domingo, 11 de outubro de 2009

Miguel Sousa Tavares - Equador

Romance histórico, devaneio de jornalista, novela ou romance clássico? Pouco interessa a definição. Equador é uma obra onde o estilo jornalístico do autor vem ao de cima, nas suas descrições pormenorizadas, quase cinematográficas e às vezes fastidiosas. De facto, o estilo pouco inovador de M. Sousa Tavares é contrabalançado, nesta obra, pela facilidade de expressão, por uma linguagem desprovida de reflexões ou considerações filosóficas, o que torna a leitura fácil e fluida.
Não se trata, portanto, de uma obra de grande fôlego literário nem era isso que pretendia o autor. Fica a ideia que a intenção primordial era prender o leitor, no bom estilo do romance realista. A emoção que nos leva a ler “só mais uma página” antes de devolver o livro à mesa de cabeceira está presente até ao final, com um desfecho  que tem tanto de inesperado como de inquietante. Mas durante as mais de quinhentas páginas deste volume o leitor é permanentemente presenteado com acontecimentos inesperados e intrigas bem próprias de um ambiente onde Luís Bernardo procura sobreviver num autêntico campo de batalha onde se confrontavam valores e interesses.
Luís Bernardo foi nomeado (pelo rei D. Carlos) Governador de S. Tomé e Príncipe numa altura em que os ingleses reclamavam a existência de trabalho escravo, aparentemente com o objectivo de combater a concorrência portuguesa em África. Cabia ao novo governador defender os interesses nacionais perante os ingleses e, ao mesmo tempo, zelar para que o trabalho escravo fosse de facto banido. Nessa missão ele confrontar-se-á com o poder dos roceiros, os donos das fazendas, com mentalidade tradicional. Mas o maior desafio será a forma como o nosso herói se irá debater com princípios tão contraditórios como o seu humanismo natural na defesa da pessoa humana perante o interesse económico que justificava a escravatura. Por outro lado, era preciso cumprir a aliança com Inglaterra, manter relações amistosas com o nosso grande concorrente e, ao mesmo tempo, a necessidade de fazer prevalecer o interesse da Nação e, dessa forma, a necessidade de defender os colonizadores portugueses.
A montante da história de Luís Bernardo, das intrigas políticas, dos assuntos de saias e de um romance que fica mais ou menos entre o cor de rosa e o dramalhão, há um pano de fundo histórico que o autor estudou meticulosamente e do qual nos dá conta no bom estilo de manual de História do ensino secundário; a importância que as colónias ainda tinham no início do século XX, a problemática aliança inglesa e o agonizar do regime monárquico estão retratados neste livro de uma forma clara e fiel.
No final fica a sensação de termos percorrido 520 páginas sem grandes ideias originais, sem grandes contributos para a inovação literária, mas um pouco mais conscientes dos grandes dilemas da história contemporânea portuguesa, para além de um entretenimento que o livro, de facto, fornece.
Alguém afirmou que as grandes ideias não devem vir dos escritores mas sim dos filósofos. De facto, M. Sousa Tavares nada tem de filósofo, mas muito tem de contador de histórias e de analista político. De facto, os grandes problemas da política portuguesa prevalecem em toda a história contemporânea de Portugal: o caciquismo, a subjugação dos interesses nacionais a interesses particulares, a submissão aos ingleses e, latu sensu, a interesses externos, o compadrio são fenómenos que percorrem sem grandes dificuldades os últimos cem anos da História de Portugal. Estes problemas, coisas que colocam a política na fronteira da diplomacia com a hipocrisia, chocam de frente com o idealismo de Luís Bernardo, um homem bom e justo que, inevitavelmente, vai chocar de frente com essa hipocrisia. David, o inglês, pelo contrário, é o homem político por natureza: adaptável, maleável, capaz de suportar traições e contradições em nome da conveniência política.
Pena é que, por vezes (e isto apenas como nota de rodapé) deixe o seu estilo jornalístico cair em imprecisões de linguagem, sendo o exemplo mais flagrante o uso irritante do verbo “realizar” como sinónimo de “compreender”. Trata-se de um anglicanismo que talvez seja mais um testemunho da submissão lusa às coisas de Sua Majestade Britânica.
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