domingo, 2 de agosto de 2015

Pedras Negras - Dias de Melo


Comentário:
Logo depois de ler as primeiras páginas, vem-nos à memória as obras mais conhecidas do neorrealismo português. Recordamos os Gaibéus de Redol ou os Esteiros do Soeiro. Mas à medida que a leitura avança depressa verificamos que há aqui algo mais. Dias de Melo apresenta-nos aqui uma estória linear, contada de forma objetiva e entusiasmante.
Francisco Marroco foi escorraçado pela ilha mas haveria de ser atraído fatalmente por ela. Pelo meio fica o sofrimento na indústria baleeira e um drama intenso na procura da sobrevivência numa América feita de promessas mas também desilusões e injustiças.
Mas por detrás dessa estória há muito mais; há uma intensa reflexão sobre a condição humana.
No magnífico prefácio a esta edição (Varaçor 2008), Luiz Fagundes Duarte atribui a Dias de Melo o mérito de personificar na sua obra o conceito de Açorianidade, criado por Vitorino Nemésio e que é, em parte, sustentado por esta afirmação: “A geografia, para nós, vale outro tanto que a história”. Visão interessante e que este livro reflete na perfeição. Negras são as pedras como as vidas deste povo, condicionado pelo fogo dos vulcões, pela água furiosa dos ciclones, pela seca ou por inundações, pela fúria do mar, enfim por toda a sorte de desvarios da terra e dos elementos. “Somos carne e pedra“, diz Nemésio. Assim é Fernando Marroco que fugiu da miséria para voltar à terra, às pedras negras que haveriam de assistir ao seu fim.
Afirmei acima que havia neste livro algo mais do que neorrealismo; digo isso porque não é só a miséria material que dita a desgraça destes personagens; há aqui algo que provém da própria condição humana: a ambição desmedida de alguns que determina a miséria der muitos, os injustiçados. O que determina a desgraça destas gentes não é só a miséria material: é também uma ingenuidade, uma incapacidade de lutar contra o pior que a alma humana é capaz de criar. O que causa a desgraça do povo, afinal, não é a geografia nem a natureza madrasta; é a injustiça; é a exploração do homem pelo homem. É neste campo que as letras de Dias de Melo nos fazem lembrar, por várias vezes, As Vinhas da Ira.
Em conclusão, estamos perante um livro que envolve uma sensibilidade enorme, uma capacidade para sentir e transmitir o sentimento e sofrimento de um povo. Uma leitura que se faz com prazer devido à enorme capacidade narrativa do autor mas que, no final. Deixa no próprio leitor a dor dos personagens, tal é o realismo com que a história nos é contada. 
Citação:
«Porque é de açorianidade que falamos quando falamos de "Pedras Negras", da açorianidade picarota, que o mesmo é dizer, da alma de uma gente rija que jamais se deixou embrandecer por séculos de "fome, secas, ciclones, fogo de vulcões, terramotos", sobrevividos numa ilha de pedras negras de onde sempre se quis sair (porque "a ilha escorraça a gente"), e a que sempre se quis regressar (porque a ilha chama pela gente).»
Luís Fagundes Duarte

7 comentários:

Carlos Faria disse...

Sim, Dias de Melo é um neorrealista que em vez de falar centrar as suas estórias noshomens da terra, fala muito dos homens do mar, sobretudo da baleação e com a vantagem de ele mesmo ter sido um baleeiro e de ter optado por viver no seio dele e como tal conhecer a realidade dura por dentro, os sentimentos e o linguajar. Este livro que faz com outros dois um tríptico das vivências da Calheta do Nesquim que constroem a obra máxima deste escritor açoriano.

Fernando Évora disse...

Gostei muito de ler esta visão de "Pedras Negras". Por mim, encantei-me com o livro. E é como dizes: um pouco mais do que neorealismo, ou talvez uma forma diferente de Neorealismo. No ano passado fiquei feliz por ter ido à Calheta de Nesquim e, ao passar pelas Lajes do Pico, ter visto que a biblioteca municipal ostentava o nome "Dias de Melo". Dias de Melo, como outros, corre o perigo de ficar esquecido e estas referências vão, de certo mofo, mantendo-o vivo. Para nossa literatura portuguesa actual, que tantos gabam mas que a mim decepciona, é bom ter autores como ele atrás. Isto desde que sejam lembrados e lidos, claro está.

Denise disse...

Olá Manuel

Gostei imenso da tua análise e muito interessada nesta obra, pelo contexto e pela forma como aparentemente é descrita.

Beijinhos e boas leituras

Fernando Évora disse...
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Fernando Évora disse...
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Fernando Évora disse...

Este ano passeei pelo Pico. Fui à Calheta de Nesquim, terra do Dias de Melo. procurei no café se me saberiam dizer alguma coisa, se havia alguma homenagem local ao homem da terra. recomendaram-me que fosse ali atrás, à casa dos botes. Lá fui. Entrei. Na casa dos botes estava um antigo bote baleeiro (à semelhança de outras casas dos botes nestes centros baleeiros), as paredes preenchidas por fotografias de antigos baleeiros. Procurei entusiasmado e lá estava: de cachimbo na mão, Dias de melo, ele que também foi baleeiro. Perguntei à menina por mais coisas sobre o Dias de Melo e a menina foi chamar uma senhora. Estive algum tempo a falar com essa simpática senhora que me apontou onde era a casa de Dias de Melo. Disse-me que Dias de Melo teria querido legar tudo o que tinha à freguesia, mas que havia problemas de partilhas a decorrer. talvez mais tarde, se tudo resolvido nos tribunais, pudessem fazer algo. É que apareciam ali mais pessoas como eu, a procurar por Dias de Melo (o que me deixou feliz); aquele escritor tinha posto os baleeiros e a Calheta de Nesquim no mapa. E assim foi continuando a conversa. Ia-me despedir, talvez passar acolá, lá acima, naquela casa de pedra, bem fechada, que fora a casa de Dias de Melo. E então lá veio uma revelação importante: é que, compreenderia eu, Dias de melo era comunista, e aquilo ali caía mal. "Bem vê, era como uma maçã num cesto de laranjas". Um incómodo o grande homem da terra ser comunista, mas ter amado os seus conterrâneos. Enfim, que se tirem as conclusões. (a propósito: li este verão "Mar pela proa". Gostei mais dele do que de "Pedras negras", lembrou-me imenso Steinbeck (imediatamente o "Batalha incerta"). Deixo-o (ou deixo-os, para acrescentar à lista do patrão do blogue.

Manuel Cardoso disse...

Obrigado, Fernando, por este teu testemunho! Gostei tanto do teu texto que até te perdoo teres me chamado "patrão" :)
Eu bem que desconfiava que Dias de Melo fosse comunista. Eu nem vou falar das conclusões que tiro do facto de ele, embora comunista, ter defendido com unhas e dentes os seus conterrâneos e ainda por cima em tempo de ditadura. Mas comento, sim: faz-me lembrar o texto, não sei se conheces, de Pablo Neruda sobre os comunistas.
Mas a realidade que eu conheço contradiz totalmente essa visão tacanha do comunista. Não sei se é sorte minha mas até hoje ainda não encontrei um comunista que não fosse boa pessoa. E Dias de Melo era, tenho a certeza, uma excelente pessoa.