terça-feira, 2 de setembro de 2008

O Último Catão - Matilde Asensi

Mais um sucedâneo do Código da Vinci? Garantidamente, não! “O último Catão” prima pela originalidade, rigor, criatividade e aquela “leveza” cativante que se sorve do género policial, associada ao encanto do romance histórico. Matilde Asenci é nada menos que a escritora espanhola mais lida na actualidade. Este livro vendeu mais de um milhão de exemplares em Espanha. Estes dois factos são suficientes para tornar incompreensível o ter passado quase desapercebido nas nossas montras.
Trata-se de uma obra de romance histórico puro, com um enredo simplesmente entusiasmante e, na linha do melhor policial, com um final absolutamente inesperado. Um dos melhores desfechos que li nos últimos anos.
Tudo se inicia com o assassinato de um etíope que exibe estranhas tatuagens no corpo: sete letras gregas e sete cruzes. Junto ao corpo foram encontrados três pedaços que tudo indica pertencerem à Vera Cruz, a verdadeira cruz de Cristo. A irmã Ottavia Salina, dedicada profissional do arquivo secreto do Vaticano, acompanhada por um arqueólogo de Alexandria, e pelo capitão da Guarda Suíça do Vaticano, recebe o encargo de decifrar as estranhas tatuagens aparecidas no cadáver. Ao mesmo tempo, iam desaparecendo das mais diversas igrejas, um pouco por todo o mundo, as relíquias da cruz de Cristo. Cabe aos nossos três heróis, guiados pela “Divina Comédia” de Dante, descobrir o paradeiro das relíquias e identificar a seita “criminosa”. Numa tentativa de chegarem até aos culpados, o grupo terá de superar sete desafios, associados aos sete pecados mortais, em sete cidades diferentes: Roma pela soberba, Ravena pela inveja, Jerusalém pela ira, Atenas pela preguiça, Constantinopla pela avareza, Alexandria pela gula e Antioch pela luxúria. A viagem por estas cidades é deveras fascinante.
A imaginação de Asensi é assombrosa: o livro está cheio de peripécias que prendem o leitor de forma avassaladora, de tal maneira que as mais de seiscentas páginas desta edição são devoradas a um ritmo alucinante. Por outro lado, este riquíssimo enredo envolve o melhor de um romance histórico: a fidelidade à verdade histórica; aquilo que não é imaginação, é perfeitamente fiel e autêntico. Ao contrário do que acontece noutras obras do género, é fácil ao leitor distinguir a fantasia do fundo histórico. Sendo uma obra de ficção, este livro permite ao leitor enriquecer o seu conhecimento sobre a história da igreja católica e dos vários conflitos com outras religiões ou seitas divergentes.
Por fim, o aspecto mais polémico da obra: a impiedosa crítica da autora à Igreja Católica, ao seu conservadorismo e aos desvios relativamente à doutrina pura do Cristianismo. O enredo situa-se nos últimos tempos do Pontificado de João Paulo II, época conturbada e especialmente propícia aos jogos de interesses e poder que se desenrolam no Vaticano e que Asenci aborda com coragem e desassombro. Por outro lado, os conflitos pessoais dos personagens vão pondo em questão alguns dos dogmas mais teimosamente defendidos pela Igreja, como o celibato e a castidade.
Em suma, um livro sem grandes ambições estilísticas ou de inovação literária mas que funciona como um maravilhoso exercício para usufruir do prazer de ler: leve, corajoso, divertido, interventivo, crítico e, acima de tudo, apaixonante.
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