terça-feira, 6 de outubro de 2009

Luis Novais - Quando o Sol se põe em Machu Pichu

Na sua primeira incursão pela escrita, Luís Novais conduz-nos ao ambiente místico do Império Inca, fornecendo-nos um testemunho da actualidade dessa cultura dita perdida. Vários personagens, provenientes de diversas partes do mundo, completam nas montanhas do Peru rotas de vidas que se cruzam num ponto de intersecção: um convite misterioso para uma viagem a Machu Pichu.
Trata-se de homens e mulheres comuns que um ser maior terá escolhido para a viagem. Todos excepto um (Jonathan) sofrem de um dos piores, talvez o pior mal que pode atingir um ser humano: a ausência do sonho. É à procura desse sonho que eles vão. De Paris, Berlim, Jerusalém, Nova Iorque, eles trazem sonhos perdidos e o desencanto perante um mundo onde parece ter desaparecido o sentido de humanidade. A Europa não interessa aos europeus; Israel não é a Terra Prometida porque o sonho não se cumpriu; Nova Iorque já não é a terra dos sonhos realizados… Todos procuram no terreno sagrado dos Incas o sonho que as suas vidas matara.
Este livro envolve também uma mensagem de descrença perante o mundo que construímos; um mundo que continua a ser colonialista, quinhentos anos depois de Colombo, substituindo os Pizarros de outrora por paradigmas mais ou menos interesseiros, como o frio e implacável capitalismo liberal. O indivíduo submerge sob a pressão desses paradigmas, muitas vezes escondidos sob a capa de um patriotismo cultivado pelo poder político e económico. Só o individualismo, o culto do ser humano enquanto ser livre e autónomo poderá dar à humanidade a capacidade de sonhar, indispensável para uma vida feliz e equilibrada.
Por outro lado, persiste a predisposição dos povos para a desunião; talvez a América do Sul seja o último reduto de um povo com a consciência da sua unidade cultural. E talvez o espírito de Machu Pichu continue a pairar sobre a humanidade como o ultimo reduto da redenção.
Luís Novais, no seu já inconfundível estilo de frases curtas (que António Pedro Vasconcelos – com evidente e infeliz exagero - diz representar a “geração SMS”) presenteia-nos com uma obra onde o misticismo Inca se mescla com uma visão ao mesmo tempo cosmopolita e individualista da humanidade; aparentemente estamos perante uma contradição filosófica. No entanto, a impressão que me fica do pensamento do autor é esta: a humanidade só poderá ser livre cultivando o ser individual e a soma dessas liberdades resultará num todo em que deixarão de fazer sentido quaisquer formas de dominação ou exploração do homem pelo homem. Só o sonho poderá manter viva a chama deste desejo de libertação; e esse sonho persiste nas misteriosas montanhas do Peru. Inca, de facto, está vivo.
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