domingo, 2 de janeiro de 2011

O Elefante Evapora-se - Haruki Murakami

Trata-se de um livro de contos, escrito por Murakami entre o início dos anos 80 e 1999. Não sou propriamente um apreciador de contos, pelo que este livro não me deleitou tanto como outras obras deste admirável escritor. Mas tratando-se, alguns deles, de obras do seu início de carreira eles são importantes para compreender a influência que Kafka teve, sem dúvida, no seu percurso literário. Fazendo lembrar A Metamorfose, alguns destes contos revelam uma admirável mistura de fantasia e realidade que se tornou uma das “imagens de marca” de Murakami.
O impossível que acontece, o ilógico que se torna óbvio, o absurdo que povoa o quotidiano. Misticismo, mistérios, absurdos, assim se faz o dia a dia do comum dos mortais. Ao fim e ao cabo, é quase impossível definir onde acaba o real e começa o imaginário; na literatura como na vida de cada um de nós. Surreal é sem dúvida a palavra-chave para definir a escrita de Murakami.
No mais brilhante e significativo destes contos (Sono, escrito em 1993), Murakami explora o outro lado, o lado negro, da rotina e da ausência de liberdade. O pesadelo da mulher de meia-idade, fundada na rotina, é o grito desesperado do prisioneiro, da mulher-autómato, atormentada pela solidão. Ao ler Anna Karenina e comendo chocolate (que lhe fora proibido pelo marido), ela empreende uma fuga pelo sonho. Neste conto, Murakami coloca em paralelo a necessidade de dormir com a rotina insustentável da vida. Dormimos como quem morre 8 horas por dia. Todos os dias, rotineiramente. Assim, a insónia é vista como libertação. No entanto, parece haver sempre um preço muito elevado a pagar pela liberdade, como o que teve de pagar o jovem quem fabricava elefantes…
Raros são os escritores que combinam tão eficazmente o real com o imaginário. Murakami fá-lo com um toque de bom-humor que torna a sua escrita tão simples e bela. No entanto, este formato (contos) impede uma linha de pensamento, uma mensagem, que nos habituamos a ler nos livros de Murakami. Daí que este livro não me tenha entusiasmado tanto como qualquer outro deste genial escritor japonês.
Avaliação pessoal: 8/10

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