"Os Homens só se compreendem uns aos outros na medida em que os animam as mesmas paixões." - Stendhal

Os Meus Livros

...Sinteses e impressões pessoais

segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Carta ao Pai - Franz Kafka

Escrita em 1919, cinco anos antes da sua morte, esta Carta ao Pai é um testemunho grandioso dessa ambivalência que muitas vezes habita o espírito humano, constituída pelos pólos só aparentemente opostos de amor e ódio.
Kafka não esconde um profundo rancor em relação à figura paterna. No entanto, esse rancor surge mesclado com uma reverência profunda e mesmo admiração. O pai era o ser forte e poderoso que ele nunca foi; o ídolo e tirano da sua infância. Aquele que o desprezava mas em função do qual vivia.
O pai, na sua imensa autoridade, acaba por gerar em Kafka aquela melancolia e ao mesmo tempo a revolta que tão patente ficou na sua obra literária. Ler estas páginas é uma imensa ajuda para compreendermos o espírito revoltado, caustico deste que foi um dos maiores escritores do século XX.
Escrita ao “correr da pena”, esta obra manifesta uma ingenuidade de estilo bem patente nas frequentes inexactidões de linguagem, o que demonstra o carácter privado da sua escrita.
Para todos os educadores e pais esta obra é também um profundo motivo de reflexão. Até que ponto se justifica, por exemplo, impor normas religiosas constituídas por dogmas inquestionáveis para o jovem, sabendo-se de antemão que esses comportamentos e crenças surgem eivados de imposições sociais?
O poder da figura paternal, protectora mas tirana, anulou quase por completo a personalidade do jovem Franz. A humilhação continuada gerou, por outro lado, um sentimento de culpa que leva Kafka a diminuir-se perante o mundo. A escrita funcionou sempre como um refúgio, onde projectava a sua revolta sob a forma do absurdo.
A descrição das “atrocidades” cometidas pelo pai atinge por vezes extremos verdadeiramente pungentes. Por exemplo, a forma como descreve o desprezo supremo quando as críticas paternas se apresentavam sob a forma de ironia ou misturadas com o riso. Esta atitude era a suprema humilhação: o riso acentua o desprezo, a humilhação.
Em conclusão, trata-se de uma obra onde sobressai a frontalidade, a necessidade de catarse e a tentativa de reencontro de Kafka com a sua própria identidade, a partir do confronto directo com o pai. Um obra que não deixa de nos sensibilizar pela pertinência do tema, num tempo em que a educação familiar é tão questionada.

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

As Pontes de Madison County - Robert James Waller

Robert Kincaid é um fotógrafo da revista National Geografic. Um homem simples. Um solitário feliz. A mãe afirmava que ele veio de um lugar para onde tentava voltar. Talvez por isso é um cidadão da natureza, um homem que procura, através da fotografia, captar o mundo.
No dizer de Francesca, ele é como o vento; move-se como o vento; “talvez viesse dele”…
Livre, poeta, só. Talvez à procura de algo…
Francesca é uma dona de casa submissa, uma mulher do campo, fiel aos seus princípios de moral cristã, tímida, recatada. Mas é como uma adolescente; sonha e sente que a vida lhe escapa na paz dos dias. Feliz? Acostumada à felicidade que a paz familiar lhe oferecia.
Por vezes, há situações na vida que não se explicam; uma emoção perante algo ou um súbito e avassalador sentimento por alguém… algo que surge de abrupto, mas que traz em si um sinal de predestinação, como se estivesse escrito no céu. Algo inevitável! Imperioso.
A atracção de Francesca por Kincaid surge em poucos segundos. No entanto, parece que todo o universo convergia para aquele momento. Nada mais havia a fazer. O inexorável triunfo da paixão.
Depois é o amor e a vida; os obstáculos incontornáveis que fazem a separação entre a concretização dos sonhos e a rotina dos dias que morrem, fazendo morrer a gente. Persiste a memória… como no quadro de Dali: uma memória incorruptível, poderosa. Mas apenas memória, logo, triste e melancólica. E a saudade, essa chaga que não fecha... E a nostalgia de um olhar para o passado como se este fosse uma espécie de paraíso perdido; ou que nunca se ganhou…
Este livro tem o inexplicável dom de nos dizer qualquer coisa que não conseguimos nunca explicar. Qualquer coisa impossível de descrever em palavras… 

domingo, 31 de Janeiro de 2010

O Leitor - Bernhard Schlink

A leitura como testemunho de um amor inexplicável, intenso e estranho. Um jovem de 15 anos que lê em voz alta para uma mulher de 36, que ama ardorosamente. Um adolescente sonhador e uma mulher bela mas autoritária. Uma personalidade em formação e um espírito enigmático, formado num passado misterioso e agora plasmado no silêncio de quem ouve ler.
Para Hanna, o amor carnal é uma forma de assegurar um presente fugaz, refúgio de quem vive perdida no passado; “a tua vida inteira numa hora”…
Todo o enredo se constrói em torno de um tema complexo e marcante para a Alemanha da segunda metade do século XX: a justiça para os criminosos de guerra, um dos grandes dilemas éticos do pós-guerra. Este livro comprova até que ponto o Holocausto nazi está ainda presente na consciência alemã de uma forma profunda e intranquila.
Para a geração do Leitor, não se tratava apenas de julgar criminosos, mas sim de julgar toda a geração dos próprios pais. Hitler, responsável pela morte e tortura de milhões de pessoas havia sido eleito e apoiado pela maioria dessa geração que agora é julgada; essa tinha sido a geração que executara as ordens de Hitler. Até que ponto, no entanto, é legítimo julgá-los? Até que ponto se trata de vontade de praticar a justiça ou apenas exorcizar a culpa e apaziguar a consciência?
Compreender a geração dos pais torna-se incompatível com a necessidade de julgar e condenar. E Hanna representa a geração dos pais. Amá-la ou julgá-la? É a grande questão.
Apontar o dedo aos culpados não liberta, não apaga a culpa colectiva. Mas torna o sofrimento e o remorso mais suportáveis.
Na segunda parte do livro, um novo dilema: o Leitor conhece um segredo de Hanna que a pode salvar. Mas, bem ao jeito da literatura alemã, Schlink coloca-nos perante um este dilema ético: até que ponto é legítimo revelar um segredo contra a vontade da própria pessoa que, com essa revelação pode ser salva? Poderá esse gesto “salvador” compensar a invasão da dignidade e da liberdade do ser humano?
Se bem que de leitura agradável e fluente, este livro deixa um tom nostálgico no final. O remorso prevalece. A culpa é insuperável. Amar ou castigar não eliminam a culpa nem acalmam a consciência. Culpa por ter amado; culpa por ter castigado.
No final, a grande mensagem parece ser esta: punir é uma tentativa vã de libertar a consciência. A culpa sobrevive. Não se elimina de uma geração para a outra, apenas se transfere. Os acusadores tornam-se vítimas da própria acusação.

terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Barroco Tropical - José Eduardo Agualusa

Um escritor vesgo, Bartolomeu, que lutava por se desamordaçar. Uma cantora, Kianda, cuja música era a linguagem dos Astros, uma modelo, ex-miss, que um dia caiu do céu. Angola, 2020. Um mundo em harmonia que, segundo Kepler, se expressa em música triste e lamentosa; a Terra chora; e continua a chorar, a terra angolana…

Um homem que morre lentamente depois de ver morrer a filha; uma esposa que não sabe se o há-de abraçar ou matar; - Abraça-o, diz a irmã, que morto já ele está. Bartolomeu vai morrendo mas lutando. Amores que se cruzam e descruzam e rancores que podem ser mais fortes que amores. E Pascal Abide exemplo extremo, real, do oportunismo que destrói a terra angolana: empresário das telecomunicações, senhor controla-tudo, traficante de armas, corrupto, criminoso, traficante de drogas, premiado pelo governo, íntimo da Senhora Presidente, embaixador de Angola no Vaticano.
O temor reverencial, doutra forma dito o medo, paralisante, monstro simpático que convida ao sossego, à harmonia da conivência, à paz da hipocrisia. Uma mulher com sinais no corpo, há que ler os sinais ou ser devorado. E a miséria de um povo nos subterrâneos dos prédios, nas catacumbas da vida.
Mas há sempre o sossego; há pessoas que são sempre lugares. Há sempre Lulu, o marido fiel de Kianda, o refúgio, o ultimo reduto, pessoa que é lugar. Sim, porque o amor é um lugar seguro e há pessoas que são assim: apenas um lugar seguro de onde nunca poderemos nem quereremos escapar. Como Luanda suja, miserável, corrupta, irresistível.
Por todo o lado, a magia do saber africano, a fantasia, o encanto da terra e dos seus fantasmas, refúgio, um lugar para onde se escapa a revolta. O lugar de onde a riqueza não sai nem entra, riqueza de um povo, de almas que não participam no jogo do poder. Apenas um povo ingénuo e sábio que sabe falar chuva, falar vento e conversar com o capim.
Mas em Luanda é preciso não falar; calar e seguir as pisadas do poder. Submissão. E Tata Ambroise, o feiticeiro do governo, o torturador, alma santa que cura desvalidos, ignorância ao serviço do poder. A boca voraz do monstro.
Kianda e Núbia, as mulheres que parecem existir para preencher os sonhos dos homens, mulheres que dão vida à existência. A exaltação do feminino, a beleza mais pura num mundo de podridão.
Em suma, um livro escrito na nostalgia, triste, às vezes apocalíptico, sem nunca perder a capacidade de sorrir, talvez o sorriso do desprezo. Uma visão pessimista mas também encantada de Angola que talvez se estenda à vida.

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Opinião - Afinal o tamanho é importante?



Os dois melhores livros que li até hoje (D. Quixote e Os Irmãos Karamazov) são absolutamente monstruosos (mais de 1500 páginas nas edições que usei). Outros livros considerados obras-primas da literatura mundial são do mesmo quilate: Guerra e Paz, Os Miseráveis, Ana Karenina, Doutor Jivago, etc. Isto leva-me a pensar no seguinte: o que distingue, de facto, uma obra-prima? Se é a análise aprofundada do comportamento humano, então, não tenhamos dúvidas, o homem é um ser tão complexo que não se consegue ir às profundezas da alma sem se fazer um “tratado” capaz de funcionar como arma de arremesso se nos assaltarem a casa.
Por outro lado, há livros fantásticos que se lêem numa única insónia: Madame Bovary, A Metamorfose, Inventar a Solidão, O Estrangeiro, De Profundis, A Morte de Ivan Ilich, ou o recente e maravilhoso Firmin.
Mas… poderão estas últimas ser consideradas obras-primas? Não serão apenas leituras e interpretações parcelares da vida e alma humanas?
Esta reflexão leva-nos a uma outra questão: afinal, o que queremos dos grandes livros? Que nos analisem profundamente ou que nos ofereçam belas histórias? Que nos ocupem longos serões e nos obriguem a memorizar centenas de nomes ou então que nos distraiam apenas?
Será o nosso tempo tão pouco valioso que nos possibilite utilizar centenas de horas para ler três ou quatro obras?
Evidentemente tenho as minhas respostas a estas questões. No entanto, gostava que os meus amigos pensassem no assunto…

domingo, 17 de Janeiro de 2010

Kafka à Beira-Mar - Haruki Murakami

Kafka à Beira-Mar é uma obra magnífica por conseguir aliar um intenso ritmo narrativo a uma caminhada reflexiva capaz de nos fazer, por várias vezes, voltar a página atrás e parar para reflectir. A linguagem, cheia de simbolismo, cativa o leitor pela ironia e acima de tudo pela fantasia. O interior do ser humano é analisado em detalhe, à luz da sabedoria oriental, num meio irremediavelmente ocidentalizado como é o Japão moderno.
O enredo aborda o percurso de Kafka Tamura, um jovem de 15 anos que foge de casa e um homem idoso, o interessante Nakata, que fala com os gatos, faz chover sanguessugas ou peixes, depois de ter sido vítima de um estranho acidente, na sua juventude. Ao longo do seu atribulado percurso de fuga, Kafka parece fugir de si próprio; amaldiçoado por uma negra profecia lançada pelo pai, foge de quê? É este o coração do livro: de que foge o ser humano?
Em primeiro lugar, desde as primeiras páginas, Murakami transmite a ideia de uma acentuada crença na bondade natural do ser humano; a maioria dos personagens são naturalmente bons, o que vem, pelo contraste, reforçar a maldade atroz do pai de Kafka.
Nakata, velho e bom, encarna a ausência de conhecimento como fonte de felicidade; o velho que fala com os gatos ficara estúpido mas não sabendo o que são recordações, não sabe o que é o sofrimento.
Ao longo da obra, principalmente na primeira parte, Murakami evidencia todo o seu fascínio pelo conhecimento clássico, nomeadamente dos Gregos antigos. Na vida, como em Aristófanes, o ser humano parece destinado a procurar a sua “metade perdida”, com a qual se completará. Estabelece também um paralelismo com o teatro grego, na relevância que dá ao destino, como uma espécie de desígnio incontornável sobre a vida humana, nomeadamente a tragédia. Na vida humana a tragédia parece ser consequência das virtudes e não dos defeitos ou problemas.
Realce também, nesta primeira parte da obra, para a valorização dos conhecimentos tradicionais da cultura japonesa, como por exemplo o conto de Genji, na explicação dos “espíritos vivos”.
Mas o tema central deste livro é, sem dúvida, o destino. Numa espécie de luta interior, Kafka luta pela sua própria identidade, tentando conciliar o destino com o livre arbítrio. A fuga é antes de mais uma tentativa desesperada de escapar ao destino. No entanto, como afirma o seu amigo Oshima, “podes fugir mas não te podes esconder”. E, assim, a vida será sempre uma luta. Ao longo dessa luta, é fundamental a imaginação; aqueles que não a usam tornam-se ocos, desprovidos de conteúdo. É essa imaginação que permitirá ao ser humano lutar e triunfar contra o destino. O destino é poderoso mas não é invencível.
Quando Kafka foge, afinal, foge para onde? Inicialmente para a biblioteca, depois para a floresta: são esses os locais onde ele se pode encontrar. É a eterna procura do “eu”! No entanto, é dentro dele que se encontram as respostas. O seu “eu interior”, personificado pelo “rapaz chamado corvo” funciona como a sua consciência, a sua voz interior.
Ao longo da obra parece notar-se um certo corte com o conhecimento enquanto caminho para a felicidade; o verdadeiro conhecimento é precisamente aquele que provém do “eu interior”. É nesse sentido que Nakata, o velho, considerando-se “estúpido” porque esqueceu tudo o que aprendera na escola, é o mais sábio porque encerra todo o conhecimento místico que dará luz a todos os mistérios que o enredo encerra. A própria biblioteca não é vista como local de conhecimento mas de solidão; é aí que o espírito pode encontrar a verdade, não nos livros mas em si mesmo.
Em conclusão, trata-se de uma obra de grande alcance filosófico e místico, cheia de simbolismos e onde o mistério e a fantasia resumem todo o lado não racional do ser humano, lado esse que é fundamental na procura da identidade e do verdadeiro sentido da vida.
Imagem: Salvador Dali, Swans Reflecting Elephants

quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Opinião - Abaixo o pedantismo


Num intervalo de leitura de um brilhante Murakami (Kafka à Beira-mar) faço uma investida pela Internet e deparo com algumas ideias que me deixam perplexo.
Eu sei que todo o ser humano tem direito à sua opinião. Sei e respeito.
No entanto, esse respeito não me impede de ficar indignado.
Eu sei que "é bem" dizer que se gosta de escritores obscuros mesmo que não se goste; "é bem" dizer-se amante de música clássica mesmo que lá em casa se oiça a Ágata; "é bem" decorar uns títulos de programas do Canal2 mesmo que, no esconderijo doméstico, se vejam apenas telenovelas da TVI e, quando muito, o concurso do gordo.
Tudo bem, se "é bem" que seja. Mas eu tenho direito à minha indignação e julgo ter motivos sérios para ficar indignado.
Não gosto do fado de Amália Rodrigues, dos livros de Paulo Coelho, da literatura Light em geral, de escritores elitistas e pseudo-intelectuais. Mas nunca direi ou escreverei que essas pessoas são estúpidas, incompetentes e inúteis. Por uma única razão: porque eles contribuem para a felicidade de muitos seres humanos! Por isso, tenho motivos para ficar indignado quando deparo com certas "modas" como considero pedantes, como a de considerar frívola e menor a (abusivamente denominada) literatura de auto-ajuda e desdenhar de determinados escritores apenas porque são populares e acessíveis como Paul Auster e este espectacular Murakami.
Aqui fica pois a minha indignação: uma obra prima não tem de ser um calhamaço duro de ler nem um escritor de génio tem de ser uma mente tortuosa e atormentada.
Sinceramente, cada vez que leio opiniões como as que referi acima, mais me apetece dedicar-me à tal literatura light! Venham daí as Nora Robert's, as Danielle Sttele's e até o velhinho Konsalik. A leitura tem de ser diversão; abaixo o intelectualismo pedante!

terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

O Amante - Marguerite Duras

“O Amante” é um dos maiores sucessos desta escritora que marcou a literatura francesa do século XX. Trata-se de uma obra de cariz auto-biográfico, o que, desde logo, revela a enorme coragem da escritora, tendo em conta o enredo do livro.
A protagonista é uma jovem francesa de quinze anos que se apaixona por um magnate chinês na Indochina (antiga colónia francesa que incluía o Camboja, Laos e Vietname). A jovem, a quem a autora não atribui nome próprio, envolve-se de imediato numa intensa relação amorosa e sexual. Trata-se, obviamente, de um relacionamento considerado “escandaloso” para uma jovem europeia.
Também o relato da vida familiar da jovem é absolutamente chocante: a mãe, antiga professora primária arruinada, viúva, é uma pessoa amargurada, gravemente afectada por distúrbios mentais, recorrendo com frequência a violentos castigos corporais sobre a filha “pecadora” e sobre o irmão mais novo, que acaba por morrer. De toda a família, ele é o único que, no livro, tem nome próprio (Paul). O irmão mais velho, dependente da droga e do crime, é uma pessoa violenta que se alia à mãe no exercício da repressão. Ambos, personificam a maldade e a violência.
Além disso, a miséria material, a pobreza quase extrema, acompanha este quadro absolutamente dramático mas descrito de uma forma chocante pelo realismo.
Trata-se de uma obra que, pelo seu dramatismo, exige do leitor um certo distanciamento em relação às emoções que, inevitavelmente, acaba por despertar. É uma obra marcada pela tristeza, pela revolta.
As mulheres são, em geral, vistas como seres solitários, dependentes e emocionalmente frágeis. E é essa fragilidade, essa solidão, que conduz a jovem até à relação intensa mas efémera com o amante. Este é visto como um ser algo superior, inacessível, porque pertence a “outro mundo”, o da elite endinheirada e poderosa. Mas, ao mesmo tempo ele é desesperadamente frágil por não ser capaz de assumir qualquer compromisso, permanecendo sempre submisso ao poder e ao sistema em que se encontra inserido. Além disso, é notório o choque cultural que afasta o amante chinês da jovem francesa.
Ela não se entrega por amor nem sequer por atracção, mas sim por revolta e solidão. Entrega-se e esvazia-se; a relação não a liberta. Pelo contrário, é a sua paixão pela amiga do reformatório, Hélène, que a realiza, que a gratifica, mesmo não passando de uma paixão platónica e fugaz.
A linguagem, poética e sentida, muitas vezes desesperada, é um dos maiores atractivos deste pequeno romance. Uma leitura que se recomenda com a advertência do necessário afastamento emocional, defesa indispensável a um leitor mais sensível.

sábado, 2 de Janeiro de 2010

A Terceira Rosa - Manuel Alegre

Trata-se de uma das raras obras em prosa deste que é um dos grandes poetas da língua portuguesa. Neste livro, Manuel Alegre relata-nos uma sofrida história de amor, entre Xavier e Cláudia, na fase final do Estado Novo português.
Os encontros e desencontros, as euforias e os dramas da paixão vão acompanhando a agonia de um regime pérfido mas moribundo que, no entanto, continua a dilacerar vidas e almas. Xavier e Cláudia, divididos pelo fascismo, separados por mundos opostos num mesmo mundo, vítimas dos outros mas também da insatisfação humana que eles próprios representam no teatro da paixão.
Numa admirável, cuidada e emocionada prosa poética, Alegre passeia pelas palavras enquanto nos guia pelos caminhos da solidão que o amor não apaga. Um amor sem tempo, ou melhor, com um tempo que é desde sempre e sem fim.
Fabulosa a descrição dos mecanismos da paixão, que “passa e não passa”. Assim é o amor: morre mas não morre. E um “também eu” que é frase de quem ama e se repete nesse tempo que não acaba, nesse passar que não passa.
Uma prosa escrita com ardor, sem artificialismo, apenas alma, apenas o som que vem do peito. Sem descrições inúteis, que tantas vezes enfadam e destroem grandes enredos. Trata-se da escrita mais pura e magnificamente simples que se pode criar.
Dispensável, talvez o estafado paralelismo entre o amor e os toiros de morte.
Genial, talvez a leitura da alma humana que, de tanto amar, destrói. Xavier amou até à exaustão.
Genial, também, os caminhos paralelos do amor e da Liberdade; o 25 de Abril que nasceu para não morrer, um amor que terminou sem morrer. A esperança que sobrevive, Cláudia e a Liberdade, a eternidade das paixões. Cláudia que dizia a Xavier “eu não quero morrer de ti” é, afinal, eterna.
Curioso título do livro: referência a um belo poema de E. E. Cummings em que a rosa vermelho-escura aparece como símbolo da morte:
(…)
If there are any heavens my mother will (all by herself) have
one. It will not be a pansy heaven nor
a fragile heaven of lilies-of-the-valley but
it will be a heaven of blackred roses

(…)

quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Intervalo - Feliz 2010

Na impossibilidade de visitar os blogs de todos quanto partilham comigo esta paixão pelos livros, aqui deixo o meus sinceros votos de um 2010 cheio de alegria, com muitas e  boas leituras.
A propósito, em jeito de recomendação para o novo ano, os sete livros que me marcaram no "Ano Velho":
A Saga de um Pensador, de Augusto Cury
O Monte dos Vendavais, de E. Bronthë
Cemitério de Pianos, de José Luis Peixoto
Firmin, de Sam Savage
O Doente Inglês de M. Ondaatje
Frankenstein de M. Shelley
A Estrada, de Cormac MacCarthy

Então fiquem com uma coisinha gira da minha infância ;)
http://www.youtube.com/watch?v=dcLMH8pwusw

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Cemitério de Pianos - José Luís Peixoto

Permitam-me imitar o blog http://adasartesleituras.blogspot.com e citar uma passagem absolutamente fantástica desta obra:

"na hora de pôr a mesa éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
[...]
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois a minha irmã mais nova
[...]
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
[...]
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
[...]
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
[...]
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho, mas irão estar sempre aqui
[...]
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.



Não tenho dúvidas em afirmar que José Luís Peixoto é um dos escritores contemporâneos cuja escrita mais me fascina. Com nítidas influências de Lobo Antunes e, principalmente de Faulkner, adopta a técnica de multiplos narradores que confere à escrita uma intemporalidade encantadora. O tempo sai claramente vencido. Avô, pai e filho, uma mesma vida; as mesmas angustias, que são as da gente simples, as de todos nós. "Eramos perpétuos uns nos outros", afirma o filho de Francisco.
A obra baseia-se na vida de um maratonista português que morreu, dramaticamente, ao quilómetro 29 da maratona dos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912. Carpinteiro de Profissão, Francisco Lázaro era filho e neto de carpinteiros. Nasceu no dia em que o pai morreu, como viria a suceder ao seu filho.
Memórias de vidas repetidas formam circulos concêntricos, fazendo-nos olhar a vida como um carrossel de factos que, imperiais, dominam o destino e subjugam a existência. Ao longo de toda a obra, predomina a beleza que só a tristeza pode dar às palavras. O sentir da gente simples, os prazeres e as dores de quem vive à procura da música nunca encontrada dos pianos avariados. A vida como cemitério da música. E um maratonista que corre até à exaustão em busca de um sentido (que não existe) para os círculos concêntricos.
Maria, operária fabril, passava horas lendo romances de amor no cemitério de pianos (espécie de arrecadação onde se guardavam pianos que ficaram por consertar). Maria procura nos livros o sonho que não existe. Mas procura e assim vive; entre sonhos perdidos e musica que não sai dos pianos; esperanças adiadas que não perdidas. Sonhos que são o conforto e o alimento da vida. Maria lê; e quem lê foge sempre de algo; talvez do medo, talvez das memórias, talvez de alguém. Mas vive; refugiando-se num mundo novo, mas mantendo a esperança.
Sempre a esperança do maratonista que corre como vive: à procura do sentido da vida e em fuga; fuga da culpa e do medo, os grandes inimigos da vida: ninguém vive só a sua vida; vive também a dos outros porque as suas atitudes os afectam e condicionam.
No meio de tudo isto, que interessa quem vive e em que tempo? O momento presente encerra todo o passado. É Francisco quem o diz na primeira pessoa: "todo o tempo, anos e décadas que vivi, que não vivi, que viverei e que não viverei, existem neste momento" (página 225). Passado, presente e futuro num único e poderoso agora.

domingo, 27 de Dezembro de 2009

Boneca de Luxo - Truman Capote

“Boneca de Luxo” é a história de uma jovem actriz, Holly Golightly (Lulamae de seu nome verdadeiro), que foge de um passado sofrido para o luxo e a luxúria de Nova Iorque. “Em viagem” é a frase que coloca na sua caixa de correio; de facto, ela procura na vida uma eterna viagem que a leve até ao âmago da existência, por caminhos incertos mas iluminada por um objectivo: a realização pessoal, a sua afirmação como pessoa.
Boémia e mundana, Holly envolve-se numa existência povoada de vícios, com uma conduta que a sociedade carimba de devassa e imoral. No entanto, ela nunca deixa de expressar os seus valores morais. Ao longo da narrativa, é visível a superficialidade das relações humanas na grande cidade e a futilidade daqueles que a procuram em nome do corpo e da satisfação do prazer.
No entanto, Joe Bell e George Peppard, o escritor fracassado, são diferentes. Eles alimentam por Holly uma amizade profunda e verdadeira, talvez aquele amor que a cidade lhe recusa. Este amor, que nada tem de carnal, dispensa qualquer erotismo e mesmo a própria presença física. É Joe Bell quem define este amor, de forma eloquente e terrivelmente bela:
“Podemos amar uma pessoa sem ser dessa maneira. Mantemos as distâncias, é uma pessoa amiga que não deixa de nos ser estranha.”
Peppard segue os passos de Holly e caminha sempre ao seu lado, ao contrário da grande cidade que apenas a admira e utiliza nos seus desejos fúteis. No entanto, Holly permanece fiel ao seu passado; Doc, o ex-marido resgatara-a da miséria e a ele se unira com tenra idade. Para Holly, ele mantém-se o verdadeiro dono do seu afecto. Neste aspecto, as amarras do passado são intransponíveis.
“Mas, Doc, eu já não tenho catorze anos nem sou a Lulamae. (…) Mas o pior é que sou mesmo”.
Nessa quase infância, Doc libertara-a da miséria mas aprisionara-lhe os sentimentos; e Holly era como um animal selvagem que ele pretendeu enclausurar. Na grande cidade, procurou libertar-se desses grilhões, no entanto, apenas encontrou o desprezo vil da soma de egoísmos a que chamamos sociedade ou civilização.
Para Holly restou a necessidade de continuar “em viagem”.

sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

Firmin - Sam Savage

Firmin, o rato, é o mais novo de uma ninhada de treze, filhos de uma ratazana bêbada. Fraco, por falta de teta disponível, é o renegado da vida.
Terminada a leitura, não posso deixar de admitir que, se fosse um rato como Firmin, teria devorado literalmente o livro depois de o ter “devorado” em poucas horas. Trata-se de uma fábula magnífica.
Este livro deveria ser lido atentamente por todos aqueles que não compreendem a paixão pelos livros.
Vítima de “biblobulimia”, Firmin alimenta-se de livros: ele , come e vive os livros. Vivendo numa livraria de bairro, ele observa as pessoas e vai aprendendo a viver com elas. A livraria (na primeira parte do livro) e a casa de Jerry (na segunda parte) são o seu refúgio – o mundo lá fora é horrível e decadente. Os livros e o sonho comandam a sua vida.
No entanto, Firmin, o devorador de livros, não consegue comunicar com os humanos, essa espécie incompreensível e egoísta. Jerry, o homem que queria consertar o mundo, escritor modesto e vagabundo no destino, é o único que o compreende; o seu único amigo. Jerry é pobre e desprezado. É feliz. Como o Falcão de “A Saga de um Pensador”, ele vive do outro lado do mundo; não acima nem abaixo; apenas numa linha paralela à vida dos “normais”; ele e Firmin; eles e os livros. No entanto, é nesse caminho paralelo que encontram a felicidade, bem perto da vida, não num mundo irreal ou afastado dos outros. Firmin como nós, os que amamos os livros, não vivemos noutro mundo; apenas do outro lado – aquele lado a que alguns chamam da loucura.
No entanto, Firmin, o rato, carrega consigo a solidão. Mas graças ao afecto (ou amizade, ou amor, tanto faz) por Jerry e pelos livros, essa solidão não deixou nunca de ser apenas uma palavra que apenas vagueou com ele pela vida.
Firmin teve a coragem suficiente para vencer o medo e procurar o sonho. Foi um rato renegado mas feliz.
Um livro fantástico; uma fábula inesquecível.

domingo, 20 de Dezembro de 2009

O Arquipélago da Insónia - António Lobo Antunes

Memórias de uma infância feita de fantasmas vivos, vidas entrelaçadas numa insónia única, a tristeza por todo o lado, porque dela se alimenta a vida e a terra, esperanças nenhumas, sonhos ausentes, apenas memórias…
Um poço que sepulta talvez um irmão, talvez um pai, talvez uma memória ou um desejo, uma planície que os sepulta a todos, vivos na insónia, na vida igual, no trabalho igual, na dor igual.
E a morte, por todo o lado, poderosa e indiscreta, brincando com o destino da gente, ora aqui ora ali, atacando descarada depois escondida, disfarçada, tão presente que por vezes nem se sabe quem morre (o que é que isso interessa?) a morte é mais forte que os mortos, estes calados obedientes respeitosos… os mortos que morrem mas vivem, teimam porque a memória persiste. Esperança nenhuma nem Deus, só a memória, só os mortos que persistem…
Três gerações, um tempo só, indefinido, único no entanto, sem início nem fim como a tristeza.
Memórias, esquecimento, revolta, solidão, nunca futuro, nunca esperança porque o tempo não é o que será, o tempo ri, não sorri, apenas desdenha, pérfido, implacável, aborrecido mas trocista do destino da gente…
O tempo que gasta o amor que nunca existiu (que disparate amor, talvez respeito, talvez obediência como a dos bichos), amor palavra vã, ausente, sem sentido… a não ser Maria Adeleide, sim, Maria Adelaide (“com vontade de levar-te para onde ninguém nos conhecesse e pudéssemos, por assim dizer, estar em paz… não me atrevo a sugerir que felizes”)… mulher, amor, sonho algum, talvez ilusão de vida que não foi, vida apenas pensada, sonhada sem esperança. Ou talvez amor a mãe e o avô, a mãe e pai, a mãe e o padre, o avô e a avó, o avô e a cozinheira: talvez amor ou vingança ou ódio, tanto faz…
E Maria Adelaide: o amor que não conhece voz, não existiu sendo real, distante, tão distante dos pulsos das empregadas que o avô agarrava – chega aqui – amor não, qual amor, antes carne viva entre mortes e lágrimas…
E a mãe a chorar, Maria Adelaide sem voz, o pai idiota, a filha do feitor a chorar, a avó como um pires que treme na chávena… talvez tudo isto uma insónia de Deus – como pode o neto estar em paz e afinal que é ele, quem somos? Sombras de Deus?
Um pouco mais que uma mão cheia de personagens que são ilhas desertas, formando arquipélagos onde as ilhas se mudam como as estrelas, ilhas que trocam de lugar, porque tanto faz, uma no lugar da outra e a vida é igual a desgraça igual a terra igual, talvez o nome diferente, (que diferença faz?) a morte igual, a morte que é de cada um e é de todos, morremos à vez, como na dança das cadeiras, aqui as cadeiras da solidão.
E a espera. A espera que é a insónia. Talvez ânsia de paz na alma da gente (ou fantasmas? Os fantasmas têm nome?).
Uma mão cheia de fantasmas dançando ao som do silêncio ensurdecedor da tristeza.
E um livro sem beleza.
De beleza só a escrita. Nem a estória porque as vidas não têm estórias, apenas talvez espera e insónia.

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

O Doente Inglês - Michael Ondaatje

A solidão que é a soma de quatro almas. Quatro pessoas, quatro vidas disformes, moldadas pelo infortúnio. A solidão e um livro magoado que exala tristeza, uma obra triste como a guerra e como a soma de quatro solidões. Um doente horrivelmente queimado, uma enfermeira dedicada que sacrifica a vida por ele, um soldado indiano que a guerra fez autómato revoltado e Caravaggio, velho soldado espião e ladrão, perigoso, perdido na vida como o pintor italiano.
A segunda guerra mundial e a respectiva desgraça humana como pano de fundo: um mundo destroçado porque o mundo é feito de corpos e almas, agora dilaceradas pelo monstro que o homem inventou e a que chamam ódio. Quatro seres que já não procuram explicações nem futuro; apenas talvez a paz que um refúgio num velho mosteiro pode ainda trazer.
O Inglês esqueceu tudo, queimado por dentro e por fora, tudo para ele são sombras disformes excepto Katharine e o deserto. Nada mais faz sentido senão o deserto mapeado pelo velho Heródoto, ultimo e primeiro a compreender o mundo, e o amor. Katharine, a imagem da vida, da morte e do amor, enfim, talvez seja tudo a mesmo coisa.
Kip, uma vida de submissão do colono indiano à velha senhora, a Inglaterra, um passado de humilhação e revolta abafada disfarçado na coragem do sapador heróico, desarmando bombas que por todo o lado desfazem outras vidas.
Hanna, perdida e vítima da vida, desterrada do belo Canadá para os intestinos do mundo, a Europa, a velha Europa onde se morre apenas. E Hanna sobrevive porque ainda existe essa réstia heróica de vida – o amor. Um amor difuso, talvez pelo doente, talvez por Kip ou Caravaggio, talvez por ela própria ou pela humanidade, pouco importa.
Caravaggio, perdido no mundo, à procura de Hanna ou do que possa sobrar da vida.
Para lá de uma Itália dilacerada, um deserto africano que preenche memórias de vida. Porque “só no deserto há Deus. (…) fora dali apenas havia comércio e poder, dinheiro e guerra.”
Sentimentos fortes e paixões profundas acabam por unir os quatro personagens da obra, como forças superiores e tirânicas. O amor leva-os a viajar pela vida: Londres, Cairo, o deserto ou a India; não existe amor sem viagens por onde os espíritos vagueiam.  O amor... esse lugar estranho que fica onde as almas solitárias se completam.
Uma obra magnífica, magistral, escrita a sangue e lágrimas, onde ler é uma viagem pela melancolia e pela tristeza. Um livro belissimamente triste. Sim, porque a tristeza pode ser bela.

sábado, 5 de Dezembro de 2009

A Cabana - WM. Paul Young

Uma criança raptada e brutalmente assassinada. Um pai destroçado. Uma família arrasada. À raiva junta-se a revolta perante a (in)justiça divina. Mack, o pai, abandona-se à depressão que o devora, possuído pela Grande Tristeza. Quatro anos mais tarde um bilhete na caixa de correio, assinado por Deus, convida Mack a regressar à cabana onde a filha tinha sido assassinada. Aí, desenrola-se o encontro com Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo.
Confrontado com Deus, Mack terá oportunidade de o confrontar com o destino cruel que este traçara para a sua filha.
No entanto, aquilo que Mack encontra é muito mais do que a oportunidade de desabafar; é a possibilidade de compreender todo o seu passado, presente e futuro. Ao fim e ao cabo, este livro conduz-nos à tentativa de compreensão de qualquer acontecimento, por mais trágico que seja, à luz de algo muito mais global do que o facto em si. A vida não tem passado, presente nem futuro; o tempo, tal como o encaramos, esconde uma realidade global que tudo explica. Dessa forma, mesmo as manifestações mais tenebrosas do mal, são enquadradas numa construção humana da qual Deus parece ter-se demitido; no entanto, as manifestações do mal não são mais do que o preço a pagar pela liberdade dos homens.
O sucesso desta obra parece demonstrar a debilidade espiritual de um mundo de onde se ausentaram muitos dos princípios éticos que o cristianismo, como muitas outras religiões, sempre advogaram. Curioso o facto de esta mensagem espiritual coincidir no essencial com as ideias de vários outros escritores que pouco ou nada têm a ver com o cristianismo: Weiss, Cury, Trevisan, Tolle, Sharma, etc.
Em suma, trata-se de uma obra capaz de despertar o sentido de humanismo e de transcendência que parece escassear neste mundo dominado pelo capitalismo frio e egoísta, pela falta de leveza de espírito que nos conduz a uma constante luta pelo poder. No entanto, chega-se ao final da obra com algum sentimento de decepção pelo carácter apologético, pela ausência de inovação e pela repetição de uma mensagem que, mesmo assim, nunca será fastidioso enfatizar.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Frankenstein - Mary Shelley

A história é contada através de quatro cartas dirigidas por R. Walton a sua irmã. Walton encontra-se numa expedição nos mares gelados no Norte. É um corajoso aventureiro mas, acima de tudo, uma pessoa de carácter profundamente humano que encontra em Victor Frankenstein, o viajante perdido no gelo, um amigo que com ele partilhará a sua incrível história.
É nas cartas à irmã que Walton revela toda a desventura daquele cientista, desesperado por reencontrar nos gelos do Norte o monstro que criara.
Desde cedo, Victor é atraído pelo conhecimento do corpo humano, encantado pelas maravilhas da ciência moderna, própria da época em que o livro é escrito (inícios do séc. XIX). Na verdade, é uma época de triunfo da ciência e da tecnologia; a era da tecnologia do vapor, fruto da Revolução Industrial. Ao nível da química e das ciências naturais, vivia-se uma fase de intenso progresso, na sequência da afirmação do método experimental, com as descobertas de Newton e aos estudos de Lavoisier que deram a conhecer, por exemplo, a composição do ar e da água.
É essa nova atmosfera que leva Frankenstein às suas incríveis experiências, conseguindo dar vida a um ser feito de pedaços de cadáveres que recolhia nos cemitérios. Victor demonstra uma certa “personalidade dupla”, levando-o a assumir um “lado negro”, que o impele para as suas terríveis descobertas, em confronto com o seu lado humano, sentimental, profundamente ligado à família e à sua grande paixão, Elisabeth. Neste sentido, a ciência é vista como uma espécie de fatalidade, como se Victor fosse vítima da própria ciência e não o seu construtor. Quando Victor descobre o segredo da geração da vida, esse saber é visto como perigoso, como se constituísse uma espécie de condenação. Victor será assim a vítima da sua ciência.
Curioso o facto de o título original da obra ser “Frankenstein or the Modern Prometeus”. Prometeu teve uma condenação perpétua porque roubou o fogo aos Deuses para dar superioridade aos homens. Foi vítima da sua inteligência. Como Frankenstein.
Mas a grande surpresa desta obra reside na visão que a autora nos dá do “mostro”. Antes de ser corrompido pela “humanidade”, ele revela um carácter puro e bom. Nos seus primeiros contactos com o mundo, aprende em primeiro lugar a sentir a beleza e o amor. Os primeiros seres humanos que encontra depressa se transformam na sua “família” e chega a ser enternecedor o amor que começa a sentir por eles. Nesta fase, a descrição do “monstro” parece corresponder à imagem do “bom selvagem”, divulgada em França por Jean-Jacques Rousseau, cerca de 50 anos antes da publicação desta obra. Curiosamente, Rousseau era natural de Genebra, tal como Frankenstein (coincidência apenas? Não me parece). Tal como acontece na teoria de Rousseau, o “monstro” nasce naturalmente bom. É a sociedade que o corrompe.
De facto, a ausência de sentimentos negativos só se mantém até ele iniciar o convívio com os seres humanos. Aí, ele aprende a odiar; descobre a maldade. Da mesma forma que Victor encontrara a infelicidade ao adquirir conhecimento cientifico, a sua criatura torna-se infeliz quando adquire o conhecimento do ser humano. Quando este contacto se inicia, o próprio aspecto físico, aos olhos dos humanos, é suficiente para desvalorizar por completo toda a sua bondade natural. Nessa altura como hoje, na ficção como na realidade: a imagem prevalece sobre o ser e o sentir. Ser “feio” é desde logo infinitamente mais significativo do que ser “bom”.
Os homens ensinaram o monstro a praticar o mal; a partir daqui entra-se na espiral do ódio, alimentado por um verdadeiro monstro, o preconceito: socialmente, a criatura é uma aberração. Também vítima do preconceito, Victor revela-se insensível, incapaz de compreender o sofrimento da criatura; responde ao ódio com o ódio e a violência acentua-se. A vontade de vingança de Victor acentua a mesma vontade no monstro. O ódio destrói. Afinal de contas, o ódio é uma característica humana. Desgraçadamente humana.
Em conclusão: a criatura é um monstro odioso e admirável; selvagem mas humano; que odeia e que ama. Como os homens. Como todos nós. No entanto, é na pureza dos sentimentos humanos que se encontra a paz e a felicidade; no coração mais que na inteligência.



segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

O Tigre Branco - Aravind Adiga

O Tigre Branco é um dos livros mais corajosos e inteligentes da última década. O autor, indiano radicado nos EUA, descreve o percurso de vida de Balram, um jovem indiano, pobre nascido entre os mais pobres. No entanto, Balram desde cedo revela a inteligência e a ambição que o levarão a galgar os degraus do sucesso até se tornar um empresário de sucesso na “nova” Índia.
O livro está escrito em forma de cartas ao primeiro-ministro chinês, reforçando desde o início o paralelismo entre as duas grandes potências emergentes no novo quadro geo-político e económico mundial.
Inacreditável é a palavra que mais vezes me assomou à consciência enquanto lia esta obra. De facto, a Índia que Adiga nos descreve é absolutamente dominada pela injustiça social e pelo inacreditável reinado da corrupção. Uma sociedade apodrecida pela ganância que vai acentuando as diferenças entre aquilo que o autor considera serem as “duas Índias”: a da Escuridão, onde os pobre se digladiam por uma sobrevivência precária e a da Luz, onde a ganância domina a vida de uma classe capitalista sem escrúpulos.
As antigas tradições daquela velha Índia, daquele mundo encantador de Deuses que convivem em paz e harmonia com os homens, parecem ter desaparecido. No espírito do autor, todo esse misticismo não passa de folclore para mostrar aos ocidentais.
Para subir na vida, para chegar à Luz, Balram teve de penetrar no mundo da corrupção desenfreada, da hipocrisia e da desonestidade mais descarada, até ao ponto de assassinar o patrão, de quem tinha uma imagem bastante positiva. Assim, Balram é apresentado como um personagem moralmente contraditório, que valoriza a humanidade do ser e os valores éticos que o ligam por exemplo, à família, em descarada contradição com uma capacidade de adaptação ao mundo da corrupção e da desonestidade, indispensável para atingir a “Luz”.
Assim, a Índia é-nos apresentada como uma potência emergente mas cujo poder económico assenta na desigualdade e na exploração. Tudo se passa como se o velho sistema de castas tivesse encaixado no espírito capitalista que acentua esse fenómeno de desigualdade e de segregação.
O estilo bem humorado, profundamente sarcástico de Adiga acentua o carácter chocante da obra. O autor não hesita em utilizar uma linguagem crua, cáustica e por vezes violenta para caracterizar uma sociedade onde todos os valores morais parecem irremediavelmente perdidos. A própria família é já dominada por este espírito de luta, pela ambição material, mesmo ao nível dos mais desfavorecidos.
Em suma, um livro chocante, descarado, que nos leva a reflectir sobre a natureza do progresso. As potências emergentes, como a China e a Índia, baseiam o seu crescimento na desigualdade. Perturba-nos este caminho. Até que ponto será este o caminho a seguir por esta humanidade? Até que ponto o progresso poderá ainda ser algo que beneficie, de facto, a humanidade?

domingo, 15 de Novembro de 2009

O Monte dos Vendavais - Emily Brontë


Ler o Monte dos Vendavais é uma aventura. É uma viagem alucinante ao interior do espírito humano e aos mecanismos que desencadeiam as paixões. No mundo da literatura, poucas vezes o confronto entre o amor e a vida foi tão dramaticamente abordado, como nesta obra magnifica de Emily Brontë.
O aspecto mais sublime desta obra tem a ver com a forma como os personagens principais representam tipos de comportamento complexos e, no fundo, profundamente humanos. É como se eles nos representassem a todos nós, nos aspectos mais profundos da nossa personalidade. À primeira vista, dos três personagens principais, dois deles (Catherine e Heathcliff) são figuras pouco adequadas àquilo que nós apelidaríamos de “pessoas normais”. Os seus comportamentos são, na maior parte dos casos, estranhos ao homem do século XXI. No entanto, o encanto desta obra está precisamente em mostrar que aqueles comportamentos também são nossos, também nos representam.
Edgar Linton é, aparentemente, o mais “normal”, aquele que mais se aproxima do arquétipo do homem comum. E isto porquê? Porque Edgar representa o “socialmente correcto” que é, ao fim e ao cabo, o factor que mais condiciona a nossa vida. Todos nós, no quotidiano, adoptamos atitudes que se destinam, em primeiro lugar, a cumprir deveres e regras mais ou menos impostas pela sociedade, pela tradição, pelas leis e por aquilo a que chamamos “moral”. Uma moral tantas vezes atrofiante e castradora, representada de forma sublime pelo criado Joseph.
No extremo oposto a Edgar, encontramos Heathcliff, um homem dominado pelas paixões. No entanto, essas paixões não se limitam ao amor por Catherine; um amor inexplicável à luz da razão, mas também a um conjunto de atitudes e traços de personalidade determinados pelas emoções e sentimentos. Heathcliff é amor mas também ódio e medo. Heathcliff representa tudo quanto há de instintivo na alma humana. E aí, no mais profundo da alma, amor e ódio misturam-se invariavelmente, em permanente luta. E o medo é a face visível dessa luta. Heathcliff inspira medo como expira paixão.
Catherine é a personagem intermédia, perdida entre o racional, o conveniente, de Edgar e a tempestade de paixões, o mundo do irracional, que é Heathcliff.
No final, qual destes lados triunfa? Isso é o que menos importa; o ser humano estará sempre condicionado por estes dois pesos que avassalam a alma. Poderemos algum dia encontrar um compromisso entre eles? Provavelmente não. E a felicidade a que Catherine aspirava, tal como qualquer ser humano, poderá encontrar-se em algum destes lados? Ou será a vida um longo caminho, uma longa procura rumo a esse compromisso?
Em jeito de conclusão, poderei afirmar que a resposta a estas perguntas será o grande desafio da vida de qualquer ser humano. E. Bronthë teve o enorme mérito de representar as nossas maiores angústias e medos. De nos mostrar os verdadeiros fantasmas da nossa alma. Cabe a cada um de nós descobrir que a literatura não é mais que um espelho da vida. Por mais incrível que nos pareça.



Intervalo na Leitura - Fado do Encontro - Tim e Mariza








Ao longe,
Distante,
Fica o mar no horizonte
É nele, por certo
Onde a minha alma se esconde...



quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

A Saga de um Pensador - Augusto Cury

Um grande livro não precisa necessariamente de ter um estilo virtuoso, ou um enredo fantástico, muito menos exige uma linguagem simbólica e enigmática. Um grande livro tem que, isso sim, mexer com a alma. E, nesse sentido, este é um grande livro. Enorme.
É impossível ficar indiferente a esta viagem ao coração. A Saga de um Pensador é a nossa vida em livro. Augusto Cury revela-se o verdadeiro mestre na arte de nos apontar o dedo acusador: somos nós, os “normais” que não vemos a verdade, porque vivemos afundados nessa “normalidade” de autómatos. No entanto, só é cego aquele que não quer ver. E Marco Polo, o explorador da vida e protagonista principal do livro (jovem aluno de medicina e depois psiquiatra) mostra-nos como é possível ser feliz abraçando o mundo, em vez de o olharmos como um meio onde pululam inimigos e problemas.
E é entre os miseráveis, na rua, que Marco Polo aprende a arte de ser feliz. Rindo e amando a vida. É ele que nos ensina que as coisas mais importantes da vida são simples e fáceis de adquirir. Que os outros são, também eles, nossos companheiros nessa procura; que a natureza é o mundo de Deus; que a essência do ser está em nós e não no mundo exterior.
Ao longo do seu percurso académico e profissional, Marco Polo enfrenta os maiores e mais temíveis desafios: a ignorância, o egoísmo e a ambição. Mas há uma solução para todos os males: a liberdade. Em grande parte, este livro é um hino à liberdade que podemos encontrar dentro de nós. Como em quase tudo na vida, a solução está na alma.
Essa liberdade é talvez o factor mais importante na construção da felicidade; as correntes que nos prendem ao mundo exprimem-se em três formas de escravatura da alma: a sobrevalorização da opinião dos outros, a criação de necessidades e a recusa do tempo presente, ao sobrevalorizar o passado e ao ter medo do futuro. Ninguém consegue ser livre sem se libertar destas três amarras. No fundo, os grandes problemas da existência derivam das suas maiores qualidades: pensamos, mas fazemo-lo em demasia. Esta sobrevalorização do intelecto leva-nos muitas vezes a desvalorizar o que é simples e belo.  Extrapolamos, inventamos fantasmas e adiamos decisões em nome do nosso intelecto. Em nome do pensamento esquecemos essa arma que todos possuímos: a imaginação. Dentro de nós é possível construir mundos de paz, de harmonia, de felicidade. Só a leveza das emoções, a abertura da alma à beleza simples do mundo nos pode dar essa luz que a mente intelectualizada se esforça por apagar.
Em conclusão: este livro não é uma obra-prima da literatura mundial; no entanto é um dos livros mais fascinantes que alguma vez se escreveram; nele encontramos caminhos que, de tão óbvios, nunca conseguimos vislumbrar. Trata-se de um verdadeiro manual de felicidade individual e colectiva. Que mais pode um livro dar a um ser humano?
Este livro no Viajar Pela Leitura

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

As Pessoas Felizes - Agustina Bessa-Luís

O pano de fundo de “As pessoas felizes” é o Porto burguês dos últimos tempos do Estado Novo. A cidade e a região são dominadas socialmente por uma burguesia de carácter forte, tradicionalista, aparentemente aberta mas profundamente marcada pelas regras de um conservadorismo que situa a meio caminho entre a base rural e um formalismo urbano anacrónico. No entanto, o formalismo é imprescindível à manutenção de um cosmos social rígido e que se procura perpetuar. Os tempos são de crise, as dificuldades económicas e as convulsões sociais parecem abalar esta sociedade petrificada mas esta sobrevive num estertor de desespero e resistência.
As convenções enleiam as pessoas numa teia dentro da qual elas procuram ser felizes. Mas trata-se de uma felicidade bem delimitada por essa mesma teia: tudo se passa como se o mundo burguês fosse um microcosmos onde nenhuma emanação do espírito pode penetrar. A vida interior é algo que a personagem principal (Nel) traz para esse mundo mas é precisamente essa vida interior que não lhe permite fazer parte desse conjunto de pessoas felizes. O mundo da aparência tem de triunfar, mesmo que isso signifique a castração do ser humano enquanto ser pensante e individual. Por isso, Nel é a ameaça à estabilidade da família; ela representa os tempos perigosos que se aproximam (o enredo desemboca nos inícios dos anos 70) e não apenas a mulher desprezada na sua qualidade de ser desprovido de senso. A exclusão de Nel é a exclusão do individualismo, do espírito crítico, do pensamento autónomo. Ser mulher é, neste enquadramento mental, por si só, um factor de exclusão a não ser que ela se enquadre num esquema hierárquico onde assuma um papel de sevícia ou de idolatria: a mulher só pode ser respeitada se inspirar admiração ou viver na submissão. Qualquer existência individual que escape a esta concepção hierárquica da sociedade, é rejeitada.
Num estilo profundo, trabalhado e comprometido, Agustina transpõe para este livro o sentimento de uma mulher “do Norte”, tão encantada quanto desiludida perante a beleza de uma região e a altivez de uma sociedade desprovida daquela dimensão humana que permitiria a sobrevivência do ser individual e autónomo.
É esta a impressão que me fica deste livro: um intenso lamento perante uma elite social de coração empedernido, acomodada a valores anacrónicos e defensora de paradigmas mais velhos que o vinho que fez a prosperidade da região.
Não é um livro fácil porque a alma humana nada tem de fácil; e porque não é uma estória que Agustina nos conta; é uma reflexão sentida e complexa de uma escritora genial. Nobel, diria eu.

domingo, 11 de Outubro de 2009

Miguel Sousa Tavares - Equador

Romance histórico, devaneio de jornalista, novela ou romance clássico? Pouco interessa a definição. Equador é uma obra onde o estilo jornalístico do autor vem ao de cima, nas suas descrições pormenorizadas, quase cinematográficas e às vezes fastidiosas. De facto, o estilo pouco inovador de M. Sousa Tavares é contrabalançado, nesta obra, pela facilidade de expressão, por uma linguagem desprovida de reflexões ou considerações filosóficas, o que torna a leitura fácil e fluida.
Não se trata, portanto, de uma obra de grande fôlego literário nem era isso que pretendia o autor. Fica a ideia que a intenção primordial era prender o leitor, no bom estilo do romance realista. A emoção que nos leva a ler “só mais uma página” antes de devolver o livro à mesa de cabeceira está presente até ao final, com um desfecho  que tem tanto de inesperado como de inquietante. Mas durante as mais de quinhentas páginas deste volume o leitor é permanentemente presenteado com acontecimentos inesperados e intrigas bem próprias de um ambiente onde Luís Bernardo procura sobreviver num autêntico campo de batalha onde se confrontavam valores e interesses.
Luís Bernardo foi nomeado (pelo rei D. Carlos) Governador de S. Tomé e Príncipe numa altura em que os ingleses reclamavam a existência de trabalho escravo, aparentemente com o objectivo de combater a concorrência portuguesa em África. Cabia ao novo governador defender os interesses nacionais perante os ingleses e, ao mesmo tempo, zelar para que o trabalho escravo fosse de facto banido. Nessa missão ele confrontar-se-á com o poder dos roceiros, os donos das fazendas, com mentalidade tradicional. Mas o maior desafio será a forma como o nosso herói se irá debater com princípios tão contraditórios como o seu humanismo natural na defesa da pessoa humana perante o interesse económico que justificava a escravatura. Por outro lado, era preciso cumprir a aliança com Inglaterra, manter relações amistosas com o nosso grande concorrente e, ao mesmo tempo, a necessidade de fazer prevalecer o interesse da Nação e, dessa forma, a necessidade de defender os colonizadores portugueses.
A montante da história de Luís Bernardo, das intrigas políticas, dos assuntos de saias e de um romance que fica mais ou menos entre o cor de rosa e o dramalhão, há um pano de fundo histórico que o autor estudou meticulosamente e do qual nos dá conta no bom estilo de manual de História do ensino secundário; a importância que as colónias ainda tinham no início do século XX, a problemática aliança inglesa e o agonizar do regime monárquico estão retratados neste livro de uma forma clara e fiel.
No final fica a sensação de termos percorrido 520 páginas sem grandes ideias originais, sem grandes contributos para a inovação literária, mas um pouco mais conscientes dos grandes dilemas da história contemporânea portuguesa, para além de um entretenimento que o livro, de facto, fornece.
Alguém afirmou que as grandes ideias não devem vir dos escritores mas sim dos filósofos. De facto, M. Sousa Tavares nada tem de filósofo, mas muito tem de contador de histórias e de analista político. De facto, os grandes problemas da política portuguesa prevalecem em toda a história contemporânea de Portugal: o caciquismo, a subjugação dos interesses nacionais a interesses particulares, a submissão aos ingleses e, latu sensu, a interesses externos, o compadrio são fenómenos que percorrem sem grandes dificuldades os últimos cem anos da História de Portugal. Estes problemas, coisas que colocam a política na fronteira da diplomacia com a hipocrisia, chocam de frente com o idealismo de Luís Bernardo, um homem bom e justo que, inevitavelmente, vai chocar de frente com essa hipocrisia. David, o inglês, pelo contrário, é o homem político por natureza: adaptável, maleável, capaz de suportar traições e contradições em nome da conveniência política.
Pena é que, por vezes (e isto apenas como nota de rodapé) deixe o seu estilo jornalístico cair em imprecisões de linguagem, sendo o exemplo mais flagrante o uso irritante do verbo “realizar” como sinónimo de “compreender”. Trata-se de um anglicanismo que talvez seja mais um testemunho da submissão lusa às coisas de Sua Majestade Britânica.

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Luis Novais - Quando o Sol se põe em Machu Pichu

Na sua primeira incursão pela escrita, Luís Novais conduz-nos ao ambiente místico do Império Inca, fornecendo-nos um testemunho da actualidade dessa cultura dita perdida. Vários personagens, provenientes de diversas partes do mundo, completam nas montanhas do Peru rotas de vidas que se cruzam num ponto de intersecção: um convite misterioso para uma viagem a Machu Pichu.
Trata-se de homens e mulheres comuns que um ser maior terá escolhido para a viagem. Todos excepto um (Jonathan) sofrem de um dos piores, talvez o pior mal que pode atingir um ser humano: a ausência do sonho. É à procura desse sonho que eles vão. De Paris, Berlim, Jerusalém, Nova Iorque, eles trazem sonhos perdidos e o desencanto perante um mundo onde parece ter desaparecido o sentido de humanidade. A Europa não interessa aos europeus; Israel não é a Terra Prometida porque o sonho não se cumpriu; Nova Iorque já não é a terra dos sonhos realizados… Todos procuram no terreno sagrado dos Incas o sonho que as suas vidas matara.
Este livro envolve também uma mensagem de descrença perante o mundo que construímos; um mundo que continua a ser colonialista, quinhentos anos depois de Colombo, substituindo os Pizarros de outrora por paradigmas mais ou menos interesseiros, como o frio e implacável capitalismo liberal. O indivíduo submerge sob a pressão desses paradigmas, muitas vezes escondidos sob a capa de um patriotismo cultivado pelo poder político e económico. Só o individualismo, o culto do ser humano enquanto ser livre e autónomo poderá dar à humanidade a capacidade de sonhar, indispensável para uma vida feliz e equilibrada.
Por outro lado, persiste a predisposição dos povos para a desunião; talvez a América do Sul seja o último reduto de um povo com a consciência da sua unidade cultural. E talvez o espírito de Machu Pichu continue a pairar sobre a humanidade como o ultimo reduto da redenção.
Luís Novais, no seu já inconfundível estilo de frases curtas (que António Pedro Vasconcelos – com evidente e infeliz exagero - diz representar a “geração SMS”) presenteia-nos com uma obra onde o misticismo Inca se mescla com uma visão ao mesmo tempo cosmopolita e individualista da humanidade; aparentemente estamos perante uma contradição filosófica. No entanto, a impressão que me fica do pensamento do autor é esta: a humanidade só poderá ser livre cultivando o ser individual e a soma dessas liberdades resultará num todo em que deixarão de fazer sentido quaisquer formas de dominação ou exploração do homem pelo homem. Só o sonho poderá manter viva a chama deste desejo de libertação; e esse sonho persiste nas misteriosas montanhas do Peru. Inca, de facto, está vivo.

sábado, 12 de Setembro de 2009

Cormac McCarthy - A Estrada


Um homem. Um rapaz, seu filho. Tudo o resto é quase nada: um mundo devastado por um apocalipse de fogo que o leitor imagina ter sido uma catástrofe nuclear. Árvores secas, terra estéril, rios de lama e um mar onde homem e rapaz sonham encontrar a salvação.
Um livro surpreendente. Logo à partida, destaca-se a felicidade com que se concebeu uma capa (na edição portuguesa Relógio d’Água) que, incrivelmente simples, encerra grande parte do espírito da obra: um fundo negro de morte, ou de tristeza, tanto faz, e o título da obra escrito num vermelho desmaiado que pode ser de sangue ou de dor… está dado o mote para uma obra perturbadora, que desperta no leitor sentimentos de revolta, de inquietação, mas também de uma tremenda empatia perante aqueles personagens que percorrem a estrada e que nos parecem levar pela mão. Eles caminham sozinhos, mas nós permanecemos sempre com eles!
Os personagens não têm nome; apenas “o rapaz”, “o homem”, “o velho”, “a mulher”, “os maus” e “os bons”. Pouco interessam os nomes, num mundo onde as identidades se perderam, onde não há datas nem calendário, cidades nem aldeias, pássaros nem peixes. Só eles, a estrada, os cadáveres e a cinza, para além de uma esperança que nunca morre, um sonho que resiste e, acima de tudo, um amor que comanda a pequena réstia de vida que, no entanto, é um mundo inteiro. Ninguém sobrevive sem amor.
A devastação e a ausência quase total de vida leva-nos a pensar naquilo que estamos hoje a fazer com o nosso planeta. Em poucos segundos, algures antes do nascimento do rapaz, um clarão de fogo atravessou a terra; e tudo se perdeu, excepto os “sobreviventes” que vagueiam pela terra, como náufragos perdidos numa imensa ilha árida e despovoada.
Carregando um velho carrinho de supermercado onde transportam todo o seu mundo, rapaz e homem vagueiam nas estradas daquilo que nós imaginamos ser a América, à procura do mar, acreditando que este pode ainda ser a fonte de vida ancestral, como o foi há milhões de anos. De tempos a tempos surgem outros sobreviventes que, vagueando na mais extrema miséria, são vistos como “os maus”, que se alimentam de carne humana, matando para comer e autores dos mais pérfidos actos de crueldade.
No meio de tanta infelicidade e terror, entre o rapaz e o homem sobrevive sempre o amor filial e paternal, só ele capaz de explicar a sobrevivência e, até, a felicidade. Eis a questão: é possível ser feliz no meio da maior catástrofe: uma lata de feijões fora de prazo pode ser o suficiente para que um sorriso de criança faça renascer a felicidade. Talvez seja esta a lição maior que todos precisemos aprender.
Cormac McCarthy, aos 73 anos, afirma-se finalmente como um grande nome da literatura norte-americana ao vencer, com este livro, o prestigiado prémio Pulitzer. Esta obra é, sem dúvida uma das mais marcantes do novo século.

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Valter Hugo Mãe - O Remorso de Baltazar Serapião

José Saramago não andava longe da verdade quando afirmou que este livro era um verdadeiro “tsunami” na literatura portuguesa. A força, a violência da escrita, a desordem emocional que provoca no leitor, o desmascarar de fantasmas que persistem na memória colectiva portuguesa, são vagas de fundo que se escondem por detrás das 174 páginas deste livrinho e que emergem constantemente, para assaltar violentamente a mente de quem lê.

Primeira marca d’água sensível ao leitor: o estilo; a ausência de maiúsculas não é arrebique de escritor novato à procura de distinção; é o sinal de que a escrita corre como um rio e a leitura quer-se simples e corrediça. O falar do povo é o estilo do escritor; inovador mas com o sentido profundo da alma de gente.

O enredo decorre na Idade Média, tempo de El-rei D. Dinis, um tempo de pobreza e profundas desigualdades sociais; o herói da estória é Baltazar Serapião, da família Sarga, alcunha que advém do nome da vaca da família, ela própria figura central do enredo. Os Sarga confundem-se com a vaca e o povo encara-os como filhos da vaca, ou da terra, ou do pecado, ou da loucura. Serapião é um homem revoltado, filho da sociedade senhorial do seu tempo, em que os Senhores dispõem da vida da gente.

No meio de tudo há a mulher e o amor; mas a mulher, que desempenha o sagrado papel de servir o Homem que serve o Senhor, recebe no corpo e na alma a consequência lógica da cadeia hierárquica da violência: o Senhor é dono da vida do servo, como a mulher é propriedade do homem – a serva universal.

A violência sobre a mulher, é a ponta do iceberg de uma sociedade dominada pela força mas também por uma revoltante miséria espiritual, onde a ignorância é transversal aos vários estratos sociais: todos cultivam a superstição de forma quase religiosa. É a força bruta da ignorância a comandar a vidas das gentes e a mulher, ente sagrado e amado, é o alvo final de toda a violência de que o mundo é feito.

Um livro pungente, revoltante, enérgico, bruto. Real. Os medos e a estupidez que nós, homens do século XXI apontamos acusadores à Idade Média, prevalecem na nossa mente e o escritor faz-nos sentir isso; este não é um livro sobre a Idade Média nem um romance histórico; é um livro sobre os nossos monstros e fantasmas. É um livro real, medonho, onde matar uma mulher é castigo quase divino, onde uma vaca pode ser sagrada e amada, uma vaca que é mais que gente! A revolta exprime-se na violência e a hierarquia estende-se para a mulher.

É também um livro sobre o absurdo e o irracional do amor; do amor até à morte…

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009

Mia Couto - Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Mais um livro em que Mia Couto transporta para a criação literária as marcas do período colonial e pós-colonial; a dor de um povo, ou de uma Terra (que é povo e tudo o mais), na escrita de um poeta sem rimas mas que faz escorrer o sangue da sua gente no papel da ficção. Terra e rio, gente, suor e lágrimas, termos de uma equação insolúvel, equivalente à vida. Escrita poética, escrita sofrida, mas também corajosa e sentida. Palavras que afluem do peito, frases inventadas pelo coração.

Ler este livro é fácil e divertido. A estória contada diverte e embala. Mas Mia Couto permite-nos algo mais que ler: a sentir o livro; deixarmo-nos conduzir pela alma de uma gente que um dia foi escrava para depois se escravizar; e sentimos que a dor da gente é uma dor que não tem fim; como a vida de Mariano, o defunto.

O estudante universitário Mariano volta à sua terra natal para o funeral do avô. Enquanto aguarda pela cerimónia é testemunha de estranhas visitas na forma de pessoas e de cartas que lhe chegam do outro lado do mundo. São revelações de um universo dominado por uma espiritualidade que ele vai reaprendendo. À medida que se apercebe desse universo frágil e ameaçado, ele redescobre uma outra história para a sua própria vida e para a da sua terra.

Luar do Chão (terra inventada mas real do Moçambique pós colonial mas onde a esperança morria) é terra de gente pobre. Terra sofrida, desfeita pelas ambições e promessas de quem, afinal, não trouxe o paraíso à terra.

No entanto, no meio da desilusão, dos sonhos assassinados, Mariano reencontra-se consigo mesmo em Luar do Chão; é a terra que traz consigo a identidade, o ser profundo de Mariano; é no meio do fantástico, do surreal que faz parte da vida, do misticismo de um povo que há-de sempre acreditar numa qualquer redenção, é aí mesmo que Mariano redescobre a esperança.

Um dos aspectos mais maravilhosos da escrita de Mia Couto é a síntese perfeita entre a leveza de um estilo que encanta pela simplicidade, fruto de um povo simples e puro e a profundidade filosófica da sua narrativa. Este livro é um convite à reflexão sobre muitos dos temas que continuam a conturbar o nosso mundo: a avidez dos lucros, a voragem capitalista sobre, afinal de contas, a terra-mãe, mas também o sentido da vida e da morte: o avô Mariano é o morto que se recusa a morrer; o defunto de obra inacabada que contempla o céu no seu leito de morte num quarto sem tecto. À sua volta deambulam personagens que encerram os grandes dilemas e sofrimentos da vida.

A terra, a mãe, contempla-os e determina os seus destinos.

Um livro apaixonante que é também um convite à transcendência; o homem não é só miséria ou lucro, sofrimento ou alegria; é um mundo inteiro de crenças, medos e paixões. A Terra não é só o lugar de onde cresce a alimento; a Terra é a imperatriz da vida; daí que ela se recuse a receber o corpo do avô Mariano enquanto a paz e a verdade não regressa à casa. A casa, por seu turno, é o centro da vida; as mulheres que a habitam são as mensageiras da paz e da felicidade de todos.

domingo, 23 de Agosto de 2009

O Tambor - Gunter Grass

“O Tambor” é a história de Óscar, um jovem que a vida fez anão, disforme e desprezado, na cidade de Danzig, a moderna Gdansk. Óscar, internado num hospital psiquiátrico após a segunda guerra mundial narra a história da sua vida, desde o nascimento no meio rural da Alemanha dos anos 20, até que a loucura da humanidade se confunda com a dele próprio e o encerre com os grilhões da normalidade. Nesse cárcere final Óscar revive o passado como se fosse o tambor a contar-lhe a história; na verdade, ele confunde-se com o próprio tambor que o acompanhou durante toda a existência. Ao longo da obra, Grass coloca várias vezes o tambor a falar na primeira pessoa, confundindo-se ele próprio com o personagem principal.

À medida que Óscar vai tocando tambor, vai-se apercebendo que ele se torna um instrumento de poder, como a flauta de Hemlin. É ele que faz o povo chorar, como a cebola que se descasca. É a ele que o povo segue, como os ratos seguem o flautista. É a sátira ao poder mas, principalmente à fraqueza de espírito de um povo despersonalizado, anónimo e apático. É a crítica à indiferença do cidadão comum perante as atrocidades da guerra. Óscar simboliza essa massa anónima que “toca tambor” enquanto a matança prossegue.

Óscar é um personagem frio, completamente imune a qualquer sentimento, exptuando o amor pela mãe. Pormenor marcante da narrativa: Óscar entrega o pai adoptivo, bem como o pai verdadeiro às tropas nazis sem qualquer piedade. A sua aparente loucura não é mais do que uma estratégia de sobrevivência.

Num mundo marcado por uma guerra em que se matam freiras que se confundem com franceses, e que perante as atrocidades de Hitler um povo toca tambor, o surreal emerge da superfície real das coisas. E a vida sobrevive, o sentido das coisas passa apenas por aquilo que está “à mão”, nada mais interessa; nem a Pátria, nem a família nem qualquer Deus. Tudo vive ao ritmo do tambor.

Ao longo de toda a obra, Grass deixa bem vincada a sua mordacidade, a sua escrita quase cínica, em busca do grotesco que emerge da vida. Toda a realidade se confunde com o grotesco e o fantástico, sem nunca sair da mais banal sobrevivência quotidiana. Por todo o lado, o sofrimento, mas um sofrimento normal, habitual, como se a vida não tivesse sentido sem esse sofrer. Nem que seja preciso descascar cebolas para chorar ou maltratar uma mulher para a amar. O sofrimento caminha sempre lado a lado com a vida e a felicidade.

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Jesusalém - Mia Couto

Jesusalém é a história de Mwanito, o menino. Um menino em África, terra de guerra, solidão e encanto. Jesusalém é também a terra sem tempo inventada por Silvestre Vitalício, pai de Mwanito que, fugido da cidade, procura a libertação numa antiga propriedade colonial. Junto com eles segue Ntunzi, o irmão mais velho e Zacarias, o antigo soldado que combateu do lado errado de todas as guerras.
Vitalício foge da cidade mas também da vida, da culpa e do tempo. Jesusalém seria a terra sem tempo nem dono, onde a solidão resgataria todas as mágoas. Ali, onde não há mulheres nem mundo, tudo é baptizado de novo e só Vitalício decide o que ali acontece. De preferência, procura que nada aconteça porque só o vazio faria sentido. O vazio e o silêncio.
O papel central do romance é assumido por Mwanito, o “afinador de silêncios”. Sobre isto, afirmou Mia Couto na apresentação da obra: “Em África, os silêncios são parte da conversa. O silêncio é uma outra maneira da palavra viver e há coisas que não podem ser ditas de outra maneira”. Mwanito personifica a paz, a única paz que Vitalício encontra e, ao mesmo tempo, a sua única ligação ao passado.
No entanto, não é possível fugir ao tempo nem ao mundo; é nesse aspecto que Jesusalém é uma história desencantada, onde a escrita poética e belíssima de Mia Couto encontra terreno fértil. A literatura ao lado do sofrimento, sem o qual não consegue viver.

segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Homem na Escuridão - Paul Auster

Trata-se de uma das obras mais interventivas de Auster. O pano de fundo é fornecido pela América de Bush e dos atentados de 2001. O brilhante escritor norte-americano reeinventa aqui uma América onde as torres não caíram e onde as eleições de 2008 conduziram a uma nova guerra da secessão.

August Brill, 72 anos, critico literário reformado, angustiado e deprimido, conta histórias a si mesmo; histórias que são de Auster e de uma América doente. E as histórias, aos poucos, impõe-se a Brill e não podem deixar de ser contadas. Nesse momento, a ficção e a realidade misturam-se como na vida. A vontade de Brill deixa de ter importância. Os facto tornam-se incontornáveis e a história tem medo de ser contada porque ganhou a vida que lhe é dada pela História.

Homem na Escuridão é um livro sobre a vida dominada pela angústia mas também sobre a alegria das pequenas coisas que, se nós deixarmos, nos podem salvar da tragédia humana eminente.

É mais um livro em que Auster une, com mestria, autor, história e leitor, numa cadeia indestrutível. Esta união leva-nos mais longe do que a óbvia identificação entre o leitor e a história, conduz-nos a um universo onde predomina a mente do escritor, como se este nos guiasse através das suas próprias ideias.

Como em todos os seus livros, prevalece o humanismo do escritor, que encara as suas personagens do ponto de vista das suas emoções e sentimentos, mais do que o seus pensamentos e opiniões. O final do livro, ao contrário do que é habitual em Auster não prima pelo elemento surpresa mas pela profunda humanidade.

Nesta obra descobrimos um Auster mais interventivo, mas também cada vez mais voltado para as emoções, para os sentimentos, para a angustia da existência.

sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Os Parricidas - Luís Novais

Um homem sem nome, uma identidade sem rosto, uma vida de onde se escoa a razão. Ele vê o Diabo que, no fundo, emana da sua própria incerteza, da ignorância que é o seu refúgio e inicia a espiral de busca dele próprio.
Ele somos nós, homens à procura da identidade, o mesmo é dizer, de ser feliz. A loucura que se aponta ao homem sem nome vai-se revelando, ao longo do livro, a normalidade da vida, desta vida que só conhecemos pela rama. Dentro de nós, dentro do homem sem nome, cresce a raiva do não saber quem somos, muito menos para onde vamos. Cresce a revolta e o Diabo emerge, nascido e criado no mais profundo da nossa alma. E a morte do pai, culpado de ser e de o fazer nascer, redimirá o mal de viver.
Normalidade ou loucura, Diabo ou consciência, destino ou vontade, tudo afinal se mistura num caos chamado vida. “Os Parricidas” não é, definitivamente, um livro qualquer; é a síntese da loucura normal, o repensar que todos procuramos de uma vida dominada pelo absurdo. As trajectórias que seguimos, aparentemente dominadas pelos cordelinhos de um fantoche que somos mas que julgamos manobrar, perdem um dia o sentido. É nessa altura que questionamos, repensamos e (tantas vezes!) encontramos o absurdo; ou o Diabo. Ou nós mesmos.
Podia dizer aqui uma série de banalidades sobre as influências de Dostoievski ou os traços indeléveis das leituras que o Novais terá feito de Kafka, mas por detrás disto tudo talvez esteja algo de muito mais profundo e, ao mesmo tempo, terrivelmente banal: a luta incessante pela busca da identidade. E as derrotas que todos nós sofremos nessa luta desigual. Por isso, não é Dostoievski que vejo por detrás dos Parricidas, embora “O Idiota” esteja por ali; nem o Joseph K de Kafka, embora ele espreite pelas frestas do livro; é Auster que eu leio por detrás das palavras do Novais.
Seja como for; com interpretações atrevidas como estas ou sem elas, ler Novais é algo que já não sentia há muito tempo: há ideias para lá dos clássicos.

segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

Se Numa Noite de Inverno Um Viajante - Italo Calvino

"Se Numa Noite de Inverno Um Viajante" é um romance inteligente. Mas também divertido, original, único. Lê-se com leveza e um sorriso nos lábios. Sentimos o bafo do autor a pedir-nos opinião, a recitar-nos histórias que só começam, pedindo-nos que as continue. Dez histórias que Calvino só inicia, como se nos quisesse desafiar. Ao longo do livro, o que mais encanta o leitor é este diálogo permanente com o escritor, esta familiaridade que vai surgindo. O leitor vai-se tornando interlocutor e actor do próprio enredo, numa espécie de brincadeira que dá um aspecto marcadamente lúdico à leitura.
O enredo é muito peculiar. Um leitor começa a ler o próprio livro de Italo Calvino, mas não consegue porque a edição é defeituosa. E por acasos do enredo, o leitor é levado a empreender outras leituras mas depara sempre com um qualquer obstáculo que o leva de livro em livro sem conseguir concluir nenhum deles.
Ao longo do livro é notória a crítica à mercantilização da cultura, nomeadamente no domínio da edição de livros e da falsificação. Calvino entra mesmo numa reflexão sobre os apócrifos, encarando a falsificação como manifestação da verdadeira natureza humana e da sua hipocrisia. Por outro lado, aquilo que é falso não deixa de ser encantador; a falsidade é o contraponto da verdade e assim lhe dá sentido. Mas vai muito além disso: a impotência que o leitor sente por não poder terminar a leitura de cada um dos dez livros é acompanhada, frequentemente, pela angústia do próprio escritor, quando não consegue, ele próprio, terminar a obra. Nesse aspecto, este romance sente-se também como um desabafo e, mais uma vez vem ao de cima a cumplicidade entre autor e leitor.
Para o leitor, o envolvimento na leitura permite-lhe entrar num mundo encantado. A leitura altera toda a dimensão da vida do leitor. Enquanto lê, ultrapassa todas as barreiras. E quando a leitura é interrompida, instala-se a angústia e o espírito fervilha em busca de uma continuação. Porque o livro só termina com a morte ou com a persistência da vida. Livros que não terminam são apenas pedaços de vida que não têm princípio nem fim; são mundos sujeitos a múltiplos olhares. Dez livros não são, no entanto, apenas dez mundos. São dez mundos a multiplicar por todos os Leitores e Leitoras.

domingo, 23 de Novembro de 2008

Paul Auster - Viagens ao Scriptorium

Cada livro de Auster deixa, no final, a questão que se eterniza: o que vai o génio de Nova Iorque inventar de seguida? Grande contador de histórias, Paul Auster é o escritor que mais caminha para dentro de si, à medida que escreve. Nesta obra lê-se e vê-se o autor, os seus sentimentos, angústias e memórias. Cada novo livro parece caminhar mais um pouco na interiorização. A caminhada começou algures por volta da “Triologia de Nova Iorque”, uma caminhada do mundo para dentro de si. “Viagens no Scriptorium” parece ser, mais uma vez, o fim da caminhada. É Auster em 115 páginas.
As histórias rocambolescas como em “As loucuras de Brooklin”; as coincidências incríveis de que a vida é feita, como em “A noite do oráculo”; os enredos cinematográficos, cheios de imagens escritas quase com magia, como em “Mr. Vertigo” parecem já não fazer parte do universo de Auster. Mais ou menos a partir de “Leviathan” o autor parece ter-se voltado para si próprio, em definitivo. Alguém escreveu que este livro marca o confronto de Auster com a sua própria velhice. Não me parece. Mr. Blank é Auster à procura da sua própria identidade, não a explicar ou a questionar o final da existência. O diálogo interior, a introspecção, a procura do âmago mais profundo da alma humana em confronto com o mundo são temas que, afinal de contas, sempre fizeram parte da obra de Auster mas que apenas germinavam nos seus primeiros livros, para agora aparecer em pleno.
Mr. Blank está sozinho, num quarto-prisão sem saber onde nem quando, nem sequer porquê. É a solidão na sua máxima expressão. Porque estar totalmente só é não saber sequer quem é. Algo no seu passado o levou até aquele quarto. Alguém, algum dos seres fantasmagóricos que o rodeiam, o levou até ali. De entre esses seres alguém o ama, muitos o odeiam. Ele sabe que odeia alguém. Mas não sabe quem nem porquê. Mr. Blank tenta reconstituir a sua identidade. Nunca o conseguirá. Mas a maior angústia não é estar só. É depender de todos os outros: os que o amam e os que o odeiam. É o drama maior do ser humano: os outros são o inferno mas só eles podem dar sentido à sua existência, só eles lhe poderão devolver a identidade.
Por mais introspectivo que este livro possa ser (e é), nem assim Auster prescinde de uma das suas características mais interessantes como escritor: o enorme talento de surpreender o leitor com um final inesperado e belíssimo. Auster no seu melhor. Até ao próximo livro.

segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

O Idiota - Fiodor Dostoiévski

O Príncipe Lev Nikoláevitch Míchkin (o idiota) é o protagonista desta história. Epilético, ele é vítima da incompreensão da doença por parte da sociedade em que se insere. Após fazer um tratamento na Suíça, regressa à Rússia, onde vive toda uma trama de paixão e ódios. Como é peculiar nos grandes romances de Dostoiévski, aqui se encontram retratados os traços essenciais da sociedade russa do século XIX, com todas as suas contradições e conflitos.
Mais uma vez, realça-se a extrema complexidade psicológica das personagens, como se o seu mundo interior fosse maior que tudo o que constitui o mundo. O Homem é, para Dostoiévski, um emaranhado complexo de sentimentos e pensamentos, de tal forma que o encontro com a identidade é uma quimera para a generalidade dos mortais. O leitor, esse, inquieta-se permanentemente com a inquietação das personagens. Neste mundo interior complexo, ninguém é “normal; a loucura não é atributo do idiota; é denominador comum dos seres humanos. O próprio autor, quando aborda assuntos que o inquietam nunca deixa uma afirmação definitiva; tudo fica a pairar no limbo da incerteza: a dúvida sobre a pena de morte, a perplexidade perante a figura de Jesus Cristo que não venceu a morte, a hesitação entre liberalismo e socialismo versus conservadorismo, enfim, nada é definitivo nem definido.
Perante tantas incerteza, afinal, quem é o idiota? Será o doente Lev Míchkin ou qualquer um dos personagens perdidos e incertos que povoam este magnífico romance?
Ser idiota é, acima de tudo, uma definição social. Lev Míchkin é bom, ingénuo, generoso, logo… idiota. O mundo das aparências burguesas em que se afundou faz dele idiota sem culpa formada; na maior parte das situações ele é bode expiatório, bobo da corte ou instrumento de interesses. No entanto é nele que reside a humanidade; ou melhor, a réstia de humanidade no universo social em que se insere.
Neste romance, talvez mais do que em qualquer outro está bem patente a decepção de Dostoiévski perante a humanidade. O formalismo nas relações sociais disfarça a hipocrisia e uma quase repugnância por qualquer espécie de sentimento. Exemplo disso é a total frieza como é encarada a tentativa de suicídio de Ipolit. Este afirma: “Vou olhá-los nos olhos. Vou despedir-me do Homem”. Aos poucos, durante a longa descrição deste episódio, a “humanidade” vai-se restringindo a Lebdev, o bêbado e a Keller, o ignóbil pugilista. Os outros, os socialmente bem-aceites afastam-se e riem de Ipolit.
Trata-se de uma obra muito profunda e, ao mesmo tempo, bem humorada, onde o autor procura pôr em relevo as grandes contradições do ser humano, questões que para sempre ficarão sem resposta: a natureza do bem, do belo, do mal, do ódio, da aversão, do amor, etc

domingo, 7 de Setembro de 2008

Diário do Farol - João Ubaldo Ribeiro

João Ubaldo Ribeiro, um dos mais importantes escritores brasileiros da actualidade foi agraciado com o Prémio Camões 2008.
Trata-se da autobiografia de um padre cuja vida foi orientada para dois objectivos (mesmo o segundo tendo surgido de forma acidental no decorrer da narrativa): matar seu pai e a mulher que o desprezou. O autor do diário, refugiado numa ilha deserta algures ao largo da costa brasileira, é a encarnação do mal. Ele reúne tudo o que pode ser considerado “o mal”. Uma infância difícil, cheia de violência e desamor justifica uma vida voltada para a vingança e a violência. Para o autor, ele encarna, no entanto, tudo o que um ser humano é capaz de fazer, no domínio do mal. Todos nós somos assassinos em potência. Nas condições em que se encontra o Brasil no tempo em que se desenrola a acção, esse “mal” pode vir ao de cima em qualquer altura. Trata-se assim de uma abordagem algo catastrofista da violência que reinava e reina naquele país.
Assim , o Diário do Farol, é um livro sobre a realidade. Porque a realidade, no dizer de Ubaldo Ribeiro, é mais irracional que a ficção porque esta procura a lógica e a credibilidade. Todo o homem encerra em si o bem e o mal. Nesse sentido, Mal e Bem misturam-se; não podem separar-se. O caminho que cada um segue é fruto das circunstâncias e, portanto, do acaso. No entanto, o Mal tem explicação; ele provém da rejeição, da falta de solidariedade e de amor. De facto, o ser humano precisa, acima de tudo, de compreensão e afecto. Foi a falta desses sentimentos que fez do protagonista um verdadeiro demónio.
Para comprovar a interacção permanente entre o Bem e o Mal, na mesma pessoa, a técnica literária do autor faz com que o leitor se sinta, ele próprio odiado pelo narrador, ao mesmo tempo que, em determinados momentos, o leitor dá consigo a simpatizar com o protagonista, o assassino em série. O anticlericalismo e a crítica política, bem como o manifesto contra a desigualdade social são os testemunhos vivos de como a sociedade “provoca” o mal. A injustiça faz despoletar a violência.
O valor mais alto desta obra: o leitor é levado a ver a semelhança entre a sua própria pessoa e o assassino, quase se identificando com ele. O leitor, embora insultado pelo narrador/protagonista/assassino, envolve-se com o Mal, compreende-o e é tentado a aceitá-lo com naturalidade. Ao mesmo tempo desmistifica-se a ideia de que um assassino em série não tem amor-próprio. Acontece precisamente o contrário.

terça-feira, 2 de Setembro de 2008

O Último Catão - Matilde Asensi

Mais um sucedâneo do Código da Vinci? Garantidamente, não! “O último Catão” prima pela originalidade, rigor, criatividade e aquela “leveza” cativante que se sorve do género policial, associada ao encanto do romance histórico. Matilde Asenci é nada menos que a escritora espanhola mais lida na actualidade. Este livro vendeu mais de um milhão de exemplares em Espanha. Estes dois factos são suficientes para tornar incompreensível o ter passado quase desapercebido nas nossas montras.
Trata-se de uma obra de romance histórico puro, com um enredo simplesmente entusiasmante e, na linha do melhor policial, com um final absolutamente inesperado. Um dos melhores desfechos que li nos últimos anos.
Tudo se inicia com o assassinato de um etíope que exibe estranhas tatuagens no corpo: sete letras gregas e sete cruzes. Junto ao corpo foram encontrados três pedaços que tudo indica pertencerem à Vera Cruz, a verdadeira cruz de Cristo. A irmã Ottavia Salina, dedicada profissional do arquivo secreto do Vaticano, acompanhada por um arqueólogo de Alexandria, e pelo capitão da Guarda Suíça do Vaticano, recebe o encargo de decifrar as estranhas tatuagens aparecidas no cadáver. Ao mesmo tempo, iam desaparecendo das mais diversas igrejas, um pouco por todo o mundo, as relíquias da cruz de Cristo. Cabe aos nossos três heróis, guiados pela “Divina Comédia” de Dante, descobrir o paradeiro das relíquias e identificar a seita “criminosa”. Numa tentativa de chegarem até aos culpados, o grupo terá de superar sete desafios, associados aos sete pecados mortais, em sete cidades diferentes: Roma pela soberba, Ravena pela inveja, Jerusalém pela ira, Atenas pela preguiça, Constantinopla pela avareza, Alexandria pela gula e Antioch pela luxúria. A viagem por estas cidades é deveras fascinante.
A imaginação de Asensi é assombrosa: o livro está cheio de peripécias que prendem o leitor de forma avassaladora, de tal maneira que as mais de seiscentas páginas desta edição são devoradas a um ritmo alucinante. Por outro lado, este riquíssimo enredo envolve o melhor de um romance histórico: a fidelidade à verdade histórica; aquilo que não é imaginação, é perfeitamente fiel e autêntico. Ao contrário do que acontece noutras obras do género, é fácil ao leitor distinguir a fantasia do fundo histórico. Sendo uma obra de ficção, este livro permite ao leitor enriquecer o seu conhecimento sobre a história da igreja católica e dos vários conflitos com outras religiões ou seitas divergentes.
Por fim, o aspecto mais polémico da obra: a impiedosa crítica da autora à Igreja Católica, ao seu conservadorismo e aos desvios relativamente à doutrina pura do Cristianismo. O enredo situa-se nos últimos tempos do Pontificado de João Paulo II, época conturbada e especialmente propícia aos jogos de interesses e poder que se desenrolam no Vaticano e que Asenci aborda com coragem e desassombro. Por outro lado, os conflitos pessoais dos personagens vão pondo em questão alguns dos dogmas mais teimosamente defendidos pela Igreja, como o celibato e a castidade.
Em suma, um livro sem grandes ambições estilísticas ou de inovação literária mas que funciona como um maravilhoso exercício para usufruir do prazer de ler: leve, corajoso, divertido, interventivo, crítico e, acima de tudo, apaixonante.

segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

O Mestre de Esgrima - Arturo Pérez-Reverte

O Mestre de Esgrima é um dos primeiros romances de Perez-Reverte e aquele que mais contribuiu para transformar este escritor espanhol num dos maiores nomes da literatura contemporânea do país vizinho.
Relata-se a história de D. Jaime de Astarloa, o mestre de esgrima que luta contra a novidade das armas de fogo e, principalmente, contra o desinteresse dos seus concidadadãos pelos valores tradicionais.
O romance decorre no contexto no final do século XIX espanhol. Vive-se um clima de crise política, marcado, não só pelas dúvidas na sucessão do trono mas principalmente pela corrupção e conluios. Ao mesmo tempo, de França, surgem ventos de mudança que fazem despertar o sonho da república. A guerra civil paira sobre Madrid.
Mas aquilo que mais parece deter a atenção de Reverte é a derrocada dos valores morais e éticos de toda a sociedade. Por todo o lado, reina a hipocrisia, a violência e os conluios.
Sempre crítico perante a evolução histórica do seu país, Reverte não deixa nunca de povoar o enredo com marcas de lamento pela crise dos valores da honra que o levam a dar um tom marcadamente quixotesco ao romance. De facto, Miguel de Cervantes parece espreitar por detrás de todos os cenários descritos neste livro. O próprio D. Jaime parece uma reencarnação sofisticada de D. Quixote, lutando contra o futuro, do mesmo modo que aquele lutava contra os moinhos de vento.
Tentando isolar-se deste contexto adverso, D. Jaime procura a todo o custo manter a arte da esgrima, ensinando os seus cada vez mais raros alunos nas artes do florete e da espada. De entre os seus alunos, surge a bela Adela que despertará as suas paixões e revolucionará a sua vida, envolvendo-o num enredo alucinante, de cariz policial. Adela, qual Dulcineia, é misteriosa e encantadora. É esse mistério e esse encanto que levarão D. Jaime às mais inimagináveis aventuras.
Enfim, um livro que vale pelo característico suspense das obras de Reverte, embora ainda sem o fôlego de “Clube Dumas” ou a descontracção das “Aventuras do Capitão Alatriste”. Não se encontra neste livro grande profundidade literária nem ideias inovadoras. Trata-se acima de tudo de um livro divertido, que se deixa ler com facilidade. Nada mais que isso.

sábado, 2 de Agosto de 2008

Léon Tolstoi - A Morte de Ivan Ilitch

Este romance do grande mestre Tolstoi é a prova definitiva de que uma obra-prima não tem de ser um livro volumoso. Em pouco mais de cem páginas nesta louvável edição de bolso, Tolstoi escreve quase tudo sobre a vida. Sim, porque não se trata de um livro (apenas) sobre a morte; como diz A. Lobo Antunes no pequeno e excelente prefácio desta edição, “tudo o que somos [ali] se acha em poucas páginas”.
No entanto, a morte não deixa de ser o centro do livro, ou melhor, da vida. A morte de Ilitch, vista pelos outros, representa a alegria dos que vivem; não só dos abutres que sempre esperam ganhar algo com a morte do outro, mas também por todos os que, perante o fim de Ilitch, sentem a alegria de continuar vivos. No entanto, a morte do outro desperta o medo da nossa própria morte; nesse sentido, agudiza o nosso egoísmo. A curiosidade em tomar conhecimento de todos os pormenores da morte de alguém reflecte a nossa vontade de transferir a ideia de morte para o outro.
Durante o caminho para a morte, ou seja, ao longo da vida, Ilitch vive praticamente obcecado pelo trabalho. Neste aspecto, Tolstoi toca nesse ponto que mais tarde constituirá um dos elementos-chave da obra de Kafka: a perda do sentido da vida entre a rotina e a alienação pelo trabalho. Por outro lado há a competição que arrasta consigo a perda de escrúpulos e a entrada em cena da inveja, transformando a vida numa luta sem sentido. A vida é encarada como um conjunto de elementos alienantes. O próprio casamento não foge à regra: Ilitch vive a sua relação marital como um hábito e um conjunto de obrigações formais e sociais. As relações inter-pessoais, por sua vez, são determinadas pelas exigências das relações de poder e pelas hierarquias. O ser humano é sempre ultrapassado pelo formalismo: a Ilich, enquanto juiz, tal como ao médico que trata a sua doença fatal, interessa mais a formalidade do processo do que a relação pessoal com o ser humano. O médico não trata doentes; trata doenças. O juiz não julga o homem, julga o crime.
Ao longo da doença, Ilitch vai-se transformando num empecilho para os outros. Põe-se aqui em causa toda a natureza essencialmente egoísta do ser humano, causadora da solidão e da carência afectiva que era, ao fim e ao cabo, o maior dos males de Ilitch. Um dos pontos altos desta obra, onde a sensibilidade do autor se exprime com eloquência é o episódio em que Ilitch, quase moribundo e sofrendo atrozmente, apenas encontra alívio quando o criado Guarassim o toca e lhe dedica algum afecto desinteressado. Ele é o único que nada lhe esconde e nada pede em troca. Os outros, todos os outros, escondem a verdade ao moribundo, não por piedade mas por egoísmo e hipocrisia: o objectivo é manter o moribundo afastado, é não se envolver e preservar-se a si próprio.
Perto da morte, resta a solidão – a dor maior! Mas mesmo perto do minuto final, quando as dores físicas e da alma são insuportáveis, Ilitch exclama: “Tudo menos a morte”. É assim a alma humana!
Em suma, trata-se de um verdadeiro tratado sobre a vida. O que é viver bem? Questiona-se Ilitch. O que é uma vida correcta? Qual o padrão a seguir? Terá o mundo o direito de nos dizer como devemos viver e morrer? Talvez cada um de nós deva procurar as suas próprias respostas, para que de repente não nos ocorra aquilo que se passou com Ilitch: “Aconteceu-lhe aquilo que lhe costumava acontecer na carruagem do comboio, quando pensava que seguia para a frente e ia para trás, e de repente descobria a verdadeira direcção”!

terça-feira, 29 de Julho de 2008

O Crime de Lorde Artur Sevile e Outros Contos - Oscar Wilde

Não deixa de ser surpreendente o fino e inteligente sentido de humor de Wilde ao longo destes contos, particularmente em “O fantasma de Canterville”. A comédia torna-se hilariante no confronto entre o fantasma de 500 anos e a família americana que, com o seu espírito capitalista americano, comprara o respectivo castelo. Para quem leu, por exemplo “De profundis”, essa carta dolorosa de um homem angustiado, não deixa de ser admirável este bom humor.
No conto principal, que dá título à edição, tudo gira em torno da estupidez. Ou melhor, de como a superstição se transforma em estupidez quando um homem se deixa conduzir por ela. Trata-se da história de um jovem aristocrata, pouco inteligente e supersticioso que procura cumprir a “profecia” de um quiromante, uma vez que tem o casamento marcado e não quer consumar o matrimónio sem “despachar” a profecia. Mas a tarefa não é nada fácil: o quiromante garantira que ele haveria de cometer um assassínio; o problema maior era encontrar um alvo.
Wilde que um dia afirmou que o único pecado é a estupidez, demonstra aqui um admirável espírito crítico ao qual não escapa uma sociedade burguesa sem ideias nem ideais, completamente dominada pela futilidade. O subtítulo deste conto (“Um estudo sobre o dever moral”) denota uma genial ironia acerca do conceito de moralidade: ser coerente com os princípios morais pode revelar-se uma armadilha fatal, quando eles estão assentes em crenças e hábitos.
Os dois contos finais são meros exercícios da fértil imaginação de Wilde. O último deles (“O Modelo Milionário”) demonstra uma faceta pouco conhecida de Wilde: a sua sensibilidade perante a solidariedade social e a filantropia.
A ideia geral que perpassa todos os contos é a dualidade e o confronto entre a aparência e a realidade no que toca à personalidade humana. Há sempre um desconhecido por detrás de cada rosto e o confronto com os outros dá-se sempre ao nível da aparência. Quando essa “máscara” cai, todos nós revelamos facetas antes insondáveis e o misterioso torna-se real.

domingo, 27 de Julho de 2008

Gente de Dublin - James Joyce

A impotência perante a dureza da realidade, particularmente no que diz respeito às condições económicas, é o tema central desta obra, um dos primeiros livros do autor de “Ulisses”. A Joyce interessa sobretudo a vida da gente simples de Dublin, descrevendo-se uma cidade pobre e muito conservadora, factores que ditam o peso de uma realidade que oprime os seus personagens.
A tentação de sair da ilha é grande, mas o apego à terra é enorme. Para isso contribui uma mentalidade provinciana à qual Joyce aponta o dedo acusador. No final de cada conto, é a realidade que vence; é o costume, a normalidade, que prevalece sempre! No conto “Graça Divina” esta ideia assume uma forma muito curiosa e original: praticamente o conto não tem um final, na acepção habitual do termo; o encerramento da narrativa dá-se com a mensagem de um padre e tudo fica igual. O problema não tem solução, nunca se resolve, pelo que não há final.
O estilo utilizado por Joyce nestes contos é peculiar: as histórias não têm suspense, não se procuram artifícios para captar a atenção do leitor mas, na realidade, a beleza das palavras cumpre esse papel na perfeição. Nestes contos nada acontece de extraordinário. Mas, ao mesmo tempo, tudo é extraordinário: a realidade é sempre a mesma mas a beleza da escrita de Joyce encarrega-se de nos prender do princípio ao fim. Os primeiros contos são verdadeiramente ingénuos; histórias simples e com enredo quase pueril. Ao longo do livro vai crescendo o simbolismo e a “finura” das mensagens de Joyce. O álcool e a embriaguez, fenómenos integrantes do conservadorismo, estão quase sempre presentes, a contribuir para a vida atribulada e infeliz da maioria das personagens. No conto “Embriaguez” o tema é tratado de forma tão crua e directa que nenhum leitor consegue evitar a comoção. A própria religião, fenómeno tão importante na Irlanda, é outro elemento desse conservadorismo que o autor acusa.
Destaque finalmente para o último conto (“O morto”), que constitui uma formidável reflexão sobre a vida, a morte e o amor; não obrigatoriamente por esta ordem mas constituindo uma triangulação da qual ninguém consegue escapar.
Globalmente, esta obra é mais um conjunto de reflexões ficcionados do que um livro de contos na sua concepção tradicional. Tudo gira em torno de um povo que se limita a cumprir o seu destino, com as suas alegrias simples e as suas dores permanentes. Um obra escrita em tons de lamento mas de onde se eleva um estilo narrativo inovador, anunciando já James Joyce como um dos mais originais e marcantes escritores europeus da primeira fase do século XX.

terça-feira, 22 de Julho de 2008

Salammbô - Gustave Flaubert

Trata-se de uma obra a todos os títulos notável. Depois da polémica com Madame Bovary, Flaubert procurou refugio no romance histórico mas nem por isso conseguiu a fuga desejada. Os seus críticos não lhe deram tréguas e se na obra anterior o haviam acusado de provocar escândalo, nesta houve quem o acusasse de sair demasiado da verdade histórica. Seja como for, a liberdade criativa justifica alguns desvios à verdade histórica.
Salammbô é o nome da filha de Amílcar Barca, célebre conquistador cartaginês. Durante as primeiras Guerras Púnicas, este general teve de contratar enormes contingentes de mercenários que depois se revoltaram contra Cartago. Após um festim comemorativo feito pelos comerciantes em homenagem às vitórias, um dos mercenários, chamado Mâtho, apaixona-se pela bela princesa Salammbô, a filha do general. Consagrada para o culto à deusa Tanit, esta conserva-se pura e virginal, desconhecendo a realidade mundana. Entretanto, tem início a revolta dos mercenários, por não terem recebido as prometidas recompensas, sendo Mâtho um dos seus principais chefes. Amílcar encontra-se fora da cidade, que é cercada pelos milicianos. Tomado por sua paixão desenfreada, Mâtho ocultamente penetra em Cartago, o que resulta no roubo do Zaïmph - o manto sagrado da deusa - e no qual nenhum mortal poderia tocar.
O retorno de Amílcar, marcado pela oposição dos seus conterrâneos, dá início a uma longa série de batalhas, vitórias e reveses… O final é surpreendente e apoteótico.
A imaginação incrível de Flaubert permite descrições notáveis dos ambientes da época. Os costumes, as roupas, os edifícios, as armas, tudo é belamente descrito num estilo muito cuidado. A estranheza dos costumes dos povos descritos é, aos nossos olhos, impressionante. Este aspecto leva o leitor a questionar-se sobre o ponto onde acaba a descrição histórica e começa a fértil imaginação de Flaubert.
As barbaridades cometidas pelos exércitos dão-nos uma noção de terror impressionante. À medida que a acção avança, os exércitos vão-se dizimando, mas os seres humanos que os alimentam parecem sempre renascer das mortandades, alimentando sempre a máquina impiedosa inventada pelo ser humano a que damos o nome de guerra.
Em contraponto com o terror, a riqueza! Impressionante a descrição dos tesouros de Cartago, nomeadamente o tesouro pessoal de Amílcar. Ao mesmo tempo, a eterna desigualdade entre os seres humanos, uma vez que as populações em geral passavam crises frequentes de fome. Um aspecto importante que parece realçar do texto é um certo europocentrismo, em voga na época, que considerava como bárbaro todo aquele que não comungasse dos valores europeus. Mas há uma certa admiração por esta “barbárie”. No final da obra triunfam os Deuses; esses mesmos Deuses que Flaubert descreve como impiedosos, vingativos, assassinos mesmo! Mas o triunfo dos Deuses talvez seja a vitória do destino. Por maiores que sejam as riquezas e as ambições, por mais valentes que sejam os homens, há sempre um destino a cumprir e nada podemos fazer para lhe fugir. Todas as guerras e todas as ambições de riqueza são inúteis.

segunda-feira, 14 de Julho de 2008

A Dama das Camélias - Alexandre Dumas, Filho

Um amor desmedido e uma história trágica: eis os ingredientes obrigatórios de uma bela obra segundo os cânones do grande romance francês do século XIX. Neste livro, impressiona o exagero: do amor desmesurado de Armand, da doença trágica e quase inexplicável de Margueritte e de um ambiente social onde predomina o luxo e a depravação. Margueritte é uma cortesã que alimenta o luxo em que vive vendendo o corpo e a alma a fidalgos endinheirados que povoam a cidade de Paris na primeira metade do século XIX. Armand é um nobre de baixa renda, um jovem que, como muitos outros, procura viver da renda, deambulando pela cidade-luz até cair de amores por Margueritte. Esta, inexplicavelmente, abandona o luxo para se dedicar àquele amor caído não se sabe bem de onde.
No entanto, em breve se anuncia a tragédia, quando surge o famoso triângulo amor-ciúme-posse que conduz à desgraça. Embora com lágrimas e mais lágrimas ao longo de quase todo o enredo, tudo corre pelo melhor até se verificar que a renda de Armand não chega nem para os gastos mais elementares, acrescendo a ira do pai de Armand perante aquela relação com uma mulher cuja vida se situa completamente fora dos limites da decência. Vem ao de cima toda a história mil vezes contada da hipocrisia perante a vida pecaminosa destas damas que alimentam os desejos mais ardentes dos homens mas a quem é negada qualquer aceitação em termos morais. Uma coisa é ser amante, outra é ser mulher em todo o sentido do termo.
Todo o drama acontece quando Margueritte quer deixar de ser amante para ser mulher. A sociedade parisiense, perdida algures entre a moral burguesa e o diletantismo de um quadro mental de Antigo Regime, não aceita o fim da aparência. Tudo corre bem enquanto Margueritte mantém a aparência mesmo que todos conheçam a depravação em que vive. Para lá do amor exagerado e da tragédia quase surrealista a que conduz, fica o retrato de uma cidade onde os valores da própria Revolução Francesa parecem não ter penetrado. Por todo o lado, nobres diletantes vivem das rendas pagas pelo povo explorado e faminto, rendas essas que desbaratam em farras e orgias. É incrível como a tolerância, a liberdade, a igualdade e a fraternidade estejam ausentes de um cenário social que foi o mesmo dos revolucionários, algumas décadas antes.
Outro aspecto que impressiona nesta obra é o sentimento que o próprio Dumas parece colocar na escrita, como se a vivesse por dentro (carácter auto-biográfico?). Por mais inacreditável que seja aquela paixão, tudo se passa como se fosse o próprio autor a vivê-la e a senti-la. O próprio Dumas parece envolver-se num quadro moral beatífico, onde os sentimentos cristãos surgem exagerados e contraditórios.
Em suma, trata-se de uma obra cuja importância se prende mais com o testemunho histórico do que com a qualidade literária. Trata-se de um retrato deprimente de uma cidade perdida nas contradições de uma época e de um quadro social que fica algures entre o aristocrata e o burguês, entre o Antigo e o Contemporâneo.

segunda-feira, 7 de Julho de 2008

A Música do Acaso - Paul Auster

A par de Mr. Vertigo, esta Música do Acaso é uma das raras obras de Paul Auster que segue uma linha bem definida; sem recorrer à sua técnica recorrente de histórias dentro da história, Auster desenvolve um enredo simples e linear. É talvez um dos seus livros mais singelos e menos “trabalhado”.
Escrito em 1990, na primeira fase do percurso literário do autor, aborda a história de um bombeiro nova-iorquino de nome Jim Nashe. Aliás a semelhança do nome talvez denote alguma referência ao músico americano Graham Nash que, além da brilhante carreira militar, foi um activista político nos anos 60.
Jim Nashe tal como o seu quase homónimo, não consegue viver sem a música; é uma mescla de bombeiro, cavaleiro andante, libertino e vagabundo. Nashe, o vagabundo culto que lê Rousseau e ouve Verdi, é a liberdade em pessoa. Mas será que alguma vez foi livre? Esta é a questão central do livro. A liberdade existirá?
Jim deixa-se conduzir pelo acaso mas é precisamente esse acaso, uma força aparentemente aleatória, que acaba por conduzir com rédea curta toda a sua vida. Escravo do acaso pode ser uma expressão definidora de Jim e da sua vida. É nesse sentido que o acaso se confunde com o destino. Serão uma e a mesma coisa?
É por acaso que encontra Pozzi, um amigo de ocasião que num ápice se torna o filho, outras vezes irmão, que Jim nunca teve. Perdido no acaso, facilmente Jim encarna uma outra ideia central que perpassa toda a obra literária de Auster: a perda e a busca da identidade. Nash percorrer o livro à procura de si próprio e de um sentido para o seu percurso errante. Essa procura da identidade faz surgir a obsessão; a vontade furiosa de encontrar um caminho. Na parte final do livro, após ter gasto toda a fortuna herdada, Nashe e Pozzi encarregam-se de construir um imenso muro para pagar a dívida do jogo. Auster a lembrar Kafka: o muro como metáfora da perda da liberdade pelo trabalho; como em A Grande Muralha da China, trata-se da perda da individualidade, esmagada pelo peso de algo superior, seja uma autoridade ou, simplesmente um destino ou acaso. E a solidão. A imensa solidão que só termina com a morte. Mas, ao mesmo tempo, o reencontro com uma certa ordem cosmológica, estabelecida pela racionalidade do transporte e alinhamento das pedras. Mas essa racionalidade é provisória; tanto como a liberdade. No final prevalecerá sempre a solidão. A solidão e a incerteza; como Nashe reconhece, nós não sabemos nada. Somos um imenso zero. No entanto, um zero também pode ser um círculo que contenha o mundo inteiro.
Mesmo numa estrutura linear e aparentemente simples, Auster não escapa da sua própria angústia perante o destino e a natureza tristemente irracional do ser humano. Até ao momento em que. De repente, a música se interrompe.

domingo, 6 de Julho de 2008

Capitães da Areia - Jorge Amado

Capitães da Areia é um dos primeiros livros da brilhante carreira literária de Jorge Amado. Em parte devido a esse facto a obra revela uma sensibilidade notável em relação aos problemas sociais causadores daquilo a que hoje chamamos a delinquência juvenil. Mas o “purismo” ideológico de Amado não o leva a uma análise simplista do problema; pelo contrário, ele aborda de forma profunda todas as facetas do fenómeno.
“Capitães da areia” é a designação atribuída a um grande grupo de meninos da rua, na cidade de Salvador, algures nos anos 30. A realidade sócio-económica, dramática, empurra estas crianças para uma vida de delinquência forçada e Amado preocupa-se em explicar racionalmente o fenómeno mas sempre com o acento tónico na responsabilização do sistema capitalista, do enquadramento religioso e mental e do sistema político e policial nas raízes da desgraça.
Os meninos são as vítimas; a polícia defende os interesses instalados de forma descarada; a imprensa dá cobertura ao jogo de influências, encobre e justifica todas as injustiças; a religião católica, hipocritamente, está inserida nesse mesmo jogo de interesses. Por arrastamento, a opinião pública não procura compreender; apenas perseguir e castigar aquelas que são as maiores vítimas da injustiça: as crianças.
Mas, para Jorge Amado, os Capitães da Areia são os heróis no estilo Robin dos Bosques. Roubam para sobreviver; roubam porque a isso são forçados. A vida obriga-os a ser adultos à força.
A obra divide-se em três partes: na primeira descreve-se as histórias de cada menino: Pedro Bala, o chefe; professor, o intelectual e artista; Pirulito, o fervoroso católico, Volta Seca, o afilhado do terrível Lampião, sonha ser cangaceiro e dizimar a autoridade; Sem-Pernas, o menino coxo revoltado e abandonado por todos, Querido de Deus, o capoeirista, João Grande, o da alma grande e mais uma centena de meninos que tem em comum a ausência do carinho materno. Todos eles anseiam pelo carinho de uma mãe perdida ou roubada. Por isso, na segunda parte da obra, surge Dora, a menina que aparece no grupo como a mãe de todos embora tenha a sua idade. É nessa fase que a sensibilidade humana do autor atinge a sua máxima expressão. Dora não é uma menina como as outras; é o ombro que nunca tiveram para chorar; é o amor na sua expressão mais pura.
Na terceira parte do livro, o grupo desfaz-se; independentemente do destino de cada um, a maldade, o ódio e a injustiça persistirão; mas a luta também e, sempre, a esperança num futuro sem exploradores nem explorados, nem autoridade vendida, nem religião hipócrita.

domingo, 29 de Junho de 2008

Timbuktu - Paul Auster

Esta interessante fábula de Paul Auster, escrito já na era Bush, em 1999, conta-nos a história de um cão de raça indefinida, um daqueles cães vulgares, Mr. Bones e do seu dono, Willy, um sem abrigo, ou melhor, um poeta, que talvez fosse apelidado de esquizofrénico por qualquer intelectual de pacotilha. Na verdade, nem Mr Bones é um cão vulgar, antes um génio canino, nem Willy é esquizofrénico, antes um poeta incompreendido e rejeitado pela sociedade. Willy, ao rejeitar a herança da mãe, é o homem que recusa o materialismo, logo, o mundo dos outros homens.Willy devia ter sido um grande poeta, mas a doença alterou-lhe os planos e fez com que andasse em de terra em terra, pela costa leste dos EUA. Adoptou Mr. Bones, que passou a ser o seu companheiro, protector e confidente. Mais do que isso: Bones é o amigo; o único amigo, a antítese do ser humano: solidário e disponível. A elevação do cão a amigo perfeito é o reflexo da mágoa de Auster perante a natureza egoísta e materialista do ser humano. O ser humano “normal” recusa a liberdade; Willy rejeita o mundo em nome da liberdade.O cão, dotado de extrema inteligência é o único ser que conhece realmente Willy e nos dá a conhecer todo o enredo. Mr. Bones é cão, por isso não está corrompido pela humanidade. É paciente, fiel, inteligente, autónomo, com personalidade, meigo, altruísta e amigo dedicado – tudo o que um ser humano não é. Mais importante do que ser omnisciente, Bones sabe sonhar. Por exemplo, com Timbuktu, a terra para onde todos nós vamos, depois de morrer, e onde, muito provavelmente, cães e homens falam a mesma língua. Timbuktu é “o oásis dos espíritos”, onde o Universo encontra sintonia e único lugar de paz e felicidade.A escrita refinada, deliciosa, de Auster dá ao livro o tom de uma maravilhosa fábula sobre a amizade, a solidariedade e o sonho. O cão e o vagabundo estão unidos contra o desprezo humano. A loucura de Willy não é mais do que a estranheza de alguém que sonha num mundo de homens vegetais voltados apenas para si mesmo. Com um notável sentido de humor e a sua habitual clareza de linguagem, Auster não deixa de emprestar a determinados aspectos da obra uma carga de simbolismo notável e até algum sentido filosófico. Por exemplo, quando Willy decide compor uma sinfonia de cheiros, o autor delicia-nos com uma série de raciocínios sobre as implicações da arte como fuga ao real, mesmo utilizando os sentidos, como o próprio olfacto, como via para essa libertação. Quando Mr. Bones tem acesso a todos os confortos e riquezas, continua a sonhar com Willy. Ou melhor, com a liberdade, única via para a realização completa do ser humano.Em suma, mais uma obra brilhante de Auster, o nova-iorquino que não quer ser norte-americano.

domingo, 15 de Junho de 2008

Balada da Praia dos Cães - José Cardoso Pires

Embora seja muito mais do que isso, a Balada da Praia dos Cães é uma história policial; tudo começa com a descoberta de um cadáver numa praia. A vítima era um militar envolvido numa tentativa fracassada de derrubar o regime fascista português. A partir daí, o enredo decorre em constante feed-back, retornando aos últimos dias do oficial, escondido com três cúmplices que são, ao mesmo tempo, suspeitos da morte do oficial e de envolvimento no referido golpe.Perante este cenário, a Policia Judiciária e a PIDE procuram pôr em campo o seu jogo de interesses, num constante bailado de rivalidades e questões políticas entre as duas instituições. O caso acaba por ser entregue à Judiciária. O agente encarregado do processo, personagem principal do romance, Elias Santana é um português típico: está-se marimbando para a política, julga ter solução para tudo, é desleixado, tem um lagarto como melhor amigo e usa unhaca comprida no dedo mindinho. Portugal vivia numa ditadura posta em causa pela independência da Índia e pela ameaça da guerra colonial. O regime tornava-se obsoleto e cada vez mais repressor. Por isso o tom do romance é sempre sombrio e o retrato social apresenta-nos uma realidade dominada pelo medo, pelas intrigas políticas e por uma sociedade de aparências forçadas.O crime em si mais não é do que um pretexto para que os cuidades de “segurança” do regime escondam o crime maior: o de um regime repressor e baseado no medo. Os suspeitos são as vítimas desse crime maior. O castigo imposto a estes suspeitos é o castigo imposto a toda a sociedade; a um país reprimido, manietado, assassinado. No final não há redenção nem compaixão; apenas solidão.O próprio Elias Santana, mais do que um agente da autoridade, é uma vítima aquém não é permitido ter uma opinião nem muito menos uma vida própria; ele é o braço do sistema e por isso depende de tudo quanto o condiciona. O medo e a solidão são, também para ele, os denominadores comuns de todos os aspectos da vida.

terça-feira, 10 de Junho de 2008

Mr. Vertigo - Paul Auster

Mr. Vertigo é uma das obras mais peculiares de Auster; trata-se de uma espécie de fábula moderna onde o impossível se realiza e os sonhos ganham forma; aqui o humano mistura-se com o misterioso e a vida saltita entre o mesquinho e o irreal. Nunca em toda a bibliografia de Auster se chegou tão alto no domínio da fantasia e da imaginação. Trata-se da história, contada pelo próprio, de um ancião que faz o feed-back de toda a sua vida, desde os tempos em que usava voar até ao momento em que, já idoso, recorda todos os altos e baixos da sua vida, da vida da América. Walt é o rapaz Prodígio que, conduzido pelo seu Mestre, Yehudi, aprende a voar e mostra que, afinal, isso é até coisa pouca para um ser humano. Após uma experiencia dura de aprendizagem, ele torna-se o ídolo da América. Até à queda; e daí ao renascimento; até nova desgraça; e de novo o ressurgimento; até ao fim…Walt sonha e isso fá-lo voar. Mas só após o sofrimento; um imenso sofrimento que mestre Yehudi lhe apresenta como o preço da felicidade. Walt, um indigente, pobre e renegado, vive e realiza o seu sonho com a ajuda de uma índia velha, um negro e um judeu húngaro (o mestre); os heróis são aqueles que surgem das minorias mais reprimidas, mais espezinhadas sobre quem tombou toda a gloriosa história da América. O desejo de voar é o desejo de redenção por parte dessa América assombrada pela história de violência e injustiça. A chacina dos Índios, a perseguição aos judeus e o ódio aos judeus são as manchas que ensombram a Liberdade. Aliás, é a própria Ku Klux Klan quem dá um dos maiores passos para a desgraça do Prodígio. O Mestre, o homem que só lê Epinosa (judeu de origem portuguesa), representa a fusão entre o espírito materialista americano, o homem que quer ganhar rios de dinheiro, e o espiritual, o homem que sabe que o querer faz-nos voar. Quantas desgraças sofreu o Mestre; mas a ambição é maior e Yehudi mostra-nos como a maior e mais nobre das ambições é, afinal, aquela que não se transforma em dinheiro. Walt passou a vida a subir e a descer. Mas descer é muito mais fácil do que subir ou manter a altitude. Na vida como na magia. Na América como em nós. Em rodapé comum a todo o livro, o hino à amizade que Auster nos entoa. Com firmeza e sentimento; com a sua peculiar frieza narrativa mas sempre com aquele toque de humanidade que faz de Auster um dos expoentes máximos da literatura contemporânea.

quarta-feira, 4 de Junho de 2008

Leviathan - Paul Auster

Peter Aaron, o narrador, lê a notícia de que um homem não identificado explodiu numa estrada do Wisconsin. Só ele sabe tratar-se de Benjamin Sachs, o seu melhor amigo e um promissor romancista. A partir desse momento, Aaron impõe a si mesmo a árdua missão de desvendar o mistério que envolve a vida e morte de Sachs, empreendendo uma jornada que é, simultaneamente, uma autodescoberta. Com o objectivo único de repor a verdade, revive a amizade que o ligara durante quinze anos a Sachs.
Não se trata de uma das mais bem conseguidas obras de Auster, longe da genialidade de “A Triologia de Nova Iorque” ou da profundidade de sentimentos de “Inventar a Solidão”, até porque se trata de uma das suas primeiras obras. Mas é um livro que revela já aqueles que viriam a ser os traços mais marcantes da obra deste genial escritor nova-iorquino. Desde logo, todo o enredo é marcado por esse tema central do Universo de Auster: a procura da identidade: Peter procura conhecer Sachs procurando por si próprio; a irresistível tentação de conhecer o outro, aliada à quase impossibilidade de compreender a alma humana. O “outro”, neste caso, Sachs é o eu-sombra, aquele que funciona como imagem projectada do narrador. Por outro lado, como em toda a obra literárias de Auster, a crítica mordaz à mentalidade, aos costumes, ao pensamento político e às estruturas sociais da América conservadora.
O tema “terrorismo” e a procura das suas causas profundas surge como consequência de uma sociedade ultra-conservadora e ao mesmo tempo injusta, que despreza valores como a solidariedade e a preocupação pelo outro. Muitos anos antes do 11 de Setembro, Auster anuncia, pela acção de Sachs, um bom homem, as consequências dessa degenerescência social. No domínio dos sentimentos, é um livro sobre amizade, amor e a traição: a complexidade dos sentimentos humanos e o limite ténue entre o amor e a traição, com o desejo a funcional como fiel da balança. Uma escrita predominantemente narrativa mas profunda e complexa. Finalmente, realce, como sempre, para a enorme habilidade de Auster como contador de histórias. O imprevisto do quotidiano que transforma a vida numa sucessão de contradições e mistérios. A bizarria das coincidências revela essa mesma complexidade. Como é próprio de Auster, a incerteza e o mistério do enredo levam o leitor a folhear até à exaustão, levando ao expoente máximo o prazer de ler.

quinta-feira, 29 de Maio de 2008

De Profundis - Oscar Wilde

Escrito na prisão, onde “contava o tempo pelas pulsações da dor” (pág. 33), De Profundis é uma extensa carta dirigida a um amigo especial, alguém que acompanhou Wilde nos momentos de paixão e devaneio em que a sua vida foi fértil. E foi esse amigo quem o conduziu à prisão ao convencê-lo a fazer frente em tribunal ao seu pai, um Lord da alta sociedade inglesa.
Trata-se de um tremendo hino ao esteticismo que o autor cultivou e que aqui exprime da forma mais contraditória possível: toda a beleza, toda elevação da arte contrasta com uma angústia gritante perante o destino que o conduziu à desgraça. A arte assume aqui a forma de dor. A vida desvairada e intensa de Wilde dá aqui lugar a uma imensa melancolia e uma indisfarçável revolta perante um mundo que não o compreendeu minimamente. Por isso, Wilde balança constantemente entre um ego poderoso, um auto-conceito que o leva a colocar-se nos píncaros da arte e uma sensação de desprezo perante ele próprio no que toca aos sentimentos e à forma como os geriu. Ao longo do livro, bem distante do tom optimista de “O retrato de Dorian Gray”, são recorrentes os lamentos e o desespero de um homem que não soube viver e de um artista de génio, incomparável e único. “O supremo vício é a vulgaridade” (pág. 13). O grande pecado de Wilde foi confundir o amor com o prazer e assim caiu na vulgaridade. Aqui Wilde encontra a contradição suprema que o conduziu ao desespero: a contradição entre a beleza da sua arte e a fealdade do mundo que construiu e no qual se sepultou. Foi o factor humano que arruinou a sua arte – crime supremo, este de transportar a vida para a arte que, na sua pureza e perfeição deveria sempre manter-se muito acima do mundo mortal. “Era o triunfo da natureza menor sobre a maior” (pág.23). É ao desprezar e lamentar essa vida gasta no prazer que Wilde valoriza o sofrimento como caminho para uma espécie de contemplação da beleza. Os devaneios e reflexões de Wilde conduzem, por exemplo a uma interessantíssima leitura da vida e obra de Jesus Cristo que identifica como um ideal de beleza, perfeitamente identificada com a dor. Em suma, uma obra que traz à superfície o lado mais negro de Wilde - a decepção perante um mundo que não compreende o génio.

terça-feira, 28 de Agosto de 2007

O Velho que lia Romances de Amor - Luis Sepúlveda

Não se trata de uma obra de grande fôlego, a julgar até pela sua brevidade: 121 páginas que o Circulo de Leitores complementou, nesta antiga edição, com o conto “Mundo do Fim do Mundo”. Mas as limitações da obra não se reduzem ao factor “quantidade”. Não há aqui um propósito de escrever um romance mas apenas um conto ilustrativo da importância da preservação da floresta amazónica. O livro, dedicado a Chico Mendes não tem grande mérito em termos de criação literária. Tem, isso sim, uma mensagem importantíssima: ninguém consegue vencer a natureza. Podemos e devemos viver com ela mas nunca contra ela. Os animais e os elementos, ao oongo do livro, como que “troçam” dos homens, brincam sadicamente com eles antes de, invariavelmente, desferirem o golpe final. O convívio com a floresta, protagonizado pelo velho José Bolívar Proaño, é visto como um acto de submissão do homem à natureza. Proaño não tem medo da floresta. Tem-lhe, isso sim, um imenso respeito. E só esse respeito lhe permite viver feliz e em comunhão com animais ferozes e todo o tipo de perigos. Mau grado as contínuas ameaças dos exploradores americanos e das autoridades políticas sul-americanas, os bichos e os índios sobrevivem e triunfam. A escrita é simples e muito bem-humorada. Um estilo delicado e fácil que permite uma leitura rápida e agradável. As personagens, tipicamente sul-americanas, permitem ao autor introduzir deliciosas rábulas de humor quando confrontadas com a civilização distante que só conhecem por testemunhos indirectos. É o caso das deliciosas interpretações que os habitantes de El Idílio fazem de uma descrição da cidade de Veneza. Proaño, um velho viúvo solitário lê romances de amor para enganar a solidão mas também porque prefere a distância em relação a esse mundo “civilizado” que ele não gostaria de conhecer. O sonho é sempre preferível à realidade. Os índios (os Xuares, com quem Sepúlveda chegou a viver) são descritos de uma maneira muito simpática, seguindo o velho padrão do bom selvagem que vive feliz em comunhão com a natureza. Em suma, um livrinho muito agradável que compensa a falta de riqueza literária com a ludicidade da escrita e o valor de uma mensagem que, cada vez mais, devemos ter presente.

segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo - António Lobo Antunes

A leitura como um jogo. Um desafio e uma construção. Um passeio literário que transporta o leitor para o verdadeiro prazer de ler. Eis o verdadeiro Lobo Antunes. Memórias nostálgicas de África, um tema quase obsessivo em Lobo Antunes. Mas também uma perspectiva crítica mordaz á forma como Portugal procurou tirar de África, a todo o custo, os seus melhores recursos, mesmo à custa de vidas humanas, barbaramente desperdiçadas. Deambulando entre uma escrita profundamente melancólica e um sentido de humor discreto mas eficaz, o Autor presenteia-nos com uma obra complexa mas de uma qualidade literária apenas ao alcance desse pequeno grupo de escritores a que podemos chamar “génios”. Agentes mais ou menos secretos, portugueses, cobiçosos, meros paus-mandados de uma cobiça maior, à procura de alvos difusos. Personagens vulgares, joguetes do poder viajam para Angola, sempre com o mesmo fito: os diamantes, réstia valiosa de um poder decrépito mas sempre desumano. Os Portugueses, os cubanos, os americanos, sempre os americanos, juntos numa amálgama de desespero e ambição. Vidas que se perdem ao serviço de uma causa dita maior. Seabra, Migueis, Morais, Gonçalves, Tavares, ati-heróis, desgraçados ambiciosos e manipulados são gente como nós, gente simples, vítimas de um mundo onde reina a desumanidade. Manipulados pelo misterioso “serviço”, herdeiro de uma colonização mal desfeita, os seus enviados são consecutivamente impedidos de regressar a Portugal. A terra de Angola, vermelha de sangue, funciona como uma força de atracção que os impede de regressar. O romance é apresentado em três livros com prólogo e epílogo. O estilo inconfundível de Lobo Antunes, com a multiplicidade de narradores, envolve o leitor numa trama complexa mas apaixonante. Numa obra com 573 páginas, é espantosa a forma como o autor conduz o leitor a um ritmo de leitura vertiginoso. Na verdade, a escrita de Lobo Antunes, segue a velocidade do pensamento: temas que se misturam, personagens que se multiplicam, enredos que se entrelaçam de tal forma que é ao leitor que cabe compor as peças do puzzle. Dominando como ninguém a língua portuguesa, Lobo Antunes, na sua característica modéstia, lamenta-se constantemente da falta de palavras para descrever situações e sentimentos. Curioso facto, este: um dos maiores escritores de sempre da língua portuguesa, lamenta-se da falta de palavras! A explicação é simples: se bem que a máquina institucional que submerge os personagens seja imensa, e por mais simples e vulgares que sejam as pessoas, o seu interior, os seus pensamentos e sentimentos são sempre imensos. Neste sentido, poderemos talvez adjectivar a escrita de Antunes como intimista: parece haver um esforço incontido de escalpelizar ao máximo todo o espírito humano. Mas o ser humano é tão grande e profundo que as palavras não chegam. Nem ao génio. O epílogo, escrito sob a forma de uma redacção escolar infantil, é um texto de uma excelência literária espantosa. Vem ao de cima a crítica da ambição e do poder e todo o humanismo que caracteriza a escrita de Lobo Antunes. Para ler, reler, guardar e mais tarde reiniciar o ciclo.

sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Ontem não te vi em Babilónia - António Lobo Antunes

Este livro, às vezes, é como que um bailado de pensamentos, ondulando suavemente entre as páginas, percorrendo linhas e dançando perante os nossos olhos; saltitantes, esvoaçando para dentro dos nosso próprio cérebro, pensamentos que se misturam (os nossos e os dos outros, das personagens e do autor) num livro que se faz e refaz a cada instante, num imenso puzzle a construir por quem lê porque o autor, esse, já fez a sua parte. Um livro onde nunca nada está acabado; nem as frases, nem as ideias, nem a descrição, que narração não importa. Outras vezes, este livro é o turbilhão das dores e angustias, esse somatório desordenado a que alguns chamam sofrimento. Bocados de humanidade. Tempestades de dor, é o que é! Emaranhados confusos de sonhos e pesadelos, cores impetuosas de um quadro surrealista, talvez de Dali, manchadas de sangue e de lágrimas, luzes perdidas no escuro onde se pode ler a vida. Vida entre sonhos, fantasmas, ilusões, fantoches, trapos de bonecas, muros e grilhões de Peniche, onde a maré afoga o sonho. Dois, quatro, oito, dezasseis (não interessa) personagens evoluem numa única noite de insónia e vão passando, à vez, pelo palco da vida, das letras que deciframos. Muitos narradores, uma única noite de insónia. Insónia de cada um, uma noite/vida que é de todos (personagens, autor, leitor – sim, o leitor a tomar parte no banquete da insónia) emaranhados numa única solidão, num contar de tempo que pouco importa, duas quatro, oito, dezasseis vidas perdidas; duas, quatro, seis, oito, horas tanto faz, vidas rasgadas por sonhos/pesadelos, lutas, derrotas, um tempo que não interessa, um país que quase morreu ou quase viveu (riscar o que não interessa). Memórias sombrias, cinzentas, lentas, tortuosamente lentas de um cárcere chamado alma, ou vida, ou passado, também não interessa, o que interessa sim é a esperança – isso, a esperança, isso de que o livro não fala, isso de que o António se esqueceu…… pois……Foi de propósito, não foi, António? Porque isso não existe…… Existe a morte. E a pior de todas elas: a morte na vida; uma morte, uma vida, dezasseis vidas, uma noite – o escuro. Uma frase final: linha 13 parágrafo talvez terceiro, página 479: “porque aquilo que escrevo pode ler-se no escuro”; uma verdade (ou mentira, tanto faz, o leitor é que sabe); talvez verdade na medida em que no escuro se lê o pensamento e é disso que é feito este livro inteiro – 479 páginas de dor, desalento, sofrimento sem redenção, personagens que não heróis, enredo não estória, tramas confusos como pensamentos que se misturam e um leitor que não sabe a quantas anda porque assim é a vida e, muito mais, assim é quem pensa, quem sente as dores de viver. 479 páginas apenas mas que continuam. Talvez na página 1, num ciclo de gerações que não acabam na noite, que sobrevivem na insónia e se multiplicam na aurora. Porque a insónia é eterna. Uma prisão, uma macieira, um quarto de não dormir, pouco importa quem escreve, pouco importa onde (algures a montante da morte), Babilónia, Lisboa, Évora, Peniche, riscar o que não interessa, algures onde tu não estás, onde talvez nunca ninguém tenha estado, nalgum sítio perdido a que alguém possa um dia ter chamado felicidade, que é uma espécie de luz dos planetas extintos. O que fica, afinal? Talvez o génio. A arte de embalar o leitor no pesadelo. António Lobo Antunes e nós à espera da página 480.

quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

As Loucuras de Brooklyn - Paul Auster

Antes de mais, uma chamada de atenção para o facto de o título original ser muito mais sugestivo: The Brooklyn Follies. No entanto, a palavra "Follies" é, como se compreende, de difícil tradução, pelo que se compreende a solução adoptada ("Ilusões"). Aliás a tradução do habitual tradutor de Auster para a ASA (Pires de Lima) parece-me muito boa. Pelo menos muito atenta, com notas de rodapé muito úteis. As Loucuras de Brooklyn confirma a fixação de Auster num estilo preponderantemente lúdico e narrativo. Atingindo a maturidade como escritor, parece ter neste romance atingido aquele ponto em que já não precisa de inovar. É, por isso, talvez, o romance mais bem conseguido deste nova-iorquino que não norte americano (palavras suas). É, seguramente, o seu livro politicamente mais interventivo e comprometido desde a Triologia de Nova Iorque. Todo o pano de fundo é preenchido pela Nova Iorque dos anos 2000 e 2001: desde a reeleição de Bush à tragédia do 11 de Setembro. Fica mais uma vez clara a revolta do autor perante os caminhos sórdidos e absurdos da política norte-americana, não hesitando em deixar clara a fraude eleitoral cometida pelo partido republicano. Mesmo assim fica a ideia de que Nova Iorque pré-11 de Setembro é um sítio feliz. Magnifica a descrição da gente simples da grande maçã, que Auster admira profundamente. Aí reside grande parte da genialidade deste livro: a maneira eficaz como se conta histórias simples, de gente simples. Neste romance, ao contrário do habitual nos livros de Auster, o protagonista não é escritor. Nathan Glass é um apaixonado pelos livros que, na fase final da sua vida, vítima de uma doença grave decide mudar-se para Nova Iorque a aí procurar um final de vida tranquilo. Mas não é tranquilidadde que ele encontra; encontra os problemas e as peripécias de gente simples a quem acontece um pouco de tudo. Envolve-se com personagens estranhas mas autenticas, quase diria estranhamente reais: homosexuais, assassinos, pobres desgraçados de minorias étnicas, ricaços desprovidos de ética e inteligência e um sobrinho vítima da vida que lhe reabre a porta da família e o enreda em novos laços de ternura que Glass julgava já impossíveis de recuperar. É o ranascer para a vida, é a redenção sempre presente nos livros de Auster: a solidão como caminho para a felicidade, mas sempre uma felicidade difícil, só conseguida por árduas lutas interiores e perante os outros. A afirmação do ser humano como único, só é possível perante uma sociedade que, à partida, o despreza. Mas, neste livro, parece haver um pouco mais de luz do que nas obras anteriores, mais sombrias e pessimistas. Um final feliz na medida do possível, compensam a tragédia que persiste, a espaços, na vida.

O Livro das Ilusões - Paul Auster

Nesta obra, o melhor escritor norte-americano da actualidade põe em cena todo seu conhecimento e sensibilidade cinematográfica, herdadas da sua vasta experiência no género, como realizador e argumentista. Aliás, não deixa de ser curioso que o filme baseado neste livro, a estrear em breve, tenha sido rodado em Portugal, o que prova mais uma vez a predilecção de Auster pelo nosso país. Neste livro, narra-se a vida de um homem que, depois de passar pela dolorosa experiência da morte dos filhos e esposa, se dedica por inteiro à escrita, nomeadamente à reconstituição da vida de um génio do cinema mudo, Hector Mann, misteriosamente desaparecido. Na primeira fase do livro, é tocante a forma como Auster sente e exprime a crueza do sofrimento humano e da solidão. A revolta invade o próprio leitor, perante a crueldade do destino do personagem principal. A partir daí, toda a escrita de Auster embeleza de forma genial a passagem gradual da tragédia à procura da motivação pela vida. A solidão dá lugar à esperança. A tristeza dá lugar ao frémito que impede de pensar, esse "stress" que dá à vida aquela velocidade que nos aliena mas que, ao mesmo tempo, nos anestesia perante a tragédia. Tal como noutras obras de Auster, também aqui perpassa a ideia de que não pode haver felicidade sem sofrimento. Assim, David Zimmer procura uma espécie de redenção perante o passado e fá-lo através da escrita. Mais uma vez, um tema querido a Paul Auster: o próprio acto de criação literária; a envolvência do escritor na obra criada e a amálgama entre o criador e a criação. No final fica o optimismo mau grado o tom trágico que percorre toda a obra. Há qualquer coisa de mágico em Auster: a vida é dolorosa mas preciosa. As alegrias são efémeras mas singulares. Estas ideias, tão caras a grandes escritores que, sem dúvida influenciaram Auster (Dostoievski, Kafka…) são envolvidas numa das maiores qualidades do autor: a sua magnifica vocação de contador de histórias; a sua capacidade de expressão narrativa faz dos seus livros magnificas fontes de entretenimento, retirando a literatura daquele aspecto enfadonho e pseudo-intelectual em que, infelizmente, muitos autores actuais se sepultam.

quinta-feira, 2 de Agosto de 2007

A Estrela de Gonçalo Enes - Rosa Lobato Faria

Trata-se de uma obra leve e descontraída sobre a vida e aventuras de dois personagens quase esquecidos da História de Portugal, mais especificamente da época das descobertas. São personagens reais se bem que quase todo o enredo seja ficcionado. Gonçalo Enes ficou na História pela descoberta das grutas de Tassili N’Ajjer. Trata-se de um jovem órfão de pai nascido e criado na aldeia algarvia de Bensafrim. Encantado pela estrela Sirius, que o ilumina e encanta durante toda a vida, o jovem Gonçalo, desiludido por um amor impossível, abre o seu destino às incríveis aventuras do Império que El-rei D. Afonso sonhava construir. Pelas aldeis indígenas de àfrica, pelas cidades encantadas de Marrocos, pelas areias misteriosas do deserto, Gonçalo leva consigo o espírito de aventura e coragem que transformou este pequeno país num mundo inteiro de esperança e riqueza. Fica, desta “estória”, o encanto de um tempo ido, em que a pobreza se enganava com sonhos grandes, do tamanho do Império. Um liuvro belo e fresco, descontraído, sem ambições mas que encanta pela extraordinária simplicidade e singeleza da escrita de Rosa Lobato Faria; uma escritora que tem o dom de encantar pela sua escrita simples e pura. Gonçalo, mal-amado e desprezado, vive no sonho, mas um sonho que o faz feliz. A amizade, a camaradagem, a fidelidade ao sonho são valores que fazem dele um herói, mesmo que esquecido pela História, como tantos outros que, anonimamente, construíram as páginas mais brilhantes da nossa história.

quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Memórias das Minha Putas Tristes - Gabriel Garcia Marquez

Com as suas singelas 105 páginas, este livrinho lê-se facilmente em poucas horas. Uma leitura leve, divertida mas nada fútil. O início a obra é, no entanto, propositadamente enganador, de forma a quase assustar o leitor perante o choque destas palavras: “No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem”. O choque é brutal mas passageiro; na mente do leitor paira o espectro da pedofilia e, por um momento, duvidamos da sanidade mental do autor. Mas, à medida que as páginas vão evoluindo, vamo-nos a percebendo que a prosa se transforma num belo poema sobre a vida. Uma reflexão aligeirada pelo prazer de viver mas sempre humana, sempre profundamente humana! Aos noventa anos, o narrador, escritor e jornalista de profissão, nunca tinha tido sexo sem pagar. Mas o momento de maior loucura, já mergulhado na velhice, é o momento do amor. Pela primeira vez na sua vida, aprende a amar. Mas um amor singelo, puro, sem sexo nem qualquer espécie de despudor. Pela prmeira vez, ele é feliz. Esta “aparição” é o motivo para uma reflexão profunda sobre o sentido da vida. Os obstáculos imensos que se interpõem entre ele e a sua jovem amada poderiam, à partida, contribuir para um tom negro e pessimista do livro. Mas não; todo o enredo tem a ver com a alegria de viver, com o prazer de estar vivo e usufruir do mundo. Ao longo da reflexão que o narrador faz sobre a sua vida prestes a terminar, não há um lamento, não há um arrependimento, como se tudo o que acontece tenha a marca da inevitabilidade, mas sempre num sentido positivo, de gratidão perante o destino. Tudo é celebrado, nada é lamentado.

segunda-feira, 16 de Julho de 2007

Limpeza de Sangue - Arturo Pérez Reverte

Aí está um verdadeiro romance de capa-e-espada! Admirador indefectível de Alexandre Dumas, Reverte presenteia-nos com um livro de aventuras bem refrescante, divertido e emocionante. A época histórica escolhida é bem marcante para nós, portugueses; é a época de Filipe IV, o terceiro de Portugal, de quem nos livramos em 1 de Dezembro de 1640. O enredo passa-se em 1621, quando Filipe IV era um jovem rei sem “mão” para governar um país dominado por interesses e intrigas, onde pontificava a terrível Inquisição e o nosso conhecido conde duque de Olivares, um fidalgo talvez mais poderoso que o próprio rei mas preocupado, acima de tudo, em sugar as finanças portuguesas para financiar as guerras na Flandres e Holanda. O livro é o segundo de uma trilogia que descreve as aventuras do capitão Alatriste (referência ao incontornável Cervantes) com o pano de fundo na terrível guerra da Flandres, onde combatiam as tropas de Filipe IV e onde o nosso capitão viveu batalhas terríveis. Esta obra não é uma obra-prima. Não tem “fôlego” para isso. Nem tinha que ter. O seu propósito não é afirmar as grandes qualidades de Reverte, já confirmadas noutras obras, mas sim o de divulgar uma época fantástica da história de Espanha, em que este país dominava o mundo. Estávamos no período áureo do Império Espanhol. Ao mesmo tempo, pretende-se mostrar que há determinados males que não são de hoje: a corrupção, a tendência para uma religiosidade falsa como Judas, a corrosão do poder político e os desmandos daqueles que se dizem a “elite”, mais virada para a aparência do que para a verdade. São fenómenos que permanecem mas têm raízes históricas muito bem explanadas por Reverte. Aliás, o grande mérito desta obra é o conhecimento profundo da realidade histórica que reverte revela. O fenómeno da Inquisição, por exemplo, é explanado com grande significado. O recurso a este tribunal tão desumano e hipócrita foi uma das razões para um certo atraso estrutural do sul (católico) da Europa, ao provocar a fuga de talentos e dinheiros para a Holanda, Inglaterra e outros países do Norte. Esta preocupação pelo “pano de fundo” leva o autor, muitas vezes a dar mais importância à “paisagem que ao retrato”; ou seja, a descrição da época por vezes ofuscando o próprio enredo, a história que pretende contar. Enfim, trata-se de um livro agradável, de fácil e rápida leitura, leve e simples. Um excelente exercício de divulgação histórica, bem apropriado para uma leitura de férias.

sexta-feira, 6 de Julho de 2007

O Meu Mundo não é Deste Reino - João Melo

O Humanismo de Vitorino Nemésio, o cheiro da terra de Miguel Torga e o mundo fantástico de Garcia Marquez encontra uma síntese perfeita nesta obra de João de Melo. Como Nemésio, profundamente ligado às raízes açorianas, o autor lê e descreve com entusiasmo e envolvência o viver e o sofrer de gente miserável, à procura de asas para voar sobre outros mares mas sempre peada, agrilhoada por poderes temporais que a sugam e subjugam. Cabem neste domínio o padre Governo e o Regedor Guilherme José. Como em Torga, a terra comanda a gente. O crescer da sementeira é o viver das gentes; a respiração dos animais confunde-se com a das pessoas. A terra está por todo o lado, até no chão das casas. E há um Deus, um ser supremo que ninguém conhece a não ser por sombras medonhas como a do velho e egoísta padre Governo. Como em Garcia Marquez, o fantástico cresce ao longo da obra. Esta começa por referir, em tom quase historiográfico, o povoamento da Ilha de S. Miguel para terminar numa espécie de espiral de fantasia, com homens que comem e vomitam ratos, gentes esfomeadas que pilham cadáveres e um Messias que ressuscita dos mortos para anunciar a revolução. Começando por um título (um paratexto que logo avisa o leitor para o fantástico que envolverá a obra) até ao epílogo escrito em maiúsculas, a obra está povoada de uma linguagem à beira do barroco. Por vezes, o prazer de ler, de saborear a musicalidade das frases eleva o leitor acima do conteúdo, criando nós próprios um universo fantástico julgado impossível. Navegando entre um neo-realismo latente e um neo-barroco formal, João de Melo cria assim uma obra de arte completíssima, onde a forma complementa um discurso claro de revolta contra a opressão, contra uma fome que não é só de pão mas também de liberdade.

quinta-feira, 5 de Julho de 2007

Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce

O Retrato do Artista Quando Jovem, é o primeiro romance de James Joyce. Stephen Dedalus é o herói da obra, alter ego do autor. Daí o seu carácter marcadamente autobiográfico. O nome atribuído ao herói, Dedalus, é uma referência óbvia ao mito helénico. Tal como o herói grego, também Stephen queria voar. Assim como Joyce. Os três procuraram sempre a libertação, por entre uma realidade mesquinha e atrofiadora. O livro relata a juventude de Stephen, passada entre realidade profundamente marcantes na personalidade de Dedalius/Joyce: o colégio de Jesuítas, com os seus métodos espartanos de ensino, a cidade de Dublin, suja e dominada pela eterna querela política face à dominação inglesa e uma família abastada mas que, gradualmente, cai na ruína. A perpétua luta pela independência da Irlanda obcecava os seus concidadãos. Mas Dedalus coloca-se para lá dessa realidade: “Quando a alma de um homem nasce neste país, lançam-lhe logo redes, para a impedir de voar. Fala-me de nacionalidade, de língua, de religião; eu vou tentar voar para lá dessas redes”. E mais adiante: “A Irlanda é uma porca velha que devora a sua ninhada”. Perante tudo isto, o jovem Dédalus anseia por voar mais alto. Procura nos poetas, vasculha em Aquino, refugia-se nas profundezas do saber, mergulha na lama de Dublin, entre poetas e prostitutas, submerge no mais profundo misticismo jesuítico mas nada lhe permite construir as suas asas de cera. O seu mundo seria outro. Mas, para lá chegar, foi preciso viver. É desta vida multifacetada e mortificada que Joyce dá conta, numa obre genial em termos estéticos. Ao longo do livro evolui uma escrita ao alcance apenas dos mais geniais dos escritores. A beleza das palavras, a melodia da narração, bem respeitada por esta tradução, eleva bem alto o génio deste escritor que cuidava os seus textos como se preciosidades fossem. E eram! O estilo é profundo, voltado para o interior, para as profundezas da alma. Os diálogos, curtos e raros servem apenas para espelhar a alma de Dedalus, usando o monólogo interior de forma quase sistemática e inovadora para a época. Por toda a obra é manifesta a inquietude de Joyce perante os dilemas mais profundos da vida e a função do pensamento religioso. Uma terrível guerra interior, travada entre a moral católica e a atracção da realidade mundana perpassa a mente de Stephen de forma impiedosa e marcante. No final dá-se o triunfo da vida; o triunfo de um mundo sobre o qual as asas de Dédalus hão-de pairar para sempre.

terça-feira, 26 de Junho de 2007

O Estrangeiro - Albert Camus

Meursault é um homem normal; tão normal que, por isso, será condenado. Percorre a vida sentindo-a como ela é; enfrentando-a com honestidade, sem subterfúgios, sem alegrias fáceis nem dramas inventados. “Tanto me faz” é uma frase-lema de Meursault. A vida é o que é, nada vai ser alterado pela sua vontade. É esta a atitude de um homem normal. O mundo de Meursault não é feito de afectos; Salamano vive com um cão velho e lazarento que insulta metodicamente. Mas é o desaparecimento do cão que lhe desperta a emoção. Morreu a Meursault. Ele não chorou. A morte, afinal, é independente das vontades e dos afectos; tem vida própria e nada a poderá deter no cumprimento da sua obrigação para com os mortais. A mãe era mortal. Por isso não chorou e foi condenado. Raimundo realiza-se espancando as mulheres. Meursault mata o árabe quase com indiferença. A vida cumpria um traçado que ninguém, nem mesmo ele, poderia desviar. Não adiantava esconder a verdade nua e crua da realidade. Por isso não valia a pena esconder nada. Mas a verdade de Meursault ameaçava a sociedade! É que, afinal, há os outros! Aqueles para quem a vida não é aquilo que vemos e fazemos; aqueles para quem a vida é um jogo que se disputa entre adversários. E Meursault é um desses adversários: alguém que irá satisfazer a ânsia de dominação, o instinto de poder dos donos da justiça, essa construção humana destinada a legitimar as hierarquias. Meursault, o estrangeiro, descobrirá de forma dolorosa que o poder é de quem joga, não de quem vive. A justiça castigá-lo-á por não fingir. O fingimento, afinal, fazia parte do jogo. Meursault, afinal, devia ter chorado! Devia ter mostrado arrependimento! Devia ter fingido. Tinha sido esse o seu crime. Mas ele era um estrangeiro; um homem normal. Uma das maiores obras da grande literatura existencialista francesa, O Estrangeiro é um livro sobre a hipocrisia do ser humano que utiliza os sentimentos como forma de manipulação e de conquista do poder. É um grito de revolta contra uma sociedade que oprime aqueles que defendem a verdade até ao fim; de grande conteúdo filosófico, trata-se de um marco na literatura do século XX, sem deixar de ser uma história simples e acessível a qualquer leitor. Sem duvida, uma obra-prima da literatura universal.

segunda-feira, 25 de Junho de 2007

O Filho de Ester - Jean Sasson

O Filho de Ester é um livro contraditório: como testemunho histórico, é excelente. Como o romance cai no mais decepcionante esquema de novela passional, sem surpresas, sem grandes inovações e com um ritmo de escrita previsível. Mas esta obra vale sobretudo pela dimensão histórica, pela forma clara, embora nitidamente comprometida como envolve numa narrativa única as duas grandes catástrofes do século XX: a segunda guerra mundial, ou melhor, o Holocausto e o eterno conflito israelo-árabe. A acção decorre em várias “frentes”, correspondendo à história de três famílias. Assim, a acção desenrola-se em Paris, na comunidade judaica em França antes da 2ª Guerra Mundial, na comunidade judaica da Polónia, na Alemanha do pós guerra e, depois, percorrendo a segunda metade do século XX, na Palestina, em Israel e no Líbano. Ao logo de toda a obra, o rigor histórico não deixa de estar sempre presente. Mas o tom predominante do livro é um imenso melodrama que ilustra a barbárie nazi e as carnificinas que se desenrolam no médio oriente. A luta do povo palestiniano é encarada por Sasson de uma forma de justa resistência perante a ocupação israelita. Esta, por sua vez, é vista como uma consequência lógica da opressão de que os judeus foram vítimas ao longo da História e que culminaram com o Hocausto nazi. Trata-se, em suma, de uma obra bastante aconselhável a quem queira compreender melhor o conflito do médio oriente, escrita com bastante rigos, mas deixa muito a desejar em termos literários. Embora bem escrito e com um ritmo bastante aceitável, o enredo é sempre demasiado previsível.

sábado, 12 de Maio de 2007

Clube Dumas - Arturo Pérez-Reverte

A surpresa, o imprevisto, o suspense, dão a este livro um tom policial que está longe de limitar a obra a essa dimensão. Na verdade trata-se de um misto de romance histórico, policial e romance clássico, muito inovador e complexo. No entanto, esta complexidade não deixa nunca que a narrativa se perca em emaranhados embaraçosos para o leitor, como tantas vezes acontece em escritores que procuram a complexidade como forma de, por si só, guindar a obra aos patamares mais elevados do sucesso. Trata-se de um enredo genialmente rico, onde a narrativa é sempre surpreendente e inovadora. A personagem principal, Lucas Corso é, logo à partida, um verdadeiro desafio à imaginação do leitor: um mercenário dos livros, um homem que procura fortuna na literatura, não através da escrita mas do livro como mercadoria, ou melhor, como preciosidade. Desta ideia de livro como tesouro artístico, Reverte inicia a narrativa num contexto típico de romance histórico: a missão de Corso é encontrar um livro queimado no século XVII juntamente com o seu impressor. A partir daí o Autor encaminha o leitor por um magnífico passeio pelas teias tenebrosas do santo Ofício, pelos caminhos tortuosos do comércio clandestino de livros e pelo mundo encantador dos amantes dos livros, aqueles para quem a vida só tem sentido entre estantes poeirentas. Este livro é, no fundo, um verdadeiro hino à arte de amar os livros. É o livro quem comanda o homem e determina a sua vida e a sua morte. Pelo meio podemos, com algum esforço, encontrar algo de menos genial nesta obra: há uma certa tendência para o cliché, ou seja, para a previsibilidade da aventura. Reverte segue, por vezes, caminhos aparentemente fáceis para prender a atenção do leitor. Mas não podemos esquecer nunca que a literatura também é diversão; e a arte também pode ser divertida. É nesse sentido que nos apresentado um herói que vive para os livros sem qualquer traço de erudição: ele é mais um malandro do que um erudito. Este aspecto dá um carácter mais leve ao enredo e o leitor que procura divertir-se coma leitura, agradece. Como nota negativa refira-se os numerosos erros de revisão nesta edição da D. Quixote.

quarta-feira, 2 de Maio de 2007

A Herança do Vazio - Kiran Desai

Antes de tudo, este livro é um brilhante testemunho da História da India no século XX, nascida de um passado brilhante mas vítima da opressão e exploração europeia. A Indía foi sucessivamente delapidada por Impérios europeus: primeiro os portugueses, depois os franceses e holendeses, finalmente os Ingleses, os senhores da Civilização e da opressão. Mais uma vez, o tema tantas vezes debatido e sempre tão actual: o choque de culturas. A acção decorre na Índia pós-colonial onde ainda se debate a contradição entre o paradigma civilizacional inglês e a prevalência de uma cultura ancestral identificada com as raízes religiosas e mentais mas que, ao mesmo tempo, envolve um quadro socio-económico arcaico. A pobreza está por todo o lado, justificando um misto de ódio e admiração pelos ingleses: ódio por parte daqueles que lhe atribuem a causa de todas as desgraças, admiração por parte daqueles que se encontram revoltados perante o conservadorismo da sociedade tradicional indiana. Trata-se da relação colonizador/colonizado por detrás da luta entre a tradição e uma modernidade tão atractiva como decepcionante. Mas há algo mais que isso: o conflito entre a pobreza e a riqueza, o dilema entre a tradição e a modernidade, o pôr em causa dessa mesma modernidade; a dúvida entre o aceite e o imposto. Por outro lado, o conflito político; o dilema daqueles que serviram um senhor que se revelou opressor. E a América, sempre a América como pano de fundo de uma esperança apenas aparente. A revolta perante um mundo de desilusão; a vida destruída entre conflitos que se impõem de um exterior vasto e devorador: os ingleses mas também a fabulosa América que inebria e corrói. A liberdade conquistada e o choque brutal com um país onde a liberdade, frágil construção humana, deixa germinar outras guerras. As minorias. Os nepaleses e o desejo de libertação. A violência no reino da tradição. Este é um livro sobre a solidão. Sobre almas que pendem sob os Himalaias, dependuradas num destino fabricado noutras paragens, por outras gentes. A civilização, admirada nos odiados ingleses avassala este mundo de personagens humildes e pobres. Sim, porque aqui, nesta Índia à procura de identidade, nem os ricos são ricos: todos sofrem, mesmo que de solidão. Fica a escrita brilhante tirada das profundezas da alma. Uma escrita sentida, cuidada e pessoal que elevam esta obra às fronteiras do obra-prima.

terça-feira, 1 de Maio de 2007

O Perfume - Patrick Suskind

Livro polémico, alvo de ódios e paixões, “O perfume” é, a meu ver, uma obra-prima. O herói, ou melhor, o anti-herói, Jean-Baptiste Grenouille, vive em função do olfacto. O enredo decorre entre os anos de 1738 e 1767, respectivamente anos de nascimento e morte do herói-vilão que protagoniza a obra. Assim, a obra situa-se nos tempos conturbados da Revolução Francesa, em que a realidade social do Antigo Regime é brutalmente destruída, em nome da modernidade. É nesse ambiente de violência mas também de fervor que Grenouille caminha na sua cruzada contra o desprezo, contra um destino que o condenava por, simplesmente, ter nascido no meio do peixe podre. Toda a sua vida gira em torno desse sentido tão desprezado quanto misterioso. Detentor de um dom ou maldição, o cheiro é o seu guia. Sobressai nesta obra carácter infra-humano de Grenouille num tom de hipérbole por vezes exagerada, como se a fronteira entre o homem e o monstro fosse tão ténue que se tornasse irreconhecível. Ele é, assim descrito, uma figura surrealista, a fazer lembrar um quadro de Dali: distorcido pelo seu tempo mas, principalmente, pelo seu carácter. A sua sensibilidade odorífica contrasta, porém, com a ausência de odor próprio, por oposição a uma cidade que parece viver em função do olfacto: a podridão e a miséria das ruas, em contraste com o perfume da burguesia. Assim colocado entre os dois extremos, Grenouille é o anti-herói num mundo crivado de ódio. Inebriado pelo perfume feminino divaga entre a paixão e a violência, entre o amor e a morte. A ausência de odor leva-o a procurá-lo incessantemente. A procura do odor é a procura da sua própria identidade. Um livro violento e triste, que se lê com paixão mas também com revolta, perante uma cidade-luz descrita como a cidade do fedor e perante um personagem abjecto mas terrivelmente humano: porque Grenoille procura apenas a paz de espírito. A sua paz.

segunda-feira, 4 de Setembro de 2006

O Lobo das Estepes - Hermann Hess

Profundamente auto-biográfica, esta obra revela todo o pensamento tortuosamente poético de Hesse. Numa síntese perfeita do seu misticismo oriental e da sua dimensão poética, Hesse constrói uma narrativa angustiada mas sentida, poética mas real, complexa mas terrivelmente bela. Harry Haller é o rosto da tristeza, o Lobo das Estepes, melancólico, perdido na vida, na busca permanente de um sentido que o faça compreender a existência. Sem destino definido, sem explicações a dar a si mesmo para a impossibilidade de compreender o mundo, Harry é um ser errante, dilacerado pela dúvida, pela desesperada necessidade de compreensão da alma e da busca da sua libertação. Recusa o mundo sem forças nem coragem para dele se demarcar. Anti-burguês, tortura-se porque não consegue demarcar-se de uma vivência burguesa, como que encarcerado no ambiente que o rodeia. No meio da tortura da vida, vai descobrindo que a dualidade do seu ser: o lobo que de vez em quando se torna burguês ou o ser emotivo que por vezes assume a racionalidade; o lobo ou o homem. Mas a sua angústia não se resolve com a constatação destes antagonismos; a pouco e pouco, no entanto, vai descobrindo que o ser humano não é duo mas múltiplo: ele não é a soma de dois “eus”, duas forças mais ou menos antagónicas que o ser humano por vezes parece ser. A sua personalidade é um campo de batalha entre muitas forças que por vezes se complementam outras se digladiam. Mas na maior parte das vezes estas faces do caleidoscópio revelam-se incompatíveis, causando angústia e desespero. Só enfrentando esta multiplicidade e assumindo estas múltiplas dimensões, o ser humano pode encontrar a felicidade. Tornar-se-á louco aos olhos do mundo; no entanto, feliz! A necessidade de auto-conhecimento, de compreensão profunda do ser e do sentido da vida avassala Harry até ao dia em que, no limiar da salutar e redentora loucura, descobre a verdadeira raiz da felicidade: o humor. Compreende o que consegues compreender e ri-te de tudo o resto, poderia ser uma espécie de lição a retirar deste livro. Daí a referência recorrente a Mozart: o exemplo da loucura saudável, do génio que ri daquilo que não compreende. Esta descoberta faz com que o final da obra seja surpreendente. A angústia, o medo, o desespero dão lugar ao hilariante mundo da loucura, das mil e uma faces da alma.

domingo, 3 de Setembro de 2006

A Noite do Oráculo - Paul Auster

“A Noite do Oráculo” é, antes de mais, um extraordinário e genial exercício literário de Auster. Ele exprime com eloquência todo o génio deste escritor, um dos mais brilhantes da actualidade. Trata-se de um romance complexo mas de leitura muito agradável sobre a maior quimera da existência humana: a descoberta do sentido da vida. Histórias dentro de histórias, “A Noite do Oráculo” é uma obra literária que se insere no enredo de uma outra, sobre a vida de Nick, escritor, que por sua vez é uma criação Sydney Orr, o protagonista de Auster. Em primeira instância, trata-se de uma reflexão sobre o poder da literatura e sobre a interacção entre o escritor e o livro. As histórias, à medida que vão sendo criadas interpenetram-se e influenciam-se, confundindo o real e misturando-o com a ficção que verte da imaginação do escritor. As personagens vão sendo assim condicionadas pelos três planos em que a acção se desenrola, como se fossem três mundos diferentes mas que dependem uns dos outros. Assim, o tempo e lógica causa-consequência tornam-se relativos, perante a multiplicidade de tempos e de dimensões que Auster nos oferece. Na vida de Nick os acontecimentos inesperados sucedem-se, deixando sempre uma misteriosa ligação com o enredo do livro que vai escrevendo. Na sua mente a ficção parece determinar a realidade e não apenas o inverso, misturando assim de forma dramática a verdade e a imaginação. Por outro lado, esses acontecimentos surgem por acaso. Na obra de Auster parece ser determinante esta preocupação com o acaso. Como no filme “Magnólia” o autor parece querer dizer que os acasos, os acontecimentos aparentemente fortuitos são aqueles que, de facto, determinam o sentido da nossa vida. Mas trata-se também de uma obra sobre os sentimentos humanos: perdido no mundo imaginado do seu livro, Nick depara com o maior drama da sua vida: o amor duplo da sua esposa: por ele mas também pelo seu melhor amigo. O maior desafio de Nick é agora o perdão. A questão surge, dramática e real: até onde pode um ser humano perdoar?

sábado, 2 de Setembro de 2006

O Amor nos Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez

Logo nas primeiras páginas revela-se a genial fantasia da literatura sul-americana: o doutor Juvenal Urbino descobriu que os sintomas do amor são idênticos aos da cólera asiática. Trata-se de uma obra bem ao jeito de Marquez: o humor e a leveza da escrita misturam-se de uma forma genial com um curioso desdém pela própria América Latina; as guerras civis que se sucedem, a miséria crónica das populações desprezadas por políticos corruptos, a destruição das florestas, vítimas de interesses económicos capitalistas. Por todo o lado reina a corrupção, os interesses egoístas, o desprezo pelos outros e a inveja. E, no meio de tudo isto, uma belíssima história de amor. Durante 51 anos, 9 meses e 4 dias, Florentino Ariza amou Fermina Danza à distância, sem qualquer contacto entre os dois. Um amor que só declarou no dia em que Femina enviuvou, aos 72 anos. Na sua juventude, Florentino comia pétalas de rosa e bebia frascos de água de colónia para se sentir perto de Fermina. Tocava violino para ela escolhendo o lugar da serenata conforme o rumo do vento para que ela o escutasse. Depois escrevia manifestos de embarque em rima, de tal maneira que até os documentos oficiais pareciam cartas de amor. Durante toda a vida entreteve a paixão com episódios de amor carnal, enganando a alma com a carne. Durante mais de cinquenta anos manteve aquela força vital que só um amor profundo pode dar ao ser humano, resistindo ao tempo mas também a um sofrimento atroz. O amor puro e insatisfeito de Florentino contrasta com as imposições da carne, expondo de forma sublime essa dualidade entre a carne e o sentimento que preenche de forma avassaladora a vida humana. O final do romance é, pela surpresa e sentido de humor um dos mais geniais da literatura contemporânea.

terça-feira, 18 de Julho de 2006

Os Irmãos Karamazov - Fiodor Dostoievsky

“Os irmãos Karamazov” é talvez a grande obra-prima do escritor russo. Para além de um enredo riquíssimo, esta obra revela a grande capacidade de análise psicológica dos personagens, que é característica essencial de Dostoievsky. Esta edição divide-se em 2 volumes. O primeiro, mais reflexivo, o segundo mais narrativo. Destaca-se a análise social e política da Rússia do seu tempo. Aliocha é a personagem principal do romance. No entanto, o próprio autor revela que este homem nada tem de herói, no sentido convencional do termo. Passa quase despercebido durante grande parte do enredo mas há uma chave para compreender a razão que levou Dostoievsky a colocá-lo como “herói”. É o único personagem que não julga ninguém. Aliocha “nunca desejaria julgar os homens e em caso algum seria capaz de os condenar.” É esta uma das grandes lições do mestre russo: a maioria dos homens cede sempre à tentação de julgar. Aliocha, pelo contrário, ouve, compreende e nunca faz juízos de valor sobre os outros. É assim uma espécie de guardião da sensatez perante as loucuras e paixões dos Karamazov. Um dos temas mais queridos a Dostoievsky é o papel da religião. Sendo um homem de fé, não deixa de criticar determinadas práticas da religião ortodoxa instituída. Defende uma religião essencialmente voltada para os mais desprotegidos, encarnada em Aliocha mas também no ancião Zossima. Uma visão social mas positiva da religião. É o próprio ancião que diz: “os homens foram criados para a felicidade, rejeitando assim as visões apocalípticas e a necessidade de sacrifícios para atingir o céu. O padre Ferapont, rival de Zossima, por exemplo, “vê maravilhas” graças ao intenso jejum a que se sujeita. Torna-se assim um mártir mas também um ser completamente desligado do mundo e absolutamente inútil. Um dos pontos mais fortes da obra de Dostoievsky é análise da alma russa, aqui representada pela família Karamazov. Estes, se caem no abismo “vão sempre de cabeça para baixo”. Sentem prazer na angústia, na tristeza. O homem é um mártir do destino. A vida é essencialmente sacrifício e dor. Mas é também sensualidade, vivida com excesso, com as fortes paixões da alma russa. Assim é Dmitri, que usa os outros como plataforma para a felicidade, à procura do excesso. Mas o seu espírito contraditório leva-o da sensualidade extrema à angústia: procura o prazer mas tem consciência das suas baixezas e vive-as como se fossem uma fatalidade. Mau grado o seu apurado espírito crítico, Dostoievsky nunca perde aquela enorme benevolência perante o ser humano, descobrindo sempre um fundo positivo, mesmo que se trate do detestável Fiodor ou do irascível Dmitri. Quanto à análise social, desenvolve uma perspectiva de simpatia para com os pobres realçando a sua honra e dignidade. Vítimas de injustiças e abusos, numa Rússia recém saída da servidão, os pobres são o refugo de uma estrutura económica e social caduca, onde prevalecem muitos dos privilégios do antigo regime. Mas o alvo preferido do escritor é a velha burguesia avarenta, representada por Fiodor. O pequeno Iliucha é aqui o símbolo da opressão feudal que ainda se sente na Rússia de Dostoievsky. Outra dimensão do pensamento de Dostoievsky tem a ver com a religião. Ivan, o ateu, diz: “é extraordinário que essa ideia da necessidade de Deus tenha surgido no espírito de um animal tão selvagem e perverso como é o homem. Dostoievsky não comunga do ateísmo de Ivan, mas compartilha com ele uma visão muito negativa da alma humana. Ao longo da obra coloca-se uma ênfase muito especial no sofrimento atroz de que são vítimas as crianças. E no meio de tanta dor, onde fica Deus? O ancião Zossima é o porta-voz de um pensamento religioso que Dostoievsky parece partilhar: Zossima revela uma visão optimista do mundo, um amor à humanidade que Dostoievsky parece partilhar. No entanto, essa benevolência é acompanhada de uma certa mágoa pelo destino, sempre negativo, sofredor, do ser humano. E o processo de Dmitri revela precisamente essa necessidade de expiação que envolve o ser humano. Perante a fraqueza da alma humana, a vida é uma constante expiação dos pecados e fraquezas. Daí a fatalidade do sofrimento humano. No meio de tudo isto, Aliocha aparece como o representante do ser virtuoso que, com resignação e um sorriso, enfrento o destino com benevolência. Daí o seu carácter solidário e bom. Dostoievsky compreendeu melhor do que ninguém a alma russa. Sofredora pelas condições materiais da existência mas facilmente entregue aos prazeres do mundo. Mas, ao mesmo tempo, sofredora pelo peso do remorso, pela necessidade de expiar essa mesma tendência para a devassidão. Desta forma é o próprio Dostoievsky que se confunde com a alma russa. Até o velho Fiodor, cúmulo da vida boémia, é perseguido pela consciência. Até Zossima, homem de paz, vive a expiar os pecados da juventude. A culpa está sempre presente. No fundo, todos os personagens da obra são uma mistura do bem e do mal, revelando ora uma ora outra destas facetas. Lisa é assumidamente má. O protótipo da maldade. Mas no fundo todos são maus. Catarina, que ama desesperadamente Dmitri é a mais importante testemunha de acusação e é ela quem mais contribui para a sua condenação. Mesmo insistindo na sua inocência, Dmitri aceita o castigo por necessidade de expiação.

segunda-feira, 3 de Julho de 2006

Os Jardins da Luz - Amin Maalouf

No vale do Tigre, no reino dos Partos, no terceiro século depois de Cristo, vive Pattig, pai de Mani. Desprezando tudo e todos, incluindo a mulher o o filho recém-nascido, renuncia a tudo para se juntar a um grupo de eremitas, em nome de um Deus que não conhece, apenas vislumbra por intermédio de Sittai, o líder. Trata-se de uma obscura seita masculina que encara a religião como o afastamento total em relação ao mundo. Este afastamento é, no entanto, a origem e explicação da intolerância. Nesta comunidade o feminino é encarado como a origem do mal. Os bens materiais, pelo contrário, abundam: a comunidade possui os melhores campos de cultivo e acumula riqueza com o comércio dos frutos da terra. Ao mesmo tempo, o líder impõe um modo de vida regrado, onde se cultiva a frugalidade e mesmo o jejum. É a esta “religião” que Mani é “convertido” aos três anos, afastando-se da mãe. A crença libertadora aprisiona assim o ser humano. Retira-o do mundo para o enclausurar nos limites estritos da crença. O absurdo revela-se: onde está a libertação? Patting e Mani já não são escravos do mundo mas são escravizados por esse Deus que ninguém conhece. Nessa comunidade, Mani cresce rejeitado por todos, mesmo os que o “libertaram”. Aí vai preparando a sua verdadeira libertação. O seu primeiro seguidor é Malcos, um glutão com devaneios mundanos que só Mani compreende. Malcos é o pecador, aquele que recusa a “libertação”. As primeiras manifestações proféticas de Mani são-lhe sugeridas pelo seu “anjo”, cujas aparições marcam o início da sua saga. O ser sobrenatural, no entanto, mais não é que o “gémeo” de Mani, o seu outro “eu”, subjugado que tenta libertar-se. No reino dos eremitas, na comunidade dos “fatos-brancos”, Mani sobrevive graças à sua astúcia, à sua capacidade de viver um mundo interior que, esse sim, o liberta do mundo real. Na comunidade, os livros são quase proibidos, fonte de pecados e perigos para a religião instituída. Mani, pelo contrário, diverte-se com eles e pinta-os – suprema heresia! A religião de Mani começa a revelar-se a religião da alegria. Desafia os seus superiores e no dia da sua fuga usa, escandalosamente, roupas coloridas! A partir daí, Mani começa a divulgar aos desprotegidos a sua verdade. As suas ideias constituiriam aquilo a que hoje chamamos “maniqueísmo”: a doutrina da luz que triunfa sobre as trevas; do bem que em cada homem subjugará o mal. Luz e trevas, bem e mal residem no interior de cada homem. Cabe a cada um conduzir essa luta rumo ao triunfo da Luz. Mani prega, com escândalo, o fim das castas e a união de todas as religiões, de todos os homens. Mas essa viria a ser a razão da sua condenação: porque os homens não querem que lhes digam que a sua religião é verdadeira; preferem que lhes mostrem que as outras crenças estão erradas. Mani, o profeta médico que assim faz milagres humanos; o profeta pintor que pregou a beleza não defende um Deus todo-poderoso mas um Deus bom, que recusa a guerra e o poder. Mani, o homem que tentou conciliar os homens e por isso foi condenado. Por defender uma religião baseada na alegria, na cor, na musica, na arte, no saber, nos perfumes… na luz! Quando os Sassânidas e os romanos se decidem pela paz e não pela guerra, a corte do rei Sapor ficou indignada. Porque a guerra implica triunfo, glória e, principalmente tributos e saques. Sem guerra não há riqueza nem poder. Mani defendia a paz. Era preciso detê-lo.

sexta-feira, 6 de Janeiro de 2006

As Intermitências da Morte - José Saramago

No contexto da obra de José Saramago, trata-se de um livro diferente. É um texto belíssimo, num estilo inconfundível, cheio de imaginação e humor. É brilhante a forma como, logo de início, o leitor é levado, com naturalidade, para o domínio do inverosímil, da fantasia pura. A morte é encarada como uma força viva e quase física. Desta ideia, Saramago parte um discurso cheio de peripécias fantasiosas mas sempre sem perderb a ligação com o real, com a vida. “As intermitências da morte” é, em parte, uma fábula – a morte assume características humanas, como uma entidade autónoma embora com todos os poderes que a confundem com um deus. Tudo começa quando a morte decide fazer greve e os cidadãos deixam de morrer. Neste ponto é genial a forma como Saramago põe em confronto a alegria do povo com as preocupações do governo. Só desta forma se reconhece a importância da morte e a sua função prática. Sem a morte a vida do país torna-se um caos; a Igreja, que controla o poder político e determina as ideologias dominantes, desespera. Porque sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há religião. Levadas as coisas às últimas consequências, sem a morte a religião perderia todo o seu poder, porque sem a morte não há medo. É essencial para o poder político e para a Igreja que o medo perdure. Mas a ausência da morte cria também problemas politico-sociais: “o que vamos fazer com os velhos”? – uma questão actual e polémica que Saramago introduz com mestria e a-propósito. Outra ideia interessante neste livro é a impensável lista de prejudicados com a greve da morte: agencias funerárias, hospitais, companhias de seguros, médicos, advogados, jornalistas, etc etc. Até os filósofos dependiam da morte; sem ela toda a especulação se torna impossível porque sem a morte não se pode procurar o sentido da vida. O povo, aos poucos vai sentindo o lado negro da greve da morte; afinal, multiplicam-se os problemas quando os entes queridos, mesmo em sofrimento, não morrem. Torna-se impossível suportar os moribundos. Os políticos e as máfias – numa amálgama inteligentemente criada por Saramago – definem estratégias concertadas para evitar escândalos, procurando manter “o rumo natural” das coisas, de forma discreta e politicamente correcta, perante a “moda” que entretanto se instalara: a de levar os moribundos a morrer do outro lado da fronteira. É uma incursão discreta de Saramago pelo tema da eutanásia. Aqui, fica bem clara uma crítica severa à forma como as estruturas políticas encaram os idosos – o matematismo mercantilista da Segurança Social, tema tão controverso como actual. Ao longo de todo o livro, um traço curioso é o discreto e inteligente sentido de humor com que Saramago aborda estes temas tão dramáticos. A parte final do livro é genial e surpreendente. A morte assume um rosto humano, feminino e irresistível. Mas só a música é capaz de a vencer. A música e o amor.

quinta-feira, 1 de Dezembro de 2005

D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto - António Lobo Antunes

Ao permitir a publicação destas cartas, Lobo Antunes abre-nos, descaradamente, a porta à sua privacidade. Muitas vezes, ao longo do livro, o leitor sente-se um intruso na intimidade do autor. É impressionante a forma como o grande escritor exprime de forma honesta e comovente os seus sentimentos mais íntimos, uma intensa vida interior que só a solidão proporciona. O amor e a saudade são os temas gerais das cartas. O subtítulo do livro (“Cartas da guerra”) é, de certa forma, enganador. A guerra é sentida como um monstro estúpido e absurdo, do qual se evita falar. Por dois motivos: porque era vedado ao soldado transmitir informações relevantes e porque, para Lobo Antunes, falar da guerra era algo doloroso. É como se as cartas funcionassem como uma forma de escapar ao monstro e não para dar notícia dele. São desabafos íntimos e, acima de tudo, uma imensa manifestação de amor. Um dos aspectos mais surpreendentes das cartas é a manifestação dos gostos literários do autor. Surpreendente a forma como revela um certo criticismo em relação a escritores muito conceituados, como se o auto-conceito de Lobo Antunes como escritor superasse todas as estrelas da literatura universal. Mas não; trata-se apenas de momentos de euforia que, em breve, são substituídos por fases de depressão em que se considera o mais fracassado dos escritores. Ao longo das cartas, vai-nos dando conta, a par e passo, da escrita da sua primeira grande obra: ”Memória de Elefante”. Aqui reside um dos maiores motivos de interesse destas cartas: o relato do sofrimento do escritor, dos seus momentos de euforia e de crises de inspiração. Interessante também a forma como se esforça por recusar influências, se bem que nunca esconda a sua admiração por escritores como Faulkner, Céline ou Garcia Marquez. Intimamente, Lobo Antunes vagueia entre uma modéstia exagerada, deprimida, e um convencimento entusiasmado. Talvez essas oscilações sejam o reflexo do momento depressivo que vivia. Mas são também, sem dúvida, traços característicos da genialidade do grande escritor; um escritor que sonhou com o Nobel e que, cada vez mais, o merece. Mas para lá da genialidade do escritor, da sinceridade das suas confissões, da bravura do soldado/médico, sobressai a grandeza do homem: um homem bom, delicado, sensível, altruísta, generoso – um homem comoventemente bom.

domingo, 20 de Novembro de 2005

A Curva do Rio - Vidiadhar Naipaul

Trata-se de uma das mais lúcidas leituras do processo de descolonização africana. Algures num país da África Central, emerge um regime ditatorial, na sequência do caos provocado pela descolonização. Um líder apodado de “Grande Chefe”, defendendo ideias pseudo-marxistas, assume-se como o garante da felicidade africana mas mais não consegue do que colocar o país em estado de guerra permanente, conduzindo à desgraça e à pobreza extrema. O Grande Chefe, sem nome, faz lembrar o senhor do Castelo de Kafka – a distância garante o respeito e o medo. Os retratos do Chefe, espalhados por todo o lado, realçam o mito. Salim, um indiano, procurava a fortuna em África. Mas é aprisionado na teia de dos conflitos que emergem. A vida dos emigrantes asiáticos é esmagada pelo conflito. Emerge um choque cultural tripartido: africano, europeu e asiático. A cultura e os costumes europeus, mau grado a descolonização, permanecem como modelos que, consciente ou inconscientemente conduzem os africanos. “A África, retornando aos seus velhos hábitos com meios modernos, seria um continente difícil durante algum tempo”. Ao mesmo tempo, a pobreza e a ignorância são campos férteis para a emergência de um regime autocrático e violento. Surge a guerra civil. No meio de tudo isto, o ser individual perde-se. A vida de Salim é um processo constante e desesperado de procura da identidade perdida. O ser individual devastado em nome de “ideais”. Só no interior de si encontra algo de concreto: quando se apaixona por Yvette, Salim vê o seu mundo reduzir-se; “e quanto mais reduzido se tornava o seu mundo, mais obsessivamente eu vivia nele”.

sábado, 19 de Novembro de 2005

Goa ou o Guardião da Aurora - Richard Zimler

O enredo passa-se na colónia portuguesa de Goa, em finais do século XVI. Nessa época, reinad0o de D. João III, o Império Português iniciava o seu período de declínio. Necessitando de recuperar a solidez ameaçada, o Império procurava suster os elementos de desagregação, nomeadamente a divisão religiosa. Neste livro entrecruzam-se três religiões: o catolicismo português, o Hinduísmo e o Islamismo. A Inquisição fazia enormes progressos na sua missão de impedir todos os «bruxos» - quer fossem nativos hindus, quer imigrantes judeus - de praticarem as suas crenças tradicionais. Zimler, estudioso das religiões, faz derivar todo o enredo deste choque multi-cultural e religioso. Os que se recusavam a denunciar outros ou a renunciar à sua fé eram estrangulados por carrascos ou queimados em autos-de-fé. Goa ou O Guardiã da Aurora faz reviver de forma brilhante esses tempos de terror. Ao viver nos limites do território colonial, a família Zarco consegue manter firmes as suas raízes luso-judaicas. Tiago e a irmã, Sofia, gozam uma infância pacífica aprendendo com o pai a ilustrar manuscritos e mergulhando no caos inebriante das festividades hindus celebradas pela sua amada cozinheira, Nupi. Quando as crianças atingem idade adulta, a família é destroçada quando, primeiro o pai e depois o filho, são presos pela Inquisição. Mas quem poderia tê-los traído? O rigor histórico é notável. Simultaneamente, trata-se de um policial histórico magnífico, atingindo situações de suspense que prendem o leitor, mau grado o volume da obra. A incerteza mantém-se até ao final. No entanto, fica a sensação de um desenlace profundamente marcado pelo mal e pela tragédia, fazendo lembrar algumas obras de Shakespeare. Na linha dos seus romances históricos anteriores - O Último Cabalista de Lisboa e Meia-Noite ou O Princípio do Mundo, traduzidos em vários países com grande sucesso tanto comercial como da crítica, dá-nos um livro imaginativo, estimulante e profundamente sensível.

sexta-feira, 18 de Novembro de 2005

O Processo - Franz Kafka

De todas as obras de Kafka esta é aquela em que mais nitidamente o autor consegue aliar o obscuro ao real. Caricatura do real? Talvez. Mas mais do que isso, é uma história que leva ao extremo a angustia de um homem perdido num mundo aparentemente irreal em que está inserido. A existência de Joseph K. transforma-se numa procura desesperada de conhecimento e compreensão da vida que alguém lhe destinou. Angustiante. Deprimente. Real. Em O Processo estamos perante uma das mais comuns e significativas razões da angustia humana: a necessidade de conhecer e compreender; o desespero provocado pela ignorância, quando esta coabita com a necessidade do conhecimento. Mas este é apenas o ponto de partida! O Processo retrata o desajuste entre o ser humano, entendido na sua dimensão individual, e um Estado totalitário, impessoal, que paira num universo desconhecido, longínquo… Franz Kafka é o escritor do “absurdo”, como o tinha sido Dostoievsky, como seria Camus. Mas o absurdo de Kafka, ao contrário do filósofo francês, é um absurdo transcendental; reside na incomunicabilidade do homem com o homem, formando uma trama de relações pessoais sem sentido, impostas por circunstâncias alheias ao homem. Joseph K. não consegue chegar até à justiça, que, lentamente, se transforma numa entidade misteriosa e quase irreal. Joseph não compreende a justiça. Nem os homens, nem Deus. O absurdo está na ausência de compreensão mas ela deriva da ausência de comunicação. Daí o desespero, a solidão e o absurdo que cobre o mundo dos homens. A culpa de Joseph é a sua existência; única resposta possível para a angustia do desconhecimento da acusação. É o culminar de uma espiral de desespero que revela uma visão dolorida da alma humana e, acima de tudo, da sociedade humana.

terça-feira, 17 de Maio de 2005

Ao Encontro de Espinosa - António Damásio

“Os sentimentos de dor ou prazer são os alicerces da mente” – é com esta frase eloquente que Damásio inicia uma obra marcada pela coragem e pelo rigor científico. Trata-se de um português infeliz e injustamente pouco reconhecido em Portugal, mesmo sendo um dos melhores neurocientistas mundiais. Os sentimentos, como a tristeza, a alegria ou o medo são características fundamentais do ser humano. A sua importância na vida sempre foi reconhecida mas nunca se colocou a hipótese de uma análise neurobiológica que permitisse avaliar a sua importância nas construções mentais. Nesta obra Damásio demonstra algo que já tinha ocorrido a Espinosa mas que só a ciência actual pode comprovar: a origem neurobiológica dos sentimentos e emoções (o cérebro é essencial para o seu desencadear) e o seu contributo decisivo para todos os comportamentos relevantes nas maiores criações do espírito humano. Trata-se de uma obra que alia de forma admirável o humanismo à ciência, a partir da ideia de que mente e corpo são inseparáveis. Os sentimentos são, antes de mais, estados particulares do corpo. São percepções que se apoiam essencialmente em mapas cerebrais do estado do corpo. Se fosse possível remover esse contributo deixaria de ser possível exprimir qualquer sentimento. Todo o processo tem início num estimulo externo competente (ligado a um estado de corpo) que promove a execução de um programa pré-existente de emoção. A partir daí são elaborados mapas neurais que desencadeiam um estado mental (alegria, tristeza, etc.) Assim, o sentimento envolve um estado de espírito mas também um “estado de corpo”. Exemplo dessa componente é o efeito do bloqueio de uma substância – a ocintocina – que impede a ligação afectiva. Quais são então as fontes do sentimento? Para que este se verifique são necessárias 4 condições ao nível somatossensitivo: a existência de um sistema nervoso, a criação de padrões mentais (imagens), a consciência (também ela entendida como resultado de um processo neurobiológico) e um cérebro capaz de criar estados corporais. Tradicionalmente, os sentimentos são apontados como um dos traços distintivos mais importantes do ser humano. Damásio confirma esta ideia mas desmistifica-a: nenhuma inteligência artificial seria capaz de “fabricar” sentimentos, apenas porque eles têm origem na organização do cérebro, a um nível muito profundo e complexo. Damásio analisa também o efeito dos sentimentos em vários níveis da vida humana, como o comportamento social, no raciocínio, no pensamento religioso, etc. A construção de todas as estruturas culturais depende de todas as características neurobiológicas que constituem o conhecimento do si. Dentro dessas características neurobiológicas incluem-se os sentimentos e as emoções. Essa construção do si, ou do connatus (expressão de Espinosa) constituem a matéria-prima para a construção de liberdade e da felicidade. Enfim, uma obra inovadora, atraente, magnífica. Única.

segunda-feira, 16 de Maio de 2005

Viagem ao Fim da Noite - Louis Céline

França, durante a 1ª Guerra Mundial. Ferdinand Bardamu é um jovem francês que gasta uma vida toda entre a carnificina das trincheiras, o inferno das colónias, a solidão de Nova Iorque e, finalmente, a paz pobre de uma França saída da Guerra. Uma França triste e miserável. Por todos estes destinos errantes estendeu-se uma vida feita de miséria, infortúnio e a pior das desgraças, uma solidão involuntária, uma condenação perpétua ditada por uma personalidade abatida, esmagada. Mau soldado, colono frustrado, médico fracassado, Bardamu percorre a vida entre a desgraça universal, impotente e miserável. Ainda, e sempre, a dualidade solidão-loucura Por toda a obra perpassa a revolta pelas condições riais da existência de Ferdinand e da maior parte das personagens. Aqueles que escapam à miséria, os ricos, são vistos como abutres, personagens principais de um mundo repleto de injustiça. Trata-se, portanto, de uma visão profundamente pessimista do mundo e de uma humanidade enterrada na guerra, no colonialismo absurdo e desumano. Este pessimismo torna-se mais evidente na descrição de uma sociedade injusta e cruel. Mas todo este contexto, toda esta vida de sofrimento, não faz de Ferdinand um herói nem um mártir. As desgraças da vida fazem dele um ser frio, cruel e egoísta. A miséria degenera a alma e endurece o coração. A luta pela sobrevivência transforma a sua vida numa luta cruel e permanente contra tudo e todos. Aí reside um dos valores mais altos desta obra: a análise psicológica das consequências da miséria, lembrando Dostoiévski. Talvez ainda mais negro do que a miséria material é o vazio de sentimentos revelado pela maioria das personagens de Céline. Amor? Amizade? Solidariedade? Tudo palavras vãs, insignificantes, mesmo ausentes. Espíritos desprovidos de carácter e de sentimentos, almas vazias em corpos mirrados pela noite cerrada que é a vida. Uma das visões da humanidade mais negra, pessimista e real que alguma vez se escreveu. Brilhante.

domingo, 15 de Maio de 2005

Portugal Hoje - O Medo de Existir - José Gil

Trata-se de uma visão algo pessimista do ser português, uma análise da alma portuguesa que privilegia os seus traços mais negativos. É portanto, uma visão extremamente crítica. Para Gil, o povo português é, por natureza, avesso àquilo a que chama “inscrição”, ou seja, afasta-se voluntariamente daquela perspectiva crítica e interventiva que seria essencial para a plena democracia. Atribui grande parte dessa tendência ao período salazarista que, na sua perspectiva, marcou os portugueses de forma indelével, retirando-lhes o sentido de participação democrática. Fica a sensação de um certo reducionismo. É pouco crível que, por um lado, as marcas do fascismo tenham perdurado de forma tão marcante até aos nossos dias e, por outro lado, que este fenómeno seja especificamente português. É comum ouvirmos e lermos observações deste tipo noutros países ditos civilizados. Como explicar, por exemplo, as elevadas taxas de abstenção eleitoral em países que nunca viveram em ditaduras? Um outro traço característico que aponta ao “ser” português é o pensamento “pequeno”. Os portugueses gostam de tudo o que é pequeno, recusando-se a abraçar planos a longo prazo. Falta ambição e auto-estima para que o talento e o trabalho resultem em progresso. Mais uma vez, fica a pergunta: será isto assim tão típico e exclusivo do povo português? No entanto, neste aspecto, não é difícil dar razão a José Gil. Uma outra característica da alma lusa será a inveja. O português não quer ser melhor que o outro: quer que o outro lhe seja inferior. Por isso, não valoriza as suas potencialidades, preferindo desvalorizas as dos outros. Mas não será essa uma tendência natural do ser humano? Estas características essenciais do carácter português estão a contribuir, na perspectiva do autor, para a perda de uma oportunidade única para afirmar o nosso país no contexto europeu. No entanto, é caso para perguntar: quantas oportunidades “únicas” já perdemos ao longo da História de Portugal? No meio de tudo isto, Gil é bastante crítico em ralação ao papel da Comunicação social e das estruturas políticas. Os meios de comunicação social alimentam a preguiça mental e os políticos cultivam o imobilismo. Parece-me que esta obra cai em três equívocos fundamentais: - Exagero no papel negativo do regime fascista. Não duvido dos seus efeitos negativos. No entanto, há problemas de fundo que ultrapassam em importância a responsabilidade de Salazar. - Falta de uma perspectiva histórica mais profunda: o ancestral saudosismo, o velho pessimismo saudosista, a tendência para o lucro fácil herdada dos descobrimentos e do ouro brasileiro são fenómenos históricos que marcaram indelevelmente a alma portuguesa e que Gil esquece. - Falta de profundidade. Fica a ideia de uma obra escrita para o grande público, também ela voltada para aquele objectivo que Gil tanto critica: o sucesso fácil. Sobre este tema seria certamente muito mais proveitosa a leitura de O Labirinto da Saudade: Psicanálise Mítica do Destino Português, do grande Eduardo Lourenço (1978).

sábado, 14 de Maio de 2005

Bichos - Miguel Torga

Escrito em 1940, Bichos é um clássico da literatura portuguesa. Livro simples, transparente, honesto e sentido. Um grito amargo e profundo da terra que encerra os homens. Uma fusão total entre a terra e o ser humano, como se tudo emergisse de uma amálgama onde terra, bichos e homem fossem a pasta de onde nasceu a ordenação universal das coisas e dos seres. A rudeza das torgas, a aspereza das montanhas, a magreza das terras e a solidão do tempo, misturam-se num universo, cantado em poesia por um mestre que foi apenas um homem. Um homem que viveu e lutou contra um mundo ainda mais agreste, ainda mais hostil: o mundo da ditadura. Bichos é, também, o retrato fiel do viver transmontano; uma vida de suor e lágrimas, por entre escolhos e lobos, mas sempre repleta daquela alegria que só o sofrimento pode justificar: a alegria de ser, de viver em comunhão total coma natureza, em fusão permanente com os elementos. Miguel Torga fez desta obra um testemunho impar da união natural entre os Homens e os Bichos – a simbiose da vida. No meio dos dois, a terra, o traço que lhes dá vida. No trabalho, nas paixões e nas dores, os bichos compartilham com os homens as esperanças e as desgraças. Curiosa a palavra: “bichos” e não “animais”. Bichos são, talvez, os animais humanizados, irmanados com o homem na mesma luta; na vida. A linguagem, simples mas cuidada é uma das mais belas expressões da cultura popular: um vocabulário fidelíssimo à realidade transmontana. Quem conhece aquelas terras, reconhece-se em Torga. Mas a poesia latente por detrás destas estórias não é de Torga. É da terra. Por isso, este livro não é só uma criação do seu autor; é muito mais do que isso: é uma emanação da terra. E neste conceito de “terra” podemos englobar os homens e os seus irmãos “bichos” – os três elementos constituem um todo, um cosmos único onde Torga participa como mensageiro, personagem e intérprete.

sexta-feira, 13 de Maio de 2005

Dona Flor e seus Dois Maridos - Jorge Amado

O maior mérito desta obra é o retrato eficaz da realidade brasileira, principalmente ao nível mental e religioso. O vocabulário utilizado é riquíssimo e reflecte precisamente essa multi-culturalidade própria do Estado da Bahia, onde se desenrola a acção. A religiosidade que mistura ao mesmo tempo o catolicismo e o candomblé, colocando as personagens do candomblé lado a lado com os santos e heróis do catolicismo (algo que, na verdade, se enquadra na religiosidade baiana, já que Salvador tem mais igrejas que qualquer outra cidade do Brasil e ainda assim é centro das religiões de origem africana). A outra característica vem a ser o facto de que Vadinho e Teodoro são metáforas para o id e o superego, respectivamente. Vadinho é rebelde, impulsivo, espontâneo e dado ao caos (no seu caso, o jogo); Teodoro é metódico e controlado ("Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar" é seu lema, pendurado na farmácia). Assim, a imagem de Flor pacificamente com os dois, totalmente feliz, invoca o ideal de equilíbrio entre os dois. Não é, a meu ver, uma obra de grande alcance literário: excelentes descrições, humor a rodos, linguagem muito atractiva e um vocabulário rico não compensam a falta de profundidade das ideias expostas. Nem seria talvez essa a intenção de Amado. Mas é precisamente a leveza, a graciosidade, que impedem essa abrangência, essa profundidade que caracterizam as obras-primas. Talvez estas características ajudem a explicar o sucesso das adaptações de Amado às telenovelas. Enfim, um livro que, mau grado a sua incrível extensão, se lê com agrado, mas do qual pouco fica no arquivo da memória.

quinta-feira, 12 de Maio de 2005

O Jogador - Fiodor Dostoiévsky

“O Jogador” não é uma obra-prima; porque foi escrito por Dostoiévsky e os termos de comparação são, obviamente, os seus grandes clássicos. É quase escusado dizer que esta obra não tem o fôlego, a profundidade nem a genialidade de “Crime e Castigo” ou “Os irmãos Karamazov”. Mas para qualquer outro escritor isto seria uma obra genial. O problema é que aos génios pedimos sempre obras-primas. Mas não deixa de ser uma obra excelente, se tivermos em conta os propósitos que o levou a escrevê-la: conseguir, o mais rapidamente possível, dinheiro para pagar as suas próprias dívidas de jogo. Portanto, trata-se, em grande parte, de uma obra de cariz (ou pelo menos de inspiração) autobiográfica. Trata-se de uma análise magnífica da vida e das angústias de um jogador. A dependência envolve Alexis Ivanovitch até ao limite. Mas não se trata apenas de uma análise psicológica. O enredo envolve uma curiosa e profunda dimensão de análise social e até com implicações de crítica política. O que está em causa é muito mais do que a vida e a desgraça de Alexis. É a critica social à aristocracia feudal que persiste numa Rússia esclerosada e anacrónica. Uma nobreza de nome, empedernida, estupidificada e inútil, simbolizada pelo patrão de Ivanovitch, o General. Tratava-se do meio ideal para que, mais tarde, viesse a eclodir a Revolução Soviética. Num enredo que se desenrola nesse meio aristocrático, o vício do jogo é encarado por Dostoiévsky como um sintoma dessa falta de inteligência de que padeciam as elites nobiliárquicas. Daí a sua admiração pela Inglaterra – um país livre, onde pululavam as ideias progressistas da época e onde sobressaía uma aristocracia culta, investidora, dinâmica.

terça-feira, 10 de Maio de 2005

Os Indiferentes - Alberto Morávia

Moravia escreveu esta obra com apenas 22 anos. É a sua primeira obra. Talvez por isso, o livro mistura uma grande simplicidade narrativa com aquele traço de génio tão peculiar em Morávia: um estilo directo, frontal por vezes frio, outras vezes terrivelmente apaixonado. É precisamente nesta primeira fase da sua vida literária, que encontramos o Morávia mais puro, mais profundo, antes de se ter rendido ao êxito fácil. Se excluirmos essa grande obra que é A Romana, este livro é, talvez, o mais conseguido de Morávia. É a história de Leo Merumechi, um comerciante sem escrúpulos que se envolve com a filha da amante, usando a sua relação com ambas como uma estratégia para “deitar as mãos” às propriedades da família. Indiferentes, os 4 ou 5 personagens do romance são arrastados por Leo, inconscientemente, para um processo de dominação em relação ao qual demonstram uma inactividade por vezes desesperante. Trata-se de uma reflexão sobre o medo, ou pelo menos sobre a insegurança, que leva as pessoas a deixar-se arrastar pelos outros quando estes demonstram poder. Por outro lado, há as condições materiais. Na esteira do neo-realismo, Morávia aborda a Itália do pós guerra como um meio decadente, onde o acesso à riqueza se reveste de estratégias pouco claras, onde o recurso à burla se torna banal. Este decadentismo ético e moral conduz a uma vontade de afirmação social que põe em causa os padrões morais da época. Saliente-se ainda o facto de se usarem apenas 5 personagens. Este facto, aliado à dinâmica narrativa deixa adivinhar alguma influência do teatro. Acima de tudo, é uma obra sobre a inacção. Indiferença e cobardia resultam em infelicidade. Parece-me ser esta a ideia fundamental do livro.

segunda-feira, 9 de Maio de 2005

Mulheres - Charles Bukowsky

É difícil encontrar um romance de sucesso com conteúdo mais marcadamente pornográfico do que “Mulheres”. A vida de Bukowsky/Chinasky é descrita com uma crueza quase inimitável. Talvez tenha sido essa frieza e o estilo hiper-objectivo os segredos do sucesso deste escritor alcoólico, com o ele próprio se define. Um escritor alcoólico decadente que escreve para poder dormir até ao meio-dia. Para Chinasky a vida é apenas uma sucessão alternada de amor álcool e sexo. No entanto, por detrás desta crueza, desta objectividade extrema e do hedonismo que percorre todo o enredo, há uma vida angustiada e um pessimismo latente que desmascara todos os prazeres que o autor/personagem cultiva. Sempre num estilo cruel mas bem-humorado, Bukowsky deixa transparecer a angústia de uma solidão rodeada de mulheres, seres quase anónimos que preenchem as lacunas de uma vida sem sentido. Um dos aspectos mais interessantes da obra é o contraste entre o estilo bem-humorado e o fundo melancólico, a visão atormentada da vida: “não interessava o que elas faziam, nós acabávamos na solidão e na loucura” – pág. 264 Enfim, um livro divertido e cruel. Como a vida de Bukowsky.

sábado, 22 de Janeiro de 2005

Madame Bovary - Gustave Flaubert

Se vivesse no século XXI, Madame Bovary seria cliente assídua de um qualquer psiquiatra. Tomaria doses generosas de sedativos, barbitúricos e anti-depressivos. Mas no mundo fechado da sociedade pequeno-burguesa do século XIX francesa, Emma só encontra a fuga no amor. Num amor puramente carnal, talvez por isso o mais puro. Num amor furioso e desmedido, Madame Bovary, vítima de um marido estúpido e incapaz de a fazer feliz refugia-se no adultério, a partir do qual procura construir uma outra vida. Tudo isso a troco de uns laivos de felicidade que a normalidade, triste e monótona, lhe negava. Enclausurada num mundo em que ser mulher virtuosa significava a negação do ser individual, procura no adultério esse direito que a civilização lhe recusava: a liberdade e o direito a ser feliz. O casamento como convenção. O sexo como redenção. Charles, o marido, é um pobre diabo, vítima da sua própria estupidez, que o torna incapaz de compreender Emma. É neste ponto que Flaubert se torna implacável. Afinal de contas, que culpa tem alguém de ser estúpido? Mereceria Charles tão grande castigo? No entanto, Charles era feliz enquanto Emma alimentava o seu espírito com o ardor do amor proibido. E a felicidade de Charles fundava-se na mentira, na ignorância. Talvez a mentira seja justificada por essa espécie de felicidade. Numa outra perspectiva, a obra poderia ter tido um título como “O triunfo da Estupidez”. No final, o triunfo é desse ícone da estupidez, o farmacêutico Homais. Mas o que mais marca esta verdadeira obra prima da literatura francesa é, sem dúvida, o elogio da liberdade, a redenção da mulher infiel, o encómio de um amor proibido mas redentor que faz de Emma uma verdadeira heroína. Ao mesmo tempo é um poderoso ataque frontal ao conservadorismo da sociedade burguesa do início da época contemporânea.

domingo, 16 de Janeiro de 2005

Um Mundo Infestado de Demónios - Carl Sagan

O melhor divulgador científico que a Humanidade já conheceu e um dos homens maiores de todos os tempos escreveu esta obra um ano antes de morrer, vítima de uma estúpida e fatal doença. A pseudo-ciência é um dos alvos da crítica mordaz mas esclarecida de Sagan, por vezes aliada ao poder político, outras vezes sustentada pela crendice, cujo sucesso se deve à facilidade com que acreditamos naquilo que nos fascina. O fascínio é, na verdade, mais poderoso que a verdade. O “rosto humano” da Lua e os “canais de Marte” são dois exemplos práticos de mitos do século XX que prevalecem porque se baseiam na fantasia que encandeia qualquer cérebro desprevenido. Na verdade é fácil acreditar naquilo que se deseja ser verdadeiro. Um dos alvos mais insistentemente visados por Sagan é a crença nas visitas alienígenas. No entanto estas crenças estão muitas vezes ligadas a interesses económicos e políticos que Sagan combate poderosamente. Por exemplo, o secretismo que rodeou a Guerra Fria justificou a desconfiança quanto a informações governamentais. Tal secretismo forneceu o ambiente propício à propagação das “visões” e das crenças. Num terreno extremamente movediço, Sagan arroja-se a relacionar as crenças pseudo-cientificas do século XX com o contexto da religião cristã tradicional que criara fenómenos como a Inquisição, integrando também nesta análise as falácias das visões milagrosas da religião católica. No entanto, fica clara nesta obra a tolerância de Sagan perante toda e qualquer crença religiosa. Não é a religião que está em causa mas apenas as tentativas de explicar fenómenos científicos mediante a crença. A estupidificação da América, na palavra de Sagan é o drama maior do seu/nosso tempo, apontando o dedo a toda uma plêiade de embustes como curandeiros e prestidigitadores que se servem da ignorância das pessoas. No entanto, aponta também o dedo às estruturas do poder político como responsáveis por um sistema educativo ineficaz que permite e até cultiva a ignorância. A relatividade do conhecimento científico, é, no entanto, um facto indesmentível. E é com grande modéstia que Sagan admite os seus próprios erros. Admite também com frontalidade as consequências por vezes dramáticas do progresso cientifico, apontando como exemplo as investigações de Teller que levaram à bomba de hidrogénio. O livro tem como ponto alto a explicação das temíveis equações de Maxell. Talvez nunca ninguém tenha explicado de forma tão simples e atractiva aquelas complicadas relações entre electricidade e magnetismo. Um exemplo de como as ciências matemáticas podem ter implicações práticas preciosas. Nesta obra é impressionante o respeito de Sagan por ideias e concepções tão afastadas da ciência! Ideias que ele reprova liminarmente são sempre analisadas com aquela tolerância que só o conhecimento científico e uma mente brilhante podem suscitar. Impressionante também é o optimismo inabalável perante a ciência, em contraste com uma visão deprimida, profundamente pessimista com que Sagan vê a sua América! Ontem como hoje! Que diria Sagan da América de W. Bush?

sábado, 15 de Janeiro de 2005

A Demanda de D. Fuas Bragatela - Paulo Moreiras

Fuas Bragatela, peão e vilão do século XIV, embora distante no tempo, é a imagem do cidadão português do século XXI: iletrado mas espertalhão, pacóvio mas desenrascado. Analfabeto, ignorante, ladrão e bêbado, é uma alma pura e ingénua, vítima do destino que o fez desgraçado. Plebeu da pior espécie é feito Dom por um acaso tolerado pelo Deus dos pobres. Filho de alfaiate miserável, desafiou o destino à procura de um qualquer e honrado futuro. O livro retrata com fidelidade uma época que constitui um autêntico filão para a literatura: o ocaso da Idade Média e o início da época moderna, na madrugada do renascimento e da epopeia dos descobrimentos. O cenário é um Portugal onde persiste o obscurantismo medieval, um país de bêbados e ladrões. Fuas é vítima e actor de todo esse mundo ingrato e desgraçado, onde pululam lendas e crendices, um cosmos fantástico, a tentar iludir uma realidade triste, injusta e revoltante. Ao ler este livro sente-se o mais profundo prazer da leitura – uma linguagem fiel ao português arcaico, riquíssima e plena de sentido de humor. O enredo é repleto de pormenores fieis à realidade histórica, sem anacronismos nem exageros. Esta fidelidade não impede, no entanto, o uso de uma imaginação impressionante. A obra peca apenas pelo incrível exagero nas coincidências factuais que povoam o enredo, tornando-o algo inverosímil.

quinta-feira, 13 de Janeiro de 2005

Bouvard et Pécuchet - Gustave Flaubert

Uma caricatura genial de um tipo de conhecimento superficial e fútil, típico de uma burguesia pedante que pululava na sociedade francesa daquele tempo (segunda metade do século XIX). No entanto, a caricatura mantém-se actual, nesta época em que se cultiva o conhecimento “trivial pursuit”. Mas a obra é muito mais que uma caricatura. É uma crítica mordaz e divertida (por vezes hilariante) à ignorância e à soberba. È uma lição de como o conhecimento enciclopédico de nada serve quando não é guarnecido de inteligência ou, pelo menos, de sentido de adaptação à realidade concreta. Sem a flexibilidade, o espírito crítico e a tolerância do espírito inteligente, o saber refugia-se em preconceitos e ideias feitas. No fundo, Flaubert estabelece uma certa identificação da inteligência com o espírito crítico, entendido como forma de avaliar diferentes perspectivas e conciliar opiniões contrastantes. Duas características fundamentais da escrita de Flaubert, para além daquele espírito crítico típico da escola realista: o sentido de humor onde o nosso Eça se inspirou e um extraordinário domínio de vários ramos do saber, indispensável para colocar em ridículo as convicções dos “heróis”. Destaque ainda para um final absolutamente surpreendente e genial, embora apenas esboçado, pois a morte surpreendeu Flaubert antes do termo da obra.

quarta-feira, 12 de Janeiro de 2005

O Sol Nasce Sempre (Fiesta)- Ernest Hemingway

Trata-se do primeiro romance de E. Hemingway. Talvez por isso denote uma objectividade de linguagem, uma “simplicidade” assinalável. Mas talvez se trate algo mais: ele consegue construir uma narrativa apenas aparentemente simples: aquilo que escreve são apenas pistas que levam o autor a recriar um enredo mais profundo, como se o autor apenas precisasse de aflorar a ideia, contando com o leitor para construir o quadro. O que mais se destaca nesta obra é a forma pungente, amargurada com que Hemingway aborda o ser humano. Este livro foi escrito em plena década de 20. O mundo (saído da guerra) perdera a inocência e a crença num futuro cor-de-rosa. Daí que deambulasse, como as personagens do romance, entre o terror da morte e o desvario do prazer. Emoções devastadoras, amores confusos e avassaladoras, culminam no entanto num final comovedor, subtil e delicado. Hemingway revela aqui uma visão profundamente amargurada do ser humano. Mas também uma delicadeza emocionada com que analisa a alma humana – uma visão quase ingénua, profundamente crente na bondade humana e na capacidade de amar. O mundo não é mais do que um enorme obstáculo à felicidade. Enfrentá-lo é, no entanto, o único caminho para essa mesma felicidade.

terça-feira, 11 de Janeiro de 2005

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Uma história de ficção cientifica que ultrapassa largamente o âmbito usual do género. Bradbury imagina a sociedade americana mergulhada numa ditadura da democracia onde se condena sem piedade tudo quanto é susceptível de causar perturbação no sistema. Este baseia-se num ideal de igualdade social fundada sobre o obscurantismo, o culto da ignorância, a ausência do pensamento. Os livros tornam-se assim o inimigo a abater e os bombeiros são os soldados do sistema, encarregados de destruir toda a literatura. É preciso abater o espírito humano para diminuir qualquer consciência de inferioridade ou de injustiça. O homem culto é o inimigo da sociedade. É desestabilizador como o aluno “esperto”, que responde a todas as perguntas, é o alvo a abater por todos os elementos da turma. Desta forma, todas as minorias devem ser abatidas, porque escapam ao modelo universal de homem comum, ignorante e obediente. Os livros trazem desigualdade e consciência dessa mesma desigualdade. Portanto, provocam desobediência, logo, são nefastos. Para que a sociedade continue a caminhar para a “harmonia”, o indivíduo não pode ter opções; não pode ter o que escolher. A autoridade deve oferecer-lhe tudo aquilo que é considerado indispensável. Mais do que isso, é função da autoridade fornecer ao indivíduo um modelo único onde se deve integrar plenamente. Em conclusão, não se trata de uma obra de ficção científica mas de um livro premonitório. Escrita em 1953, em pleno pós guerra que abria o caminho à guerra fria, a obra de R. Bradbury parece tornar-se o “1984” do mundo ocidental, nomeadamente do modelo capitalista e neo-liberal norte-americano.

quarta-feira, 5 de Janeiro de 2005

A Linha da Sombra - Joseph Conrad

A Linha da Sombra é uma curta mas complexa reflexão sobre a insignificância do homem perante a Natureza e o Tempo. É uma obra sobre a vida humana. O Comandante é a imagem assumida da fraqueza humana, a personificação do carácter quase insignificante do ser humano quando se confronta com a Natureza. Mas a obra de Conrad vai muito mais além. A complexidade das suas reflexões transforma esse tema de fundo numa autêntica trivialidade. É, acima de tudo, uma relexão sobre as diferentes fases da vida, sobre a transição da juventude para a maturidade. Tal maturidade é encarada com um estado de decadência, simbolizada pelo mar calmo, assustadoramente calmo, que impede o navio de seguir viagem. É, por isso, uma obra angustiada e angustiante, uma expressão de melancolia e pessimismo que enreda o leitor numa história monótona, penosa, quase moribunda. As palavras e as frases arrastam-se como o tempo, como a vida adulta… E a vida vai perdendo sentido quando tudo é estagnação, torpor e um medo passivo que conduz à inércia, à impotência. Não é um livro divertido nem apaixonante. Os primeiros capítulos parecem navegar sem sentido definido e o enredo caminha desesperadamente devagar, como o navio e como a morte…

quarta-feira, 15 de Setembro de 2004

Lolita - Vladimir Nabokov

Levado ao cinema por nomes como Kubrick e Lyne, trata-se, para muitos, de um livro polémico e maldito. O filme de Lyne, por exemplo, foi proibido nos EUA. “Inquietante” é, talvez, o melhor adjectivo para caracterizar este livro. O tema da pedofilia é, desde logo, um campo fértil para construir um romance polémico e dramático. Mas tudo se torna muito mais perturbador quando se expõe a tendência pedófila da forma que Nabokov o faz. Humbert apaixona-se por uma “ninfeta” de 12 anos. À partida qualquer um de nós conotaria Humbert, neste momento e sem ler o livro, como um monstro criminoso. No entanto, Nabokov faz dele um homem como qualquer outro com as suas fraquezas e qualidades, ao ponto de, por vezes, despertar compaixão. Seja como for, todo o enredo segue linearmente a obsessão de Humbert, caindo mesmo numa certa pobreza de conteúdo e numa previsibilidade que retiram parte do interesse que um tema como este pode suscitar. Nabokov faz, no entanto, uma radiografia profunda, polémica e inquietante da mente pedófila de Humbert. O que mais impressiona o leitor desprevenido é a convicção de que a pedofilia pode não ser um simples comportamento aberrante, nem uma doença mas sim uma forma de amor tão natural como qualquer outra. No plano puramente sensorial há, evidentemente, situações muito chocantes com episódios verdadeiramente inquietantes: Humbert chega mesmo a desejar a gravidez de Lolita para que esta lhe proporcione uma futura ninfeta e projecta até uma terceira geração de Lolita para seu deleite. Mas é no plano psicológico que o livro atinge o limite do chocante: a paixão é avassaladora e Humbert, no fundo, é uma vítima de um amor proibido, embora martirizado pela culpa. Poderá a pedofilia ser encarada desta forma nos tempos que correm?

terça-feira, 14 de Setembro de 2004

Trilogia de Nova Iorque - Paul Auster

Quinn é Max e William Wilson. Mas é também... Paul Auster. O problema da identidade. Sempre. Uma fixação. Todas as três partes que compõem o livro são histórias de alienação e do seu sucedâneo, de ténues fronteiras, a loucura. Na grande cidade, toda ela alienada, Quinn perde a identidade, refugia-se como uma criança abandonada no "caso Stillman", como se ele passasse a preencher toda a sua vida, até ao ponto em que o real e o onírico se cruzam, onde o absurdo de Kafka se cruza com a loucura de Dostoievsky, passando pela solidão de Faulkener. A função do detective privado é uma metáfora da vida na grande cidade: alienação total, ao ponto da perda quase completa da noção de si mesmo, do auto-conhecimento, sempre perseguido e sempre inatingível. Os próprios laços de parentesco são muito mais frágeis do que os nós criados pela imprevisibilidade do espírito e pelo aleatório da vida. Esses sim são laços fortes, capazes de conduzir à alienação. Na terceira parte é quase chocante a forma como Auster dessacraliza a relação filial e conjugal, subjugadas cruelmente às obcessões construídas pela mente do narrador. Toda esta neutralização do sujeito conduz também ao egoísmo: o sujeito acaba por se transformar numa espécie de autómato, incapaz de sentir os problemas daqueles que o rodeiam. Neste sentido, a obra é profundamente pessimista.

segunda-feira, 13 de Setembro de 2004

Quarto com Vista - Edward Foster

Num ambiente "very british" quase vitoriano, este livro é uma crítica social a fazer lembrar o "nosso" Eça de Queiroz, desmascarando todo o pedantismo balofo da sociedade burguesa do início do século XX. O realismo da análise psicológica, no entanto, acrescenta-se à análise e à crítica social, dando à obra um verismo surpreendente, num tom cru e directo. Mas é também um romance passional. Como sempre (e como na vida), o amor siurge associado à mentira, ao engano, à tristeza e mesmo à traição. Sobressai o tradicional e pouco original triângulo amoroso onde o amor é um pormenor apenas, subjugado por uma superficialidade cultivada pelas regras sociais, pelas aparências. Enfim, um livro leve e pouco pretensioso, uma leitura que deixa pouca margem de interpretação ao leitor, de tão explicita e directa que é a linguagem e o enredo. Vale essencialmente pelo testemunho de uma época de viragem social e mental, em contraponto com toda a força do tradicionalismo britânico.

domingo, 12 de Setembro de 2004

Baudolino - Humberto Eco

Um retrato vigoroso, eloquente, do imaginário medieval europeu/cristão. H. Eco exprime em forma de romance todo um mundo fantástico, feito de mitos e lendas terras assombrosas, animais e seres semi-humanos mas a tudo dá o sentido do real. Aliás, aí reside o génio maior desta obra: consegue retratar com fidelidade um mundo onde o fantástico e o real se confundem permanentemente. Baudolino é, aos nossos olhos de cidadão do séc. XXI, um grande e descarado mentiroso. Um requintado aldrabão. Mas no universo fantástico da Idade Média as suas estórias, uma vez contadas, são reais. Como real é o Graal feito com uma tigela tosca do pai de Baudolino. Como em tudo o resto, nas relíquias fabricadas existe a verdade que as pessoas nela querem ver. A fantasia é mais do que a substituta do conhecimento científico; é um instrumento precioso, indispensável mesmo, para o conhecimento e a construção do real. Trata-se de uma obra essencialmente descritiva: o Império Sacro-Romano de Frederico Barba Roxa, os conflitos entre as cidades italianas de onde emerge Alexandria (terra natal de Baudolino e de Eco), o 1º grande Cisma, as Cruzadas e o fabuloso reino do Prestes João que fica ao lado do Paraíso Terrestre, para lá das terras dos homens sem cabeça. Mas também o Santo Graal e as relíquias falsas mas reais. Este carácter descritivo retira à obra aquele fervilhar de imprevisibilidade que a impede de rivalizar com “O Nome da Rosa”. Por vezes a acção torna-se monótona e previsível mas fica o enorme mérito de Eco ter compreendido e transmitido com fidelidade todo o imaginário de uma Idade Média não obscura mas encantadora e encantada.

terça-feira, 7 de Setembro de 2004

O Espião Perfeito - John Le Carré

Berna, Londres, Viena, Berlim… um retrato poderoso da Guerra Fria. Espiões, agentes secretos, profissionais do disfarce e do embuste, homens sem identidade, perdida entre mil e uma imagens construídas para mentir à procura da verdade. Pym é o agente perfeito – vendido aos dois lados – que procura durante toda a vida encontrar-se consigo mesmo e redimir a traição à amizade por Axel – o amigo/inimigo. Por outro lado há o pai – memórias de um progenitor criminoso mas herói. Daqui resulta uma narrativa quase psicanalítica, marcada pelas recordações do passado e escrita, disfarçadamente, na primeira pessoa do singular. O enredo revela toda a arte de Le Carré, capaz de manter aquele tom enigmático que prende o leitor ao longo de 575 enormes e recheadas páginas. Um livro longo, a espaços cansativo mas nunca maçador. No final, fica a ideia de um homem sem identidade, perdidos nos disfarces e numa eterna procura que, nos últimos tempos, tenta redimir todo o passado que o tortura. Na vida de Pym, fidelidade e traição são conceitos ambíguos que vivem lado a lado e se misturam permanentemente. De entre todos os sentimentos conflituosos, emerge em Pym um único que conquista a primazia: a amizade, o valor supremo. Uma amizade que nasce da traição – a única realidade capaz de gerar felicidade. “A traição é uma profissão repetitiva” (Pág. 564)

segunda-feira, 6 de Setembro de 2004

O Cônsul Honorário - Graham Greene

A relação com o pai mais uma vez na linha da frente, a condicionar a primeira fase do romance e a percorrer todo o enredo. "o pai continuava a seguir o filho por toda a vida - era o mestre-escola, depois o padre, o polícia, o guarda da prisão e, por fim, o próprio general" (pág. 130). Charley Fortnum era um bom homem. E, como quase todos os homens bons, era incompreendido e desprezado. Lugar comum? Talvez, mas real... terrivelmente real! Alcoólico, traído pela mulher, cônsul por piedade, raptado por engano... o enredo e o rosário da desgraça. De Edward Plarr todos diziam que, esses sim, era um bom homem. Na verdade, amigo de Fortnum, era o amante da sua mulher. Fortnum amava Clara. Plarr dormia com ela. Plarr era feliz. Fortnum escondia-se por detrás do álcool e da ilusão. Um romance feito de coisas simples, correntes, banais como a traição. E Deus... uma profunda reflexão sobre a religião. Uma obra simples e eficaz que se lê com aquela ânsia juvenil de chegar ao final. E Fortnum, afinal, ganhou o jogo porque sabia amar...

quinta-feira, 5 de Agosto de 2004

O Som e a Fúria - Wiliam Faulkner

Um enredo sem linha de rumo preciso navega num tempo sem definição, ondeando entre memórias e prenúncios, desprezando a linearidade, a lógica. Respira-se o desprezo pelo concreto, a recusa do próprio tempo. O simbolismo, intenso e sempre presente, enreda-se permanentemente numa linguagem barroca, de formas por vezes sublimes mas nunca frívolas. Jogos de palavras, simples prazer da escrita e da leitura. Um grito colectivo de revolta: uma família apodrecida pela América da falsa prosperidade, rodeada de negros acorrentados à humilhação de ter nascido. Personagens enlouquecidas, devassas, horríveis, infelizes, perdidas num vazio de humanidade. E a Disley… a criada negra desgraçada e feliz… normal. Benji é louco, Jason alucinado, Quentin lunático, e um bando de pretos. Faulkner constrói assim um quadro quase sem nexo, quase sem sentido, como a vida. Quando chegamos ao fim as estórias ganham, finalmente, forma e sentido. Mas nessa altura fica-nos na mente a frustração de não haver mais páginas… como se todos os Compsons tivessem morrido de súbito. Apetece então voltar ao início… como na vida: uma circunferência que nunca se fecha e assim se transforma em espiral… perpetuamente… sem tempo…

quinta-feira, 29 de Julho de 2004

Inventar a Solidão - Paul Auster

Auster é confrontado com a morte do pai. Este acontecimento surge de forma inesperada, abrupta e leva o autor a tentar compreender os seus sentimentos (ou a ausência deles), a confrontar a figura do pai com as suas memórias. Ao longo do livro divaga sobre a paternidade, confrontando a sua condição de filho com a de pai. Toda a obra parece ser um longo e profundo exercício de auto-análise, quase psicanalítico. Auster, como fizeram outros grandes mestres, divaga, sobretudo, sobre a solidão. Porque a vida é, essencialmente, um percurso solitário. Por mais que se viva com os outros, a vida em sociedade parece nunca deixar de ser um imenso somatório de solidões. Porque todo o homem é um mundo único, ímpar e só. O homem é uma realidade complexa e indefinível, que nem o próprio sujeito conhece. A relação com o resto do mundo é uma teia tão complicada que só contribui para aumentar a angústia da solidão. É um livro corajoso. Auster encara de frente a personalidade esquiva do pai. Esmiúça e tenta desesperadamente compreender todos os motivos da sua menos boa relação com ele, fugindo ao sentimentalismo fácil mas também sem cair na frieza da objectividade crua. Procura, acima de tudo racionalizar os sentimentos, compreender a alma humana e, principalmente a sua própria alma. “Todo o livro é uma imagem da solidão” (pág. 153). Mais do que a morte, o verdadeiro monstro é a solidão. A morte é apenas um dos momentos em que o monstro se revela. Excelente tradução.

O Amante de Lady Chatterley - D. H. Lawrence

Connie (Lady Chatterley) é esposa de um lord inglês, tradicionalista e austero que, logo após o casamento, é ferido na primeira guerra mundial, ficando paralisado da cintura para baixo. No entanto, mantém o casamento, com todas as suas aparências e tenta ludibriar as suas incapacidades com uma vida social intensa, onde as aparências são cuidadosamente mantidas. Connie, no entanto, não consegue suportar aquela vida fútil e oca, apaixonando-se por um criado do marido. Aparentemente, trata-se de um romance/novela; um grande conto erótico e cor-de-rosa. No entanto, é muito mais do que isso. A sexualidade é vista como parte integrante e essencial da relação amorosa, do sentimento e da própria vida. Desmistifica-se assim aquela concepção burguesa de que o amor carnal é uma espécie de aberração do amor. É encarado, pelo contrário, como algo profundamente humano. O sexo faz parte do amor, do lado afectivo do ser humano e não do instinto ou da animalidade, como era hipocritamente entendido pelos moralistas da sociedade tradicional inglesa. Assim, é uma obra que enfrenta não só o rígido quadro de valores inglês mas todo um conceito de amor formal e puritano. A linguagem, por vezes obscena, surge perfeitamente enquadrada no enredo e no jogo de sentimentos. Está longe de ser, portanto, um romance erótico. É um romance cheio de sentimento, cheio de ideias, embora o enredo esteja demasiado preso à intriga amorosa.

quinta-feira, 22 de Julho de 2004

A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar

Inquietante, perturbadora, a espera da morte. Zenão será perseguido; por ela e pela ignorância. Das duas, qual a mais tétrica, a mais terrível e impiedosa? Zenão será condenado por ter sido sempre fiel a si próprio, à sua humanidade, ao bem universal, à verdade. Ao bem por si só! Mas é vítima do ódio, do egoísmo, da cegueira. Do obscurantismo. A Obra ao Negro é um testemunho histórico impressionante, de uma época (início do séc. XVI) em que se cruzam a cegueira medieval e os conflitos dos tempos modernos, com a afirmação de novos regimes e Estado, perdidos em constantes guerras e conflitos. A visão radiosa do Renascimento é abafada pelos conflitos absurdos em torno da questão religioso (fruto da reforma protestante e contra-reforma). Zenão, vítima da sua qualidade de bastardo e de uma família obcecada pelo poder, abandona-se a uma mescla de hedonismo e solidariedade cristã, cultivando a reflexão interior, temperada com o espírito pragmático do renascimento. Tudo isto só poderia ter um fim: as teias da Inquisição. Impressionante o estilo. As palavras soam como música, numa linguagem fiel à época, encantadora! As descrições de Yourcenar brilham pelo realismo. O enredo não deixa escapar uma tremenda profundidade dos sentimentos. As reflexões filosóficas são constantes e profundas. Uma obra magnífica!

quinta-feira, 8 de Julho de 2004

A Metamorfose - Franz Kafka

Gregor acorda transformado num enorme e repugnante insecto e assim vive os seus últimos dias. Há neste livro qualquer coisa de quase mágico: o enredo baseia-se num acontecimento completamente absurdo, impossível. No entanto, lê-se como se se tratasse de uma realidade, de algo perfeitamente natural e lógico. O leitor é levado a embrenhar-se no enredo, a seguir os sentimentos de Gregor, com a maior das naturalidades. Gregor era um caixeiro viajante que sustentava a família (absolutamente parasita) e suportava um patrão insensível e mesquinho. Inicialmente, a metamorfose parece significar a libertação em relação às obrigações e alienações de Gregor: o trabalho e a família. Mas, aos poucos, ela transforma-se numa terrível prisão que condena Gregor ao mais terrível dos castigos: uma absoluta e cruel solidão. A partir daí Gregor é vítima do desprezo por parte daqueles em função dos quais vivera: a família. Passa a ser considerado um peso, um encargo e nem mesmo a sua morte despertará a compaixão daqueles que tanto amara.

O Castelo - Franz Kafka

K. é um homem só, à procura do misterioso Senhor Kleim. Kleim é um homem poderoso que representa o castelo. O castelo é o poder. Kleim é a personificação, pouco nítida, propositadamente difusa, desse poder. Mas trata-se de um poder que cultiva a ignorância, primeiro e decisivo passo para a submissão dos servos. Convém manter a cegueira. A burocracia, enorme, monstruosa, aterradora, é a carapaça, a armadura, que protege os poderosos e mantém os súbditos afastados, submissos. K. é um súbdito insatisfeito, insubmisso, que procura por todos os meios penetrar nessa carapaça. Por isso é incompreendido e mesmo desprezado pela aldeia. Ele é uma ameaça para aquele status quo em que a vida corre sem acidentes, sob o manto protector do poder. Ele é uma ameaça à suave cegueira da comunidade. Kafka é um escritor que despreza o enredo em favor da mensagem. As descrições e os diálogos convergem sempre, nesta obra, para uma ideia central: a da crítica à natureza do poder político que cultiva a ignorância e o servilismo cego. Mas por detrás deste servilismo há uma revolta abafada que se revela à medida que a obra se aproxima do final, resultado de uma frustração colectiva perante o desprezo que o Castelo dedica ao comum dos mortais. E, intimamente, todos procuram, por meios diversos, chegar até aos senhores que tanto admiram como odeiam. Lutam e degladiam-se por isso mas de forma velada, envergonhada, silenciosa. Só K., talvez por ser estrangeiro, assume e enfrenta essa ambição. Por isso é amado e odiado. Todos os outros são reles e pequenos. Um pormenor interessante: apenas depois de se libertarem de K., os seus ajudantes são tratados pelo nome próprio. Até aí são simples servos de K, como todos são servos dos senhores. Tudo isto é expresso num estilo algo monótono, como a vida dos servos, assente num enredo "pastoso", com um ritmo narrativo muito lento, à imagem da vida na aldeia. Assim, o aspecto lúdico da leitura é posto em risco. Por vezes, ler Kafka deixa mesmo de ser um prazer porque o objectivo não é contar uma estória. Na aldeia dos servos não há estórias. Apenas a história do senhorialismo e da solidão.

A Grande Muralha da China - Franz Kafka

A grande muralha da China foi construída por parcelas, em pequenos "pedaços", para que cada trabalhador nunca se apercebesse que não chegaria a sua vida inteira para ver a obra acabada. Assim se explora a motivação e o entusiasmo do trabalhador anónimo. Este é o ponto de partida para um discurso em que o poder político é visto como uma superestrutura anónimo, sem rosto, sem corpo nem identidade, que paira de forma mística, auto-sacralizada, por sobre todos os súbditos, também eles anónimos e ignorantes. O mundo em que vivem os obreiros da muralha é um imenso absurdo, no qual a alma humana se encontra abandonada, entregue à sua solidão, vítima de um destino traçado pelos vultos ignotos da superestrutura... sem sentido, sem futuro nem passado. O presente é indiscutível, inquestionável... é o que é por vontade de alguém que tudo sabe, tudo decide... A impotência e a ignorância são os traços mais marcantes do ser humano. Daí a solidão e o pessimismo.

sexta-feira, 25 de Junho de 2004

Crime e Castigo - Fiodor Dostoievski

Personagens interessantíssimas, estudadas psicologicamente de forma profunda e, ao mesmo tempo, descritos de maneira simples e atractiva. A descrição da miséria da família Marmaledov é genial: o alcoolismo como consequência de uma estrutura social injusta e angustiante. A amizade de Razumikin por Ródia é comovedora. Trata-se de um personagem interessantíssimo: libertino mas sensível; hedonista mas sofredor; algo ingénuo mas profundamente dedicado. Ródia envolve toda uma tentativa de explicação do comportamento e do espírito do criminoso: levado pela miséria, provocado pela injustiça social, é duramente castigado pela sua própia alma, o juiz maior. Persegue-o a tentativa desesperada de encontrar uma explicação racional e moral para o crime. É também uma obra sobre uma outra espécie de crime: a maldade humana, representada de forma soberba por Svidrigailov e Lujin. Dela transparece o lamento por uma sociedade injusta e, ao mesmo tempo, a convicção reconfortante do “castigo na terra”. É acima de tudo uma obra sobre a loucura; sobre o limite ténue entre a realidade e a loucura. Dostoiévsky parece acreditar na bondade natural da alma humana. Os seus personagens são loucos, bêbados, chantagistas, criminosos de toda a sorte, usurários, miseráveis mas em todos eles encontramos um fundo de humanidade e uma espécie de consciência que os impele para a expiação (mais ou menos voluntária) dos seus pecados. Procura sempre compreender e explicar a alma humana nas suas infindas facetas. Romance psicológico? Talvez! Para o autor, todos os comportamentos, mesmo os mais “desviantes” têm explicações e são compreensíveis pela razão. Mas o autor de tais comportamentos é o único que nunca os compreende. Daí a loucura, no seu conceito social; daí a tortura interior, o verdadeiro castigo. A verdadeira justiça, as penas mais duras, são as que o sujeito impõe a si próprio. A cadeia, os trabalhos forçados, a justiça dos homens é, por isso, vista como a verdadeira liberdade – porque aí os homens encontram-se, finalmente, entregues a si próprios: livres. No final, como que caído do céu, o amor revela-se a solução para todos os males da alma de Ródia – final talvez demasiado lírico para uma aventura tão real como esta.

quarta-feira, 5 de Maio de 2004

Paula - Isabel Allende

Uma das mais impressionantes biografias que até hoje se escreveram. Todo o drama de uma morte anunciada vivido na primeira pessoa do singular: como se o sofrimento universal se encerrasse num único mas enorme coração. O testemunho enorme de uma coragem e de uma força indomáveis, capazes de vergar a morte perante uma vida exultante. Um livro escrito a sangue.