quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

TOP 25 - As melhores leituras de 2010

1º. Guerra e Paz - Lev Tolstoi

2º. O Grande Gatsby - Scott Fitzgerald

3º. Ana Karenina - Lev Tolstoi

4º. O Físico - Noah Gordon

5º. Silêncio - Shusaku Endo

6º. Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami

7º. Werther – Goethe

8º. Olhai os Lírios do Campo - Erico Veríssimo

9º. A Terceira Rosa - Manuel Alegre

10º. O Outono em Pequim - Boris Vian

11º. Livro – José Luís Peixoto

12º. Susnset Park – Paul Auster

13º. Jonathan Srange & o Sr. Norrell - Susanna Clarke

14º. O Templo Dourado - Yukio Mishima

15º. Da Mão para a Boca - Paul Auster

16º. A Máquina de Fazer Espanhóis - valter hugo mãe

17º. As Velas Ardem Até ao Fim – Sandor Marai

18º. As Fogueiras da Inquisição – Ana Cristina Silva

19º. A História Secreta – Donna Tartt

20º. Uma Casa na Escuridão - José Luís Peixoto

21º As Pontes de Madison County - Robert James Waller

22º A História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar – Luís Sepúlveda

22º Palácio da Lua - Paul Auster

23º Cão Como Nós - Manuel Alegre

24º Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa

25º Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Livros que me marcaram em 2010

Como estou de férias deu-me para fazer este exercício: escolher de entre os livros lidos em 2010 (99 até ao momento) os que mais me marcaram, por diversos motivos. Assim:

O mais divertido – Flashman, a Odisseia de um Cobarde – George MacDonald Fraser
Lê-se gargalhando :)

O mais triste – Uma Casa na Escuridão - José Luís Peixoto
Triste é dizer pouco. Negro. Belíssimo.

O mais revoltante – O Rapaz do Pijama às Riscas - John Boyne
Uma pequena obra-prima. Está ali toda a maldade humana.

O mais original – O Outono em Pequim - Boris Vian
Um livro inimitável; uma imensa fábula.

O mais sonhador – As Pontes de Madison County - Robert James Waller
Lê-se sonhando.

O mais delirante – Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami
Genial na mistura do misticismo oriental com um intenso optimismo.

O mais difícil – As Cidades Invisíveis - Italo Calvino
Um desafio tremendo. A beleza descobre-se devagarinho, por entre uma linguagem quase codificada.

A decepção – Sensibilidade e Bom Senso - Jane Austen
Que coisa mais chata!

O pior – O Toque da Morte - Stephen Booth
CSI rural.

A revelação – Loucura Azul – Paulo Alexandre e Castro e Jonathan Srange & o Sr. Norrell - Susanna Clarke
Um génio português nascente e um super-policial com muita magia celtica. Lindo!

A confirmação – Livro – José Luís Peixoto
"O" génio.

O mais profundo - A Condição Humana - André Malraux
Para ler, pensar, repensar, reler e recomeçar o ciclo.

A obra-prima (o melhor do ano) – Guerra e Paz - Lev Tolstoi
Impossivel fazer melhor.
Em bereve colocarei aqui o meu top-20.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sunset Park - Paul Auster

Nova Iorque, 2008/2009. Vive-se o colapso económico da América pós-Bush. Numa casa abandonada vivem 4 jovens à procura de um futuro, mergulhados na angústia de um presente sombrio. Bing, Ellen, Miles e Alice, quatro vidas à procura de sentido.
Após cerca de 20 livros publicados, as personagens de Auster continuam a viajar pela vida à procura de uma identidade, de um sentido. Talvez a vida seja mesmo isso, uma procura incessante de algo. Não de um amor, de uma fortuna ou de um projecto. Apenas algo. Algo de indefinido a que se pode chamar um sentido, uma explicação ou uma identidade.
Neste seu mais recente romance, Auster apresenta-se perigosamente à beira da descrença. O seu cepticismo, a sua crítica mordaz à sociedade norte-americana, começam a dar lugar, nas suas últimas obras, à angústia, ao lamento profundo e ao pessimismo. Por toda a obra há um tom pessimista perante a vida; um Auster mais filosófico mas nitidamente mais triste
Mesmo as personagens mais bem sucedidas na vida, como Mary-Lee, não são felizes; há sempre uma insatisfação, uma procura frequentemente frustrante de algo. Uma fuga. Fuga que Ellen encontra no corpo e na pintura; Bing nas coisas velhas; Alice no cinema.
Bing Nathan procura consertar o presente ressuscitando o passado, no seu hospital das coisas velhas. Alan e Jake personificam um amor que conduz ao tédio no qual se dilui: o amor não dá felicidade quando não há desafios; quando não há esperança. Apenas rotina e sobrevivência. O drama da rotina, da vida gasta no trivial. É por isso que as personagens de Auster vivem inquietas. Como o autor.
Ellen é a imagem da solidão; o amor que não existe até surgir a esperança. A sexualidade reprimida. Não há futuro.
Miles é personagem principal que viveu o drama e a culpa de um trágico acidente do seu meio-irmão. É por isso que a vida dele é uma fuga. Uma fuga ao passado e ao presente, onde só Pilar representa a esperança que é a força da vida. Para trás terá de ficar essa velha e maior inimiga da vida: a culpa.
Morris, pai de Miles, proprietário de uma grande editora à beira da falência: o lamento por uma sociedade que não lê, uma sociedade que cultiva a ignorância.
Bing Nathan, personagem aparentemente feliz na sua vida “marginal”, mesmo sem nunca perder o seu peculiar bom humor e a sua força de espírito, o seu gosto pela vida, cria a sua própria insatisfação através de um sentimento perturbador: quando tudo o resto corre bem, o coração encarrega-se de procurar a infelicidade.
No entanto, a Beleza também existe em Sunset Park: a solidariedade entre os habitantes de Sunset Park; a tremenda lição de amizade que aí se vive. E a força que vem de dentro de quem nada tem: “eu tornei-me viciado na luta” (Miles).

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NATAL FELIZ, com música :)

Amigos, tal como no ano passado venho desejar-vos Boas Festas com aquela que é, para mim, a melhor música de Natal de todos os tempos.
Com um cheirinho de alma celta, um delicioso perfume punk e duas vozes fantásticas, meus senhores e minhas senhoras, meninos e meninas... os fabulosos POGUES:

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Templo da Glória Literária - Miguel Almeida

Partindo de mim para além, de lá para a mim retornar sempre.

É assim a poesia, uma viagem do interior para além de limites imagináveis.
Porque nada é póstumo, os Imortais vivem e escrevem neste livro de M. Almeida, transportados pela voz da sua caneta.
No entanto, não são os poetas Imortais que falam pela voz de M. Almeida; é M. Almeida que se faz ouvir (por vezes gritando outras gemendo ou ainda sussurrando) na escrita do poeta de hoje.
É a voz viva do poeta vivo, vivo como os Imortais que se ouvem também eles. Homero em uníssono com Sophia, Solon de mãos dadas com Cesariny.
Vivos, todos vivos.
Mortos são alguns que vivem e não cantam nestas trovas.
E é com os Imortais que M. Almeida vive porque se faz ouvir neste livro.
Ler este livro é expor corpo e alma ao contágio. Sim, a poesia é contagiosa: dos Imortais para M. Almeida; de M. Almeida para quem lê.
É um contágio que liberta porque poesia é liberdade.
A poesia é a “dor do deus” (pg. 84)…

Este é o primeiro livro de poesia que coloco neste blogue. Se exceptuarmos alguns poemas de Fernando Pessoa, posso dizer que não gosto de poesia. Nunca gostei. Mas adorei este livro, que é um livro de poesia. Porquê? Não sei… talvez porque a poesia de M. Almeida me tenha dado este prazer imenso de viajar pelos Imortais mas também pelas palavras e pelos sons.
Sim, os sons; as letras de M. Almeida soam por vezes como música. Como disse Fernando Pessoa, citado neste livro: “a poesia é uma música que se faz com ideias e por isso com palavras”.
De resto, fica a liberdade.
Almeida escreve como quem voa.
As palavras viajam e as nossas ideias sobrevoam a alma de quem escreve.
Passeiam pela sabedoria da Grécia antiga, num tributo (que nunca pagaremos totalmente) aos clássicos.
Uma sabedoria que em excesso já não é sabedoria; é talvez prazer ou poesia.
Com os Imortais vivemos ao longo das páginas.
Com exaustão; a vida “esmurrando o amor” (pg. 51).
O amor… o delírio dos poetas… mas muito acima disso há a vida!
E a poesia de M. Almeida é, acima de tudo, uma poesia viva.
Livre.

(Também publicado no blogue Destante)

domingo, 19 de dezembro de 2010

As Velas Ardem até ao Fim - Sándor Márai

Este é um livro triste mas profundamente poético. Um verdadeiro tratado sobre a amizade, como afirmou Inês Pedrosa. A prosa de Márai é construída sobre um discurso tranquilo, melódico, profundo. Se dúvida uma escrita sentida e sofrida.
Durante a segunda guerra mundial, num velho castelo da Hungria, um antigo general de 73 anos, Henrik, espera Konrad para com ele ter uma última conversa. Konrad havia sido mais que o seu melhor amigo. Tinha sido um autêntico irmão até ao momento em que, 41 anos antes, algo dramático os separou. Um grande e terrível segredo ia agora ser enfrentado pelos dois. Todo o valor da sua intensa amizade e todo o significado do intenso amor por Krisztina seriam agora sopesados nesta derradeira batalha que os dois enfrentarão.
A tragédia de Henrik levara-o ao imobilismo; uma inacção que é uma espécie de morte em vida. Essa espera, esse nada-fazer, essa morte voluntária, talvez seja a tragédia maior para o ser humano. É uma recusa total da vida, como se depois da tragédia nada mais valesse a pena. Talvez a razão maior da infelicidade humana seja esta incapacidade em prosseguir os caminhos da vida quando não se consegue compreender e aceitar aquilo a que, comodamente, chamamos destino; esta incapacidade para encarar o presente, sem deixarmos que ele se sobreponha aos desaires do passado. E depois fica a procura da culpa; a busca tão inútil quanto irresistível da culpa. E é a vida que fica, inexoravelmente, para trás.
Henrik interrompeu a sua vida aos 32 anos e esperou mais 41 para terminar esse julgamento; e, no final, não culpou Konrad nem Krisztina; culpou o destino. 41 anos depois, Henrik procura apenas lavar a verdade com palavras; com a catarse da memória. Perante Konrad, resta-lhe enfrentar a memória. Mas nada apagará 41 anos de solidão, que é uma espécie de morte.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Papisa Joana - Donna Woolfolk Cross

Lenda ou verdade histórica? Ninguém pode dar uma resposta definitiva mas há indícios claros de que, realmente, uma mulher tenha chegado ao trono de S. Pedro, no século IX. Donna Cross explora primorosamente esses indícios para construir um magnífico romance histórico. Conta-se a aventura de Joana, uma menina nascida e criada na actual Alemanha, numa região martirizada pelas invasões estrangeiras, nomeadamente os normandos (vikings) os saxões e os francos. Na altura o império franco, liderado pelo grande Carlos Magno era a maior potência da época e tentava dominar a Europa em nome da fé cristão.
O pai de Joana, padre casado como era vulgar na época (o celibato só se tornou obrigatório no séc. XVI) era um homem terrivelmente severo. Joana sofreu as consequências desse fanatismo e toda a sua vida será marcada por uma luta incessante pela justiça e pelo verdadeiro espírito cristão.
Na verdade, a religiosidade medieval era envolvida num verdadeiro obscurantismo e pejada de preconceitos por vezes cruéis, como a recusa de quaisquer direitos à mulher, transformando a sua vida num verdadeiro martírio como serviçal dos homens, por se considerar desprovida de inteligência.
O modelo de vida propagado pela Igreja Católica era bem claro nesta máxima do teólogo Alcuíno: “a vida é alegria dos bem-aventurados, o desgosto dos infelizes e uma busca da morte”. A miséria e a infelicidade do povo eram vistas, portanto, como algo de natural. Os ténues raios de luz que se enunciam sob a forma de conhecimentos “científicos” são reprimidos. A razão é considerada inimiga da fé porque leva os homens a questionar. E questionar é mau; é perigoso para a estabilidade do modelo social e político vigente, assente na desigualdade. Joana tinha pela frente um desafio enorme: questionar a tradição, questionar os dogmas, nomeadamente aquele que considerava as mulheres inferiores e impuras.
Joana pode até ser uma figura apenas lendária. Mas é um símbolo de milhões de mulheres e de homens que lutaram contra o obscurantismo. Esta luta é bem patente na frase que Joana formula no seu pensamento quando é impedida pelo terrível Odo, o professor de ter acesso aos livros: “Vá, põe grades na tua biblioteca. Não podes pôr grades no meu pensamento.”
Em conclusão: trata-se de um romance histórico de grande qualidade literária, talvez apenas superado pelo Físico de Noah Gordon e pelo insuperável O Nome da Rosa, de Umberto Eco.
Acima de tudo, é um hino ao conhecimento e um merecido tributo ao papel da mulher na história da humanidade, tantas vezes esquecido em nome de preconceitos que ainda hoje subsistem. Para nossa vergonha!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto - Mário de Carvalho

Dois desiludidos da Revolução: Jorge, o intelectual decepcionado, escritor mas apenas professor e Joel, apenas funcionário, anónimo da classe média, desiludido com tudo. Um homem que se defende da vida escondendo a esperança.
A uni-los, além da desilusão, a mentira envergonhada de uma filha, a de Jorge, missionária e um filho, o de Joel, preso por tráfico de droga. Destinos semelhantes, afinal. Alienados, na visão dos pais.
Grande parte da genialidade deste romance reside no facto de Mário de Carvalho expor de forma bem-humorada uma visão extremamente pessimista da realidade: o saber é desprezado em benefício da imagem, as ideologias são submetidas às conveniências, aos interesses pessoais, o mérito é substituído pelo arrivismo oportunista. Exemplo maior deste profundo lamento é a crítica irónica mas mordaz ao Partido Comunista (o livro foi publicado em 1995) onde o ingénuo Joel quer inscrever-se mas depara com os maiores obstáculos, devido ao elitismo ideológico e à sua fiel guarda-costas, a burocracia.
Mário de Carvalho é um escritor único. Ainda por explicar está o facto de não ser normalmente incluído entre os grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea. Talvez porque Mário de Carvalho não gostasse de vir a ser homem de Panteões; talvez porque nunca tivesse desejado ser escritor de guiões de telenovelas disfarçados de romances de 500 páginas; talvez porque os nossos sorumbáticos, sisudos, sonolentos e cinzentos críticos literários não gostem de quem sorri escrevendo. Talvez os nossos Torquemadas da literatura não apreciem o riso. Afinal de contas esse é uma das grandes marcas da nossa História: o riso é a antecâmara do pecado. É sempre preferível a serenidade, a paz do estar bem com todos.
Mário de Carvalho é talvez o melhor escritor português contemporâneo no domínio da ironia e da crítica social e política. Muito do pior que há em nós está nos seus livros: um clericalismo pacóvio retratado aqui, por exemplo, pelo bispo de Gundemil que mordeu um cão e um espírito revolucionário moribundo, abafado pelas leis da ordem mas também auto-castrado, degenerado em ideais anacrónicos e ambições líricas de poder. E a imprensa, o tal poder paralelo aqui representada por Eduarda Galvão, repórter de uma revista aspirante ao estatuto da “Maria”.
Mário de Carvalho escreve sorrindo. Um sorriso ora trocista, ora deleitado com a sua própria criação, ora acompanhando um piscar de olhos ao leitor com quem mantém um permanente diálogo cúmplice.
Para terminar deixo-vos aqui a advertência com que o autor inicia o seu livro e que diz muito do seu conteúdo:

Advertência:
Este livro contém particularidades irritantes para os mais acostumados. Ainda mais para os menos. Tem caricaturas. Humores. Derivações. E alguns anacolutos.

Está tudo dito!

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Deus das Pequenas Coisas - Arundhati Roy

Só nas Pequenas Coisas residem os laivos de luz a que poderemos, talvez, chamar felicidade. Velutha, o Deus das Pequenas Coisas, intocável e Ammu, tocável amaram-se entre as coisas pequenas, na margem de um rio, entre insectos e ervas, ódios e intolerância e foram felizes nesses laivos de luz. Isto aconteceu antes de as Grandes Coisas tecerem os destinos: as castas, imposição sagrada; Deus e a Ordem; Tradição e Devoção; desgraças, destinos trágicos que só as Grandes Coisas podem dar à vida.
A Índia, terra de tradições, religião, ditaduras e outras grandes coisas é o cenário de amores proibidos. Rahel e Estha, irmãos gémeos, felizes nas pequenas coisas que o amor de irmãos envolve, desenharão destinos trágicos nos vestidos brancos, europeus, puros, perfeitos, chiques, de Sophie Mol, a prima perfeita. E todos os destinos se desenharão em torno da menina perfeita a quem os peixes comerão os olhos.
O Deus das Pequenas Coisas é um livro estranho. Numa escrita profundamente simbólica, por vezes enigmática, onde se entrevêem traços nítidos de William Faulkner, o leitor é embalado numa escrita de enredo por vezes tortuoso, de onde sobressaem algumas ideias já desenvolvidas por Aravind Adiga: as desigualdades sociais como consequência das tradições hindus, agravadas pelas consequências do sistema capitalista. A civilização europeia continua, no entanto, a ser vista como um modelo, um ideal a seguir no comportamento social, fruto de uma colonização inglesa que deixou raízes profundas, que conseguiu enquadrar a Índia no esquema de superioridade colonialista. Ao longo do livro é constante o lamento de Roy perante os graves problemas da Índia moderna: as injustiças sociais, os abusos de poder, a corrupção, a exploração e abusos de crianças, a violência sobre as mulheres, a falta de higiene pública e privada, a desorganização geral ao nível social e político, etc. etc.
Por outro lado, o marxismo e o cristianismo, aparentes instrumentos de revolta, não conseguiram pôr em causa a realidade vigente porque também eles são elementos estranhos, impostos pela velha Europa.
O amor e a história romântica de Ammu e Velutha, bem como os laços profundos de amor entre os gémeos, surgem como uma espécie de fuga para o real; um esconderijo nas pequenas coisas. Os dois gémeos vivem um mundo muito próprio, entre os encantos que a inocência infantil proporciona e um mundo reservado de segredos, de vida nos limites do permitido pelos adultos, porque só a proibição dá encanto à busca da felicidade.
Ao longo do livro, as súbitas e constantes mudanças de cenário bem como de tempo narrativo tornam por vezes a leitura difícil, sem que o leitor tire grandes benefícios desse esforço que lhe é imposto. Os saltos cronológicos parecem claramente excessivos e muitas vezes desnecessários.
Por outro lado, esta técnica narrativa torna a acção demasiado lenta. Alguns episódios, como a espera por Sophia Mol arrastam-se por dezenas de páginas sem que se vislumbrem vantagens dessa lentidão. Assim, a leitura chega a tornar-se enfadonha.
É por isso que este é um livro estranho: saturante, fastidioso mas também recheado de uma rara beleza de linguagem e com um final belíssimo, de uma beleza que só a tristeza pode proporcionar.
(Texto também publicado no blogue DESTANTE)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Primeira Noite - Marc Levy

(também publicado no blogue Destante)
Fascinante! O mínimo que se pode dizer deste livro é que se trata da prenda ideal para este ou para qualquer Natal.
Não é por acaso que Marc Levy é o escritor francês que mais livros vende, um pouco por todo o mundo.
Esta é uma obra empolgante, delicada, emocionante e cheia de significado. Não se trata apenas de um livro de aventuras nem de uma história de amor; é uma epopeia recheada dos mais belos sentimentos humanos, um livro cheio de romantismo.
O astrofísico Adrian, e Keira, arqueóloga, percorrem o mundo em busca de quatro fragmentos de um estranho objecto com quatrocentos milhões de anos. Esses achados poderiam revolucionar por completo toda a história da vida na terra e todo o rumo da humanidade. Nessa intensa aventura contam com o apoio de Ivory, um velho professor de Etnologia e Walter, gestor da Real Academia de Ciências de Londres. No entanto, uma misteriosa organização liderada pelo enigmático Lord Ashton tudo fará para os impedir.
A narrativa faz-nos viver mundos maravilhosos, como o dos antigos Sumérios, o fascinante povo da Mesopotâmia que inventou a escrita.
Por entre aventuras, desventuras, perigos e actos de heroísmo, o enredo não deixa de nos suscitar profundos motivos de reflexão: por mais que a ciência evolua, por mais rigoroso que seja o conhecimento científico, nunca conheceremos tudo. E o ser humano tem uma profunda dificuldade em aceitar a impotência do saber; daí que, muitas vezes o incompreensível seja confundido com superstição. Tudo o que contraria o saber estabelecido (que é necessariamente limitado) é visto como perigoso porque contraria as pobres verdades que o ser humano teima em considerar inabaláveis. Aquilo que Adrian e Keira descobrem é perigoso porque desafia esse conformismo.
É por isso que este livro é também um belo hino ao infinito… o nosso conhecimento talvez não seja mais que um magro tesouro que guardamos religiosamente; e nós talvez não sejamos mais que um grão de areia no Universo. Um Universo infinito como amor de Adrian e Keira; infinito como a amizade de Adrian e Walter; infinito como o fascínio que um livro como este nos desperta e nos aprisiona até ao fim…

sábado, 4 de dezembro de 2010

Hoje Não - José Luís Peixoto

Todos os livros de José Luís Peixoto são diferentes. Dos outros e uns dos outros. Neste há smiles risonhos :), uma jovem freak que herda um avião comercial, gente a quem caem os dentes todos de uma vez e por mais de uma vez, um escritor falado na primeira pessoa que confessa escrever em nome de outro (sem que esse outro sequer os leia), smiles tristonhos :(, uma mulher peluda que destroça corações, uma mancha de iogurte nas calças de alguém que por causa disso arruína a sua vida, uma poetisa do Quirquistão e muito mais coisas inauditas que acontecem na vida de qualquer pessoa normal.
O livro é composto por seis contos. O primeiro deles é um verdadeiro hino ao sonho. Uma jovem herda um avião comercial e funda a Legalize Airlines. Só fará um voo. Não terá um único cliente. Não ganhará um tostão. Mas o sonho, esse, realizou-o.
O conto “:) e :(“ é uma história de amor. Uma história desgraçada. Catastrófica mas que, nem assim, destrói a esperança. Não há desgraça que sempre dure e talvez até haja desgraças maiores do que estar apaixonado. Talvez pior que o amor seja a queda de todos os dentes, como acontece com o herói do conto “Biografia sem dentes”.
Versatilidade. É a palavra chave deste livro de Peixoto, um escritor capaz de nos surpreender em cada parágrafo. Um livro pequenino, que se lê de um fôlego e sempre com um sorriso. Quem ler Cemitério de Pianos, Morreste-me e Uma Casa na Escuridão será incapaz de imaginar que Peixoto tem um sentido de humor como o que expõe aqui, brincando com o leitor, como no conto “Fantasma Escritor” em que um jovem escritor, descrito como se do próprio Peixoto se tratasse, se revela apenas um impostor que publica livros escritos por um respeitável e anónimo ancião.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

(intervalo)

Olavo Bilac (Santos & Pecadores), Nuno Guerreiro (Ala dos Namorados), Tozé Santos (Perfume) e Vítor Silva - quatro grandes músicos juntaram-se para lembrar à malta que o Zeca não morreu nem nunca morrerá.
Uma letra cada vez mais actual! Para nossa desgraça, os "fachos" continuam por aí.

BOM FIM DE SEMANA!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A melhor leitura do mês - Novembro

Silêncio - Shusaku Endo
Um escritor cristão no Japão é difícil de encontrar (os cristãos constituem 1% do total de japoneses). Mas Endo não é apenas um escritor cristão japonês. É um génio, só comparável a Mishima ou a Murakami.
Silêncio. O silêncio de Deus perante as atrocidades dos homens... Neste livro, Shusaku Endo aborda um fenómeno histórico que nos diz muito: a missionação. Com uma clarividência incrível, com uma neutralidade impressionante, com um estilo claro, objectivo, fácil, Endo conta-nos a história impressionante de um padre português no Japão do século XVII, perseguido pelos impiedosos governantes nipónicos, pelos intolerantes samurais mas mostra-nos também que a razão nunca está só de um lado. Às vezes, praticar o bem é um acto discutível; às vezes o bem de uns não serve para os outros… às vezes é difícil ser tolerante. Os japoneses não foram tolerantes com os nossos missionários. E nós, fomos?
Seguramente o melhor livro que li em Novembro e um dos melhores de 2010.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A Relíquia - Eça de Queirós

Muitos anos depois, à procura de um pouco do ar sempre fresco de uma escrita imortal e inimitável, voltei ao bom velho Eça! Reler Eça é respirar o ar sempre fresco de finíssima ironia, de sátira bem humorada, de crítica mordaz mas sempre divertida.
Uma das coisas que mais impressiona neste romance é a forma como Eça exprime com bom humor, que por vezes leva à gargalhada do leitor, uma visão terrivelmente pessimista do Portugal oitocentista decadente. Eça abomina a beatice extrema, quase insana da titi, D. Patrocínio mas apresenta-nos essa crítica em forma de caricatura bem disposta. Eça abomina a hipocrisia de Teodorico que, para ganhar o direito à herança da titi, se transforma em falso beato, mas descreve-nos esse carácter abjecto num tom de autêntica comédia.
É esta a arte maior de Eça: a capacidade de transformar a critica em comédia.
O livro narra as aventuras e desventuras de Teodorico, um jovem criado num meio profundamente conservador, povoado por um cristianismo hipócrita e beato. Depois de ficar órfão, o jovem é acolhido pela tia Patrocínio, uma mulher obcecada pela religião, que abomina não só o sexo como qualquer actividade mundana. Teodorico, interessado acima de tudo na herança, bajula a titi de uma forma desmedidamente hipócrita. Quando um dos padres que frequenta a casa da titi sugere uma viagem de Teodorico à Terra Santa, este aproveita a oportunidade para “matar dois coelhos com uma cajadada”: por um lado aproveitará para gozar todos os prazeres da carne ao mesmo tempo que procurará trazer à titi a relíquia sagrada que, acredita ele, lhe garantirá de vez a famigerada herança. Mas nem tudo correrá como o previsto…
Para além da referida perspectiva crítica, por demais conhecida em Eça, este livro mostra-nos o Eça viajante: a viagem à Terra Santa é descrita com impressionante riqueza descritiva e recorrendo a um exotismo fantástico que conduz o leitor por paisagem e situações verdadeiramente encantadoras.
Em conclusão: trata-se de um livro divertido, bem claro na crítica mordaz ao Portugal do século XIX mas que não deixa de nos convidar a reflectir sobre questões que serão sempre actuais, como o exagero a que pode conduzir a ambição material, capaz de derrotar quaisquer princípios éticos, a vacuidade de uma educação baseada apenas em princípios de religiosidade extrema ou o peso do preconceito, irmão gémeo da ignorância na sociedade portuguesa de ontem e, já agora, de hoje… é que, pelos vistos, o Portugal de Eça está vivo…

domingo, 28 de novembro de 2010

Loucura Azul - Paulo Alexandre e Castro

Loucura Azul é um livro surpreendente, uma espécie de aparição, num tempo em que as editoras apostam em literatura fantástica ou de cordel. Sem deixar de contar um estória com emoção e mistério, que prende o leitor até ao final, o autor leva-nos a reflectir sobre questões que avassalam a alma humana.
Tudo se desenrola em torno de um pintor em dificuldades, Maurizio, que se apaixona por uma professora universitária, Sylviane. Juntos experimentam uma intrigante história, em busca de compreensão da natureza humana.
O corpo está sempre no centro da vida; da experiência quotidiana às situações aparentemente mais bizarras, a viagem envolve prostitutas de rua, linhas eróticas, sex-shops, pensões sujas de encontros ocasionais, etc. Tudo o que possamos apelidar de sub-mundo do sexo não é mais que o campo de batalha onde se desenrola a luta entre a vida e a loucura.
“Quero viver tudo”, afirma Sylviane. Mas… até que ponto é possível “viver tudo” sem colocar em causa esse último reduto de segurança, onde vive o amor, essa reserva, esse refúgio?
Com Vladimir, o pretenso espião russo que cai aos trambolhões na vida de Maurizio e Sylviane, atinge-se o auge da loucura. Mas os corpos do prazer são também os corpos que matam e morrem; o amor e o ódio; o prazer e a violência; o orgasmo e a morte; loucura azul e loucura vermelha… Impossível compreender. Extremos que se tocam mas permanecem: as contradições resistem sempre. Torturam Maurizio. Torturam-nos. “Se ao menos a filosofia fosse descartável”, diz Mauirizio; se ao menos pudéssemos não pensar, seguir em frente sem compreender… “se ao menos eu conseguisse amar-te sem te ter…” se ao menos a vida pudesse ser só a vida…
Perante o cadáver de Vladimir, explana-se o horror da loucura vermelha: a beleza do cadáver; a “beleza do horror, sangue e húmus da vida”.
A mente de Maurizio, cada vez mais alucinada vai-se afastando da realidade, criando um mundo paralelo onde os pesadelos se confundem com o real; a fronteira do irreal torna-se cada vez mais ténue.
Este livro é um constante desafio aos limites: limites do corpo e da alma; do prazer e do sofrimento, do amor e da morte. Mas por mais eloquentes que sejam as construções teóricas, o corpo permanecerá. A loucura azul dará lugar ao vermelho, talvez vermelho de paixão desmedida ou, fatalmente, de sangue, vermelho-forte de Marte, o cruel Deus da guerra.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A Casa de Papel - Carlos María Domínguez

A Casa de Papel é um livro sobre pessoas que vivem para os livros; pessoas cujos destinos se cruzaram sobre livros, cujas vidas ficaram marcadas por essa paixão inexplicável e maravilhosa.
Há destinos que se desenham em torno de um livro; vidas determinadas por um romance que alguém escreveu sobre papel e que outro alguém escreve sobre os dias e noites do destino.
Mas também há livros que mentem; que enganam e magoam; livros falsos, escritos sem alma. Mas não é desses que vive quem lê por paixão.
Carlos Brauer, leitor compulsivo, incurável, adicto, afirmou: “os livros são a minha casa”. E um dia levou essa máxima à letra e fez uma casa com livros. Livros e cimento. Sonhos de papel e betão. Uma casa sonhada e vivida, sobre as areias da paixão que o possuiu. Das paixões que o devoraram: os livros e Bluma, a mulher que o marcou sobre a Linha da Sombra, de Conrad.
Carlos Brauer, também ele, atravessará a sua Linha da Sombra; muito para lá de uma vida confinada ao real; uma vida que construiu sobre o fantástico mundo dos livros.
Este é um livrinho fantástico: lê-se de um fôlego, enche a alma de sonho mas deixa um sabor amargo a pouco.
Mas quem lê esta pequena obra-prima ficará sempre com a certeza de que os livros unem pessoas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Centelhas - Hyatt Bass

(Texto também publicado no blogue Destante)
The Embers, no seu título original (As Cinzas), primeiro romance de Hyatt Bass, aparece-nos nesta edição da Civilização Editora sob o título de Centelhas. Esta diferença pode apelar para diferentes interpretações do livro; na verdade, o drama da família Ascher pode ser visto, como tudo na vida, sob dois prismas diversos: o catastrofista, que parece emanar do título original e o optimista que pode ser lido a partir da interpretação do título português. Um drama tão profundo como o que se narra no livro não deixa de envolver centelhas de vida, brilhos momentâneos que emergem das cinzas de vidas desfeitas.
Trata-se de um livro interessantíssimo sobre coisas invulgares que acontecem em todas as famílias vulgares.
Os Ascher eram uma família feliz da classe média/alta norte-americana; Joe é dramaturgo, numa carreira com altos e baixos onde os picos não compensavam os vales mas que lhe permitiam uma vida desafogada; Laura é actriz e mãe de família dedicada; Emily é uma adolescente rebelde que vive de forma intensa os dramas familiares; mas o mundo dos Archers desaba quando Thomas morre com apenas dezassete anos.
No entanto, a morte do jovem não é o único drama. Tudo se desenrola como se este acontecimento trágico trouxesse à superfície outros dramas, entretanto calados, escondidos sob a capa vulgar de um quotidiano apressado e muitas vezes fútil.
Neste ambiente sobressai a apurada capacidade de Bass para pintar um quadro perfeito do perfil psicológico dos personagens. Na minha opinião de leitor destaca-se a figura der Joe, o chefe de família.
Joe é um homem amargurado, pelo remorso, pela culpa que o avassala no que respeita à morte de Thomas mas, ainda mais, pela sua personalidade egocêntrica e muitas vezes demasiado atenta à futilidade e ao materialismo. O drama de Joe é este: eu conheço os meus defeitos e limitações, no entanto não consigo ultrapassá-los e, pior ainda, gosto de ser assim. Dessa forma, a mente conturbada de Joe navega entre o que é, o que foi e o que gostava de ter sido.
Numa leitura mais apressada, este livro pode ser lido como um panfleto dos valores familiares tradicionais; mas é muito mais que isso: o livro problematiza e põe em causa toda a natureza das relações que estabelecemos com os outros e a dificuldade em coordenar a procura da felicidade com a necessidade de valorizar os que nos rodeiam.
O estilo é simples, directo, sem subterfúgios nem figuras de estilo desnecessárias, pelo que se lê com agrado e a bom ritmo. Enfim, uma boa surpresa da Editora Civilização.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Silêncio - Shusaku Endo

Shusaku Endo, falecido em 1996 foi um dos mais conceituados escritores japoneses do século XX. Nesta obra, Silêncio, aborda um tema polémico e profundo, que tem muito a ver com a nossa história: o trabalho dos missionários portugueses no Japão, nos séculos XVI e XVII. O livro narra a história do Padre Rodrigues, um jesuíta português que partiu para o país do sol nascente procurando um outro missionário, o padre Ferreira de quem se dizia ter apostatado, ou seja, renegado a fé cristã.
A época era de intolerância; enquanto em Portugal e noutros países cristão se perseguiam e queimavam judeus nas fogueiras da Inquisição, no Japão eram os cristãos vítimas de perseguição impiedosa por parte das autoridades locais, que pretendiam manter o povo fiel ao Xintoismo e ao Budismo vigentes.
Mais interessados no negócios do que no cristianismo, os japoneses começaram por aceitar benevolamente a presença portuguesa, tendo os jesuítas, liderados por S. Francisco Xavier, conseguido converter milhares de japoneses. Mas no século XVII tudo se modificaria, em parte pela influência que os holandeses ingleses (protestantes e rivais dos portugueses) moveram junto das autoridades japonesas. Inicia-se então um período de intensa e cruel perseguição, em que os padres missionários e os fiéis eram punidos com castigos arrepiantes e submetidos a torturas inacreditáveis.
No entanto, a questão fundamental não radicava apenas na falta de tolerância. A questão fundamental que Endo coloca ao narrar a incrível história do Padre Rodrigues é a incapacidade que os seres humanos revelam para enquadrar as crenças num espaço cultural próprio, sem o qual elas se revelam inférteis. Como afirma um samurai japonês, o cristianismo era como uma árvore transplantada para um terreno infértil. Impor, mesmo que por benevolência, uma determinada crença é um acto institucional, mais do que de consciência. A Igreja como Instituição nunca conseguiu compreender devidamente este fenómeno: o conceito de BEM, por mais universal que possa ser, não é compatível com normas institucionais que se pretendem universalizar.
Nessa medida, a obra de Endo não perde actualidade nos nossos dias; vemos com frequência governos actuais tentando impor o nosso conceito de bem, de democracia, de liberdade sem ter em conta as realidades culturais diversas com que nos deparamos. E nós, no nosso quotidiano, quantas vezes não recorremos a argumentos como estes: “isto é bom para ti”, sem ter minimamente em conta a realidade do outro? Até que ponto o nosso conceito de “bem” ou de “bom” deixa de ser uma ideia subjectiva?
Enfim, um livro que foi para mim uma excelente surpresa, pela sensibilidade que revela sobre um assunto tão complexo e intemporal. O estilo, bastante claro e acessível, faz deste livro um verdadeiro manual de tolerância universal.
Aguarda-se para breve a adaptação deste livro ao cinema pela mão do conceituado Martin Scorcese.
Acima, além da capa da edição portuguesa da D. Quixote, incluo a da edição francesa pela sua magnífica qualidade gráfica.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Estorvo - Chico Buarque

Há uns tempos, Chico Buarque dizia que quando escreve procura sentir a música das palavras. Músico genial, ele expressa nesta obra, através das palavras, toda a musicalidade que lhe vai da alma à caneta. As letras volteiam em frases de melodia melancólica; a escrita em si, as palavras simples e sentidas são, por si só prazer em estado puro para quem lê.
Para quem, como eu, havia lido Budapeste há pouco tempo, este livro é uma agradável surpresa. A dimensão poética da escrita transforma o acto de ler num exercício de prazer, mau grado toda a melancolia, toda a tristeza que estas letras exprimem.
Em Budapeste, Buarque construiu um enredo com o qual pretendeu ilustrar as suas ideias; em Estorvo, Buarque deixa fluir essas ideias, sem se preocupar com grandes tramas narrativas.
Conta-se a história de um homem só na grande cidade, desintegrado de um meio onde predomina a exterioridade, a vaidade e o materialismo. A futilidade das classes superiores, da alta burguesia a que a sua família pertence, contrasta com a miséria que alimenta o crime. Entre uma família fútil, de corações entorpecidos pela fortuna e uma horda de criminosos com os quais se envolve, o nosso personagem deambula na solidão, na incerteza, na falta de identidade.
Ele vive em permanente equilíbrio precário entre o sonho e a vigília, o real e o pesadelo, a inquietação e o medo, sempre na margem do mundo. Vítima da modernidade, ele narra-nos os seus dramas submetendo a eles todo o percurso narrativo, num monólogo interior em que narrador, personagem e autor se misturam.
Perde-se o sentido da vida; perdem-se as raízes do ser…
A cidade transforma-se num imenso deserto, onde tudo perdeu o sentido.
Podemos dizer que este livro é a expressão máxima da solidão humana.
Sem dúvida um livro cheio de beleza literária onde faltará, porventura, uma estrutura narrativa capaz de enredar o leitor naquilo que a maioria de nós procura num livro: uma estória. Estorvo não é uma estória: é a alma de um homem que é estorvo no mundo. Ou melhor, a estória de um mundo que é estorvo para um homem.
E para todos os que, como eu, idolatram o GÉNIO que enfrentou a ditadura com as letras, aqui fica uma das coisas mais GENIAIS alguma vez escrita e cantada:

terça-feira, 9 de novembro de 2010

After Dark, Os Passageiros da Noite - Haruki Murakami

Fascinante.
Maravilhoso.
Alguém escreveu há tempos uma frase que define na perfeição esta obra de Murakami: “Um livro magnificamente estranho”. Impossível definir melhor esta viagem pela noite e pelo maravilhoso mundo das personagens fascinantes do grande mestre japonês.
A calma e o fascínio da noite que escondem mistérios impenetráveis… a noite de Van Gogh… Mari e Takahashi vagueiam na noite de Tóquio confrontando-se com sensações únicas, acontecimentos inauditos, dramas silenciosos: uma prostituta agredida violentamente, um funcionário exemplar mas envolvido no crime, uma banda misteriosa em que Takahashi toca trombone. E do outro lado da noite está Eri, a irmã de Mari. Eri dorme profundamente; um televisor ligado absorve-a no sonho; uma câmara de filmar guia-nos no pesadelo de Eri; tudo é possível na noite, até mesmo o sonho. Até mesmo a fuga para dentro de nós mesmos, como Eri.
Murakami tem esta fascinante capacidade de escrever a paz entre o drama, de exprimir a vida atordoante dos nossos tempos entre o misticismo envolvente do espírito japonês. A magia da calma, da paz, entre os dramas mais violentos. E por todo o lado, a música, essa paixão de que Murakami não prescinde; os sons calmos que acompanham a noite.
No início do livro, uma lenda japonesa dá o tom: três irmãos, perdidos numa ilha desabitada, preparam-se para subir uma montanha à procura de um local para se fixarem; um Deus ordena-lhes que transportem um rochedo. Um fica junto do rio onde há imenso peixe; outro fica a meio da montanha onde dispõe de frutos e algum peixe. Mas nenhum deles poderá ver o mundo. O terceiro sobe até ao topo da montanha; aí terá dificuldade em arranjar alimento mas verá o mundo por inteiro. Estas são as opções da vida. Nós, a maioria, preferimos a segurança do sopé. Poucos transportam o rochedo para o alto. Alguns, como Mari e Takahashi vivem para ver e viver o mundo do alto da montanha; outros, como Eri, dormem e sonham.
Em suma, mais um livro maravilhoso de Murakami, cheio de mistério e encanto. Um livro que se lê sem esforço e que penetra fundo na nossa alma.
Ninguém permanece igual depois de ler Murakami. A sua escrita mexe-nos na alma e deixa-nos impávidos perante o fascínio de uma simplicidade transcendente.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Disco de Jade - Os Cavalos Celestes - José Frèches

Ainda pouco conhecido entre nós, José Frèches é um escritor francês que se iniciou na ficção aos 52 anos, com uma trilogia (O Disco de Jade) em que este volume (Os Cavalos Celestes) é o primeiro número.
Surpreendente é o melhor adjectivo para caracterizar esta narrativa. Emocionante, exótica, bem escrita, num estilo por vezes poético, outras filosófico mas sempre objectivo, com um ritmo narrativo excelente, que prende o leitor até à última página e deixa “água na boca” para os números seguintes.
Trata-se de uma história colossal, que se desenrola no misterioso mundo oriental, mais exactamente durante a afirmação do reino de Qin que viria a dar origem à actual China, no séc. III a. C.
Narra-se a vida de Lubuwei, um mercador de cavalos muito rico que compra por preço exorbitante um magnífico disco de jade que, julga ele, lhe trará a fortuna e a imortalidade. A partir daí o destino de Lubuwei cruza-se com a vida das grandes senhores de Qin, o rei, a família real, os nobres e altos funcionários, os eunucos que procuravam controlar a corte e uma miríade de personagens que procuram a qualquer preço alcançar o poder. O reino de Qin passava por uma dramática escassez de cavalos e o nosso herói encontra assim terreno fértil para se afirmar como personagem de vulto naquela teia intrincada de interesses devoradores.
Ao longo de todo o livro é notório o confronto permanente entre as tradições confucionistas e taoistas que moldaram a mentalidade daquele povo e a superioridade cultural chinesa. De facto, numa altura em que a Europa vivia mergulhada na economia rural pré-romana, emergia o embrião do gigante chinês.
O filósofo gago Hanfeizei, por sua vez, encarna uma terceira força: uma sabedoria independente das crenças religiosas, em que se baseará, afinal, o poder político do Grande Império emergente. A sua teoria política, o legalismo, viria a ser a base do sistema imperial. O segredo do sucesso baseia-se na capacidade deste sistema legal para dominar os grandes interesses feudais, algo que poucos sistemas políticos conseguiram até à época contemporânea. Numa interpretação um pouco “livre”, esta concepção legalista do poder faz lembrar esse teórico pioneiro dos sistemas políticos modernos que foi Maquiavel, cerca de 1700 anos depois: o homem não é, na sua base, virtuoso, pelo que só reage mediante prémios ou castigos. Daí a necessidade de justificar um poder político autoritário e personificado num líder.
Aos poucos o legalismo vai superando a predominância da tradição taoista: o reforço do poder político justifica-se pela necessidade de dominar os interesses particulares, egoístas e obscuros. Mas, no reverso da medalha, ao perseguir o Tao, o poder está a roubar aos pobres (que sempre constituíram a maioria silenciada) aquilo que lhe restava: a paz interior.
A admiração do autor pela civilização chinesa nascente manifesta-se também noutros aspectos, como a arquitectura das cidades, predominantemente funcional mas também com padrões estéticos requintados, a música com toda a sua envolvência mística e o erotismo de um povo que aprendeu a cultivar o corpo como complemento da mente e da alma.
Num romance palaciano como este não podiam faltar as intrigas e traições, os jogos de interesses e maquinações diabólicas, que o autor manobra com mestria, prendendo o leitor num enredo bem urdido.
Curioso o papel que Frèches reserva à mulher. As mulheres têm sempre um papel decisivo no jogo político. Os homens controlam mas, no fundo são sempre controlados por elas, através dos seus jogos sensuais e da sedução.
Está de parabéns a editora Bertrand por nos oferecer este magnífico livro a um preço sensacional (cerca de dez euros). Fica a pergunta: se é possível publicar livros como este por este preço, como se justificam alguns "saques" que vemos por aí?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A melhor leitura do mês - Outubro

Outubro foi um mês de maior qualidade do que quantidade.
Pelas mãos, pela vista e pela mente passaram-me:
- Um decepção bem grande com um clássico frustrante: Nossa Senhora de Paris, do grande Victor Hugo que aqui se revela mais filósofo e historiador do que romancista; por mim, prefiro guardar do corcunda a imagem que me ficou da Disney :)
- Uma decepção de quase mil páginas: um livro que quis ser manual de História e romance ao mesmo tempo e do qual resultou uma caricatura do Guerra e Paz: A Queda dos Gigantes, de Follett.
- Uma surpresa agradável: A Arte de Morrer Longe de Mário de Carvalho. Um livro divertido que vai dizendo umas coisas sérias pelo meio. Um escritor que merece mais atenção por parte da opinião pública.
- Uma revelação: Ana Cristina Silva em As Fogueiras da Inquisição. Um livro triste, revoltante, profundo. Uma autora que pode vir a ser um caso sério se aprimorar melhor a vertente ficcional.
- Uma confirmação: o génio de Mia Couto, um escritor que não faz obras-primas mas anda sempre por perto.
E TRÊS LIVROS MAGNÍFICOS de 9.5 na escala de 0 a 10:
- O livro mais divertido do ano: Royal Flash de George MacDonald Fraser. Este segundo volume da Odisseia de um Cobarde consegue ser ainda mais hilariante que o primeiro.
- O topo (até agora) da carreira de José Luís Peixoto, com o Livro.
- A confirmação de um génio da nova literatura portuguesa: Valter Hugo Mãe com o formidável A Máquina de Fazer Espanhóis.
Perante isto... como escolher o melhor livro do mês...
A tarefa revela-se árdua.
No entanto...
Decidido "sobre a linha da meta"... the winner is...



:)

domingo, 31 de outubro de 2010

Nossa Senhora de Paris - Victor Hugo

(Leitura conjunta no Blogue Destante)
Victor Hugo inicia o romance enunciando um propósito bem claro, típico de qualquer escritor Romântico: o elogio da Idade Média, mais exactamente da arquitectura gótica. Trata-se de uma crítica ao racionalismo renascentista e iluminista que marcou o século anterior ao de V. Hugo.
A narrativa inicia-se com o episódio da “Festa dos loucos”. Trata-se de uma festa popular realizada no dia de Reis, em que o povo efectua uma autêntica catarse, vociferando, gritando contra tudo e todos: padres, doutores, juízes, etc. Tal como acontece no final do primeiro volume, aquando do castigo público de Quasimodo, é visível a opinião de Hugo sobre o povo: vítima da sua própria ignorância que é lamentável e descaradamente cultivada pelos mais poderosos. A festa dos loucos e um chicoteamento público são oportunidades quase únicas que o povo tem de se expressar, da mesma forma que a arquitectura é quase a única forma de expressar o pensamento do homem medieval.
O povo parece ser visto, por Hugo, como algo de exótico, algo multicolor, como se as pessoas fossem actores exóticos, estranhos mas cativantes pelo insólito. É como se Hugo pretendesse mostrar-nos a História como uma espécie de caleidoscópio ou de espectáculo circense.
Quem está habituado a ouvir falar desta obra pela adaptação ao cinema infantil surpreende-se ao ler este livro; os seus propósitos estão muito longe de se restringir a uma estória divertida para as crianças.
Podemos dizer que a catedral de Notre Dame é o personagem mais importante do primeiro volume. O sineiro Quasimodo, criança e jovem disforme, renegado pelos pais e por toda a sociedade, não é mais do que uma extensão da própria catedral. Há uma espécie de fusão entre estes dois personagens, um de carne e osso e o outro de pedra. Quasimodo confunde-se com essas pedras. Também ele é um produto da sociedade; o monstro que os outros vêm nele é o monstro que esses outros criaram.
A partir daqui, Hugo parte para uma espécie de ensaio sobre a arquitectura como expressão artística. Victor Hugo admira a arquitectura gótica, considerando-a o expoente máximo da arte da pedra.
Ao longo do segundo livro, ganha forma um retrato idílico de Esmeralda, a bela cigana que despertará amores inesperados e impossíveis: Quasimodo e Claude Frollo, o sineiro corcunda e o padre alquimista disputarão os impossíveis favores do coração de Esmeralda. Obviamente, amor e tragédia caminharão de braço dado ao longo desta aventura.
Esmeralda é jovem, bela, pura, ingénua, bondosa, alegre e inteligente. Que mais poderiam desejar um corcunda e um padre? Mas nem tudo (ou quase nada) são rosas na vida da bela cigana: a presença de uma cabra inteligente como companhia inseparável, a sua condição de cigana com todos os preconceitos e ódios que isso acarreta fazer de Esmeralda uma candidata permanente à (in)justiça popular, eclesiástica e civil. Sem culpa formada, ela será sempre perseguida.
Na minha opinião, neste segundo volume e talvez mesmo em toda a obra, o personagem mais importante é Claude Frollo, o arcediago de Notre Dame. Ele é um clérigo que representa a tentativa de conciliação da ciência com a mais profunda superstição medieval – ele procura a grande quimera dos tempos medievais: fabricar ouro por processos químicos. Por outro lado, Frollo representa um clero retrógrado que nunca soube conciliar a religião com a bondade e compaixão que a deveriam caracterizar. É pregando a Bíblia que Claude pratica as mais atrozes injustiças, permitindo as torturas de Quasimodo e Esmeralda. Mau grado o amor que sente por Esmeralda, mau grado o afecto paternal por Quasimodo, Frollo é impiedoso na forma como permite os seus sacrifícios públicos, preferindo pactuar com a injustiça “oficial”. Victor Hugo exprime, através deste personagem toda a sua aversão ao Clero, bem como à maldade e ignorância que representa.
Depois de permitir que Esmeralda fosse torturada e condenada à morte, depois de tentar assassinar o seu apaixonado, Claude faz uma arrebatada e inacreditável declaração de amor. É o culminar de uma hipocrisia que não é só sua; é de uma mentalidade e de uma sociedade baseadas no abuso da desigualdade, da injustiça e da ignorância.
Comentário mais desenvolvido aqui e aqui.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A Máquina de Fazer Espanhóis - Valter Hugo Mãe

António Silva, 84 anos, espera no hospital que Laura, companheira de toda a vida, recupere. Sente a velhice como morte lenta… a de Laura e a sua… à medida que avançamos na idade é como se fossemos morrendo para certas coisas… para o trabalho, para os filhos… talvez para tudo excepto para o amor. Mas quando o amor enfrenta a morte, a solidão é um tormento insuportável.
António Silva, no lar, aguarda agora a sua morte, adiada pelo absurdo supremo: a solidão absoluta entre outros seres solitários, outras mortes que se adiam. Uma solidão onde o futuro é um paradoxo, uma miragem ou menos que isso porque não existe.
Por entre a melancolia mórbida daquele depósito de velhos com o irónico nome de lar da feliz idade, sobressai a espaços um humor refinado nas conversas, baseado naquele saber de experiência feito, mas também naquela capacidade de rir e brincar que só as crianças e os idosos têm – traquinices pueris sobra a qual se vai construindo uma felicidade que só existe à superfície mas é real.
E, lentamente, António Silva vai descobrindo que, afinal, a amizade existe. No meio daquele resto de vida, onde os idosos enganam um resto de solidão, foi também onde António encontrou um resto de amizade; uma espécie de sol de fim de tarde…
Aquelas conversas quase felizes são momentos únicos naquelas vidas à espera do ocaso, momentos únicos em que se esquecem as memórias que enegrecem o coração, mais do que alegram.
E nas horas más volta a solidão, impiedosa. E as lembranças da ditadura, da injustiça, da tradição católica salazarista beata, de um Salazar que alimentava a ignorância e o medo. Nunca deixamos de ser um povo dependente de um ser que imaginamos superior, protector, que nos deixe na comodidade da obediência servil. É assim também que encaramos Deus – um vigilante supremo que garanta à sociedade que todos somos vigiados e controlados.
Por entre as conversas diletantes dos idosos, Valter Hugo Mãe vai deixando, em jeito de saraivada, a crítica mordaz à sociedade em que vivemos: a futilidade daqueles que apenas lêem pasquins, revistas cor de rosa ou jornais desportivos; o culto das ilusões, que vai da glória fantasiada do Benfica à adoração apenas ostentadora de um Deus contra o qual se peca por sistema; o fascismo que nos está entranhado na alma, que se vê na forma ainda idolatramos políticos com pés de barro, ao mesmo tempo que esperamos por um qualquer D. Sebastião salvador e redentor; o sistema capitalista-pedante feito de xicos-espertos que continuam a sugar o sangue e o suor do povo.
Valter Hugo Mãe deixa bem claro o seu sentido crítico perante este Portugal que ainda conserva os males e vícios da velha ditadura, onde ainda há um Salazar em cada família. É por isso que Portugal (“esta coisa a tombar para o mar”) é uma máquina de fazer espanhóis – cada vez há mais portugueses a lamentar esta independência inútil, como o velho louco que se diz Português de Badajoz!
Perante isto, haverá ainda quem teime em pensar que acabaram em Portugal os escritores de causas?
Esta é a verdadeira escrita de intervenção!
Esta é a voz que é urgente ouvir nos livros portugueses!

domingo, 24 de outubro de 2010

A Arte de Morrer Longe - Mário de Carvalho

Em jeito de conversa com o leitor, Mário de Carvalho exibe uma escrita agradável, descontraída, divertida mesmo.
A história é extremamente simples: um casal em processo de divórcio (Bárbara e Arnaldo) divide pacificamente os bens mas era preciso decidir quem ficava com a tartaruga porque nenhum deles a queria. O destino do animal é assim a maior incerteza deste enredo. O que acontecerá à pobre e solitária tartaruga?
O destino do pequeno réptil constitui assim uma bela metáfora da vida.
Esta situação, tão simples e ingénua é o ponto de partida para uma história divertida, que nos é contada de forma muito agradável. O estilo algo barroco de Mário de Carvalho, brincando com as palavras, mostra que nem sempre é necessário um enredo muito elaborado para prender a atenção do leitor.
Iniciada a leitura, dificilmente se consegue interromper, tão agradável ela se torna.
Que incríveis problemas podem acontecer a quem apenas quer dar destino a uma tartaruga! A vida é feita de coisas tão fortuitas, tão banais e ao mesmo tempo tão decisivas para o curso do destino! Este livro não fala de coisas prodigiosas; fala de coisas simples que acontecem na vida de pessoas simples. Tudo nos soa tão familiar que nos faz ler o livro com um sorriso permanente. Porque a nossa vida não é mais do que o destino de uma tartaruga presa num aquário, debatendo-se contra paredes de vidro, à espera que algo ou alguém nos conceda a liberdade.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

As Fogueiras da Inquisição - Ana Cristina Silva

Mais do que um romance, este livro constitui um testemunho histórico impressionante. As perseguições aos judeus, tanto pela tenebrosa Inquisição como pelo não menos cruel preconceito arreigado nas convicções populares, constituem algumas das páginas mais negras e brutais do nosso passado.
O Império que então se construía (reinados de D. Manuel I e D. João III) fazia de Portugal o país mais rico da Europa; no entanto, essa riqueza era um disfarce para a fome que ainda se passava no nosso país e, acima de tudo, a ignorância que grassava.
O Estado, na sua ânsia de justificar os erros de má governação, não só tolerava como incentivava o ódio aos judeus para sobre eles fazer recair as culpas de todas as desgraças.
Por outro lado, o Estado perseguia os judeus com a intenção de se apropriar dos seus bens. No entanto, até nesse aspecto se revelou a má governação que parece ser um traço comum de quase toda a nossa história: ao perseguir os judeus apropriou-se de algumas fortunas mas, ao mesmo tempo, provocou a saída para os países nórdicos (mais liberais) de muitas outras famílias endinheiradas.
Mas estes dramas políticos não se podiam comparar aos inenarráveis dramas humanos que a intolerância provocava.
A vida de Ester (avó de Sara que espera a morte na prisão) alerta o leitor para uma realidade muitas vezes esquecida: o monstro da Inquisição não se limitou aos milhares de mortos nas fogueiras; foram muitos mais os que se viram destruídos por torturas cruéis e muitos outros ainda que viveram tolhidos pelo medo, aterrorizados por uma absoluta maldade, praticada com requintes de crueldade, em nome de Deus.
Que Deus é esse que permite crimes tão hediondos? É uma pergunta que ficará eternamente por responder. No entanto, estes não foram os crimes de Deus; foram crimes de homens cegos pelo fanatismo e pelo egoísmo de quem se julga dono de verdades que, de tão absurdas, só a eles podiam convencer.
Notável é também o esforço da escritora para compreender o espírito do Inquisidor (D. João de Bragança). É difícil compreender como a crueldade e mesmo a maldade mais sádica pode esconder-se por detrás da convicção de que se está a praticar o bem.
Uma nota curiosa mas fundamental: ao longo de todo o enredo, são as mulheres que transportam os maiores sofrimentos e, ao mesmo tempo, o maior heroísmo. Se a História de Portugal está cheia de injustiças, foram sempre as mulheres as maiores vítimas. Por isso, serão sempre elas as maiores heroínas.
E no fim de tudo, por maior que seja a desgraça, há sempre uma luz triunfante que está para lá de qualquer dor: “haverá sempre uma luz que brilhará para lá da noite”.
Em suma: um livro triste, revoltante, mas que vale a pena ler porque a maldade tem de ser lembrada. Os maiores erros e crimes do passado assentavam na ignorância, na cegueira que Saramago tanto denunciou. E hoje, será diferente? Já não há fogueiras, mas seremos nós capazes de vencer as trevas do preconceito?

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Royal Flash, A Odisseia de um Cobarde - George MacDonald Fraser

Neste segundo episódio da saga Flashman, a Odisseia de um Cobarde, o nosso anti-herói enfrenta duas figuras reais da hiostória europeia do século XIX: a bela e efervescente (em vários sentidos) Lola Montez bem como o terrível e temível Otto Bismark, famoso político alemão. Na verdade, Lola foi uma famosa actriz e bailarina. No entanto, não foi por esses dotes que ficou na História mas sim por ter sido amante de grandes e famosos personagens históricos como o rei Luís I da Baviera e o músico Franz Liszt. Fraser descreve-a e forma de caricatura, expondo os seus modos exuberantes, a sua personalidade extrovertida, ambiciosa e… louca. Flashman que o diga, que foi vítima das suas garras e de um penico voador que quase o matou.
Quanto a Bismark é descrito como um autêntico rufia, capaz de tudo para atingir os seus fins. O grande construtor da Alemanha moderna é neste livro o grande inimigo de Flash (acredito que Fraser não tenha adquirido muitos amigos na Alemanha depois de publicar este livro).
As hilariantes mas dramáticas aventuras vividas pelo nosso herói arrancam-nos gargalhadas contínuas transformando este livro numa saudável e arrebatadora diversão.
O sucesso de Flashman talvez se explique porque todos nós temos um pouco dele. Mais ainda: todos gostaríamos de ser como ele: ter sucesso, tornar-se um herói ao mesmo tempo que escapa de todos os perigos e responsabilidades. E não é só sorte: Flashman é um verdadeiro artista da cobardia; ninguém como ele sabe fugir, utilizando as mais variadas estratégias. Ele é o testemunho vivo da virtude da covardia. Sem os cobardes creio até que a humanidade não teria sobrevivido ao longo da evolução: fugir é uma arte!
A habilidade do autor é notável, ao utilizar um estilo simples, objectivo, muito atractivo e de fácil leitura. Um aspecto curioso: Fraser criou um personagem, o sorumbático e birrento sogro, que tendo uma personalidade contrastante com Flash faz realçar no leitor todo carácter extravagante de Flashman.
A editora Saída de Emergência está também de parabéns pelo notável aspecto gráfico e criatividade com que concebeu uma capa a condizer com a obra.
Em suma, um livro que nos deixa com água na boca em relação ao terceiro episódio. Flashman é, seguramente, um dos personagens mais divertidos e mais habilmente construídos da literatura contemporânea. Uma trilogia a não perder por quem gosta de rir com os livros.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A Queda dos Gigantes - Ken Follett

Há muito tempo não encontrava um livro que tentasse de forma tão declarada cruzar a realidade histórica com a ficção. O risco que Follett correu foi enorme. A História, ainda mais numa época tão polémica como a da Primeira Guerra Mundial dificilmente se compadece com esta miscelânea de factos e estórias.
A ideia base faz lembrar o eterno Guerra e Paz. No entanto, nem a ficção se aproxima da criatividade e simbolismo de Tolstoi nem a análise histórica faz sombra à clarividência e profundidade do mestre russo.
Ao longo de quase mil páginas, Follett parte para esta abordagem com um enquadramento de cinco famílias em locais estrategicamente significativos:
- A família do jovem mineiro Billy, em Gales, que representa a grande massa anónima que faz as guerras, faz a História e alimenta o mundo; Billy, a irmã Ethel, “guerreira” pela causa sufragista e o pai sindicalista simbolizam a classe operária explorada e, no entanto, triunfadora na entrada da modernidade que o século XX viria anunciar.
- A família de Fitz, inglês, representa a aristocracia tradicional, conservadora e arreigada ao preconceito, alimentando-se da injustiça social.
- A família de Walther, alemão, alto funcionário governamental, envolve o mais tacanho tradicionalismo alemão, representado pelo pai, Otto, em contraste com as ideias modernas, democráticas de Walther.
- A família Pechkov, na Rússia acompanha todo o processo conturbado de derrube do regime czarista e de instauração do bolchevismo soviético. Grigori é o revolucionário convicto, vítima das maiores atrocidades por parte do czarismo e Lev é o irmão oportunista que envereda pela trafulhice mais pérfida como forma de afirmação pessoal e vingança perante um passado de injustiça.
- Nos Estados Unidos da América, Gus, assistente do presidente Wilson é a imagem da América como a terra prometida dos tempos modernos, o país cor de rosa em que todos os sonhos são possíveis.
Por detrás da história de ficção, Follett apresenta-nos uma análise histórica que, em alguns aspectos, se revela muito interessante e inovadora:
Os destinos do mundo, por vezes, dependem de conveniências pessoais; veja-se como alguns personagens são contra a guerra porque estão apaixonados; outros são a favor do conflito por egoísmo, vaidade ou por conveniência pessoal.
Também a Guerra civil na Rússia, como outras guerras, é movida por interesses. Aliás, um dos méritos deste livro reside na atenção dada a um aspecto que a historiografia tem desprezado: o apoio (absurdo em termos ideológicos) da Alemanha ao bolchevismo e da Inglaterra às forças contra-revolucionárias.
O autor opta por aproximar perigosamente os personagens ficcionais aos reais, causando situações pouco verosímeis, como a conversa do soldado Grigori com Kerenski ou de Lenine com os conservadores alemães.
A tentativa de fidelidade histórica é por vezes obsessiva, o que retira interesse à narrativa ficcional. Follett procura, até à exaustão, ser rigoroso historicamente; isso leva-o a descrições demasiado pormenorizadas, principalmente da situação política na Rússia.
Pelo contrário, despreza por completo os inúmeros combates que se deram nas colónias, principalmente em África. Nem sequer refere esse aspecto, o que constitui uma lacuna grave.
O autor cai também em alguns exageros, como a importância da aviação na primeira guerra mundial (estava nos primórdios), a importância dos submarinos e o apoio financeiro (pouco verosímil) dos conservadores alemães a Lenine.
No final da guerra fica a ideia de um certo idealismo em relação aos EUA – o país onde um politico pode casar com uma jornalista anarquista; o país da liberdade e da prosperidade. No entanto, esse é também o país onde Lev se torna o criminoso triunfante.
Como curiosidade, gostava de realçar o desprezo total pela participação portuguesa na guerra. Portugal só é referido uma vez e em termos muito depreciativos: o delegado português à Conferência da Paz intervém uma vez para solicitar que o texto final inclua uma referência a Deus, sendo por isso alvo de chacota por parte dos outros delegados. Afinal de contas nada de estranho se considerarmos que Follett é inglês…
No final da obra sobressai a grande ideia que se assume como uma espécie de lição de moral: o fim da Primeira Guerra Mundial lança o início da segunda; os vencedores da guerra procuraram cobrar à Alemanha todas as despesas e prejuízos, numa atitude de arrogância vingativa que acabou por alimentar o grande monstro chamado Nazismo.
E o mundo pagaria caro por essa arrogância.
A quem interessar esta temática aconselho o filme baseado na obra magnífica de Erich Maria Remarque, "A Oeste Nada de Novo". Algumas cenas do filme:

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Venenos de Deus, Remédios do Diabo - Mia Couto

“A zanga é a nossa jura de amor”. Assim falava Munda Sozinha, companheira de vida do velho Bartolomeu Sozinho. Ele, velho mecânico de navios onde outrora calcorreou mares, agora não se limita a ficar em casa; ele é a casa; “depois de tantos anos, deixamos de viver em casa e passamos a ser a casa onde vivemos”. Depois de uma vida inteira no mar, só a casa lhe dá o ser; ou melhor, o quarto, a sua Nação, onde governa, gere a dívida externa e exonera administradores.

Um dos aspectos mais encantadores desta obra é o peculiar sentido de humor, simples e ingénuo, vindo da alma do povo e carregado com a sabedoria ancestral.
Fumando a tristeza, Bartolomeu sonha enquanto espera a morte. Sidónio, médico português voluntário, espera Deolinda. A vila inteira, Vila Cacimba, espera o futuro que tarda. Todos, sem futuro, brincam com o presente, como se a única alegria se fizesse nas partidas que ainda podem pregar à vida.
No meio da espera, o amor parece ser um ponto perdido no tempo; um alvo abstracto de todas as vidas, um final de enredo que apenas se antevê, apenas se sonha.
O amor, por vezes, é mesmo um lugar estranho. O amor e o sonho, ditos pelos homens soam por vezes com nome de pecado e crime: violação, incesto, infidelidade… muitos venenos, ou remédios? Coisas de Deus ou do Diabo? Cura ou castigo? Pouco importa… pouco importa, também, quem se alimenta desses venenos ou remédios com que se engana o tempo, porque para a vida não há remédio.
Apenas a espera, não necessariamente da morte. Talvez de um renascer para mais tarde remorrer…

Pintura de Malangatana, pintor Moçambicano, retirada daqui.

sábado, 2 de outubro de 2010

Livro - José Luís Peixoto

José Luís Peixoto é já um caso sério na literatura portuguesa. Este Livro é a prova definitiva da sua maturidade literária; diria mais, da sua afirmação como o melhor escritor português da actualidade a par de António Lobo Antunes.
Livro é uma obra claramente dividida em duas partes, bem distintas. Na primeira narra-se a saga de Ilídio e Adelaide, num ambiente rural que atravessa os míseros anos da ditadura salazarista. Tempos de miséria e de fome. Fome de pão mas também de liberdade. Para Ilídio e Adelaide a felicidade era proibida pelo preconceito, pelo medo, pela pobreza de pão e de espírito.
Por todo o lado, a PIDE, o medo, a fome e a ignorância.
Neste reino de injustiça e obscurantismo a emigração ilegal para França, estimulada pelo fantasma de uma guerra colonial (que ninguém entendia) surge como a ponte para a salvação. Uma ponte de esperança mas também envolta em medos e perigos.
Ao longo destas páginas, vamos vivendo a luta permanente destes heróis da miséria e sorvendo com emoção a sensibilidade que Peixoto transpõe para as palavras. Mau grado o ambiente negro que se vivia, Peixoto consegue povoar a narrativa com um sentido de humor discreto mas encantador, que não encontramos nas suas obras anteriores. Talvez este seja o livro em que Peixoto melhor consegue encaixar a poesia que o caracteriza numa narrativa cheia de emoção e incerteza para o leitor.
Na segunda parte do Livro, todo o tom da narrativa se modifica: a esperança renasce; a vida adquire tons mais vivos; o mundo ilumina-se. E o marco dessa mudança é o 25 de Abril. O amor de Ilídio e Adelaide ressurgirá finalmente; a vida passa a ser escrita na cor da esperança. O autor do livro brinca com o narrador e com o leitor, em jogos de palavras e de enredo que encantam quem lê, como se diz na contracapa do livro, “onde se ultrapassam as fronteiras da literatura”.
Nesta segunda parte, a qualidade literária da escrita e a sensibilidade do autor foram capazes de fazer estremecer de emoção e assombro este modesto leitor.
Faltam os adjectivos para descrever esta emoção.
Mais do que cativante, mais do que genial, a escrita de Peixoto é absolutamente mágica. Há episódios que me provocaram um arrepiante estado de deslumbramento que nunca sentira em qualquer outro livro. A não ser talvez esse profundo Voyage au but de la nuit que o próprio José Luís Peixoto tão abundantemente refere nesta obra, mas sem cair nos tons negros, quase apocalípticos de Celine.
Em suma, Livro é O Livro! Talvez o melhor livro escrito em Portugal após o Memorial do Convento e Ontem não te vi em Babilónia.
E termino este comentário com a sensação de que faltam palavras; tudo o que poderia escrever seria insuficiente para exprimir a onda de emoção que este livro me provocou.
Obrigado, José Luís Peixoto!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A melhor leitura do mês - Setembro

Dos dez livros lidos neste mês, houve de tudo; desde um barrete chamado O Toque da Morte, até uma descoberta sensacional que foi O Físico, passando por uma pequena maravilha de oração em forma de livro (Morreste-me), uma fantasia encantadora (A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho) e dois Auster's antiguinhos e magníficos.
Na hora de escolher o melhor, desta vez, não tive dúvidas: o eleito é O Físico, pela profundidade e fidelidade da abordagem histórica bem acompanhada por uma narrrativa apaixonante. Um livro cheio de conhecimento mas também de criatividade.
9.5 pontos (em 10) para Noah Gordon, logo seguidos dos dois livros de Paul Auster: Palácio da Lua e Da Mão Para a Boca. Auster é, na minha opinião, o génio mais consistente da literatura contemporânea: um autor que nunca escreveu um verdadeiro clássico mas seguramente será incapaz de alguma vez escrever um mau livro; nem sequer um livro apenas bom :)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Caderneta de Cromos - Nuno Markl

Ora aí está, definitivamente, o livro que todos os trintões e quarentões deveriam ler. E os outros “ões”, já agora, também. Quer dizer, definitivamente não, porque será com ansiedade, com uma quase angústia que esperarei uma segunda Caderneta de Cromos, assim queira a memória do Nuno Markl.

E porque é que eu afirmo que todos os “ões” deviam ler? Porque este livro é muito mais que uma colecção de memórias. É um exemplo de vida. É uma filosofia. Quase um culto. Eu explico: estou um bocado farto de saudosistas… bem, dita assim a coisa até parece um contrasenso; estará porventura o leitor a pensar: “mas este tipo é doido ou faz-se?”. Não é o caso (ainda). Não estou é a explicar bem. Segunda tentativa: o saudosismo é uma coisa tristíssima; deprimente, mesmo, porque agarra no passado e diviniza-o. Os saudosistas passam o tempo a gemer: “ai no meu tempo é que era!”. O Nuno Markl não é assim e este livro mostra-o bem: o passado tem de ser apenas o tempo em que aconteceram coisas com piada. Mesmo coisas que possamos encarar como más mas que, com o devido toque de sentido de humor, se tornam autênticas anedotas. Por exemplo: havia brincadeiras, que o Markl aqui descreve, que eram autênticas torturas, como o jogo do alho (também conhecido como jogo da mosca) em que saltávamos desalmadamente uns para cima dos outros até que a pilha não se aguentasse; os primeiros a cair iriam depois servir de “base” à pilha seguinte. Isto é violento. Isto é sado-masoquismo. E o Nuno Markl confessa que era dos piores da escola dele a jogar isto; ou seja, levava sempre com os outros todos em cima. Pois então onde está a tal “filosofia” disto? Está na forma estóica como o autor confessa isto; como se fosse a melhor piada do mundo. E o certo é que se trata mesmo de uma bela piada: poucas coisas há de mais hilariante do que um caixa de óculos levar com uma porrada de gandulos em cima, sem dó nem piedade.

Mas os motivos para rir vão muito mais longe: desde as figurinhas tristes que todos fazíamos a jogar ao quarto escuro na vã tentativa de apalpar algo de jeito, até às batalhas de pedradas e fisgadas com que enchíamos as nossas tardes de fim de semana na aldeia.

Depois há o sempre infalível recordar das velhas marcas comerciais que atravessaram a nossa infância: as Bom-bokas com que pintávamos a cara; as canetas Bic que usávamos como canhões para expelir balas de papel previamente mastigado, as pastilhas Pirata que deviam ser fabricadas com algum derivado de petróleo misturado com cimento e açúcar, os Estrumfes, o Cubo mágico, etc etc. Enfim, um elenco de heróis míticos da nossa infância onde não falta, obviamente, o José Cid, o Sandokan, os Cinco, a Abelha Maia e até esse autêntico manual de iniciação sexual para adolescentes solitários que era a revista Gina.

Este livro só vem reforçar uma convicção que tenho há muito tempo: a de que o Nuno Markl, quando nasceu não chorou; riu. O diacho do homem não diz nem escreve nada que não me ponha a rir. E esta é ou não uma grande filosofia de vida?

Bem haja, pois, o homem que mordeu o cão e venha de lá a segunda caderneta.

sábado, 25 de setembro de 2010

A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho - Mário de Carvalho

Um homem sobe num elevador que se “esquece” de parar no andar correcto e ruma ao céu sem aviso nem propósito.
Dois frades enterram os seus irmãos, mortos de misteriosa maleita; um deles desaparece depois, no espaço. O frade sobrante, esse, será disputado por Deus e pelo Diabo.
No dia em que a mulher do funcionário Teles saiu de casa para escrever poemas, tudo lhe correu de forma trivialmente anormal: monstros em casa, luzes misteriosas e relâmpagos parados em cima do Tejo. Anormalidades banais!
Estes são três exemplos dos contos que compõem este livrinho fantástico. Contos do fantástico que é a vida. Contos de sonho ou pesadelo mas sempre reais.
E a pérola maior: o conto que dá titulo ao livro: uma horda de mouros invade Lisboa e vê-se rodeada de automóveis. Uns de espada em punho à procura de cristãos para degolar. Outros, impávidos perante a invasão. Cavalos, espadas e turbantes mouros misturam-se com automobilistas apressados. E nem a Polícia de Intervenção, nem os blindados do exército, conseguirão pôr termo à confusão.
E que sarilho seria se a deusa Clio não acordasse de repente para voltar a pôr tudo no seu devido tempo.
Este conto é uma fantástica alegoria da estupidez da guerra, da irracionalidade que os homens trazem ao mundo.
Foi o primeiro livro que li de Mário de Carvalho. E, por sinal, será o primeiro de muitos.