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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Carta ao Pai - Franz Kafka

Escrita em 1919, cinco anos antes da sua morte, esta Carta ao Pai é um testemunho grandioso dessa ambivalência que muitas vezes habita o espírito humano, constituída pelos pólos só aparentemente opostos de amor e ódio.
Kafka não esconde um profundo rancor em relação à figura paterna. No entanto, esse rancor surge mesclado com uma reverência profunda e mesmo admiração. O pai era o ser forte e poderoso que ele nunca foi; o ídolo e tirano da sua infância. Aquele que o desprezava mas em função do qual vivia.
O pai, na sua imensa autoridade, acaba por gerar em Kafka aquela melancolia e ao mesmo tempo a revolta que tão patente ficou na sua obra literária. Ler estas páginas é uma imensa ajuda para compreendermos o espírito revoltado, caustico deste que foi um dos maiores escritores do século XX.
Escrita ao “correr da pena”, esta obra manifesta uma ingenuidade de estilo bem patente nas frequentes inexactidões de linguagem, o que demonstra o carácter privado da sua escrita.
Para todos os educadores e pais esta obra é também um profundo motivo de reflexão. Até que ponto se justifica, por exemplo, impor normas religiosas constituídas por dogmas inquestionáveis para o jovem, sabendo-se de antemão que esses comportamentos e crenças surgem eivados de imposições sociais?
O poder da figura paternal, protectora mas tirana, anulou quase por completo a personalidade do jovem Franz. A humilhação continuada gerou, por outro lado, um sentimento de culpa que leva Kafka a diminuir-se perante o mundo. A escrita funcionou sempre como um refúgio, onde projectava a sua revolta sob a forma do absurdo.
A descrição das “atrocidades” cometidas pelo pai atinge por vezes extremos verdadeiramente pungentes. Por exemplo, a forma como descreve o desprezo supremo quando as críticas paternas se apresentavam sob a forma de ironia ou misturadas com o riso. Esta atitude era a suprema humilhação: o riso acentua o desprezo, a humilhação.
Em conclusão, trata-se de uma obra onde sobressai a frontalidade, a necessidade de catarse e a tentativa de reencontro de Kafka com a sua própria identidade, a partir do confronto directo com o pai. Um obra que não deixa de nos sensibilizar pela pertinência do tema, num tempo em que a educação familiar é tão questionada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2005

O Processo - Franz Kafka

De todas as obras de Kafka esta é aquela em que mais nitidamente o autor consegue aliar o obscuro ao real. Caricatura do real? Talvez. Mas mais do que isso, é uma história que leva ao extremo a angustia de um homem perdido num mundo aparentemente irreal em que está inserido. A existência de Joseph K. transforma-se numa procura desesperada de conhecimento e compreensão da vida que alguém lhe destinou. Angustiante. Deprimente. Real. Em O Processo estamos perante uma das mais comuns e significativas razões da angustia humana: a necessidade de conhecer e compreender; o desespero provocado pela ignorância, quando esta coabita com a necessidade do conhecimento. Mas este é apenas o ponto de partida! O Processo retrata o desajuste entre o ser humano, entendido na sua dimensão individual, e um Estado totalitário, impessoal, que paira num universo desconhecido, longínquo… Franz Kafka é o escritor do “absurdo”, como o tinha sido Dostoievsky, como seria Camus. Mas o absurdo de Kafka, ao contrário do filósofo francês, é um absurdo transcendental; reside na incomunicabilidade do homem com o homem, formando uma trama de relações pessoais sem sentido, impostas por circunstâncias alheias ao homem. Joseph K. não consegue chegar até à justiça, que, lentamente, se transforma numa entidade misteriosa e quase irreal. Joseph não compreende a justiça. Nem os homens, nem Deus. O absurdo está na ausência de compreensão mas ela deriva da ausência de comunicação. Daí o desespero, a solidão e o absurdo que cobre o mundo dos homens. A culpa de Joseph é a sua existência; única resposta possível para a angustia do desconhecimento da acusação. É o culminar de uma espiral de desespero que revela uma visão dolorida da alma humana e, acima de tudo, da sociedade humana.

quinta-feira, 8 de julho de 2004

A Metamorfose - Franz Kafka

Gregor acorda transformado num enorme e repugnante insecto e assim vive os seus últimos dias.
Há neste livro qualquer coisa de quase mágico: o enredo baseia-se num acontecimento completamente absurdo, impossível. No entanto, lê-se como se se tratasse de uma realidade, de algo perfeitamente natural e lógico. O leitor é levado a embrenhar-se no enredo, a seguir os sentimentos de Gregor, com a maior das naturalidades.
Gregor era um caixeiro viajante que sustentava a família (absolutamente parasita) e suportava um patrão insensível e mesquinho. Inicialmente, a metamorfose parece significar a libertação em relação às obrigações e alienações de Gregor: o trabalho e a família. Mas, aos poucos, ela transforma-se numa terrível prisão que condena Gregor ao mais terrível dos castigos: uma absoluta e cruel solidão.
A partir daí Gregor é vítima do desprezo por parte daqueles em função dos quais vivera: a família.
Passa a ser considerado um peso, um encargo e nem mesmo a sua morte despertará a compaixão daqueles que tanto amara.

O Castelo - Franz Kafka

K. é um homem só, à procura do misterioso Senhor Kleim.
Kleim é um homem poderoso que representa o castelo. O castelo é o poder. Kleim é a personificação, pouco nítida, propositadamente difusa, desse poder. Mas trata-se de um poder que cultiva a ignorância, primeiro e decisivo passo para a submissão dos servos.
Convém manter a cegueira. A burocracia, enorme, monstruosa, aterradora, é a carapaça, a armadura, que protege os poderosos e mantém os súbditos afastados, submissos. K. é um súbdito insatisfeito, insubmisso, que procura por todos os meios penetrar nessa carapaça. Por isso é incompreendido e mesmo desprezado pela aldeia. Ele é uma ameaça para aquele status quo em que a vida corre sem acidentes, sob o manto protector do poder. Ele é uma ameaça à suave cegueira da comunidade. Kafka é um escritor que despreza o enredo em favor da mensagem.
As descrições e os diálogos convergem sempre, nesta obra, para uma ideia central: a da crítica à natureza do poder político que cultiva a ignorância e o servilismo cego. Mas por detrás deste servilismo há uma revolta abafada que se revela à medida que a obra se aproxima do final, resultado de uma frustração colectiva perante o desprezo que o Castelo dedica ao comum dos mortais. E, intimamente, todos procuram, por meios diversos, chegar até aos senhores que tanto admiram como odeiam. Lutam e degladiam-se por isso mas de forma velada, envergonhada, silenciosa. Só K., talvez por ser estrangeiro, assume e enfrenta essa ambição. Por isso é amado e odiado. Todos os outros são reles e pequenos.
Um pormenor interessante: apenas depois de se libertarem de K., os seus ajudantes são tratados pelo nome próprio. Até aí são simples servos de K, como todos são servos dos senhores. Tudo isto é expresso num estilo algo monótono, como a vida dos servos, assente num enredo "pastoso", com um ritmo narrativo muito lento, à imagem da vida na aldeia. Assim, o aspecto lúdico da leitura é posto em risco. Por vezes, ler Kafka deixa mesmo de ser um prazer porque o objectivo não é contar uma estória. Na aldeia dos servos não há estórias. Apenas a história do senhorialismo e da solidão.

A Grande Muralha da China - Franz Kafka

A grande muralha da China foi construída por parcelas, em pequenos "pedaços", para que cada trabalhador nunca se apercebesse que não chegaria a sua vida inteira para ver a obra acabada.
Assim se explora a motivação e o entusiasmo do trabalhador anónimo.
Este é o ponto de partida para um discurso em que o poder político é visto como uma superestrutura anónimo, sem rosto, sem corpo nem identidade, que paira de forma mística, auto-sacralizada, por sobre todos os súbditos, também eles anónimos e ignorantes.
O mundo em que vivem os obreiros da muralha é um imenso absurdo, no qual a alma humana se encontra abandonada, entregue à sua solidão, vítima de um destino traçado pelos vultos ignotos da superestrutura... sem sentido, sem futuro nem passado. O presente é indiscutível, inquestionável... é o que é por vontade de alguém que tudo sabe, tudo decide... A impotência e a ignorância são os traços mais marcantes do ser humano.
Daí a solidão e o pessimismo.