domingo, 10 de abril de 2016

O Músico Cego - Vladimir Korolenko

Comentário:
Korolenko talvez seja, depois de Gogol, o nome maior da literatura ucraniana do século XIX, embora na época a sua nacionalidade fosse russa já que a Ucrânia pertencia ao Império Russo. Mas é na literatura russa que Korolenko vai buscar as suas influências. *a data da publicação de O Músico Cego (1886) já Dostoievski havia publicado todos os seus livros, pelo que é natural alguma influência por parte do grande mestre russo. Na verdade, este livro faz lembrar a escrita de Fiodor na profundidade da análise psicológica e mental dos personagens, principalmente de Piotr, o músico. Por outro lado é incrível como Korolenko revela uma sensibilidade profunda para compreender a mentalidade do cego. As suas sensações, a sua relação com a natureza, o uso delicado dos sentidos dão-nos conta da beleza com que o autor dá conta da forma como Piotr interage com o meio que o rodeia.
Ao nível do estilo, este Músico Cego oferece-nos uma deliciosa mistura entre o romantismo e o realismo; com descrições cuidadas e uma ênfase especial nos grupos sociais a que pertencem os diferentes personagens, ele é sem dúvida realista, mas nos seus devaneios bucólicos, na forma como a natureza quase faz espalhar o seu perfume pelas páginas do livro, ele é romântico. Seja como for, os grandes mestres não têm de se encaixar em estilo nenhum e Korolenko foi sempre um escritor autónomo, pouco dado a “carimbos” como o mostra a sua relação com o poder: de início simpatizante das ideias revolucionárias, não se deixou encaminhar por elas quando viu que a sua aplicação prática, na revolução de 1917, não teve o resultado que desejava.
Em suma, trata-se de um livro com um enredo muito cativante, em que a saga do jovem cego nos é contada com acentuada sensibilidade humana e escrito numa linguagem clara, realista, mas muitas vezes poética. Um livro belo e singelo, sem dúvida que se recomenda a quem se quer iniciar na grande literatura russa. Excelente tradução nesta edição  Estrofes & Versos.

Sinopse:
A parteira não ouvia no grito do bebé nada de especial e, vendo que a jovem mãe falava como que em sonho, pelos vistos a delirar, afastou-se dela e pôs-se a tratar da criança. A jovem mãe calou-se, e apenas de vez em quando um penoso sofrimento, incapaz de prorromper em forma de movimento ou palavra, espremia dos seus olhos as lágrimas em bágoas. Corriam silenciosamente através das espessas pestanas pelas faces brancas como mármore. Talvez o coração da mãe sentisse que, juntamente com o recém-nascido, viera ao mundo uma desgraça negra e desesperada que pendia por cima do berço para acompanhar a nova vida até ao túmulo. De resto, talvez fosse mesmo delírio. Fosse como fosse, a criança nasceu cega.
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