sábado, 9 de junho de 2012

Os Malaquias - Andréa del Fuego




Os Malaquias é um livro curioso. Com um aspeto gráfico original e atraente, com um formato aparentemente facilitador da leitura (capítulos curtos), depressa, no entanto, nos deixa presos à página, muitas vezes tendo de voltar atrás e reler, tal é a complexidade da escrita. À partida, o enredo é simples e claro. Mas a linguagem de Andrea del Fuego torna-se complexa devido ao excesso de sintetismo. Fica a ideia que autora quis cortar tudo o que fosse excessivo e acabou por nos deixar apenas um esqueleto da estória e pouco mais que isso.
No entanto, comecei este comentário pelo lado menos positivo do livro; porque as suas qualidades superam, a meu ver, em muito, estes eventuais defeitos.
Em primeiro lugar, fico com a sensação de que este livro é uma pedrada no charco da atual literatura brasileira ou mesmo na sua história. Do que me é dado conhecer, encaro a literatura do Brasil como essencialmente urbana. Desde Machado de Assis até à atualidade, os grandes escritores brasileiros afastam-se claramente do mundo rural. É a esse mundo rural que Andrea del Fuego se dirige neste livro; um mundo de pobreza, injustiças e, essencialmente, em conflito com a própria terra. De facto, não há aqui uma ideia de ligação à terra mas sim de afastamento, de conflito. As personagens do livro parecem fugir da terra; estão em constante viagem: depois da morte do casal Malaquias, atingido por um raio, os seus três filhos separam-se. O mais velho é adotado pelo proprietário do latifúndio, o do meio é adotado pelas freiras e ficará anão. A mais nova, Júlia, permanecerá em trânsito; ela simboliza essa fuga permanente que é a vida. No final do livro todos eles procurarão essa fuga; todos enveredarão por uma viagem de que não se conhece o destino mas que parece ser, ela própria, o destino final das personagens.
A vida é vista como uma viagem; “toda a gente que espera vem para o porto”, diz Eneido, o homem da caverna que espera o navio onde todos embarcarão; uma caverna de onde se podem ver as sombras da verdade, como em Platão, mas também a caverna de onde se partirá para a última viagem, que redimirá o mundo.
Voltando ao enquadramento de Del Fuego na literatura brasileira, podemos dizer, com algum arrojo que o seu estilo fará lembrar a linguagem crua e fria de J. Ubaldo Ribeiro em O Farol; no entanto, é dos Buendia de Garcia-Marquez que nos lembramos ao ler este livro, na tradição do realismo fantasioso e encantado da boa literatura sul-americana.
A linguagem de Del Fuego é profundamente poética e simbólica, com uma beleza por vezes arrasadora. Uma linguagem rural, popular e poética, com uma economia de palavras por vezes exagerada: “Nico a viu, e mais nada, o resto da noite…” é uma frase que exprime toda a poesia de um encontro fatal e, ao mesmo tempo, resumida de uma forma extrema.
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