domingo, 28 de novembro de 2010

Loucura Azul - Paulo Alexandre e Castro

Loucura Azul é um livro surpreendente, uma espécie de aparição, num tempo em que as editoras apostam em literatura fantástica ou de cordel. Sem deixar de contar um estória com emoção e mistério, que prende o leitor até ao final, o autor leva-nos a reflectir sobre questões que avassalam a alma humana.
Tudo se desenrola em torno de um pintor em dificuldades, Maurizio, que se apaixona por uma professora universitária, Sylviane. Juntos experimentam uma intrigante história, em busca de compreensão da natureza humana.
O corpo está sempre no centro da vida; da experiência quotidiana às situações aparentemente mais bizarras, a viagem envolve prostitutas de rua, linhas eróticas, sex-shops, pensões sujas de encontros ocasionais, etc. Tudo o que possamos apelidar de sub-mundo do sexo não é mais que o campo de batalha onde se desenrola a luta entre a vida e a loucura.
“Quero viver tudo”, afirma Sylviane. Mas… até que ponto é possível “viver tudo” sem colocar em causa esse último reduto de segurança, onde vive o amor, essa reserva, esse refúgio?
Com Vladimir, o pretenso espião russo que cai aos trambolhões na vida de Maurizio e Sylviane, atinge-se o auge da loucura. Mas os corpos do prazer são também os corpos que matam e morrem; o amor e o ódio; o prazer e a violência; o orgasmo e a morte; loucura azul e loucura vermelha… Impossível compreender. Extremos que se tocam mas permanecem: as contradições resistem sempre. Torturam Maurizio. Torturam-nos. “Se ao menos a filosofia fosse descartável”, diz Mauirizio; se ao menos pudéssemos não pensar, seguir em frente sem compreender… “se ao menos eu conseguisse amar-te sem te ter…” se ao menos a vida pudesse ser só a vida…
Perante o cadáver de Vladimir, explana-se o horror da loucura vermelha: a beleza do cadáver; a “beleza do horror, sangue e húmus da vida”.
A mente de Maurizio, cada vez mais alucinada vai-se afastando da realidade, criando um mundo paralelo onde os pesadelos se confundem com o real; a fronteira do irreal torna-se cada vez mais ténue.
Este livro é um constante desafio aos limites: limites do corpo e da alma; do prazer e do sofrimento, do amor e da morte. Mas por mais eloquentes que sejam as construções teóricas, o corpo permanecerá. A loucura azul dará lugar ao vermelho, talvez vermelho de paixão desmedida ou, fatalmente, de sangue, vermelho-forte de Marte, o cruel Deus da guerra.
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