domingo, 18 de dezembro de 2011

TERTÚLIA na nova Bertrand de Braga

Foi engraçado. Muito bom mesmo. Gostava de fazer aqui um resumo mas acreditem que dava uma trabalheira danada. Porquê? Porque foram duas horas de animada cavaqueira em que se falou de mil e uma coisas relacionadas com livros, blogues, escritores, leitores, enfim, uma conversa onde houve de tudo e onde não faltou a má-língua!
Deixo aqui três bonecos da autoria da mãe da Ana Nunes. Ficamos, desde já, à espera da próxima.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Príncipe da Neblina - Carlos Ruiz Zafón



O Príncipe da Neblina é uma obra despretensiosa, escrita por Zafón no início da sua carreira literária. Tem interesse pelo conhecimento que nos possibilita das primeiras experiencias literárias deste grande escritor espanhol mas não tem uma qualidade literária (nem de perto nem de longe) comparável aos seus grandes livros.
Trata-se de uma estória fantástica, com enredo obscuro e misterioso, digno de um filme de terror. O herói, Max, é um jovem que se propõe desvendar um mistério em torno de um ser sinistro que parece habitar a mesma ilha onde se radicou a família de Max. O seu amigo Roland é o alvo do maléfico Príncipe da Neblina. Cabe a Max e sua irmã ajudarem o pobre Roland.
O enredo, muito previsível, tem o dom de não nos cobrar um grande esforço. É daqueles livros que constitui um pequeno passeio para a mente. Por outras palavras, é um livro tão agradável que será certamente um alvo magnífico para os ataques cerrados dos críticos literários.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tertúlia na Bertrand Braga


Lendo O Príncipe da Neblina, de Carlos Ruiz Zafón


Reverte e Zafón: dois escritores espanhóis. Embora a obra de Reverte seja bem mais profícua e mais completa, o certo é que ambos são consagrados. Em comum têm um estilo baseado na emoção e na criatividade. Os valores são, em ambos, os da alma espanhola: os da honra e do sangue. Mas Zafón e Reverte têm algo mais em comum: começaram a ter sucesso nos inícios da década de 90. Se A Sombra da Águia foi um marco na fase inicial de Reverte, O Príncipe da Neblina (escrito em 1993 e só agora (!!!) publicado em Portugal) desempenhou esse papel na obra de Zafón.
Encetei a leitura deste livro, portanto, pela mesma razão que li A Sombra da Águia: para mergulhar nos primórdios da carreira do escritor.
Não espero, obviamente, deste livro, a genialidade de A Sombra do Vento ou de O Jogo do Anjo. Mas a arte e o talento de Zafón estarão aqui já patentes. Espero eu…
Imagem daqui-

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A Sombra da Águia - Arturo Perez-Reverte


Ler Arturo Perez-Reverte é sempre uma experiência muito gratificante, para quem gosta de suspense e de aventuras. E muito mais gratificante é tratando-se de um dos primeiros romances do escritor espanhol, naquela fase mais “ingénua”, mais pura, dos seus escritos em torno dos seus temas favoritos: a guerra, a honra e a coragem.
Nesta obra, Reverte conta-nos uma história curiosíssima: um grupo de soldados, voluntários e em grande parte mercenários espanhóis alistam-se no exército de Napoleão. A sua ambição é ganhar “algum”, porque fidelidade à causa, isso é coisa que não existe nestes castelhanos que odeiam Napoleão, ao ponto de se referirem a ele de forma sempre depreciativa.
Na Rússia, o exército francês encontra-se às portas de Moscovo. A situação é a mesma que serve de pano de fundo a uma grande parte da obra de Tolstoi, Guerra e Paz. Os exércitos de Napoleão conseguem conquistar Moscovo mas é uma vitória apenas aparente; a partir daí, inicia-se a grande ofensiva russa e Napoleão começa a perder a guerra.
Verificando esta realidade, o contingente espanhol decide desertar. Começam a dirigir-se para o exército russo, a fim de se entregar ao inimigo mas Napoleão entende tudo ao contrário, convencendo-se que os espanhóis estão a empreender uma brava ofensiva sobre os russos.
O enredo torna-se assim hilariante, com os mal-entendidos dos franceses e a forma absurda como os espanhóis não conseguem exercer a sua cobardia, confundidos com heróis que nem eles queriam ser.
Trata-se, portanto, de um livro sem grande fôlego literário, ao contrário de outras obras, verdadeiramente magistrais deste escritor, mas que se lê com imenso agrado, tão emocionante e divertido é o enredo. Sem dúvida, um dos livros mais bem dispostos que li nos últimos tempos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Lendo A Sombra da Águia, de Arturo Perez-Reverte


Escrito em 1993, só foi publicado em Portugal, pela Porto Editora, em 2009. No entanto, este é um livro fundamental para compreender a carreira literária deste que é, talvez, o melhor escritor espanhol da actualidade.
De facto, Perez-Reverte tem um percurso curioso: talvez devido à sua formação profissional, Reverte iniciou a carreira literária com alguns livros notáveis pela emoção e pela imaginação com que criava aventuras e episódios bélicos, como em Limpeza de Sangue ou os seis livros da série Capitão Alatriste. Pouco tempo depois atingiu o seu auge naquela que é, para mim, a sua obra-prima: o Clube Dumas.
Mais tarde Reverte inicia um desvio na sua linha criativa, tornando-se um autor mais reflexivo, mais interior, menos espectacular. É o período de O Pintor de Batalhas. Eu, pessoalmente, prefiro esta época ingénua e inicial, mais divertida e descontraída, com o se encontra neste divertido A Sombra da Águia, em que um batalhão de soldados espanhóis ao serviço de Napoleão na Rússia, tenta desertar mas Napoleão confunde a fuga dos espanhóis traidores com um ataque heróico e manda um destacamento para ajudar os bravos heróis espanhóis.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Qual o traço distintivo da genialidade? Parte III


Em posts anteriores defini como tipos de escritores (a) aqueles que fundam as suas estórias na imaginação, construindo enredos que prendem o leitor pela criatividade e (b) aqueles que se debruçam sobra a natureza do ser humano na sua dimensão individual.
Penso que um terceiro tipo de escritores de ficção pode completar esta espécie de tipologia: (c)aqueles que se debruçam sobre o homem na sua dimensão colectiva. Refiro-me aos romances históricos e a todos os livros que abordam a dimensão histórica, social ou política da humanidade.
Neste tipo tenho de destacar, como paradigmas máximos, Umberto Eco e Franz Kafka.
Umberto Eco, com romances históricos monumentais, como Baudolino, O Cemitério de Praga e, principalmente, O Nome da Rosa é, na minha opinião, o maior mestre deste género.
Quanto a Franz Kafka foi, a meu ver, quem melhor soube entender a submissão do ser humano à autêntica tirania do social. Em O Processo o homem é tiranizado pela burocracia; em O Castelo e A Metamorfose pelo social; em A Grande Muralha da China pelo poder político.
A submissão do homem às super-estruturas sociais e políticas é também superiormente abordada pelos grandes existencialistas franceses como Simone de Beauvoir e Albert Camus, com destaque, a meu ver, para essa obra-prima que é O Estrangeiro. Fora do ambiente existencialista destacaria ainda uma obra fabulosa, de Celine, Viagem ao Fim da Noite.
Em Portugal, este género é superiormente representado por José Saramago.
Devo dizer que tenho uma especial predilecção por estes escritores uma vez que, regra geral a sua escrita é muito interventiva relativamente aos poderes instituídos e às desigualdades que, infelizmente, são apanágio das sociedades humanas.
No entanto, os mestres dos mestres, aqueles que superaram os maiores, são os que pertencem a um quarto grupo, que definirei no próximo texto.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O Braço Esquerdo de Deus - Paul Hoffman


Algures num contexto medieval, entre brumas negras de mistério e terror, um castelo tenebroso onde vivem umas dezenas de clérigos loucos que escravizam umas centenas de pobres criancinhas. Os rapazes, esfomeados e esfarrapados, são maltratados brutalmente pelos clérigos (os Redentores) que os preparam para uma misteriosa guerra. Comem uma coisa horrível a que chamam pés-de-morto. São espancados brutalmente todos os dias e por qualquer motivo. Cale é uma dessas crianças e uma qualquer justificação que o leitor não conhece de início faz com que Cale seja ainda mais maltratado que os outros. 
O livro avança e o horror acentua-se. Descobre-se que alguns Redentores cometem crimes horríveis com... raparigas!
Chega-se a um ponto em que o leitor imagina o escritor aflito porque já não tem mais adjectivos para qualificar a desgraça de Cale e daquelas pobres criancinhas. Thomas Cale já era o mais desgraçado que se podia imaginar e o leitor já sorri de tanta desgraça acumulada.
Tudo neste livro é negro e tenebroso: desde as vestes pretas dos Redentores, até ao pensamento das crianças. Ali não há esperança nem redenção. Não há um raio de sol ou de vida. Tudo o que Paul Hoffman nos oferece é um quadro horrível, uma pintura de Bosh mas sem qualquer genialidade; apenas o Mal na sua expressão máxima.
Um dia Cale foge e é admitido por uma outra comunidade que, vem a saber-se depois, são os donos de um grande império, os Materazzi. Estes são menos brutais que os Redentores. E haverá uma guerra entre Materazzi e Redentores. Só no final se saberá que Cale estava no centro do conflito. A verdade revelada nas últimas páginas era para ser terrível não se desse o caso de se tornar óbvia para o leitor ao longo da leitura, até porque o título do livro já revela metade do mistério. Mas creio que Hoffman não previu isso e para um leitor atento, o final soa como banal e previsivelmente absurdo. O leitor já esperava esse limite entre a fantasia e o absurdo, que este tipo de literatura muitas vezes ultrapassa.
Devo dizer que não é uma leitura desagradável; lê-se com fluidez, num estilo simples e concreto, sem grandes considerações filosóficas, sem muitas descrições inúteis, com um apreciável ritmo narrativo. O problema deste livro é que não traz nada de novo. Num género em que a imaginação é fundamental, Hoffman refugia-se em clichés, em lugares comuns próprios do género e não sai daí.
Fez sucesso e vendeu muito. Era isso que se pretendia. Mas mais nada que isso.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Qual o traço distintivo da genialidade? Parte II


Ontem referi-me aqui àqueles escritores que baseiam a sua genialidade na imaginação.
Hoje quero referir-me a outro tipo de escritores: aqueles cujo talento se baseia na capacidade de retratar o ser humano na sua individualidade; na sua alma e no seu intelecto; nas emoções e sentimentos. Conhecer interiormente o ser humano, compreender os nossos comportamentos em todas as suas dimensões, explicar os nossos sofrimentos e alegrias, os nossos desejos e anseios mais profundos, são talvez tarefas quiméricas. Mas na literatura como na vida, as quimeras são os faróis que iluminam as auto estradas do comportamento humano.
E da imensa mole de escritores que se aproximaram dessas quimeras e nos deram visões absolutamente geniais da alma humana, destaco aqui alguns que me ficaram na memória como génios intemporais:
Fiodor Dostoievski foi talvez o escritor que melhor conheceu e compreendeu o ser humano em todas as suas dimensões. Ninguém como ele compreendeu a loucura “normal” de O Idiota, a mente criminosa e o remorso em Crime e Castigo, o ser religioso e o misticismo em Os Irmãos Karamazov.
Alguns escritores germanófilos são especialmente dotados deste talento especial para a interioridade: por exemplo Herman Hesse, nessas obras-primas que são Sidartha e O Lobo das Estepes, Gunter Grass no monumental O Tambor.
Num domínio um pouco mais abstracto, talvez mais artístico destaco o imortal William Faulkner.
Na literatura portuguesa não posso deixar de destacar António Lobo Antunes; ele é talvez o escritor luso que melhor conhece a alma humana.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Qual o traço da genialidade? Parte I


A mini-polémica que já se gerou neste blogue em torno da eventual qualidade literária de O Braço Esquerdo de Deus levou-me a pensar nisto: qual será a característica fundamental de um grande escritor? Qual será a marca distintiva de um génio literário?
Depois de uma breve reflexão identifiquei TRÊS traços que julgo caracterizar esses génios. Melhor ainda: estou convencido que os grandes escritores se podem encaixar em QUATRO categorias: três grupos que equivalem a essas três dimensões e os génios supremos que eu julgo serem os que aliam essas três dimensões.
Hoje ficarei pela primeira dimensão: os escritores cujo talento de baseia na IMAGINAÇÃO.
Se Paul Hoffman fosse um grande escritor, pertenceria a esta categoria. Mas não é. Na minha opinião, obviamente.
A imaginação fértil de alguns escritores permite-lhes contar estórias que nos encantam; eles fazem da criação a sua arma. Inventam situações e desfechos que nos deixam maravilhados.
Alguns dos exemplos mais brilhantes que recordo assim de repente:
Dan Brown, pelo menos em Anjos e Demónios; Arturo Perez-Reverte, principalmente na primeira fase da sua carreira, em que nos maravilhou, por exemplo, com as aventuras do Capitão Alatriste; o também espanhol Carlos Ruiz Zafón, com centenas de páginas de pura criatividade; estes são verdadeiros artistas da imaginação. Na literatura sul-americana há vários exemplos destes génios da imaginação, como o verdadeiramente fantástico Gabriel Garcia Marquez, mas também Isabel Allende e Luís Sepúlveda.
Gostava de destacar, um pouco acima de todos estes, dois enormes contadores de histórias: Paul Auster e Haruki Murakami. No entanto, a genialidade destes já os aproxima das categorias seguintes e já os coloca bem perto da categoria dos génios supremos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Um desabafo de Abraão Forjaz


O livro do post de ontem, O Braço Esquerdo de Deus, faz-me lembrar esta questão: o proprietário deste blogue, convencido da sua superior sabedoria, escreveu aqui há tempo que a minha pessoa devia escrever mais. Bem, é uma opinião… e opiniões cada um tem a sua. A minha é bem diferente! Não falta por aí quem escreva e se uns podem eventualmente pecar por defeito, eu não quero pecar por excesso como esses escrivães de encomenda.
Há por aí tanto escriba que devia estar quietinho à lareira, com uma mantinha em cima dos joelhos! Na verdade, estou a ser injusto. A maioria das pessoas escreve para ganhar a vida. Ou para se encher de dinheiro como os burros se enchem de moscas!
Aqui chegados no nosso raciocínio atingimos o coração do problema: uns escrevem demais e outros escrevem de menos porque as pessoas escrevem mais ou menos conforme as suas motivações: se eu escrevesse por dinheiro, como fazem uns senhores que eu conheço, pois certamente, o atrevido proprietário deste blogue teria aqui quilómetros de epístolas bem condimentadas com figuras de estilo e até apetitosas polémicas.
Indo directamente ao assunto: esses escritores de fachada, que fabricam estórias de fantasia ao quilómetro, são os artistas pimba da literatura; escrevem para vender e o incauto leitor, talvez iludido por estórias da carochinha que o fazem adormecer, lá se deixa levar.
Mas não se pense que sou assim tão dogmático: afinal de contas, se os Paul Hoffman’s querem vender e se o povo quer estórias de embalar, então está tudo muito bem e isto não passa de um desabafo de leitor vencido pelo preconceito…

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Lendo O Braço Esquerdo de Deus

Tenham medo... tenham muito medo!!!!
Vocês acham que há homens maus?
Em O Braço Esquerdo de Deus eles são piores!
Vocês acham que já leram coisas insanas sobre o sofrimento humano?
Em O Braço Esquerdo de Deus há pior!
Vocês já leram livros de terror?
Em O Braço Esquerdo de Deus tudo é AINDA mais aterrorizador!
Portanto, tenham muito medo!
Aqui fica a minha terrível ameaça:
Dentro de dias, aqui no blogue, a minha opinião completa sobre este livro MEDONHO!

sábado, 3 de dezembro de 2011

A Melhor Leitura de Novembro: O Conde de Abranhos

A minha melhor leitura no mês de novembro foi sem dúvida o Conde de Abranhos, de Eça de Queirós.
Trata-se de um livro genial, em que a crítica social e política vem embrulhada num invólucro de humor que a pena de Eça tão bem sabe transmitir ao leitor.
Trata-se, acima de tudo, de um livro com uma mensagem muito actual, numa época, a nosso, marcada (tal como a de Eça de Queirós) pela incompetência da classe política. E ontem como hoje, é essa incompetência que determina a injustiça daquilo a que chamamos "CRISE".
Eles, os políticos fazem as crises; ou seja, governam-se. Os comuns dos mortais, esses pagam. Pelo meio, vamos rindo...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O texto vencedor


Aqui fica o poema vencedor do Passatempo:

D. Dinis em que todos os livros de história aparece
Que todos conhecem dos bancos da escola
Que foi o sexto a ter Portugal nas mãos
Que é sempre representado com severa fisionomia

Aquele que com a Santa casou
Em soberba festa
A que dos pães fez rosas
Espinhosa transformação

Foi aquele que a universidade mandou abrir
E que ainda lá está
Para sempre em pedra imortalizado
Quem sabe se pelo que vê não andará deprimido

Foi aquele que poemas legou
Que as dores do coração pôs em verso
O maior dos travadores
Que cantou o amor e o escárnio

Foi aquele que dizem que se escapava
“Ide vê-las senhor” dizia Isabel
Notava-se logo que ia para santa com tal paciência
Dizem que era para os lados de Odivelas que se perdia

Foi aquele a quem chamaram lavrador
Não foi por pegar na enxada
Ou se calhar até pegou sabemos lá nós
E ao pinhal de Leiria ficou para sempre ligado

Mas para lá dos factos tanto se esconde
O que será que oculta a sua fisionomia severa de monarca?
Será que as damas mesmo visitava em Odivelas?
Longo reinado, quantos desgostos?

Afinal tantos factos, tantas datas…que sabemos nós
Dos homens que nos governaram outrora?

Sara Fernanda Barros Paredes
Agualva-Cacém

Resultado do Passatempo D. Dinis


E a vencedora do passatempo D. Dinis é:
Sara Fernanda Barros Paredes
Agualva-Cacém
A vencedora irá receber um exemplar da obra de Cristina Torrão, autografado pela autora.
PARABÉNS

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis



Imagine-se um livro cuja estória é contada por um narrador morto. Brás Cubas morreu e depois conta a estória. Este pormenor dá ao livro um tom fantástico que reforça a característica “exterior” mais marcante do livro: o seu magnífico sentido de humor. Este é, em primeiro lugar, um livro divertido!
É comum identificar-se Machado de Assis com a literatura realista. No entanto, este “carimbo” tem tanto de justo como de insuficiente.
É um carimbo justo porque, de facto, ler Assis faz lembrar Eça de Queirós na sua faceta mais realista: no descrever da realidade concreta mas, acima de tudo, o quadro social e mental da época.
No entanto, é um carimbo, também, insuficiente porque Machado de Assis vai muito além do realismo. Já tinha notado nas obras que li anteriormente (D. Casmurro e O Alienista) uma notável propensão para o romance psicológico; Assis recusa muitas vezes a sequência cronológica dos factos e segue apenas as divagações mentais de Brás Cubas. É a sua mente que o livro percorre, mais do que a sua vida. Neste livro, Machado de Assis faz um grande desafio ao leitor: “Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”
A escrita, irónica e inteligente, é um desafio constante ao leitor. O narrador e personagem principal é apresentado como uma espécie de anti-herói: egocêntrico, algo lento de raciocínio e leviano. No entanto, o carácter algo irracional de Brás leva o leitor a dedicar-lhe uma certa simpatia; ele percorre a vida sem obedecer a um padrão, a um enquadramento ético que o norteie e frequentemente encontra-se perdido de qualquer sentido. Talvez por isso o tema da morte esteja sempre presente na obra, mau grado o tom bem humorado da escrita. Há, por detrás deste enredo aparentemente bem disposto, um tom escatológico que parece vaguear como uma sombra por detrás da narração.
Em suma: obra realista ou romance histórico; conto humorístico ou tratado filosófico, este livro é uma obra multifacetada cheia de motivos de interesse. Um marco histórico na literatura brasileira mas também um livro simples que se lê com agrado e boa disposição.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Passatempo - D. Dinis

Eis o Livro.
D. Dinis, de Cristina Torrão. 
Pela primeira (e talvez única) vez neste blogue, temos um livro para oferecer.
(Autografado pela autora e com direito a dedicatória)
Trata-se de um excelente romance histórico, escrito com aquela alma que caracteriza a escritora: Cristina Torrão tem o notável dom de contar a história e as estórias com o acento tónico, sempre nas pessoas e nos sentimentos. Mais do que os reis, as rainhas e os heróis, interessam as almas. os sentimentos, emoções, sofrimentos, alegrias e sonhos. Talvez acima de tudo os sonhos...
Então como ganhar este livro )?
É fácil: basta escrever um parágrafo sobre a figura histórica de D. Dinis e envia-lo para este e-mail: mj.cardosog@gmail.com. Pedimos apenas que não excedam os 800 caracteres (umas dez linhas em Times 12). O prémio será atribuído ao texto considerado mais criativo. Deverão enviar nome completo, morada completa e número de telefone. Só será aceite uma participação por residência.
Algumas informações sobre o livro e a escritora:
Sinopse e apresentação do livro:
http://www.wook.pt/ficha/d-dinis/a/id/10238449
Comentário ao livro, neste blogue:
http://aminhaestante.blogspot.com/2011/04/d-dinis-cristina-torrao.html
Sobre Cristina Torrão:
http://www.esquilo.com/autores_torrao.html
O blogue da escritora:
http://andancasmedievais.blogspot.com/

Importante: O passatempo termina no dia 1 de Dezembro, às 23.59.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um Passatempo aqui?! Pode lá ser...

Talvez já tenham reparado que nunca houve um passatempo, com atribuição de livros, neste blogue.
Na verdade, tenho tentado manter este espaço o mais pessoal possível, fazendo dele um  reduto de toda a minha subjectividade.
Mas... e se vos disser que vou abrir uma excepção para um livro MUITO ESPECIAL?
É isso! dentro de dias teremos aqui um passatempo e isso só acontecerá por se tratar de um grande livro, um dos melhores que li nos últimos anos, escrito por alguém com um talento também muito especial.
Que livro será?
Logo se vê, como diz o outro :)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Lendo Machado de Assis (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

O ano de 2011 levou-me à descoberta de um escritor genial. 
Já tinha lido e ouvido muitos elogios a Machado de Assis. Em muitos blogues do país-irmão, Assis é considerado superior ao próprio Jorge Amado. Estava, pois, curioso e a verdade é que me sinto plenamente realizado com esta descoberta.
Para além da incrível facilidade de expressão, que torna a sua escrita quase cinematográfica, Assis tem um sentido de humor incrível. 
Mas a maior qualidade deste autor talvez seja a versatilidade. Comecei por ler D. Casmurro e deparei com uma análise social excelente. Em O Alienista descobri um profundo e sério estudo da loucura. E com este Brás Cubas encontramos uma razão para rir até mais não :)
Ainda a meio da leitura, posso já garantir que é um dos livros mais divertidos que li nos últimos tempos.

sábado, 19 de novembro de 2011

As Naus - António Lobo Antunes


Um livro bem diferente de tudo o que António Lobo Antunes tem escrito. Diferente em dois aspectos gerais: a escrita (neste livro mais épica e menos lírica) e a temática (os descobrimentos, em paralelo com a descolonização).
Relativamente ao estilo, bem se pode dizer que, mais do que nunca, neste livro a escrita é um convite ao passeio pelas palavras. A fazer lembrar a escrita barroca, a linguagem de ALA, neste livro, atinge níveis de beleza excepcionais. Brincando com as palavras sem que nunca esta preocupação estética ultrapasse totalmente o conteúdo:
“No decurso desses cinquenta e três anos construíram-se mais umas dezenas de capelas imediatamente em ruína, um bairro para os operários da fábrica de sonetos gongóricos e para os cronistas desempregados que catavam cedilhas da barba, e um sistema de esgotos eternamente entupido por embriões de sapos. A criatura dos mosquitos finou-se da vesícula e os insectos passaram a circular em liberdade, apesar das osgas, do esquentador avariado para a cantoneira da cozinha, de medalhão de esmalte (meninas e faunos a almoçarem num prado) sob as garrafas de Porto.”
Por outro lado, a inovação no conteúdo: Luís de Camões vai escrevendo os Lusíadas ao mesmo tempo que transporta o pai num caixão, trazido de Angola após o 25 de Abril. Vasco da Gama a jogar as cartas e um povo inteiro que regressa de África, derrotado, escorraçado pelos antigos escravos. Um povo inteiro que, afinal, continuava à espera de D. Sebastião.
“O único branco do bairro vendia bíblias, postais eróticos e gira-discos no porta a porta da cidade, chamava-se Fernão Mendes Pinto, possuía uma cabana na areia atulhada de refugos de equinócio e recordações da Malásia, sentava-se à beira da água a comover-se com os crepúsculos.”
HUMOR, POESIA E IRONIA NUMA FRASE APENAS: Uma manhã o engraxador do café, de voz rente aos sapatos, a estalar o pano do lustro nas biqueiras, informou-o de que haviam sucedido acontecimentos estranhos em Lixboa: o governo mudara, falava-se em dar a independência aos pretos, imagine, os clientes dos folhados de creme e das torradas indignavam-se.”
Um povo inteiro de retornados, odiados lá, detestados cá, detestados por eles próprios, frutos do desespero e desta confusão entre passado e presente, confusão que vai na cabeça de toda a gente, nas colónias e na metrópole, no passado e no presente.
Portanto, esta mistura dos dois tempos narrativos não é um mero exercício de estilo; é uma forma de exprimir o messianismo sebastianista que leva a nossa mentalidade colectiva a misturar passado presente e futuro: se as cosas estão mal agora, é porque no passado outros cometeram erros imperdoáveis mas do futuro (ou do mesmo passado) há-de vir um salvador por entre o nevoeiro. É por isso que somos e seremos sempre portugueses. O passado não foi mais do que um amontoado de promessas: especiarias, ouro, escravos; o presente é a desilusão: os ouro que se escoou por entre os dedos e os escravos que em 1974 deram lugar àqueles que nos expulsam. E o futuro? Talvez o regresso aos sonhos… talvez o regresso ao passado. Mais nada!
 Avaliação Pessoal: 8.5/10

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Intervalo nos livros: um anúncio genial



Ao juntar músicos de sensibilidades tão diferentes, foi uma empresa de telecomunicações a dar o exemplo daquilo que deve ser a PROMOÇÃO DA CULTURA.
A campanha que esta empresa está a fazer merece ser destacada e elogiada por este serviço cultural que, independentemente dos lucros e estratégias capitalistas, se destaca pela originalidade.
Colocar lado a lado músicos como os Moonspell (um grupo de black metal) e a fadista Carminho, para além de um golpe de génio é uma lição de tolerância. Muitos de nós caem sistematicamente no erro de confundir aquilo que não gostamos com aquilo que é mau. Um fã de Black Metal não gosta de fado. Um fã de fado, por sua vez, detesta Black Metal. Mas nenhum deles tem o direito de dizer que o género que detesta é mau. Este pequeno vídeo ensina-nos isso: o que é DIFERENTE pode ser BOM.
Viva pois a diferença!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Lendo As Naus, de António Lobo Antunes


Lidas as primeiras setenta páginas deste livro, devo dizer que estou surpreendido. É verdade; mesmo já tendo lido sete livros deste escritor, a escrita de ALA ainda me surpreende!
Por vezes acusa-se Lobo Antunes de ser um escritor pouco versátil. Ainda há algum tempo li algures um comentário afirmando que ALA é pouco criativo, insistindo no mesmo estilo e no mesmo tom sombrio. Quem assim pensa e escreve talvez não tenha lido As Naus.
Trata-se de uma obra que se destaca, em termos formais, pela simples beleza da escrita a que poderíamos chamar, com algum abuso, “neo-barroca”. É uma escrita que prima pela beleza das letras e dos sons, que nos convida a ler em voz alta, sentindo a melodia, o perfume da poesia escrita em prosa.
Por outro lado, este livro é original pela temática: envolvendo personagens dos Descobrimentos e do Império em pleno século XX. Uma interessantíssima miscelânea histórica.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O Cão dos Baskervilles - Arthur Conan Doyle


Este Cão dos Baskerville é uma verdadeira obra de arte da literatura policial; uma lenda antiga, que dá conta de uma verdadeira besta em forma de cão gigante, que amaldiçoa as terras dos Baskerville, dá um tom fantástico à estória, aproximando-a da moderna literatura fantástica.
Na Londres oitocentista, cheia de mistérios envoltos em nevoeiro, Sharlock Holmes vive uma aventura peculiar e intensa quando, nos arredores da cidade o malvado cão fantástico volta a atacar.
Obviamente, o enredo encaminha-nos para um criminoso bípede, pelo que a besta permanece sempre na sombra, como um fantasma que paira no ar.
Holmes é um detective “científico”, um verdadeiro CSI do século XIX, pelo que não iria certamente embarcar na explicação lendária do crime. E o que este livro tem de mais fascinante é a forma como o autor nos encaminha para apenas dois ou três suspeitos mas de forma que se torna fácil, para o leitor, adivinhar quem terá sido o criminoso. Mas a arte de sir Arthur Conan Doyle leva a uma espécie de transferência no centro do mistério: a partir de certa altura deixa de nos intrigar quem cometeu o crime para nos centrar no COMO se processou o crime. Na última fase do livro a emoção atinge níveis impressionantes, que fazem o leitor vibrar com a narrativa.
A genialidade de Doyle permite-lhe encaixar neste enredo uma estória de amor impensável; em pouco mais de 150 páginas, numa escrita terrivelmente “económica” o autor consegue aliar um policial sofisticado e recheado de pormenores fantásticos a uma interessante, original e até cómica estória de amor.
Na minha opinião este é sem dúvida um dos livros mais emocionantes alguma vez escrito.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Uma Paixão Fatal: os livros Policiais.


Em matéria de livros, talvez eu não tenha paixão mais antiga que a da literatura policial. Continuo fascinado por aquelas emoções, aquela incerteza no desfecho.
Gosto de me sentir perdido naquelas pistas que o escritor deixa, de forma quase sádica, espalhadas pela narrativa, umas vezes para nos encorajar a procurar o verdadeiro criminoso, outras para nos despistar completamente.
Neste estilo que me continua a empolgar, ainda não sei qual o escritor que me fascina mais: Agatha Christie, George Simenon ou sir Arthur Conan Doyle?
Na verdade, estamos a falar de três génios literários, o que dificulta obviamente uma opção.
Christie é sofisticada, esmerada no pormenor, é quase a cientista do livro policial;
Simenon tem uma dimensão psicológica notável; é o psicólogo do crime; ele não se contenta com boas estórias; ele procura estória humanas, que lhe permitam ir até às profundezas da alma humana, onde se encontram as explicações para o comportamento criminoso.
Conan Doyle talvez seja o mais artístico, o mais criativo. Em vida, foi amigo de Houdini, o que talvez o tenha ajudado a criar esta arte de tornar credíveis as mais inacreditáveis situações. A sua ligação ao espiritismo talvez tenha transmitido à sua obra aquele toque quase diria místico, sobrenatural. Gótico, diriam alguns.
Neste momento estou a ler O Cão dos Baskerville, uma das melhores obras de Doyle. Amanhã darei conta da minha opinião sobre o livro.
Imagem daqui.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Carta de Abraão Forjaz a propósito d’O Conde de Abranhos


Solicita-me o caríssimo amigo parecer sobre o convite que recebeu para o honroso cargo de Secretário da Junta de Freguesia. Diz-se hesitante. Receoso mesmo.
Pois que medrosa hesitação vem a ser essa, caro comparsa? Olhe para o futuro, meu caro! Olhe em frente! Vossemecê tem, o dom! O magnífico e proveitoso dom da política! E se o cargo de Secretário da Junta lhe parece modesto, acredite que daí a Presidente vai um passinho apenas; e da Junta à Câmara é um saltinho. Pois daí lhe digo eu que não ficará longe o tachinho de deputado da Nação. E pode acreditar que tem estofo para isso.
Se duvida das suas capacidades, lembre-se desse negócio brilhante que teve a bondade de me descrever há tempos e que agora lhe recordo: mantinha o meu amigo uma manada de vacas quando lhe ocorreu essa brilhante ideia de pedir um subsidio a fundo perdido, desses que caíram desse céu chamado Comunidade Europeia. Era um subsidiozinho bem gordo para investir numa vara de porcos, lembra-se? E recorda-se o amigo como recebeu o graveto e em vez de comprar os porcos decidiu reforçar o seu investimento naqueles apartamentos que tem a arrendar na vila? Negócio de génio, meu caro! Mas se a memória não me atraiçoa, maior génio o meu amigo revelou quando, dois anos depois, arrebanhou um segundo subsídio para abater os porcos. Pois se nunca os teve, pouco lhe custou a matança e o negócio rendeu-lhe mais uns investimentozinhos imobiliários!
Ora diga-me lá agora se ainda não está convencido dos seus dotes políticos.
Objecta o caro amigo que tem apenas a quarta classe do ensino primário. Pois em boa verdade lhe digo que também isso não é problema nenhum: pois inscreva-se num desses cursos nocturnos onde distribuem canudos desde que saiba contar até dez e escrever o abecedário. Ou, melhor ainda, declare-se desempregado, terá direito a um curso profissional e ainda lhe pagarão um subsidiozinho para as despesas.
Então, ainda não está convencido? Pois então olhe lá para cima e diga-me se os que nos governam porventura são mais dotados que vossa senhoria!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Conde de Abranhos - Eça de Queirós


O Conde de Abranhos é uma sátira à classe política portuguesa. Escrito em 1878, este livro mantém, é bom de ver, uma incrível actualidade. Trata-se de uma espécie de biografia de Alípio Abranhos, escrita pelo seu fiel secretário, Z. Zagalo, um imbecil que julgando fazer-nos um eloquente elogio de Alípio nos vai desvendado todos os testemunhos da sua incompetência e oportunismo.
Por exemplo, os antecedentes familiares, usados pelo “biografo” para ilustrar a nobreza do conde não passam de façanhas de arruaceiros e bêbados. O Conde começa assim a surgir como uma caricatura do nobre aldeão, com o título dado pelo rei. Eça é pouco sensível ao bucolismo, talvez por aversão aos poetas românticos. A educação rural de Alípio é parodiada.
O certo é que o jovem Alípio desde cedo desejava fugir da ruralidade. Havia que fugir dos pobres, mesmo tratando-se do seu próprio pai. «Isole-se o pobre!» é o seu primeiro pensamento político. Assim, deixa os próprios pais na miséria para que não o envergonhem na capital.
Alípio abominava o princípio “pernicioso da igualdade das inteligências, base funesta de um socialismo perverso”, assim como a “funesta tendência” de querer saber a verdade das coisas. Para felicidade dos povos, a ignorância é fundamental. Que o povo acredite, aceite e não questione: eis um princípio fundamental para Alípio.
Na Universidade, ele é um delator elogiado, um “lambe botas” como haveria de ser pela vida fora, como político de sucesso.
A sua primeira vitória política foi a eleição como deputado por Freixo de Espada à Cinta, mesmo não conhecendo a terra, que pensava situar-se no Minho. Será escusado dizer que hoje não é muito diferente…
O certo é que Alípio não se cansou de “dar graxa” aos freixenses. Mas quando se livrou deles apelidou-os de “horda de carrapatos!”
Faz sucesso no parlamento graças a discursos barrocos e balofos, sem conteúdo.
No entanto, em breve Alípio se transforma noutra figura típica da política portuguesa: o vira-casacas. Afinal os partidos são todos iguais, por isso mas vale estar do lado do que ganha…
Na parte final da brilhante carreira deste imbecil típico da classe política lusa, Abranhos é nomeado ministro da Marinha; o Rei aceita a nomeação porque, embora não o conheça, “tem uma senhora muito galante”. Abranhos rejubila com a nomeação embora detestasse o mar e os navios. Não sabia o que era latitude e longitude; não sabia onde ficavam as colónias: só 18 meses depois da nomeação ficou a saber onde se situa Timor.
O final do livro assume um tom mais sério: Portugal é invadido, durante uma guerra em que a Alemanha invadira a Holanda, forçando uma declaração de guerra por parte da Inglaterra. Nesta fase, o narrador assume um papel diferente, extraindo uma espécie de lição de moral da história: “o que nos faltou foi almas!”, conclui Zagalo; não fomos derrotados por falta de exército, marinha ou armamento. Foi por falta de alma, de génio, de capacidade de luta.
A defesa foi anedótica; como sempre, todos esperavam que o governo resolvesse tudo; ora os governos não resolvem nada. No entanto, o governo é o pai de todos, o ser superior que todos veneram, mesmo que constituído por imbecis.
Imagem retirada daqui.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

(Re)lendo O Conde de Abranhos, de Eça de Queirós

Que Eça de Queirós era um visionário já todos nós sabemos. Recentemente, o Nuno do Página a Página, divulgou um texto de Eça que nos comparava, já no século XIX, à Grécia, como um país desgraçado. Muitos consideraram, por causa deste e doutros textos, que ao nosso grande escritor faltava patriotismo. Não! Penso que ele era realista. Dizer que Portugal é um país desgraçado não é ser anti-patriota; é ser realista. Isto era e é uma desgraça pegada.
Neste magnífico Conde de Abranhos retrata-se outras das tristes realidades portuguesas, de ontem e de hoje: os políticos incompetentes e oportunistas.
O Conde de Abranhos era uma besta. Um nabo! Um requintado ignorante! Por outras palavras, um político de sucesso.
Li este livro pela primeira vez nos verdes anos” e encarei-o na altura como uma comédia. Hojo leio-o com outros olhos: uma tragédia portuguesa. Mas uma tragédia real! Actual e perfeita.
Grande Eça, o que tu terias para escrever se viesses cá ver isto.
Imagem retirada daqui


terça-feira, 1 de novembro de 2011

A melhor leitura de Outubro

Mau grado a leitura de um dos melhores livros de António Lobo Antunes (Comissão das Lágrimas), a minha escolha deste mês não podia ser outra que não fosse aquele que é talvez o melhor livro português de sempre.
É o único livro de 10/10 que li este ano.
Ele é o Inconfundível, o Magnífico, o Único:

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Comissão das Lágrimas - António Lobo Antunes

Uma mulher de quarenta e tal anos. A fronteira entre a juventude e a memória que escapa, porém uma outra memória, a que resiste, persiste, como uma moinha, uma dor latente que aperta a alma e domina a mente; recordações negras, avassaladoras, povoam a mente de Cristina, internada numa clínica psiquiátrica. Memórias de África, Angola, Luanda, anos setenta. Nascida no tempo da Guerra Colonial, crescida entre o sangue e o horror, Cristina recorda a mãe, Alice ou Simone consoante se trate da mãe propriamente dita ou da mulher de alterne em que sobrevivera, do pai ou não pai, não se sabe bem, ele preto, o pai verdadeiro talvez branco, talvez o senhor Figueiredo da boite, Cristina não sabe, sabe sim que o pai, preto, foi homem da Comissão das Lágrimas, homem que faz justiça com muitas mortes e sofreu de outras justiças não menos ensanguentadas pela guerra ou guerrilha ou seja lá o que for, porque em Angola não era preciso guerra para matar, bastava viver ou sobreviver.
É assim o escrever e o sentir de António Lobo Antunes, frases que crescem como o pensamento que se encadeia noutro pensamento, porque o pensamento não tem pontos parágrafo nem sofre de acordos ortográficos. Assim uma escrita corrediça como a vida, assim às vezes partida ao meio como as almas.
O escrever de António é como o escrever do pensamento na memória. O que pensamos é por vezes apenas o que persistiu, deitamos fora os sorrisos, ficam as dores, as moinhas que persistem como o joelho de Simone ou Alice, o joelho que não para de doer, que incha como as dores da alma.
É assim o escrever de António, um escrever que nos faz sentir as dores de todas as Cristinas e chorar a alma de todas as Simones. É assim um livro inteiro sem um sorriso, a não ser talvez o sorriso interesseiro do avô de Simone, “anda cá rapariga”, o avô de Alice (então Alice, está claro) que não vê, não enxerga e então vê Alice tacteando, as pontas dos dedos no corpo de Alice, como os aguilhões de todas as guerras cravados nas almas.
Um livro sofrido, escrito a sangue que se lê sem lágrimas mas também sem conforto a não ser o do prazer imenso de passear na tristeza e na arte infinita de António Lobo Antunes.
A meu ver um dos melhores livros de ALA, este, o último até ao próximo. Um livro onde, mais uma vez, não se pode procurar uma estoria porque os livros de ALA são viagens, não são contos nem narrativas. Viagens interiores, passeios pelas dores da vida e, muitas vezes, murros brutais na alma de quem lê. Murros que se encaixam talvez com prazer masoquista mas sem dúvida com prazer de saborear esta poesia da dor como ninguém mais é capaz de a escrever.


Imagem de Luanda Antiga tirada daqui

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Lendo "Comissão das Lágrimas" de António Lobo Antunes

Se tivéssemos de escolher um livro “típico” de António Lobo Antunes, este seria um sério candidato; pelo menos é o que me parece, a meio da leitura.
A violência, na guerra colonial e nos acontecimentos que se seguiram à independência de Angola é o pano de fundo para a vida de três personagens: o padre que depois casa com Alice, ou Simone (“nome de guerra” como mulher de alterne) e a filha de ambos, Cristina, narradora no presente, internada, trinta e tal anos depois, num hospital psiquiátrico.
Como é típico em ALA, a técnica de múltiplos narradores dá à escrita uma variação constante, como que uma musicalidade que nos confunde mas também embala, numa linguagem poética como sempre, sentida, forte, por vezes arrepiante.
As sensações e as emoções sobrepõem-se às estórias; as memórias, a revolta e os sonhos perdidos conferem ao enredo uma emoção profunda que transformam ALA no escritor português actual que melhor conhece a alma humana. Por tudo isto, mais uma vez se adverte para que não se procure em ALA um enredo em forma de estória; trata-se acima de tudo de mais uma viagem encantada às profundezas do ser humano.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma Carta inédita de Abraão Forjaz

Tu Ana Karenina, eu Alexei Vronski, eu um frágil caule, tu a terra que me faz crescer, eu uma página de um romance de amor, tu a mãe de todos os heróis da mitologia grega, tu Afrodite, aquela que resume a Beleza num pedaço de céu, tu Atena, a sabedoria, a musa, aquela que desenha as órbitas errantes dos cometas, tu Hera, a rainha das Deusas ou a flor amarela do deserto.
Nós sonhados apenas num qualquer mar ou na ilha que há no meu peito, esse lugar único onde te encontro, onde cintila a luz pequena mas imortal da tua alma.
Nós e um livro, quem sabe um romance de amor ou talvez só uma página lida a dois, frente e verso de um amor, uma folha caída de um Outono qualquer, um episódio talvez do Amor em Tempos de Cólera, tu Fermina Daza e eu Florentino Ariza, tocando violino ao sabor do vento para te encantar os sonhos, eu apenas o pagem tu a Majestade que me inebria.
E talvez um tempo haja em que todos os sonhos floresçam, em que as flores do deserto triunfem, em que as órbitas dos cometas errantes se desenhem num coração de adolescente gravado numa árvore, eu e tu num círculo perfeito, os dois na cauda do cometa, desenhando no céu o nome de um amor assim escrito na eternidade.
Carta de Abraão Forjaz, manuscrita e inédita

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Um livro. Nada. Ou tudo.

Uma página de um livro, uma janela, uma ponte para o sonho, um ponto vermelho no negro de uma qualquer solidão, uma força que emerge na fronteira entre a vida e o abandono, a fuga para um mundo distante onde não ardem as fogueiras do desespero, onde as marcas do mundo não nos oprimem.
Uma página de um livro, uma ponte feita contigo, tu que lês do outro lado do mundo, para lá desta estrada marcada nas nuvens de um delírio… um delírio talvez de amor… um livro, o mesmo livro, o mesmo sonho feito de dois sonhos unidos na distância. Um sonho, dois sonhos, muitos sonhos e delírios unidos pelas mesmas palavras, os mesmos sons balbuciados baixinho no calor da insónia, no escuro da solidão, no desespero calado de estar só.
Um livro, traço de união, conjunção de mundos, encruzilhada de emoções, espelho de almas, lido como quem foge, porque quem lê foge sempre de algo, nem que seja de um nada, de um vazio, de um buraco negro na via láctea do destino, de um não ser que às vezes nos dilacera, nos desespera, um não querer ser, um nada… uma noite escura e fria como a solidão.
Um mundo, um livro, mil corações solitários aquecidos pelas mesmas letras, as mesmas palavras, o mesmo sofrer e o mesmo rir, de alguém que escrevendo foi a fogueira que aqueceu as almas assim unidas, assim feitas uma núnica constelação.
Obrigado, livro!
(Texto inédito de Abraão Forjaz)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Frei Luís de Sousa - Almeida Garrett

Esta peça é considerada uma das obras mais marcantes no teatro romântico português. No entanto (e sem que eu seja um especialista na matéria) parece-me nítida a influência da tragédia grega no enredo construído por Garrett.
Depois da malfadada batalha de Alcácer Quibir, onde desapareceu o ingénuo e mítico rei D. Sebastião, terá desaparecido também D. João de Portugal. Vinte e um anos depois, a sua esposa, D. Madalena de Vilhena, encontra-se casada com Manuel de Sousa Coutinho, já com uma filha, Maria. Tinha sido aceite como dado adquirido a morte de D. João. No entanto, Madalena vivia atormentada pelo medo; o eventual aparecimento do desaparecido marido faria com que ela e D. Manuel caíssem de imediato em pecado e em desgraça perante a sociedade. Maria, por seu turno, seria considerada filha do pecado. O drama agudiza-se quando, ainda no primeiro acto, Madalena confia a Telmo, o velho e fiel escudeiro, que o acender da paixão por D. Manuel dera-se ainda em vida de D. João.
E a tragédia abate-se quando, de facto, D. João aparece, disfarçado de romeiro.
Como é típico da tragédia grega, deparamos com uma situação em que os principais personagens revelam uma espécie de sentimento de culpa, uma espécie de “sina”, de destino manchado pelo pecado, pelo erro: Madalena porque amou Manuel sem que tivesse a certeza da morte do marido e Manuel porque aceitou o casamento mas também porque se revoltou contra o rei (Filipe II de Espanha que entretanto se tornara rei de Portugal), queimando o seu próprio palácio para não dar guarida aos governadores.
Depois de nos ter apresentado estes personagens dominados pelo medo, Garrett faz precipitar o drama, apresentando duas situações trágicas que levam o leitor (ou espectador) à comunhão com o sofrimento das personagens: o incêndio da casa e, principalmente, o aparecimento envolto em mistério e ambiente dramático, de D. João, sob a forma literariamente brilhante do Romeiro. Mas não ficamos por aqui: a acção precipita-se e a tragédia atinge o seu clímax no terceiro acto, com a doença fatal de Maria, a sua morte absolutamente dramática e o desenlace da relação entre Madalena e Manuel.
O brilhantismo desta obra, na minha opinião, resulta da brilhante conjunção de três elementos: a tragédia grega desenvolvia dom rigor e eficácia, a exploração do fatalismo sebastianista e a introdução ao teatro e literatura romântica portuguesa.
O sebastianismo está bem marcado na forma como a saudade se mistura com o pessimismo, o fatalismo, típico da mentalidade moderna portuguesa: D. Sebastião e D. João não são vistos apenas com saudade mas também como uma espécie de fantasmas. O aparecimento de D. João não é um acto de redenção ou de esperança; é, pelo contrário, o despoletar da tragédia.
Finalmente, o anúncio do romantismo português: não apenas no transporte da História de Portugal para a literatura e teatro mas também a exploração profunda da psicologia dos personagens: valorizam-se os sentimentos “humanos” das personagens, que tentam agir racionalmente (veja-se a luta patriótica de Manuel Coutinho) mas que acabam, invariavelmente, subjugados pelo destino fatal da desgraça.
Trata-se de uma obra notável, ainda, pela forma como é capaz de agradar a qualquer tipo de leitor ou espectador porque desperta sentimentos e interesses bem diversificados; é possível ler este livro deixando-nos levar pelo simples prazer de ler, como é possível ler como quem estuda a História e a Psicologia deste país.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Sôbolos Rios que Vão - António Lobo Antunes




“Sobolos rios que vão
Por Babilônia m’achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nela passei.
Ali o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,,
Babilônia ao mal presente
Sião ao tempo passado.” (…)
Luís de Camões



Na cama do hospital, solitário entre dores e lembranças, António Antunes, ou Antoninho alimenta com o corpo um “ouriço”. Cancro, dores, memórias, um mundo que se desmorona mas, ao mesmo tempo, um mundo inteiro de recordações que vagueiam na sua mente como a mosca que poisa no lavatório, como um pingo no sapato ou o avô que colocava a mão em concha na orelha para ouvir.
Grandes dores, ainda bem que as tem, pensa Antoninho, ou o Senhor Antunes, a quem os médicos e enfermeiros adiam a morte, talvez para lhe alimentar aqueles sonhos do passado, lembranças que são a sua vida, a solidão em forma de vida, o mundo em forma de cama de hospital, e felicidade em forma de memória, a morte em forma de ouriço, que corrói, o sangue na fralda, “é só mais um remédiozinho e fica fino”, conversa de médico, que nunca mais são cinco horas e o hospital cheio de dores para enganar…
Por entre as dores e a morte que se adia, o avô surdo, a avó chamando Antoninho, o pai com a criada na despensa, “olha o teu filho a ver-nos”, o pai jogando ténis com as inglesas do hotel.
Mundos inteiros dentro de um mundo só chamado memória, ou solidão, mundo inteiros resumidos num ouriço que lhe corrói as tripas como o pai corroendo a mãe, “não digas nada à tua mãe”.
Memória sofrimento e morte, é tudo a mesma coisa excepto o sorriso dos pequenos prazeres, resumidos, sintetizados no voar de uma mosca, num momentâneo “agora não dói” mas se não dói ouriço dói a alma, essa, sempre dizendo Estou cá, a vida embrulhada num mundo outro chamado passado, um mundo que afinal vai dar ao mesmo, é igual a este, se calhar o tempo é que é o embrulho, se calhar é tudo o mesmo, é o ouriço que comanda, é a dor que dita as regras, é o mundo inteiro naquela cama de hospital ou no pingo que caiu no sapato. Tudo talvez não seja mais que um imenso nada, a gente é que constrói mundos na cabeça, a gente faz os ouriços da memória e depois não sabe sair deles.
E o tempo é um engano. Não lhe poderemos nunca fugir nem nunca encontraremos o tempo de ser feliz. Porque o tempo é tudo, é o alguidar da vida onde tudo se mistura.
A tristeza é a vida; a escrita de ALA é esta dor de existir, este arrastar as letras até ao mais profundo do ser, este mergulhar de cabeça na escuridão de que são feitos os mundos.
Impossível escapar, impossível dizer isto não é nada comigo, é sim, é sempre comigo e com todos porque o mundo está nas memórias e resumir-se-á um dia ao nosso próprio ouriço. Inexoravelmente!
A beleza sintetizada numa lágrima que não sai.
Avaliação Pessoal: 9.5/10

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Lendo António Lobo Antunes (Sôbolos Rios que Vão)

Os livros de António Lobo Antunes deixam-me sempre surpreendido por um fenómeno estranho: o assunto é de uma tristeza avassaladora, os ambientes são cinzentos, os personagens infelizes e toda a estória é angustiante. Mas não consigo parar de ler; ainda ontem discutíamos aqui no blogue quais os ingredientes de um bom livro e concordamos que é preciso emoção; é preciso que o livro nos emocione. E António Lobo Antunes ensina-nos que não são só as emoções agradáveis que dão beleza e encanto à arte das letras; é também esta tristeza que ALA espalha pelas páginas; os tons cinzentos da memória de Antoninho, um homem com cancro que, no hospital, vive os seus últimos dias.
É a beleza da tristeza, em todo o seu esplendor. E a beleza das palavras por si só; a arte de passear pelas palavras.
A meio da leitura, fico com a sensação de que este não é o melhor livro de ALA; está longe da raiva exultante de Os Cus de Judas ou da profundidade psicológica de Ontem não te vi em Babilónia. Mas não deixa de ser um excelente livro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O que é um bom livro?

Às vezes dou comigo a pensar: afinal, o que é que me permite classificar um livro como excelente e outro como um fracasso, mesmo que escrito por um génio?
Há um escritor que me tem maravilhado. Já falei dele ontem aqui no blogue: Marek Halter. E foi a propósito dele que cheguei a esta conclusão: um livro que me encanta é aquele que me satisfaz em três dimensões:
- A forma como me diverte.
- A emoção que me desperta.
- O que aprendo com ele (dimensão didáctica).
Tenho Tolstoi, Cervantes e Dostoievski como escritores de eleição. E porquê? Porque me divertem, me emocionam e me ensinam.
Às vezes vejo os críticos encherem de "estrelinhas" obras verdadeiramente chatas; que não divertem ninguém. É por isso que os críticos me arreliam. No entanto, sinto que estou a ser dogmático. As três dimensões que enunciei não são critérios universais. São os meus critérios.
E fico um pouco perplexo porque muitas vezes não entendo os critérios de alguns leitores. Por isso deixo aqui a pergunta, que faço ao vento ou a quem se dignar responder-me: haverá critérios universais para avaliar um livro?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O Cabalista de Praga - Marek Halter

Está de parabéns a Bizâncio pela divulgação deste grande escritor francês, ainda não totalmente reconhecido pelos leitores portugueses.
Praga, “a Jerusalém dos novos tempos”, finais do século XVI. Na capital da cultura hebraica daquele tempo, David Gans é um discípulo entusiasmado e fiel do grão-rabi Loew, o MaHaRaL. Com ele aprenderá os segredos da Cabala, afinal de contas, a grande porta do saber segundo a tradição hebraica. A Cabala é o reino da Palavra; é o mistério que se esconde por detrás dos signos; é a arte de descobrir o significado da Palavra.
A narração é feita pelo próprio David Gans, em pleno século XX. A sua “fala” enquanto morto dá à obra um tom que reforça o enquadramento místico da narrativa.
Mas bem mais palpável que esse encanto místico que rodeia o pensamento hebraico é a terrível realidade: nem Praga escapa às perseguições aos judeus, após um período de paz devido à protecção pelo Imperador do Sacro Império. Os judeus eram considerados culpados da peste que matava aos milhares. Ironicamente eram os judeus que mais próximos estavam de compreender a doença e tratá-la, ou pelo menos preveni-la. Mas essa capacidade de escapar à maleita, em vez de ser encarada como uma fonte de informação era vista como fruto de artes de magia e, por isso, mais um motivo para o ódio.
Mas nem tudo é negro neste livro.
David Gans leva-nos ao encontro das maravilhas do Renascimento, em que os progressos científicos  surgem como oásis no meio da ignorância e da superstição. É nesses oásis que Gans nos apresenta Tycho Brahe, o brilhante astrónomo, o grande matemático Kepler e o revolucionário mas silenciado Galileu.
Rodolfo, o Imperador do Sacro Império é uma espécie de mecenas que protege o oásis. No entanto, a sua ambição de poder cega-o e só protege os judeus enquanto tem a ganhar com isso. Depressa se transforma em mais um impávido espectador da brutalidade com que os judeus eram tratados pelos cristãos. E neste aspecto, ao contrário do que por vezes se pensa, os protestantes luteranos não eram menos cruéis e supersticiosos do que os católicos. Também eles encaravam os judeus como origem de todos os males.
Há algum tempo escrevi neste blogue, a propósito de O Último Cabalista de Lisboa, de Richard Zimler, que nós, portugueses temos razões para nos envergonharmos do nosso passado pelos crimes que cometemos contra o povo judeu. Mas parece-me que não fomos os únicos. Quase toda a Europa, esta Europa que se arvora de ser a pátria da civilização, viveu encandeada por este ódio, por esta onda criminosa que vitimou milhões de inocentes. O anti-semitismo é a vergonha desta “civilização”.
Na parte final deste magnífico livro deparamos com uma espécie de fábula cheia de significado: os judeus de Praga conseguem finalmente encontrar um meio de responder à letra” aos cristãos que os massacravam. No entanto, foi este “Golem” que acabou por provocar a discórdia entre eles, trazendo mais uma semente de violência. Triste lição para a alma humana…
No final, um verdadeiro e belo hino ao poder da Palavra! No fundo é esse o espírito da Cabala – a força da palavra, capaz de fazer nascer um novo Homem! Mesmo na maior das desgraças, há sempre uma semente de fé e esperança!
Avaliação Pessoal: 9/10
(Comentário publicado no Blogue Destante, no âmbito da parceria com a Editorial Bizâncio).

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Sul. O Sombreiro - Pepetela

Pepetela regressa em grande. Este é talvez o trabalho mais elaborado e mais bem conseguido do magnífico escritor angolano que é já um motivo de orgulho da literatura que tem por pátria a Língua Portuguesa.
Livro de aventuras, ou romance histórico, ou as duas ou nenhuma das duas coisas, esta é uma obra de grande fôlego, num contexto inovador, penso que nunca antes “navegado”: Angola, no início do século XVII, quando era apenas um lugar na costa, uma colónia desprezada, mero entreposto de escravos caçados e comprados, destinado ao desumano trabalho da cultura do açúcar no Brasil, essa sim, a colónia de todos os sonhos. No entanto, era o sangue, o suor e a desgraça dos nativos de Angola que alimentavam a terra dos sonhos do outro lado do Atlântico. E Benguela, o sombreiro do sul, um sonho ainda mais vago.
Nesta obra, Pepetela leva-nos ao encontro do mundo misterioso das tribos africanas, nas suas rivalidades ancestrais, na sua luta pela sobrevivência mas também no encanto das suas tradições, dominadas por uma espécie de irmandade com a natureza que o branco nunca compreendeu nem quis compreender.
Aqui se fala dos terríveis jacas, guerreiros canibais, dos jogos de poder que envolviam os reinos do Kongo e do Ndongo, ora aliados ora rivais, conforme as conveniências e as manobras dos colonizadores.
Mas estes colonizadores estavam longe de ser agentes “civilizacionais”. Não eram mais que desterrados, condenados e refugiados, a verdadeira ralé da sociedade portuguesa. Para eles, Angola era apenas último lugar onde poderiam obter poder e dinheiro. Era assim também com o governador Cerveira, personagem central do livro: homem sem escrúpulos, impiedoso, cruel, egoísta. Para fazer fortuna não se olhava a meios; os sobas locais eram vítimas de uma estratégia traiçoeira que incentivava as lutas internas para delas obter escravos baratos ou outras fontes de riqueza. Neste sentido, esta obra é também um testemunho de como se perdeu o Império; de como se destruíram ideais de civilização que algumas mentes ingénuas alimentaram durante séculos.
E a Igreja Católica observava impávida este triste espectáculo. Impávida não… sempre se procurava tirar proveitos: neste livro, Jesuítas e Franciscanos transportam para África as suas ambições de poder e de fortuna e nem eles escapam à mesquinhez da ambição material.
A escravatura era a grande fonte de fortunas e por isso civilizar e desenvolver os negros era considerado perigoso! A política oficial considerava que qualquer desenvolvimento técnico, cultural ou até económico dos indígenas poderia colocar em perigo o medo que os portugueses deviam inspirar!
Enfim, trata-se de um livro poderoso! Um livro que nos diverte e emociona mas também uma obra que nos dá a conhecer um mundo ao mesmo tempo encantador e tenebroso. Um livro que me deixará por muito tempo na memória o encanto do amor entre o “europeizado” Carlos Rocha e a encantadora indígena Kandalu. Um amor que é um choque de culturas mas onde a natureza funciona como semente de eternidade.
Avaliação pessoal: 9/10

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Lendo Pepetela: A Sul. O Sombreiro

Eis o mais recente livro de Pepetela, lançado há um mês. O mais recente e, dos que li, o mais elaborado. Trata-se de uma empolgante viagem na Angola do início do século XVII.
Viviam-se os tempos da captura de escravos para as plantações de açúcar no Brasil. Um tempo de cobiça, de ganância e de intrigas próprias de um colonizador cego pela ânsia de riquezas.
O colonizado, esse, o povo do território que hoje é Angola (O que é uma pátria?) vivia entre as lutas internas e as relações mais ou menos conturbadas com o colonizador.
Mistura de romance histórico e livro de aventuras, esta obra tem o encanto da escrita “enfeitiçada” de Pepetela; uma escrita que nos embala no encantamento.
Enfim, mais um livro genial deste magnífico escritor angolano.
Amanhã, aqui, a opinião completa.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Memorial do Convento - José Saramago

É ingrato escrever sobre o Memorial do Convento. Tudo quanto se possa dizer é pouco. E tudo quanto possa “apoucar” esta obra é quase criminoso.
Sublime, épico, revolucionário, maravilhoso. Tudo isto é pouco.
Portanto, tudo o que aqui venha eu a escrever não serão mais que notas dispersas do deslumbramento com que reli este livro.
Comecemos então por umas frases do Mestre, que penso revelarem um pouco desse maravilhoso, a propósito do transporte de uma pedra monstruosa para a varanda do Convento de Mafra, tema central do livro:
“É só uma pedra, e os visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com as suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias, Deve-se a construção do Convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz”.
É isto: o refinado sentido de humor e a sensibilidade do escritor que se unem de forma genial.
E é mais que isto; é um tom poético notável: a passarola (aparelho voador historicamente documentado, construído pelo padre Bartolomeu de Gusmão), a passarola, dizia eu, que voa com a força das vontades dos homens; e é Blimunda, a mulher que representa a força popular, indomável e misteriosa, que recolhe as vontades dos corpos humanos. E quando Blimunda adoece, é a música que a cura.
Para lá da poesia na prosa, há Deus por todo o lado. Saramago, o ateu confesso, fala de Deus como quem o respira; na sua existência ou não, na sua impiedade ou injustiça; seja o Deus impiedoso que pactua com a miséria, o Deus aterrorizador que é serventias dos algozes da Inquisição ou o Deus fantasioso da superstição generalizada. Mas todos esses deuses existem porque são reais nas mentes e nas vidas sofridas dos homens.
E são essas vidas sofridas que percorrem a obra num tom pungente a lembrar as raízes neo-realistas do escritor: no sentimento de solidariedade com que descreve a vida dos mais pobres, desprezados e injustiçados pelos detentores da riqueza, renegados pelo poder. É a miséria de quem trabalha apenas para que possa manter-se na miséria. É a eterna injustiça do reino dos homens, no tempo do ouro do Brasil, que chega às toneladas para alimentar os sonhos magnânimos de um rei cujos súbditos morrem à míngua.
Neste sentido, o livro é um grito de revolta contra a natureza do poder político e, mais que isso, uma intensa reflexão sobre o sentido da vida: os que trabalham e sofrem, justificam e alimentam a vida dos poderosos e dos “santos”. Afinal, os pobres não têm tempo para viver.
Basicamente (e convém não esquecer o mais simples da mensagem) o Memorial do Convento é uma imensa homenagem a todos quantos construíram, com o sangue e o suor, não só o Convento de Mafra mas todas as vaidades que se plasmaram na pedra, onde as gentes humildes se sacrificaram na pedra bruta, altar do sofrimento, para honra e glória de mortais tornados ídolos. E talvez Deus seja apenas a testemunha silenciosa ou ausente, vá-se lá saber…
Mas nem tudo é sangue e suor neste livro; dele emana sempre o perfume do sonho, esse sol, ou esses sete sóis das semanas que comandam a vida, que o herói modesto do livro, Baltasar, herdou de alcunha: Sete Sóis, sete fôlegos, sete lutas, ou setenta vezes sete vidas guiadas pelo sol do sonho. O sonho que comanda a vida.
Enfim, um livro que se lê com fúria e prazer, com revolta e encantamento. Um livro único coroado com um final cheio de beleza e emoção.
Avaliação Pessoal: 10/10 

sábado, 8 de outubro de 2011

Relendo Memorial do Convento

Reler Saramago é uma aventura sempre nova, sempre estimulante e maravilhosa.
Dou comigo lendo e relendo a mesma página, num devorar que é também saborear, numa ânsia de absorver toda a sabedoria e arte do nosso grande Mestre.
Memorial do Convento é um monumento maior que o convento de Mafra, cuja construção se narra. Reler este livro é uma aventura épica única!
Toda a sensibilidade do autor expressa-se numa prosa poética inigualável, cheia de humor mas também de sentimento e de humanismo.
Não tenho já qualquer dúvida de que este é, para mim, o melhor livro alguma vez escrito em língua portuguesa.
Lá para segunda feira, aqui, a minha opinião completa.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ainda a propósito de Valter Hugo Mãe

A Cristina Torrão teve a amabilidade de me indicar este link:
O que aqui se passa é uma imensa discussão a propósito de uma apreciação "quase negativa" do livro O Filho de Mil Homens, apreciação essa feita por um crítico literário.
Devo dizer que, como se diz na minha terra, "afino" com estas apreciações feitas com base em padrões de qualidade que são sempre subjectivos. E "afino" ainda mais com o tom doutoral com que por vezes se atribuem esses epítetos de "escritor com E", passando a encarar esses heróis como uma espécie de "vacas sagradas" em quem  ninguém pode tocar. Para esses "doutores", dizer, como eu digo, que não gostei do livro de VHM é um crime de lesa-majestade, como seria também criminoso elogiar José Rodrigues dos Santos porque esse já foi carimbado por tais doutores como um escritor medíocre.
É por estas coisas e por outras que ouso dizer com todas as letras: abomino cada vez mais a crítica literária! Vou continuar a dizer que GOSTO de Paul Auster, de Augusto Cury, de Zafón e de vários outros que os doutores/críticos abominam! E da mesma maneira diria que detesto Os Maias se assim pensasse! E direi também que não consigo ler A Viagem à Índia, que os doutores tanto adoram!
Senhores Doutores e Senhoras Doutoras, quero lá saber o que vocês pensam e o que vocês dizem! O único padrão de qualidade a que obedeço é o meu, até porque a Literatura não é uma indústria para se avaliar os livros como se avalia um detergente. No entanto, TODOS temos o direito de fazer a nossa avaliação pessoal, pois a Literatura é uma arte. A mais nobre das artes!