa poderosa mas de bom coração que Tolstoi recuperaria em Guerra e Paz e que demonstra essa outra faceta da sua personalidade: uma crença genuína numa certa bondade humana, independente da condição económica da pessoa. Mas, mau grado o bom coração da Senhora, Polikuchka é um homem infeliz. Ele é vítima desse cancro da sociedade russa que é e sempre foi o vodka. Entre os camponeses, o álcool é uma fuga à servidão, à desumanidade do sistema social; assim, o pobre que não sucumbe perante a injustiça, acaba por sucumbir perante o álcool.
Mas, num determinado momento da sua vida, Polikuchka redime-se. Ele torna-se um homem honesto e trabalhador. No entanto, algo o trairá: o destino. Como se tivesse de haver sempre uma condenação: se não fosse o álcool era a guerra (para onde os camponeses eram recrutados), se não fosse a guerra era a fome, se não fosse nada disto era a fatalidade do destino.
E Polikuchka morre na desgraça. Como qualquer servo.
  

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Demónio Branco - Lev Tolstoi

Este é um dos últimos livros escritos pelo grande mestre russo. Não sendo uma obra de grande fôlego, é um documento fundamental para compreender as ideias de Tolstoi. Trata-se, a meu ver, de um testemunho claro do seu pacifismo, do seu espírito crítico em relação ao poder político e, para usar o termo aplicado com a-propósito pelo tradutor desta edição, António Sérgio, um verdadeiro “apóstolo” da não violência e da conciliação entre os povos.
O enredo passa-se no Cáucaso (território do Império Russo situado entre os mares Cáspio e Negro), na década de 40 do século XIX. Narra-se a vida de Hadji-Murat, um guerrilheiro tártaro muçulmano, desiludido tanto com os Russos, imperialistas e violentos, como com os tártaros, que o desprezaram e lhe aprisionaram a família. No meio deste conflito, o povo Checheno, brutalmente esmagado pelo czar russo, ansioso por submeter a já na altura martirizada região do Cáucaso. Anteriormente submetido aos tártaros do Império mongol, este povo é vítima quer do conflito político quer da guerra religiosa, entre a religião muçulmana à qual os tártaros se haviam convertido a religião cristã ortodoxa dos russos.
Alvo especial da crítica de Tolstoi é o imperador Nicolau I. Note-se que Tolstoi foi soldado russo durante o governo deste czar, pelo que é nítida a influência neste livro das próprias vivencias deste escritor. Aqui, Nicolau I é apresentado como um tirano absolutista, muito sensível à lisonja que lhe alimentava a vaidade, incapaz de conter a corrupção, com um medo permanente de ser traído, que o tornava impiedoso e… mulherengo. Este retrato, infelizmente, corresponde à verdade histórica. Nicolau I, se bem que testemunhasse uma fase de alguma industrialização da Rússia, foi um rei leviano, brutal e que protegeu as elites mais poderosas (mais por medo do que por estratégia).
Este livro, em algumas fases, lê-se com alguma dificuldade devido por vezes a uma necessidade que se adivinha em Tolstoi de contar a estória em poucas páginas. No entanto, resulta dele um retrato fiel da velha Rússia czarista e, acima de tudo, um testemunho do humanismo e do espírito crítico de Leon Tolstoi. Não deixa, no entanto, de ser uma obra menor se a compararmos com o brilhantismo de Anna Karenina, a monumentalidade de Guerra e Paz ou até a singeleza dessa pequena maravilha que é A Morte de Ivan Ilich.
Avaliação pessoal: 8.5/10

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Contos Russos - Dostoiévski, Andréev, Tolstói

Quem está habituado a confrontar-se com as sofridas personagens de Dostoievski, com os seus profundos dilemas morais, com as culpas e redenções de que são feitas as suas vidas, não deixa de ficar absolutamente surpreendido com a natureza satírica e cómica do primeiro conto desta obra: O Crocodilo, um conto infelizmente incompleto de Dostoievski.
Trata-se da história fantástica de um homem que, num centro comercial, é engolido inteiro por um crocodilo em exposição. Aquilo que à partida seria uma grande desgraça é descrito da forma mais surrelista que se possa imaginar. O “engolido”, que permanece vivo, vai falando para o exterior e em breve se apercebe que está numa situação bastante cómoda, da qual pode tirar grandes dividendos, nomeadamente sob a forma de dinheiro e fama. À sua volta, muitos procuram explorar ao máximo a situação. E o seu único amigo, aquele que o tenta libertar, vai esbarrando com uma tremenda máquina burocrática. Os burocratas chegam mesmo a equacionar a hipótese de considerar lesado o dono do crocodilo porque o homem se meteu lá dentro, invadindo propriedade privada.
Também a situação profissional do “engolido” é muito dúbia: estará ele prisioneiro, ou em férias, ou em serviço?
Mas à medida que o tempo passa vêm ao de cima as evidentes vantagens económicas de manter o homem na barriga do animal: um crocodilo com um homem dentro rende muito mais dinheiro em qualquer exposição. Além disso, o próprio se dá conta que naquele estado poderá ser muito útil à humanidade, estudando o crocodilo por dentro e dedicando-se à reflexão. É certo que seria considerado, por alguns, como um mandrião. Mas não são mandriões os grandes homens da governação e dos negócios?
O segundo conto, Lázaro, de Leonid Andréev, é uma bela e fantástica reconstituição da vida de Lázaro depois de ter sido ressuscitado por Jesus Cristo.
Lázaro venceu a morte, diz a Biblia. Andréev diz-nos que ele a transportou consigo depois de ressuscitado. Por todos os sítios onde Lázaro passasse, os homens que o olhassem nos olhos, comungariam dessa morte. E Lázaro, com a morte no corpo e na alma, espalharia a mais profunda escuridão… A morte, afinal, era invencível. Nem a ressurreição teria sido capaz de a vencer.
A morte é também o tema do terceiro e último conto: A Morte de Ivan Illitch, de Leon Tolstoi. Já escrevi em vários sítios que este conto, ou pequeno romance, é uma obra-prima da literatura mundial. É uma visão absolutamente sublime da morte. O comentário a esse conto encontra-se aqui.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ana Karenina - Lev Tolstoi

Nesta obra monumental, Tolstoi faz uma profunda abordagem da alma humana. A história de Ana Karenina, a esposa infiel, é apenas um pretexto para Tolstoi enunciar as suas ideias, firmes e polémicas sobre o casamento, a família, o estatuto da mulher, a estrutura social, etc. Não quer isto dizer que o enredo literário passe para segundo plano. De maneira nenhuma. Trata-se de um enredo cheio de dramas e dilemas que prendem o leitor da primeira à última página.
Ana é, como muitas mulheres, antes de mais, uma vitima de um sistema social em que o casamento nem sempre corresponde aos ditames do coração. No entanto, a grande questão que a Tolstoi aborda é esta: estes dramas resultam da falta de amor nos casais ou antes de uma concepção leviana do casamento ou ainda da incapacidade de adaptação a uma vida em família que exige dedicação quase sagrada?
No entanto, este romance constitui uma abordagem psicológica e social que extravasa em muito estes dilemas familiares. Na última fase da escrita deste livro, Tolstoi entra num período de dúvidas existenciais que o levaram a uma grave crise moral. Refugia-se na religião e abandona a família. Talvez a ficção tivesse influenciado a realidade; talvez este livro ajude a explicar tão radical decisão de L. Tolstoi.
Logo nos primeiros capítulos é nítido que a diversidade de personagens e a sua excelente caracterização leva o leitor a identificar-se obrigatoriamente por uma delas; outras, sem nunca se tornarem odiosas são, desde logo, alvo de alguma aversão (no entanto há em Tolstoi uma certa tendência para compreender sem criticar os personagens menos “simpáticos”). Seja como for, o envolvimento do leitor é sempre incontornável.
Ana é um espírito livre e rebelde, dotada de uma impressionante serenidade, inteligência e bondade.
Traída pelo marido, Dolly (cunhada de Ana) é, pelo contrário, é uma mulher marcada por uma educação feminina que a tornara passiva, ignorante, conservadora e submissa. Perante o desprezo do marido, o alegre e despreocupado Oblonski, Dolly opta pela submissão e dedicação à casa e aos filhos. Fica lançado o repto ao leitor: qual destas duas mulheres terá, para Tolstoi, um destino mais favorável? A resposta a esta pergunta, que o leitor descobre com enorme facilidade, dita a concepção que Tolstoi tem do caminho para a felicidade familiar.
Dolly, após a infidelidade do marido, que a traíra com uma preceptora inglesa, continua desconfiada de novas traições. Foge ao sofrimento desprezando o marido e desprezando-se a si própria. Perante uma desilusão, o ser humano põe em causa o outro mas, acima de tudo, põe-se em causa a si próprio – o caminho mais fácil e tentador é o auto-desprezo; é o abandono à anulação do eu. E Dolly só supera este sofrimento com uma dedicação extrema aos filhos e com a rejeição de sonhos românticos.
Sobre o casamento, afirma Tolstoi: “cometer o erro para depois repará-lo: eis o caminho”. Só o amor pode perturbar essa paz e essa felicidade tranquila. Parece clara a opinião de Tolstoi sobre o amor: muitas vezes, o amor romântico é um obstáculo à paz interior e, consequentemente, à felicidade.
O tempo de Tolstoi (finais do século XIX) foi uma época complicada.
Viviam-se os primeiros tempos do fim da servidão rural mas a libertação dos servos nem sempre era cumprida pelos grandes proprietários. Na Europa nasciam e divulgavam-se as ideias socialistas, que preconizavam a Revolução que deveria conduzir a uma sociedade justa e sem classes. Nicolau é um socialista que sonha com a sociedade ideal. No entanto, é um desiludido. Embriaga-se e vive como um vagabundo. Tolstoi, grande defensor dos direitos dos mais pobres, mostra-se assim pouco crente na opção socialista.
Também a crítica social está sempre presente: nos salões da alta sociedade reina, como sempre, a maledicência.
Alexei (o marido de Ana) desconfia de esposa, depois toma conhecimento de todas as suas aventuras mas a sua grande preocupação é sempre a aparência perante as convenções sociais. Perante o “crime” de Ana, o propósito de Alexei é claro e cruel: “O importante é que eu não sofra e que eles não sejam felizes” (…) “Que ela seja desgraçada, eu não”… o cúmulo da crueldade humana…
O marido enganado transforma o amor em ódio. A curta distancia entre o amor e o ódio! O perdão é apenas uma fachada!
Ana sofre uma verdadeira tortura moral: sentimento de culpa e medo do futuro. Ana está convencida que “não poderia ter sido de outra forma”. Este conformismo, esta falta de capacidade de luta e reacção impede-a de ser feliz.
Tolstoi exalta com firmeza a vida no campo: Levine é um personagem interessantíssimo. Vive encantado com a vida no campo, que o autor descreve com laivos da literatura romântica. Levine é, durante grande parte do enredo, o russo rural e feliz.
É também o exemplo do grande proprietário moderno e justo: vive numa relação próxima com os camponeses, manifestando-se contra a servidão.
Levine representa também o guardião da nobreza russa: que valoriza a terra, o património dos antepassados. No entanto, a maioria dos nobres do seu tempo prefere a cidade, deixando desbaratar esse património.
Mas nem o casamento nem a vida bucólica do campo são suficientes para a felicidade plena. Levine continua à procura do sentido da vida. Não acredita na religião mas reconhece que fora dela não encontra respostas. Os que se afastam da religião acabam por se dedicar as coisas que nada lhes dizem, como a evolução das espécies e outras coisas das ciências.
O ser racional vive para a barriga. Mas não deve ser assim. “Devemos viver para a verdade; para Deus”. A inteligência é orgulho e malícia. É uma fraude.
Acredita numa fé em deus que está acima de qualquer dogma, de qualquer igreja.
Conclui acreditar numa religião universal, numa Consciência Superior, que se baseia em Deus e na bondade, não nas igrejas e nos dogmas.
Kitty é outra personagem central nesta obra. Ela representa a mulher feliz, que soube ultrapassar os dramas do amor, construindo um caminho sereno, de calma e tranquilidade, sem o fogo das paixões avassaladoras que a fizeram sofrer na juventude. É um exemplo de bondade e generosidade. Há em Tolstoi uma certa associação de ideias entre a generosidade, a alegria e a saúde. A cura de Kitty parece ter-se dado por isso: pela bondade, alegria e amor, graças a Varienka (que se revela grande amiga, desprendida, dedicada aos outros) e ao pai, um espírito positivo e pragmático. Aqui nota-se o afastamento de Tolstoi em relação à literatura romântica: foge claramente ao culto do amor sofrido.
Talvez o âmago da obra seja este: haverá culpa? Haverá erro? Não havendo erro, não deveria haver culpa! Mas porque é que a maioria das pessoas só se preocupa com a atribuição de culpa?
As personagens agem de maneiras diversas, evidenciando personalidades distintas mas tudo se passa como se cada uma delas obedecesse a uma lógica própria, tendo cada uma delas a sua razão. A grande “frieza” de Tolstoi nesta análise psicológica permite concluir que a “culpa” é algo de subjectivo. Perante um acontecimento dramático todos têm a sua lógica e todos os comportamentos são justificados e legitimados. Isto, por um lado, desculpabiliza todos os personagens. Mas, por outro, manifesta o egoísmo do ser humano que, incapaz de compreender o sofrimento do outro, apenas procura justificar a sua própria posição.
Um dos aspectos mais perturbadores nesta história é a falta de preocupação com os sentimentos de Ana por parte dos dois homens (Alexei e Vronski). Esse egoísmo parece ser o maior problema de todos os seres humanos, essa incapacidade de entender o outro.

domingo, 13 de junho de 2010

Guerra e Paz - Lev Tolstoi

Karaguin, Bolkonski, Bezukhov, Mikailovna, Rostov, são cinco famílias de onde Tolstoi parte para uma das maiores aventuras literárias alguma vez empreendida.
Isto não é um romance; nem um tratado filosófico; também não é um livro de história. É uma mistura genial de tudo isso.
Mil e oitocentas páginas distribuídas por quatro volumes, com uma excelente tradução da Editorial Presença percorrem os anos das guerras Napoleónicas no Leste europeu. Nas duas capitais da Rússia (Sampertersburgo e Moscovo), as personagens vêem as suas vidas afectadas de forma mais ou menos indelével pela guerra, sem que isso impeça os dramas, alegrias e tristezas do quotidiano.
A guerra desenrola-se nas altas esferas da sociedade, entre imperadores ambiciosos, generais oportunistas e oficiais interesseiros. Os soldados, esses, são os peões, a “carne para canhão” que emana do povo, desse povo russo heróico e miserável.
Um dos primeiros aspectos que impressiona nesta obra é a imensa capacidade de descrição! Até hoje só tinha lido um escritor com capacidade para fazer descrições tão pormenorizadas sem maçar o leitor: Flaubert. Mas Tolstoi supera-o. O melhor adjectivo que encontro para definir essa capacidade descritiva é cinematográfico! O leitor vê o que Tolstoi descreve. Impressionante. Um dos melhores exemplos é como ele compara o movimento do exército a um grande relógio. Ocupa uma página com essa descrição, de forma magnífica.
O segundo aspecto relevante, que o leitor sente logo nas primeiras páginas é a critica deliciosamente subtil à sociedade da época, com personagens-tipo: o rico e rabujento Bolkonski, o pedante e rastejante Vassili, a descarada e “pé-rapado” Anna Mikailovna, o cabeça no ar Anatole, o romântico e sonhador Rostov, o, arrivista e oportunista Boris, etc. Neste domínio, destaque para a crítica ao papel social da mulher, relegada para um estatuto quase decorativo. A mulher não tem educação escolar, e apenas se realiza com o casamento. Este é ditado pelas normas sociais, pela conveniência e quase nunca pelo sentimento. Revela, sem dúvida, uma concepção algo tradicionalista da mulher: valoriza o seu papel como mãe e doméstica. No entanto, há um certo encantamento pela capacidade que certas mulheres têm para ouvir os homens e apoia-los. A mulher virtuosa não se preocupa com o visual nem com o social, nem como “seduzir” o marido, como defendiam as pessoas “inteligentes”, sobretudo francesas. A esposa perfeita “assumia o papel de escrava do marido”.
Elogia sempre a família tradicional – “o homem com duas mulheres é como quem almoça duas vezes: pode obter mais prazer mas provavelmente não digerirá nenhuma delas”.
O quadro perfeito da vida familiar: os homens discutem negócios, assuntos militares e da governação, as mulheres bordam e servem os seus maridos, as crianças imitam os adultos nas suas brincadeiras.
O amor constrói-se em torno dos filhos e da casa. As grandes paixões são nefastas porque levam ao sofrimento.
Na primeira fase do romance, Tolstoi descreve-nos uma sociedade russa parecia dominada pela cegueira. Boris representa aquela juventude que adora Napoleão, mesmo em guerra com ele. Nikolai Rostov chega a defender a necessidade de não ter espírito crítico: “se começarmos a fazer juízos sobre tudo e a raciocinar, nada haverá de sagrado”.
Boris foi o primeiro a descobrir que a inteligência e a bravura não são o mais importante no exército e na sociedade mas sim a bajulação aos superiores. Ele prefere a capital (Petersburgo) onde pode conviver com a alta sociedade.
Ainda no aspecto social, realce para a ausência da burguesia, numa época em que noutros países já se afirmava a sociedade burguesa fruto da industrialização e do liberalismo. A alta sociedade russa é dominada por terratenentes ainda agrarrados à servidão, já abolida no ocidente há muito tempo.
Interessantíssima a figura de Pierre: aparentemente sem personalidade, ingénuo e às vezes bêbado, no início da obra admira Napoleão e é feliz. Mas ao longo dos volumes Pierre vai deambulando na incerteza da sua própria personalidade, na procura incessante de um sentido para a vida.
Pierre é um homem sem respostas; um homem atormentado pelas dúvidas sobre o sentido da sua vida. A maçonaria surge como a fonte dessas respostas. Pierre, um homem puro, acredita que só com essa pureza pode compreender a Fé.
Mais tarde, Pierre tenta dedicar-se às terras: Tolstoi critica frontalmente a servidão. Pierre decide começar a libertar os seus servos e encontra nesse serviço aos pobres uma fonte de felicidade. Pierre volta a sentir-se realizado e personalizado. No entanto, as incertezas voltarão. Parece ser esta a sina de um homem que questiona o mundo, que não se satisfaz com a vida aparente que a maioria cultiva. E até ao fim do romance, Tolstoi presenteia-nos com uma estória riquíssima, a de Pierre, com experiências de vida incríveis, simbolizando todas as estratégias que o ser humano procura para, tão simplesmente, encontrar essa paz a que chamamos felicidade.
Outro traço característico da escrita de Tolstoi é uma intensa religiosidade, por vezes mesmo apologética, mas independente da chamada religião institucional. Ele advoga a necessidade vital da religião, da fé, mas não da Igreja ou dos dogmas: uma religião pura, que pratique o amor ao próximo e a bondade. Andrei, às portas da morte experimenta um conceito totalmente espiritual de Amor: um amor sem objecto; um amor que é apenas amor; “amar Deus em todas as suas manifestações” é amar sem objecto nem objectivo – simplesmente, amar! Essa é a essência da alma que permite amar o inimigo. É o amor divino.
Também sempre presente em Tolstoi, a crítica aos políticos e militares russos, excessivamente preocupados com os salamaleques, os protocolos, as condecorações, as aparências (como toda a sociedade russa) e incompetentes no campo militar. Aí, a bravura de alguns (Bagration, Denissov, Andrei…) e a inteligência de outros (Kutuzov) não consegue compensar a incompetência de tantos (a maioria) preocupados com a carreira e as aparências.
Em relação à guerra, Tolstoi desmascara a desinformação que reinava na sociedade russa: os relatos da guerra são sempre subjectivos, falseados e exagerados. É essa a “verdade” que circula na Rússia: em vez das derrotas e misérias circulam os boatos de feitos heróicos, as gabarolices e as notícias de condecorações.
Destaca-se sempre uma grande simpatia pelos soldados, a gente do povo. Esses são os que morrem. Os que não interessam aos generais e políticos.
Na guerra, Tolstoi descreve com incrível realismo todas as misérias por que passa o exército russo; os soldados, esfomeados, recorrem a ervas perigosas para se alimentar. As aldeias prussianas eram pilhadas constantemente, tanto por franceses como por russos.
Descreve com pormenor a vida miserável dos soldados e um “hospital” com condições absurdamente desumanas.
Curiosamente em Tolstoi todas as personagens parecem ter um lado bom, humano, principalmente os jovens: a maior parte deles são ingénuos, sem ideias, por vezes “ocos” mas sempre com algo de positivo na alma e abertos à espiritualidade.
Por exemplo, num acto de bravura, Nikolai Rostov captura um oficial francês. No entanto, reage com uma certa nostalgia, mesmo tristeza. É o lado desumano da guerra que o apoquenta: na verdade, os franceses eram seres humanos.
A família Rostov é o retrato da bondade, da simpatia e de todos os valores humanos que levam o leitor a desejar um final feliz para personagens tão cativantes como a bela Natacha, a infeliz Sónia, o valente e bom Nikolai, o pequeno e feliz Pétia. Mas a vida nem sempre se compadece com a bondade…
Os Rostov são o símbolo da união familiar. Tolstoi nunca abandona este lado moralista em que a família, desprovida de interesses sociais e ambições desmedidas permanece como um reduto e um pilar fundamental da sociedade.
Mas o lado mais profundo desta obra encontra-se nas intensas reflexões com que Tolstoi povoa o romance.
Uma das questões que mais o preocupa, e para a qual acaba por não encontrar resposta, é esta: porque é que aconteceu a guerra?
As causas da guerra são tantas que não são nenhumas; é errada a ideia dos historiadores de tentarem identificar este ou aquele facto como causa principal da guerra. “O acontecimento deu-se apenas porque sim”. Há dois lados na vida de qualquer homem – a vida pessoal e a vida “de enxame”, em que o homem apenas cumpre leis prescritas. Esta é uma espécie de vida inconsciente e colectiva; é a História! O Rei, esse, é escravo da História. O próprio Napoleão era empurrado pela História, por uma vaga de fundo difícil de identificar mas impossível de suster: “Nos acontecimentos históricos, os assim chamados “grandes homens” são etiquetas que dão o nome aos acontecimentos”.

No inverno de 1812 Napoleão será derrotado, perante um exército inferior e com generais inexperientes. Causas: o inverno russo e o ódio que Napoleão despertara no povo russo. Os historiadores russos dizem que a vitória se deveu ao génio de Pfull, ou de Tolly, ou de Alexandre, que atraíram os franceses para o interior da Rússia. Os historiadores franceses, pelo contrário, dizem que Napoleão sentiu o perigo da campanha, o perigo de estender a linha de avanço e teria evitado confrontos. A verdade é que nenhuma destas versões está correcta. Nem os russos queriam atrair os franceses (confrontaram-nos sempre) nem Napoleão tinha qualquer receio de avançar, evitando confrontos. Napoleão não previu o perigo de Moscovo. O recuo das tropas russas não foi estratégico! Deu-se quase por acaso: Bagration recusa-se a aproximar-se do alemão Tolly, seu superior, que detestava. Alexandre, com demasiados conselheiros, não consegue unir os 2 exércitos, que recuam.
Esta critica aos historiadores é uma constante ao longo da obra. Tolstói estava muito à frente do seu tempo, até na análise histórica – a História só relatará a verdade quando não se limitar aos grandes homens (só no século XX esta verdade haveria de ser praticada, pela chamada História Nova, da escola francesa).
Sobre as guerras: Se a guerra se fizesse para expandir a civilização e o bem estar dos povos, seria um contra-senso, porque elas envolvem mortes e destruição de riquezas. Os livros e a ciência fariam isso muito melhor. No entanto, porque é que acontecem as guerras? Por acaso. Porque sim. E os génios aproveitam o acaso.
Esta análise histórica revela já uma crítica ao positivismo lógico (teoria fundada por Augusto Compte que defendia a extrema cientificidade da análise história): a nova ciência derrotou a antiga que se baseava no poder da divindade; mas imita-a, substituindo Deus pelos grandes homens. Mas não são os grandes homens que movem a História; são os movimentos dos povos; e a História não dá resposta à grande questão: o que faz mover os povos? O que provoca as ondas de fundo?
Alguns historiadores dizem que a história não é movida por um homem porque eles são fruto dos acontecimentos. Mas param a meio do caminho porque caem sempre no determinismo da acção desses líderes.
Porque é que isto acontece? Porque os historiadores também são homens grandes: se a história fosse escrita por comerciantes ou soldados dir-se-ia que os comerciantes e os soldados eram os construtores da história.
A História não se escreverá correctamente enquanto não for escrita a história de todos os homens! Porque só aí se encontra a força que faz mover a História.
Fica clara a visão “avançada” de Tolstoi sobre a análise histórica. No entanto, em minha opinião acaba também por cair num certo dogmatismo que impediu de ter em conta determinadas realidades:
1-      As vagas de fundo, como ele lhes chama, são provocadas por uma soma de vontades individuais – desde o soldado ao comerciante, do camponês ao intelectual, todos têm vontades, embora todas elas diferentes! Ora, por vezes, há objectivos comuns que servem diferentes vontades. É nesse momento que se dão os grandes movimentos da História. Pergunta Tolstoi, aparentemente sem resposta: porque é que os franceses desataram a matar-se uns aos outros a partir de 1789? Obviamente não foi só pela vontade dos homens grandes; é que cada um dos franceses tinha os seus motivos, as suas vontades e a violência servia essas vontades: o servo de matar o senhor, o ateu matar o padre, o comerciante matar o cobrador de impostos, etc. Todos estavam unidos por um objectivo: expressar o ódio por aqueles que consideravam opressores.
2-      Tolstoi parece esquecer que os grandes homens movimentam e manipulam vontades, logo, há toda a legitimidade em destacar o seu papel. Os milhares de soldados que matam outros milhares fizeram-no por vontade própria ou pela vontade de Napoleão ou Alexandre?

Obviamente, estas minhas observações à análise histórica de Tolstoi não impedem que considere esta obra como uma das mais majestosas e brilhantes alguma vez escrita.
Sem dúvida, uma obra genial.


*Imagens retiradas de http://pt.wikipedia.org
(em cima, Alexandre I, Czar da Rússia e Napoleão Bonaparte)

sábado, 2 de agosto de 2008

Léon Tolstoi - A Morte de Ivan Ilitch

Este romance do grande mestre Tolstoi é a prova definitiva de que uma obra-prima não tem de ser um livro volumoso. Em pouco mais de cem páginas nesta louvável edição de bolso, Tolstoi escreve quase tudo sobre a vida. Sim, porque não se trata de um livro (apenas) sobre a morte; como diz A. Lobo Antunes no pequeno e excelente prefácio desta edição, “tudo o que somos [ali] se acha em poucas páginas”.
No entanto, a morte não deixa de ser o centro do livro, ou melhor, da vida. A morte de Ilitch, vista pelos outros, representa a alegria dos que vivem; não só dos abutres que sempre esperam ganhar algo com a morte do outro, mas também por todos os que, perante o fim de Ilitch, sentem a alegria de continuar vivos. No entanto, a morte do outro desperta o medo da nossa própria morte; nesse sentido, agudiza o nosso egoísmo. A curiosidade em tomar conhecimento de todos os pormenores da morte de alguém reflecte a nossa vontade de transferir a ideia de morte para o outro.
Durante o caminho para a morte, ou seja, ao longo da vida, Ilitch vive praticamente obcecado pelo trabalho. Neste aspecto, Tolstoi toca nesse ponto que mais tarde constituirá um dos elementos-chave da obra de Kafka: a perda do sentido da vida entre a rotina e a alienação pelo trabalho. Por outro lado há a competição que arrasta consigo a perda de escrúpulos e a entrada em cena da inveja, transformando a vida numa luta sem sentido. A vida é encarada como um conjunto de elementos alienantes. O próprio casamento não foge à regra: Ilitch vive a sua relação marital como um hábito e um conjunto de obrigações formais e sociais. As relações inter-pessoais, por sua vez, são determinadas pelas exigências das relações de poder e pelas hierarquias. O ser humano é sempre ultrapassado pelo formalismo: a Ilich, enquanto juiz, tal como ao médico que trata a sua doença fatal, interessa mais a formalidade do processo do que a relação pessoal com o ser humano. O médico não trata doentes; trata doenças. O juiz não julga o homem, julga o crime.
Ao longo da doença, Ilitch vai-se transformando num empecilho para os outros. Põe-se aqui em causa toda a natureza essencialmente egoísta do ser humano, causadora da solidão e da carência afectiva que era, ao fim e ao cabo, o maior dos males de Ilitch. Um dos pontos altos desta obra, onde a sensibilidade do autor se exprime com eloquência é o episódio em que Ilitch, quase moribundo e sofrendo atrozmente, apenas encontra alívio quando o criado Guarassim o toca e lhe dedica algum afecto desinteressado. Ele é o único que nada lhe esconde e nada pede em troca. Os outros, todos os outros, escondem a verdade ao moribundo, não por piedade mas por egoísmo e hipocrisia: o objectivo é manter o moribundo afastado, é não se envolver e preservar-se a si próprio.
Perto da morte, resta a solidão – a dor maior! Mas mesmo perto do minuto final, quando as dores físicas e da alma são insuportáveis, Ilitch exclama: “Tudo menos a morte”. É assim a alma humana!
Em suma, trata-se de um verdadeiro tratado sobre a vida. O que é viver bem? Questiona-se Ilitch. O que é uma vida correcta? Qual o padrão a seguir? Terá o mundo o direito de nos dizer como devemos viver e morrer? Talvez cada um de nós deva procurar as suas próprias respostas, para que de repente não nos ocorra aquilo que se passou com Ilitch: “Aconteceu-lhe aquilo que lhe costumava acontecer na carruagem do comboio, quando pensava que seguia para a frente e ia para trás, e de repente descobria a verdadeira direcção”!